Fallacy - Pride
5 Novo Mundo
Por algum motivo, um medo irracional tomou conta de mim naquele segundo. Eu fui me espremendo contra os bancos, e ficando cada vez mais longe de porta do piloto. Só parei de me arrastar quando minhas costas tocaram o outro lado do avião... Mantinha os olhos fixos na floresta como se estivesse esperando alguma coisa sair dali. Aquilo não tinha lógica, mas de repente, se apoderou completamente de minha cabeça.
Eu escutei barulhos estranhos vindo da mata. Eram como grunhidos altos, e ao mesmo tempo que pareciam familiar, eu não conseguia identificar. Uma expressão de dúvida tomou conta de minha face, mas o medo irracional não permitia que eu movesse um só músculo. Só fiquei parado, encarando a floresta pelo vidro, esperando por alguma coisa que eu não sabia o que era. Estava tão apavorado que mal conseguia respirar.
Poucos segundos depois, eu comecei a tremer desesperadamente quando aquele medo irracional começou a fazer sentido. Os grunhidos que vinham da mata tinham um dono. Mas, o que estava acontecendo diante dos meus olhos era tão ridiculamente improvável que eu cheguei a acreditar que estava delirando. Porém, quando percebi a agitação e desespero de Hillary; que ainda estava dentro do avião, eu percebi que eu não só estava em perfeitas condições como ela também estava vendo o que eu via.
As duas criaturas tinham passos leves e discretos. Continuavam fazendo os ruídos estranhos que me chamaram a atenção anteriormente. Os dentes finos e afiados me causaram um calafrio mas, por pura sorte, nenhum dos Velociraptores notou o avião — ou, pelo menos, se notaram, ignoraram completamente; talvez estivessem apenas vigiando, esperando algo sair dali. O pior era saber que aquele não era mais um dos meus pesadelos. Eles eram reais.
Eu não sabia o que estava me deixando mais apavorado: as tão famosas garras de dez centímetros; os olhos amarelados com a pupila em forma de uma linha vertical; a pele enrugada em um tom verde acinzentado ou até mesmo os cortes profundos que eu podia notar em ambos. A sensação aparentava estar mergulhando com tubarões em uma gaiola, todavia a frente de vidro do avião não parecia ser tão segura.
Foi quando eu ouvi o barulho de alguma coisa se quebrando, dentro do avião. Os Raptors levantaram as cabeças, curiosos, e fitaram a aeronave. No mesmo momento, eles mudaram de rumo. Se pretendiam voltar para a floresta, naquele segundo, eles estavam caminhando em nossa direção. Os passos discretos mal deixavam marcas na areia. Se aproximavam devagar, e a cada centímetro que andavam, a minha crise piorava. Eu estava suando frio àquela altura.
De repente, eles pararam. Fitaram alguma coisa, do outro lado da praia, e correram novamente para dentro da floresta. Perderam toda a descrição; era como se eles quisessem apenas salvar suas vidas. Eu me vi confuso naquela situação. Se por um lado, os Raptors tinham me deixado em paz, pelo outro, eles haviam fugido de alguma coisa. E que diabos poderia assustar um Velociraptor? Provavelmente, não uma coisa que não fosse capaz de matá-los. E se podia acabar com eles, comigo então...
O curioso (e talvez, o único fato que tenha me acalmado) era que eu não tinha escutado nada. Minutos se passaram, e o silêncio era o mesmo. Isso provavelmente significava que aquela coisa da qual os Raptors estavam fugindo talvez tivesse desaparecido. Ou melhor ainda: nunca existido.
O medo aos poucos foi apenas se tornando uma tensão. Eu já não tremia, nem suava mais. Continuava sem me mexer, mas estava mais calmo. Na medida do possível, obviamente. Eu tinha uma Equipe especializada em dinossauros; eu os via mexendo com os fósseis. E agora, lá estava eu, me escondendo para não virar o jantar de um animal já considerado extinto há milhares de anos. A situação ia além do que eu podia explicar; além do que eu acreditava.
Os minutos dentro do avião se transformaram em horas, e em pouco tempo, a lua nova decidiu se mostrar. E sobre a floresta, eu tinha razão. Meu corpo ficava completamente arrepiado apenas em olhar para ela. Eu escutava ruídos estranhos, que ecoavam naquela escuridão, e o mais apavorante era que eu não conseguia identificar nenhum. Aquela foi, de longe, a pior noite da minha vida. Não consegui fechar os olhos nem por uma fração de segundo; muito menos me mexer. Só fiquei parado com sono, fome, e tremendo de pavor ao esperar incansavelmente o Sol voltar a brilhar.
