Fallacy - Pride
4 Desejos Arruinados
A corrida de táxi da parte mais nobre de Kensington, a Belgrave Square – ou perto, pelo menos; numa região abarrotada de mansões e parques que me servia de vizinhança – até o Aeroporto da Cidade de Londres não era a mais barata ou mais rápida. Lamentei internamente por não poder utilizar um de meus próprios carros; que me eram tão apreciados (e mais velozes). Ansiedade me consumia. De modo similar a uma criança, estava preso em uma rede de pensamentos saborosos que eu mal poderia esperar para experimentar. O taxista – um homem gentil, calvo e rechonchudo – nunca havia cedido a mim uma corrida. Me reconhecera de imediato, e também notara meu nervosismo. Por isso, resolveu conversar e tentar me distrair. Disse-me, ao longo do caminho, que sua filha de dezenove anos me adorava. Sorri, envergonhado. Tratando-se de David Matlock, admirava muito a coragem daquele homem de conceder aquela informação.
Abstraindo, consequentemente as ruas londrinas pareceram até menores. Quando dei por mim, já podia visualizar o aeroporto por fora. Um sorriso enorme brotou em meus lábios ao relembrar mais uma vez minha ilustre companhia. Parando o táxi, dei ao simpático motorista o dinheiro da corrida e uma generosa gorjeta; que o fez muito contente, por sinal – por maior que fosse minha babaquice, eu gostava de provocar sorrisos verdadeiros. O taxista saiu do veículo juntamente a mim e ajudou a tirar a bagagem do porta-malas. Agradecido, apertei-lhe a mão e dei as costas, rumo à pista. Chamei atenção das pessoas assim que a marca de dez metros do carro foi ultrapassada. Aos que acenavam para mim, sorrisos. Aos que bufavam negativamente, um sorriso ainda maior. Segundo Harry, o voo era particular; não comercial, e por isso eu me perdi e tive que me informar de modo galante com uma recepcionista morena de olhos verdes sobre onde eu poderia embarcar. O arquear de lábios devasso praticamente gritava “na minha cama, talvez” todavia ela era profissional demais para se esfregar com Dave Matlock no trabalho, infelizmente. Seguindo o rumo que me foi dado, achei o caminho para a pista que me serviria. Ao longe, avistei Harry conversando com o piloto de branco, fumando um cigarro. Meu agente acenou calorosamente quando pôs os olhos em mim, enquanto eu caminhava de encontro aos dois.
Ao fundo, notei o avião. Parecia um híbrido entre jato particular e um ultraleve. Era branco, tinha pintura lateral de listras em vermelho e azul. As janelas eram redondas, com exceção das para o piloto. As turbinas tinham hélices externas – o que me fez questionar ao meu vago conhecimento aeronáutico se aquela coisa era tão veloz e podia subir tanto quanto um movido a turbinas normais, como as de aviões comerciais. Mas, francamente, não me pareceu ruim ou desconfortável.
Porém, antes que eu pudesse adentrá-lo, Harry me parou.
– Hey Dave! Esse é Alexander Grandinsky, o piloto de vocês.
O senhor grisalho de farda, olhos azuis, e um bigode discreto sorriu com simpatia e estendeu a mão para que eu apertasse.
– É um prazer conhecê-lo, capitão. — Cumprimentei-o com força.
– O prazer é todo meu. Você tem grande reconhecimento, jovem. Fico feliz por ter sido confiado a transportar um homem de tamanha influência. — O inglês dele puxava bastante o sotaque russo. Não era surpresa pelo seu sobrenome. O timbre era gentil.
– Obrigado, capitão Grandinsky. Fico feliz em poder ajudar tanta gente. — Sorri.
– Bom, acho que vocês já podem ir. — disse Harry, sem aviso prévio.
– Mas não falta uma moça, sr. Phillips? — Indagou Alexander.
Como que por impulso, virei o pescoço para olhar a entrada da pista.
– Faltava, capitão... Não mais.
