Fallen

3 A proposta de Milo!


Notas iniciais
**Capitulo NÃO betado! **Boa leitura a todos!

Capitulo III — A proposta de Milo!

Os olhos castanhos avermelhado estudavam todo o local minuciosamente. Admirando os utensílios finos. Os vasos de porcelana decorados com flores e desenhos.

O lustre delicado no centro do quarto. A cama arredondada e bem arrumada, com dobras perfeitas nas pontas, mantendo o lençol esticado. Uma rosa solitária se fazia presente no meio da cama. O cheiro de limpeza desprendia do ambiente. Uma luz tenra entrava através da cortina fina.

Aquilo chegava a ser assustador. Alguém pagar tanto... Gastar tanto luxo por uma transa... Não tinha cabimento. Aquele programa iria sair bem mais caro que o dinheiro pago. Ainda lembrava-se dos últimos que tinham pagado tanto. Dor e humilhação eram o que ficava marcado na alma.

Aproximou-se da cama e tocou o tecido macio. Pegou um – dos muitos – travesseiros existentes ali e apertou conta o peito, sentindo toda a macieis do objeto. Sorriu amargo. Com certeza, mais um depravado sem escrúpulos tinha pagado por aquilo. Por horas que seriam intermináveis...

Mas já sabia como levar aquilo. Bastava colocar um sorriso sínico no rosto e encenar. Colocar para fora sua forma depravada. Agir como se fosse um soberano: Frio e intocável. Enquanto seu corpo fosse alvejado, de forma a conceder prazer a quem quer que fosse, colocaria um sorriso de desdém no rosto e suportaria. Mesmo que no fundo, desejasse que aquilo acabasse, sorriria ate que seu tormento tivesse fim.

Tinha aceitado aquela condição e não se arrependia por isso. Amava o irmão e faria qualquer coisa por ele... O som abafado de passos no corredor fez seu estomago gelar, enfim, era hora de encenar.

Colocou o travesseiro de volta no lugar. Soltou os cabelos do elástico que os prendia. Sentou-se na cama e pôs um falso, porém convincente, sorriso depravado no rosto e esperou a porta abrir-se...

...Fallen...

Degel respiro fundo ao se ver fora do prédio da Giudecca Corporation. O ar úmido que entrou em seus pulmões trazia uma sensação nostálgica ao seu coração. Fazia-o lembrar de sua infância e consequentemente de seu irmão. Talvez fosse apenas o fator surpresa vindo lhe assolar, afinal era a primeira vez que se sentia daquela maneira... Perturbado e totalmente desorientado.

Nenhuma pessoa — Homem ou mulher — Jamais tinha lhe afetado daquela maneira. Do modo como Kardia Onpreyde havia feito. Um único encontro foi o que bastou para tudo começar a ruir.

Respirou fundo mais uma vez, tudo estava acelerado dentro do peito.

Talvez tivesse sido atraído pela aparência do homem. Afinal, mesmo com a cabeleira azul, homem se tornava alguém atraente, charmoso e extremamente sexy. Poderia ter sido a civilidade exercida nos poucos instantes em que permaneceram juntos, tornando Kardia um homem inteligente, a sua maneira, mas era. A riqueza era algo que estava descartado, não tinha dinheiro o suficiente, mas estava feliz com o pouco que tinha. O Poder... isso nem existia em suas objeções do por que seu interior estava revirado. Definitivamente tinha odiado como o outro se referia aos demais...

Suspirou aliviado por estar no lado de fora do edifício. Mesmo o coração estando desestabilizado, podia respirar normalmente de novo. Dirigiu-se ate o carro, colocou as mãos no volante e deixou os limites da cidade.

Um constrangedor rubor tomou sua face ao reproduzir mentalmente a entrevista. Estava certo de que estava reagindo a algo manuseado em sua imaginação. E dai que o outro era atraente, confiante, autoritário, à vontade consigo mesmo? O empresário também tinha outro lado... Um bem arrogante por sinal. E mesmo com todos os seus modos impecáveis, ele tinha sido um tanto quanto... frio!

Ora, a quem estava querendo enganar? Kardia podia ser arrogante o quanto quisesse, mandar e desmandar o quanto quisesse. Era um homem digno de inspiração, Pois tinha conseguido muito para a pouca idade que tinha.

“Ele não suporta os imbecis, mas por que deveria?” pensou novamente, irritado por Regulus não ter lhe passado nada sobre o empresário. E por estar concordando com o outro. Mesmo que involuntariamente.

“Você é gay, Sr. Onpreyde?” a frase veio ate sua mente, fazendo seu corpo estremecer e suas bochechas ficarem vermelha. Daquele dia em diante, toda vez que pensasse sobre aquilo ficaria envergonhado.