Eu nunca tive medo do escuro até então.
Foi um alívio enorme quando o Sol nasceu novamente, e eu pude enxergar. A praia ainda estava vazia, e não havia nenhum sinal de que algo tivesse se aproximado de nós durante a noite. Eram mais ou menos seis da manhã. Os animais noturnos estavam dormindo, pois estava claro; e os diurnos também, já que era cedo. E eu tinha cerca de treze horas até o anoitecer. Se havia um momento para sair daquele avião atrás de ajuda, e um abrigo seguro, era aquele.
Concentrado apenas na minha respiração, eu encontrei coragem para me aproximar da porta da cabine. Quando eu toquei a maçaneta, novamente um calafrio correu pelo meu corpo. Fechei os olhos devagar, e respirei fundo, contando até três mentalmente. E só quando me senti preparado psicologicamente (na medida no possível) eu abri a porta devagar; enquanto o rangido discreto e enferrujado me fazia retornar a todos os filmes de terror que eu já havia assistido.
No mesmo momento, um vento gelado entrou na cabine. A primeira coisa que eu escutei foi o canto alegre dos pássaros; como se estivessem agradecendo por mais um dia que viam amanhecer. Então, com cuidado eu coloquei meus dois pés na areia, enquanto apertava o cabo da faca que estava na minha mão, por mais que eu soubesse que aquilo não me protegeria.
Tentando ignorar o meu medo, e a sensação estranha que me dizia para permanecer ali, eu caminhei com os passos leves e discretos. Podia sentir minhas pernas tremendo, mesmo que eu não percebesse. Minhas mãos estavam tão geladas que chegaram a ficar dormentes. Isso só era mais uma forma de mostrar o quanto eu estava nervoso e me sentia desprotegido naquele lugar. Eu nunca havia sentido nada parecido com aquilo antes... A sensação de que viver ou morrer dependia apenas da minha sorte, e que eu era um ser insignificante; que nada poderia fazer para proteger a si mesmo.
– David, espere!
Então, eu virei para trás, assustado, quando já estava quase a ponto de entrar na floresta. E, para minha surpresa, Hillary vinha caminhando rapidamente em minha direção, sempre atenta a qualquer movimento. Estava assustada, e pude notar que estava até um tanto pálida. Mesmo que o meu orgulho fosse forte o suficiente para me fazer ir embora, eu esperei. Ela não viria até mim sem um bom motivo.
– Tenho certeza de que você viu o que apareceu por aqui na última noite, então volte para o avião. — A ordem soou autoritária. Talvez até demais.
– Não. Eu vou com você. — Hillary rebateu ao se aproximar. — Você estava certo; não é seguro ficar aqui.
Eu ri discretamente.
– Está doente? — Indaguei, sorrindo. — Você realmente disse que eu estou certo?
– Eu admito quando estou errada, David. Meu orgulho não supera a razão. Mesmo que gente como você esteja certa.
– Hillary, isso não vai ser fácil, de um jeito ou de outro. Mas, podemos fazer da maneira difícil, ou da muito difícil. Desse modo, nossa situação piora. Você não gosta de mim; tudo bem. Mas, juntos somos melhores do que separados.
– De um modo ou de outro, vamos morrer se continuarmos aqui. Então, é melhor irmos logo atrás de ajuda. Provavelmente você teve a mesma reação que eu quando viu o … — As palavras fugiram dela.
– O dinossauro? — Completei, ainda sem acreditar. — É, acho provável. Então, vamos logo antes que eles decidam voltar.
Eu virei de costas, e dei o primeiro passo para dentro da floresta. Minha respiração silenciosa era a prova mais evidente do medo que eu estava sentindo, mas mesmo assim, me manter calmo era importante. Não só para não chamar atenção, mas também para Hillary. Por mais que tivéssemos alguma chance de sair vivos, as nossas chances de morrer pareciam ser muito maiores.
A parte da vegetação litorânea não era muito grande, então nós não demoramos muito tempo para conseguir passar. Mas, quando entramos na parte menos densa, em um instante, o ar se modificou. As árvores eram altas e tinham cascas grossas, enquanto o chão era úmido e coberto de folhagens. A temperatura desceu talvez dez graus, com facilidade. Os raios solares tímidos mal conseguiam passar pelas camadas de folhas das árvores gigantescas que quase não nos deixavam ver a cor das nuvens cinzas e furiosas. Até o cheiro daquele lugar era diferente... Cheiro de morte.
