Fallacy - Pride

6 Lista de Supermercado


Para ser sincero, aquela primeira noite não foi exatamente o que eu achava que seria. Quando eu deitei em uma das camas do segundo quarto, já estava me preparando para mais uma madrugada em claro. Mas, por sorte, não foi assim que aconteceu... Poucos minutos depois de me deitar no colchão gelado e com um terrível odor de mofo, eu finalmente consegui dormir. Provavelmente, estava cansado demais para que qualquer preocupação me deixasse acordado.

Os pingos da chuva eram pesados, e batiam no telhado com violência. O vento frio era discreto, e toda vez que passava por entre as brechas na madeira e tocava meu corpo, eu me arrepiava ligeiramente. O uivo era medonho. E, acordado pela tempestade daquela manhã, não havia a mínima possibilidade de conseguir dormir mais uma vez.
Quando meus pés descalços tocaram a madeira gelada do chão, eu respirei fundo. Fechei os olhos, em mais uma tentativa de tentar manter minha cabeça limpa. Baguncei o cabelo loiro, apontando-o para cima e para frente principalmente; do jeito que eu gostava. O cheiro de terra molhada me fez relaxar por um breve instante, enquanto eu respirava devagar. Meus dedos se fecharam contra o colchão, como um reflexo claro do meu desespero. Mas, aquela não era uma boa hora para demonstrar preocupação.
O primeiro sorriso que surgiu no meu rosto aquele dia teve um motivo óbvio. Hillary ainda dormia profundamente, envolvida até os ombros por um fino lençol branco. Respirava devagar, e com muita tranquilidade; quase como se estivesse em sua própria casa. Eu fiquei observando o movimento lento de seu corpo com atenção, perdido na perfeição de cada traço que a desenhava.
Então, ao menor ruído da madeira rangindo, Hillary abriu os olhos, assustada. A íris azulada apresentava um tom cinza escuro que era um tanto incomum nos olhos dela. Sonolenta, ela me encarou, e sorriu com muita leveza. Depois, fechou os olhos mais uma vez e respirou fundo, antes de finalmente encontrar forças para se levantar e seguir com seu dia.
Enquanto colocava os pés no chão, Hillary abotoava sua camisa. Eu pude ver o sutiã preto completamente, e não consegui evitar ficar desejando tocar sua pele quente mais uma vez. Ela não pareceu se importar com aquilo; tanto que continuou, e andando em minha direção. Com a cabeça baixa e um tanto desorientada, eu fiquei me perguntando se ela sabia que eu estava na porta do seu quarto, mesmo que tivesse certeza de que ela havia me visto.
Foi quando, ainda tonta, Hillary me deu uma trombada com seu pequeno e frágil corpo. Juntos, rimos de seu desengonço, e segurei seu braço para que ela não caísse... Então ela levantou a cabeça, me encarando diretamente com um sorriso branco perfeito brilhando em seu rosto.
Aos poucos, percebi Hillary ceder. Com a sensação de meu toque suave, ela foi deixando seu corpo se aproximar do meu, sem perder o contato visual. O sorriso foi sumindo aos poucos, e eu fui o primeiro a mudar o foco do meu olhar para seus lábios. E, quando eu achei que eles iam tocar os meus, ela parou. E mais uma vez, voltou a sorrir com ironia, e se afastou de mim.
– Homens são fáceis demais... Basta você fingir um interesse e eles já ficam bobos. — Ela resmungou, andando em direção a cozinha. Não pude evitar rir baixo.
– Ou as mulheres se acham espertas demais, fingindo que estão apenas fingindo, mesmo quando há um interesse.
– Está insinuando que há um interesse meu em você, David? — Ela berrou para mim, se afastando cada vez mais.
– Todas têm, Hillary. — Sorri. — Você não é diferente das outras.
– É nesse ponto que você se engana. — Então, ela voltou a caminhar em minha direção, com uma maçã vermelha na mão. — Qual é o seu problema, garanhão? Está em uma casa com uma mulher e não consegue nada com ela? Será que está perdendo o jeito, Dave?
