– O que aconteceu com você? Parece assustado. — Disse Úrsula, puxando o cabelo ruivo para trás. Nos olhos azuis, eu vi uma chama acesa.
– É só uma dor de cabeça. Vou ficar bem logo.
– Podemos ficar por aqui se quiser, Dave. — Disse Lyra.
– Eu estou bem, eu já disse.
As amazonas trocaram um olhar discreto e curioso.
– Eu tenho uma ideia melhor. Por que não voltamos para o quarto e conversamos? — Perguntou Úrsula.
– Garotas, vamos logo. Pelo amor de Deus.
– Não iremos mais a lugar nenhum. Mudei de ideia. — Lyra disse em um tom forte e inexorável. — Já vai anoitecer.
– Ela tem razão. Quando a noite cai, é perigoso andar por ai.
Mas também não era nada seguro andar pela Aldeia, era?
– Que seja. — Retruquei, ainda visivelmente alterado.
Úrsula então deu um sorriso leve e travesso, e virou a cabeça devagar. Suas mãos desceram pelo cavalo cinza enorme que cuidava, até que perdesse contato com o animal e acompanhasse a linha de seu pequeno corpo. Então, ela sorriu abertamente, de modo claramente malicioso. Sua íris azul ciano procurou por Lyra no primeiro momento, e isso gerou um leve sorriso devasso perfeito no rosto da amazona dos olhos verdes. Mas, novamente, ela nem se mexeu. A ruiva, ao contrário, se lançou em direção a mim em uma doce e provocante caminhada lenta.
Ela parou na minha frente, quando centímetros separavam nossos corpos. Os olhos eram tão claros que pareciam me consumir inteiramente, quase como se me empurrassem para a profundeza dos oceanos. Os lábios de Úrsula estava levemente arqueados, e as sobrancelhas, franzidas. Ela virou a cabeça mais uma vez, vagarosamente. E de repente, seus olhos tiveram meus lábios como foco.
– O que aconteceu com você, Dave? — Ela entonou de modo galante e sedutor. Aquela era a hora.
– Sabia que você é inacreditavelmente pequena para ser tão infernalmente provocante?
Por uma fração de segundo, eu poderia jurar que ela hesitou. Mas, logo recuperou a expressão sedutora.
– Quer um conselho? — Ela sorriu. — Ninguém vive para sempre.
– Você não sabe com o que está se metendo, Úrsula. — Adverti, intimidando. Ela se aproximou mais ainda de mim.
– Eu não tenho medo de descobrir. Você tem?
– Então, descubra.
Úrsula me puxou com urgência para que meus lábios encontrassem os dela. Ela passou os braços por volta de meu pescoço, me impedindo de me afastar enquanto continuava me beijando, completamente consumida pelo desejo. Apertei sua cintura com força, fazendo com que ela gemesse baixo em meu ouvido. E, quando ela fez isso, eu sorri, satisfeito. Antes de a beijar com força mais um vez. A língua dela em um instante invadiu minha boca, massageando a minha vagarosamente. Nossos lábios se correspondiam quase como em uma dança repleta de luxúria e sensualidade. Uma coisa eu me vi obrigado a admitir: Aquela baixinha era infernal. No bom sentido, claro.
– Vamos... — Ela sussurrou em um gemido baixo repleto de prazer. Então, se afastou de mim relutantemente, puxando minha camisa branca.
Encarei Lyra pela última vez antes de seguir. Estava com um olhar e um sorriso estranhamente convidativo para mim. E, quando Úrsula me puxou, me tirando do estábulo, ela caminhou junto, deixando claro que ia seguir nós dois até o quarto. Foi apenas naquele momento que eu notei duas amazonas atrás dela, assistindo atentamente a toda a cena.
Úrsula seguia em minha frente, rindo tão alto que mais parecia que estava bêbada. Lyra andava rápido, bem atrás de nós, olhando para todos os lados, quase como se estivesse vigiando alguma coisa. Para ser honesto, aquela duas estavam realmente começando a fritar minha mente.
A ruiva abriu a porta do quarto com pressa, e entrou assim que pode. Depois, me puxou com força. Lyra veio logo atrás de nós, entrando de forma discreta e procurando não chamar a atenção de ninguém. Ela fechou a porta devagar, sem fazer barulho. E, depois, se virou para mim, séria e impenetrável.