E lá vinha ela. Radiante; estonteante. Caminhava seguida por seu namorado-monstro, que carregava duas malas quase tão grandes quanto ele. Os lábios eram uma linha reta que não se curvara de imediato, cobertos por um batom rosado pouco chamativo. Os olhos azuis se escondiam com perfeição atrás das lentes de um Aviador de aro grafite semelhante aos que eu gostava de usar. Trajava uma camiseta preta, jeans skinny azul marinho, uma jaqueta de couro negra cujo os bolsos escondiam suas mãos, botas e uma bolsa pendurada no ombro. Esbanjava confiança. Volta e meia soltava uma sentença a Johnny, e apenas assim, sorria junto ao grandalhão. Hillary não me assustava, para ser honesto. Na teoria, deveria, mas por algum motivo, eu sentia que se conseguisse passar pela barreira que me impusera, ela se mostraria uma mulher diferente e não tão rígida quanto pregava ser.
A morena cumprimentou Harry calorosamente, sustentando até mesmo um início de diálogo. Em seguida, igualmente foi a sua simpatia ao conhecer Alexander, nosso piloto. Quando chegou a minha vez – o pesquisador milionário, premiado, considerado um dos homens mais influentes da atualidade — ... Bem, ela não me cedeu um mísero “bom dia, Matlock”. Apenas sorriu sem mostrar os dentes; um arquear de boca ranzinza e mal humorado, como se a educação que lhe fora dada fosse do tamanho de seu desdém, de modo que não pudesse utilizar um anulando o outro.
Com a chegada de Hillary, Grandinsky terminou o cigarro e rodeou o avião, chegando à porta para a cabine do piloto. Quando ele começou a se arrumar devidamente, ligar todos os equipamentos e acionar o motor – que fazia as hélices começarem a girar -, notamos que a hora estava próxima.
– Então, boa viagem, Dave. Procure me avisar quando chegar, e por favor, fique longe de problemas pelo menos por essas duas semanas. — Caçoou Harry, cedendo a mim um abraço apertado.
– Eu só faço questão de ficar perto de um problema, Harry. — Gesticulei com a cabeça para Hillary, que falava com o namorado. Ele riu. — Sentirei sua falta. Mantenha as coisas em ordem, inspecione a hierarquia e cuide bem dos meus carros, por favor. Você pode segurar o Matlock's enquanto eu estiver fora.
– Posso segurar a administração por bastante tempo até, Dave. A sua equipe é independente, praticamente. — Sorrimos. — Ah, e... Boa sorte com ela. Espero que a esquentadinha ceda logo.
Fitamos Hillary ao mesmo tempo, em uma série de pequenos beijos sorridentes com o namorado, que a segurava pela cintura sem um terço do calor que ela mostrava ter. Bufei.
– Ela vai ceder. Esse cara é um merda, e eu a quero para mim. Seria muita falta de sorte se ela continuasse intocável. É bonita demais para ser tão certinha.
– É impressão minha ou estou sentindo uma leve ponta de insegurança no seu tom de voz? — Balbuciou Harry, caçoante.
Eu encarei os olhos castanhos brilhantes de meu agente com um sorriso malicioso, irônico e ao mesmo tempo desafiador no rosto. Abaixei as duas sobrancelhas, fazendo meu olhar ficar mais sério e intimidador. Só depois, eu pronunciei as palavras com clareza, e entonando-as em de modo seguro:
– Impressão, sr. Phillips. Pura impressão.
– Haha, até mais Dave. Boa sorte. — Ele me dois leves tapas nas costas, se afastando. Mal podia esperar para encontrá-lo mais uma vez e narrar minhas futuras aventuras.
Fitei mais uma vez o beijo final do casal. Ele parecia impaciente. Perguntei-me se eu realmente estava ficando paranoico com a obsessão por Hillary, ou se o relacionamento deles era frágil como me parecera naquele exato segundo. Intrigado, preferi cessar o olhar duvidoso. Apenas peguei a bagagem e me pus a subir a escadaria para a porta deslizante aberta do avião. No interior do jato, a cabine do piloto era separada por uma parede que tinha como comunicação, apenas uma janela de vidro retangular aberta. Havia duas poltronas fixas giratórias em couro marfim do lado esquerdo do piloto. Estavam separadas por uma mesa grudada na parede de madeira bem clara que sustentava garrafas térmicas possivelmente com café, alguns papéis e canetas. Do lado direito, uma espécie de sofá do mesmo material que deveria ter uns três metros, mais ou menos. Era posto de lado, com a parte traseira colada na lataria da aeronave. Atrás da área formal, havia uma cabine para o banheiro e uma pequena estante com materiais de primeiros socorros. Todo o acabamento e forro das paredes era branco, e as lâmpadas ficavam em sua maioria, enterradas no teto. O chão era carpete marrom claro. O jato estava longe de ser um dos melhores, mas serviria para um voo de poucas horas até a Noruega, nossa vizinha do norte. Por isso, adentrei a aeronave e coloquei a enorme mala no vácuo entre o sofá e a cabine do banheiro, sem que pudesse atrapalhar a passagem de ninguém. Em seguida, sentei no confortável banco de couro, pre supondo que Hillary, ao tentar escapar de sentar-se ao meu lado, se alojaria em uma das poltronas à minha frente. Ela não tinha como escapar de mim, de uma maneira ou de outra.