Eu sorri com ironia. Hillary deu uma mordida generosa na maçã.
– Qual é o seu problema comigo? — Perguntei, em um tom firme e baixo.
– Nenhum. Só acho isso irônico... O grande cafajeste sem saber como agir na frente de uma garota difícil.
– Estou começando a achar que você quer me provocar para que eu te agarre. — Eu dei um passo para frente, diminuindo a distância entre nós. Hillary se manteve firme e desinteressada.
– Se você fizer isso, juro que você acorda sem uma parte do corpo. E eu não preciso dizer qual é.
Eu recuei então. Nem meu sorriso se manteve.
– Muito bem... Então para o meu próprio bem – ela riu discretamente com minha pronúncia clara – é melhor ficar longe de você. Mas então, oh-toda-poderosa-Hillary, – dramatizei em um tom divertido – como vamos sobreviver hoje?
Hillary revirou os olhos pensativa, acinzentados naquela escura manhã nublada. Franziu as sobrancelhas, e levou a mão esquerda ao seu rosto. Não parecia ter uma ideia genial, como eu esperava que tivesse.
– Eu... Acho que podíamos voltar ao avião e pegar nossas coisas. — Ela propôs. — Digo, estamos apenas com uma muda de roupa, e sem muito o que nos aquecer...
Como eu resistiria as palavras dela? Eram tentadoras demais para mim.
– Bem, temos como nos aquecer sim... Mas você disse que arranca uma parte muito importante do meu corpo se eu chegar perto de você... — Eu comentei em um tom baixo.
Primeiramente, Hillary me encarou com um olhar sério e impenetrável. Mas, eu ergui minhas sobrancelhas de um jeito consideravelmente meigo, e comecei a rir devagar, deixando meu sorriso aparecer aos poucos. E, junto a mim, ela cedeu, por mais difícil que isso fosse de acreditar. Logo, nós dois tínhamos sorrisos largos e despreocupados em nossos rostos.
– O meu namorado tem vinte e oito anos, e começou no MMA aos quinze. Ele foi campeão mundial duas vezes nas últimas três competições que eu assisti. Acho melhor não mexer comigo, doutor. — Ela sorriu. Tentação.
– Seu namorado é feio. — Ela me deu um tapa no ombro, rindo. — E velho.
– Aquele velho pode muito bem quebrar essa sua carinha bonita, Dave.
– Não pode não... Eu também fiz boxe tailandês quando era mais novo. E por muito tempo. Cerca de três ou quatro dias. — Ela riu alto. — Mas eu sei correr.
Hillary abaixou a cabeça sorrindo, e balançando-a de forma negativa.
– Você é um idiota. — Ela levantou, sorrindo. Os olhos acinzentados novamente quase me fizeram pegar fogo. — E ele não é velho.
– Ah, não... Eu que sou. — Ironizei. — Ele tem quase trinta. Eu sou mais novo, e com certeza tenho mais disposição...
– Ok David, chega. — Ela me interrompeu. — Você fala besteiras demais para o meu gosto. John é fino e educado, e jamais me diria baixarias desse tipo.
Eu sorri, vendo uma oportunidade interessante.
– Se me permite dizer, srta. Williams, mulheres gostam de homens com bom senso de humor; que as façam rir, pois admiram a sensação deliciosa de uma simples gargalhada. Eu nunca perco minhas piadas, e talvez seja esse um dos meus pontos mais fortes. Muitos homens finos não conseguem fazer o que eu faço, e não me surpreenderia se seu namorado fosse apenas mais um deles. — Sorri com o canto da boca, timidamente. — Você me odeia, mas nos últimos minutos você riu. E não venha me dizer que não gostou, porque tanto você como uma boa mulher quanto eu como apenas mais um homem, admiramos o som de uma doce e sincera gargalhada.
Ela se calou, e arregalou os olhos. Parecia surpresa por aquilo ter saído de minha boca. Ou simplesmente estava surpresa por concordar comigo pela primeira vez.
– E, a propósito... — Continuei, para finalizar. — Se me permite dizer, eu adoro o seu sorriso, mesmo que seja tão difícil arrancá-lo de você. Mas eu não paro de tentar.
