Falso
6 A menina qual não sei o nome.
Notas iniciais
A porta da casa se fechou, a do sótão continuava aberta.
A luz das estrelas iluminavam os vultos dos diversos objetos naquele lugar, a fraca brisa da noite invadia o lugar e o cheiro da noite era muito agradável.
Minha mão repousava sobre aquela fraca flor e a mão de Jude sobre a minha.
Virei a cabeça lentamente para a boneca, ela estava encarando o chão.
– O que foi? – perguntei, curioso.
– Eles... – Ela engoliu a seco – eles são tão crianças... Fiquei com medo deles nos quebrarem...
Eu ri, aquela expressão em seu rosto dizia que era sério, mas eu não queria que ela se sentisse insegura como eu.
– Você tem medo de ser quebrada? – rindo, menti – Somos bonecos, isso é normal. Não faz mal estar um pouco quebrado.
– Não acho... – Ela aproximou a mão lentamente do meu rosto e retirou aquele pano que Victor havia colocado – Acho que todos os bonecos quebrados deveriam ser concertados, principalmente você.
E mais uma vez, eu não pude falar por causa daquela boneca.
Ela desceu da caixa com cuidado, escorregando lentamente para o chão.
– Então, vamos! – Ela me lançou um sorriso.
– Para onde? –Eu escorreguei do mesmo jeito.
– Conhecer a casa, é claro – Eu só via vultos cinzas naquela escuridão, mas era uma oportunidade única.
Quem garantia que a porta estaria aberta na manhã seguinte?
Descemos as escadas, a madeira rangia aos nossos pés de porcelana.
A casa estava corroída, empoeirada e acabada. O corredor estava vazio, escuro, com um cheiro muito forte de mofo, a madeira do chão continuava rangendo aos nossos pés.
Andamos em direção a uma grande cortina vermelha rasgada e empoeirada logo a frente.
Imaginamos que sairíamos da casa se passássemos por ela, porém, encontramos uma coisa diferente do que do lado de fora.
Haviam bonecas.
Tantas que eu não consegui contar.
Eram de pano, de plastico e de porcelana, todas velhas, porém de uma beleza que somente as bonecas tem.
Muitas estavam rasgadas, muitas estavam estragadas, muitas estavam partidas.
Bonecas bobas, bonecas sem alma, bonecas de mentira.
Jude olhava aquilo com certa pena, mas nada surpresa, ela já deveria estar acostumada a aquelas bonecas.
– O tempo é cruel, não acha? – ela suspirou e caminhou em direção a uma prateleira, a escalando.
– Você não tem medo de cair e quebrar? – falei a observando subir o armário de madeira, roído e frágil.
– Se eu quebrar, a culpa será só minha. – ela olhou para trás e me deu um sorriso, continuando a subir.
Ela chegou ao topo e abriu caminho entre as bonecas rasgadas, procurando algo.
– Hugo, achei! – ela sorriu de cima do armário, descendo cuidadosamente os degraus com um um tipo de caixa muito fina embaixo do braço.
– Achou o que? – perguntei interessado.
– Essa foto – ela estendeu a caixa pra mim.
Abri a caixa, dentro dela havia um porta-retratos.
Aquela foto. Eu a reconheceria mesmo se eu estivesse morto. Os cabelos ruivos, os olhos castanhos e as três manchas no pescoço como as minhas.
Aquela menina, aquela que eu nunca soube o nome.
Aquela menina, a quem devo minha alma.
Aquela menina, que já não mais brinca.
Aquela menina, que a foto do porta retratos me fez lembrar.
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