Falling Skies - Ben Mason, When Oddities Match
9 The Bottle
Notas iniciais
Holiday (Green Day)
"Hear the sound of the falling rain
Coming down like an Armageddon flame
The shame, the ones who died without a name
Hear the dogs howling out of key
To a hymn called 'faith and misery'
And bleed, the company lost the war today
I beg to dream and differ from the hollow lies
This is the dawning of the rest of our lives
This is out life on Holiday"
Feriado (Green Day)
"Ouça o som da chuva caindo
Caindo como uma praga do armagedom
A vergonha, dos que morreram sem um nome
Ouça os cães uivando fora do tom
Para um hino chamado 'Fé e Miséria'
E sangrando, A companhia perdeu a guerra hoje
Eu imploro para sonhar e discordar das mentiras vazias
Esse é o amanhecer do resto das nossas vidas
No feriado"
Eu tinha um motivo para estar ali com dois. Não um motivo muito bom, mas ainda assim era um motivo. Eu, Missi e Ben não nos falávamos desde que tínhamos saído da base da 2nd Mass. Não tínhamos encontrado nenhuma patrulha alien e nem algum grupo de sobreviventes. Os únicos momentos em que nos falávamos eram quando precisávamos. A situação era tensa. Missi não queria falar por que preferia reler seu livro pela terceira vez. Ben não falava por que preferia ficar trancado em si mesmo. Eu, bem, eu não falava por que não havia nada a ser dito.
–Essas ervilhas estão muito bem temperadas — eu falei tentando puxar assunto durante o jantar
Estávamos sentados ao redor de uma fogueira simbólica, ela não estava acesa de verdade, ficara acesa apenas por cinco minutos para podermos esquentar a comida enlatada sem atrair ninguém e nenhuma patrulha. Estávamos a três dias na estrada e não falávamos nada.
–É — falou Missi — o sabor está excelente
–Não sou fã de ervilhas — disse Ben comendo mais uma colherada de sua lata
–Podia ter comido sardinha — eu falei com as costas caídas
–É, eu podia — ele resmungou focado na ervilha que teimava em cair de sua colher
Depois disso o silêncio reinou e eu me odiei por não ter coragem para falar algo mais. Comi mais uma colher de ervilhas e então virei o pote na boca, amassando-o em seguida e o arremessando na mata. Mastiguei em silencio enquanto Ben e Missi me olhavam surpresos.
–E então — falei com a boca ainda um pouco cheia — por que vocês tem esses nomes?
–Quer dizer nossos nomes? — perguntou Missi com o livro aberto encima das pernas com a lata de ervilhas na mão
–Sim — falei com um sorriso levemente psicopata — tenho que saber com quem estou trabalhando, certo?
Eles se entreolharam discretamente e então olharam para mim
–Meu pai era professor de história e gostava de Benjamin Franklin — falou Ben deixando sua lata de ervilhas no chão.
–Nasci à beira do rio Mississipi — falou Missi fechando o livro.
Ben franziu as sobrancelhas com o que ela disse mas ficou calado.
–E o seu nome? — perguntou a loira
–Erro de pronúncia do nome Mia pelos meus irmãos mais velhos — falei abertamente me sentindo feliz por compartilhar aquilo — eles acharam que a pronuncia era Maia e assim ficou, só que minha mãe sofisticou um pouco mais para ficar um pouco mais brega...
E então o silêncio voltou. Ninguém dizia nada e nem fazia um som se quer. Coloquei o rosto entre as mãos e suspirei forte.
–Eu não suporto esse silêncio! — falei — se vamos trabalhar juntos temos que nos comunicar!
–Estamos nos comunicando... — falou Missi
–Não não estamos! — falei me sentindo uma completa psicopata com aquele olhar — "quer que eu dirija" não é se comunicar, é sobreviver!
Desse dia em diante as coisas começaram a funcionar um pouco melhor...
...
No quinto dia desviamos de uma patrulha pequena
...
No décimo quinto atiramos em dois homens que tentaram estuprar uma mulher
...
No décimo sexto ficamos procurando a mulher para podermos ajudá-la
...
No décimo sétimo desistimos dela, a boa notícia foi que achamos um pendrive com músicas na mochila do homem morto
...
O décimo oitavo foi bom, se a lógica me permite dizer. Estávamos em um ritmo bom, tínhamos saído do Sul do Nebraska e estávamos indo para Virginia, estávamos com um tempo excelente contando que contornamos Illinois inteiro e boa parte do Missouri para ficar longe de grandes centros de operação alien. Já estávamos na fronteira do Arkansas e Tenesse, daí atravessaríamos o segundo e chegaríamos em Virginia, daí era só achar Houston.
