Fallen Angel
2 Capítulo 2
Edifício Chevalier em Paris, 1.600
O anjo sentiu Miguel se aproximando e fingiu que não estava cochilando, somente descansando de olhos fechados. Ele tinha esse poder, de sentir algo de aproximando dele mesmo quando estava dormindo. Não tinha como ele saber quem era, mas chutava e na maioria das vezes acertava. Levantou-se preparado para ouvir o sermão, mas não, o anjo apenas o olhou e piscou, virou para o local onde iriam encontrar o superior do arcanjo e chamou os outros com a mão atrás de si. O anjo se sentiu estranho, mas logo lembrou que o arcanjo era o perfeito exemplo de Deus e que nunca brigaria ou ficaria bravo com outros seres celestiais.
Logo que entraram no prédio, o anjo viu uma bela moça sentada num dos dois sofás que compunham a salinha da entrada, junto com uma mesinha de centro repleta de chás, sucos, biscoitos e bolos. Ele sentiu novamente aquele desejo, mas tratou de esconder, pois tinha ao seu lado mais 7 anjos e arcanjos importantes, ele era só uma sombra de Miguel. Sabia que a moça provavelmente estaria vendo um grupo de 9 pessoas de sexos diferentes e ele ao menos sabia o sexo dele. Olhou para frente e percebeu que estava um pouco mais atrás que seus companheiros e apressou um pouco o passo. Ele viu a moça que provocou nele luxúria há pouco olhando para Miguel e sentiu uma onda de raiva o invadir. Seria hoje que iria cair se não conseguisse controlar esses sentimentos que ele nem deveria sentir.
Subiram 4 lances de escadas e entraram em um apartamento. Móveis básicos, bem cuidados, de madeira escura, da moda da época. Miguel os mandou se acomodarem nos 3 sofás de 4 lugares cada. O anjo sentou no sofá mais perto da porta e colocou no rosto aquela expressão serena de anjo e tentou se acalmar por dentro. Miguel foi para um dos quartos chamar seu superior, um querubim, para contar tudo o que aconteceu mais cedo. O anjo não sabia o que esperar do querubim, nem sabia o que Miguel contaria. Minutos depois apareceu o arcanjo e o querubim, conversando tranquilamente. O arcanjo sentou-se numa das duas poltronas e o querubim na outra, fazendo um gesto para que o arcanjo começasse a falar. Miguel contou sobre os demônios que os outros 7 seres de luz haviam matado e o querubim parabenizou-os. Chegou a hora de contar sobre o anjo e ele estava nervoso.
Miguel contou sobre o demônio-escorpião, sobre os outros que o rodearam e então começou a contar sobre a morte do outro anjo e o demônio que havia pegado a espada dele:
– E então, Galahel começou a correr em direção ao demônio que estava com a espada de Ithuriel e lutou com ele até mandá-lo de volta ao mundo inferior. — O anjo sentiu-se irado, pois Miguel não havia contado que o demônio iria atacá-lo, mas manteve a expressão calma no rosto angelical — Ele descansou por uns 5 segundos até que viu — Miguel deu uma olhada significativa para o anjo — minha luta com o cão infernal e viu que minha espada estava caída. Ele correu para pegá-la, mas não me devolveu, ficou brincando com ela no ar e depois fez o cão infernal sofrer, decepou várias partes do seu corpo para depois de todo um esforço inútil, deixá-lo ir para o inferno. Depois de toda essa inutilidade, me entregou a minha espad...
– Cala essa boca, você é muito ingrato! — o anjo não conseguiu se controlar e deixou escapar as mais doces palavras que um humano falaria durante uma briga ao ver o olhar reprovador do querubim sobre o depoimento do arcanjo Miguel — Eu te salvei duas vezes hoje e você nem me disse muito obrigado. Você nunca diz e eu sempre o ajudo. Só peguei na sua espada hoje para lhe ajudar... — foi cortado por um súbito vento congelante que passou. Nunca havia sentido frio, mas o querubim permitiu que ele sentisse agora para calá-lo.
– O que foi isso, anjo Galahel? — perguntou calmamente o querubim.
O anjo nada respondeu, mas Miguel o fez.
– Não sei muito sobre sentimentos humanos, mas se me permite, ele teve uma crise de raiva. — “ Miguel, o prestativo “, o anjo pensou. — Não é a primeira vez que ele tem sentimentos humanos. Percebi que ele tem desejo por mulheres. Isso é um pecado, ele deve cair!
O anjo fez menção de protestar, mas o querubim o cortou antes de ele dizer alguma coisa.
– Isso é verdade, Galahel? — o querubim perguntou alarmado.
E quem sabe fazendo a coisa mais inteligente daquele dia, ele apenas assentiu honestamente. Depois disso foi uma anarquia total. Anjos espantados, alguns com pena, o querubim estava preparando as coisas para arrancar as asas do anjo e Miguel, que estava mais atrás de todos e sorria vitorioso para o anjo, que dessa vez conseguiu se controlar e apenas ignorou o arcanjo. Agora que sua máscara havia sido arrancada, ele não ligava para o que os outros pensariam dele e sentou-se de uma maneira confortável, quase se deitando no sofá e no rosto tinha uma expressão de profundo desinteresse.
***
Depois de longos 40 minutos, lá estava o anjo, somente com calça social preta, descalço e com as asas abertas, ajoelhado perante o querubim. Já fazia 5 minutos que o querubim estava de cerimônia. “ Porque não as corta logo ? “, o anjo pensava já impaciente com isso tudo. 10 minutos depois, o querubim usava uma serra especial para serrar-lhe o osso que sustentava as asas negras do anjo. O querubim lhe prometeu que ele iria se tornar humano, por tantas coisas boas que ele já havia feito no seu tempo de anjo, mas ele seria um humano imortal. Ele envelheceria diferente dos humanos. O tanto que um humano envelhece em um ano, ele envelheceria em 50 anos. Cairia como um homem de 18 anos em qualquer país que fosse, menos França.
O querubim já havia serrado metade do osso da asa direita e o anjo via um filete de sangue dourado sair pela última vez do seu corpo. Quando se tornasse humano, teria sangue humano e sentiria como um humano. Se ele como anjo já estava achando a dor quase insuportável, imaginava se já estivesse sentindo como um humano, achava que não aguentaria. Logo, acordaria em outro país, sem suas belas asas negras e seus poderes angelicais, somente seu corpo. Esperava pelo menos estar vestido. O querubim disse que ficariam duas finíssimas cicatrizes, ninguém notaria. Ele esperava que o querubim estivesse certo. Faltava pouco para terminar de serrar a asa esquerda e sentiu alguém injetar um líquido que o induziria á um sono profundo. Seus olhos já começavam a pesar quando lhe mandaram vestir algo que os humanos chamavam de blusa de mangas compridas e ao terminar essa tarefa, dormiu profundamente, acordando em um beco abandonado da enorme Nova York.
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