Fallacy - Pride
16 Tiro ao Alvo com o Atirador
Uma gota de suor desceu vagarosamente pelo meu supercílio esquerdo. Expirei pela boca, sentindo o ar quente passar entre meus dentes. De repente, o simples ato de respirar se tornou impossível. Os olhos dela estavam refletindo os raios tímidos do Sol, enquanto me encaravam. O cabelo perfeito chicoteava no ar, fazendo desenhos. Então, um sorriso discreto de canto de boca, com as sobrancelhas unidas. A lâmina afiada da espada dela passou entre seu dedo anelar e o médio. Enquanto isso, a minha parecia ter ficado cinco quilos mais pesada. Era injusto lutar contra ela. Não por provavelmente ter uma habilidade exímia, mas porque ela era bonita demais.
Talvez, bonita demais para o próprio bem.
E para o meu bem...
… E o de Hillary.
– Não está assustado, está? — entonou Lyra de modo desafiador.
– Assustado. Eu?! Nada. — Prolonguei a pronuncia, ironizando. — Mas só por curiosidade, isso é realmente necessário?
– Hm... Se você sabe o que é prazer, você tem a resposta para a sua pergunta.
Eu realmente fui obrigado a utilizar todas as minhas energias e força de vontade para manter a frase que veio a mim dentro de minha cabeça.
– Uma guerreira altamente treinada desafiando um amador... Talvez isso não seja muito bom para a sua reputação, srta. Baker.
Lyra sorriu abertamente, segurando o cabo da espada com força.
– Estar com medo de lutar com uma garota por diversão soaria pior para a sua, sr. Matlock. Ora vamos, Dave. É só uma pequena e saudável brincadeira.
Apaticamente, flexionei meu braço e ergui a espada mais ou menos na altura de meu quadril, apertando o cabo com força e determinação. Lyra abriu mais um sorriso desafiador, e puxou o cabelo para trás, ajeitando a franja suavemente repicada. Meu gesto deixou claro que eu havia aceitado o desafio, e aquele fato fez dela uma amazona exultante. Mas, Lyra era claramente mais do que apenas aparentava ser. Sentia mais do que aparentava sentir. No fundo, continuava inflexivelmente confiante e incapaz de me dar uma chance.
Era o exato tipo de determinação que eu admirava em uma mulher. Amor próprio, autoconfiança, fadada a não ceder. Forte. Inexorável. E capaz de revelar tudo isso apenas com o olhar que estava lançando a mim, naquele exato momento. E, de uma coisa eu tinha certeza sobre aquela amazona, mesmo que mal tivesse trocado cinco palavras com ela. Se eu sabia daquilo tudo, era apenas porque ela queria que soubesse. Pois era perfeitamente capaz de ser uma completa incógnita corrosiva de mentes.
Adorável, não?
Intrigante e irresistível também, devo acrescentar.
O forte choque do primeiro movimento da luta – uma dura investida de Lyra que eu apenas defendi por puro reflexo que eu mal sabia que tinha – fez parecer que um raio tinha atingido a espada. Os estrondo ensurdecedor, e a lâmina balançando como se fosse feita de papel. Assombrando, me encolhi e momentaneamente me vi beirando a desistência. Mas, orgulho era meu nome do meio. David Orgulho Burrice e Teimosia Matlock.
Percebendo meu momento de instabilidade e indecisão – e obviamente que eu havia me assustado com sua força pavorosa -, Lyra atacou novamente. Movimentos esplendidos e tão rápidos que eu realmente não consegui contar quantos foram. O reflexo e o instinto do lobisomem eram as únicas coisas que me mantinham vivo diante à ela. E ainda assim, meus poderes paranormais não eram o suficientes para combater talento, treino, velocidade e disciplina. Lyra logo conseguiu uma brecha para direcionar a lâmina para perigosamente perto de minha garganta.
Supondo e acreditando que eu me daria por vencido ela sorriu abertamente e tirou os cabelos do rosto, os puxando para trás mais uma vez. Quando olhei em volta, vi que estávamos no centro de uma roda formada por talvez trinta amazonas, incentivando Lyra obviamente. Elas riram baixo e cochicharam umas com as outras, talvez compartilhando o mesmo pensamento precipitado da dona do maravilhoso par de olhos verdes brilhantes.
Estavam me subestimando. E isso é terminantemente proibido no Reino dos Orgulhosos. Não me interessavam as chances remotas que eu tinha de vencer. O que me faria dar a volta por cima era não desistir.
