Fallacy - Pride
3 Viagem
Todo o dia, às sete da manhã, o rádio relógio começava a apitar. E, naquela gelada manhã de quarta-feira, nada foi diferente... Quer dizer, eu ainda estava com um pouco de dor de cabeça por ter bebido na noite anterior, mas fora isso, tudo era perfeitamente igual aos outros dias.
Além do som nada agradável do despertador, a claridade do meu quarto me fez desistir do meu doce sono perfeito. Ainda um pouco tonto, eu soltei o peso da minha mão no aparelho; que parou com o seu ruído irritante no mesmo segundo. E foi naquele momento, antes mesmo de sair da cama que eu percebi o que aquela manhã tinha de diferente... Meus pensamentos estavam voltados para uma coisa; e não era nada relacionado ao trabalho, como costumavam ser... Mas tinha a ver com um lindo par de olhos azuis provocantes.
Mais alguns minutos se passaram, enquanto eu rolava de um lado para o outro. Logo, o rádio relógio voltou a apitar. E daquela vez, me vi obrigado a arrancar as pilhas daquela coisa irritante. Só então, eu levantei da cama, e desci as escadas cambaleante, me apoiando nas paredes... Esfregava o rosto, tentando espantar o sono, enquanto andava em direção à cozinha. Eu sabia que devia tomar cuidado com cada passo meu, ainda mais naquele horário. Eu podia facilmente tropeçar e rolar as escadas de minha própria casa. Isso seria típico de mim.
Eu caminhei até a sala; onde a janela estava aberta. A claridade que atingiu diretamente os meus olhos me fez ficar tonto por alguns breves segundos, mas eu levei a mão ao rosto, me protegendo dos raios delicados para me recuperar... Foi quando uma coisa engraçada aconteceu.
Eu tirei a mão do rosto, e consequentemente recuperei a visão. Mas, quando eu olhei lá para fora, lá para a rua, eu vi duas mulheres loiras me encarando. Elas estavam rindo, e apontando para mim. Eu levantei uma de minhas sobrancelhas, sem entender o motivo de tanto graça... E demorei alguns segundos para lembrar de que eu só dormia de cueca.
Logo, eu mesmo comecei a rir junto com as loiras; que por acaso eram bem bonitas. Foi quando eu olhei para baixo, e vi a cueca boxer Calvin Klein, preta. Então, novamente olhei para as meninas, deixando claro que eu sabia que estava sendo vigiado... Só depois, eu sorri com o canto da boca e pisquei com um dos olhos. No mesmo segundo, elas pararam de rir. Caminhei até minha janela como se estivesse em uma passarela; jogando todo o meu charme, e, só depois de ter feito toda aquela graça se transformar em desejo, eu abaixei a cortina...
Estava comendo cereal com leite, na bancada da cozinha, enquanto assistia ao noticiário. Eu já me encontrava parcialmente arrumado para o trabalho; pois já havia tomado banho, e já vestia uma calça jeans com uma camisa social que ainda não estava abotoada. Eu tinha um sério problema de atenção pela manhã; ainda mais naquela em especial, que Hillary ainda tomava conta dos meus pensamentos.
Então, o telefone da minha casa começou a tocar; me assustando e ao mesmo tempo, me tirando o transe maluco em que me encontrava comendo cereais. Rapidamente, eu levantei, e fui atender.
– Alô? — Minha voz de manhã sempre deixava claro o quanto acordar cedo não era para mim.
– Boas notícias, Dave. Parece que descoberta do Laboratório vai ganhar destaque essa semana. Alguns documentários a mais sobre aquela doença de nome esquisito vão ser exibidos. — O tom radiante de Harry fazia parecer que estava chovendo dinheiro.
Um sorriso brotou em meus lábios.
– Isso é ótimo, Harry. Agora, mais atenção será dada a FOP. Mas, quando começam os testes para produção de novos ossos?
– Na verdade, o pessoal intrometido daqui resolveu adiantar os testes, para que tudo ficasse pronto o mais rápido possível. Não querem ajudar apenas os portadores, e sim os que precisam de novos ossos. Eles vão começar ainda hoje. e por isso acho que você nem precisa vir para cá hoje. Talvez daqui há alguns meses, quando tudo estiver em perfeitas condições, possamos salvar a vida de milhares de pessoas. Parabéns David, você conseguiu mais uma vez.