Eu estava dirigindo e Missi estava no banco ao meu lado olhando para a estrada. Ben estava "dormindo" no banco de trás. Ele nunca dormia, as vezes cochilava um pouco e outras descansava os olhos, mas eu não o vira dormindo desde que saímos da 2nd Mass. Ele fechava os olhos encostado nos bancos do carro, mas eu via que ele não estava dormindo.
A sensação de dirigir era boa, enchia minhas veias com um sentimento que... Bem, acho que posso descrevê-lo como felicidade. Honestamente, nem sei o que é estar feliz mais, porém eu ficava bem menos apática quando estava conversando com meus colegas de viagem ou ouvindo as músicas do pen-drive.
Sempre gostei de ouvir Beatles, Elton John,e outros clássicos que meu pai me ensinara a gostar, mas estava de certo modo gostando daquele arquivo. Havia uma coletânea de músicas do Nirvana que se estendia muito. Eu me identificava com as letras quando o vocalista fala sobre seus sentimentos de apatia e sobre depressão, sobre tudo praticamente. Certa noite Ben me contou que ele tinha se matado e deixado a filhinha bebê e a esposa para trás. Fiquei pensando se ele finalmente tinha encontrado a paz que procurava.
Encaixei o pendrive na entrada do Jeep e deixei as músicas passando bem baixas de modo que eu só ouvia se prestasse atenção, isso combinava com Nirvana, prestar atenção, ignorar os barulhos ao redor e identificar a mensagem que eles querem passar.
"its ok eat fish cause they don't have any feelings" ele dizia em sua música 'Something in the way' e eu não parava de remoer essa frase em minha cabeça pensando nos aliens. Não em literalmente come-los, mas matá-los. Será que estava tudo bem fazer aquilo? Eles tinham sentimentos?
–Troca de música — pediu Ben de olhos fechados — se essa tocar mais uma vez, vamos entrar em depressão
"isso se já não estivermos" completei mentalmente antes de apertar o botão para mudar. Não havia nome no arquivo, desse modo eu não sabia quem cantava ou que música era, mas de uma coisa eu tinha certeza, era uma voz nova para mim.
–Onde estamos? — perguntei a Missi notando que já estava escurecendo
–Passamos da placa da fronteira a três quilômetros — ela falou
–É melhor pararmos — falou Ben no banco do meio — vire à esquerda ali
Eu sabia que era melhor confiar em Ben, sempre era. Nunca tinha conhecido alguém com o senso de direção tão aguçado, mas eu virei à direita. Talvez tenha sido algum pressentimento ou simplesmente vontade de desafia-lo. Ficamos todos em silêncio por um segundo.
–Eu falei esquerda — disse Ben
–Essa é a esqu... Ah, merda — falei freando o carro enquanto fingia engano
–Está tudo bem — ele falou calmo — essa rua também deve dar em um subúrbio
...
Paramos em uma das poucas casas que não foram arrombadas e arrombamos a porta. Revistamos tudo antes de nos estabelecermos na sala. Missi tinha ido checar o andar subterrâneo e eu fui para o de cima enquanto Ben procurava comida nos armários da cozinha.
O jeep estava escondido na garagem e eu rezava para o meu pressentimento sobre a esquerda estar errado. Haviam três quartos no segundo andar, dois deles pertenciam a um garoto que na época devia ter 16 e outro que devia ter 10. O quarto do mais velho era todo preto e era coberto por pôsteres de bandas de rock e sua bateria ocupava metade do quarto. O outro quarto era cheio de estatuetas de super heróis. Fiquei pensando o que tinha acontecido com aqueles garotos.
O quarto do casal era normal. Estava cheio de ratos, mas era agradável de se olhar. A cama branca estava impecável e tudo estava arrumado como se eles tivessem saído para a missa e fossem voltar em menos de vinte minutos. Desci as escadas e me sentei no sofá imaginando o que estaria passando na televisão naquele momento, talvez um filme novo na TNT (>..<) ou um documentário no National Geographic... Poderia até ser um culto religioso que eu nem ía me importar, só queria ver alguma coisa.
–Dá uma olhada no que eu achei — falou Missi subindo as escadas com o rifle pendurado no ombro e uma garrafa na mão esquerda
–O que é isso? — perguntou Ben se sentando ao meu lado no sofá
–Vodca — respondi finalmente entendendo
Ela se sentou no meio ao nosso lado e torceu a tampa.
–Acho que nunca bebi — ela falou fazendo força para abrir a garrafa — mas cairía bem agora, não?
–Acho que sim — eu disse olhando para o conteúdo transparente da garrafa me perguntando qual seria o sabor
–Só bebo se vocês beberem — ela cantarolou quando finalmente conseguiu
–Não vou beber — afirmou Ben — alguém tem que ficar de guarda
–Se for o caso, então eu fico de guarda — falei desafiando-o
–Não é necessário, Maya — ele falou como se estivesse falando com uma criança
Me levantei batendo o pé no chão
–Então ótimo, fique de guarda pela quinta vez na semana — gritei antes de subir as escadas com raiva...
