Fallacy - Pride
2 Matlock
Não há necessidade de me apresentar, todavia esta há de ser uma exceção. No Reino Unido, meu nome marca presença nos tabloides, jornais, revistas e principalmente, pula de boca em boca. A perseguição midiática incessante é uma marca registrada, afinal no meu ramo, eu posso sim ostentar o título de melhor. Grandes avanços médicos e bioquímicos estavam sendo responsáveis por minha equipe; uma bela trupe de grande porte espalhada em uma rede de laboratórios britânicos. Administrar uma empresa milionária, entretanto, não era o que eu fazia – eu não havia estudado sem parar e chegado no auge ainda jovem para apenas organizar; meu lugar era lá dentro, ajudando a todos e principalmente, chefiando-os. Me chamo David Matlock. Faço parte de uma nova geração de pesquisadores independentes com potencial revolucionário. Ainda jovem demais para tanta responsabilidade – e também tanto dinheiro – era auxiliado por uma equipe que nunca me falhara. Eu era o homem do momento. Orgulho? Não falta. Não há como mentir quanto ao meu narcisismo e egocentrismo de proporção surrealista. E era justamente por isso que, onde não havia devoção a mim, havia o mais rancoroso desdém.
Dez de março. Uma bela data para um pisciano, devo dizer. Irônico, de certo modo. Meu signo e eu parecemos o exato oposto um do outro. Um exemplo disso é a comemoração desse dia – logicamente meu aniversário – nos últimos vinte e cinco anos da minha vida – sempre com festas um tanto quanto... Minhas. Apenas vinte e cinco anos e tanta história, incluindo a carreira de sucesso. E não era diferente naquele momento: lá estava eu, abobalhado como sempre; enfiado em um Smoking Armani preto, e parecendo um pinguim; prestes a receber não um prêmio qualquer, mas algo que atraía a atenção de todo o mundo apenas para mim. Coisas como essas sempre me incentivavam a superar meus próprios limites e ir cada vez mais longe. Sabia que meus pais estariam orgulhosos de mim se estivessem presentes. Mal conseguia tirar o sorriso patético do rosto.
Na verdade, nada fora exatamente um mar de rosas. E, chegava a ser difícil acreditar, mas tragédias eram partes constantes da minha vida. Meu sucesso não foi consequência de uma (pelo menos, não diretamente) mas, de algum modo, pensar na minha mãe me fazia ir cada vez mais longe.
Muitos não sabem qual é a história de seus próprios pais. Talvez eu mesmo não soubesse a dos meus, se não fosse tão notável. Na verdade, isso nunca envolveu apenas eles dois... Mas posso começar dizendo que Anthony Sciarrotta Matlock, meu pai, era um homem inglês correndo atrás de seu sonho de erguer o próprio lugar para pesquisas. Ele não era um homem ruim; estava sempre tentando ajudar todos, e isso se refletiu na profissão que escolheu. Um dia, ele viajou para os Estados Unidos (Daytona Beach, Flórida, para ser mais exato), e conheceu Catherine Goldberg; minha mãe. Eu lembro até hoje de seus lindos cabelos loiros, e seus olhos acinzentados; exatamente como os meus. Minha mãe era linda, por dentro e por fora; era um exemplo de pessoa.
Talvez uma das coisas mais óbvias do mundo atual seja o fato de que, se uma mulher é linda fisicamente, e com um caráter realmente adorável, noventa por cento das vezes, ela tem algum namorado — que grande parte das vezes não sabe lhe dar valor -, ou um marido grosso, arrogante e impaciente. No caso da minha mãe, o cão de guarda se chamava Damon Feinberg. Um homem poderoso; excelente advogado, que era capaz de encher a piscina com o próprio dinheiro. Naquela época, Feinberg estava acima de qualquer Matlock, em quase todos os sentidos. Mas, para a minha mãe, não foi exatamente assim.
Meus pais se apaixonaram. De verdade. E pelo que eu sei, não era algo bobo que logo perderia a intensidade. Era algo tão forte que qualquer um podia notar nos olhos deles. E, naquela época, minha mãe não tinha filhos com Damon; mesmo que já estivessem casados há quatro ou cinco anos. Catherine queria um herdeiro, mas nem mesmo para isso Damon parecia ligar. Era um casamento infeliz. Até que uma coisa com efeitos extremos aconteceu. Minha mãe engravidou. Ruim para ela? Claro que não, ela estava feliz. Mas, o que tem de errado nisso então? Ela engravidou do meu pai, não de seu marido.