E talvez dois minutos depois de mim, ela adentrou a aeronave ainda em silêncio, todavia calma e pacientemente. Fitou o interior com avidez, quase como se deslumbrada pelo luxo que nem chegava a ser tanto. Quando notou minha presenta, sorriu mais uma vez, como seu gesto mais caloroso de me cumprimentar. Resolvi seguir seu jogo momentaneamente e apenas acenei com os lábios torcidos, expressando incômodo. Pude notar, no mesmo segundo, que minha reação a assustara. Ri internamente. Afinal, a vida sempre seria dez por cento o que acontece e noventa, a maneira que reagimos.
E, como previ, ela colocou as malas ao final do jato, sentou-se em uma das poltronas giratórias, fixou o cinto e pôs a bolsa sobre a mesa enquanto mexia em seu Iphone preto, indiferente por minha presença. Ainda era muito cedo para falar com ela. Eu precisava esperar até que aquela atmosfera se dissipasse. Por isso, coloquei o fone de ouvido, e peguei o Ipod, reproduzindo aleatoriamente a minha segunda lista mais acessada – que perdia apenas para a “músicas para transar”- , que se chamava “top 10”. Contava, como é de se imaginar, com as minhas dez bandas favoritas de todos os tempos. Led Zepplin, Metallica, Pink Floyd, Oasis, Nirvana, Iron Maiden, Smashing Pumpkins e de modo mais atual, The Pretty Reckless, Evanescence e Three Days Grace. Um gosto musical bem diversificado, mas dentro dos padrões do bom e velho rock n' roll.
E a primeira a cair foi Sad But True.
Sorri.
Eu amava aquela maldita música.
E finalmente, decolamos.
Hillary lia um exemplar de “A menina que roubava livros”, no mais completo silêncio. Já sem os fones de ouvido, mal podia escutar sua respiração, de tão discreta que era. Mas, por um lado, estaria mentindo se dissesse que não a notaria. A cada segundo que se passava, eu ficava mais impressionado com o quanto era linda. Cada traço do seu rosto era perfeito; sem exceções. Já era mais que tempo de quebrar aquele silêncio que tanto me importunava. Devagar, comecei a mover meus lábios, entretanto as palavras simplesmente não saíram. Isso me fez perder o controle do meu tom de voz.
– Eu... — Pigarreei para me corrigir. — Acho interessante o modo como o autor utiliza a Morte para narrar essa história. Quando eu li pela primeira vez, fiquei impressionado. É realmente original e admirável.
Ela se moveu então, pela primeira vez. E nunca achei que diria isso, mas, foi assustador quando ela mudou o alvo do seu olhar para mim. A raiva era tão notável que achei que ela fosse me matar.
– Eu não devo ter sido clara o suficiente com você, David...
– Eu só peço que me escute por um momento, srta. Williams. — Eu a atropelei, antes que dissesse algo tão humilhante que me deixasse sem saber o que dizer novamente. — Eu não quero que isso seja desagradável para nenhum de nós dois. Estamos indo trabalhar, e talvez alguma coisa realmente boa aconteça; por isso temos que nos manter focados. Hillary, querendo ou não, somos uma equipe. Por favor, não vamos tornar as coisas difíceis.
Ela riu com ironia, e fechou o livro que estava lendo, sem marcar a página em que parou. Por algum motivo, eu tinha certeza de que aquele não era um bom sinal.
– E como as coisas poderiam ser agradáveis para você, David? Passando um tempo com as norueguesas? — Ironizou, gélida.
– Não entendo por que você está tão incomodada com a minha vida. Você não me conhece, e está me julgando pelo que escuta. Eu não estou pedindo para me amar, só quero que você me dê uma mísera chance de te mostrar que eu não sou tão ruim quanto você acha que sou.
– Se você fosse realmente inteligente, veria que está sendo avaliado por mim a cada segundo. E, se quer saber, ficar me implorando por isso só faz você parece mais... Idiota.
