Fallen
18 Todos Submissos - Parte dois!
Notas iniciais

Todos Submissos – Parte dois!
Os olhos dourados avistaram Pandora antes mesmo que ela pudesse pisar no salão do Lusitania Seafood. Ela estava ainda mais encantadora do que antes! Como isso era possível? Pensou o homem que logo se levantou para cumprimentá-la e ajudá-la a acomodar-se.
Pandora sempre fora exuberante em sua totalidade. Seus cabelos negros, a tez pálida... Uma ninfa que não perdia a formosura com o passar dos anos.
— Que bom vê-la novamente, Pan. — Volveu com carinho.
A morena estudou o outro cuidadosamente. O terno Armani na cor cinza não conseguia esconder o predador que o vestia, nem mascarar as intenções do mesmo. Pandora sentia-se desconfortável ao ter os olhos dourados daquele homem mais uma vez voltados a ela.
— Gostaria muito que a reciprocar fosse verdadeira, Radamanthys. — Disse e o esnobou deliberadamente.
Radamanthys sorriu. Pandora se remexeu na cadeira.
Fazia alguns anos que não se viam e a morena preferia que continuasse assim. Da ultima vez, Hades o havia convidado para o aniversario de cinco anos de Sonnya, foi quando ele pediu para que ela abondasse o pai de sua filha e fugisse com ele. Quando era mais nova, bem antes de conhecer seu atual marido, Pandora desejou essa mesma atitude dele, mas Radamanthys tinha outros interesses e planos e ela não fazia parte de nenhum dos dois.
Radamanthys era o tipo de homem capaz de escravizar uma mulher com um simples olhar. Era forte e másculo e com a mesma arrogância descuidada que possuíam os homens de seu porte. Tanto os cabelos quando sua íris possuía um tom especial de dourado. A pele morena ainda possuía o bronze natural que sempre conservou. Um pequeno sorriso irônico surgiu nos lábios da mulher ao se perceber avaliando o homem a sua frente.
— Então, em que posso lhe ser útil? — O loiro perguntou.
O brilho dourado encontraram os olhos da morena. Queria que ela pudesse sentir o choque que seu magnetismo possuía. E o quanto a atração que ele ainda sentia era inegável
— Preciso de uma forma de impedir o casamento da minha filha. — Pandora se manteve fria e direta.
— Acho que não entendi.
Pandora suspirou e contou toda a historia para Radamanthys que lhe ouvia atentamente. Uma novela! Ele pensou. Mas a morena estava desesperada.
— Mande-a para outro país! — Disse como se fosse o obvio.
— O quê? Quer que eu fique longe da minha filha? De onde tirou essa ideia maluca?
— Bom, pelo o que intendi, você quer salvá-la de um casamento desgostoso e um possível neto ou neta da morte certa. — Ele resumiu. — As opções mais viáveis são: ou ela casa e dá ao marido uma criança prematura, ou ela foge e consegue viver “feliz para sempre”. Existem alguns países aonde o poder de Hades não alcança.
Pandora levou as mãos à cabeça, bagunçando um pouco os frios negros. Não queria ficar longe de Sonnya e não sabia quanto poderia confiar em Aioros para um segredo daqueles. O rapaz também não estava no clima de casamento, e ela sabia o porquê. Ele poderia facilmente dizer que não aceitaria o filho de outro homem e contar tudo a Hades e a filha estaria em maus lençóis da mesma forma.
— Não sei como posso fazer isso. — Expressou em um resmungo.
— Posso ajudá-la e deixar sua filha em segurança em algum país onde seu marido não tenha poder. Mas vai ter um preço.
O sorrio de escarnio de Pandora trouxe uma sensação desgostosa ao loiro.
— Sempre tem. — Disse. O tom frio novamente se fazendo presente. — O que você quer?
— Uma noite e tudo o que me prometeu. — Pandora engoliu em seco, mas continuou calada, esperando que Radamanthys continuasse. — Quero sentir a textura da sua pele contra a minha, quero sentir o gosto de seus lábios...
— Você está louco? — Pandora respirava com dificuldade. — Não brinque comigo.
— Não estou brincando! É o meu preço, é pegar ou largar.
Pandora estava encurralada, mas faria qualquer coisa para proteger sua filha e a criança dela.
— Quando?
— A fuga da sua filha, será no dia do casamento. Nossa noite... Não será agora. Primeiro cumprirei minha parte no trato.