Hillary passou a andar do meu lado, a partir daquele momento. Não dizíamos absolutamente nada, mas quando respirávamos, podíamos ver o gás carbônico condensado subindo discretamente, pela baixa temperatura ambiente. O silêncio era tanto que eu podia escutar meus ossos estalando quando eu caminhava. E, a cada minuto que se passava, menos eu acreditava que encontraria alguma ajuda.
Então, escutamos um barulho sibilante, que logo nos fez congelar onde estávamos. Nossa respiração ficou mais fraca, e nossos corpos tiveram calafrios. O barulho se repetiu então, de forma um pouco mais alta e clara. Por um breve segundo, eu senti as lágrimas vindo aos meus olhos. Porém, antes que eu as derramasse, virei o pescoço devagar. Então, parei completamente de respirar.
Era outro deles. Os passos eram tão leves que eu mal teria notado, se não fosse pelo barulho típico de predador seguindo sua presa. Continuava a emitir o som, enquanto se aproximava devagar; não sabia que havíamos notado sua presença. Por sorte estava sozinho. Mas, sozinho ou não, ainda era um Velociraptor prestes a nos atacar. Sorte? Nenhuma.
– Corra!
Ao som da minha voz, Hillary e eu disparamos feito duas balas. Mas, do mesmo modo, quando o dinossauro notou, ele decidiu parar de se ocultar entre as árvores e vir atrás de nós. Nossos passos eram praticamente pulos, e a adrenalina corria em nossas veias, apenas por imaginar a ideia de virar comida de lagartixa. Ele seguia, consideravelmente mais rápido e ao mesmo tempo mais silencioso que nós dois. No fundo, eu sabia que seria uma questão de tempo para que nos alcançasse.
Então, passando os olhos pela floresta, procurando desesperadamente por alguma coisa que pudesse salvar nossas vidas, eu vi um pequeno cercado. Toras de madeira alinhadas em um distância regular, de um metro e meio, envolvidas por um arame farpado e enferrujado. Foi naquele momento que eu segurei a mão esquerda de Hillary e a puxei, saindo da trilha que estávamos seguindo para fugir. O dinossauro passou direto por nós, derrapando com as garras enfiadas no chão. Mas isso não o impediu de levantar, e começar a correr atrás de nós mais uma vez.
Mas, algo estranho aconteceu. Eu escutei um grunhido, e depois, alguma coisa caindo no chão coberto por folhas mortas. Aos poucos, minhas passadas foram diminuindo; mesmo que, se eu estivesse errado, parar de correr significasse a minha própria morte. E, foi quando eu virei novamente para entender o que tinha acontecido que eu tive mais vontade ainda de correr.
O Velociraptor não era mais problema algum; estava morto. O que me preocupou foi a criatura que havia o matado. Encarei assustado enquanto, o que quer que aquilo fosse, dilacerava o pescoço do pobre dinossauro. O sangue estava completamente espalhado pela armadura que usava... Ele tinha traços humanos, como o formado dos dedos e do corpo, mas estava longe de ser um.
Eu escutava o som da carne do dinossauro sendo arrancada de seu pescoço por aquele... ser. Era um tipo de híbrido humano com um lagarto. A pele tinha um tom esverdeado, enrugada, e era coberta de escamas grossas e de aparência áspera. Os dedos tinham longas garras pretas e afiadas, que ele utilizava para segurar o dinossauro. Uma série de escamas triangulares acompanhava a linha da sua coluna vertebral e ia até o alto de sua cabeça. Ele não tinha orelhas; apenas dois furos que deviam ser os ouvidos, envolvidos por outras carreiras de escamas.
Curioso, eu dei um passo na direção daquilo. Apenas um passo.
Então, aquela criatura levantou a cabeça, assustada. Sua íris era amarelada, e a pupila tinha forma de linha vertical. E, ele não tinha um nariz; apenas as fossas nasais. Os dentes eram escuros e afiados. A região das sobrancelhas parecia ser dura, e tinha um formato que dava ao seu olhar um tom assustador e macabro; mesmo que ele não precisasse mais disso. Coberto de sangue na região da boca, nós dois recuamos ao mesmo tempo. Aquela criatura, mesmo tão assustadora, parecia estar tão curiosa e surpresa quanto eu.
