Falso
7 Family portrait
Notas iniciais
Eu não queria relembrar aquilo de novo.
Mesmo que por um momento, eu me permiti tirar minha máscara na frente daquela boneca ruiva.
Rasguei aquela foto, rasguei aquela lembrança
– Jude, não me lembre disso de novo. – Eu não queria a deixar com aquela expressão, mas eu não poderia mentir pra sempre.
Aquela expressão.
Eu já a havia visto no espelho, aquilo tinha diversos significados.
Todos eles diziam que eu havia errado ao fazer aquilo.
Eu não me sentia confortável ao encara-la naquele estado, eu não iria me desculpar.
Eu não queria deixa-la pensar que a culpa foi dela, mas não queria pensar que a culpa foi minha.
– Desculpa... – Ela se desculpou, sua expressão mudou drasticamente, agora ela parecia triste e arrependida — Eu não imaginava que isso faria você ficar triste.
Aquela boneca era confusa, mais confusa do que eu.
Eu ri de sua expressão inesperada, forçando-me a fazer parecer que estava tudo bem
– Tudo bem, não quero que você fique triste por isso nem nada, é só uma foto, afinal — sorri, tentando quebrar o clima triste.
– Vamos voltar para o porão? Eu não gosto daqui... — Jude falou, observando as bonecas.
Aceitei e subimos, aquela casa realmente cheirava a mofo.
Ela escalou a janela do sótão e se pos a observar o céu, cantando alguma música em um tom melancólico.
– Tom, he was a piper son
He learnt to play when he was youn
And all the tune that he could play
Was ‘over the hills and so far away’
Over the hills and a great way off
The wind shall blow my top-knot off...
Ela continuou repetindo “Over the hills and so far away” por vários minutos.
Me aproximei dela, pensando em como pedir pra parar, pois de algum jeito, aquilo me incomodava, como se a canção repuxasse alguns sentimentos ruins de dentro de mim.
Tropecei em algo, caindo com as mãos no chão. Jude desceu da janela e me ajudou a levantar, perguntando se estava tudo bem.
– Sim, está... O que é isso? — Peguei o objeto do chão. Era um diário, quase do meu tamanho. Comparado aos garotos, era um diário pequeno.
Jude o colocou no chão e o abriu, como já estava amanhecendo, ela conseguiu ver o que estava lá.
Pareciam desenhos em linhas retas.
– É o diário do Victor — afirmou, folheando.
– Você sabe ler? — perguntei, tentando entender os desenhos.
– Minha dona me levava para a escola... Eu acabei aprendendo.
Ela escolheu uma página e começou a ler.
– Dia 1/5/1885
Hoje, meus pais brigaram de novo...
Mamãe gritou que não amava mais o papai, ela estava fazendo muita força pra não chorar, papai xingou ela de nomes muito feios e saiu pra beber de novo. Jhon saiu de casa atrás do papai e me escondi em baixo da cama.
Dia 2/5/1885
Papai bateu na mamãe hoje, disse que ela precisava ganhar juízo.
Eu disse que ela não disse aquilo ontem por mal, mas ele me bateu por me meter na briga deles.
Papai saiu de novo, eu só queria poder dizer pra ele que eu o amo.
Dia 3/5/1885
Jhon me chamou pra sair hoje, foi o primeiro dia que eu fiquei na rua o dia inteiro.
Conheci os amigos dele, eles parecem ser legais. Ficamos até muito tarde andando por ai.
Mamãe brigou com a gente quando chegamos em casa, papai não estava lá.
Jhon me deu uns doces e disse que era melhor eu ir dormir.
Dia 4/5/1885
Papai estava no chão da sala quando eu acordei hoje. Mamãe estava no sofá chorando, ela tentou disfarçar quando me viu.
Sai com Jhon de novo, os amigos dele brincaram de corrida comigo, mas eu perdi.
Chegamos em casa muito tarde de novo, papai bateu em nós dois.
Eles brigaram de novo.
Dia 6/5/1885
Minha mãe falou que papai não vai mais voltar.
Eu não acredito, mas ela fez eu e Jhon ficarmos em casa. Ela disse que Jhon terá que trabalhar.
Ela se escondeu na cozinha, mas eu a ouvi chorando.
Decidi fazer uma carta pro papai para quando ele voltar.
“Papai
Faça a mamãe parar de chorar, pois eu preciso de você aqui... A mamãe te ama, mesmo que ela negue, ela ama. Eu sei que ela te magoa, mas se lembre eu te amo também.
Pai, por favor, não vá embora.”
Dia 7/5/1885
Papai voltou, leu o meu bilhete e acariciou minha cabeça.
Ele conversou com a minha mãe, disse que até ele conseguir uma casa, nós ficaríamos com ela, depois, ele iria me levar para morar com ele.
Minha mãe começou a chorar de novo, Jhon segurou meu braço e me arrastou para a rua. Andamos muito e nos divertimos bastante, ele parecia muito mais feliz do que antes.
Dia 8/5/1885
Voltamos mais tarde do que nunca, Jhon chegou em casa e dormiu logo, eu fui perambular pela casa.
Achei um báu velho, o abri e achei uma foto da família, eu ainda era um bebê.
Papai e mamãe estavam abraçados e sorrindo, eles pareciam tão felizes.
Queria entrar na foto e viver ali, não quero que o papai vá embora, não quero me separar da mamãe e do Jhon...
Ela fechou o diário, dizendo em voz triste:
– Acaba aqui.
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