Aborto? De maneira nenhuma, ela era completamente contra. Então, minha mãe se viu obrigada a dar o jeito dela. Anthony voltou para a Inglaterra sem saber de nada. O que ela fez? Teve um filho, ora bolas. Um pequeno garotinho loiro de olhos claros, nascido em Miami, que por ser assustadoramente parecido com ela, foi batizado de David Goldberg Campbell Feinberg. Sim. Ela mentiu para Damon, e para todos os outros. E pretendia continuar assim. Talvez, a possibilidade da farsa ser descoberta não tivesse nem passado por sua cabeça. Mas infelizmente, não foi exatamente assim que as coisas aconteceram.
Eu não lembro ao certo quando a incerteza de Damon começou. Mas, aquela fase da vida dele realmente não estava nada boa. Ele brigava com minha mãe todos os dias, os negócios dele estavam falindo, e as dívidas começavam a cercá-lo. Enquanto isso, nos jornais americanos, só um assunto era tratado: o Laboratório Matlock. Meu pai estava crescendo, enquanto ele caía. Meu sangue verdadeiro fervia em minhas veias, enquanto meu nome crescia no mundo. Era clara a preocupação de Catherine quando tocavam no nome “Anthony”, ou quando ele mesmo dava entrevistas. Damon ficava me encarando, revezando o olhar entre os meus olhos, os da minha mãe, e do meu verdadeiro pai, na televisão. Eu nunca soube o motivo.
Até que um dia, ele resolveu cortar meu cabelo dentro de casa. Catherine estranhou obviamente, já que aquele homem tinha um coração de gelo e jamais agia como pai ou marido, mas ela não questionou. Lembro de ver Damon colocando pequenos tufos de meu cabelo em um pote transparente de cinco centímetros. E, embora eu tenha notado seu ato discreto, Catherine não.
Mais ou menos um mês depois, veio o dia de fúria. Quando ele chegou em casa, derrubou vasos, atirou copos de vidro nas paredes, quebrou pratos... Minha mãe entrou em desespero, sem entender o motivo daquilo tudo. Ele ergueu para ela um pequeno envelope pardo, que ela abriu e olhou por apenas meio segundo. O que era? Um teste de DNA. E isso significava que a mentira que ela manteve por seis anos estava acabada. Para total enfurecimento daquele homem.
O próximo passo de Catherine foi me proteger. Acredito eu que, de alguma maneira, ela sabia que eu não estaria seguro naquela casa. Em um instante, arrumou o telefone do Laboratório e contatou meu pai, depois de tanto tempo. Esse, por sua vez, entrou no primeiro voo de Londres para Miami, pronto para qualquer que fosse sua decisão. Eu lembro vagamente do largo sorriso quando viu seu filho pela primeira vez, já com seis anos. E lembro também de ficar tentando imitar o sotaque britânico dele sem sucesso nenhum.
Mas, o inesperado aconteceu. Eu era apenas um garoto de seis anos, não podia entender a complexidade da história. Lembro de minha mãe tentando me explicar aquilo tudo de um modo que eu pudesse entender. Ela só disse “David, eu quero que você vá com esse homem. Ele é seu pai de verdade, e vai cuidar de você.” E, mesmo relutante, eu fui. Assustado, claro, como qualquer menino longe de sua mãe. Mas eu percebi que ele não era tão diferente dela. E isso fez com que eu acostumasse rapidamente, sem deixar de perguntar um só dia “quando a mamãe vai vir?”
Era essa a questão. Ela não viria. Preferiu ficar, ajudar Damon com seus negócios e tentar sair daquela crise no casamento. Nunca entendi por que a minha mãe gostava daquele cretino. Queria eu que ela tivesse vindo para a Inglaterra conosco. Na verdade, não se passou um dia sem que eu desejasse isso. Até porque a consequência de ter ficado nos Estados Unidos foi a pior possível.
Ela sabia. Sabia que era um louco desalmado, e por isso tinha me mandando com meu pai. O preço que ela pagou foi caro demais. Damon perdeu completamente o controle e em uma tarde de domingo, a esfaqueou. Em seguida, por arrependimento – ou por simplesmente ser um maníaco suicida – ele se afogou na banheira da suíte do casal.
Ficamos arrasados assim que soubemos. Eu era novo demais para saber o que é ter ódio no coração, mas isso não significa que, mais velho, eu não tivesse descoberto. Tanto ódio e tanta angústia que eu mal sabia o que fazer, ainda mais por ele estar morto. Eu só vi uma maneira de drenar um pouco daquilo tudo. Quando eu completei treze anos, fiz um pedido diferente ao meu pai. Mas, ele não me questionou. Então, mudei meu nome. Não era mais um falso Feinberg, e sim um puro e digno Matlock. Meu nome; minha marca; meu orgulho e também a minha maldição. Que eu nunca, nem mesmo por um segundo, deixei de usar.