— Certo. Só avise-me antes. — Pandora levantou-se pronta para ir embora.
— Não vai comer? — O sorriso serpenteava nos lábios do homem.
— Perdi a fome. — Disse, partindo antes que o outro inventasse outra coisa.
...Fallen...
Não era a primeira vez que Camus saía para correr com o intuito de aliviar a mente.
Durante varias vezes necessitou sentir o suor misturar-se a sua respiração eufórica e ao calor de sua pele para que conseguisse se sentir vivo: mesmo que por um curto momento. Sem contar que ajudava a colocar os pensamentos em ordem. O cheiro salgado da imensidão azulada trouxe lembranças do nostálgico dia em que adentrou ao mar como se sua sanidade pedisse desesperadamente por aquilo. Não era sua intenção se afogar, pelo menos não propriamente dito. Entretanto precisava de um escape e não tinha certeza se conseguiria retornar para a área segura novamente.
Estava desesperado, confuso. Experimentava sentimentos negados a ele por muito tempo.
Houve “outros Milos” antes. Pessoas não tão importantes, pessoas com muito dinheiro, houve até um amor, mas Hades encarregou-se de destruir todos. Um a um. E Camus não entendia o que havia feito para aquele homem lhe odiar tanto.
Seus pensamentos o perseguiam, precisava de um tempo ao ar livre. Tudo o que este Milo trouxe quando entrou em sua vida foi confusão. Era assim que deveria pensar até o outro se cansar de sua pessoa e ir embora, como tantos outros fizeram ou foram forçados a fazerem. Porém, o jeito sincero, os sorrisos meigos e a forma gentil lhe deram uma preocupação que não precisava para a sua vida podre: o significado de amor.
Ao menos pensou ter encontrado um amor de verdade.
Camus sentiu suas pernas pedirem por alivio. Assim como sua respiração irregular passar a causar uma dor incomodamente aguda na parte interior de sua caixa torácica. Parou e curvou-se um pouco, em busca de ar. A ideia de que precisava queimar parte da excessiva e enervante energia que o atacava impiedosamente se esvaindo conforme a dor aumentava. É! Estou ficando velho! Pensou massageando o local dolorido. A verdade era que gostaria de correr até o apartamento do grego em Stamford e dizer-lhe que tudo o que tinha dito era mentira. Que sua intenção era afastá-lo, mas que estava arrependido. E exigir sexo tórrido por uma semana ou mais. Mas, se o fizesse, estaria se afogando ainda mais. E além do mais que novas explicações daria para aquelas marcas em seus pulsos cobertas pelo moletom. Ou para as nadas graciosas marcas de chicotes em suas costas. E com a dor que estava sentindo, com certeza, não conseguiria cumprir seu intento de correr até o apartamento do outro.
E, no fim das contas, nem sabia se o loiro estava em Stamford.
Onde estava com a cabeça quando decidira contar a Milo que era submisso de Hades? Pensou sentindo o gosto amargo do arrependimento. Por mais que Milo o amasse ele sempre ficaria ao lado da família. E Camus não o culpava. Ele próprio era assim. Se algum dia tivesse que escolher entre Dégel e Milo, com certeza, seu laço de sangue seria mais forte que seu coração.
— Isso é culpa sua Camus. Quem mandou se apaixonar? — Murmurou, sentindo que seu corpo já estava pronto para retomar a corrida.
— Camus?
Alguém chamou e o ruivo virou-se rapidamente em direção ao som. Encontrou Dégel no outro lado da orla, ao lado de um grande pinheiro. As mãos finas apoiadas nos joelhos, respirando com dificuldade, fazendo um esforço homérico para puxar o ar para os pulmões. Camus sorriu, realmente, exercício físico não estava impregnado no DNA de sua família. Era só olhar as bochechas vermelhas e os olhos vítreos que exibiam dificuldade de foco para comprovar.
— Dégel? O que faz por aqui? — Camus perguntou ao se aproximar do irmão.
— Eu estava indo te visitar. — Respondeu leve.
Dégel tinha os olhos lacrimosos, não chegava a estar chorando de fato, mas Camus conseguia visualizar tristeza nos belos orbes violáceos. O mais jovem desviou momentaneamente o olhar, um novo incomodo assolou o mais velho.
Camus olhou ao redor, em busca de um estabelecimento que ele sabia existir por ali.
— Me acompanha num café? — Perguntou.