Ele era assim. Alguém que se envergonhava por tudo. Que se constrangia por tudo. Vivia em constante crise com seu cérebro e, às vezes, tinha impressão de que o mundo todo podia escutar o que pensava e as alfinetadas mordaz que levava. Algo totalmente desnecessário.

— Droga! — Murmurou angustiado. — O que estava acontecendo afinal?

Uma buzinada o trouxe de volta a realidade. E a realidade o mostrou que tinha ultrapassado o sinal vermelho e quase batido com o carro de Regulus.

— Tinha que ser bem na frente de um foto sensor? — Choramingou ao notar seu futuro delator. Sem sombra de duvidas Regulus ganharia uma multa por não estar dirigindo.

A lembrança de dois olhos azuis penetrantes olhando lhe e uma voz dura o repreendendo penetrou em seus pensamentos. Agitou a cabeça, precisava se concentrar na pista.

“Tá, foi uma experiência muito interessante, mas não existe possibilidade de insistir nisto, portanto, deixe isto para trás! Você nunca mais vai vê-lo novamente” foi repreendido.

Ia ligar o mp3 mais desistiu da ideia. Se um simples momento estava tirando seu norte aponto de quase fazê-lo causa um acidente e ainda ganhar uma multa, imagine o que aconteceria se achasse uma musica ideal para os dois?

— Oh, meu Deus... O que estou pensando? Uma musica para nós? Isso é ridículo! — Choramingou com o novo martírio.

Estava intimamente agradecido por estar chegando em “casa”. No apartamento que dividia com Regulus. Agradecia todos os dias aos tios do leonino por terem comprado aquele apartamento para o sobrinho deles, e pelo mesmo ter lhe convidado para morar com ele. Pois se não fosse, estariam vivemos em uma pequena comunidade de apartamentos dúplex em Harrison perto do campus de Mille-Motte, então tinha mais era que agradecer pela sorte que foi os tios de Regulus ter comprado um lugar daqueles, e por poder pagar doces e sanduiches como aluguel.

“Por quatro anos consecutivos?”

Pegou a mochila, entrou no elevador e apertou o botão do quarto andar.

...Fallen...

Surpreso...? Não! Era mais que isso. Não imaginava ver aquela figura novamente. Pelo menos não tão cedo... Vinte mil não havia sido um preço barato, e não fazia nem dois dias direito que o tinha feito pagar.

— Você... — Ditou surpreso, desfazendo o sorriso e a pose que tinha preparado.

O escorpiano deu um largo sorriso. Tinha ansiado bastante por aquele encontro. Queria ver o striper de novo. Beijá-lo, senti-lo...

— Sim. Eu! Está surpreso?

— Um pouco. — Respondeu. Estava muito surpreso. — Você... Quem é você? — Indagou.

Aquele encontro, com certeza, não tinha saído barato e todo aquele luxo e ostentação também não era algo que muitos pudessem pagar.

— Ho. Está interessado em mim? — Milo soltou um sorriso triunfante, tinha conseguido seu intento.

— Na verdade, estou curioso. Você é rico, não é?

— Vamos dizer que eu tenho algumas moedas.

— Não brinque... Outro dia você pagou vinte mil e hoje, com certeza, pagou o dobro pra me trazer ate aqui! — falou ríspido — Além do mais, olhe para este lugar. É caro demais para alguém “comum” pagar.

— Não gostou? — Perguntou receoso. — Não quer ter um lugar mais confortável para... hum...

— O lugar não importa. — O ruivo suspirou.

O loiro não gostou do semblante do striper. Parecia que ele desabaria a qualquer momento.

— Hum... Você sabe o quanto você vale? — Tentou estimulá-lo.

— Sei — Murmurou desgostoso — E também sei o quanto custa os programas da senhorita.

— Ela também faz programa? Disso eu não sabia... — O escorpiano tentou soar divertido. No entanto, o striper não estava com humor. Na verdade nunca estava. E aquele homem o fazia ficar pior, e não sabia o porquê.

Talvez fosse pelo fato dele ter lhe tratado, mesmo que durante uma transa, com carinho. E isso, tinha que admitir, ninguém mais o fizera. Durante a noite que passaram juntos, o homem também tinha lhe lançado olhares abrasadores, penetrante e instigadores e isso o tinha deixado extremamente incomodado e bastante pensativo.

— Olha, na boa. Eu não deveria me importar. Se você paga, já está de bom tamanho, mas... Não seria melhor gastar esse dinheiro com quem realmente valha a pena.

— Está dizendo que você não vale a pena? — A expressão do loiro tomou uma tonalidade dura. A voz saiu em tom cortante e os olhos mostravam repreensão.