Para depois, vencer.
Ou não.
– Isso ainda não acabou.
Com um golpe leve e rápido, surpreendendo-a, tirei sua espada da reta de minha garganta. Depois, uma série de investidas cautelosas e poderosas, completamente atentas e prontas para o que quer que Lyra aprontasse. De repente, realmente comecei a acreditar que tinha me transformado em um Samurai. E de certo modo, a confiança que mostrei ter em mim mesmo intimidou a amazona, mas infelizmente não fez com que a luta ficasse equilibrada por mais de vinte segundos.
Lyra logo recuperou-se magicamente. Ninguém sabe como, ela conseguiu travar meu braço. E, quando me viu vulnerável mais uma vez, logo acertou-me um belo soco estratégico no estômago. Consequentemente, meu corpo se dobrou, completamente sem ar. Foi no momento em que ela me deu uma cotovelada nas costas, fazendo com que eu caísse de cara – sim, não poderia ser de outra maneira — no chão coberto daquela mistura de terra marrom escura e gelada com feno da Aldeia.
Lyra chutou minha espada para longe de mim; eu pude ver as botas se mexendo na altura do meu rosto – já que minha bochecha estava no chão. Depois, ela segurou meu braço esquerdo e com força, me empurrou, obrigando-me a virar de barriga para cima, encarando minha derrota. Definitivamente, eu não era uma Samurai. Mas ela era uma amazona de verdade. Para o meu azar.
Foi quando vagarosamente, ela apontou a espada para minha garganta mais uma vez, puxando o cabelo castanho para trás e aplaudida calorosamente por suas colegas de Aldeia – que também passaram a ser testemunhas de minha humilhação. Lyra nem mesmo estava ofegante. Apenas sorria em um tom debochado maravilhoso que, por mais que eu estivesse literalmente aos seus pés, me obrigava a imitá-la.
– Um conselho? Não subestime o adversário em uma crise de autoconfiança; muito menos se ele for melhor que você. — Ela sorriu.
– Mas você fez isso o tempo todo.
– Dave, querido... Dos meus vinte e três anos, os últimos onze foram investidos especialmente nessa área. E não em um treinamento qualquer; e sim no treino das amazonas. Achou realmente que tivesse chance?
“Vinte e três novamente me perseguindo” foi a primeira coisa que veio à minha cabeça. Depois, sorri, antes de responder a pergunta dela.
– Mas Baker, a maior vitória foi minha.
– Sério? E por que diz isso?
– Porque eu fiz você sorrir o tempo inteiro.
Seus lábios se arquearam em um sorriso leve. Lyra claramente enrubesceu, surpresa e lisonjeada por meu comentário.
Então, ela jogou a espada para Úrsula e ergueu a mão para mim, oferecendo-me ajuda para levantar.
Eu aceitei, obviamente.
O mesmo impulso que me tirou do chão me fez ficar frente a frente com Lyra. Obrigado a encará-la tão de perto, por um breve instante me vi perdido na íris cor de esmeralda. A pupila contraída era rodeada por uma auréola azul que cedia até formar o verde maravilhoso. A amazona, por outro lado, não parecia estar tão presa a mim quanto eu estava a ela. Estava consideravelmente mais confortável que eu. E isso se refletiu no momento em que, com toda a gentileza, ela começou a passar a mão direita em meus braços e minhas costas, tirando todo o resíduo de terra presente em minhas roupas.
– Você realmente sabe o que fazer com as espadas. — Eu comentei em um tom baixo. Ela sorriu.
– Estou longe de ser a melhor... — Humildade soava inacreditavelmente doce quando vinha dela.
– Aposto que é melhor que Michelle.
Lyra sorriu, e tentando disfarçar, continuou me limpando.
– Sem querer ofender Dave, mas ganhar de você não é nenhuma missão impossível. Não pode dizer que eu sou melhor que a Líder se baseando nisso.
– Eu sou tão ruim assim?- Nós rimos.
– Existem piores. — Ela sorriu, me encarando novamente. — Desculpe por ter te colocado no chão. As meninas gostam de ver que temos o controle.
– Ah, tudo bem. O que há de errado em comer terra, não é?
Ela riu alto da minha ironia. Uma risada tão meiga e sincera que mais parecia pertencer a uma criança feliz.