A linda amazona de olhos verdes caminhou fazendo círculos em volta de mim, até que finalmente conseguisse ficar do lado de sua amiga ruiva. Úrsula de repente parecia ter se transformado em outra garota. Estava preocupada, e atenta ao que acontecia lá fora. Toda a provocação parecia ter evaporado como um pote de água largado no deserto. Lyra virou a cabeça, fitando as paredes.
Foi quando escutamos o barulho discreto de alguém se apoiando na porta. No mesmo instante, viramos juntos, atentos. O que estava acontecendo, afinal?
– Úrsula, está muito quieto aqui dentro. Preciso que você faça barulho. — Lyra disse, seca.
– Ah, você não vai fazer isso comigo, vai? É constrangedor. — Úrsula reclamou. Lyra sorriu.
– Elas sabem que você é muito mais escandalosa que eu. A diferença entre nós é colossal. Agora, ande logo, ou tudo terá sido em vão.
Úrsula bufou. Mas, mesmo contra sua vontade, caminhou até a cama. Então, ela subiu de joelhos e começou a balançar para cima e para baixo, fazendo a madeira ranger. Depois, ela começou a gemer. Muito, muito alto. Suspirar, e sussurrar meu nome como se algo realmente estivesse acontecendo. Levei minha mão à boca no intuito de conter minha gargalhada. Lyra continuou pensativa, sem mover um só músculo. E alguns segundos depois, veio o resultado que elas tanto esperavam. Risinhos e cochichos atrás da porta. E, a pressão sumiu, como se quem estivesse apoiado ali escutando tivesse desistido.
– Ser amazona não significa que concordamos com todas as regras, Dave. — Lyra finalmente falou, ainda parada.
Ok. Oficialmente, minha cabeça estava um caos.
E Úrsula continuava praticamente berrando.
– Espere, vamos com calma. Eu não estou entendendo absolutamente nada.
Lyra riu baixo.
– É isso que ela espera que façamos com você. — Ela apontou para Úrsula, ainda em sua interpretação fiel. — Mas, acho que sabe dessa parte, não é?
– Como sabe que eu sei? — Perguntei, curioso.
– Porque eu quis que você soubesse.
E nada de Úrsula parar.
– Ok, pode pedir para ela parar com isso antes que eu dê um motivo para ela gemer de verdade?
Ela riu baixo.
– Ursie, você o ouviu.
No mesmo instante, ela parou. Abriu um sorriso descontraído e puxou o cabelo para trás, antes de pular para fora da cama e se abrigar ao lado de Lyra.
– Sabíamos que Claire te contaria mais cedo ou mais tarde, Dave. Para ser sincera, não vimos quando, mas você deixou bem claro no estábulo. — Disse Úrsula, um tanto quanto ofegante.
– Vocês estão tentando me ajudar? — Perguntei, assustado.
– Porra, eu acabei de fingir um orgasmo e você ainda tem coragem de perguntar?! — Úrsula se exaltou. Lyra riu alto.
Sem aguentar prender minha gargalhada, eu deixei que saísse. E, logo a pequena ruiva começou a rir comigo.
– Se não obedecermos Michelle, elas nos mata. Literalmente. E provavelmente nos mataria se soubesse o que estamos fazendo por você. — Disse Lyra.
– Mas... Por que ajudar a mim?
– Porque Lyra se apaixonou por você.
– Úrsula! — Lyra berrou, rindo, e dando um tapa leve nas costas da amiga. Não pude evitar rir junto às duas. — Você não a conhece. Tem o tamanho de meia pessoa mas perturba por dez.
Eu não pude evitar os pensamentos contraditórios que surgiram em minha mente. Obviamente ela não estava apaixonada por mim. Mas, quem me garantia que não estivesse inexplicavelmente atraída, assim como eu?
Mas, não era isso que eu queria, era?
– Vimos quando entrou com sua namorada Hillary... — Disse Lyra. — E vimos que estavam com Claire...
– Então, corremos para Michelle, dizendo que cuidaríamos de você. — Úrsula completou. — Sabemos da briga por baixo dos panos delas duas, e assim como nós, Claire só queria mudar tudo que estava acontecendo de errado aqui dentro. E, se você estava com ela, sabíamos que devíamos protegê-lo.
Além de tudo elas sabiam sobre Hillary. Que ótimo.
