Fallen
14 Marcas e Decisões!
Notas iniciais

Capitulo XIV — Marcas e Decisões.
A primeira coisa que Camus fez assim que chegou em casa foi ir direto para o banheiro: tomar um banho longo e demorado era tudo o que precisava para retirar o cheiro impregnante de podridão fixado em seu corpo, em sua pele, e, principalmente, em sua alma.
Todos os seus músculos reclamaram quando ele entrou na banheira cheia de água morna, foi impossível não soltar um gemido baixo. Suas costas ardiam e suas pernas doíam.
Hades havia sido cruel! O marcara de um jeito que não deixasse dúvidas a quem ele pertencia.
— Tire a roupa e curve-se sobre o divã. — Camus tremeu ao escutar a ordem de Hades, mesmo assim, obedeceu. Ficou completamente nu, ajoelhou-se próximo ao divã do quarto e curvou-se sobre ele.
O moreno acariciou gentilmente os cabelos de Camus, afastando-os para o lado. Deixando as costas brancas totalmente expostas. Correndo seus dedos pela pele macia e imaculada até as suas nádegas de carne leitosa, posicionando-o como o queria.
— Lembre-se Camus, estou fazendo isso para que se recorde de que você pertence a mim!
O ruivo não estava preparado para o que viria a seguir... Fazia tanto tempo que aquilo não acontecia e foi tão de repente... Camus nem teve tempo de associar quando o chicote de ponta laminada lhe acertou a carne, deixando um vergão imenso. Foi impossível conter o urro de dor e o trincar de dentes.
— Será mais quatro iguais a essa. Conte, Camus! — Hades ordenou, se deleitando com expressão de dor que o francês exibiu.
— Um! — A voz do ruivo saiu sufocada.
— Para que se lembre de que não deve me afastar de você! — Uma nova chicotada acertou as costas de Camus.
— Dois! — O numero saiu como um grito. A expulsão de algo ruim.
— Você deve sempre me esperar quando eu ordenar! — Hades ditou com a respiração irregular.
— Três! — Murmurou Camus, fechando os olhos e se preparando para a próxima.
— Você deve amar somente a mim!
— Quatro!
Camus murmurou sufocado, sentindo a carne tremer. Respirou profundamente, engolindo a enorme vontade que estava sentindo de chorar. Não queria que Hades o visse tão humilhado.
Hades se aproximou e tocou o rosto do francês.
— Por favor, Amo, deixe-me ir... Eu não...
— Shh... — Hades sentou-se ao lado de Camus, que ainda estava de joelhos, e o obrigou a colocar a cabeça em seu colo. Acariciou os longos cabelos ruivos do francês. — Sempre se lembrará disso, não é Camus?
— Sempre, meu amo.
— Agora você pode ir.
Fora um alívio escutar aquelas palavras... voltar para casa e esfregar sua pele até entender que ele não poderia retirar aquelas marcas de seu corpo e de sua alma era um alívio.
A água bateu nos cortes feito pelo chicote, Camus resmungou.
Terminou o banho e vestiu um roupão. Enxugou os cabelos e os colocou de lado. Aquela dor em suas costas era incômoda, olhou-se no espelho. Arregalou o olhar ao ver o estrago, aqueles cortes rasos e vergões demorariam semanas para desaparecer... Cobriu-os com uma longa camisa de manga comprida.
Ficou indeciso entre ligar para Milo ou não e quase chorou de felicidade ao escutar a voz do grego.
— Como você está? — O loiro perguntou inocente.
— Inteiro. Eu acho. — Respondeu. Queria que sua voz transparecesse firmeza, mas falhou miseravelmente.
— Posso te ver amanhã? — Sondou o escorpiano.
— Acho melhor não...
Camus foi evasivo. Milo sentiu que o francês lhe escondia algo.
— O que está me escondendo, Camus? — Não obteve resposta. — Camus? Você está ai?
Flashes de uma semana horrível o atormentaram.
— Milo, por favor, diga que ama. — Suplicou, seu olhos brilhavam e o peito doía.
— Eu te amo! E estou indo agora encontrar você!