O mais jovem engoliu o nó que o incomodava, sua vontade era abraçar seu irmão e chorar copiosamente no colo dele.... Culpa, tristeza, dor. Não sabia dizer o quê exatamente, mas sentia-se imensamente culpado pela sina de Camus. E, bem lá no fundo, não sentira surpresa com as coisas que Kardia tinha contado sobre seu irmão. E não sabia como assimilar tudo o que ouvira. Quanto de sua pessoa estava envolvido nisso, se é que ele tinha algum envolvimento.
— Pode ser chá? — Dégel retrucou fazendo um bico manhoso para a oferta do ruivo.
Ambos os irmãos riram
— Ok. Eu abro essa exceção.
Camus abraçou o mais jovem pelos ombros e o guiou para a cafeteria.
Dégel sentia seu coração aquecido e em velocidade de foguete. Era tão bom sentir-se amado pelo mais velho. Não precisava da proteção de mais ninguém. Novamente o mar de perguntas previamente estabelecidas se apresentaram na ponta da língua. Tinha tanta coisa para perguntar ao irmão. Coisas tipo: Porque você é assim? O que te levou a se tornar isso? Eu sou culpado?
Céus. Eram tantas duvidas. Tantos pensamentos.
Simplesmente não sabia. Camus havia se tornado um mistério.
A sineta do estabelecimento o trouxe de volta a realidade.
O local não estava lotado e parecia ser bem aconchegante. E, enquanto Camus comprava um lanche pra eles, Dégel escolheu uma mesa ao fundo. O ruivo não demorou a retornar com uma bandeja contendo uma xicara com agua quente e um saquinho de chá de hortelã. Junto uma xicara de café com creme e uma rosquinha.
— Até onde lembro, seu preferido. — Volveu Camus colocando a xicara de agua quente e o saquinho de chá em frente ao irmão.
Dégel pegou o saquinho e mergulhou na agua quente e mexeu. Retirou o saquinho e o colocou em cima da bandeja. Provando o sabor único daquela bebida que ele conhecia tão bem. E que tinha um imenso gosto de carinho. Quase o fez chorar.
— Desculpe. Fui apresentando ao Earl Grey. — Brincou o aquariano mais jovem. — Mas é sempre bom relembrar o gosto refrescante da infância. — Disse.
Camus levantou as sobrancelhas.
— Earl Grey? Que é isso? Algum cantor famoso?
— Não. — Dégel negou choroso. — É um chá.
Camus sorriu. O irmão havia se tornado um homem mimado.
O ruivo deu uma mordida generosa na rosquinha.
— Então... A que devo a honra da visita? — Perguntou, também tomando um gole de café.
— Eu preciso ter um motivo para te visitar?
— Não necessariamente. Mas...
Dégel umedeceu os lábios. Tinha tantas perguntas, mas não queria estragar o clima ameno com o irmão.
— Eu passei a correr. — Falou como se fosse uma auto avaliação.
— Eu notei. — Camus mordeu novamente a rosquinha e tomou mais do café.
— Também estou procurando emprego. — Tentou continuar.
— Isso é ótimo. — Disse animado. — O que tem em mente?
“Detetive investigativo e puto nas horas livres.”. O cérebro do aquariano rugiu e Dégel mordeu a língua evitando que as palavras fugissem por sua boca.
— Ainda estou estudando as possibilidades. — Respondeu, mordendo o lábio ao fim.
Depois disso um silencio constrangedor tomou conta do ambiente. E os irmãos passaram algum tempo calados, apenas apreciando o gosto da comida.
Os pensamentos do mais jovem fervilhavam: O homem a sua frente em nada parecia com seu amado irmão mais velho. Talvez por ter consciência do que o outro fazia, ele agora parecia um estranho. Dégel não via como o mais velho poderia fazer tais coisas e conviver em paz e se perguntou o quanto era real o que conhecia de Camus. Como poderiam estar tão perto e tão distantes ao mesmo tempo? O que tinha acontecido para que o homem que admirava mais do que qualquer um no universo se tornasse um completo estranho?
A verdade nua e crua era que Camus nunca deixou ninguém se aproximar. Dégel particularmente nunca tinha visto o irmão com uma namorada ou namorado. Ou mesmo um amigo de verdade. Mas também quem iria querer namorar ou mesmo ter uma amizade saudável com um striper? O cérebro de Dégel foi maldoso e o aquariano massageou as têmporas. Não estava sendo justo! Atento as ações do irmão, Camus se perguntava que tipo de problema assolava a cabeça do mais jovem. E, em um ímpeto momento, ambos chamaram os nomes um do outro ao mesmo tempo.
