Fallacy - Pride
7 Livrai-nos da Tentação
Sem um quarto da delicadeza que demonstrou ter nos últimos três dias, Hillary chutou violentamente a porta da casa da árvore. O barulho alto fez que com que eu me encolhesse ligeiramente, quase como se pudesse me esconder dela entre minha mala e o cobertor-sacola que trazia nas costas.
Nervosa, Hillary continuou com sua crise. Ela arremessou sua bolsa em um dos sofás, e largou sua bagagem no chão, ainda agindo de modo violento. O som do salto fino na madeira parecia ter ficado três vezes pior quanto ela começou a caminhar de forma bruta, e seguir para o quarto de casal. Os cabelos negros acompanhavam o movimento de seus passos pesados e descontrolados. E eu não entrei em casa até que ela saísse do meu campo de visão.
Com tranquilidade e leveza, eu deixei as coisas no canto da sala. Meus passos delicados tinham como objetivo não deixar que Hillary me ouvisse, obviamente. Depois, eu arrastei a bagagem dela para perto da minha... Foi quando eu finalmente pude escutar os soluços dolorosos que ela tanto vinha tentando evitar... A dor, o desespero, e a indecisão. Tudo estava claro como as lágrimas que desciam pelo rosto dela naquele momento.
Eu senti meu coração apertado dentro do peito. Levantei a cabeça devagar e fitei o quarto por um breve segundo... Pude ver metade do corpo dela. Estava encostada na parede, sentada na cama com as pernas encolhidas e os joelhos na altura do peito, com rosto enfiado em um travesseiro. Por mais que a técnica fosse antiga, não era infalível. Eu ainda podia escutá-la, derretendo-se em lágrimas que pareciam inacabáveis.
Eu cogitei a ideia de me levantar e tentar falar com ela; e aquilo era o que eu mais desejava. Mas, eu não pude. Eu sabia que estava longe de ser a pessoa certa para isso, e nada me machucava mais do que ver alguém tão triste e nada poder fazer. Talvez, a minha maior contribuição fosse me retirar, e fingir que eu não a vi chorando.
Então, eu tirei da minha bagagem o meu Ipod, e me deitei em um dos sofás, com os fones no ouvido. Minha diversão não ia durar muito tempo; era uma questão de minutos até que a bateria descarregasse. Por isso, eu fechei os olhos e esperei. Esperei até o momento em que ela se sentisse forte mais uma vez, e saísse daquele quarto. Até o momento em que, mais uma vez, eu pudesse sentir meu corpo pegando fogo com seu olhar intenso, e o som aconchegante de sua risada.
Quando abri meus olhos novamente, já era noite. Havia velas acesas por toda a casa, mesmo com aquele vento gelado que me fazia tremer. Mas, quando eu olhei para o lado, eu tive uma surpresa agradável. Lá estava ela, deitada no sofá, com os olhos azuis perdidos na lua crescente. Estava quieta, e sua respiração era silenciosa o suficiente para que eu não fosse capaz de ouvir.
– Você está bem?
Quando ouviu minha voz, Hillary se mexeu. Ela me encarou com um pequeno sorriso no canto da boca, e um brilho sereno nos olhos. Ergueu uma das sobrancelhas, curiosa, e me fez sorrir, mesmo que não fosse sua intenção. Então, eu me sentei no sofá.
– É... Acho que sim. Eu só estava um pouco nervosa...
– Eu entendo...
Nos encaramos, sem dizer nada. Mas, uma coisa diferente aconteceu. Discretamente, ela fitou meus lábios. Minha felicidade me faria explodir, mas tive que me controlar para que ela não percebesse.
Hillary se levantou então, e seguiu para o outro lado da sala, onde ainda estava sua mala. Então, ela se agachou lentamente para pegar alguma coisa. Eu simplesmente esqueci de respirar. A calça jeans preta super apertada deixava cada curva do seu corpo evidente... E, daquele jeito, naquela posição, eu estaria mentindo até mesmo se dissesse que tentei evitar olhar. Seria um esforço completamente em vão, que eu não precisava nem fazer.