Camus não teve forças de retrucar. Simplesmente não conseguiu evitar o choro dolorido de seu corpo e de seu coração.
Milo sentiria repulsa quando o visse o estado em que estava.
...Fallen...
Ikki chegou ao apartamento que dividia com irmão por volta das nove da manhã. Com certeza, o mais jovem dos irmãos Amamiya, estava extremamente preocupado com sua falta de atenção em avisar onde estava, e, provavelmente, brigaria com ele mais uma vez.
Ikki já estava acostumado com as advertências do mais novo, as cobranças para que avisasse onde e com quem estava.
Shun sempre tomava a responsabilidade de irmão mais velho para si uma vez que Ikki era muito taciturno e teimoso.
Você não sabe o quanto eu fico preocupado, Ikki.— ele sempre dizia. Mas o leonino era dono do próprio nariz. Ia aonde queria e vinha quando queria.
Você tem que se preocupar mais com você e menos comigo. — o rapaz sempre retrucava.
— Droga. Esqueci as chaves mais uma vez. — Resmungou passando as mãos nos bolsos e não encontrando as chaves que o irmão havia feito a gentileza de colocar em um único chaveiro para ele.
Shun não pegaria leve nas reclamações!
Tocou a campainha e esperou.
Já havia começado a armar sua defesa contra os alardes do caçula quando Hyoga abriu a porta, fazendo-o piscar algumas vezes.
— Quem é você? — Ikki perguntou com o semblante fechado. O loiro usava somente uma toalha enrolada na cintura.
— Isso sou eu quem pergunta. Quem é você? — O russo devolveu com as sobrancelhas arqueadas.
Ikki abriu a boca para retrucar, mas foi impedido pelo som de seu nome gritado ao longe.
Sorriu leve ao avistar o rosto cansado do irmão. O corpo magro estava coberto por uma roupa de corrida e os olhos esmeraldinos estavam terrivelmente enviesados em sua direção.
Shun caminhou rápido na direção de Ikki. Seu olhar estava terrivelmente ameaçador. Ikki recuou alguns passos, receoso.
Olhou em direção ao loiro parado à porta, Hyoga lhe devolveu o olhar de surpresa. Também não sabia por que Shun estava tão irritado com o moreno que aquela altura ele já havia calculado se tratar do irmão do menor. Embora eles não se parecessem nada fisicamente um com o outro...
Enquanto Shun tinha aquela aparência inocente, que mais a frente Hyoga descobriu que de inocente ele não tinha nada, e o jeito gentil, Ikki parecia ser o oposto; o moreno possuía um rosto austero e uma expressão dura, estilo bad boy em época de escola. Sem contar que Shun era branquinho e Ikki mais moreno. A divergência no porte físico também era algo bastante considerável.
— Shun... eu...
O virginiano abraçou o irmão mais velho com força.
— Você quer me matar de angustia, é?
Ikki amainou o semblante e Hyoga pode finalmente achar um rastro de familiaridade entre os irmãos.
— Shun. — Ikki devolveu o acerco do mais novo. — Eu estou bem, irmão!
— É, mas bem que você poderia ter me avisado. — Os olhos de Shun estavam brilhantes. — Telefone existe para isso, sabia?
Ikki sorriu.
— Desculpe-me.
Shun suspirou cansado, o que poderia fazer se não desculpar o irmão mais velho?
Ikki provavelmente nunca iria mudar.
— Tudo bem. Está com fome? — Perguntou o mais jovem.
— Posso comer alguma coisa. — O leonino respondeu descontraído. Iria comer de qualquer jeito.
— Ah, antes que eu me esqueça... Ikki, este é Hyoga, meu namorado. — O moreno quase teve um infarto ao escutar aquela afirmação. Seus olhos imediatamente capturaram os do loiro de forma sisuda. — Hyoga, este é o Ikki... Meu irmão.
Hyoga tremulou com o olhar cortante que Ikki lhe lançou, porém se manteve firme. Se estava disposto a quebrar a distancia que o separava de Shun, peitar o irmão dele então seria a coisa mais fácil do mundo.
— Prazer!
Ambos disseram ao mesmo tempo.