Ela sorriu novamente, e olhou para baixo, envergonhada. Passou a mão pelos cabelos negros, puxando-os para trás, e se aproximou ligeiramente de mim. Quando levantou sua cabeça novamente, os olhos brilhavam com discrição. As palavras praticamente já pulavam de seus lábios grossos.
– Eu não odeio você... — Ela franziu o canto dos lábios. — Mas, se acha que eu vou ceder com coisas como essa, está enganado. Não pense que é uma tentação para mim, sr. modelo-de-academia.
Abaixei a cabeça, mas a continuei encarando Hillary com uma das sobrancelhas levantadas, e um sorriso charmoso de canto de boca. Então, baguncei o cabelo mais uma vez.
– Me diga o que você vê. — Eu pedi.
– Um homem em uma tentativa frustrada de me seduzir. — Ela sorriu.
– E como esse homem é?
– Hm... Ele tem cara de bobo. — Nós rimos. — Tem olhos claros, cabelo loiro, um corpo bonitinho...
Eu ri alto.
– Corpo bonitinho... — repeti, zombando. — Muito bem... Mas, eu quero uma descrição mais detalhada. O que você gosta nele?
– Hm... Os olhos dele têm um tom acinzentado diferente... E quando ele me encara da maneira que está encarando agora, eu fico me perguntando se alguma vez na minha vida eu já vi algo mais intenso... — Ela sorriu devagar, e o tom de voz foi ficando baixo. — E o cabelo loiro bagunçado para frente e para cima, um pouco mais curto ao lado da cabeça tem um dos cortes mais perfeitos que eu já vi...
Estávamos chegando a algum lugar.
– E ele é bonito? — Perguntei, sorrindo.
– ...Talvez... Mas se for, não é muito. — Claro. Ou aquela não seria ela.
– E se esse homem tentasse te beijar, o que você faria?
Ela demorou alguns segundos para responder.
– Esse homem conseguiu mudar um pouco da imagem que eu tinha dele. Conseguiu me mostrar que há um cérebro, e talvez um coração nele. Se ele tentasse me beijar, tudo voltaria ao zero, e ele continuaria sendo desprezível do mesmo modo que eu achava. Até porque, se o homem maduro que ele mostrou ser tem um coração, ele se importa comigo também. E eu não vou trair meu namorado.
O sorriso voltou ao rosto dela, de forma irônica. Eu recuei automaticamente.
– Sabe que isso é uma hipótese, não sabe? — Eu perguntei. Ela assentiu ironicamente.
Foi quando um raio de sol tocou minha pele timidamente. Foi apenas naquele momento que eu percebi que não estava chovendo mais, certamente por não conseguir prestar atenção em mais nada, além de Hillary. E ela não aparentava estar atenta ao que acontecia fora daquela casa, embora ambos soubéssemos que tínhamos que retornar ao avião.
– Então... Acho melhor irmos logo para o avião, antes que a temperatura caia novamente. E tem que ser rápido. — Eu comentei.
– Antes de ir, precisamos fazer uma lista.
Ergui uma das sobrancelhas, assustado mas curioso.
– Lista?
– É... Com as coisas que vamos trazer. É algo mental.
– Hm... Tipo uma lista de supermercado? — Ela riu.
– É, Dave. Uma lista de supermercado. — Eu adorava quando ela me chamava de Dave. — Precisamos das nossas malas, alguma coisa para primeiros socorros, uma faca ou algo do tipo...
– Nossos celulares. — Eu disse. Ela me encarou com desprezo.
– Estamos no meio do nada. Não acha que vai encontrar sinal aqui, ou acha?
– Na verdade, eu estava na esperança de encontrar um telefone daqueles via satélite, sabe? Talvez no avião tenha. Ou podemos tentar fazer contato pelo rádio.
– Você tem razão... O avião tem um rádio! — Ela sorriu. — Falta alguma coisa?
Eu pensei por alguns segundos.
– Fogo...? — Respondi, entonando quase como uma pergunta.
