Falling Skies - Ben Mason, When Oddities Match
6 Maybe everything is about revenge...
Notas iniciais
Sugar, We're Going Down (Fall Out Boy)
"Drop a heart, break a name
We're always sleeping
And we're sleeping for the wrong team
We're going down, down in an earlier round
And sugar, we're going down swinging
I'll be your number one with a bullet
A loaded God Complex, crock it and pull it"
Querida, Nós Seremos Derrotados (Fall Out Boy)
"Derrube um coração, Quebre um nome
Nós estamos sempre dormindo
E estamos dormindo com as pessoas erradas
Nós seremos derrotados, derrotados um round mais cedo
E querida, nós seremos derrotados tentando
Eu serei seu número um com uma bala
Um complexo de Deus carregado, engatilhe e atire"
O 316 era o quarto de Missi... Eu não acreditava nisso! Aquela estratégia era furada! Não é como se eu fosse hesitar em matá-la, caso preciso, só por que ela fôra gentil comigo. Eu sempre tive toda a minha política de não matar humanos, mas eu já tinha matado alguns para proteger a mim e às pessoas que amo.
Sinceramente, eu estava com muita raiva de Tom, é claro que aquela era estratégia dele. Primeiro a Missi havia passado pelo refeitório tentando amolecer meu coração, depois, Mason havia me colocado no quarto dela e isso sem falar que ele, provavelmente, tinha instruído Missi a ser gentil comigo na saída e sua sala.
Missi havia me instalado na cama de cima de seu beliche, já que sua colega de quarto havia saído em missão já tinham dois meses e até o momento não tinha voltado. Eu não teria esperanças de que ela voltasse, Missi parecia não ter.
Eu gostava do modo como o quarto era organizado. Havia um guarda roupa no canto do quarto, uma bancada completamente remendada ao lado da cama, fazendo com que a mesma servisse de cadeira. Haviam livros com as capas costuradas e remendadas, alguns tão sujos que eu juraria que tinham caído em uma poça de lama após serem pisoteados por um elefante. Na parede oeste havia um alvo pintado com uma arma de brinquedo pendurada ao lado.
Nerf, a famosa marca de arminhas em todo o mundo agora estava coberta por pesos cheios de cimento e pó de ferro para simular o peso real de uma arma. Missi era esperta, havia remontado toda a estrutura do brinquedo trocando as molas por algumas mais fortes para que ela lançasse os dardos com mais força e potência. Graças a isso ela conseguiu aumentar peso dos dardos para que a direção não fosse tão influenciada pela gravidade e vento.
Ela havia saído para ajudar na contagem de mantimentos e me deixado no quarto. Não completamente sozinha, já que eu estava cercada por um andar inteiro de crianças com o arreio recém retirado. Eles perceberiam toda e qualquer coisa que eu tentasse fazer para escapar antes mesmo que eu pensasse. Era tão desesperadora aquela sensação de estar presa em um lugar impossível de se escapar, era uma claustrofobia que vinha da boca do estômago e se alastrava por todo o corpo.
Ouvi passos do lado de fora do quarto, mas ao invés de continuarem, esses pararam rente à porta. Eu reconhecia aqueles passos, aquela frequência insegura com passos rápidos e ao mesmo tempo cautelosos.
Houve então uma batida na porta.
–Entre — eu falei.
Naquele momento eu estava usando a arma de brinquedo de Missi, era a única coisa que eu poderia fazer ali. Treinar mais nunca era exagero. Eu estava ali havia horas e já tinha começado a ler dois dos livros ali contidos, mas estava entediada demais para termina-los. Como aquela garota conseguia ler as peças de Shakespeare? Eram peças! Tragédias faladas, eram impossíveis de se ler.
Me virei para olhar a pessoa na porta apesar de já saber quem era.
–Benjamin Mason — eu falei com o tronco torcido e a arma ainda apontada para o alvo na parede — seu pai é um cretino...
Me virei novamente para o alvo, acertando o aro médio, que de acordo com as anotações de Missi valia 200 pontos
–Mas ainda assim eu gostei dele — falei indo na direção da parede para retirar o dardo ali grudado — É inteligente e parece ser um bom líder. Só preciso saber se ele vai me ser útil. Veio aqui para me dar uma boa notícia?