Tirando mais alguns restos do meu braço, eu notei que sua expressão mudou por um breve segundo. Lyra torceu as sobrancelhas, expressando curiosidade nos olhos, que tinham como foco algo que a chamava atenção em meu antebraço. Eu cheguei a me perguntar o que poderia ser. E, quando finalmente tive a resposta, já era tarde demais.
– Mas que diabos... — Ela deixou a frase morrer.
A amazona segurou meu pulso com delicadeza e o virou até que a parte interna do meu antebraço ficasse para cima, podendo assim ver a enorme cicatriz. Os pequenos furos já estavam fechados, mas a marca ainda era notável. A forma curiosa foi o que provavelmente chamou a atenção dela. Como explicar uma mordida de um lobisomem?
– Eu realmente adoro cães... Mas nem todos me adoram.
– Não... Essa coisa poderia ter arrancado seu braço.
– Realmente... Ozzy é um cão dinamarquês. Ele é maior que eu, de pé. É de um amigo meu, Harry.
Eu estava realmente dizendo a ela que a mordida de um lobisomem de dois metros e meio foi feita por um dinamarquês que supostamente pertencia a Harry, que só para constar, é alérgico a pelo de cães? Onde eu estava com a cabeça mesmo?
Lyra ergueu as sobrancelhas e perdeu o olhar, como se dissesse “tudo bem, não vou insistir. Mas eu sei que não é verdade.” Sorri, sem saber o que fazer. Foi quando Úrsula reapareceu saltitante com um sorriso radiante estampado no rosto, feliz pelo simples fato de estar viva.
– Ora ora, parece que você sobreviveu à Srta. Coração-de-Gelo. — Úrsula debochou alegremente.
– Mas eu não tinha virado a Srta. Quebra-Corações há algumas semanas atrás quando Garrett e eu terminamos? — Lyra retrucou, confusa.
– Mas você não vai quebrar o coração do nosso amigo, vai? — Úrsula sorriu. — Oh meu Deus, não me diga que ele já se apaixonou por você! Deus, Lyra! Você é uma vadia egoísta!
Nós três rimos.
– Peço desculpas às senhoritas, mas não há um coração para ser quebrado aqui dentro.
Lyra e Úrsula ergueram as sobrancelhas em algo que misturava um tom desafiador a um devasso. Depois, sussurraram “uh...” juntas, quase como se tivessem combinado. Havia uma sintonia clara entre as duas. E eu era obrigado a admitir que todo aquele bom humor me deixava à vontade de uma forma que eu até julgava perigosa. Eu realmente estava dando confiança a elas como se nos conhecêssemos há anos.
– O tal Garrett também não era do tipo que se prende... E isso não a impediu de destruí-lo em vinte e cinco mil pedaços. — Úrsula comentou. Lyra deu um tapa leve na coxa da ruiva.
– Não fiz nada que ele não merecesse. — Ela sorriu.
– E o que o cara fez para você? — Perguntei, curioso.
– Era um idiota. Eu realmente gostava dele, mas o relacionamento no primeiro momento foi apenas um interesse e um modo de se aproximar da Aldeia. Quando descobri, o fiz se apaixonar de verdade. Depois, acabei com ele.
Ela sorriu; um tanto debochada, e um tanto orgulhosa. Estava se tornando cada vez mais interessante.
– Isso acontece quando você é o tipo de mulher que pode ter o homem que quiser. Destrói tudo que toca, como se o mundo que a cerca fosse feito do mais frágil cristal.
Ela sorriu abertamente com meu comentário. Que garota no mundo não gostaria de um elogio como aquele?
– Talvez esteja errado. — Como é que era? — Não destruo tudo o que toco. Apenas o que eu quero destruir. E é uma pena, pois sou o exato tipo que faz os homens correrem. A garota que pode ter quem quiser, mas nem por isso todos que a querem podem a ter. Sou um desafio que poucos estão dispostos a enfrentar.
Ela era um desafio para mim. Mas, ainda assim, o que eu senti pelas palavras de Lyra naquele instante não foi vontade de consegui-la. A minha atração foi por ela. E não pelo suposto desafio que apresentava. E aquilo poderia ser considerado um fenômeno, tendo em vista a dificuldade que tinha para acontecer.
E todo aquele jogo ficava mais perigoso a cada segundo que se passava.
– Então, podem me levar até o quarto agora?
– Claro. — Lyra e Úrsula disseram juntas. Mais uma vez, a sincronia das duas me assustou.
