Fallen
17 Todos Submissos – Parte um!
Notas iniciais

Todos Submissos – Parte um!
— Isso não pode estar certo! — A escorpiana exclamou ao sair do banheiro segurando um marcador digital apresentando duas hastes no leitor. Encarando Shun que a esperava pacientemente do lado de fora.
— Qual o resultado? — O mais jovem não deu importância à forma chorosa como Sonnya falava.
— Aqui diz; se aparecer uma haste é negativo, duas para positivos.
— E quantas hastes apareceram?
— Duas! — Disse manhosa. A esperança de que tivesse entendido errado se fazendo mais necessário do que nunca. — Mas aqui também diz que o teste tem de 95 a 99% de eficácia, então...
— A margem de erro é bem pequena, Sonnya. — Shun cortou friamente. Seu coração batida acelerado com os pensamentos nocivos que atacavam sua mente.
Como iriam esconder aquilo de Hades?
— Do lado de quem você está? — Ela perguntou contrariada. Shun sabia de muito mais coisas que ela, ainda assim ela se recusava a acreditar naquele resultado.
Shun Não culpava a rosada por ela ficar assustada quando ele levantou tal hipótese. Afinal era a última coisa que poderia acontecer na vida da amiga, mesmo Sonnya informando que – de todas as vezes que transou com Regulus. – não havia se prevenido somente uma vez, mas como ela não acompanhava o próprio ciclo não haveria como saber se esse único dia era período fértil ou não.
— Logica nesse momento é a prioridade. — Uma resposta rápida por parte do virginiano e Sonnya cruzou os braços, imponente. — Sonnya... Escute, você sabe que te amo mais do qualquer outra coisa, não sabe? — A garota balançou a cabeça em concordância. — Sei que está assustada, mas entenda que é quase impossível esse teste estar errado.
A rosada não falou mais nada. Passou pelo amigo, pegou a bolsa e abriu a porta.
— Sonnya...
Shun ainda tentou, mas a amiga estava nervosa.
— Não. — Ela gritou já na porta. — Esse teste tem que estar errado, Shun. Para o bem de muita gente. Ele tem que estar errado!
Sonnya não tinha motivo nenhum para querer uma gravidez naquele momento infeliz: Ela estava preste a casar com um homem que não amava enquanto o homem que a fazia se sentir a mulher mais especial do mundo não estava atendendo suas ligações e, muito provavelmente, nem queria vê-la.
Shun suspirou, a amiga tinha razão. Havia sido uma grande dificuldade convence-la a tirar aquela história a limpo. E a mesma só concordou se ele a deixasse sozinha, coisa que ele só concordou porque ele entendia que ela estava nervosa. Sem contar que ele precisava pensar no que fazer se suas suspeitas se confirmassem. E agora que sabia não fazia a menor ideia do que dizer ou fazer pela a amiga.
Viu Sonnya sumir no fim do corredor que levava ao elevador e não pode fazer mais nada.
...Fallen...
Naquela manhã de segunda-feira Regulus acordou particularmente cedo. Estava disposto a recomeçar, Sonnya sempre seria a primeira mulher que amou – e que ainda ama –, mas ela não poderia ser a única em sua vida. Tinha decidido no fim de semana, quando se concentrou somente em afogar as magoas e enterrar o amor que sentia pela rosada, que amaria intensamente novamente. Não sabia quando, nem a quem, nem como, mas sabia que tudo não podia acabar por causa de uma única pessoa. Sonnya iria se casar, ela havia o enganado e brincado com seus sentimentos, mas o leonino resolveu – entre copos e garrafas. – que a esqueceria, tiraria um bom aprendizado daquela situação e que seguiria com sua vida como sempre fazia quando saia de um relacionamento.