— Mais ou menos... Quer dizer... Tenho certeza de que você poder ter quem quiser. Você é um cara bonito, e mesmo que não fosse, tem dinheiro. Não precisa paga pra transar.

Certo, aquilo era como dá um tiro no próprio pé. Quer dizer, precisava do dinheiro. Tinha uma divida com a dona do Imperius e a cada programa que fazia, sua divida diminuía. E o quanto àquele cara estava pagando no programa não interessava, Certo?! E era muito dinheiro, sem sombra de duvida. No entanto, também era algo assustador.

Não era todo dia que aparecia alguém disposto a pagar tanto por um programa. Ainda mais duas vezes na mesma semana. E aquilo era assustador, não importava o ângulo do qual se visse.

Aquele tipo de programa era caro. Fazer um striper trabalhar fora do Club, longe das vistas da patroa e com o mesmo cliente em menos de uma semana era, sem sombra de duvida, uma soma muito alta e não era coisa que qualquer um fizesse. Entretanto, aquele homem estava pagando, então tudo o que tinha de fazer era o que fazia sempre. Deixar-se consumir nos braços de alguém.

Dar prazer era tudo o que tinha que fazer!

— E se eu disser que quero gastar meu dinheiro com você? — Perguntou, aproximando-se do aquariano. Elevando a mão ate o rosto pálido.

O ruivo prendeu a respiração... Suas bochechas ficaram vermelhas e sua garganta seca.

“Quente!” — Seu corpo tremeu. — “o toque dele é extremamente quente!”.

— Quero gastar tudo o que eu tiver e o que não tiver com você!

— Por quê? — Perguntou débil. A proximidade do outro o estava deixando mole.

— Porque eu me apaixonei por você. — volveu. Encostando os lábios na boca fina.

O olhar rubro arregalou. A respiração ficou suspensa. E os lábios ficaram travados, sem dar consentimento ao ato.

Aquilo sim era assustador.

Ele era um striper e definitivamente o outro parecia ser alguém com dinheiro. Pertenciam a mundos diferentes. Aquilo, com certeza, era somente um capricho do outro.

— Você não pode. Eu não permito! — Ditou. Empurrando o homem para longe.

— Acho que você não pode fazer nada quanto a isso. — Murmurou. Sentindo o corpo recuar com o solavanco.

— Escute senhor Milo...

— Milo. — O loiro falou zangado. O striper cerrou os olhos em direção ao loiro. — Me chame somente de Milo.

— Senhor Milo, eu sou um striper. Um prostituto nas horas vagas, mas isso não lhe dá o direito de me trazer ate aqui e brincar comigo desse jeito.

Camus ditou em um tom ríspido. Milo suspirou de lado, sentou-se na cama ao lado do aquariano. Elevou a mão, alcançando o rosto pálido e o puxando em sua direção.

— Não é brincadeira. Eu realmente estou apaixonado por você — Falou.

Camus deu-lhe uma tapa na mão e levantou-se estagnado com a atitude do loiro.

— Porque por mim? Tantas pessoas no mundo... Porque escolher justo a mim?

— Não sei.

— Eu sei... É por capricho!

— Não, não é. E por que está tão bravo? Eu achei que fosse agir de forma diferente.

— Pensou? — O francês riu desdenhoso — Pensou o que? Que eu fosse um idiota sonhador e que fosse me atirar em seus braços?

— É... Mais ou menos isso. — Foi sincero. — Quer dizer, não chegava a ser tanto, no entanto, ao menos, pensei que fosse ficar feliz.

O ruivo olhou pasmo para o escorpiano. Aquilo não fazia o menor sentido.

— Escute, vamos simplesmente acabar com isso, sim? — Falou, subiu em cima de Milo, apoiando uma perna de cada lado do corpo musculoso. — Vamos fazer logo essa droga de programa para que eu possa dar o fora daqui.

O grego estreitou o olhar. Pegou o aquariano pela cintura e o jogou contra o colchão. Logo em seguida prendeu-o pelos pulsos.

— Porra, Camus, eu não quero só o programa! Eu quero você! — O aquariano olhou-o abismado. Não achou que o outro tivesse decorado seu nome. Pior, não achou que o fosse chamar assim, com tanta intimidade. — É isso mesmo que ouviu... Eu quero você. — Retrucou, mirando a face abismada e os lábios entreabertos — E estou disposto a pagar por isso... Se for o caso.

O ruivo mordeu o lábio e desviou o olhar. O loiro sentiu um fisgar no baixo ventre. Simplesmente amava aquele gesto inocente e sexy.

— Você sabe, não é? — O olhar rubro tornou-se penetrante e mordaz — Mesmo que você diga isso, de nada vale se eu não sentir o mesmo.