Assim que entraram no apartamento, Hyoga tratou de se vestir e Shun foi para o banheiro: tomaria um bom banho antes de acompanhar o namorado até o aeroporto. Ikki aproveitou a distração do irmão e foi direto ao local onde havia colocado suas chaves, mas as mesmas não estavam mais lá.
— Viu minhas chaves, Shun? — Ikki perguntou alto.
— Estão com Hyoga. — O mais novo respondeu do banheiro. O leonino olhou com desagrado em direção ao loiro que sorria vitorioso e balançava o objeto para que o cunhado conseguisse vê-las. — Faço outra para você depois.
— Quando pretendem morar juntos? — Alfinetou Ikki totalmente embirrado.
— Logo. — Volveu Hyoga, adorando ver a cara de poucos amigos do cunhado.
O loiro foi para a cozinha, prepararia um café da manhã para o namorado antes de partir. Fez suco de laranja, torradas e fatiou queijo, o presunto e o bolo que tinham comprado no dia anterior. Cortou algumas frutas também.
— Quer comer alguma coisa, cunhadinho? — O loiro exibia um semblante irônico.
— Seu fígado. — Respondeu baixo. Hyoga franziu o cenho, não havia conseguido entender. — Deixe que eu mesmo me sirvo. — Falou mordido.
— Nossa, que lindo. — Shun comentou assim que chegou a cozinha.
— Eu sei. Sou irresistível. — Comentou o loiro. Shun sorriu feito bobo, com suas bochechas coradas e Ikki revirou os olhos.
— Bobo. Não estava falando de você, mas dessa mesa linda que você preparou.
— Pra você! — Disse e recebeu um apaixonado beijo de Shun.
Ikki suportou aquilo durante todo o café e durante toda a viagem que se seguiu até o aeroporto. O leonino fez questão de acompanhar o irmão. Precisava conversar com ele sobre um assunto imensamente importante.
— Não está se esquecendo de nada, Hyoga? — Shun perguntou assim que colocaram o pé no aeroporto.
— Acho que não. — O loiro respondeu. — Eu não trouxe quase nada.
— Passagens e passaporte? — Insistiu o virginiano. Hyoga sorriu.
— No meu bolso. Não se preocupe anjinho, prometo que no próximo final de semana estarei aqui e será para ficar. — Disse e beijou Shun que retribuiu sem se importar onde estavam e se tinha alguém olhando.
— Sentirei saudades.
— Eu também.
Mais um beijo foi trocado.
— Você vai se atrasar. — Ikki retrucou. Não aguentava mais tanto açúcar.
— Até a volta, cunhado.
A última chamada para o embarque fez o casal se soltar e Hyoga dirigir-se ao portão de embarque. Shun ainda acenou uma ultima vez.
— Pare com isso! Ele não disse que estará de volta no próximo final de semana? — Perguntou o moreno irritado.
Shun o olhou com o semblante vazio, olhando dentro dos olhos ferinos do irmão.
— Por que diabos está tão irritado? — Shun perguntou, suas sobrancelhas finas estavam juntas no alto da testa.
Ikki suspirou cansado.
— O avô da Saori está vindo para Yonkers. É motivo suficiente?
Shun arregalou o olhar.
— O senhor Kido está vindo para cá?
Ikki meneou a cabeça.
— E ela já sabe?
— Sim.
— Kardia?
— Não tive tempo ainda.
— Entendo. Falarei com ele.
— Acho que esse é o momento perfeito para ele voltar para Stamford. — Shun olhou para o semblante serio do mais velho e mordeu o lábio inferior com força.
Tempo ruins estavam por vir!
...Fallen...
Os olhos de Camus brilharam e ele sentiu a vontade de retomar o choro copioso lhe abater com força assim abriu a porta e vislumbrou a imagem de Milo. Tão lindo, tão sexy, com seu sorriso de menino e os cabelos desalinhados.
— O que houve? — Milo perguntou invadindo o apartamento do francês, preocupado. O rosto e os olhos de Camus estavam terrivelmente vermelhos. — Você andou chorando?
Camus direcionou seus olhos para baixo, fixando-os ao chão.