– A Equipe conseguiu, Harry. O crédito não é só meu. E meu pai queria muito finalizar isso antes de morrer. Ele começou. — Sorri novamente, sendo tomado discretamente pela alegria.
– Depois dessa, acho que posso cancelar com o Sebastian, de Oslo. Talvez seja melhor você ficar na cidade por alguns dias, caso alguma coisa dê errado...
– Não! — O apelo soou mais desesperado do que realmente deveria. — A Equipe tem cientistas excelentes, e eu sei que podem cuidar disso. Os testes vão ser um sucesso logo, não se preocupe. Aliás, uma pesquisa completa a outra. Logo, alguns milhões vão migrar para...
Uma leve risada irônica me interrompeu.
– Por que esse desespero tão grande de ir para a Noruega, Matlock? — Ele moldou a voz de modo malicioso. Bufei.
– Desespero? Não seja idiota, Harry. Eu sou David Matlock. Não há desespero em fazer pesquisa alguma, você sabe que isso apenas atrapalha o desenvolvimento...
– Acho que eu tenho uma ideia do que possa ser... — Ludibriou Harry, me ignorando por completo. — Hillary Williams, não é?
Minhas sobrancelhas se ergueram ao mesmo tempo que um sorriso sugestivo surgiu em meus lábios.
– Ok. Me pegou. Ela é maravilhosa.- Ele soltou uma gargalhada escandalosa do outro lado da linha. Por um breve segundo, desgrudei o telefone do ouvido.
– Vai me dizer o que agora? Que se apaixonou?
Aquela foi a minha vez de gargalhar.
– Seria mais fácil acreditar se eu dissesse que sou virgem.
– Justo. — Ele riu discretamente. — Por falar nisso... Foi você que largou aquele sutiã no chão do estacionamento do laboratório, não foi?
Escorreguei na cadeira como se capaz de esconder meu rosto envergonhado.
– ...Talvez...
Harry bufou.
– Oh, céus... Podre de rico, e mão de vaca. Não sei quem foi a vadia dessa vez, mas você podia pelo menos ter levado a algum lugar mais apropriado, Matlock. — Eu ri alto.
– Eu vou tentar lembrar disso da próxima vez. Mas é difícil pensar em alguma coisa quando uma mulher começa a te agarrar dentro do seu carro e você já sabe no que vai dar.
– Você sempre termina assim, Dave. — Nós rimos. — Mas me diga... É por causa dela que não quer deixar de ir, não é?
– Eu estou indo pela pesquisa. Passar o tempo com uma mulher que quase me fez sentir um sete é apenas um extra. — Ele riu com ironia da piada interna. Harry e eu gostávamos de avaliar as situações por escalas de um a dez. Chegamos a conclusão de que eu era um quinze.
– Cara, ela é um dez. Beirando onze. Quantas dessas você já viu andando por aí?
– Harry, ela é um doze. Sim. A primeira que ultrapassa os limites da escala. Digna de mim, claro. — Nós rimos. — Eu estou aqui pensando... Sebastian ligou para vocês dois, então eu vou te dar uma missão. Eu quero o número do telefone dela em dez minutos.
– David, isso é …
– Não quero saber. — Interrompi, absolutamente cortante. — Você tem dez minutos, ou eu dou o crédito do projeto para outro laboratório, e nós perdemos milhões de libras. Não faz muita falta para mim, mas mesmo assim... Não é um dinheiro dispensável.
– Você não faria isso...
– Me teste.
– Ok David. Dez minutos. Eu vou ver o que posso fazer.
– É por isso que você trabalha para mim, Harry. — Nós rimos. Então, eu desliguei o telefone.
Minha expressão mudou no mesmo segundo em que eu tirei aparelho do ouvido. Um sorriso malandro surgiu na minha boca, enquanto minha mente se deliciava com uma quantidade absurda de pensamentos agradáveis. Como exemplo, seus lábios grossos perfeitos tocando os meus delicadamente. Então, eu abaixei a cabeça, passando a mão pelo cabelo e indo até a nuca, tentando me acalmar... Mas, acredito que aquilo tenha adiantado muito.