— É, eu sei... — Falou o grego olhando as feições seria. — Mas eu já disse, estou disposto a pagar, se for o caso. Por isso, antes de vir para cá, eu falei com a Saori e...

— Você fez o que? Por que foi procurá-la? — Camus tentou se levanta. No entanto, Milo estava entre suas pernas, impossibilitando seus movimentos.

— Eu não tinha que negociar com ela antes?! — Perguntou confuso. — E pare de se mexer.

— Negociar? Negociar o quê? — Indagou. Estava irritado. Não gostava das reações que o outro lhe causava.

— Esse programa, sua estadia comigo esse final de semana! — Camus parou de tentar se mexer e olhou incrédulo para o loiro — É isso mesmo que ouviu, esse final de semana você irá passar comigo. Não é com ela que eu tenho que negociar antes?

O ruivo estava surpreso com a noticia.

— Passar o final de semana com você? — Indagou anestesiado.

— Sim. Vai passar o final de semana comigo e, talvez, o resto da vida também.

— O que quer dizer com isso?

— Quer dizer que pretendo comprar você, Camus Oushevard — Camus engoliu seco.

— Eu não sou uma mercadoria. — Ralhou ríspido — E como sabe o meu sobre nome?!

— Saori me disse.

— Ela não tinha esse direito.

— Eu paguei para saber — Ditou. Orgulhoso de tal feito.

Camus crispou os lábios e estreitou os olhos. Já sabia que a patroa que tinha era uma oportunista. Que tudo que lhe rentasse dinheiro era viável.

O escorpiano notou o desconforto do striper e resolveu amenizar a situação.

— Você não quis me dizer... Eu queria saber, então tive que pagar.

— Você já pagou minha estadia com você?

— Sim! Hoje, amanhã e domingo! — falou sorrindo infantil — quanto a comprar você...

— Eu já disse que não sou objeto!

— Não, mas tem uma divida com a Saori. Ela disse que se você concordasse, ela transferiria sua divida para mim.

— Ou seja, você paga a ela e eu a você!

— Exato! Não acha melhor transar somente com uma pessoa?

— Uma ou varias, vou ter que transar sempre não é? Então que eu adquira mais experiências no processo. — Falou mordaz.

— O que quer dizer?

— Que não! Eu não aceito ser “comprado” por você. — O ruivo falou irritado. Realmente tinha uma divida com Saori Kido, mas isso não dava a mulher o direito de lhe tratar como uma mercadoria, mesmo que soubesse que era exatamente isso: Uma mercadoria.

Milo saiu rapidamente de cima de Camus. Cerrou os punhos rentes ao corpo, tentando conter a ira que tomou conta de si.

“Como ele pode preferir vários a mim?” — Rosnou em pensamento. Entretanto, tinha dito que estava disposto a pagar e, se conquistar o aquariano seria o pagamento, pois o pagaria duplamente.

— Ok. Então façamos o seguinte. Eu pago sua divida e você vem morar comigo.

— Morar com você? — O ruivo ergueu as sobrancelhas, confuso. Aquela insistência estava o irritando-o.

— É. Você virá morar comigo. Não se preocupe, você não irá me pagar com transas. — volveu antes de Camus perguntar.

— E de que forma eu vou pagar a você?

— Você vai trabalhar pra mim. — O francês franziu o cenho. Intrigado. — Você tem razão, eu não sou qualquer um. Meu nome é Milo Onpreyde e sou o vice-presidente da Giudecca Corporations.

O francês sentiu o corpo tremular. Já tinha ouvido falar na empresa e conhecido pessoalmente seu fundador.

— Você é filho do senhor Hades? — Perguntou boquiaberto. Seu estomago estava gelado.

— Podemos dizer que sim. — O grego falou sem importância — Então. Aceita ou não?

— Eu preciso pensar. — Falou sentindo ânsia — Podemos simplesmente acabar com isso agora?

Milo sorriu. O aquariano já não se mostrava tão introspectivo. Na verdade, podia ate dizer que ele tinha perdido o espírito da persistência.

— Claro. Aproveite o resto do dia para descansar. Mas esteja pronto para partir as vinte horas.

— Partir? Parti pra onde? — indagou o ruivo confuso.

Milo olhou com um sorriso travesso.

— Eu não estava mentindo quando disse que você iria passar o final de semana comigo.

Camus sentiu algo gelado correr por sua espinha. Não tinha gostado nada daquela situação. Mesmo assim, não conseguiria fazer nada contra.

...Fallen...

— Eu pensei que você não viria hoje, Degel. — Falou o jovem que se colocava atrás do balcão.

— Meu compromisso não demorou tanto tempo como pensei. — Respondeu ao colega, sorrindo gentil. — E assim que terminei, vim pra cá.