Bufei, incrédulo. Aquela mulher só poderia ter sido enviada pelo diabo para me fazer pagar por todos os meus pecados.
– Muito bem... Nós podemos tentar recomeçar e esquecer disso tudo. — Eu propus.
– David, acho que não há muito que você possa fazer. Eu sou o tipo de pessoa que não tira algo da cabeça facilmente.
– Eu realmente não quero alimentar um sentimento ruim sobre você, Hillary. Então, por favor, facilite as coisas. Eu nunca te fiz nada.
Novamente, ela riu no mesmo tom irônico.
– Muito bem, David. Eu prometo tentar mudar minha cabeça, se você me responder uma pergunta com sinceridade. Não pode mentir, de jeito nenhum... — Ela propôs. Eu sorri. Estávamos chegando a algum lugar.
– Eu respondo. Pode fazer a pergunta.
– Sabe por que eu tenho tanto nojo de você? Porque eu apostaria minha vida na teoria de que, em algum momento desses dois dias que não nos vemos, você falou para seu amigo Harry que não voltaria da Noruega sem antes conseguir alguma coisa comigo. Estou certa, Dr. Matlock?
Naquele momento, eu engoli em seco. Não podia mentir, mas não podia dizer a verdade. Ela tinha sido direta, e eu não sabia como despistá-la. Por um breve momento, eu comecei a suar frio, encarado por aqueles olhos azuis hipnóticos, e sem saber o que dizer. E minha demora ao responder só era mais um modo de demonstrar que ela tinha razão...
– E-eu... — Gaguejei. Isso não era um bom sinal. — Harry e eu não falamos as coisas mais legais do mundo, juntos... Somos como dois adolescentes babacas.
– É... Então você admite que eu estou certa? — Ela perguntou.
– É... Mas...
– Pelo menos você foi sincero. — Ela me interrompeu. — Isso é bom. Mas, pare para pensar. Você apostou e eu sou o prêmio. Me tratou como um objeto qualquer. Desrespeitou meu relacionamento com Johnny... É apenas uma coisa boa dentre três ruins; e de valor maior. E, você ainda quer que eu facilite sua vida sendo um amorzinho com você? — Ela bufou. — Desculpe David, mas não sou uma das vagabundas que se arrastam aos seus pés. Eu sei que você não precisa respeitá-las, mas o tratamento comigo é outro. E, mesmo se eu estivesse solteira; coisa que, só para deixar claro, eu não estou, – ela entonou com força — eu não teria nada com um cara como você. Sinceramente, essa sua canalhice me enoja.
Como eu podia argumentar contra ela? Naquele momento, eu senti como se tivesse perdido minha voz... Eu não sabia o que responder, e talvez mesmo que soubesse, as palavras não sairiam... Porque, de certo modo, ela estava certa, e eu sabia disso. E foi ali que eu vi que Hillary Williams era um desejo arruinado. Ia ficar comigo apenas nos meus mais doces sonhos...
– Você venceu... Realmente, eu estava errado ao fazer o que fiz, e devia ter te dado o respeito que merece. Te peço as mais sinceras desculpas, de verdade. Eu não tinha a intenção de te deixar assim... Mas, já que estou sendo sincero, eu não posso evitar dizer... Isso não aconteceria se você não fosse a mulher mais fascinante que já cruzou meu caminho... Por favor, não leve isso para o lado ruim; é apenas a verdade.
– … Jeito interessante de demonstrar sua admiração. — Ela disse, rindo baixo. A ironia daquele comentário não era uma coisa ruim... Ela estava zombando. Isso já era uma grande evolução.
– Bem... Certas mulheres são capazes de fazer homens voltarem a agir como meninos; sem saber o que dizer, ou o que fazer. E, talvez esse seja o único modo de explicar a atitude infantil que eu tive... Você conseguiu me deixar inseguro e desorientado, exatamente como um garotinho...
Aquelas palavras eram estratégicas... Eram delicadas, e suaves, e eu pretendia conseguir me aproximar dela ao mesmo tempo. Aquilo não deixava de ser um pedido de desculpas pelo que eu havia feito, e, a julgar pela expressão surpresa de Hillary, eu diria que estava funcionando. Só esperava que ela não percebesse que eu queria chegar cada vez mais perto dela.