Foi quando Hillary segurou minha mão, e me puxou. Seus dedos estavam gelados, e ela continuava suando frio. Não fazia o menor barulho, e tentava não chamar a atenção daquele ser. Assustada, ela me fez recuar um passo. Mas, quando viu que pretendíamos sumir, o híbrido se levantou, bípede, exatamente como nós. Minha expressão facial denunciou minha surpresa.
– Mas que diabos... — a frase de Hillary morreu. Ela não parecia ter forças para continuar.
Foi quando aquela coisa começou a tossir, pigarrear, e fazer todo o tipo de ruído. Por um segundo, me lembrou um gato tentando cuspir uma bola de pelos. Ele abriu a boca ensanguentada, mexeu com a língua, emitiu alguns sons estranhos com a garganta... Era como se estivesse se preparando para...
– Me... D-desculpe. — Aquela criatura respondeu, entre pigarros. Hillary levantou as sobrancelhas, assustada, e sem entender. Instintivamente, eu recuei três passos.
– É... Ele fala. — Eu respondi devagar, suspirando. Talvez, nem o dinossauro tivesse me assustado tanto.
– Já faz tempo que não vejo humanos... — Aquela coisa disse, com uma voz baixa, quase como um sussurro. Era assustador o tom que ele conseguia usar. — Me desculpem pela bagunça, eu não vi vocês dois... — Ele apontou para o dinossauro coberto de sangue, aos seus pés.
Nossas vozes sumiram. Hillary e eu estávamos chocados demais.
– Me chamo Vincent. — Ah, que legal. Ele tinha um nome, além de tudo. — E vocês? Não parecem com nada que eu tenha visto por aqui, nos últimos trinta anos.
– Ahn... — Me empaquei. — Eu sou... David, e essa é... Hillary...
Vincent sorriu. De um jeito estranho, obviamente.
– Sem querer parecer indelicado... Mas que diabos é você? — Perguntei. Ele riu baixo.
– Não temos um nome, mas somos talvez o mais próximo de Cécrope I, o rei metade homem, metade serpente. Fomos banidos do mundo, mas ainda estamos aqui.
– Então, existem outros como você... — disse Hillary, tão baixo que mais pareceu que ela estava apenas pensando alto.
– Somos dezenas. Mas, jamais saímos do palácio, porque sabemos o quanto é perigoso aqui fora Eu devo estar longe de casa, e logo precisarei voltar. Ninguém quer estar aqui quando a noite cai.
– Isso não faz sentido. Você matou o Velociraptor como se não fosse absolutamente nada. O que tem a temer? — Indaguei, curioso.
– Velociraptores estão longe de ser seu maior problema aqui, caros humanos. Eles são apenas como cães famintos que se alimentam de carcaças deixadas. Atacam humanos porque são as únicas coisas que podem abater, e mesmo assim, só fazem isso como último recurso. Aprenderam que ser carniceiros é o único jeito de sobreviver.
Hillary e eu nos encaramos então, assustados.
– O que tem aqui, Vincent?
– Coisas que apenas existiam nos seus piores pesadelos. Criaturas que te fariam implorar pela sua própria morte. Pessoas desumanas. Seres inacreditáveis. Tudo de ruim que você pode imaginar.
Hillary recuou um passo.
– Eu sugiro que arrumem um lugar para ficar. No chão, logo serão localizados e provavelmente, mortos. Então, corram e se escondam. Quando a noite cair, gritos de dor ecoarão pela escuridão.
– Não pode nos ajudar? — Perguntou Hillary.
Vincent sorriu, de um modo sádico que me deixou desconfortável.
– Não hoje... Mas posso voltar dentro de alguns dias.
– Dias? — Perguntei, assustado. — Podemos não sobreviver dias, Vincent.
– É tudo que eu posso fazer por vocês, infelizmente. Mas vão ficar bem se ficarem escondidos, e principalmente, não saírem durante a noite. Alguns já sobreviveram.
– Me deixe adivinhar... Alguns sobreviveram mas a maioria morreu? — Hillary perguntou com alguma ironia.
– Isso não é um pesadelo, senhorita. E acredite, você desejaria que fosse.
Então, o híbrido agarrou a cauda do dinossauro e sumiu do nosso campo de visão. Alguns minutos se passaram, mas Hillary e eu nem nos mexemos, preocupados com as palavras dele. Pelo visto, a minha sensação de que aquela floresta tinha alguma coisa ruim estava certa.
