Fama.

4 A Proposta


Rio de Janeiro, 2017.

— Diana, liga pros meus advogados, liga pra todo mundo agora! — entrou Beatriz gritando no escritório de sua casa, onde estava a sua agente, Diana.

— o que houve? — Diana ficou assustada ao ver Beatriz transtornada.

— aquela imunda da Marcela escreveu uma nota no site dela sobre mim me destruindo, abre aí.

Diana, que estava sentada em frente ao computador, abriu o blog da jornalista Marcela, muito famosa em todo o país por dedicar-se a contar fofocas sobre famosos. Ela tinha contatos dentro das maiores redes de televisão do país e sempre conseguia informações que os famosos tentavam esconder a todo custo.

[] tendo alcançado o topo de sua carreira a 10 anos atrás quando morava no EUA e ganhou vários prêmios internacionais, fazendo no cinema o filme cujo papel no teatro ela perdeu, Beatriz Herman logo voltou ao Brasil e nunca mais conseguiu êxito. Ela faz vários papeis em novelas, mas nunca mais conseguiu ser protagonista, parece até que ela tem algum inimigo dentro da televisão que a contratou, pois ela nunca mais conseguiu nenhum protagonismo, ela agora está fadada a ser a melhor amiga, e nunca mais a noiva das novelas […] a profecia Hollywoodiana diz que quando se ganha um óscar, se chega no topo, porém Beatriz conseguiu chegar no topo sendo apenas indicada a um e agora decaiu, uma pena, pois Beatriz é uma ótima atriz. Quem sabe um dia eu consiga realizar meu sonho de escrever uma biografia sobre ela para poder relatar a rivalidade histórica entre ela e Marília Vieira, outra atriz maravilhosa, aliás, agora ex-atriz e hoje empresária e diretora […] as duas se odeiam desde sempre, mesmo que neguem o fato, mas todos sabem que a rivalidade das duas começou quando Marília ficou com o papel que, anos mais tarde, faria de Beatriz uma estrela internacional [...]”

— Beatriz eu entendo que esteja com ódio, mas ela não falou nada demais, a gente não vai conseguir montar um caso contra essa mau-caráter — disse Diana tentando acalmar a cliente.

— eu quero proibir essa infeliz de falar meu nome, eu quero arrancar uma fortuna dessa infeliz toda vez que ela pensa em mim! — Beatriz nutria uma raiva profunda por Marcela – o motivo pelo qual a minha carreira vai tão mal é por causa de gente infeliz como essa daí metida a repórter que eu não consigo mais papéis na televisão. Por falar em televisão, alguma proposta esse mês? Já tem meses que a última novela acabou e nada ainda.

— então, veio uma proposta sim, o papel é a mãe da antagonista. Muito bem elaborado pelo que pude ler sabe, ela é uma mulher de personalidade fortíssima que tem vários conflitos com a filha – respondeu Diana.

— duas perguntas Diana, na primeira semana a personagem aparece na tela e quem é a atriz que fará a filha.

— bom, na primeira semana são três cenas e a atriz é a Giovanna Antonelli.

— Giovanna Antonelli, minha filha? Meu Deus, a dois anos atrás fazíamos irmãs, eu não sou nem dez anos mais velha que ela e querem me colocar como mãe dela! Isso é ridículo, esse preconceito com a idade das mulheres é simplesmente ridículo.

— mas a Giovanna é uma ótima atriz – rebateu Diana.

— sim, ela é maravilhosa, já trabalhei com ela e foi impecável, mas eu só poderia ser mãe dela se eu tivesse parido com 8 anos! Isso é ridículo, esse preconceito com mulheres, como se já não bastasse o sexismo ainda temos que lidar com esse tipo de porcaria toda, mulheres são proibidas de envelhecer a menos que queiram morrer de fome – ela pegou o roteiro que havia em cima da mesa e foleou – manda eles a merda e diz pra só falarem comigo novamente quando quiserem uma estrela premiada internacionalmente protagonizando uma novela deles.

Beatriz acendeu um cigarro e sentou-se em poltrona que havia no canto da sala e ligou a televisão e estava passando o programa de Clarissa.

Depois de anos como produtora e frequentando as altas rodas da sociedade e com as ações da televisão que ela comprou ela tornou-se apresentadora de um renomado programa matinal, ela tinha muitos fãs, era amada pelo povo.

— credo, que perda de tempo – disse Beatriz, desligando a televisão.

Beatriz e Diana tinham uma relação ótima, elas eram amigas a anos desde que Beatriz havia voltado para o Brasil. Diana era a fã número um de Beatriz e a cercou até que conseguiu o emprego como sua agente e as duas construíram uma relação de amizade ótima, Beatriz gostava muito de Diana.

Após o almoço, Beatriz estava sentada na sala de inverno, como ela costumava chamar. Era um canto em sua sala de estar cujas paredes eram formadas por vidraças enormes. Beatriz gostava de sentar-se ali para decorar seus textos, porém ultimamente ela sentava-se ali apenas para fumar.

— dona Beatriz, tem uma moça aqui pedindo pra falar com você – disse a empregada.

— quem é?

— Marília Vieira.

— você está tirando sarro da minha cara? — perguntou Beatriz – você só pode estar tirando sarro da minha cara. Você disse que estou em casa?

— sim, eu disse que ia ver se a senhora pode recebê-la, mas ela me disse que tem uma proposta a fazer pra senhora.

— mande ela entrar.

Beatriz levantou-se de sua poltrona e parou olhando para a porta da sala, esperando que ela entrasse. Quando ela o fez, Beatriz acendeu um cigarro.