– Ou talvez esse apenas seja um modo que você encontrou para não se passar por um homem fútil e infantil, doutor. — Ela disse, sorrindo. Meu Deus... Ela não caía em nada. — E, ainda assim, não deixa de tentar me deixar encantada... Admiro sua insistência, David.
– Não é só questão de insistência... Essa é a verdade, por mais que talvez você não acredite. Eu sei que é difícil, e que minhas palavras não são confiáveis para você... Mas, pelo menos, você não pode dizer que eu não avisei.
– É... Você está certo. Suas palavras não são confiáveis.
Como encerramos o assunto, Hillary se encostou novamente no banco e voltou a ler o livro. Eu não tirava meus olhos dela, sempre pensando. Pelo menos, eu não precisava ser discreto ao observá-la.
– Em que nós dois somos tão diferentes? — Perguntei, olhando para o nada. Ela se assustou, e me encarou curiosa.
– Você e eu?
– Não... Johnny e eu. O que ele tem que eu não tenho? — Perguntei.
– Vergonha na cara. — Ela respondeu, sem perder tempo. Era como se já tivesse a resposta na ponta da língua. Rimos baixo.
– Fora isso.
– Conheço John há muito tempo... Ele têm suas qualidades e seus defeitos, como qualquer um.
Naquele segundo, eu vi uma pequena luz de esperança no fim do túnel. Pelo tom de voz dela, e pelo o que dizia, o relacionamento deles não importava tanto para ela. Não falava como se o amasse... E isso tornava as coisas um pouco menos complicadas.
– Um lutador campeão pode ser um namorado carinhoso e companheiro? — Perguntei, curioso.
– Olha... — Um tom de voz duvidoso apareceu. — Poder; pode sim...
– E... Você o ama? — Por que eu tinha a impressão de que havia alguma coisa errada ali?
– Ele é meu namorado... É claro que sim. — Minha expressão triste quase foi notável. Mas, mesmo assim, eu senti algo diferente em sua voz.
Nós morremos naquele assunto então... Hillary voltou a ler seu livro, enquanto devagar eu ia fechando os olhos. Às vezes, eu os abria só para ter certeza de que aquilo era real. Ter certeza de que eu estava na companhia de uma mulher tão bela... E toda vez que eu via que sim, eu sorria; embora eu soubesse que não passava de um homem arrogante e desprezível para ela... Até que, um certo tempo depois, eu adormeci.
– Por favor, doutores Williams e Matlock, estamos tendo uma falha grave de ambas as turbinas. Alguns pássaros se chocaram com as hélices. Mantenham-se firmes e frios!
Aquela era a voz do piloto, distorcida pela caixa de som da aeronave. Quando escutei o alarde e senti as contrações violentas do corpo do avião, abri os olhos no mesmo segundo, assombrado. Hillary havia abandonado o livro e se agarrava com veemência ao cinto de segurava que cruzava-lhe o peito. Lá fora, uma neblina espessa não permitia nem mesmo que víssemos a turbina falhando; a única evidência do curto era uma fumaça cinza escura que começava a escapar.
– Como assim manter-se firme e frio?! — berrava ela, em desespero. — A porra do motor está falhando, Alexander! Nós vamos morrer!
– Senhorita, peço que se mantenha calma. Eu tenho mais de duas mil horas de voo, e vou dar um jeito de salvar a todos nós! — Respondeu ele, virando a cabeça para que sua voz passasse diretamente pela janela de vidro.
– Essa merda desse avião vai cair na porra do Mar do Norte! Não tem como não morrer de hipotermia! — A voz se embargou de imediato.
– Hillary, se acalme! Ele não vai deixar o avião cair!
– Qual é o seu problema, David? O motor está falhando! Essa merda vai cair!
E como se o destino estivesse brincando de me contradizer ou até mesmo me provar que meu otimismo era incapaz de desbancar a histeria de Hillary Williams, assim que sua sentença se desmanchou no ar, a aeronave se pôs a perder altitude de forma brusca. Nossas mãos se apertaram nos acentos para que não fôssemos jogados até nossas bagagens. Um grito de pavor foi compartilhado entre a morena e eu, como se constatássemos pela primeira vez nossa morte iminente. A sensação se assemelharia a uma montanha russa quando desce muito rápido. Todavia, naquela brincadeira fatal, o preço seria nossas próprias almas. A turbulência fazia com que tudo convulsionasse como em um terremoto. As máscaras de gás caíram em nossas cabeças. Lá fora, vimos as nuvens saírem da janela e dar espaço a um céu azul, deixando bem evidente nossa catastrófica queda.