— Um pouco! — Murmurou. Um nó preso em sua garganta. — Dégel ligou ainda há pouco, mas... Não consegui falar com ele.
— Por quê? — Milo o olhava curioso.
— Não tive forças... — O francês sentia seu coração bater aos pulos, venceu a distância entre ele e Milo e o puxou para um abraço. Necessitava do calor do outro. — Eu não consegui contar a ele...
As lágrimas voltaram ao rosto do francês.
— Contar o quê, Camus?
— Também não sei se conseguirei contar a você...
Milo afastou um pouco o aquariano, olhando dentro dos olhos avermelhados que ele possuía. Camus parecia uma criança assustada, com sua inocência destruída pela maldade do mundo.
Um infante pedinte como ele e Kardia fora um dia antes de ser adotado.
— Camus, você está me assustando. O que você não conseguirá me contar? Por que está com uma expressão desolada?
Desesperado, o francês passou os braços ao redor do escorpiano na tentativa de trazê-lo mais junto a si possível. Se pudesse, não o largaria nunca. Encaixou sua boca na dele, abrindo a própria para que sua língua pudesse saudar a do outro. O loiro retribuiu ao ato desesperado do ruivo.
Aquele homem a sua frente em nada se parecia com o homem que havia conhecido.
Há muito custo Milo conseguiu desvencilhar-se do aquariano.
— Milo, eu tenho tanto a te contar. — Camus falou, seus dedos tocaram o rosto do grego.
Milo engoliu seco. A expressão séria de Camus lhe deixou receoso. Sentia que aquele era um momento crucial.
— Depois. Agora, você me parece muito cansado. Que tal descansar um pouco? — Sugeriu.
Camus concordou. Seria bom ter um tempo a sós com Milo, algo para ser lembrado se por acaso ele não lhe entendesse e resolvesse partir de sua vida de vez. Nem sabia de onde havia tirado coragem para falar, contar a Milo toda sua historia. Talvez tenha sido o sonho ruim que havia tido, ou talvez estivesse cansado daquela vida. Só sabia que precisava de ajuda. Havia se metido em um abismo e já estava na hora de sair dele.
Dégel já era um adulto e se precisasse eles se uniriam. Mas não aguentava mais.
Milo havia notado a agitação de Camus. O francês não se parecia em nada com o homem frio e decidido que era. Ele e Camus foram ao quarto do aquariano e Milo deitou junto com ele na cama. Ficaram abraçados, apenas sentindo o calor um do outro. Milo beijou o topo da testa de Camus, sentindo-o aninhar em seu peito.
O loiro tocou gentilmente os fios rubros, mantendo um ritmo cadenciado de vai e vem até que Camus adormecesse.
...Fallen...
Regulus sorriu nostálgico. Seus olhos recaiam sobre a tela de seu notebook e vislumbravam o rosto rosado de Sonnya ao lado da família: irmãos, pai e mãe.
A garota em nada parecia com os irmãos, também pudera, eles eram adotados. Em contra partida era a copia da mãe, com exceção dos olhos: esses transcendiam a essência de Hades.
— Será que eu preciso mesmo de uma lembrança de sua beleza, Sonnya? — Perguntou acariciando o rosto da jovem pela tela do note.
Depois que conheceu Sonnya pessoalmente, fez questão de ter aquela foto salva em sua área de trabalho, assim, conseguiria olhá-la mesmo que ela não estivesse presente.
E lá estava ele, olhando para “ela”, seus olhos se encontrando. Era como se Sonnya estivesse gargalhando, rindo da ingenuidade dele.
— Droga! – murmurou fechando o notebook com força.
Regulus juntou suas pernas contra seu peito e apoiou sua cabeça nos braços.
Seus sonhos foram todos despedaçados. Estava planejando oficializar o namoro com a menina de cabelos coloridos, falar com o pai e os irmãos dela e futuramente, quem sabe, casarem-se.
— Mas ela já vai casar com outro. — Lamentou baixinho. — Eu desejo sumir! Quem sabe assim esta dor absurda possa ficar menor, se eu sumir. — outro murmúrio decepcionado.