– Quando Úrsula perguntou sobre seu relacionamento e você mentiu, sabíamos que estava querendo esconder algo. Depois, no estábulo, você fingiu deixar a ruiva te seduzir para armar um plano em cima do que supôs que seria o nosso. — Lyra continuou.
– E então por que Úrsula me beijou?
Lyra riu baixo.
– Primeiramente porque ela é uma vadia safada e oportunista. — Úrsula chiou. — E depois, tínhamos que fazer parecer real. Há olhos e ouvidos em todos os lugares por aqui. E isso também explica o pequeno show da nossa ruivinha... As amazonas apenas descansariam se soubessem que você já era nosso.
Eu passei a mão nos cabelos puxando para trás com um sorriso incrédulo no rosto.
– Isso só pode ser brincadeira... — Resmunguei, estupefato.
– Hillary não precisa saber de nada, Dave. — Úrsula sorriu. — Por mais que você estivesse louco para agarrar Lyra. Pode dizer que era ela quem você queria gritando. Tudo bem, eu entendo.
Lyra sorriu, envergonhada. Discretamente, beliscou Úrsula. A ruiva berrou, ao mesmo tempo que ria.
– Tão inconveniente essa criaturinha diabólica... — Lyra sussurrou com ódio. Eu ri.
– Inconveniente não, sincera! — Úrsula berrou. Nós rimos.
– Ok garotas, isso é tudo ou tem algo mais que possa ser comentado nessa discussão?
– Acho que isso é tudo. — Sorriu a ruiva. — Hey L, podemos ir?
Lyra por um instante perdeu o foco. Seus olhos fitaram o chão, pensativos e ela franziu as sobrancelhas. Seus dedos caminharam de suas têmporas até sua nuca, com suavidade. E, quando ela finalmente saiu o transe em que se encontrava, a íris se direcionou diretamente a mim de forma assombrosa. Os lábios se distanciaram, como se estivesse esperando que as palavras saíssem espontaneamente. Úrsula estranhou o comportamento da amiga.
– Ly? — Ela chamou.
– Não, Ursie. Tem mais uma coisa que temos que esclarecer antes de irmos.
– Então, vamos em frente com isso. — Eu incentivei.
Lyra abriu um sorriso arrogante.
– Antes de qualquer coisa, devo dizer que posso estar falando a maior merda da minha vida. Mas, eu não poderia ir dormir sem tirar a dúvida. Você sabia da história de Claire. Sabia que Michelle era uma mulher extremamente traiçoeira e mesmo assim, veio para cá com ela e sua namorada; um lugar onde nunca seria seguro para nenhum de vocês. Se eu fosse você, eu provavelmente não faria isso, mas por algum motivo, você fez. Por algum motivo, você se considerou capacitado para encarar a Líder das Amazonas sem medo de morrer. E honestamente, não acredito que se garanta por sua habilidade com espadas...
Lyra parou para respirar, curiosa. Eu francamente não tinha ideia do que ela havia feito com minha expressão facial. Onde diabos ela queria chegar?
– Lutamos, como parte do suposto teste realizado na Aldeia. Já deixamos claro que só aconteceu para parecer real de minha parte. De qualquer modo, você descobriu que Úrsula e eu somos excelentes, e ainda assim, tentou armar um plano em cima do que achou que seria o nosso, provavelmente forçando-nos a te ajudar. Mais uma vez, provou que confia demais em si mesmo. Isso não pode ser apenas estupidez.
Engoli em seco.
– Eu vou perguntar apenas uma vez, de modo claro e direto. — Ela disse pausadamente. Pronúncias em branco sempre me assustam. — David Matlock, o que você é?
Por um segundo, eu esqueci de respirar.
– Um pesquisador de renome mundial.
– E eu sou uma Rena do Papai Noel. — Lyra ironizou. Úrsula riu alto.
– O que você quer que eu te responda?
– A verdade. O que você é?
– Humano.
Ela bufou alto.
– Não me faça repetir a pergunta, Matlock. Se não quiser responder, eu posso descobrir.
Expirei com força.
– Você tem que estar feliz com o fato de que não vou machucar vocês.
Úrsula arregalou os olhos, boquiaberta. Lyra sorriu, satisfeita.
– Fala sério! Ele é realmente algo sobre-humano e você descobriu isso apenas observando? — Ela abriu um sorriso impressionado para a amazona dos olhos verdes, ainda congelada em uma pose arrogante. — Lyra, você é incrível!