– … Quanta saúde... — Eu sussurrei para mim mesmo, em um tom que mais parecia um pensamento alto.
No mesmo momento, ela se levantou, e se virou de frente para mim, com as sobrancelhas baixas, e mordendo o lábio inferior discretamente. A pupila dilatada pela pouca luz deixou o tom do seu olhar assustador; quase como se ela fosse me bater. E, não tinha nada nas mãos... Mais alguma dúvida de que ela havia escutado meu comentário?
– Disse alguma coisa, David? — Ela perguntou, em um tom baixo e macabro. Eu me encolhi no sofá...
– Ahn...E-eu … Só... Estava... Pensando nos remédios! — Eu costumava ser melhor com desculpas esfarrapadas. — Digo, nós estamos aqui e... Não temos remédios... E se ficarmos gripados? Eu não quero ficar com o nariz escorrendo, e você também não d...
Hillary me interrompeu com uma risada leve, e junto a aquele gesto, eu parei de tentar fortalecer o que quer que eu tenha falado. Depois, ela voltou a caminhar na minha direção, e se sentou no mesmo lugar onde estava, ainda fitando meus olhos com um sorriso no rosto.
– Quantas vezes eu vou ter que te falar sobre Johnny?
– Johnny não está aqui agora, ou está? — Perguntei.
– De qualquer modo, é um desrespeito; esteja ele aqui ou não. — Ela rebateu. — Podia guardar esse tipo de comentário para si mesmo.
– Não gosta de elogios, srta. Williams? — Levantei uma das sobrancelhas, curioso.
– Não dos que vêm de você.
Um a zero Hillary.
– Tem que ter alguma coisa errada... Você quer me manter longe a qualquer custo, e fala dele muitas vezes até como se temesse alguma coisa... — Ela se mexeu. — Seja sincera, Hillary. Como é o relacionamento de vocês?
Hillary respirou fundo, e por um momento, seus olhos fitaram o chão, desanimados. Depois, ela levantou a cabeça me encarando, com a confiança de sempre.
– É um ótimo relacionamento. — O tom de voz estava diferente. Estava mentindo.
A ironia no meu olhar sério foi notável. Então, eu enchi o peito de ar, passei a mão por meus cabelos, e depois o soltei. Levei meu corpo para frente, e coloquei os cotovelos nos joelhos, apoiando o peso de meu tronco, e unindo minhas mãos. Me vi obrigado a relembrar uma parte triste da minha vida.
– Olha... Eu vou te contar uma coisa engraçada, mas tente não rir. O desenrolar da história é bem triste. — Eu disse.
– Vá em frente.
– Eu sou um filho bastardo.
Hillary se engasgou com sua própria gargalhada, antes de soltá-la de um modo tão escandaloso que me fez abaixar a cabeça. E, é claro que eu não podia evitar rir junto a ela. Por mais que isso não fosse engraçado quando acontecia com outras pessoas, comigo com certeza, era.
– Me desculpe Dave... — Ela parou e respirou fundo, tentando se controlar. — É que, se tratando de você... Isso é hilário! Um cara como você só podia ser fruto de uma traição!
– Pior que é verdade... — Rimos. — Mas, minha mãe não era igual a mim. Ela estava verdadeiramente apaixonada pelo meu pai, e ele por ela...
– Eu entendo... — Ela sorriu. — Mas, o que isso tem a ver com John e eu?
– Bem... O meu padrasto não era um homem bom. E eu não entendo o que minha mãe viu nele, até hoje... Mas, o fato é que, um dia, ele descobriu que eu não era seu filho. Então, meu pai de verdade veio da Inglaterra e me levou com ele. Pediu para minha mãe ir conosco, mas ela ficou. Pouco tempo depois, ela foi assassinada quando o marido teve um tipo de colapso autodestrutivo. Ele se afogou na banheira depois de cometer o crime, quando teve a concepção do que havia feito.
Hillary arregalou os olhos azuis.