O peso em seu peito era grande. Não conseguiu deter as lágrimas que teimaram em sair. Por que eu estou chorando? Fechou-se ainda mais contra seu peito e deixou as lágrimas saírem descontroladas.
— Eu, chorando por algo que nunca tive de verdade. Que ridículo! — Falou baixo e entre soluços.
Nunca havia se sentido assim antes. Apesar de já ter namorado outras garotas antes, Sonnya era a primeira garota por quem chorava. Na verdade, era a primeira por quem sentia algo fora do normal.
E, por algo fora do normal, ele tinha por querer encontrar a garota novamente depois de dormirem juntos. Beijá-la em publico sem ser para mostrar aos amigos a nova gata que estava pegando. Andar de mãos dadas na rua e agendar o próximo encontro... Agora, estava tudo acabado.
O leonino não dormiu aquela noite e só veio a sair do quarto no dia seguinte, às quatro da tarde. E somente o fez, pois Dégel ameaçou colocar a porta do quarto abaixo se o leonino não resolvesse logo dar as caras.
O aquariano não perguntou nada, apenas serviu um pouco de chá e algumas bolachas ao amigo que não retrucou pela bebida fraca.
— Obrigado pelo chá... — Murmurou angustiado. Olhou vazio para o chá fumegante.
Dégel balançou a cabeça, precisava fazer algo.
— Nossa... pelo jeito está horrível. — Gracejou o aquariano, tentando inutilmente arrancar uma risada de Regulus. Não precisava ser algo grande, apenas um simples movimentar de lábios já estava bom.
— Não... está ótimo. — Falou o grego. Apesar de saber que o chá realmente estava ótimo, pois Dégel era um excelente cozinheiro, o gosto não fez jus ao seu paladar que só sentiu gosto de água. — É só que...
A angústia na voz do leonino arrancou um suspiro pesado de Dégel.
O aquariano examinou com atenção a fisionomia de seu amigo: os olhos brilhantes e tenazes estavam opacos, como o deserto. Regulus estava destruído, frustrado e sem nenhuma condição de argumentar o que quer que fosse.
Dégel bagunçou os cabelos, gesto que sempre fazia quando ficava nervoso: aquela altura todo o seu controle já tinha se evaporado.
— O quê, Regulus? Vai dizer que a sua vida acabou somente por que foi enganado? — Apesar do tom rude, o francês não levantou a voz.
Regulus não respondeu, Dégel ficou ainda mais irritado.
— Escute, eu sei que deve estar doendo e não faço a menor ideia do quanto. Você foi enganado e isso é ruim, com certeza, mas você não é o primeiro e, infelizmente, meu amigo, não será o ultimo. Provavelmente não será a ultima vez que isso acontecerá com você, então, por favor, mostre a ela que você é forte o suficiente para superá-la.
Dégel falou desesperado. Regulus escutava a voz do amigo bem longe.
— Ela me destruiu, Dégel. — Uma lágrima rolou pelo rosto do leonino.
— Eu sei, leãozinho. — Dégel abraçou o amigo com força e acariciou os cabelos enrolados. Regulus, institivamente o abraçou pela cintura e recostou sua cabeça do colo dele. — Mas você vai superar.
— Eu não sei, Dégel. Eu... — Regulus soluçou. As mãos frias de Dégel passavam por suas costas e cabelos, reconfortando-o. — Eu só quero ir embora. Eu preciso levar meu frágil e ferido orgulho para longe. Preciso curá-lo antes de superar qualquer coisa.
O aquariano mordeu o lábio com força, Regulus estava equivocado.
— Você não precisa ir para lugar nenhum, Regulus. — Dégel ainda estava agarrado ao amigo. — Tudo o que você precisa é de um pote de sorvete de blueberry* e alguns filmes melodramáticos. Uma música ao fundo e quem sabe, um pouco de caminhada na praia.
Regulus levantou o rosto, cruzando seu olhar com o de Dégel, capturando um rastro de ironia nas palavras do aquariano. E depois de alguns minutos avaliando, sorriu leve.