Hillary colocou a mão por dentro da camisa, e começou a mexer no sutiã. Então, ela tirou de lá um pequeno isqueiro de ferro, e o abriu. Existia uma explicação lógica para ter um isqueiro no sutiã?
– Você fuma ou o que? — Ela riu com a minha expressão assustada.
– Johnny sim. Ele deixa isso na minha bolsa, caso precise. E, antes de sair do avião, eu peguei por achar que seria necessário. — Eu sorri.
– Espertinha...
– Vamos logo.
Com cuidado, Hillary e eu saímos daquela casa, que parecia ser o único lugar seguro que nós tínhamos. O ranger de uma fechadura enferrujada nunca doeu tanto quanto naquele dia...

Antes mesmo que percebesse, já estávamos na praia, andando em direção ao avião. Nada tinha mudado desde os últimos dias, e não havia sinal de qualquer coisa escondida na floresta. Hillary e eu ficamos felizes por conseguir sair de casa sem sermos devorados.
Ela pulou para a cabine do piloto, enquanto eu segui para a outra. Peguei nossas duas malas gigantescas e as joguei para fora da aeronave, enquanto procurava alguma coisa útil. Peguei uma coberta grande, grossa, e em um tom escuro de cinza e a estendi no chão, jogando tudo de necessário em seu centro, para que eu pudesse carregar como se fosse uma sacola. De biscoitos até pedaços de madeira. Eu coloquei absolutamente tudo ali.
Hillary tentava fazer contato pelo rádio do avião, e eu podia ouvir. Mas, aquilo provavelmente estava quebrado. E, a cada minuto que se passava, os sinais de sua impaciência eram mais evidentes... Até que uma hora, ela socou o rádio, em um gesto de desespero. Já não sabíamos mais o que fazer.
– Hillary! Venha para cá! — Eu chamei.
Então, ela saiu da cabine e deu a volta no avião. Tinha nas mãos um facão enorme de ferro, com o cabo preto. Fiquei me perguntando como eu não tinha visto aquilo enquanto estava escondido lá dentro.
Ela arremessou o objeto no meio dos que eu havia juntado no cobertor. Nervosa e preocupada, ela mal conseguia falar. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Em poucos segundos, ela começaria a chorar, e eu sabia disso. Naquele momento, ela precisava de mim, mais do que qualquer outra coisa.
– Temos que ser fortes, Hillary. — Eu disse.
– Eu sei... — sua voz ficou embargada. — Mas o rádio não funciona, e essa merda não tem um sinalizador, e nós continuamos perdidos aqui, com essas criaturas estranhas e... — a primeira lágrima caiu, acompanhada de várias outras. Ela se abaixou, e cobriu seu rosto, sem forças para continuar falando.
Preocupado, eu pulei do avião, e corri em direção a ela. Não sabia direito se podia tocá-la, mas naquele momento, eu não quis me preocupar com esse tipo de luxo. Com calma, eu levei minha mão levemente ao seu ombro direito, e a virei para mim. Quando Hillary levantou a cabeça, eu passei minhas mãos por volta de sua cintura devagar, e a puxei contra mim, a envolvendo em um abraço forte, e deixando que ela chorasse no meu ombro. Sua pele quente era macia e sedosa... Até mesmo a sensação de seu toque era diferente.
– Vamos pegar as coisas e queimar o avião. — Eu sussurrei. Ela desenterrou sua cabeça do meu ombro para me encarar.
– Queimar o avião? Enlouqueceu?
– Não temos sinalizadores, mas queimar o avião vai gerar muita fumaça. Alguém vai ver e vir nos buscar.
– Não podemos queimar isso, David. Vai explodir... Mas a ideia não é ruim. Podemos fazer isso com algumas árvores mortas, e folhas... — Ela propôs. — Mas não agora... Eu quero ir para casa.
– Então, nós vamos.
Hillary pegou sua mala no chão, e eu peguei o cobertor cheio de coisas, e também a minha bagagem. Juntos, nós seguimos devagar, de volta para o único lugar onde podíamos nos sentir bem. Na medida do possível.