Fallacy - Pride
19 Dizer Não Pode Ser Mais Difícil do que Parece
– Péssima hora, loira. Eu estou exausto e indo dormir nesse exato momento. Com um leve impulso, eu realmente tentei me levantar do sofá. Mas, Claire sempre rápida e eficiente se colocou em minha frente em um piscar de olhos e apoiou o dedo indicador em meu peito, me empurrando até que eu perdesse o equilíbrio e caísse sentado mais uma vez. – Não achei que você fosse do tipo “garotinha que foge de discussão”, loiro. — disse Claire enfaticamente, repleta de ironia. Eu bufei.– E eu realmente não achava que se fizesse de desentendida. Mas, com tantas qualidades em uma pessoa só, uma a mais ou a menos não faz diferença, não é? — Minha ironia soou hostil. Mas, Claire nem mesmo se incomodou.
– Disse a perfeição encarnada. — Ela caçoou. — Então, Adônis, já ouviu falar em hipocrisia? Bufei, revirando os olhos. Oficialmente, a rainha do sarcasmo era ela. Eu não podia competir com Vossa Majestade. – Você não está me mantendo aqui para me chamar de hipócrita. Mas, honestamente, eu não acho que devo explicações a você. — Hostil, mais uma vez. Ela cruzou os braços, trincando os dentes.– Pode por favor parar de ser infantil? Você arriscou nossas vidas, você mentiu para mim, e só está agindo que nem um estúpido porque você sabe que está errado, mas é orgulhoso demais para admitir! Agora, quem está se fazendo de desentendido, Matlock? Meu dedo indicador deslizou de minhas têmporas até meus lábios, deixando claro que eu estava impaciente. Isso porém, não invalidava o argumento de Claire. E pior ainda: não fazia com que ele estivesse errado. – Eu não menti. Eu só disse meia verdade. Claire riu com sarcasmo. – Você não podia ter escondido isso, Dave. Poderíamos ter morrido hoje.– Realmente Claire. Mas não se preocupe, essa informação logo será adicionada no meu cartão pessoal. — Sorri, debochante. Ela bufou. – Eu não disse que você tem que espalhar para meio mundo. Eu só acho que você deveria ter me contado. – Entenda uma coisa, Mackenzie. Eu não confio em ninguém. — Pronunciei a frase pausadamente, dando ênfase. — Muito menos no primeiro momento. E não há uma razão para ter sido diferente com você.– Esse não é mais o primeiro momento. Você confia em mim agora? De repente, o olhar intenso dela encontrou o meu. Por um segundo, as palavras fugiram de mim. Respirei fundo. – A única coisa que tenho certeza sobre você é que odeia a mulher que eu mais confio nesse planeta. Se você acha que ainda há um modo de acreditar em você, fica a seu critério. Claire arregalou os olhos, completamente surpreendida por minhas palavras. Mas, o modo com que ela tremeu o canto dos lábios logo denunciou que o meu comentário não poderia ter sido mais arrogante, insensível ridiculamente estúpido.– Odiar aquela vagabunda não significa que eu queira seu mal, Dave. Aliás, para ser sincera, achei que fôssemos mais do que isso. Você fala como se fosse... — a expressão dela mudou – e-eu não sei, talvez uma vadia qualquer que só quer bagunçar a sua maldita vida. – Uma perfeita rainha do drama... — Debochei, sorrindo. — Você sabe que eu me importo, Claire. Não distorça minha frase. Sabe o que eu quis dizer. – Não, eu não sei. — Ela entonou com força. — Eu sou uma completa idiota. Você acha que pode tratar qualquer uma como um capacho só porque anda fazendo as vontades da senhorita Eu-Sou-Boa-Demais-Para-O-Mundo. Você não passa de um esnobe filho da puta. Eu não tenho que tentar ficar ajudando você. Claire se virou, provavelmente com a intenção de me largar sozinho, sem uma resposta à sua altura. Porque, no fundo, ela estava