Meu pai despertou em mim um interesse em sua profissão. Quando notou que eu poderia ser o substituto quando ele não pudesse mais comandar o “Laboratório Matlock”, imediatamente começou a me preparar. O projeto bem sucedido dele era referência no mundo todo, e o único lugar onde as pesquisas mais complexas sempre tinham um final feliz. Tinham equipes de todas as áreas naquele lugar, e eu sabia que até o faxineiro devia viver com conforto. Todos trabalhavam demais, e não paravam enquanto não conseguissem chegar onde queriam. No Laboratório dele, só estavam os melhores; e ele era o chefe. Fez questão de que eu ficasse fluente em pelo menos quatro línguas; que eu tivesse as melhores escolas e os melhores professores, para que um dia, eu pudesse assumir a responsabilidade de ser o dono do lugar, ainda novo. Ele acreditava que nenhuma outra pessoa poderia ser autoridade lá dentro, a não ser que o sangue da família corresse nas veias do cidadão. Eu era o seu único herdeiro, e ele não tinha irmãos. Ele viu em mim um futuro para o seu sonho. Por isso eu aprendi a lidar com a responsabilidade bem cedo.
E toda aquela obsessão por me deixar pronto, no início, parecia apenas a de um pai que realmente queria que o filho continuasse com seu sonho. E foi nisso que ele me fez acreditar, durante muito tempo. Mas, assim como Catherine, Anthony sabia que uma coisa ruim ia acontecer. Ele faleceu no outono de três anos atrás, vítima de um infarto. Não foi fácil me recuperar, e ter que entender que eu estava sozinho no mundo. Meus pais falecidos, sem irmãos, sem ninguém. Apenas alguns poucos amigos de verdade.
Mas, infelizmente, o mundo não para para que você conserte uma ferida. Ou você lida com a dor e segue em frente, ou fica para trás. Não adianta chorar, ninguém nunca volta, ninguém nunca ouve. Mas, você pode levantar a cabeça. Pode voltar a sorrir. Tendo sempre a certeza de que, mesmo que não estejam mais com você, eles sempre estarão te protegendo.
E sob a proteção de meus pais, eu me virei. Não me importava com minha idade abaixo da média, e nem com a pressão que todos faziam em cima de mim. “O filho do Matlock não vai conseguir, é só um garoto”. Ou então “Se ele for esperto, ele vende o Laboratório, antes que o arruíne.” Ninguém acreditava, e todos esperavam pelo meu fracasso. Mas, eu peguei todos de surpresa. O mundo perdeu um grande pesquisador, mas outro surgiu de suas cinzas. Em meses, eu me tornei bom o suficiente para que todos aqueles cometários fossem engolidos. Extremamente competente, e acima de qualquer coisa, profissional. Um Matlock por outro. Consegui a enorme responsabilidade de substituir meu pai com sucesso. Aliás, fiz ainda mais. Com as finanças e os lucros da primeira unidade, investimentos foram feitos. Logo, em minhas mãos, a empresa cresceu e se tornou uma rede de laboratórios. O Matlock's expandido, bem como nos devaneios mais ousados de Anthony. Nos dias atuais, talvez eu esteja no topo. Prêmios atrás de prêmios, entrevistas atrás de entrevistas, ensaios fotográficos atrás de ensaios fotográficos – eu podia me considerar um homem notável, – e uma vida de extremo conforto. Eu não pediria nada mais.
Resumidamente, essas são as raízes de um sucesso iminente. Mas, o tempo me ensinara a não olhar para trás. Apenas o que interessa é seguir o presente. E é apenas nisso que o foco se mantem, de agora em diante.
Lá estava eu, no Laboratório Matlock; que mais uma vez estava servindo de palco para uma premiação importante. Talvez, até demais. Depois de seis anos de pesquisas de Anthony Matlock, finalmente seu filho conseguiu terminar um de seus mais exaustivos trabalhos. Fibrodisplasia Ossificante Progressiva – mais conhecida como FOP – é uma doença extremamente rara, que afeta apenas uma em cada dois milhões de pessoas. Os portadores têm o interior dos músculos, tendões e ligamentos transformados em ossos espontaneamente e muitas vezes, paralisando-os. Essa doença não apenas despertava o interesse do meu pai por produzir ossos, e sim por formar um “novo” esqueleto. Ele sabia que, se pudesse controlar a produção, além de ajudar os portadores, também ajudaria muitas outras pessoas — como sempre, nas veias de um Matlock, fervia o gosto pela grandeza. E foi nesse ponto que seu filho atingira o sucesso. Sim, o trabalho árduo da equipe obteve o resultado positivo que tanto esperávamos. E o destino de milhares de pessoas, mais uma vez, estava em nossos estudos.
Os flashes pipocavam vorazmente e por um momento eu achei que fosse ficar cego. A imprensa britânica não ficava dois segundos longe de mim. Tudo que eles esperavam era um erro meu. Me perseguiam pelo fato de que eu não ligava para o que as pessoas pensavam ao meu respeito, e por isso, os que não me amavam simplesmente me odiavam. Mas, o máximo que eles podiam falar de mim era que eu saía com muitas mulheres, e isso não era segredo para ninguém. Afinal, no meu trabalho, que era o que realmente importava, eu era à prova de falhas.