— Eu estou contente por ver você. — Falou, entregando um avental para Degel.

— Obrigado, Seiya. Também fico feliz por ver você hoje.

Seiya era um japonês que se deu bem nas terras estrangeiras... Falava pelos cotovelos e nunca levava desaforo para casa. Ele e a irmã Seika, depois que ficaram órfãos, usaram o pouco dinheiro que o pai deles tinha deixado e juntos conseguiram montar uma loja de ferragens. Não demorou muito para o lugar se tornar bastante conceituado, procurado.

— Você já sabe da novidade? — O moreno perguntou com um sorriso de orelha a orelha.

— Não. Qual é?

— Vamos mudar para Yonkers.

— Serio? Meu irmão mora lá. Regulus e eu também vamos morar lá depois das provas finais.

— Você e Regulus?

— Sim. — Seiya soltou um risinho malicioso — Que foi?

— Depois você diz que são somente amigos

— Seiya, não seja ridículo. Regulus e eu somos somente amigos. — Degel falou para um desacreditado Seiya.

— Tá certo. Vou fingir que acredito.

— Não entendo por que você não quer acreditar.

— Será que é porque você e ele moram a quatro anos juntos e são solteiros? Ou será que é porque, mesmo depois de formados, vão mudarem para a mesma cidade e dividirem o apartamento.

— Não só o apartamento, as contas também. — Retrucou o aquariano colocando o avental por cima da roupa — E porque amigos não podem fazer isso, Seiya?

— Não é que não possam. Apenas acho-os, você e Regulus, uma exceção.

O aquariano sorriu plácido e revirou os olhos.

— Seiya, eu vou trabalhar, ok?

— Ok. — Deu de ombros. — Mais se você e Regulus resolverem formalizar a união estável de vocês, eu quero ser o padrinho.

Degel balançou a cabeça e saiu gargalhando em direção ao deposito. Somente Seiya para pensar naquelas coisas.

O aquariano trabalhava em lugar chamado Sanctuary fittings desde que tinha ingressado na universidade. A loja era, simplesmente, a maior loja de bricolagem de Harrison. E durante os quatro anos em que Degel trabalhava lá, conheceu um pouco sobre quase tudo que vendia. Embora, ironicamente, fosse um desastre em trabalhos manuais: Foco da loja.

Degel não era do tipo que montava e construía coisas. Muito pelo contrario, era um tipo de homem que se enroscava com um livro em uma confortável cadeira junto à lareira. E estava contente com isso. Não ser “útil” tinha suas vantagens... Ao menos, não era quem concertava as cadeiras de casa ou qualquer outra coisa. Nem tão pouco era ele que pintava as paredes e o pouco conhecimento que tinha lhe dava tempo para se concentrar em algo. Algo que não tinha longos cabelos azuis e nem tão pouco em olhos de tons esverdeados e por mais incrível que parecesse, nada ali tinha seu nome sublimado com o sobre nome Onpreyde.

“Degel meu bem, nós estamos ocupados! É inicio da temporada de verão, e as pessoas estão redecorando suas casas. Então se concentre!” — Sua mente ralhou consigo. Tinha muito trabalho a ser feito e não podia ficar pensando em coisas

O aquariano desceu para o deposito, precisava começar reabastecer as prateleiras. Precisava preencher seu tempo algo produtivo e não imagens de empresários chorosamente arrogantes e irresistivelmente controladores. Ficou tão compenetrado nas tarefas que precisou Seiya descer ate o deposito para lhe avisar que a loja estava fechando.

Quando chegou em casa, encontrou Regulus sentado em um dos sofás da sala, com os fones de ouvido, cercado por livros e com o minigravador nas mãos. Trabalhando em seu laptop. O leonino estava bastante envolvido com o trabalho extracurricular. Concentrado e digitando furiosamente. O afinado nariz ainda estava um pouco rosado.

— Degel, você voltou. — O aquariano sorriu e fez posse de vitória. Não queria desconcertar o amigo que estava estudando para as provas finais. — Eu estava começando a me preocupar. Pensei que você voltaria mais cedo.

— Oh, acredite... Se não fosse por Seiya me avisar que era hora de vir embora, eu ainda estaria abastecendo prateleiras. — Falou jogando as chaves de seu carro em cima da mesinha de centro.

Regulus sorriu. Sua face ainda estava vermelha. E tinha lagrimas nos cantos dos seus olhos.

— Francamente, Degel, você não tem jeito. — O leonino não saiu do lugar.

— E como estão as coisas por aqui? — Perguntou, sentando de qualquer jeito no sofá. — Estou exausto.

O aquariano sentia-se completamente drenado pela longa viagem, a entrevista cansativa, e por permanecer de pé e abastecendo prateleiras no Sanctuary fittings.