Ele entrou e fechou a porta. Tirei o dardo da parede e carreguei a arma novamente. Pendurei-a no prego da parede pelo gatilho e me virei para Ben.
–Não, eu não vim te dar notícia nenhuma — ele falou — vim agradecer por como ajudou Diego.
Ele estava diferente da última vez. Seus cabelos, antes sujos e emaranhados, agora estavam limpos, desse modo eu o reconhecia como da primeira vez que o tinha visto, quando ele me salvou dos Machs. As roupas eram tão parecidas com as anteriores que eu juraria que eram as mesmas, dessa vez ele não estava com uma arma nas costas. Ele tinha apenas uma faca presa à cintura. Era mais do que eu tinha.
–Era a minha obrigação — eu falei — honestamente, acho que nenhum humano faria diferente...
–Então você não conhece os humanos que eu conheço — ele falou se sentando na cama debaixo do beliche, abaixando a cabeça para não bater na cama de cima
–Bem, pelo menos é assim que as pessoas deveriam agir — falei encostada na parede olhando para ele — você não veio aqui só para me agradecer. Se não seu coração não estaria tão acelerado, e você não teria sentado, já teria ido embora. Você fica desconfortável perto das pessoas.
–Por que acha isso? — ele perguntou
–Por que eu acho o que? Que as pessoas deveriam salvar umas às outras, ou que você fica desconfortável perto das pessoas? Qual das perguntas quer que eu responda?
–A segunda — ele falou comprimindo os lábios — por que acha que eu fico desconfortável perto das pessoas?
Eu decidi então não responder à pergunta dele. Se prestasse atenção à sua atitude, Ben ia perceber por si próprio o que eu estava tentando lhe dizer.
–Por que veio aqui? — perguntei
Ben fez uma pausa mordendo a bochecha de leve.
–Quando você for para a sua missão — ele começou olhando para o chão — eu quero ir com você...
Abaixei minha cabeça comprimindo os lábios.
–Você quer o que? — perguntei meio incrédula
–Ir com você na sua missão — disse Ben com os olhos voltados para mim
–Benjamin... — comecei
–Me chame de Ben — ele interrompeu
–...Ben, há limites que dizem o quanto eu posso pedir para Tom. Levar o filho dele em uma missão suicida não é uma opção. Está fora de cogitação...
–Você me deve uma! — ele falou começando a ficar com raiva — salvei sua vida!
–Sim, e eu agradeço muito, mas eu preciso de pessoas que não tem nada a perder, pessoas que não tem para quem voltar! Você tem um pai, e ele está vivo! Sabe o que eu daria para não sair de perto do meu se ele estivesse?
–Merda! — ele falou se levantando de repente — eu não quero ficar aqui! Parece um paraíso, mas não é! Eu preciso sair dessa maldita base, estou preso a uma vida que eu não quero! Sou o coitadinho do filho do presidente que foi capturado por aliens! Acorrentado dentro de um maldito esconderijo suburbano! Acha mesmo que eu tenho algo a perder? Meu pai tem três filhos além de mim. Meu irmão mais velho é praticamente casado e me ignora, meu irmão mais novo fica assustado quando eu faço um movimento brusco, aposto como a minha meia irmã vai chorar quando eu entrar no mesmo cômodo que ela e meu pai me ignora. Minha madrasta é a única que se lembra que eu existo — ele fez uma pausa — tem certeza que eu tenho para quem voltar? Qualquer morte fora desse lugar vai ser um paraíso para mim.
Se eu achava que Ben se sentia desconfortável perto das pessoas eu estava muito enganada, era muito mais que isso, ele simplesmente odiava a vida que estava levando. Do jeito como ele falava, parecia um louco prestes a cometer suicídio. Ele devia estar realmente enlouquecendo com tudo aquilo. Levá-lo na missão seria misericórdia.
–Eu não vou pedir para o seu pai para te levar nessa missão — eu falei olhando para o chão- mas se você conseguir convencê-lo, tem meu apoio...