— Oh, Dede, somente você para me fazer sorrir. — Regulus enxugou o rosto com as costas das mãos. — E de onde diabos foi que você tirou essa de sorvete de blueberry? Esse sabor existe?
Dégel sorriu travesso.
— É claro que existe! E esse seria um bom momento para experimentá-lo. — Falou piscando divertido para o amigo.
Regulus soltou um pesado suspiro. Terminou de tomar o chá e comer as bolachas.
— E agora? O que pretende fazer?
— Esquecê-la. — Falou como se fosse o óbvio. — Vou trocar meu número de celular e não vou atender quando ela ligar e se por ventura ela vir até aqui, então... eu não a deixarei entrar.
Dégel sentiu a dor que o amigo expressava em suas palavras.
A atitude de Regulus não poderia seguir daquela maneira. Tudo bem que ele precisava reconstruir, tocar a vida pra frente, mas se o sentimento que ele e Sonnya sentiam um pelo outro fosse verdadeiro, então aquela era uma atitude precipitada e só magoaria ainda mais os dois.
Somente o tempo pode restaurá-los! — Seu cérebro acusou.
— Por hora, acho que você deve se focar em seu trabalho como jornalista júnior e deixar que o tempo resolva a sua situação. O mundo dá volta Regulus, e nem você e nem ninguém pode prever o que está por vir.
— Você está tão falante hoje, Dégel.
— Apenas, cansei de correr atrás. Vou usar as oportunidades ao meu favor. — Falou olhando o vácuo.
Regulus olhou Dégel profundamente, analisando os gestos nervosos e o colocar de alguns fios esverdeados atrás da orelha.
— O que está tramando, Dede?
— Nada de mais. Não se preocupe. — Volveu o aquariano confiante. — Apenas concentre-se no que é importante para você agora.
— E você? Em que está se concentrando nesse momento?
— Estou preparando um curriculum. Preciso conseguir um emprego. — Respondeu meia verdade. — Agora se me dá licença, preciso formular algumas coisas nele, no curriculum.
— E o que já colocou até agora? — Indagou o grego.
— Bem... vejamos: sou muito pálido, fraco e possuo uma horrível cabeleira verde. Tenho péssima coordenação e sou uma negação em qualquer campo esportivo. — Dégel tinha a mão no queixo e o olhar fixo em Regulus. — Minha lista é longa...
— Agora sei por que você espanta todos os seus pares românticos.
Regulus gargalhou e Dégel o acompanhou.
— Não vai mesmo me dizer o que você está tramando, não é?
— Por hora, não.
— Só me prometa que não fará nada que o faça se arrepender depois?
— Não posso fazer esse tipo de promessa, Regulus. Pode ser que eu não consiga cumpri-la.
— Dégel...
— Por favor, me deixe cometer meus próprios erros. Obrigado pela preocupação, mas nem você e nem Camus poderão me proteger para sempre.
Regulus coçou a cabeça, perturbado. Dégel estava sendo incisivo demais.
— Ok. — Regulus deu-se por vencido. Não tinha forças para argumentar contra Dégel. — Mas prometa que me deixará ajudá-lo sempre que necessário.
— Com certeza, você saberá se eu me meter em problemas, leãozinho.
Aquilo não era o bastante, mas por hora era tudo o que conseguiria de Dégel.
O aquariano não se prologou mais na conversa com Regulus, encaminhou-se para seu quarto e discou o número já gravado em sua agenda. Não demorou até que a voz grave e seca atendesse.
— Alô.
— Preciso falar com você. E tem que ser esta noite. — Falou rápido, sem dar chance de o outro pensar.
— Esta noite? — O francês quase poderia vislumbrar a cara de interrogação de Kardia. Dégel respondeu positivamente ao grego. — Ok. Mandarei buscar você.
— Estarei aguardando ansiosamente. — Falou antes de desligar.
Os olhos exóticos do aquariano fixaram-se no amontoado de papéis redigidos próximo ao seu computador. Kardia queria algo dele e o contrario também acontecia, porém Dégel tinha inteligência acima do desejo e amor para com seu irmão e seu amigo.
Kardia estava lhe dando uma brecha e ele aproveitaria para tirar tudo o que precisava através dela.
Continua...
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