Então, minha hora finalmente chegou. Chamaram por meu nome, para que eu recebesse mais um prêmio importante em meu próprio laboratório. Eu estava inquieto, e feliz, como se aquela fosse minha primeira vez em cima de um palco. Eu tinha que parecer modesto, embora não fosse... Por isso, pensei nas melhores palavras que eu poderia usar.
Eu subi no altar, e encarei o pequeno microfone preto, grudado na mesa. Respirei fundo, abri um belo e largo sorriso simpático, e comecei a falar.
– Devo dizer que esse trabalho não é apenas meu. Agradeço também em nome de meu pai, Anthony Sciarrotta Matlock, o fundador do Laboratório Matlock, que nunca desistiu de um de seus projetos mais importantes, e que motivou a finalizar. Espero que possa ajudar muitas pessoas com essa nova descoberta e que vidas sejam salvas... E é claro, agradecer também a impecável Equipe Matlock, que mais uma vez nos surpreendeu...
Sem que eu percebesse, deixei minha frase morrer. E eu nunca tinha feito isso na minha vida. Não me assustei no entanto, pois não percebi o que tinha acontecido. A única coisa que chamou a minha atenção era um par de íris azuis penetrantes e misteriosas, encontradas bem no meio da multidão. Um olhar intenso, sedutor, e ao mesmo tempo, sério e irredutível. Algo tão intimidador e ridiculamente perfeito que foi capaz de me fazer empacar no meio do meu discurso de agradecimento.
Eu não sabia quem era ela. Mas sua íris estava petrificada em mim; gélida. Estava de pé e tinha por volta de um metro e setenta e cinco. Os cabelos tinham um tom forte de castanho escuro, que fazia com que parecessem negros. Eram lisos, finos e meio repicado nas pontas, um pouco depois da metade de suas costas. Os olhos azuis tinham total destaque em seu rosto, por sua pele ser branca. As suas feições eram marcantes, e as sobrancelhas angulosas e arqueadas altas davam um tom enlouquecedor ao seu olhar. Os lábios grossos, corados e definidos logo me chamaram atenção, enquanto escondiam seu sorriso. As pernas torneadas, a cintura fina, os seios fartos... Ela era tão perfeita que eu me recusei a acreditar que fosse real. Mas era. Usava um vestido preto bem colado ao corpo com um lindo decote que por pouco não me fez enlouquecer. Em seu braço direito, passava a alça de uma bolsa negra que estampava de modo vistoso a glória de uma legítima Louis Vuitton. Um Scarpin plataforma de couro com sola vermelha que me parecia ser um Louboutin cintilava em seus pés – sim, eu tinha conhecimento de todo esse universo feminino; afinal, o que mais se esperaria de um canalha atento e sagaz como eu? Seu gosto por marcas de alto padrão era bem evidente. Não me surpreendia o fato de não se agradar com mediocridades – e isso sim vinha a ser mais um ponto para um Matlock. Novamente, cacei seus lábios repletos de batom rubro com meus olhos famintos. Eu sabia que não podia ficar abobalhado por muito mais de dois ou três segundos, mas a possibilidade de me manter lúcido não chegou ao menos perto de minha consciência.
E foi quando, sem muito interesse, ela notou meu olhar. Continuou a me encarar por um breve período de tempo, bufou com negação, abaixou as sobrancelhas e deu as costas, explicitamente desinteressada. Em poucos segundos, se misturou no meio da multidão e eu a perdi de vista. Meu instinto me obrigou a largar tudo naquele momento, só para ir atrás dela e fazer todas as perguntas que dançavam em minha mente. Quem ela era? Em que trabalhava? Onde esteve por todos aqueles anos?.. Só esperava não estar demonstrando todo o meu desejo incontrolável de olhar aqueles olhos azuis de perto. Era a primeira mulher em tempos que me deixara boquiaberto.
– Ahn... sr. Matlock?
Abruptamente, meus olhos desatentos encontraram Will McCurty – o americano encarregado oficialmente de cobrir todas as minhas mancadas. Um sorriso sem jeito surgiu em meus lábios.
– Me desculpem por minha irreverência, só estava pensando no quanto ficaria bonito uma estátua de mim mesmo no jardim da minha casa.
Uma onda de risada única se espalhou pela multidão com minha saída de mestre. O maior presente que um ser humano poderia ter era o carisma.
Um sorriso satisfeito brincou em meus lábios.