Eu contei cada segundo, olhando para o telefone, visivelmente ansioso. Eu nem me movia enquanto esperava a ligação de Harry; que provavelmente não ia demorar mais de dez minutos para acontecer. Mas, enquanto o silêncio em minha casa reinava, eu não podia fazer mais nada, além de esperar.
Sete minutos e vinte e três segundos depois de ter desligado, meu telefone tocou novamente. Não esperei. Apenas um toque e eu o atendi, com pressa, e deixando claro de que não aguentaria esperar nem por mais um segundo.
– Harry?
– Meu Deus... Relaxe David, é só mais uma mulher. — A voz de Harry me acalmou por um breve momento. Mas, eu ainda parecia uma criança esperando por um brinquedo novo.
– Você fez o que eu pedi?
– É... Mais ou menos. Hillary tem uma ficha no laboratório, e eu nem sabia disso... Enfim, isso não importa. Pronto para anotar?
– Fale logo.
Harry então disse o número dela com calma. Enquanto eu anotava, não podia evitar sorrir. Nada poderia ter deixado aquela manhã mais interessante.
– Mas, tem certeza que vai ligar agora? São oito horas da manhã.
– Meu caro Harry... Nenhuma outra mulher se importou de ser incomodada por mim. Ela não é diferente das outras. — Ri baixo, em um tom macabro.
– Bem... Se é o que acha... Boa sorte.
Então, nós desligamos mais uma vez, porém, meio segundo depois eu já estava com o telefone no ouvido novamente; apenas esperando que ela atendesse. Minha ansiedade me fazia ficar hiperativo, e por mais que eu ainda estivesse com sono, não conseguia me manter quieto. Ficava balançado a perna direita em um ritmo alucinante, enquanto contava quanto tempo ela demoraria para atender.
– Alô?
A voz grossa que atendeu o telefone não era o que eu esperava ouvir. Obviamente, não pertencia a ela... Mas, se o número estivesse certo, só podia pertencer a uma pessoa: o namorado-monstro. No mesmo segundo, eu me encolhi. Não podia dizer que era eu. Mas, como um raio, uma ideia brilhante atingiu minha cabeça tendo em base o seu suposto gosto por marcas de alto reconhecimento. Se aquilo desse certo, que mais uma vez, eu sairia limpo.
– Bom dia. Meu nome é Mark Talles, e eu sou da Louis Vuitton. Por gentileza, eu gostaria de falar com a senhorita Williams. — Isso era a minha cara.
– Só um segundo, Sr. Talles. Eu vou chamar. — Ele respondeu. Havia acreditado. Que idiota.
Mais uns breves segundos se passaram, enquanto eu escutava os ruídos que vinham do outro lado da linha. E, discretamente, eu escutei ele dizer “é para você”. Depois de mais alguns barulhos esquisitos, eu escutei uma leve respiração... E meu coração saltitou de alegria.
– Alô? — Eu sabia que era ela. Daquela vez era, e eu tinha certeza.
– Srta. Williams? — Perguntei, mantendo a brincadeira.
– Sim, sou eu. — Sorri. — Você é Mark Talles, certo?
– Na verdade, não...
– Como assim? — O tom dela mudou.
– Hillary, sou eu. David Matlock.
Eu escutei então uma leve risada irônica. E, não sabia se aquilo era um bom sinal.
– Primeiramente, você mentiu. Segundo, são oito da manhã. Não sei se pode se afundar mais ainda no meu conceito, doutor. — Sua voz já demonstrava um pouco de irritação.
– Menti porque não sabia se conseguiria falar com você; então vamos descartar isso. E, você já estava acordada há um tempo, pela sua voz... Podemos ignorar o horário também...
– Por que você é tão insistente, Matlock?
– Seja racional. Vamos viajar em dois dias, e seria muito mais agradável se tivéssemos um bom relacionamento até lá. Então, podemos almoçar juntos hoje, e nos conhecermos um pouco melhor. Não sou tão ruim quanto pensa, Hillary. Só me deixe provar isso a você.