E quando o jato estava prestes a dar de bico no oceano, Grandinsky puxou o controle com toda a força que tinha nos braços e fez com que a aeronave se pusesse em ângulo normal; de barriga contra a água, deslizando sobre o mar com a bênção da física e seguindo reto ao invés de ir direto para as profundezas. Os galopes foram consequência da instabilidade do oceano e nossa parcial vitória nos dera um ponta de esperança. Não tivemos tempo de pensar que aquela manobra não teria força para continuar para sempre. Entretanto, antes que eu fosse capaz de acreditar mais uma vez que nos afogaríamos, vi o tempo passar pela primeira vez em câmera lenta.
Na janela do jato, o oceano dera lugar a uma encosta de praia seguida de um rochedo enorme e muitas árvores boreais. Perguntei-me se havia morrido – e honestamente, acreditaria mais que sim do que numa sorte suprema que tivesse colocado aquele lugar em nosso caminho. Hillary segurou seus gritos por meio segundo.
E nada mais. Em seguida, o avião parou bruscamente e me fez bater de cabeça na parede de aço. De imediato, perdi a consciência.
Quando acordei, talvez horas depois, não vi nada com clareza. Minha cabeça doía, e tudo girava, literalmente. A minha visão embaçada durou pouco mais que dez segundos enquanto eu ia me mexendo devagar. Aos poucos, tudo ficou claro, eu fitei o interior bagunçado do avião. As coisas estavam espalhadas para todos os lados; como se um tornado tivesse passado por ali. Hillary estava deitada com a cabeça na mesa, desacordada; seu cabelo negro tampava seu rosto. Nossas bagagens haviam migrado para nossos pés, completamente espalhadas.
Então, eu soltei o cinto que me prendia ao banco. Ainda tonto, eu caminhei até a porta e tentei abri-la a todo custo; parecia enterrada. A maresia, o sopro do vento e o canto de aves silvestres era tudo que eu conseguia ouvir. Mais uma vez, me vi assombrado. Onde estava a ajuda que precisávamos?
Aliás, onde estávamos?
A porta de metal da cabine continuara me dando trabalho, mas depois de um tranco violento que quase tirou meu ombro do lugar, ela desenterrou. E, quando eu a abri, e vi a imensidão que se expandia debaixo de nossos pés, eu não soube se devia pular de alegria ou chorar. O avião fora freado pela areia de uma bela praia deserta que pertencia a alguma ilha desconhecida na qual nos encontrávamos. O Mar do Norte já havia sido alvo de muitos estudos do Matlock's e jamais fora contatada alguma massa de terra. Eu mal sabia o que pensar. Estava vivo, porém perdido.
Respirei fundo antes de pular do avião para a areia – talvez a distância fosse de um metro e meio. Sem perder tempo, eu dei a volta na aeronave e fui até a cabine do piloto. Mas, eu tive uma surpresa nada agradável quando vi aquela cena. A porta já estava aberta, e Alexander havia sumido. A única evidência de sua estadia ali era uma trilha nada aconchegante de sangue, que se estendia do estofado até alguns metros de areia à fora, por onde parecia ter sido arrastado sem piedade alguma.
Meus órgãos se espremeram dentro do corpo.
Eu tinha que pegar Hillary e procurar por ajuda.
Corri em volta do avião, me desequilibrando todo momento. O desespero e o medo eram tão grandes que eu apertava os passos; me esquecendo de que areia não é tão firme quanto concreto. Isso obviamente resultava em uma quase queda. Eu praticamente tive que me arrastar para chegar novamente ao interior da aeronave. Quando eu cheguei de volta à porta, eu subi. Praticamente em pânico, eu arrastei as bagagens com os pés para poder chegar até Hillary. Ela ainda estava inconsciente quando eu consegui me aproximar. Com cuidado, eu agachei ao lado da poltrona e tirei o cabelo de seu rosto delicadamente. Pela primeira vez, toquei sua pele quente, suave e macia. Até a sensação de seu toque era diferente.
– Hillary... Vamos, acorde. — Clamei por sua consciência, mexendo seu corpo com cuidado.
Então, ela abriu os olhos, para o meu alívio. Com a minha ajuda, ela se sentou devagar e levou a mão à cabeça. Estava assustada e desorientada. O olhar triste e confuso que fitava o nada partiu meu coração. Se o misto de sentimentos desagradáveis não fosse o suficiente para me fazer perder o controle, ver Hillary daquela maneira com certeza seria.