Minutos depois, eu terminei o discurso. Aplaudido calorosamente, nem mesmo a onda de admiradores presentes parecia me interessar; era bem óbvio onde a minha atenção estava concentrada. Aquela imagem congelou na minha mente de um modo que fazia aparentar que toda e qualquer lembrança anterior havia sido completamente apagada. De repente, tudo que precisava era vê-la mais uma vez. E aquele pensamento ávido se estendeu até me fazer descer do do altar, e fitar canto por canto, rosto por rosto, à procura dela.
Mas para a minha infelicidade, ela havia sumido.
Furando a multidão de repórteres em meu laboratório, eu não desistir de tentar encontrá-la. Sem perder a classe e a compostura, cumprimentava com simpatia cada um dos presentes que vinha até mim, e quando os representantes de revistas e programas ganhavam um sorriso verdadeiramente cordial, eu notava que meu gesto os confundia; afinal, todos achavam que eu era um babaca o tempo inteiro. Mas mesmo sendo feito minunciosamente, aquele esforço todo de nada adiantou. Talvez, já tivesse eu tivesse tempo para procurá-la, eu percebi que alguém havia me encontrado.
– Hey Dave! – Anunciou uma voz familiar alegremente.
Então, eu deixei com que aquilo tomasse finalmente meu foco. Foi quando meus olhos cinzas bateram em uma figura de baixa estatura e desengonçada. Corpulento, ele tomava todo cuidado que podia para não esbarrar nas pessoas dentro do laboratório. Os cabelos eram de um tom forte de chocolate, curtos e arrumados; os olhos castanhos bem escuros e aconchegantes, calorosos. Ele também sustentava um sorriso poderoso na mandíbula larga, coberta por uma barba parcialmente feita. Trajava um Smoking de grife, e tinha um crachá informando sua identidade pulando de seu peito. Era um representante vistoso da Equipe de Pesquisadores Matlock. Aquele homem se chamava Harry Phillips, e ele fazia muito bem o cargo particular do qual era empregado. Ele era o único que trabalhava dentro do ramo de relações públicas. Era o meu marqueteiro e agente pessoal.
– Hey Harry! Eu fui modesto o suficiente dessa vez? – Lancei a ele o meu melhor sorriso, cedendo-lhe um tapa confiante nas costas. Harry bufou.
– Como se isso fosse possível...
Bens materiais não foram as únicas coisas que Anthony deixara de herança para mim. Harry trabalhava para ele, antes de morrer. Eu conseguia entender por que meu pai o valorizava tanto, e dizia que um dia eu precisaria daquela figura instável e insegura, muitas das vezes. Harry poderia ser considerado o responsável por tudo que eu sustentava fora do laboratório. A mídia estava sempre comigo por conta de campanhas, comerciais, e até mesmo bicos como ator que já haviam sido oferecidos a mim. O Marketing e a competência de Harry Phillips trazia a mim a fama inegável que eu sustentava dentro do Reino Unido, e talvez mundo à fora. Ele sempre me dera o apoio necessário pelo lado pessoal, e quanto aos investimentos, sempre assumira tudo e organizava cada evento. Por vezes, achei que Harry fosse sobre humano. O talento que mostrava ter era algo surreal. Logo, prestava serviço a uma das redes mais poderosas da atualidade e, consequentemente, talvez fosse o mais bem pago do ramo. Eu tinha orgulho dele e ficava imensamente feliz por trabalhar para mim. Além de tudo, éramos grandes amigos, e sempre frequentávamos festas e as tão famosas boates londrinas. Ele era como o irmão que eu não tive.
– Escute... Eu tenho uma notícia para você. — disse ele com um sorriso malandro no rosto que sempre me agradava de alguma forma.
– Pela sua cara, acho que é alguma coisa boa...
– Você me conhece bem, Dave. Hoje cedo, um rapaz chamado Sebastian Waldore, do Laboratório de Oslo, me ligou. Ele mencionou algo sobre uma pesquisa complexa sobre regeneração de membros perdidos, tendo répteis como base. É um projeto que visa a extensão do seu trabalho com ossos.
– Hm... Isso é cativante. — Demonstrei interesse, apontando-o com o indicador.
– É, de fato. Como eles têm uma base leve com a sua pesquisa, é de extrema necessidade que compareça. E pelo que fui informado, também vão bancar a estadia de mais um representante pouco menos experiente. Aproveitariam a sua presença para conceder uma espécie de estágio. Os números mostram que você é o melhor, afinal. Talvez só Anthony te superasse. Fibrodi... Fibro... Fibra... Frido...
– Fibrodisplasia Ossificante Progressiva, Harry. — Interrompendo, corrigindo-o com humor. — Acho o projeto maravilhoso, mas eles não podem simplesmente requisitar a minha presença veemente do dia para a noite. Quando o avião para a Noruega parte?
– Parte na sexta-feira, às duas horas. Você tem três dias para desmarcar seus compromissos. É um homem de responsabilidades muito grandes, Dave. É necessário que entenda seu papel na atualidade. Eles precisam de você.