– Você pode enganar o mundo todo, mas não a mim. — Lyra desafiou. — Sei que não vai me fazer mal. Mas você não sai daqui sem dizer o que é.
Sorri.
– Sou a escuridão.
– E eu sou a luz.
– Vocês dois são fogo e gelo, isso sim. — Úrsula comentou. — É sério, vocês me assustam. Parecem que foram moldados de tal modo que se completam. Essa é a primeira vez que se veem, mas é como se se conhecessem com perfeição.
Lyra a encarou apenas por um segundo.
– Me diga. — Ela insistiu.
– Sou as Trevas. Sou o ódio. Sou o desejo, e também o pecado. Sou o sangue, sou a alma, sou o corpo, e a angústia. Estou fadado a ser um soldado do inferno.
– Se esse é o seu destino, eu vou ser o Anjo que vai te levar de volta para o céu. Porque, não interessa o que fez. O que interessa é o que faz. Nenhum homem é maldade pura. E muito menos você. Aliás, se realmente fez algo de ruim, acredito que não tenha sido por vontade própria.
Meus olhos fitaram o chão por um breve segundo, antes de encararem os dela mais uma vez.
– Sou um lobisomem.
Lyra e Úrsula recuaram dois passos.
Mas logo a amazona de olhos verdes andou até mim, parando em minha frente, e me encarando com intensidade. O olhar sereno era penetrante e intenso.
– Não quer me matar? — Ela sussurrou, curiosa.
– Eu não funciono mais dessa maneira. Eu me livrei da sede.
– E ainda se diz um soldado do inferno... Tolo. Estamos na mesma barca, Dave. Então, vamos ajudar um ao outro.
– Claire ia me encontrar com Hillary no estábulo. Precisamos ir para lá o mais cedo possível.
Lyra colocou a mão na maçaneta, a girou e empurrou a porta. Depois, sua boca se arqueou em um sorriso debochado. Os olhos verdes continuavam focados em mim.
– Podemos? — Ela perguntou.
Dei as costas para as duas amazonas, saindo. Mas, logo me vi seguido.

Úrsula e Lyra se uniram para empurrar a porta pesada e deslizante do estábulo. Quando a brecha era o suficiente para que nós três passássemos, elas pararam. Ainda tentando me esconder do resto das amazonas da aldeia, eu me esgueirei com a maior discrição que pude. Elas entraram depois de mim e mais uma vez puxaram a porta para fechar a entrada.
Hillary e Claire já estavam me esperando – bem distantes uma da outra. Estavam distraídas até então, mas o barulho que geramos acabou chamando a atenção das duas. Minha namorada abriu um sorriso largo e aliviado no mesmo instante que colocou os olhos em mim, mas ao mesmo tempo parecia estar desconfiada das amazonas que me acompanhavam. Claire as encarou com uma expressão indiferente que eu não pude ter muita certeza do que se tratava. Mas, não me surpreenderia se também não estivesse gostando muito daquilo tudo.
Hillary então desencostou da madeira onde estava apoiada e veio andando até mim com os passos rápidos, porém cautelosos. Os olhos estavam focados em Lyra e Úrsula e isso ficou bem evidente para mim. Ela me abraçou com ternura, colocando o queixo delicadamente em cima de meu ombro. Meus braços passaram por volta de sua cintura e a apertaram, quase como se aquele fosse um gesto desesperado para uni-la a mim.
Amar alguém era completamente diferente de estar encantado.
E ela deixou aquilo bem claro.
– Eu estava muito preocupada com você... — Ela sussurrou. — Não te fizeram mal, não é?
– Eu estou bem, não se preocupe. Lyra e Úrsula não querem nosso mal. Elas estão aqui porque são contra Michelle e querem ajudar Claire.
– Mas elas não podem nos ajudar a fugir daqui sem serem descobertas.
– Elas só vão limpar o caminho para nós. Teremos que dar o nosso jeito de sair.
Hillary se afastou de mim, com as sobrancelhas franzidas.
– E o que você acha que nós vamos fazer? — Ela perguntou.
– Usar os lobos.
– O quê?! — Hillary elevou o tom de voz, mas abaixou assim que percebeu que se exaltou. — Não podemos fazer isso! E quanto a Claire?!
– Hill, essa é a única maneira. Temos que sair daqui. Você já deve saber o que acontece. Se não fosse por Lyra e Úrsula, Deus sabe onde eu estaria!
– Mas Dave...