Tinha bebido muito, até não conseguir sentir mais nada, e até se admirava por já estar sóbrio. Ou talvez, apenas a dor que ainda permanecia dentro do peito sobrepujava a ebriedade que deveria estar dominando-o agora, mas isso já não importava mais. Depois de sua higiene matinal, onde fez a barba e aparou todos os pelos do corpo, tomou um banho bem demorado. Vestiu uma roupa de malha leve, com um corte fino: calça preta e camisa social azul clara com manga ¾, sapato preto e lustroso, pegaria um casaco longo quando estivesse saindo. Em seu primeiro dia precisava causar uma boa impressão e mesmo que ninguém fosse vê-lo sem roupa, ele precisava estar preparado. Quem sabe não encontraria alguém interessante, que tivesse disposto a encontros de uma noite? O pensamento poderia soar bem cafajeste, mas, se estava disposto a esquecer-se de Sonnya, precisava se mostrar disponível.
Se Dégel soubesse disso, ralharia comigo. Sorriu, o rosto serio do amigo fazendo-se presente em seu pensamento.
Foi até a cozinha e colocou a cafeteira para funcionar. Como de costume, pegou duas xicaras e as colocou sobre a mesa. Como Dégel não gostava de café, os amigos compraram uma cafeteira industrial, assim enquanto o leonino fazia um excelente e fumegante café para si, o aquariano poderia esquentar agua para o corante em saco que ele chamava de chá. Regulus sorriu, parando para pensar melhor, ele e Dégel pareciam realmente um casal. Daqueles com muitos anos de casados! Quanto tempo fazia mesmo? Mais de quatro anos! E por falar em Dégel, Regulus se viu obrigado a perguntar se o outro estaria bem, se estava comendo direito ou se estava tomando as devidas precauções de um sexo seguro. Não que o outro tivesse dito com todas as letras que transaria com alguém, mas também não havia dito nada contra. E pensando melhor, Dégel nem avisara que iria sair. Apenas o havia pedido que o deixasse cometer os próprios erros! Erros que eram um mistério que Regulus sabia bem onde terminariam. Por que estava na cara que o amigo tinha ido atrás do empresário mais cobiçado do estado, se não do país, ao invés de tentar falar com o irmão. Só esperava que o amigo não se arrependesse depois e acabasse tendo certos problemas indesejados.
Calma Regulus, não é como se ele corresse o risco de engravidar! Falou para si mesmo, o que não o impediu de continuar com a preocupação.
Quando a cafeteira sinalizou, o leonino escutou o som da porta da frente abrindo, não demorou a ver Dégel entrar pela porta, com uma expressão bastante cansada.
— Ora, bom dia! Está comprovado que o filho pródigo a casa sempre retorna. — Regulus alfinetou ao ver o outro encostar-se a porta de entrada. Sua bela aparência estava abalada por olheiras e cabelo desfeito.
— Bom dia para você também! — Dégel resmungou. Deixou os sapatos na entrada e foi para o mesmo cômodo que o leonino.
Pegou um sache de Earl Grey1 no armário da cozinha, colocou dentro da xicara vazia e juntou com agua quente.
— Como foi o seu final de semana? — Regulus perguntou, observando o amigo aspirar o cheiro do chá como se dependesse desesperadamente daquilo.
— Não foi ruim. — Sentenciou rápido. Como se quisesse dar um fim a conversa que nem havia começado.
Entendendo o “recado” Regulus apenas se focou em conversas mais amenas. Sabia que quando chegasse o momento certo Dégel falaria. Ele havia prometido que falaria. Então por ora, se contentaria com o amigo voltando para casa aparentemente inteiro. Também havia coisas que não queria que Dégel soubesse. Esse mistério sempre fortalecia a amizade.
Depois do “café” Dégel acompanhou Regulus até a porta de saída.
— Tem certeza de que vai ficar bem? — O leonino perguntou se enfiando no casaco.
Dégel sorriu. Aproximou-se do amigo a fim de ajeita-lhe a gravata, aproveitando e uniformizando o casaco.
— Quantas vezes eu já fiquei sozinho em casa mesmo, mamãe? — O aquariano devolveu com ironia. Observando, pela primeira vez, o que tinha de real em sua vida.
— Ok. Ok. — O leonino deu-se por vencido. — Apenas prometa-me que se precisar vai me ligar?
— Prometo.
Regulus girou nos calcanhares depois de depositar um beijo na testa do amigo. Aquele era um novo começo para ambos.