— Marilaine da Silva, a que devo a honra de uma visita da ilustre diretora? — ela deu um longa tragada em seu cigarro e olhou para Marília com um olhar de predadora.

— meu Deus, eu mudei meu nome a tanto tempo que nem sei mais quem é Marilaine – ela abriu a bolsa e também pegou um cigarro – eu vim ver como está a minha antiga amiga?

— estou ótima e cada vez mais rica, obrigada pela preocupação, mas não espere que eu me interesse por você.

— eu sempre amei essa sua sinceridade. Me convida pra sentar?

Beatriz estendeu o braço em direção ao sofá, mostrando que ela poderia sentar-se ali.

— podemos ir direto ao assunto?

— claro Beatriz, vamos lá. Você deve saber que após a morte do Renato, a Clarissa passou a produtora para o meu nome e nós entramos no ramo da produção audiovisual também, fizemos algum filme e produzimos algumas séries que vendemos para alguns canais…

— filmes é, quais? Não ouvi falar de nenhum – interrompeu Beatriz.

— vou direto ao ponto Beatriz, o teatro nesse país está em decadência, eu e você estamos ficando velhas demais para a TV então se não quisermos morrer de fome, temos que fazer algo, e logo. A minha proposta é, eu vou investir todo o dinheiro que tenho em um filme e nós duas vamos estrelá-lo e transformar num sucesso tão absurdo que todas as pessoas desse país vão se lembrar do nossos nomes, eu e você vamos voltar ao topo que estávamos a dez anos atrás.

— o topo que eu estava você quer dizer. Dez anos eu ganhava um globo de ouro e uma indicação ao óscar e você dava um golpe do baú, digo, herdava a empresa.

— a tenha dó Beatriz, eu fiquei com Eliza em uma turnê brasileira que foi sucesso só aqui, você foi indicada a um óscar quando pegou o pale de Eliza, você precisa superar.

— eu superei o fato de ter perdido o papel o que eu não supero é o modo como eu perdi, as armas que você usou.

— além do seu salário, você vai ficar com uma porcentagem dos lucros da distribuição, claro.

— e eu quero liberdade criativa para compôr a personagem – foi a imposição de Beatriz.

Liberdade Criativa, as palavras que faziam qualquer produtor executivo, roteirista e diretor de uma produção ficar com medo, ainda mais se o ator tivesse uma personalidade forte, o que era totalmente o caso de Beatriz. Liberdade criativa quer dizer que o ator tem permissão total para fazer alterações necessárias no roteiro para que a construção do personagem não seja prejudicada. Mas Marília precisava disso, ela precisava que esse filme fosse um sucesso e sabia o hype que seria ter duas inimigas de longa data trabalhando juntas, seria o assunto do ano e quando o filme fosse lançado a propaganda boca a boca já seria tão grande que todos correriam para os cinemas ver o filme e como elas era duas maravilhosas atrizes, a crítica e o público amaria.

Depois de alguns segundos ponderando e uma longa tragada, Marília respondeu.

— fechado.

Beatriz conseguia ver o desespero nos olhos de Marília, e isso a deixava feliz.

— e qual é o filme? — perguntou Beatriz.

Marília pegou um encadernado que havia em sua bolsa, cuja primeira página era toda branca, havia apenas escrito o título do roteiro. Quando Beatriz o leu, ela deu uma gargalhada alta.

— não poderia ter escolhido uma obra melhor pra nós duas — ela deu mais uma tragada em seu cigarro.

— pois é, é perfeito – respondeu Marília.

O título era “Deus da Carnificina, uma adaptação da obra de Yasmina Reza”.

*

— você não deveria ter aceitado sem falar comigo Beatriz, eu sou sua agente – disse Diana – você acha que dá conta do estresse que será trabalhar com a Maríalia?

— eu pensei nisso tudo, pode ter certeza que a hora que vi aquela maldita entrar por aquela porta eu já imaginei o que seria, mas com a liberdade criativa permitida a mim fazer da vida dela um inferno se ela não dançar conforme a minha música e Diana, eu vou uma ótima atriz, uma das melhores dessa país, eu sou uma atriz do método, eu vou entrar na personagem e acabar com ela.

— mas eu não sei do que se trata a história, o que é? — perguntou Diana.

— você nunca viu o filme do Polanski? Assista, é ótimo! — Beatriz acendeu outro cigarro – bom, trata-se de dois casais cujos filhos brigaram na escola e eles resolvem encontrarem-se na casa de um dos casais para conversar sobre como resolveram essa situação, porém os ânimos começam a se exaltar e terminam bêbados e se matando dentro do apartamento, é maravilhoso e as quatro personagens são opostos um ao outro, principalmente as mulheres o que vai ser maravilhoso, eu vou ganhar dinheiro pra xingar a Marilaine – ela deu um sorriso debochado e tragou seu cigarro – Marilaine que porcaria de nome é esse?

— imagino eu que uma seja uma donzela em perigo e uma seja uma megera? — perguntou Diana.

— quase isso, as personagens são Nancy e Penelope, Nancy é uma noiva conciliadora, aquela que quer revolver tudo na conversa, mas sabe se impôr quando precisa e a Penelope é a esposa controladora e perfeccionista que, dependendo do roteirista, ela pode ser pintada como a vilã e se conheço bem a Marilaine, ela vai pintar a Penelope como um demônio e vai jogar o papel sobre mim, mas eis que aí entra a minha liberdade criativa – Beatriz deu uma longa tragada e um sorriso – desde o primeiro dia eu vou mostrar pra ela quem é que manda.