Cada uma das amazonas se apossou de um braço meu. Úrsula se envolveu em mim, com os dedos sobre as palmas de minhas mãos. Lyra me enganchou pelo cotovelo, e mantendo seus ombros encostados sobre os meus. A pele dela era macia, quente e aveludada. Admito que foi a estranha a sensação de acomodação que eu tive com o toque suave dela. Na verdade, tudo estava sendo diferente nela para mim. Tão diferente que eu estava incapacitado de comparar com qualquer outra coisa que tenha acontecido comigo durante toda minha vida.
Úrsula abriu a porta de madeira grossa e bem velha, tirando o corpo da frente como se dissesse “hey, dê uma olhada!”. A fechadura enferrujada rangeu de modo perverso. Lyra debochou de minha hesitação que nem mesmo tinha percebido. Sorri no mesmo segundo que vi um sorriso em seu rosto perfeito. E depois que virei o rosto e percebi que estava me perdendo completamente nela, me desfiz daquilo tão rápido que mais parecia que tinha visto um fantasma.
O tal quarto era bem confortável. Era iluminado por velas, tinha umas flores malucas e coloridas e uma cama enorme com um colchão grosso de espuma. Eu podia escutar o relinchar dos cavalos no estábulo, não muito longe dali. Pelo menos não seria difícil encontrar Claire. Obviamente, eu só tinha duas coisas para me preocupar:
Primeiramente, tinha que despistar as duas.
Depois, encontrar uma maneira de me manter controlado perto de Lyra.
… Pensando bem, talvez fosse ao contrário.
Então, nós três entramos. E, assim que Úrsula passou pela porta, ela bateu com força, como se estivesse deixando claro que estávamos sozinhos. Lyra se afastou dela discretamente. E, quando a ruiva se virou, caminhou até mim rebolativa e tentadora, jogando todo o charme que tinha. Umedeceu os lábios com prazer. E aquela foi a primeira vez que ela deixou claro que realmente tinham segundas intenções, provavelmente seguindo ordens de Michelle. E isso significava que eu ia ter que me livrar das duas. Uma pena.
Porém, ainda estava cedo demais para ir até Claire. Logo, eu teria que armar um plano em cima do delas para poder escapar.
Mesmo que isso me custasse minha própria namorada...
– Úrsula, poderia fazer um grande favor a mim? — Eu perguntei.
– Claro, Dave.
– Eu vim com dois cavalos e eles estão fora da Aldeia... Poderia trazê-los para dentro?
A ruiva revirou os olhos azuis no primeiro momento, mas logo encontrou o olhar de Lyra. E, quando isso aconteceu, em um instante ela sorriu. Aquele exato tipo de sorriso que sempre esconde algo. Quando alguém conhece você o suficiente, não é necessária nem uma troca de palavras. Olhares bastam.
Mas eu não podia ler a mente delas.
– Vou até lá. Não façam nada que eu não faria.
Então, ela saiu rapidamente e fechou a porta com força. Foi naquele segundo que eu tinha percebido o tamanho da merda que tinha feito.
Lyra puxou o cabelo para trás e sorriu timidamente para mim. Então, devagar ela caminhou e se sentou na cama. O olhar estava completamente perdido. Estava pensativa demais. Evitava me encarar o máximo que podia. De repente, pareceu insegura. E, diferentemente de Úrsula, ela não queria me seduzir. Honestamente, talvez se ela quisesse ela conseguisse, mas ela realmente não queria. Mas, a pose frágil da amazona não fez dela menos interessante. Eu ainda revezava meu foco entre os lábios perfeitos e as pernas maravilhosas. Nenhuma garota merecia ser tão bonita quanto ela. Eu achava que nada poderia ser comparável a Hillary e Claire, mas ela era. Não só comparável, mas uma forte competidora.
– No que está pensando, Baker? — Perguntei, curioso. Ela se assustou ligeiramente.
– Nada de extrema relevância.
– Não precisa ser relevante para me contar.
Ela sorriu discretamente.
– Você é indiscreto, sabia?
– Por que diz isso?
– Porquê quando você olha para mim, parece que o mundo vai acabar no momento seguinte e essa é a última chance que tem de me ver.
Ri baixo.
– Você é diferente do que estou acostumado, Lyra. É só isso.
– Você não me conhece o suficiente para saber, Dave. Posso ir muito além do que aparento.