— Ora, o que você queria? Se mal chegou e já saiu correndo. — Falou em tom ríspido, colocou as coisas de lado. Sorriu matreiro. — Ficou ate me devendo... Não me explicou como foi à conversa... Como ele era... — O aquariano ficou nervoso. Sabia que aquele momento chegaria. Regulus era uma pessoa extremamente curiosa.

— Que conversa e ele quem?

— Como que conversa? E “quem?” se não Kardia Onpreyde, oras. — Murmurou ajeitando-se no sofá.

Degel relanceou o olhar para o amigo. Seu cérebro processando rápido. O que diria a Regulus? Que o homem exalava poder? Que era extremamente sexy? Que seu corpo inteiro tremulou com um simples toque? Não! Definitivamente não era isso que deveria dizer. Talvez, com certeza, queria, ao menos, fazer o leonino sentir um pouco de culpa, se contasse que quase levou um soco com a pergunta infundada e descabida que ele o tinha obrigado a fazer.

— O que eu posso dizer? — Perguntou fazendo cena — Estou contente que terminei, e que não tenho que vê-lo novamente. Ele era muito intimidador, sabe. — o esverdeado encolheu os ombros — Ele é muito focado, intenso até, e jovem. Realmente muito jovem para o cargo que ocupa.

Regulus o olhou com ingenuidade e franziu a testa como se perguntasse; “qual a surpresa nisso?”.

— Você, não se faça de inocente — Degel mostrou-se irritado — Por que você não me deu uma biografia? Ele me fez de idiota por me restringir as perguntas básicas — O leonino elevou uma mão ate a boca.

— Oh, Degel, eu sinto muito. Isso nem me passou pela cabeça.

— Tudo bem. Na maior parte ele foi cortês, formal, ligeiramente sufocante, como se tivesse envelhecido antes do tempo. Ele não conversa como um homem de vinte e oito anos.

— Degel, eu sinto muito. Devia ter informado você, mas eu estava em pânico.

— Você parece melhor. Comeu a sopa que deixei? — Degel perguntou mudando de assunto.

— Sim e, como sempre, estava deliciosa. Estou me sentindo muito melhor. — O leonino sorriu em gratidão. — Você fez um bom trabalho. Eu não posso acreditar que você não aproveitou a oferta dele para mostrar a você o lugar. Está claro que ele queria passar mais tempo com você — O olhar de Regulus era fugaz e brincalhão. No entanto, Degel não pode deixar de corar enquanto seu coração batia freneticamente.

— Estou certo que não era isso. Ele só queria me mostrar o local, para que eu pudesse ver que ele é o senhor de tudo aquilo — O aquariano mordeu o lábio.

— Entendo o que você quer dizer sobre formal. Pena que não temos algumas fotos originais. Aquele filho da mãe é bonito, não é? — Degel ruborizou com a pergunta.

— Eu acho que sim. — tentou parecer desinteressado.

— Ho, vamos, Degel, você não pode ser imune a aparências. — Regulus arqueou uma sobrancelha em direção ao amigo.

Degel sentiu as bochechas arderem.

— Você provavelmente teria conseguido muito mais dele. — tentou distrair o amigo lisonjeando-o. Sempre achou um bom truque, afinal Regulus sempre foi vaidoso.

— Duvido muito, Degel. Ele praticamente te ofereceu um emprego. Mesmo depois daquela pergunta. — O leonino sorriu trigueiro, como se tivesse feto à travessura do século. Degel ficou embraçado ao lembrar-se do “momento pressão” e fez uma apressada saída para a cozinha. — Pena que ele não te respondeu. Mais me conta, o que você realmente pensou sobre ele?

“Céus, como ele é curioso!” — Falou mentalmente — “Por que ele não pode simplesmente deixar isto passar?” — Indagou-se.

— Ele é muito mandão, controlador, arrogante, realmente assustador, mas muito carismático. Eu posso entender o fascínio — Disse de forma apresada, tentando encerrar de uma vez por todas o assunto Kardia Onpreyde — E você já conseguiu alguém para atuar como Ophelia?

— Você, fascinado por alguém? Ainda mais um homem? Está é a primeira vez. — Regulus falou com um sorriso displicente. — E não, não conseguir ninguém que queira se fazer de Ophelia.

Degel bufou. Começou a juntar ingredientes para fazer um sanduíche, assim o leonino não poderia ver que seu rosto reinava uma mistura de raiva e constrangimento.

— Por que você quis saber se ele era gay? Alias, está foi uma pergunta muito embaraçosa. Eu fiquei mortificado, e ele ficou puto ao ser questionado. Achei ate que fosse levar um soco sabia?

Regulus sorriu.

— Sempre que ele está nas páginas da sociedade, está desacompanhado.