Eu não tinha motivos para agir daquela maneira, pelo menos não motivos aparentes. Eu odiava Ben do mesmo modo que uma feminista odeia um homem que acha que é seu dever pagar a conta. Por algum motivo ele achava que não podia dormir, que só ele podia ficar de guarda. Ele se colocava numa posição de bode expiatório como se não fosse digno das coisas, como se todos os pecados do mundo estivessem em suas costas.
Aquilo era ridículo! Eu queria ter amigos, meu último amigo havia morrido com um tiro de um soldado aliado. Uma ironia, se me permite dizer. Eu e ele passamos meses na estrada sendo os responsáveis pela segurança de três crianças, minha mãe e um bêbado inútil, podíamos ter morrido de modos tão justos e honrados. Tivemos tantas oportunidades para morrer antes de ter sangue humano manchando nossas honras, mas Aaron morreu após ter matado seu primeiro humano com um tiro de um soldado que depois se revelou um forte aliado. Ele merecia mais que aquilo...
Quando saímos da 2nd mass pensei que: se íamos passar tanto tempo juntos, Missi, Ben e eu íamos nos tornar no mínimo amigos, mas ninguém ali parecia se importar realmente com isso. Ela se escondia em seus livros ridículos e ele se escondia em sua culpa e pecados, ironia! hipocrisia!
Me deitei no quarto do garoto mais velho e dormi por umas três horas antes de ser acordada com um rato encima de mim, depois disso não consegui mais dormir. Eu ficava imaginando um rato subindo em minha barriga e roendo minhas roupas, pele e feridas, aquele pensamento me enojava.
Levantei-me e fui para o banheiro da suite. Não havia nada para iluminar o ambiente, mas ainda assim eu conseguia ver minha figura com o cabelo desgrenhado no espelho. Peguei o rifle e desci as escadas como se estivesse indo para uma caçada. Missi provavelmente estava em um dos outros quartos, pois não estava no sofá.
Ben estava sentado no sofá com a cabeça entre as mãos olhando para a garrafa à sua frente.
–Porque você nunca dorme? — perguntei parada ao lado da escada
Acredito que o meu tom de curiosidade o surpreendeu por que ele me olhou de modo estranho. Ele voltou a olhar para a garrafa...
–Fico feliz que não saiba o por que — ele falou rindo sem humor — se soubesse, isso significaria que você também os tem
–Você quer dizer os pesadelos? — perguntei estremecendo com a lembrança
Ben me olhou pelo canto do olho e então pegou a almofada ao seu lado e a jogou no chão como um convite para que eu me sentasse ao seu lado. Soltei a alça do rifle e o coloquei no chão antes de apoiar minhas costas na macia superfície do estofado vermelho.
–Eu também tinha, sabe — comecei olhando para a lareira que deveria estar ligada — ainda tenho, para ser honesta, mas aprendi a fugir deles aos poucos, a mentir para minha própria mente numa tentativa de fazer com que meu cérebro não soubesse de meus medos.
–Funcionou? — ele perguntou
Franzi a testa em uma careta
–Uma mentira repetida um milhão de vezes se torna verdade, não é mesmo? Eu rezo para chegar no um milhão o mais cedo possível
–Mas como consegue dormir mesmo com as cenas na sua cabeça? — ele perguntou
–Depois de um tempo a gente para de sonhar com os aliens e o inimigo passa a ser você próprio e aí dá para se acostumar.
Ele suspirou e pegou a garrafa na sua frente, torceu a tampa, arrancou o dosador e virou o líquido em boca fazendo uma careta em seguida
–Dizem que fica melhor se tomar mais — eu falei com um sorriso no rosto
Ele tomou outro gole com uma careta pior ainda
–É, só que não muito melhor — Ben disse dando ênfase no "muito" — aqui, tome um pouco
Ele me estendeu a garrafa de vidro e eu a peguei um pouco insegura. Diziam que queimava e eu estava com um pouco de medo, mas acabei por virar a garrafa na boca. Queimou, mas foi de um modo bom, o sabor era meio tóxico e viciante.
–Nossa! — falei rindo depois de engolir o conteúdo
–É — ele concordou gargalhando comigo — é estranho
A ultima palavra carregava um peso enorme que gerava tensão no ambiente já tenso. Fiquei feliz por Ben não deixar que isso atrapalhasse o momento. Bebi mais um gole
–Venha, me dê isso... — ele pediu
Ficamos a noite e parte da manhã bebendo e conversando, terminamos dormindo ali mesmo apoiados um no outro. Foi no dia 18 que eu comecei a confiar realmente em Ben, e ele a confiar em mim. Foi nesse dia que viramos amigos.
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