...Fallen...
Sonnya estava eufórica. Esperava pacientemente a tempo prescrito na bula daquele bendito teste. Dessa vez, Shun não estava do lado de fora do banheiro, aguardando-a. E ela temia que o resultado do teste se repetisse contra ela novamente. Não foi fácil receber aquela notícia de um pedaço de metal com alguns indicadores que mal a conhecia para dizer que ela estava gravida. A notícia também trouxe uma momentânea desavença entre ela e seu melhor amigo.
Não era como se ela tivesse preterido uma mentira, mas ele bem que poderia ter sido mais sutil. Shun era um bom amigo e preferia a companhia dele a aquela agoniante espera.
Um suspiro melodioso: Lá estavam novamente as duas benditas hastes.
Lagrimas correram pelos cantos de seus olhos. Então era verdade, estava gravida!
Levou à mão a boca a fim de conter um soluço, o desespero enfim se mostrando real: o que seria dela? O que seria daquela criança? O que faria dali por diante? Seu pensamento imediato voltou-se para Regulus: precisava encontrar um momento oportuno para dizer ao outro que ele seria pai. Agora mais do que nunca precisava se livrar daquele casamento. Mas como?
Batidas contidas na porta do quarto chamou a atenção da rosada. Sonnya suspirou profundamente, a fim de se controlar. Com um pouco de força murmurou um “já vai”, pegou a embalagem do teste e jogou no lixo, colocou o palito com o resultado dentro do armário do banheiro. Jogou uma quantidade grande de agua no rosto, logo em seguida deu uma olhada no espelho, em busca de algo que indicasse o choro momentâneo. Seu rosto estava lívido e um pouco vermelho. Poderia dizer que acabara de acordar. Bagunçou um pouco os cabelos, a fim de realmente convencer.
Quando Sonnya abriu a porta vislumbrou o rosto aflito de Pandora.
— Mãe? O que houve? — Sonnya usou seu tom mais sutil. Porém pode nota nos olhos da genitora uma preocupação velada.
— O vestido ficou pronto. — Pandora falou.
— Ah. É isso? — A escorpiana soou desinteressa. O peito inflando de ansiedade e dúvidas.
Sonnya pediu para que ela entrasse e fechou a porta.
Diria a ela que estava gravida? Poderia confiar em sua mãe? Pandora ainda estava disposta a ajudá-la? Se bem que desde a última conversa que havia tido com a mãe, não vira a mesma fazer nada com relação ao seu casamento. Estava cansada de fingir e enganar.
Precisava de uma solução, e rápido.
— Sei que não é isso o que quer minha filha. Mas tenha um pouco mais de paciência.
— Cansei de ter paciência, mãe. — A rosada cruzou os braços.
Era maior de idade. Tinha direito de escolher o que queria fazer.
— Não vou me casar com Aioros!
— Sonnya...
— Eu estou gravida, mãe.
Pandora caiu sentada na cama com a novidade.
— O quê?
— Isso mesmo que ouviu. Estou gravida e Aioros não é o pai.
A cabeça de Pandora nublou. Como assim Sonnya estava gravida? O coração da morena apertou. O que seu marido faria se descobrisse? O que aconteceria com Sonnya? O que seria da criança que crescia dentro dela?
O desespero tomou conta dela.
— Sonnya, minha filha...
— Eu sei, mãe. Fui uma irresponsável. — A rosada sentiu a tensão no corpo da mulher a sua frente. — Mas não pude impedir. Eu... eu...
Pandora correu e abraçou a filha.
— Tudo bem. Está tudo bem. — A voz cálida acalentou os sentidos da filha. — Agora, mais do que antes, precisamos dar um jeito nessa situação.
— Como mãe?
Pandora suspirou fundo. Para Sonnya, naquele momento, tinha somente uma opção: Sonnya teria que desaparecer no mundo. Mas a morena não queria ficar longe da filha e agora que sabia que iria ter um neto ou uma neta, seu coração se enchia de uma alegria angustiosa. Pandora acariciou os cabelos da filha e disse que iria dar um jeito antes do casamento. Que a rosada não se preocupasse, pois ela faria algo.