Olharam-se profundamente.
— Fale você primeiro. — Camus cedeu.
Dégel mordeu o lábio com força. Os dedos se juntavam por baixo da mesa e o coração passou a bater disparado. Aquele seria um momento bem peculiar entre eles. O momento decisivo que Dégel jamais pensou que teria, pois Camus era extremamente reservado, até mesmo para com ele.
“Já te passou pela cabeça de que posso perguntar diretamente ao meu irmão?”— A pergunta audaciosa que se apresentou certa vez, em um conversa com Kardia, apresentou-se para Dégel, tão clara. “Você teria uma resposta se por acaso você chegasse a perguntá-lo?” outra pergunta da mesma conversa trazia o temor que sentia. Teria a resposta agora?
Só havia um jeito de saber.
Os olhos do aquariano mais jovem brilharam de expectativas. Aquele era o momento em que se decepcionaria com suas decisões e acabaria percebendo que deveria ter seguido os concelhos de Regulus e ter tido uma conversa com Camus. Uma conversa de verdade.
— Camus, você esconde ou algum dia escondeu alguma coisa de mim?
Mas, ao contrario do que pensou, Camus suspirou calmamente, colocou a xicara em cima da mesa e cruzo os braços, totalmente defensivo.
Não cometeria com Dégel o mesmo erro que cometera com Milo. O grego era alguém que ele tentaria esquecer, mas seu irmão era a coisa mais preciosa que tinha. Não podia ariscar perdê-lo.
— Não entendo. Que tipo de pergunta é essa?
O tipo de pergunta que se faz quando você descobre coisas horrendas sobre seu irmão. Pensou o jovem de cabelos verdes.
— É uma curiosidade particular. — Não mentiu totalmente. — Antes éramos tão unidos. E agora parece que tem um abismo entre a gente.
— É. Éramos muito unidos. — O ruivo falou pensativo.
— Porque não somos mais? — Indagou. Suplicante para que o ruivo não omitisse nada.
— Algumas coisas mudam. Com a gente não foi diferente. — Limitou-se Camus.
— Que coisas? O que aconteceu?
O ruivo sentiu-se em um interrogatório.
— Esse não é o momento, Dégel.
— E quando será?
Camus perturbou-se, porque Dégel estava vindo com todas aquelas perguntas? O ruivo passou a mão nos cabelos, um gesto de nervosismo que era compartilhado por ambos.
— Algum dia. Só não é hoje.
— Camus...
— Não! Dégel... Eu disse que não é hoje! — A rispidez do mais velho assustou Dégel.
O aquariano mais jovem baixou o olhar. Ali estava a resposta. Camus não confiava nele. Pelo menos, não a ponto de contar sua versão da historia ou qualquer outra meia verdade. E Kardia sabia disso, e usou isso a favor.
Como poderia o empresário conhecer melhor seu irmão do que ele próprio?
— Escute Dégel, você é meu irmão e eu o amo mais que qualquer outra coisa no mundo. Mas existem coisas que precisam de momentos certos. E esse não é o momento certo.
Dégel fechou semblante.
— Ok. Eu intendi. — Dégel levantou-se, não conseguia mais ficar ali. Estava decepcionado com o irmão. Reuniu toda a coragem que possuía para mirar nos olhos claros do outro. — Mas nunca imaginei que você deixaria que ele ganhasse.
Os olhos de Camus cresceram: a quem Dégel se referia? Seu íntimo perguntou, mas o ruivo continuou sem ação e não impediu que o irmão se fosse. Era melhor assim. Manteria Dégel na ignorância de muita coisa e principalmente, recluso de uma culpa que não era dele. Pagou a conta e foi para casa, precisava descansar.
...Fallen...
Não muito distante dali...
— Isso não vai dar certo! — Sonnya falou nervosa, bagunçando os cabelos mais do que já estavam. — É um plano muito arriscado, mãe.
Pandora também achava aquela saída complicada, e, sem contar, que levaria sua filha para longe, até chegou a questionar como diabos o homem que ela tinha encontrado na noite anterior tinha chegado àquela conclusão? Mas, sinceramente, ela não conseguia ver outra saída. Mas não lhe agrava nada contar apenas que havia países em que o poder de Hades era inexistente, bem como ele lhe explicou, porque, em se tratando de pessoas próximas a ele, Hades se transformava no senhor do universo. Pandora sentiu o peito apertar com a ideia que lhe era apresentada, mas pelo bem da filha e da criança que estava por vim, àquela era única opção viável. E o casamento seria o único momento em que todos estariam distraídos e Sonnya poderia escapar sem problemas.