– Não questiono a causa, Harry. Apenas acho pouco prudente esse tipo de solicitação repentina. — Minhas sobrancelhas baixaram, ainda com estranhamento. — Tenho consciência do cargo que ocupo. É apenas uma pena que eu não possa sair com a Taylor no final de semana como havia prometido, mas não vou perder nada demais. Figurinha repetida não completa álbum, se é que me entende. — Harry riu alto. — Mas, e quanto a você? O que vai desmarcar para ir a Oslo comigo?
– Eu? — Perguntou ele, pego no contrapé. — Eu não vou a lugar algum, Dave. Eu sou apenas seu marqueteiro; eles não vão bancar outra estadia além da sua e do pesquisador que te acompanhar. Nem todos os laboratórios têm a renda do Matlock's. Afinal, você tem uma rede, e não apenas uma unidade. De qualquer modo, eu não poderia te ir, pois eu tenho que organizar os horários dos eventos beneficentes que você vai comparecer como anfitrião. Temos pelo menos três festas pela frente; não posso me dar ao luxo.
– Eu sou um dos homens mais influentes do planeta e ainda consigo ter mais tempo do que você. — Zombei, sorrindo. — Quem vai comigo então? Já sabe o nome dele?
– Sei que o sobrenome é Williams. Trabalha para uma universidade; não me pergunte qual. Está entrando no ramo agora e está voltado para a área da biomedicina.
– “Williams” é muito extenso. Preciso de algo pouco mais específico.
– O nome do meio era Hapsburg, se não me engano. Não é uma linhagem que eu tenha origem na Grã Betanha. Talvez tenha descendência de outros lugares.
Um sorriso conformado de canto de boca brincou em meus lábios ao ser obrigado a lidar com a escassez de informações relativas a meu misterioso acompanhante de viagem.
– Por que não mandam algum emergente do próprio Matlock's?
– Dave, você me ouviu? — Perguntou ele, se exaltando ligeiramente. — O Matlock's tem o monopólio do mercado. Eles querem dar chances a outras pessoas de outros lugares. Você tem alguma ideia do pavor dos pesquisadores de universidades por conta de sermos uma rede particular? Somos um caso em um milhão. Ninguém precisa nos incentivar a crescer ainda mais.
– Eu sou cético. Não confio em gente que não trabalha para mim. Aliás, ainda me colocam com um homem para viajar e ficar fora por uma ou duas semanas; poderiam, pelo menos, ter colocado uma garota bem interessante. — Harry bufou. — Quando eu vou descobrir quem é o tal dito cujo?
– Dave... Williams não é o primeiro nome. Eu acho que...
– Com licença...
Atraído pela voz feminina não identificada, meus olhos escapuliram de Harry para a figura que se posicionara pouco atrás de mim. E, quando o contato visual foi correspondido, por um breve momento, tudo pareceu ficar congelado dentro de mim.
Era ela. Seus olhos azuis ainda tinham um ar de desprezo quando encontravam os meus. De algum modo, aquela mulher conseguia transmitir toda sua força interior sem precisar fazer nada além de encarar. Era intimidador, mas ainda assim agoniante por não me permitir ver algo além do que ela era por fora. Sua beleza era simplesmente algo que não parecia ser digno que qualquer humana mortal. Novamente, me vi perguntando a mim mesmo como uma mulher podia ser tão incrivelmente bela. Era inacreditável.
– Você é Harry Phillips, não é? — A tal mulher o colocou como foco, cedendo a ele um belo sorriso caloroso. — Oi, eu sou Hillary Williams. Acho que nós dois fomos chamados por Sebastian Waldore...
Eu não tive palavras para descrever todos os meus órgãos explodindo e meu corpo entrando em combustão. Minha boca apenas não foi ao chão porque eu sabia ser discreto quando necessário. Era aquela “Williams” que ia viajar sozinha comigo?
Eu tive a impressão de poder soltar fogos de artifício espontaneamente.
– Ah, claro. — Meu agente cuspiu as palavras, como se estivesse presas em sua garganta. Harry também estava enlouquecendo. — Na verdade, eu só represento o pesquisador... Fui informado com muita clareza quanto às condições de hospedagem e gastos; é uma viagem para dois. Infelizmente não farei companhia a vocês.
– Ah sim, entendo... Mas, então, quem vai? — Perguntou ela, suavemente confusa.
– Com licença... — Chamei sua atenção, me posicionando no vão entre os dois e encarando-a diretamente nos olhos. — Eu sou David... Matlock! — Afirmei como se tivesse esquecido meu próprio sobrenome (e talvez eu tenha). — Acho que eu vou fazer companhia a você, na Noruega. Sou o pesquisador chefe da rede de laboratórios.
Hillary não pareceu ao menos animada com minha aparição. Foi imparcial até seu último fio de cabelo.