Pandora deixou o quarto da filha e foi para o quarto que dividia com o marido. Pegou o celular e discou alguns números que, depois de quatro chamadas, a atendeu.
— Preciso de sua ajuda. — Disse após confirmar a pessoa que a atendera.
Marcaram de se encontrar em um restaurante próximo ao centro de Yonkers. A morena desejou nunca mais precisar dos serviços daquele homem, mas infelizmente não era assim que o destino queria e antes que pudesse pensar em algo melhor, seus dedos e lábios já estavam procurando-o para solucionar seu problema mais crítico.
...Fallen...
Enquanto isso, na sede da Guidecca Corporations, Shaka tentava controlar a situação instaurada durante uma reunião de acionistas. Onde Milo não concordava em nada com que Hades falava. As réplicas começaram sutis, mas agora estava insuportável.
Pai e filho não entravam em um consenso.
— Pai, por favor, mantenha a calma. — Kardia falou analisando os papeis que Shaka amavelmente havia distribuído a todos.
— Como você quer que eu mantenha a calma se seu irmão está irredutível? — A voz de Hades refletia uma calmaria que ele não sentia.
— Irredutível? Eu? — Milo perguntou cheio de escarnio.
Kardia lançou uma olhar de advertência ao caçula.
Como previra, Milo ainda era uma criança, pois não conseguia agir de forma adulta diante a situação que vivenciava. Um triangulo tortuoso entre pai, filho e um puto! Onde o mais jovem punia severamente pelo “puto” em questão e só ainda não tinha saído no braço com o pai porque tinha bastante gente dentro da sala de reuniões. Mas o escorpiano mais velho entendia perfeitamente como o irmão se sentia, porque ele também estava se segurando para não voar no pescoço do asiático que possuía 30% das ações da Giudecca Corporations graças ao fato do casamento de Kardia e Saori ter sido bem sucedido até o presente momento.
Uma amizade com vantagens foi o que a grega disse quando concordou em casar com Kardia. Ele seria o marido perfeito, ela esposa exemplar e ambos teriam muito sucesso e liberdade para agirem da forma que bem entendesse desde que mantivessem as aparências. E Saori era boa em atuar. Kardia também não ficava pra trás. O que deixava os mais velhos presentes naquela mesa bastante satisfeitos, apesar de Mitsumasa estar reclamando que já era hora do casal ter filhos.
— O que foi essa aquisição que valeu dois milhões? E em euros?! — Inqueriu Hades.
O moreno já sabia perfeitamente do que se tratava e trataria de cobrar centavo por centavo de Camus. Milo na maioria das vezes não fazia nada que prestasse, mas usar aquela quantia toda com o seu brinquedo lhe dava um imenso orgulho. Primeiro porque se Milo havia “comprado uma pessoa” significava que ele era afetado pelo poder. Só precisava de um pouco de moldagem na personalidade e ele seria tão bom quanto Kardia. Segundo, porque sem saber, acabaria por lhe dar um prazer imenso. O pensamento fez o homem remexer-se na cadeira, a excitação começava a tomar conta de seu corpo.
— Não foi nenhuma aquisição, pai... — Kardia começou. Mas antes que ele prosseguisse com a desculpa elaborada, Hades virou-se para Milo.
— Você gastou dois milhões em diversão? — Falou acusatório. O olhar mesclado em desafio e represália.
— Claro que não! — O loiro quase pulou da cadeira, abismado com a ideia, apesar de ela ter um pouco de fundamento. Mesmo que sua ideia inicial fosse somente mostrar a Camus quanto de “poder aquisitivo” ele possuía. O ruivo o fascinava. E ele queria poder comprar o amor de Camus, mesmo que aos pouquinhos já que o francês havia se mostrado bastante irredutível com ele no início. E agora ele sabia o por que. E isso doía bastante em seu interior, pois sabia que, sozinho, nada poderia fazer contra o pai. Constatou com pesar que o dinheiro não compra tudo. — Usei pagando a liberdade de uma pessoa. — Ditou em murmúrio.