— É o único jeito, Sonnya. — A morena falou. O semblante triste da mãe cortou o coração da rosada. Já havia pensado em tal possibilidade, mas o medo de que algo poderia dar errado e, com isso, aumentar à fúria de seu pai a fez desistir. Pois sabia que quem pagaria seria a progenitora.
— Eu não queria que as coisas fossem dessa forma. — Sonnya abraçou sua mãe pelos ombros e recostou a cabeça ali.
— Eu também não. Mas não há outro jeito. — Pandora afagou os cabelos da filha e beijou-lhe a testa. — Eu queria poder segurar seu bebê. Seria maravilhoso ser chamada de vovó.
A rosada sentiu o peito doer com sorriso lacrimoso de sua mãe.
“Onde sua burrice e precipitação havia a levado?”
— E se eu fizer meu pai me escutar? Talvez ele fique feliz em saber que será avô. — Cogitou ela.
Pandora afligiu-se com a ideia.
— Minha filha, seu pai detesta que a situação saia do controle dele. E você engravidar de um homem que ele nem sabe quem é, não está nos planos dele. — Sonnya juntou as mãos em frente ao corpo, andando de um lado para o outro, tentando achar outra saída. Não queria ter que se separar da família. — Sonnya, me diga quantas vezes seu pai lhe deu o que queria? Pense bem querida. Não terá outra chance de Liberdade.
A escorpiana ponderou.
Sua mãe tinha razão. Ela tinha que pensar, afinal foi por agir impulsivamente que agora estava naquele dilema.
Seu pai não era um homem comum. Nunca lhe dera as bonecas que pedira. Não foi a todas, ou melhor, a quase nenhuma das festinhas de dia dos pais. Não a deixava sair com as amigas e sempre afastava todos os pretendentes da garota. Praticamente estava forçando-a a casa e, se por ventura, ela chegasse naquele momento a dizer para o homem que estava gravida e que o pai não seria o homem que ele “escolheu” para ela... “Com certeza ele mataria essa criança e Regulus também.” Concluiu com pesar. Por falar em Regulus, ainda não tinha tido oportunidade de contar ao leonino que ele iria ser pai.
Passou à mão no ventre, uma nova onda de ânsia revirou seu estomago.
Precisava ser forte! Por ela mesma, por Regulus e pela vida que carregava.
— Mãe, me explica mais uma vez essa historia de fuga.
...Fallen...
Enquanto isso, no centro da cidade...
— Jornalismo não tem nada com o glamour que as pessoas imaginam. — Regulus fez uma careta ao escutar a frase torpe do novo colega de trabalho enquanto pegava um café. Depois de algumas horas na frente do computador, a ressaca finalmente se fazia presente na vida do leonino. — É serio... — O outro continuou. — Entrevistar gente famosa, receber convites para viagens fantásticas, ter contato com o poder, o dinheiro, o mundo fascinante da marginalidade, entre outras coisas... Não é grande coisa. Na verdade, é mais um emprego de merda, com um grande risco a mais.
Regulus riu da sinceridade do outro.
Então aquilo era jornalismo de verdade? Pensou ao encarar o homem que aparentava ser apenas um pouco mais velho que ele. Apenas um poço de reclamações para quem já estava dentro do sistema há uma relativa quantidade de tempo?
— Vejo que você anda um pouco insatisfeito.
— Não é bem insatisfação, sabe? — O homem soltou um suspiro frustrado. — A verdade é que passamos a maior parte do tempo em estações de trabalho com divisórias baixas de compensado, agarrado por dias ao telefone. Privacidade é apenas para os chefes, com seus aquários de vidro transparente, cujas cortinas podem ser fechadas quando bem entendem. E ainda assim, eles continuam, a saber, o que acontece do lado de fora. Enquanto isso, nós não conseguimos mais acompanhá-los.
— Ora, mais isso é fácil de resolver. — Alguém falou se aproximando dos dois rapazes. — É só você trabalhar bastante para virar chefe.