– Eu sei quem você é, Dr. Matlock. Afinal, acaba de ganhar um prêmio, dentro de uma das propriedades de sua rede, e eu presenciei. — O tom ríspido tinha uma ponta cortante de ironia. Engoli em seco.
O que me estimulou no primeiro momento foi tamanha indiferença em relação a minha presença. A tal Williams não parecia ligar por estar falando comigo. Toda a imprensa inglesa caía no tapa por minhas entrevistas e aquela garota ainda mostrava a mim um tom inadmissível de deboche e arrogância. Mas aquilo só incitava um desafio maior ainda.
– Sem querer parecer intrometido, mas você parece incomodada, senhorita. Com o que não está satisfeita? — Perguntei, franzido as sobrancelhas inocentemente.
– Na verdade, eu esperava uma companhia menos arrogante e convencida, Dr. Matlock.
Torci o canto dos lábios, ainda desacreditado no que estava presenciando.
– Não devia acreditar em tudo que escuta. Posso não ser exatamente um exemplo de pessoa, mas também tenho meu lado bom.
– É bom saber disso, pois tudo que mostrou até agora é o seu lado ruim.
Foi quando uma ideia me atingiu em cheio.
– Bem, eu posso provar. — Sorri, galante. — Podemos sair hoje à noite, para comer alguma coisa. Pode escolher o restaurante se quiser.
Ela gargalhou sarcástica. Algo me dizia que aquilo não era um bom sinal.
– Por que diabos acha que eu quero sair com você?
Alguma coisa ruim estava prestes a acontecer – talvez até acontecendo. Um sorriso incrédulo surgiu no meu rosto, mesmo que essa não fosse a minha intenção. Por alguns momentos, fiquei perguntando a mim mesmo como ela tinha coragem de rejeitar um convite meu. Metade da cidade sairia comigo, e ela não queria. Pelo amor de Deus, não se pode rejeitar David Matlock!
– Só quero provar a você que eu tenho um lado bom.
– Bela tentativa, mas não deu certo. Você não precisa provar nada a ninguém. Aliás, eu já tenho um compromisso inadiável para a noite de hoje.
– Bem... Posso acompanhar você, se quiser. — Tentei mais uma vez. Falar coisas desse tipo era quase automático. Eu falava tanto que nem percebia direito o que eu dizia.
– Acho que não vai ser necessário. Meu namorado vai me acompanhar.
Não que um namorado fosse um grande problema para mim. Eles nunca me foram um empecilho para conquistar uma mulher que fosse alvo de meu interesse particular.
– Hillary? — Um voz diferente a chamou então. Mas, nós dois desviamos nossos olhares.
No meio da multidão, nós encontramos o dono da voz. Ele não tinha exatamente o tipo padrão de beleza. Era enorme de forte, e com certeza tinha mais de dois metros. Os ombros eram largos, os braços gigantescos, e o terno que vestia chegava a ficar pequeno nele. Olhos castanho bem escuro, sólidos, em um tom envelhecido. O cabelo cortado bem próximo a cabeça, e raspado nas laterais. Sobrancelhas grossas, barba por fazer. Rosto seco, deixando a curva das maças bem destacadas. A boca fina, sem contorno algum, e os lábios rachados. Ao notar o olhar confiante que se cruzou com o da morena magistral em minha frente, mais uma vez tive que suportar uma mini parada cardíaca. Aquele singelo gorila albino não era o acompanhante de uma deusa daquele porte, era?
– Hey Johnny! — Ela cumprimentou com alegria. — Ah, esse é o David... E David, esse é John Orsino, meu namorado. — O grandalhão sorriu para mim então, sem muito interesse.
A única coisa que consegui pensar foi um belo palavrão. Eu não podia acreditar naquilo. Como ela podia estar me rejeitando por causa daquele monstro? O que ela estava pensando namorando um cara que mais parecia um armário? Ah, mulheres... Vai entender o que se passa na cabeça delas.
– Escute Hillary... Acho melhor nós irmos. Eu ainda tenho que falar com o treinador, antes de sairmos. — Disse ele para a namorada. Até mesmo as cordas vocais pareciam marombadas por conta do tom rouco assustador.
– Treinador? — Perguntei, me mantendo no auge da simpatia. — Joga alguma coisa, John?
– Não exatamente. Eu luto.
– Johnny é bi campeão mundial de MMA, doutor. É um exímio atleta. — Sorriu ela, ainda mais arrogante, se escondendo na sombra de seu namorado monstruoso. Meus olhos se cerraram com desaprovação.
– Ah, entendo.
– Então David... Estamos indo. Tenha uma boita noite. — Cuspiu a vitoriosa Hillary, enquanto Johnny passava o braço por volta de seu pescoço.
– Igualmente. — Sorri, não me submetendo a derrota.