– Não existe “mas”, Hillary. — Interrompi. — Se ficarmos, morremos. Ou pelo menos alguém vai sair morto. Já está na hora de você parar com essa rixa e fazer o que é melhor para todo mundo.
Hillary bufou com ódio, e deu as costas por um breve segundo, claramente encarando Claire. Quando uma encontrava o olhar da outra, elas se seguiam feito dois ímãs que transbordavam desprezo. Mas, daquela vez Hillary cedeu antes, virando para mim séria e nada amigável.
– Muito bem, faça como quiser. Mas, a responsabilidade não é minha, e nem adianta pensar que vai ser em algum momento.
– Hillary, essa é a única maneira! Você realmente acha que eu não preferia manter isso tudo em segredo? — Meu tom ficou meigo. — Você sabe o que acontece com Lyra e Úrsula se Michelle descobre que estão nos ajudando?
– Pois é, ainda temos as duas. O que pretende dizer para elas? “Hillary e eu nos viramos daqui em diante, obrigado pela ajuda”? — Ela ironizou, claramente irritada.
– Ahn... Na verdade...
Ela me encarou com o ódio de vinte demônios juntos.
– Não me diga. Elas já sabem. — Ela ironizou. — O que deu em você? Espalhou panfletos que diziam “ Oi, meu nome é Dave, e eu sou um lobisomem idiota”? — Os olhos de Hillary começaram a ficar vermelhos, e a temperatura aumentou bruscamente.
– Eu não contei nada. Elas descobriram. Lyra é uma excelente observadora.
Hillary caminhou até meu lado, encarando a amazona de olhos verdes que estava parada ao lado da amiga ruiva.
– Qual de vocês é a tal Lyra?
Úrsula apontou a amiga por puro reflexo com os olhos azuis arregalados, visivelmente assombrada por Hillary.
E Hillary estendeu o dedo médio para Lyra.
E eu corri, segurando o punho de Hillary e sorrindo completamente embaraçado para a amazona, que tinha uma expressão docemente confusa. Úrsula ria como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. A garota consideravelmente amorosa em meus braços continuava se debatendo com extrema violência, lutando com todas as forças que tinha para se livrar de mim.
– Me desculpem... Ela está meio irritada. — Eu disse para Lyra. Ela balançou a cabeça de modo negativo, sorrindo, com se pensasse “eu não acredito nesses dois”. — Vocês podem ir saindo da Aldeia. Levem os cavalos para o outro lado da ilha; eles saberão para onde ir. Obrigado pela ajuda, garotas.
– Esperamos ver vocês de novo um dia. Boa sorte. — Úrsula sorriu, animada.
Lyra deu as costas sem falar nada, e apenas montou no cavalo negro. Puxou as rédeas do animal e passou por nós de modo lento e dramático, seguida pela ruiva. O barulho dos cascos no chão ecoou por minha mente. Lyra ainda me encarou uma última vez antes de virar o rosto para frente e apertar a marcha, sumindo poucos segundos depois. Francamente, uma grande parte de mim se sentiu mal por pensar que aquela provavelmente seria a última vez que eu veria um ser tão extraordinário.
E Claire no mesmo segundo arfou, completamente desentendida.
– Você enlouqueceu!? — Ela perguntou. Agora quem estava ficando irritada era ela. — Aquelas duas eram as únicas chances de sairmos daqui!
– Claire, eu preciso que se acalme. Hillary e eu temos um plano, mas precisa estar relaxada para que te contemos...
– Plano porra nenhuma! — Ela berrou. — Sabe quantas dessas vadias vagam por ai?! Estamos mortos, Dave. Você matou nós três!
– Escute, eu preciso que você confie em mim. Nós não vamos morrer. Pelo menos, não se vocês não nos matar.
Claire tremia de tanta raiva e indignação. Eu podia ver que estava dando o máximo para se manter calma. Eu não a culpava, de certo modo. Talvez em seu lugar, eu estivesse tão estressado quanto ela. Mas, o fato era que ela não sabia da carta em minha manga. E, naquele momento, por mais que algo bem lá no fundo clamasse para que eu mantivesse o segredo, eu ia revelá-lo. Eu precisava dele para sair da Aldeia. Abrir o jogo era mais do que necessário; nossas vidas dependiam de minha sinceridade.
Mas eu sabia que aquilo seria tremendamente assustador. Tanto para ela quanto para mim.