— Foi vergonhoso. A coisa inteira foi constrangedora. Eu estou contente que nunca mais tenha que por os olhos nele novamente.

— Ora, Degel, não pode ter sido tão ruim. Eu penso que ele parece estar bastante interessado em você.

— Queria ver você dizer isso estado na minha situação. — Falou em tom divertindo, imaginado Regulus voltando para casa, com um olho roxo. — E não seja ridículo, sob-hipótese alguma aquele homem iria estar interessado em mim... Que um sanduíche?

— Por favor.

Para o alivio do aquariano, Regulus não mencionou mais nada sobre Kardia Onpreyde aquela noite. Degel ate se ariscou a sentar-se à mesa de jantar com o amigo e, enquanto o mesmo trabalhava em seu artigo, o aquariano trabalhava em sua redação sobre Mercedes Elizabeth Kearsey.

— Maldição, esta mulher estava no lugar errado, no tempo errado e no século errado. — Ditou ao terminar. Era quase meia-noite quando conseguiu. Regulus já estava caminhando para o quarto.

— Você parece exausto — Falou.

O aquariano balançou a cabeça e, também começou a fazer lentamente o caminho para o quarto...

— Estou exausto, mas também estou contente. Fiz muito para uma sexta-feira. — Degel exasperou.

— Sete, quase oito de fevereiro. — O amigo falou sorrindo sem força. Tudo o que queria era cama. Entretanto, ao escutar a data o esverdeado parou subitamente.

— Meu Deus. É o aniversario do Camus. — Falou enfiando os dedos nos cabelos lisos.

— Não diga que você ainda não ligou pra ele?!

— Eu esqueci completamente o aniversario do meu irmão. — falou, correndo para pegar o celular.

...Fallen...

O francês estava desconfortável. Aquele ambiente não combinava com ele. O apartamento do grego era grande e espaçoso demais. Cabia bem mais que duas pessoas. E aquilo o deixava desfocado.

Estava em um dos quartos de hospedes. Um lugar neutro. Com paredes brancas. Os moveis — cama, guarda roupas, criado mudo — era tudo cor marfim. As cortinas tinham cor manteiga desbotada e a vidraçaria da janela não exibia nenhuma mancha, a não ser a que as gotas da chuva estavam deixando.

O tempo em Stamford estava chuvoso. E sair de Yonkers em um helicóptero para chegar ate ali com o temporal que estava fazendo, havia sido um pouco irresponsável da parte grego e dele também por concordar.

“Mas, como e ia saber que estava chovendo?” — indagou ao seu pensamento.

Chegou ali por volta das dez horas da noite. Isso porque não tinha acreditado nas palavras do grego e não foi para casa descansar como haviam lhe mandado. Nem tão pouco fazer uma mala como tinham lhe pedido, quase ordenado. Ao contrario, já que o loiro não iria usufruir do programa que tinha pagado e mandou-o embora, Camus aproveitou esse tempo para passear um pouco. Afinal, era seu aniversario. Não que se importasse, ainda continuava sendo um dia como qualquer outro. No entanto, sentia falta de algo. Do irmão talvez?!

Comprou algumas coisas e passeou durante toda à tarde, quando chegou no apartamento onde morava, tomou um susto ao ver ali o grego de olhos azuis. Não o perguntou como tinha conseguido seu endereço, já sabia onde tinha sido. Não valia a pena confirmar...

O som estridente do celular chamou sua atenção. Soltou um ínfimo sorriso ao ver quem lhe ligava. Recebeu uma canção de feliz aniversario, executada por uma voz sonolenta e um fanha, ao atender.

— Vocês sabiam que é quase meia noite? — Falou em tom de advertência.

— Ainda dá tempo de te parabenizar — Escutou o irmão retrucar. Podia jurar que ele estava dando um sorriso sem graça e se encontrava com a face toda vermelha.

— Sabe que não ligo. Mas já que ia ligar, poderia ter feito isso mais cedo.

— É, eu sei. Peço desculpas por isso. Passei o dia todo ocupado. Mesmo assim, feliz aniversario Camus.

— Obrigado. E diga a Regulus que agradeço pela canção desafinada. — Falou sorrindo bobo — Onde vocês estão?

— Credo, que ranzinza. — Ralhou Degel. — Em casa, pai. Não se preocupe.

— E Regulus? Como ele está.

— Ainda gripado.

— Então está quieto.

— Depende muito do que você chama de quieto.

Ambos sorriram.

— Como vão as provas?

— Bem, estamos estudando. Espero passarmos.

— Sua turma é a única a terminar o ano no mês de fevereiro.

— Não ralhe Camus. Não tivemos culpa do professor ter cancelado todas as provas e ter nos feito fazer novos trabalhos

— Ora, querido, o que você queria? Vocês colaram e tiraram todo o moral do professor.