O sorriso debochado de Hades trouxe um nó na garganta do mais jovem, assim como reavivou a vontade de socar a cara do pai. Até parecia que o homem o estava provocando de propósito.
— E que condenado foi esse que o advogado cobrou tão alto? Mais um de seus amigos deturbados? — O moreno alfinetou.
Shaka prendeu a respiração, pedindo internamente que Milo se controlasse. Mesmo sabendo que isso seria pedir demais. O loiro não sabia a história toda, o escorpiano mais velho tinha lhe omitido algumas coisas. Mas sabia que tinha alguma coisa a ver com a ideia de ter um striper particular. Kardia massageou as têmporas, aquela picuinha não acabaria tão cedo. E o pior era que, com certeza, pioraria.
— Eu nunca disse que tinha pagado um advogado. — Volveu Milo. Os olhos perigosamente estreitos para o patriarca.
— Milo... — Advertiu o filho mais velho. — Você sabe que perder muito. Não sabe?
Não era uma pergunta, e Milo engoliu todas as palavras previamente preparadas. O loiro não tinha nada a perder, a não ser Camus. Se seu pai descobrisse que aquele dinheiro havia sido gasto na “aquisição” do francês, só Deus sabe o que o moreno faria ao ruivo como penitencia. Dessa forma ele simplesmente liberou um resmungo e virou o rosto, igual como se faz uma criança contrariada.
— Bom, tirando esse valor exorbitante, parece que você tem tudo sob controle, Kardia. — Mitsumasa falou voltado ao filho mais velho de Hades. — Parabéns!
O escorpiano trincou os dentes totalmente revoltado, o que arrancou um sorriso desvanecente do homem mais velho. O que trouxe mais ódio a Kardia que detestava... ou melhor, odiava Mitsumasa Kido. Não o perdoaria nunca! Não o aceitaria nunca!
Milo suspirou cansado, enquanto seus olhos dançavam entre os de Mitsumasa e do irmão, totalmente inquieto. Sabia perfeitamente o porquê do ódio do irmão pelo amigo de seu pai e não iria discutir, até por que apoiava a atitude do mais velho: Mitsumasa Kido não era um homem confiável. No entanto, a discussão entre aqueles dois não o afetava em nada.
— Kardia. — Hades o chamou, advertindo-o sobre a conduta deselegante.
Kardia jogou os papeis de qualquer jeito em cima da mesa. Respirou fundo, olhou para o avô de sua esposa, pediu perdão pelo modo rude e agradeceu o elogio.
— Mais alguma coisa? — Perguntou ao pai entre o mordido e o firme.
— Somente mais uma. — Hades falou, colocando os papeis organizadamente em cima da mesa. — Vou ser direto... Quero que Milo viaje para França depois do casamento de sua irmã. — O moreno disse calmo.
Levou algum tempo até que os irmãos assimilassem o que havia sido dito. Assim que a compreensão se fez presente, Milo fechou o semblante. Levantou-se rapidamente da cadeira.
— O quê? Por quê? — O loiro perguntou espalmando a mão na mesa.
Hades olhou sem muito interesse para a afobação do filho.
— Não é obvio? Não posso simplesmente deixar tudo o que tenho nas mãos dos outros. Você é meu filho, Milo. Meu herdeiro! Precisa deixar de agir como um leviano e começar a agir como homem de verdade.
— Pensei que Aioros cuidaria das empresas francesas. — Milo argumentou.
— E cuidará. Mas ele e Sonnya ainda não casaram, então não posso simplesmente mandá-lo para França agora. Não posso entregar nosso patrimônio a ele ainda. E você servirá de balança para as ações de Aioros, afinal não é certeza de que depois do casamento ele seja confiável a ponto d’eu entregar todas as posses francesa pra ele. E eu confio plenamente em você, meu filho. — Hades tinha um tom provocativo.
O grego engoliu desanimadamente seco. Olhou para o irmão.
— Kardia? — Chamou quase suplicante.
O patriarca estreitou perigosamente os olhos
— Qual é o seu problema, Milo? Kardia já toma conta das empresas daqui. Então está obvio do por que não irei mandá-lo.