Precisamos de algum tempo para que conseguíssemos nos mover mais uma vez. Eu segurei o braço de Hillary, e juntos, nós dois continuamos andando em direção à cerca que eu tinha avistado antes. Aquela era a única esperança que eu tinha de encontrar alguém (ou alguma coisa) que pudesse nos ajudar.
Quando finalmente conseguimos nos aproximar, pela primeira vez, tivemos um real motivo para sorrir. Havia uma casa de madeira, presa no alto do cruzamento de duas árvores gigantescas, e suspensa por algumas toras apoiadas no chão. Dentro da área que a cerca envolvia, havia palha, e alguns barris. Havia também uma escada espiral de madeira, que dava em uma plataforma ligada à casa. No mesmo momento, Hillary e eu pulamos a cerca com desespero, e corremos para as escadas, na esperança de que o dono daquele lugar pudesse nos ajudar.
A sensação de alívio já tomava conta de mim quando eu cheguei à plataforma, seguido por Hillary. Radiante de felicidade, eu caminhei rápido pelo pedaço que fazia a ligação; que era o que eu podia chamar de ponte. E, quando finalmente cheguei ao piso que também servia de varanda para a casa, eu sorri. Aquela história estava perto de ter um final feliz.
A porta de entrada da casa estava fechada. Então, eu bati inúmeras vezes, impaciente, e sem poder esperar pelo momento de ver um rosto humano. O frio já me consumia, e minha temperatura corporal estava baixando aos poucos. Eu estava cansado, e com muita fome. E, só para piorar a situação, estava começando a anoitecer...
Minutos depois de chegar, eu continuava espancando a porta, praticamente. Mas, não havia um só sinal de que alguém estava lá dentro. Assustado, eu não conseguia pensar. A cada segundo que se passava, eu chegava mais perto de entrar em pânico.
– Não tem ninguém em casa. — Eu comentei inutilmente. — Agora, oficialmente estamos mortos.
– David, arrombe essa porta agora. — Hillary ordenou, impassível.
– Mas não sabemos de quem...
– Fod... — Hillary respirou fundo. — Não interessa. — Bela substituição. — Faça.
Eu me afastei da porta, e em seguida, joguei todo o peso do meu corpo sobre ela em uma trombada violenta. Na primeira tentativa, o que parecia ser um trinco se soltou, nos permitindo abrir sem problema algum. E, por sorte, aquela casa era exatamente o que nós dois precisávamos naquele momento.
Nos encontrávamos no que provavelmente seria a sala daquele lugar. Havia dois sofás, e um tapete de couro de algum animal que não consegui identificar, no chão. As paredes tinham tochas apagadas presas a elas, a madeira grossa era forte, e nos passava segurança. O teto tinha palha e também mais alguns pedaços de madeira, para apoio. Dentro da casa, também havia barris cheios do que parecia ser água, do lado de uma mesa repleta de frutas maduras e pão dormido. Mas, aquilo ainda parecia um banquete real, com a fome que nós estávamos.
Curioso, eu caminhei com os passos desconfiados pelo pequeno corredor para ver o que tinha do outro lado da casa. E, para a minha surpresa, eu encontrei dois quartos aconchegantes. O maior tinha uma cama enorme de casal, feita com madeira forte e um colchão que não parecia ser ruim. E o segundo era um tanto menor, mas tinha duas camas de solteiro improvisadas, que não pareciam ser tão boas quanto a outra. E, alguma coisa me dizia que era justamente ali que eu ia dormir.
Quando eu retornei, Hillary estava enrolada em um cobertor gigantesco de algodão, que a deixava parecida com um bombom gigante. E, pela primeira vez, ela estava sorrindo. Sorrindo de verdade, sem ironia, e com alguma felicidade. Assim como eu, pelo menos uma noite ela sabia que nós sobreviveríamos...
– Eu sei que isso não é exatamente um hotel cinco estrelas, mas acho que serve. — Eu brinquei. Ela riu baixo.
– Estamos seguros agora. É isso que importa.
Os olhos azuis brilhavam com uma intensidade inacreditável. Por um breve momento, eu quase acreditei que aquele olhar estivesse esquentando o meu corpo. Eu sorri, sem saber o que fazer, encarado por ela; nada menos que a perfeição encarnada. Não parecia tão brava quando estava feliz.
– Eu... Estou morrendo de frio. Pode dividir o cobertor comigo?
Hillary riu alto. Eu continuei sorrindo.
– Então, pode morrer.
É. Não tinha jeito para nenhum de nós.
Fale com o autor