– Eu não faço a mínima questão de saber quem você é, David. — É... Talvez eu já esperasse isso.
– Não leve isso para o lado negativo, Hillary. Sabe que estou certo.
– Realmente. Você está certo por chamar uma mulher comprometida para sair; por deixar o mundo inteiro saber sobre sua vida pessoal; por incomodar as pessoas às oito da manhã... Sinceramente David, se você está certo, eu não quero saber quando está errado. Você é repugnante.
Então, ela desligou, sem nem me dar a chance de responder. Mas, honestamente, talvez eu não tivesse uma resposta à altura. Seria menos humilhante ter o telefone desligado na cara do que não ter nada a dizer.
Aquilo havia frustrado minha manhã perfeita. Abaixei a cabeça então, e encostei a testa sobre a bancada gelada, pensando se eu realmente tinha estragado tudo. Fechei os olhos por um breve segundo, e respirei fundo; como se tivesse livrando o meu corpo de todas as preocupações... Mas, eu estava convencido de que Hillary Williams não seria uma delas.
Poucos minutos depois, eu escutei alguns bipes vindo da sala. Era o alerta de mensagem do meu telefone celular. Curioso, eu caminhei com os passos lentos até avistar o aparelho preto, que estava com a tela acesa. Então, o segurei, e cliquei na opção de mensagens... E, novamente, vi aquela manhã ficar iluminada.
“Bom dia David, aqui é a Alicia McNaughton. Fiquei sabendo sobre a premiação da última noite, e que o projeto entra em fase de testes agora. Bem, eu estava pensando... Nós dois podíamos nos encontrar hoje pela manhã, e tomarmos café juntos. Você pode me falar mais sobre isso, para a matéria do jornal. E então, o que acha?”
O que eu achava? Alicia McNaughton era uma repórter inglesa que dispensava comentários. Estava sempre muito bem vestida, tinha lindos cabelos loiros radiantes e um belo par de olhos castanhos esverdeados. O corpo dela era tão perfeito que era constantemente disputado por diferentes revistas, e convites para ensaios fotográficos não faltavam. Ela não precisaria trabalhar, se não quisesse. Para responder sua mensagem de texto, um sorriso irônico e malicioso surgiu em meu rosto.
“É bom ter notícias suas, srta. McNaughton. É claro que posso te dar entrevista, e por sorte, hoje não tenho nenhum compromisso. Estarei às nove e meia da manhã em frente a sua casa, para irmos juntos. Não vou me atrasar, acredite. Até logo.” — Depois disso, apenas “opções; enviar mensagem” e estava feito.
Logo, eu olhei para o meu relógio, e já eram oito e meia da manhã. Eu não tinha mais tempo nenhum a perder. Então, no mesmo segundo, eu tentei esquecer um pouco daquilo tudo e subir para mudar de roupa. O que eu tinha em mente? Ser simples, e deixar que ficasse mais admirada por mim do que pelo que eu vestia. E isso significava uma calça jeans mais informal ainda, uma camisa branca com gola V, e um Ray Ban Aviador.
Às nove horas e dez minutos eu desci novamente, arrumado para um agradável café da manhã. Peguei minha carteira e as chaves do Porsche em cima da mesinha da sala. Quando eu fechei a porta que ligava a sala à garagem, eu não pude evitar sorrir. Eu sabia que aquele dia estava começando cedo. Mas, eu não sabia quando ia acabar.
Aos poucos, eu fui acordando. Não lembrava do que tinha acontecido na noite anterior. A cama estava estranhamente dura, e o travesseiro era um pouco desconfortável... Mas, o calor agradável de alguma coisa encostada no meu peito deixava o frio daquela manhã um pouco menos intenso...
Tonto, eu abri os olhos devagar. A primeira coisa que pude notar era que eu estava abraçando Alicia; que ainda estava dormindo. O quarto não era o meu, e eu não sabia se era o dela... Eu podia sentir claramente cada vez que ela respirava; completamente enrolada por um cobertor branco que me envolvia até a cintura.