— Regulus colou, eu não.

— É, mas acobertou.

— Queria que eu entregasse meu próprio amigo? Camus...

— Não, de certo modo você tem razão. Devemos preservar os amigos, além do mais, Regulus poderia ter sido expulso.

— Concordo, por isso não o entreguei. Onde você está agora, Camus?

— Você não acreditaria se eu te falasse.

— Não quer tentar?

— Agora não pequeno, estou cansado e quero dormir.

— Ok. Eu entendi! Você está com alguém e eu estou atrapalhando.

— Não é isso. Você sabe que nuca me atrapalha em nada, não importa o que eu esteja fazendo.

— Eu entendi Camus. Eu só liguei mesmo para te deseja feliz aniversario.

— Obrigado meu amor. Eu quero que saiba que eu te amo muito!

— Eu também te amo muito, meu irmão. Boa noite.

— Boa noite!

Um sorriso doce aflorou nos lábios do aquariano. Ouvir a voz de Degel trazia uma paz enorme a sua alma. Só de pensar que o irmão estava livre daquela vida, o fazia sentir-se útil. Protetor...

— Com quem estava falando? — Uma voz extremamente irritada se fez presente.

Camus estremeceu ao vislumbrar o olhar crispado.

— Com meu irmão. Ele faz faculdade em Harrison.

Milo aproximou-se devagar. Como um felino. O olhar lascivo e penetrante. Camus recuou, sentindo-se intimidado.

— Quero que saiba Camus, que eu detesto dividir o que é meu.

O aquariano sentiu um frio na espinha. Aquele homem era estranho... Quase um bipolar. Uma hora era alguém sorridente e espirituoso, outra um dominador que gostava ter tudo sobre controle. Mais não podia julgá-lo...

“Com certeza aprendeu com o pai!” seu pensamento martelou.

— Acredite se quiser. Não vou deixar de falar com meu irmão porque você quer. Alias, aproveitando a ocasião, quero informar-lhe que prefiro continuar devendo a senhorita Saori.

O grego sorriu ínfimo, mas diabólico.

— Sinto informar-lhe, senhor Oushevard, isso não será mais possível. A partir de hoje em diante, sua divida é resoluta somente para com a minha pessoa.

O aquariano arregalou o olhar, aquilo não poderia ser verdade. Independe mente de passar o final de semana com o grego ou não, já tinha tomado sua decisão. Não queria dever nada ao filho do fundador da Giudecca.

— Achei que isso fosse decisão minha!

— Mais foi. — Volveu o grego com um sorriso travesso — Para todos os efeitos você aceitou vir morar comigo.

O aquariano sentou-se na cama boquiaberto. Não acreditava que estava preso daquela maneira.

— Camus, eu já disse... Você não vai precisar me pagar da mesma forma que você pagava a Saori.

— Isso... Isso que você e a Saori fizeram é crime sabia? Ela não pode vender pessoas, do mesmo jeito você não pode comprá-las.

— Mais eu não comprei você. Comprei sua divida.

— Não quero dever nada a você.

Milo se irritou com a teimosia de Camus. Não entendia porque o outro preferia dever a Saori a si. Com ele, não precisaria dançar ou fazer qualquer outra coisa que não quisesse.

— Bom, nesse caso, tudo o que tem a fazer é pagar a quantia exata que eu paguei por você.... Quer dizer, que eu paguei na sua divida.

— Quanto pagou?

— Dois milhões... — O aquariano tremulou. Abriu a boca, tentou murmura algo.

— Dois milhões? — Sua fala saiu estrangulada.

— De euros.

— Nunca que eu vou conseguir pagar isso. — Falou sentando-se na cama.

— Então, acho que você pertence a mim. Quer dizer, deve a mim — Falou sorrindo de canto — Mas como eu já tinha dito anteriormente, você não me pagará da mesma forma que pagava a senhorita.

— E como vou pagar? — perguntou. Estava intrigado, irritado.

— Vai trabalhar pra mim. — Ditou. Feliz por conseguir colocar um ponto final naquela historia. Agora, tudo o que precisava fazer, além é claro de arrumar uma desculpa para ter desviado dois milhões de euros, era conquistar o francês.

Continua...

Notas finais
***Ophelia é uma personagem da obra Hamlet de William Shakespeare. É uma jovem da alta nobreza da Dinamarca, filha de Polónio, irmã de Laertes e noiva do Príncipe Hamlet. ***Mercedes Elizabeth Kearsey foi à primeira bruxa ouvida falar no mundo. Coloquei-a como substituição de Tess de D 'Urbervilles; citação original do livro cinquenta tons. Beijão a todos e ate...