— Não posso! — O escorpiano murmurou voltando a sentar-se.
— Não pode o quê?
— Não posso ir para França. — Milo falou enfático. — Por que o senhor mesmo não retorna pra lá?
— Por que preciso resolver alguns assuntos que fugiram do controle enquanto estive fora.
Kardia e Mitsumasa assistiam a discussão entre pai e filho. O mais velho dos dois tinha um sorriso ladino nos lábios. Já sabia o porquê daquela reviravolta. Kardia que, por sua vez, observava atentamente ao pai, sentiu a compreensão acertar-lhe como uma flecha apontada para o alvo certeiro, Kardia entendeu que o homem já sabia. Que tudo fazia sentido: as ironias, a reunião de custos, a vinda de Mitsumasa. O casamento de Sonnya havia sido uma mera desculpa para um retorno “precoce”.
O escorpiano sempre soube que o pai tinha vários informantes, mas não imaginou que eles fossem tão precisos.
Suspirou derrotado.
— Aquiete-se Milo.
O escorpiano mais velho, por ter uma convivência maior com o pai, sabia que estavam em cheque. Milo olhou incrédulo para o irmão. Não entendia porque Kardia não fazia nada contra aquilo.
Era revoltante!
Correu na direção do irmão. — Eu não acredito nisso. — Falou tomado de fúria. Passando a gritar em direção ao irmão, acusatório. — Não acredito que mais uma vez você não vai fazer nada.
Kardia também levantou, puxou Milo pelo colarinho da camisa.
— Deixe de ser idiota, moleque. Você precisa entender o que acontece ao seu redor. — Falou baixo e ríspido. E empurrou o mais novo que caiu sentado na cadeira.
Será que Milo não via que não havia mais nada a ser feito?
Milo arregalou o olhar, momentaneamente desorientado. Então era isso? Não poderia contar com a ajuda do irmão? E sozinho não poderia fazer nada!
Que inferno!
— Do que estão falando? — Hades perguntou com as sobrancelhas erguidas, porém nenhum dos dois respondeu. Milo levantou-se o mais rápido que conseguiu e saiu correndo. — Onde pensa que vai? Milo... — Hades chamou antes que o loiro atravessasse a porta.
— Vou resolver um problema. — Gritou no meio do caminho. A raiva ainda permanecia em sua voz. Lançou um último olhar para o irmão que maneou a cabeça negando.
— Volte aqui garoto, eu ainda não terminei com você.
— Vou ter que viajar para França, não é? — O olhar triste do escorpiano não comoveu ao moreno. — Então me deixe ao menos resolver um problema antes. — Milo não esperou pela autorização do pai. Saiu antes que o homem pudesse detê-lo.
— Milo...! — Hades gritou. Até tencionou ir atrás do grego, mas foi impedido.
— Deixe-o ir. — Kardia pediu, segurando Hades pelo pulso.
— Como assim, deixe-o ir? Quer que eu aprove esse ato de rebeldia? — Vociferou o homem.
Os olhos de Hades possuíam um brilho ferino. Uma revolta incontida. Se Kardia ainda tinha dúvidas de que o homem sabia sobre Camus e Milo, esta foi sanada com aquela conduta, porque as únicas coisas que faziam Hades perder o controle era o que se relacionava a Camus.
— Não Hades, apenas quero que deixe que Milo e Camus passem esses últimos dias juntos. Deixe que se despeçam.
Os olhos de Hades tomaram uma forma grande. Dificilmente Kardia usava aquele tom com ele. Chamando-o pelo nome, como se repreendesse uma criança. O que aquela criança estava pensando? E como assim ele queria que abdicasse da posse de seu brinquedo? Mesmo que fosse apenas alguns dias, aquilo era inquestionável.
Mitsumasa assobiou como se elogiasse a inteligência de Kardia. E alertasse ao amigo que se controlasse.
— Não sei do que está falando. — Hades se recompôs, retomando o tom contido. Exibindo uma expressão blasé, puxando o braço da posse do filho.
Kardia suspirou cansado.