Com cuidado, eu levantei, certificando-me de que ela ainda estava dormindo. Peguei meu celular em cima de um criado-mudo ao lado da cama, e vi duas ligações não atendidas de Harry. Bem... Pelo jeito, eu tive um bom motivo para não atender. E, poucos segundos depois, eu entrei em desespero. Era quinta feira, e o relógio marcava três horas e doze minutos. Que merda.
No mesmo segundo, eu saí catando as minhas roupas espalhadas pelo chão, e as vesti. Logo, uma garrafa vazia de Vodca russa rolou até meus pés, com o rótulo tão manchado e desfigurado que eu mal pude identificar. Definidamente, aquilo explicava minha dor de cabeça e o sono pesado de Alicia. Eu sabia que ela não ia acordar tão cedo, e eu por outro lado não podia perder mais tempo, esperando-a. Então, mesmo com pena de deixá-la, eu peguei uma caneta no bolso de minha calça, e escrevi um bilhete em um pequeno bloco que estava em cima da cômoda. “Sinto muito mas eu tive que ir. Espero ter mais noites como essa. Nos vemos em breve. Beijos, D. Matlock.” Me perguntei se ela entenderia minha letra torta e garranchosa de um dia Pós-Vodca-e-Sexo. Mas, mesmo assim, eu puxei a grande porta de madeira e saí do quarto, ajeitando minhas roupas amarrotadas.
Tinha um número na porta, estampado em uma pequena placa dourada. 1003. Por um segundo, me perguntei o motivo. E assim que desci as escadas, meu desejo mais profundo se rompeu, ao mesmo tempo que eu entendi. Nós não estávamos na casa dela. Um sorriso debochado surgiu no meu rosto, quando um pensamento me atingiu. “Feliz agora, Harry?”
Discretamente, eu caminhei até a recepção, tirando a carteira de couro preta e as chaves do carro do bolso. De certo modo, aquilo me preocupou. Eu não conseguia lembrar onde o Porsche estava estacionado. Mas, a mente de um cretino como eu tinha suas vantagens. Eu me lembrava de alguma coisas da noite anterior, sim. E digamos que os pequenos flash backs eram suficientes. Sorri, sem perceber. Que mulher.
– Boa tarde... Quarto 1003, por favor. — Eu pedi a recepcionista.
– Qual a forma de pagamento, Sr. Matlock? — Ela perguntou. Às vezes eu ainda me assustava quando as pessoas sabiam meu nome sem eu informar.
– Cartão.
– Muito bem... Vamos ver.
A recepcionista então começou a mexer no computador, enquanto eu esperava pacientemente. Ficava admirando a boa decoração daquele lugar... Era agradável, e tudo era muito bem iluminado.
– São duas mil, quinhentas e cinquenta libras, senhor.
– O quê? — Eu praticamente berrei. — Duas mil e quinhentas libras? — Abaixei o tom, percebendo que havia me exaltado. — Quantas noites eu passei aqui?
– Chegou ontem às oito da noite, senhor. E são duas mil, quinhentas e cinquenta libras. — Ela me corrigiu, em alto e bom tom. — É o preço da diária.
Rindo com raiva, e sem acreditar no que estava acontecendo, eu parei de discutir... Simplesmente dei a ela o cartão. Estava impaciente, e hiperativo. Obviamente, nervoso por perder tanto dinheiro em tão pouco tempo. A sorte realmente esquecer completamente de mim.
– Muito bem, está feito. Volte sempre. — Ela sorriu.
– Não conte com isso, moça. — Eu sorri, pegando meu cartão de volta. — A propósito, ainda tem uma pessoa no meu quarto. Acorde-a, e pode chamar um táxi para ela. Pode cobrar outra diária se ela não quiser levantar.
– Como quiser, senhor.
– Então, estou indo... Bom dia para você.
Ainda nervoso, eu saí daquele lugar. Os passos eram pesados e impacientes. Logo, entrei no Porsche; que por sorte, estava perfeitamente bem no estacionamento. É... Da próxima vez, eu não ia sair do carro. Que se danem os sutiãs abandonados.