– Eu... Sinto muito por ela, Dave. — Ela disse, em um tom baixo e triste.
– Não se preocupe, isso já faz tempo. E o que eu quero dizer é que ela insistiu em um relacionamento que não devia insistir, e talvez se não tivesse feito isso, ela estivesse viva hoje...
Hillary se calou. Então, ela respirou fundo, e abriu a boca, na esperança de que as palavras simplesmente pulassem para fora.
– E-eu... — Ela parou. — Ele nem sempre foi como é agora. John costumava ser carinhoso, e atencioso, sempre preocupado comigo... Mas nos últimos meses ele mudou completamente. Ficou obsessivo, e neurótico... Sair com ele é um caos. Nenhum homem pode nem olhar para mim; ele vira uma fera. Se tornou irritadiço, impaciente, e egoísta...
Eu sabia que tinha alguma coisa por trás.
– E por que não termina com ele? — Eu perguntei.
– Não sei... Acho que eu tenho medo do que ele pode fazer se eu terminar. Digo, não comigo... Mas se eu começasse a sair com outro cara, ele com certeza o caçaria e acabaria com ele.
– Hm... Eu não teria medo se fosse o cara. Afinal de contas, vale a pena correr esse risco.
Ela abaixou a cabeça, com um leve sorriso no canto dos lábios. Automaticamente, eu me levantei, e me sentei ao lado dela. Um de frente para o outro, a distância que nos separava era pouca.
– Me diga uma coisa, David...
– Claro... O que foi?
– Isso é uma obsessão, não é? — Ela voltou a olhar em meus olhos.
– Não entendi direito a sua pergunta, Hillary...
– Eu quero dizer que não vai adiantar de nada você ficar dizendo essas coisas. Você acha que eu sou como qualquer outra garota na sua vida. Que você vai me beijar, conseguir o que quer de mim, e depois me largar. Eu não sou um brinquedo, ou algo do tipo, Dave.
Por um instante, as palavras dela me fizeram refletir... Eu realmente achava que ela era igual a qualquer uma?
– Eu não disse que você era, Hillary. Eu sei que você é diferente... Ou você acha que, se fosse igual as outras, eu teria me dado ao trabalho de mudar o que você pensa sobre mim? Eu não ligo para a opinião de ninguém.
– Eu não posso confiar em você, David. Me desculpe. Eu não tenho como saber quando você fala a verdade, e quando mente.
– Então olhe nos meus olhos e me diga se estou mentindo.
Hillary e eu nos calamos então. O olhar intenso que trocamos paralisou ambos. Nossas mentes se perderam um no outro, de um modo que nunca tinha acontecido antes. Devagar, eu levei a mão delicadamente ao seu rosto... Aos poucos, fui me aproximando dela, sempre muito sutil. Ela não tinha reação, e não conseguia tirar seus olhos dos meus. Então, eu respirei fundo, e finalmente avancei os poucos centímetros que separavam nossos lábios. Mas, eu não contava que ela viraria o rosto no exato momento do beijo...
– Não precisa fazer isso... — Eu sussurrei em seu ouvido. Ela se manteve com os olhos fechados, enquanto mais uma vez, eu tentei levar meus lábios até os dela.
– Dave... Por favor... — Ela murmurou. — Não...
Hillary colocou a mão no meu peito, e me empurrou para longe dela. Vendo a chance que tinha perdido, eu resmunguei, abrindo os olhos. Ela estava um tanto envergonhada.
– Me desculpe, eu não... Devia... — Eu disse, tropeçando nas palavras.
– Está tudo bem, não se preocupe... Mas, não é o momento certo...
– … Pelo menos eu sei que você já gosta um pouco de mim. — Ela riu baixo.
– “Gostar” é forte demais... Eu só não tenho nada contra.
Dois a zero Hillary.
– Ah, muito obrigado. Isso realmente é animador. — Ironizei.
– Deve ser mesmo... É muito difícil conseguir isso. — Ela sorriu.
– Então você admite que odeia todo mundo. — Brinquei.