Regulus e o outro homem viraram quase que instantemente. Os olhos do leonino cresceram ao ver o vice-presidente da editora: um homem com um pouco mais de quarenta anos, uma altura considerável, coisa de um 170cm. Olhos verdes e tão límpidos que mais pareciam dois lagos. Curtos cabelos que iam até os ombros e uma tonalidade avermelhada. Regulus conheceu o homem quase que imediatamente, uma vez que tinha sido apresentado a ele logo cedo.
— Desculpe senhor Dohko... Nós não estávamos... Quer dizer...
Dohko riu.
— Tudo bem meu jovem. — O ruivo falou calmo, o que deixou o leonino um pouco mais leve. — Sei o quanto esse sujeito reclama.
Por um instante o grego pensou que estivesse em maus lençóis, mas a serenidade e o bom humo do homem junto dele e do colega linguarudo, trouxe um alivio.
— Você deve ser o cara novo. Certo? — Dohko perguntou. Também tinha ido ali pegar café.
— Sou, sim. Chamo-me Regulus.
— Eu queria mesmo troca uma ideia contigo. — Disse. Regulus franziu o cenho. — Vamos até a minha sala?
O leonino concordou em acompanhar o mais velho. Mas antes que ele pudesse sair, seu novo colega o segurou pelo braço.
— Escute amigo, selecione as informações, coloque um filtro nos olhos e nos seus ouvidos e só permita que entre aquilo que não vai deixá-lo para baixo, ok? Ok! Agora, boa sorte. — Desejou seu colega linguarudo. Regulus apenas maneou a cabeça.
Esse é doido! Foi o que pensou.
Ao chegar à sala, Dohko foi o primeiro a passar pela porta, e antes que Regulus o seguisse ele pediu que o leonino fechasse a porta o que o outro atendeu prontamente.
— Sente-se Regulus — Pediu/ordenou Dohko, sentando-se também.
— Então senhor, em que posso ser útil?
Dohko achou divertida aquela rigidez do mais jovem.
— Eu soube que seu trabalho extracurricular na faculdade foi sobre Kardia Onpreyde?
Regulus estava preparado para tudo, menos para aquela pergunta. Lembrar-se de Kardia, era lembrar-se de Sonnya e ele não queria lembrar-se da rosada. Queria apagar todas as lembranças que tinha vivido com a garota.
— Sim. Eu meio que tive que entrevistá-lo. — Tentou se o mais natural possível. Não queria demonstrar o aborrecimento que a menção do nome da família Onpreyde lhe trazia.
— E como foi?
— Relativo. — Dohko fez uma expressão vazia. E Regulus entendeu que o homem queria detalhes. — Ele não aceitou de primeira, disse que era um homem muito ocupado. Eu tive que insistir bastante. Marquei horário, copilei perguntas e fiz pesquisas importantes, mas no dia entrevista não pude comparecer. Acabei tendo que mandar um substituto porque fui acometido por uma virose horrível.
— Entendo. E você ainda tem esse material?
— Tenho.
— Ótimo... — Dohko sorriu. Há tempos queria uma ligação com aquela família, seu alvo verdadeiro era o patriarca, mas o homem era uma incógnita.
Entretanto, Dohko tinha um lema que dizia que toda incógnita tinha sua fração.
— Mas não tenho autorização por escrito para expor além dos muros Miller-Motte Technical College senhor. — Regulus apressou-se em dizer ao ver o sorriso satisfeito do vice-presidente.
— Acalme-se, Regulus. Não vamos fazer nada ilegal. — Lá estava novamente o jeito calmo e sereno que acalmava qualquer um. — Regulus, você sabe que Ômega York times é um dos maiores jornais do país. Certo?
— Certo?
— Então, não se preocupe. Vou conseguir essa autorização.
— Ok, senhor. Mais alguma coisa?
— Sim. Nosso jornal recebeu autorização para cobrir um evento importante que vai acontecer daqui alguns dias, na mansão da família Onpreyde. — O leonino sentiu o estomago embrulhar. Ele sabia bem que tipo de evento era aquele — E bom, apesar de você ser novato, você já tem um pouco de experiência com aquela família. Então eu pensei em te deixar responsável pela cobertura do casamento da filha mais nova de Hades. O que acha?
Regulus sentiu o chão sumir. Não, tudo menos isso! Choramingou internamente. Não conseguiria fazer aquele trabalho, não aguantaria ver Sonnya casando.
— Senhor, eu nem sei o que dizer. Eu agradeço a oportunidade, mas...