Alguns minutos depois, já estava no trânsito, voltando para minha casa. A quantidade enorme de carros fazia a movimentação daquela tarde nublada ser incrivelmente lenta. E isso só me deixava mais irritado ainda. Foi quando eu decidi pegar o meu telefone celular e retornar as ligações de Harry.
– Alô?
– Harry, é o David.
– Por onde você andou, Dave? Eu tentei te ligar o tempo inteiro! Um homem em sua posição não pode sumir feito um adolescente rebelde. — O seu tom de voz subiu ligeiramente.
– Desculpe Harry, não foi minha intenção. Eu saí com Alicia McNaughton ontem e...
– Espere. — Ele interrompeu. — Você saiu com Alicia McNaughton? — Logo, o tom tenso se dissipou e deu lugar a pequenas risadas irônicas.
– É... Passamos o dia inteiro juntos, mas não lembro ao certo o que aconteceu depois; bebemos até não aguentar mais. Mas enfim, isso não importa... A viagem está confirmada para amanhã, certo?
– Está... E por falar nisso, sinto lhe informar que a Dra. Williams passou no Laboratório hoje... E, você não estava lá...
Soltei um palavrão em alto e bom tom. Harry riu de minha indignação.
– O que realmente importa é que estaremos juntos amanhã... E, de um modo ou de outro, ia me ignorar se eu estivesse no Laboratório. — Nós rimos.
– É... Acho que está certo. Bem, fique calmo; as coisas estão sob controle. Vá para casa, faça as malas, e descanse... E, não esqueça: “se a tendência é melhorar...”
– O amanhã vai ser melhor. — O interrompi, completando. — Ok Harry... Nos falamos depois. Até mais.
– Até logo, Dave.
Então eu desliguei o telefone mais uma vez.
Quando eu finalmente cheguei em casa, logo fui arrumar minha mala. Na verdade, eu sempre tive um certo problema com quantidade excessiva de bagagens... Toda vez que viajava, eu quase carregava minha casa junto. E naquela viagem em especial, eu sabia que ia levar mais roupas ainda... Ia passar uma semana lá, mas era como se fosse ficar dois meses.
Horas depois, tudo estava pronto. A casa estava arrumada e limpa; meus carros estavam no lugar, as malas estavam preparadas e os aparelhos eletrônicos fora da tomada. A única coisa que eu tinha que fazer era dormir... Dormir tanto, e tão despreocupadamente que chegasse a aparentar viver por toda a eternidade. E foi exatamente isso que eu fiz...
Era impressionante o que a ansiedade podia fazer com um ser humano. Ao invés de querer destruir meu rádio relógio irritante, quando ele começou a apitar; anunciando que estava na hora de levantar, eu pulei da cama; radiante de alegria. Sorria tanto que parecia estar alterado. Saltitava de um lado para outro como se tivesse cinco anos, e não tivesse acabado de acordar.
Minha roupa já estava separada: uma camisa preta com mangas longas, e uma calça jeans escura. Eu não sabia ao certo por que, mas eu tinha uma certa queda por camisas com mangas longas... E uma maior ainda por roupas brancas. Minha mãe dizia que eu devia usar, pois dava destaque aos meus olhos... Desde então, eu aprendi a gostar. Metade das minhas roupas era branca. O restante, estava dividido entre preto e cinza.
Depois de tomar banho e me vestir, eu desci para comer alguma coisa antes da viagem. Meu cabelo estava consideravelmente arrumado, e minha barba, feita. Eu podia sentir perfeitamente o cheiro delicioso do meu perfume, Armani Code. O óculos já estava perto da minha carteira, para que eu não o esquecesse... Eu não costumava me arrumar tanto para sair, mas daquela vez valeria à pena.
Minutos depois, o táxi já estava em frente à minha casa. Era aquele o momento. Novamente, me vi tão animado que mal conseguia tirar o sorriso patético do rosto... Enquanto o motorista levava minha mala para o carro, eu trancava a casa, e deixava uma chave de baixo e um vaso de plantas que havia na entrada. Rose, a empregada, sabia que eu sempre fazia isso. Aquele era o nosso esconderijo.
Logo, abandonamos minha casa rumo ao aeroporto... Sabia que faltavam apenas alguns minutos para que eu ganhasse meu dia.
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