Rapidamente, os dois se misturaram à multidão e sumiram. E eu não queria demorar muito para ir embora também. Só me despedi do pessoal da minha equipe, e na primeira oportunidade que tive, sumi dali.
Tentando não chamar muita atenção, eu segui até o estacionamento do laboratório. A perfeição sobre rodas pertencia a mim. Se destacava entre os outros; a pintura prateada e o polimento perfeito refletiam as luzes com tanta intensidade que mais parecia que o Porsche Carrera GT emitia luz própria. Irradiava, cintilante. E toda a vez que eu encarava cada curva daquele carro, um sorriso arrogante surgia em meu rosto. Provavelmente havíamos sido feitos uma para o outro. Foi amor à primeira vista.
E eu jamais poderia explicar a sensação de poder que eu sentia quando o alarme destrancava as portas, mostrando mais ainda que pertencia a mim.
Talvez um tanto ansioso para chegar em casa, eu me joguei no carro. Arranquei a gravata borboleta do meu smoking, baguncei meu cabelo loiro; sempre o arrepiando para a frente e o deixando cair para os lados, como eu gostava, e liguei o som, entusiasmado. Esperando meu bom e velho Thrash Metal, franzi a sobrancelha quando a voz da Taylor Momsen em seu belo cover de “Wonderwall” me invadiu sem aviso prévio – juntamente com a imagem sempre muito... apreciada por mim daquela jovem. Mas, aquele não era o momento. Eu precisava de algo muito mais pesado. Então, enquanto ajeitava o espelho retrovisor, eu apalpei o banco do carona, procurando pelo controle do meu rádio... Mas, tudo que eu encontrei foi um estranho pedaço de pano. Curioso, e sem entender o que aquilo estava fazendo ali, eu virei o rosto para ver do que se tratava... E em meio segundo, eu comecei a rir. Era um sutiã abandonado. Que graça.
Eu abri a janela, e joguei o sutiã para fora do carro (até porque eu nem sabia mais a quem ele pertencia). E, debaixo dele, finalmente encontrei o controle do meu rádio, ao lado de uma foto que me trouxe algumas lembranças interessantes. Um belo casal loiro se beijando, em frente ao Coliseu, em Roma. O nome dela era Nikole Mitchell, mas eu só a chamava de Nikki. Namoramos por seis meses vivendo como o casal mais feliz do mundo, até que um dia nós terminamos. Mas daquela vez, a culpa não foi minha. Nikki disse que ia viajar, e voltava em sete dias. Ela voltou em quatro, e entrou na minha casa em uma hora que não me favorecia muito... Afinal, eu não estava completamente sozinho. Estava dormindo feito um bebê, agarrado em uma repórter irlandesa chamada Anita Grifin. Se ela voltasse em sete dias como disse que faria, aquilo não teria acontecido.
… Por que diabos eu ainda tentava convencer a mim mesmo de que a culpa não era minha?
Depois disso, eu tirei o carro da garagem e simplesmente sumi do Laboratório; como se fosse fumaça. Eu sabia que a minha casa era o único lugar onde eu poderia ter sossego; e mesmo assim não era muito. O telefone não parava de tocar, e as ligações variavam entre trabalho e mulheres. As vezes eu achava que eu precisava trocar de número a cada dois meses.
Alguns minutos depois, eu estava na minha humilde residência. Era uma casa de três andares e seis suítes (sendo que o primeiro andar era uma garagem com espaço para cinco carros) em um dos bairros mais caros da cidade. A frente da casa tinha uma escada, que subia um andar e levava à porta da frente, já que embaixo disso só havia minha garagem. Tecnicamente, a casa começava no segundo andar; e no terceiro, apenas os enormes e confortáveis quartos... Não era nada mal. Nada mal mesmo.
Logo, o Porsche já estava em seu devido lugar... Então, eu saí do carro, subi as escadas da garagem, e abri a porta que dava na minha sala. Joguei as chaves na mesa, e pulei no meu sofá de couro macio e gelado. Peguei o controle do som, e o liguei. No último volume, e sem me importar nem um pouco com os vizinhos, eu relaxava enquanto escutava minha música favorita, de minha banda favorita: Three Days Grace – eu era adepto ao bom rock como qualquer ser humano que se preze. Mas, ao mesmo tempo, os pensamentos sobre a tal Hillary iam e vinham... Em uma teia complexa sobre seu fenótipo diferenciado e a inevitável questão que colocava em evidência meu futuro encontro com ela – que eu prontamente a convenceria de comparecer.
O que me animou naquele momento foi pensar que em apenas três dias, nós estaríamos frente a frente mais uma vez. Pensar que, por maior que fosse o desprezo que me direcionasse, no final das contas perceberia que agir com tamanha hostilidade para mim era apenas a mais absurda das perdas de tempo. Eu tinha tudo para conseguir. E, eu não mediria esforços para ir até o fim.
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