– Não odeio todo mundo, literalmente. Só algumas pessoas... Como odiava você.
– Não tinha motivo para me odiar... Nem me conhecia. E agora você vê que não sou tão ruim.
Ela riu com ironia.
– Hm... Não ter motivo para te odiar... Além de você ter provocado uma briga enorme entre Johnny e eu quando me viu pela primeira vez, só por me olhar do jeito que olhou... e por você ser arrogante, promíscuo, e ter demonstrado um suposto interesse em mim...
– Então da próxima vez que você for encontrar um cara arrogante e promíscuo, trate de vestir uma fantasia de frango daquelas que fazem propaganda de fast food. — Ela riu alto. — A culpa é toda sua... Ninguém mandou usar um vestido preto decotado.
– Você queria que eu fosse para uma festa formal com uma fantasia de frango de fast food? — Ela perguntou, rindo. — Se bem que ia combinar com você... Seriamos um frango e um pinguim.
Eu a encarei com ódio fingido.
– Eu não tenho culpa se me enfiaram em um Smoking! Não podia aparecer lá de camiseta e chinelos de dedo; estava concorrendo a um prêmio. E, seja sincera... Eu fico um charme de terno.
– Bem... Um loiro de um metro e noventa, com ombros largos e corpo definido, sorriso simpático, olhos brilhantes e cabelos arrepiados... É. Acho que sim. — Nós rimos.
Inacreditável. Era bela quando estava séria. Era ainda mais bela quando estava radiante de felicidade. Os olhos perfeitamente azuis destacados na pele branca e os cabelos negros... Um sorriso quente, que mexia com as batidas do meu coração. Minha respiração ficava mais pesada, conforme eu tentava me controlar. Sim... A perfeição existia. E não apenas existia, como estava na minha frente, sorrindo para mim.
– Só para não ficar dúvida alguma... Aquele beijo não rola hoje, não é? — Hillary riu alto.
– Talvez nunca role, David...
– Não me desanime... E aliás, só um beijo. Eu mal consigo escutar o que você diz, de tão altos que são meus pensamentos... — Ela sorriu.
– Eu tenho namorado...
– Mas você também quer. — Sorri.
– Ah, eu quero? — Ela perguntou, com sarcasmo. — Muito bem, leitor de mentes. Diga-me então o que eu vou fazer agora.
– Hm... Você vai me dar mais um fora...? — Entonei como uma pergunta. Ela riu.
– Eu poderia. Mas, eu vou dormir... Está frio, e eu estou cansada... Preciso deitar um pouco.
Aquela noite estava perfeita, até aquele momento. Meu desânimo com as palavras dela foi notável...
– Então tudo bem... — Respondi. — Boa noite.
– Boa noite, Dave. Durma bem. — Ela me deu um beijo ligeiro na bochecha.
Hillary então se levantou, e começou a caminhar em direção ao quarto dela. Mas, antes que ela se deitasse, eu tive mais uma de minhas ideias geniais. Quer dizer, genial seria se funcionasse.
– Hey... Posso te pedir um favor? — Eu perguntei. Ela parou de caminhar e se virou, me encarando.
– Claro... O que foi?
– Posso dormir com você? — Eu pedi, com um sorriso tímido. — É que no outro quarto é meio frio, e o colchão fede...
– E você tem medo de escuro...
– É! — Brinquei. Ela sorriu, cruzando os braços. — Ora vamos... Eu me comporto bem na primeira noite, eu prometo. — Sorri.
Hillary manteve os braços cruzados, e olhou para o chão, pensativa, mas ainda sorrindo. Alguns segundos se passaram, enquanto eu esperava cheio de expectativas, no sofá... Até que, ela abriu a boca, e suas palavras simplesmente pularam:
– Se você tentar fazer alguma coisa durante a noite, aquele papo de acordar sem uma parte do corpo ainda está de pé. Entendido? — Eu sorri.
– Você manda.
Então, radiante, eu levantei do sofá, e fui para a cama com Hillary...
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