— Que bom que aceitou. — Dohko não deixou que o rapaz continuasse. — Assim não mando qualquer um. Apesar de você ser novo nisso, eu vejo futuro em você garoto. Agora vá trabalhar que tempo é dinheiro.
Regulus ficou sem ação. E agora o que faria?
...Fallen...
Quando Camus retornou para casa teve uma surpresa não tão agradável, sentado na recepção da entrada de seu prédio e que atendia pelo nome de Ikki Amamiya. O ruivo não estranhou a presença do rapaz moreno e de semblante seriamente austero que sempre estava ao lado de Saori. Achava até que o outro estava demorando a ir visitá-lo. A expressão dura do moreno deu lugar a um meio sorriso quando avistou Camus.
Ikki não subiu até o apartamento do francês porque o tinha visto sair, por isso revolveu esperar ali até que o mesmo retornasse. Sem contar que tinha que colocar seus pensamentos em ordem. Como fazia algumas semanas que não via Shaka tinha que ter uma boa desculpa para o loiro que prometeu comer seu fígado caso ele não voltasse ou sumisse sem dar noticia, como já havia feito anteriormente.
O leonino sorriu sarcástico, nunca tinha se importado tanto com a opinião de alguém, como se importava com a opinião de Shaka.
— O que está fazendo aqui? — O francês perguntou cortante.
Ikki se levantou a estendeu as duas sacolas – uma pequena e uma grande. – de papel que trazia para o striper.
— Saori pediu para entregar pessoalmente isso a você. — Camus pegou as sacolas da mão do moreno. Uma das sacolas era pequena, na cor vermelha, e tinha um emblema de uma grife conhecida estampada entre as alças. A outra era grande e em tom creme, mas sem qualquer adereço.
— O que é isso? — Inqueriu o ruivo.
— A sacola vermelha possuiu um convite impresso com letras cursivas e douradas e uma liberação com o endereço e o horário em que você tem estar para ser vestido para o casamento da Sonnya.
Camus engoliu seco, com assim iria ao casamento da filha de Hades?
— E na outra?
— Isso eu já não sei. Mas Saori disse que você vai se sentir intimamente familiarizados. Também disse que tem instruções dentro da sacola.
Camus temeu com tais palavras.
— E seu eu me recusar a receber?
— É a mesma situação de sempre.
Como já previra, a resposta era a mesma que estava acostumado a ouvir. Não sabia se Ikki entendia qual o significado daquela frase, mas sempre que a escutava Camus temia e agora isso acontecia em dobro, pois Dégel estava mais próximo.
— Até outro dia. — Ikki falou enquanto caminhava para fora do prédio.
Os encontros entre eles eram sempre assim... O moreno estava mais para garoto de recados, trazendo tarefas e ordens que Camus deveria cumprir. Mas o ruivo não sentia raiva ou mesmo magoa do moreno com aparência jovial e cara de mau. Ao contrario, via em Ikki um igual. Afinal, todos que não pertencesse à família Onpreyde era submissos de alguma forma. E aquela era a forma de Ikki pagar por alguma coisa.
Estava para entrar no elevador que o levaria ao seu andar quando escutou a voz rouca de Ikki.
— Eu não deveria dizer isso, mas... — Camus voltou sua atenção para o jovem. Ikki suspirou, o que estava fazendo afinal? Não deveria se meter na situação daquele homem e Saori havia dito que Hades queria ver uma surpresa aterradora nos olhos de Camus. — Mitsumasa veio para o casamento.
Camus estremeceu com a informação. Lembranças já vividas entre aqueles homens fez sua pele arder. As perversões de Hades não tinham limites e quando o moreno estava junto do “melhor amigo” a situação sempre ficava pior. O terror o atacou sem piedade, mas Camus conseguiu manter a fleuma.
— Obrigado pelo aviso.
O ruivo entrou no elevador e de repente foi como se tudo ficasse insuportável. A vontade de nunca mais acordar se fazendo tão necessária quanto à quantidade de ar que usava para respirar. Um terror secreto cheio de pensamento nefasto pegando-o completamente desprevenido. O ruivo ficou assustado. Seus olhos arderam e não demorou até que Camus os sentisse molhados. O ruivo piscou algumas vezes tentando se livrar das lagrimas. Saiu do elevador às pressas, quase caindo. Tudo o que queria naquele momento era a proteção de seu quarto. Meteu a mão no bolso da calça de moletom em busca das chaves, e quando estava quase chegando à porta de seu apartamento, um homem com uma fisionomia que ele conhecia muito bem saiu da outra extremidade do corredor, esticando-se como se tivesse passado muito tempo na mesma posição. O coração do ruivo deu um salto e imediatamente as sacolas foram ao chão. As lagrimas que o ruivo fez um esforço homérico para segurar começaram a cair e ele levou à mão a boca para evitar emitir os sons nada elegantes de choro que ameaçava sair.