– David... Estamos vivos, não estamos? — Perguntou ela, em um sussurro.
– É... Mas acho que estamos perdidos em alguma ilha... Vamos ter que sair do avião e procurar por ajuda.
Ela moveu a cabeça com negação, como se incapaz de acreditar em minhas palavras.
– Onde está... Alexander? — Ela levantou a cabeça então, e sentiu-se tonta mais uma vez. Ajudei-a a se recompor.
– E-eu... Não sei... Quando eu acordei, ele não estava aqui e... Tem.. — as palavras entalaram em minha garganta — … sangue... Na cabine...
– Sangue? — Seu tom se exaltou, sendo imediatamente substituído pelo embargo.
– Eu não sei onde nós estamos, nem o que tem aqui... Mas algo me diz que devemos pegar as coisas e procurar por ajuda. Podemos não sobreviver se continuarmos nessa praia.
– O que? — Mais uma vez, o timbre se elevou. — Eu não vou sair daqui! Alguma coisa pegou o piloto e isso está lá fora, e você quer largar o único abrigo que nós temos?
– Hillary, nós temos que procurar ajuda e descobrir como sair daqui. E aliás, não sabemos onde está Alexander e ele pode estar vivo. A única coisa que não podemos fazer é continuar aqui.
Ela levantou então, e obrigatoriamente tive que me afastar. Ainda estava assustada e seus olhos estavam se enchendo de lágrimas.
– Se você quiser, pode ir procurar ajuda. Eu vou ficar, e nada que você possa dizer ou fazer vai me influenciar.
– Eu não vou deixar você aqui sozinha, de modo nenhum. Não é seguro...
– E o fato de você estar presente muda alguma coisa?
A última coisa que eu ia aturar naquele momento era a grosseria de Hillary. Eu estava irritado, desorientado e assustado, e normalmente as pessoas não costumam pensar direito em uma situação como aquela. Elas simplesmente dizem a primeira coisa que vem às suas cabeças.
– Eu honestamente já estou farto disso. Eu tentei ser agradável com você, mas tudo que recebi em troca foram patadas e mais patadas. Você não passa de uma garota inglesa mimada; e que julga as pessoas sem nem antes conhecê-las. Deve se achar muito madura, e que é uma mulher sem defeito algum, só para a sua informação, o mundo não é um lugar perfeito. Eu não vou aturar mais essas suas criancices só porque você é gostosa... Tecnicamente, a futilidade seria minha.
Então, eu virei de costas, peguei minha mala e pulei para fora do avião. Caminhei até a cabine do piloto com os passos pesados e furiosos, e daquela vez nem a areia foi capaz de me deter. Eu vasculhei a cabine em busca de uma faca, ou canivete... Qualquer coisa que pudesse ser útil. E por sorte, não demorei muito a encontrar uma faca de caça com uma lâmina afiada.
Quando eu saí da cabine, eu fitei a enorme floresta. Era um tanto estranha, pois a vegetação variava. Perto da praia, era mais densa, e as árvores eram mais baixas e litorâneas... Mas, eu podia ver que mais longe, eram altas dignas de florestas de coníferas; uma mistura pouco usual ou provável de ocorrer. A ilha parecia um pedaço da Noruega que havia escapulido do continente. O tempo frio e fechado só dava um ar mais sombrio àquilo tudo. A faca em minha mão parecia ser inútil quando eu fitava os pinheiros velhos e enormes. Era estranho o que eu estava sentindo naquele momento. Eu temia aquela ilha; como se houvesse alguma coisa ruim me esperando. Não era um medo que eu pudesse explicar. Eu só sentia que tinha alguma coisa errada com aquele lugar.
Em poucas horas, a noite cairia. Eu sabia que esse tempo não era o suficiente para que eu arrumasse ajuda. Se alguma coisa me dizia para ficar longe da floresta durante o dia, acho que a mesma coisa me diria para nem olhar para a floresta durante a noite. E foi exatamente por esse motivo que eu recuei, e voltei para a cabine do piloto com minha bagagem. A minha cautela era tanta que eu parecia estar evitando o barulho. E, talvez com o medo e com a sensação ruim que eu sentia, eu realmente estivesse. Foi exatamente por isso que eu fechei a porta com todo o cuidado do mundo.
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