Eu não olhei para Ben depois disso. Nem depois de seu duro "obrigado" e nem quando ele estava saindo quarto. Só me atrevi a levantar a cabeça quando tive certeza de que todas as lágrimas já tinham ido embora. Por que ele tinha que ser tão parecido com Grab? Aquela parecia ser uma versão adaptada da última coisa que Grab havia me falado. Depois de sussurrar tudo isso para mim dentro do armário da manutenção ele partiu. Gabriel morreu para me proteger, meu irmão morreu como um herói.
Limpei os rastros de lágrimas rapidamente e respirei fundo. Eu tinha que esquecer Grab por um momento e me focar na minha obrigação. De qualquer modo eu estava feliz por Ben ter me pedido para ir comigo na missão, era a primeira certeza que eu tinha em dias. Desde que tinha fugido da base Sphenin eu havia vivido de achismo: "eu acho que vou para o sul procurar munição", "acho que não vão me encontrar aqui". Acho, acho e acho.
Eu não sabia se a missão ia acontecer ou não, mas o filho do cara que decidia isso estava do meu lado, desse modo eu tinha pelo menos mais 20% de chances de conseguir chegar no "1st Hall" a tempo.
Subi na cama de cima do beliche e peguei a surrada versão de bolso do clássico Hamlet de Missi. Seria o terceiro livro que eu começaria naquele dia, mas eu não me importava realmente. Precisava me distrair, e atraente ou não, aquilo era melhor do que desperdiçar energia atirando com a Nerf pesada de Missi.
Hamlet falava sobre vingança. Sobre um filho que era incumbido da missão de vingar o pai assassinado pelo próprio irmão. Ele passa o livro na duvida sobre o que fazer, pois se matasse o tio, como o fantasma de seu pai havia lhe pedido, ele estaria cometendo a mesma brutalidade que o próprio. Em toda a trama de vingança, loucura e dupla personalidade, Hamlet acaba perdendo todos aqueles que amava, começando por sua noiva, Ofélia, que enlouquece após ver o amado louco, que na verdade não estava louco realmente, estava apenas fingindo.
Complicações e mais complicações. Ler àquela peça me fez pensar que, comparado ao mundo anterior à guerra, esses últimos anos haviam sido apenas uma cobra de sete cabeças ao invés de uma de dez. Tudo isso sempre tinha acontecido durante milênios de história, talvez esse período não fosse tão escuro assim, agora parecia ser uma noite comparada a um dia nublado.
O livro me fez duvidar sobre o por que de eu estar lutando. Será que eu realmente queria viver normalmente de novo? Será que eu aprenderia a viver em tempos de paz? Essa maldita guerra havia mudado tanto a minha vida que eu já começava a ter dúvidas sobre realmente querer aquilo de volta. Será que eu queria uma reviravolta tão grande?
Não, era claro que eu queria, eu estava lutando por que a Terra sempre pertenceu e sempre pertencerá aos humanos... Mas será que valia à pena lutar por uma causa que parecia ser tão perdida? Mas aquela causa não era perdida! Será que era? Depois eu comecei a me questionar se tudo que eu queria não era na verdade o que Hamlet queria. Será que tudo que eu buscava era vingança? Vingar meu pai e irmãos parecia ser uma boa ideia, mas depois daquele livro eu começava a me perguntar se realmente valia a pena... Mas é claro que valia, eram aliens e não pessoas com consciência.
Eu parecia uma velha se questionando sobre o próprio nome. Tinha que parar de pensar sobre os motivos para me focar nos objetivos. Por vingança ou justiça, eu queria a mesma coisa, chutar a bunda daqueles malditos aliens do meu planeta. O que eu faria depois que não houvesse mais guerra na qual lutar eu não sabia, mas tinha que deixar para pensar nisso quando eu conseguisse concluir o objetivo.
Após tantos devaneios, meu cérebro implorava por descanso, eu estava tão esgotada que decidi não ler a última página do livro sem remorço algum e sem a mínima curiosidade sobre o que havia deixado de ler.
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