– E é exatamente por isso que você é diferente do que estou acostumado. — Sorri. — Olhar para você é como olhar para um abismo bem profundo. Há luz e há sombra, mas não posso ver o chão. A curiosidade me faz querer mergulhar de cabeça no desconhecido, mas meus pés me mantém preso, sendo obrigado a apenas olhar, sem saber onde é o fim. Sem saber se há um fim.
Novamente, ela sorriu. Suas sobrancelhas se uniram em uma expressão meiga e irresistível.
– Você mentiu. — Ela disse, seca.
Respirei fundo, e tentei manter a calma.
– Quando?
– Quando disse que não havia um coração para ser quebrado.
Sorri. Se por alívio ou felicidade, honestamente não consegui distinguir.
– Eu não te daria um motivo para quebrá-lo. Acredite em mim.
Novamente, me vi flertando. E pior era pensar que aquilo não era parte do meu “plano”. Lyra poderia estar me enganando completamente e ainda assim, eu continuaria caindo. Era perfeitamente possível que aquela mente inteligente e capacitada estivesse apenas fazendo o jogo dela. Eu não tinha como saber se estava fingindo ou não. Mas, eu realmente não poderia arriscar mais. Porque, independentemente do que ela fosse realmente, eu estava cada vez mais perto de ceder. E, se isso acontecesse, não seria uma mentira. E eu não ia trair Hillary.
– Ahn... Podíamos encontrar Úrsula no estábulo e ir sair daqui um pouco. Talvez tomar um banho, ou algo do tipo... — Eu propus.
– Por mim tudo bem. Isso pode ser divertido.
Lyra se levantou e passou por mim, me encarando com intensidade. Eu respirei fundo e fiz de tudo para manter o foco, antes de ir atrás dela e finalmente fechar a porta.
A amazona logo avistou a amiga ruiva dentro do estábulo, acariciando um enorme cavalo cinza e branco. Seguindo em minha frente, Lyra apertou os passos para chegar até Úrsula mais rápido. E, quando eu finalmente ia passar pela porta, eu senti algo puxando meu braço e tampando minha boca ao mesmo tempo; me tirando da frente das amazonas.
Me rebati, e logo me libertei. Quando virei o corpo, prestes a atacar o que quer que tenha me agarrado, me deparei com um par intenso de olhos azuis-violetas me encarando com preocupação. Ela estava assustada e com pressa. Claire parecia estar entrando em estado de choque.
– Você está bem? Elas não fizeram nada, fizeram? — Ela perguntou em um tom baixo, tomando todo o cuidado para não chamar atenção.
– Elas estão sendo gentis, até. Não parecem querer me matar.
– Elas não vão te matar. Vão te estuprar.
Engoli em seco.
– Como é?! — Perguntei com um falsete fino resultante de minha exaltação.
– Na verdade, não é estupro. Não vão forçar nada. Mas, a parte que eu não contei sobre a liderança de Michelle é que ela acredita em uma velha lenda que diz que vantagens podem ser passadas geneticamente. Habilidades de batalha, e outras coisas...
– Mas isso não faz sentido. Eu perdi para Lyra em uma batalha!
– Dave, você é forte, saudável e bonito. Óbvio que ela mandou as senhoritas Admirem-nos para tentar alguma coisa. Ela realmente acha que a criança vai ser como vocês dois juntos. Lyra é excelente com espadas e Úrsula tem ótima pontaria. Você é tudo que ela acha que precisa.
– Isso é loucura! — Eu quase berrei.
– Por que você acha que eu fugi? Michelle está destruindo amazonas e matando pessoas.
Pensei, por um instante, intrigado com uma questão.
– Mas, Claire... Não há homens aqui... E ela não pode garantir que as crianças sejam mulheres... — Eu disse pausadamente, deixando a frase morrer aos poucos.
– Eu sei, Dave... Essa é a pior parte.
– Não me diga que ela...
– Sim. Ela mata as crianças recém-nascidas. E não só os garotos, mas também as que nascem deficientes.
Não... Lyra e Úrsula não podiam estar seguindo essas regras.
– Eu tenho que ir com elas, Claire. Serei cuidadoso.
– Vou tentar trazer Hillary para cá mais tarde. Tenha cuidado, elas são perigosas. Nos vemos logo.
Então, Claire saiu pelo lado, se apoiando nas paredes do estábulo.
E quando eu finalmente tive Lyra e Úrsula em meu campo de visão novamente, até mesmo o sorriso delas parecia ter mudado.
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