— Camus!
O ruivo estremeceu ao ouvir a voz daquele homem. O homem que pensou que jamais voltaria a ver. O mesmo que julgou que o havia abandonado.
— Milo?!
Camus balbuciou como se duvidasse que o outro estivesse realmente ali. Milo por sua vez conseguia sentir toda a angústia e tensão do francês, e ficou sem entender o porquê do desespero do outro por vê-lo. Mas sentia-se imensamente feliz por saber que Camus sentira sua falta daquela maneira, a ponto de chorar. Mas doía-lhe o coração vendo o outro daquele jeito. Tanto que correu na direção do francês e o abraçou.
— Sim, sou eu. — Falou. Os braços de Camus rodearam seus ombros, em um abraço forte.
Como sentira falta daquele homem. Do cheiro... Do beijo... Do calor...
Camus suspirou profundamente, a fim de rememorar aquele cheiro. Levantou o rosto, seus olhos, ainda molhados, exibiam um misto de felicidade, tristeza e medo. Tinha medo de acordar e ver que a presença do outro ali não passou de um sonho. Um devaneio. Uma peça pregada por sua mente confusa. Milo fazia um carinho gostoso nas costas do francês, a fim de acalmá-lo. O loiro abraçou o ruivo novamente, mantendo os lábios próximos ao ouvido deste.
— Houve uma época em que eu queria muito saber o quê o atormentava — Milo começou. Camus ainda continuava dentro de seu abraço. — Agora que sei tudo o que quero é que esse tormento acabe. Me diz, como faço para extingui-lo.
Camus sorriu entre um choro de alivio. Milo escolhera ficar do seu lado. Apertou ainda mais o outro dentro do seu abraço. O grego conseguia ouvir o coração de Camus bater tão rápido quanto uma bateria de escola de samba.
— Sinto informá-lo, mas você não pode. — Sussurrou.
— É. Eu sei! — Devolveu no mesmo tom. Camus comprimiu os lábios. — Afinal, somos todos submissos, não é?
O grego levou a mão ao rosto de Camus a fim de acariciá-lo, o ruivo não fez objeção. Ao contrário, apreciou o singelo toque da mão do loiro que fazia um carinho leve pelo rosto afilado do aquariano, provocando tremores involuntários no ruivo. Camus sentia uma tensão suprimir seu corpo. Ao mesmo tempo em que era bom sentir aquele pequeno gesto de Milo, também era agoniante estar perto dele, ainda mais sabendo que logo mais ele teria que retornar para Hades, e, agora, também para aquele homem que o enojava mais que o moreno.
Os olhos azuis de Milo capitavam as reações do francês. Camus encostou a testa na de Milo e um meio sorriso brincou nos lábios do grego.
— Você quer me beijar?! — Sussurrou o loiro. Camus sorriu, lembrando-se daquela pergunta, quando pegou o loiro o olhando com um desejo de queimar a pele. Sentiu as bochechas arderem, agora os papeis estavam invertidos.
— Está tão obvio assim? — O francês respondeu no mesmo tom.
— Sim! Muito obvio! — Milo raspou o nariz ao do amante.
— Então não posso negar. Sim, quero beijá-lo! Quero muito beijá-lo. — Ditou o ruivo, deixando que seus olhos passeassem pelos lábios bem feitos do homem agarrado a ele.
— E por que ainda não o fez? — Continuou em tom sussurrante.
— Quero que seja consensual. — Camus brincou.
Milo sorriu. O aquariano afastou-se suficientemente para que conseguisse segurar o rosto do loiro entre suas mãos.
— Milo... Beije-me! — Pediu, minutos antes de sua boca ser tomada em um beijo quente.
Tinha muitas coisas que Milo precisava conversar com Camus, mas deixá-las-ia para depois. Depois que amasse seu ruivo. Não de seu pai, ou de Kardia, ou de qualquer outro. Camus era seu! Seu amor! Seu homem! E, apesar de ainda não saber como, monopolizaria o outro somente para si.
Continua...
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