— Eu sei que você sabe. — Falou. Seus olhos encontrando os olhos frios do pai. — Que em se tratando de Camus você sabe tudo! Sei que sabe sobre o romance deles.
Hades sorriu sádico.
— Romance? — O moreno perguntou debochado. Seus dentes comprimindo seus lábios de excitação. — Então é verdade que Milo se apaixonou por aquele puto?
— Um puto que o senhor faz questão de manter como amante. — O grego rebateu.
— Camus não é meu amante. — Ditou sério. Kardia exibiu uma expressão desacreditada. — Acredite se quiser. Ele é apenas meu brinquedo. Uma marionete que não tem outra função além de ser controlado.
O escorpiano suspirou cansado daquela mesma desculpa.
Hades não via que ele falava sempre a mesma coisa, mas não percebia que ele era tão controlado quanto “seu brinquedo”.
— Não terá controle sobre ele para sempre.
— Também não vou abrir mão dele somente por que Milo se encantou.
Kardia respirou fundo para não gritar. Deu as costas ao pai, pronto para sair.
— Aonde você vai? — O moreno inquiriu.
— Não tenho paciência para essa ladainha. — Respondeu o loiro. Além de saber que não tinha viabilidade entrar em uma discussão com o pai, também queria se livrar da presença incomoda de Mitsumasa. — Ainda tenho outras reuniões. Então por favor, já que vai separá-los, tenha um pouco de piedade e deixe-os “se despedirem”.
Hades concordou para provar ao filho mais velho que poderia sim abdicar de Camus por alguns dias. Daria o gosto do doce ao filho mais novo, somente para espremer o dobro da quantidade de fel nos lábios de Camus. Porque ouvi-lo grita era a melhor melodia que podia escutar, além do mais, depois dessa pequena generosidade, tinha certeza de que Kardia o ajudaria a convencer o irmão.
— Depois do casamento, Milo vai para a França quer ele queira ou não.
— Vou convencê-lo. Não se preocupe.
— E Camus vai pagar caro por me colocar contra um dos meus filhos.
Kardia parou ao escutar aquela frase. Olhou para o pai duvidando o quanto daquelas palavras eram realmente voltadas a ele e a Milo e o quanto era uma doença corrosiva. Sim, porque aquilo não poderia ser outra coisa que não uma doença. O patriarca ficou observando a expressão de duvida do loiro, como se ele tivesse falado a coisa mais absurda do mundo. Kardia apenas virou-se e tornou a andar rumo à saída. Bem..., ele não poderia fazer nada além de lamentar o destino do ruivo e manter Dégel na ignorância das ações de seu pai.
— Não deixe que Milo saiba. — Pediu. Sabia que estava sendo um canalha, mas realmente não havia nada que pudesse fazer, afinal eram todos submissos.
Hades sorriu com o tom de descaso do filho.
Kardia conseguia ser tão frio quanto ele próprio. Desde que Milo estivesse bem, ele não se importaria quem estivesse “sofrendo”. E Milo, apesar de ter o mesmo sangue que Kardia, precisava de muitos anos de treino. Mas nunca era tarde para se treinar uma pessoa. Era?
O sorriso de Hades fez Shaka, que continuou dentro da sala, estremecer. O loiro não sabia exatamente como agir. Já estava acostumado a briga entre irmãos, mas era a primeira vez que presenciava desavenças entre pais e filhos.
Começou a recolher os relatórios.
— Pandora nos acompanhará no jantar? — Mitsumasa perguntou. Entretanto seu real intento era que Hades notasse que ainda estavam acompanhados.
— Não. Nós iremos... — Hades virou-se em direção ao sócio. Notando Shaka. — Saia. — Pediu não muito paciente.
— Com licença. — O loiro terminou de recolher os relatórios e deixou os dois a sós.
— Você precisa aprender a se controlar. — Começou o mais velho.
— Ora, não venha me amolar você também. — A rispidez na voz do moreno trouxe um sorriso divertido aos lábios de Mitsumasa. — Como eu ia dizendo... Nós iremos nos divertir na Imperius hoje.
Continua...
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