certa. Eu estava agindo feito um garoto estúpido do ensino médio, mesmo que não fosse meu natural. Mas, a questão não era eu ser melhor do que estava sendo – e eu realmente podia ser. E sim que aquela garota merecia o melhor de mim. Porque, era exatamente isso que ela estava me dando, e eu não conseguia enxergar. Claro, porque eu não passava de um esnobe filho da puta que achava que toda mulher no mundo tinha que se arrastar aos meus pés e ser pisada. E foi exatamente por esse motivo que eu me levantei extremamente rápido e segurei seu braço antes que fosse tarde demais. – Espere... Você está certa. Eu sinto muito, Claire. Ela respirou fundo, e só depois virou para mim, ainda calada. – Eu não quero que ache que eu penso isso de você. Porque, a verdade atrás de tudo isso é que eu realmente me importo e confio em você. Mas, Claire, você me assusta. Pela primeira vez, eu estou tentando ir contra o que é natural para mim por estar amando uma mulher. E de repente, como um relâmpago, você aparece e por um instante sua luz me cega. No fundo, eu sei que as nuvens e a chuva uma hora vão passar e o relâmpago vai sumir. Querendo ou não Claire, a luz do Sol ainda brilha com mais intensidade. Mas isso não significa que eu não goste de tempestades. Um sorriso leve brincou em seus lábios. – Você devia ter me contado, Dave. Devia mesmo.
– Ainda não invetaram a máquina do tempo, pelo menos até onde tenho conhecimento. — Sorri. — Podemos seguir em frente? Eu realmente não quero ficar mal com você. Claire ergueu suas sobrancelhas. Depois, ela sorriu abertamente.– Então me morda.– Gata, eu sou o lobisomem. Não o vampirinho procurando uma garota idiota o suficiente para cometer necrofilia sem ao mesmo perceber. — Ironizei. – Você sabe que as coisas funcionam do mesma maneira. Vamos, Dave. Compartilhe o poder comigo. Um sorriso malandro surgiu em meu rosto. Eu não conseguia evitar. – Eu mordo. Mas só se for a artéria femoral... Claire riu alto. – Eu daria qualquer coisa para que Hillary escutasse o namorado bancando o engraçadinho. — O sorriso se estreitou. — Mas, três coisas. Primeiramente, não brinque com fogo. Nós dois sabemos o que acontece se eu por acaso decidir participar desse jogo. Segundo, você não é um vampiro, portanto não precisa do sangue da artéria que corre no meio das minhas pernas. E terceiro... Ela se interrompeu. O olhar devasso e sedutor que lançou a mim entretanto, foi o suficiente para que eu soubesse no mesmo minuto o que ia dizer. Como se eu precisasse de uma desculpa como aquela para abrir as pernas dela. Engoli em seco com todos aqueles pensamentos impróprios se apoderando do meu ser puro e inocente. Por que diabos ela tinha que ser tão perfeita?– Ok Claire, eu não vou te morder nem em um milhão de anos. Achei que isso já estivesse claro. – Por que não?! — Ela realmente pareceu surpresa. — Pelo amor de Deus, isso não pode ser tão difícil! – Claire, a questão não é te transformar. Acontece que lobisomens não podem escolher entre ser bonzinhos ou malvados, como você acha. Você nem mesmo consegue piscar por vontade própria nas primeiras noites. Para você ter ideia, eu ia me matar. Mas, na última noite eu consegui tomar o controle.– Se você conseguiu, eu posso lidar com isso também. O fato é que isso vai me proteger, Dave. Humanos são as coisas mais caçadas dessa Ilha. – Claire, você é uma amazona. — Eu retruquei em um tom óbvio. — Você pode se defender melhor do que eu, se bobear. Quantos anos de treinamento tem? Cinco, sete? – Doze. — Ela sorriu. — Mas se uma coisa como você me atacasse, eu não teria a mínima chance. – Isso é sede de poder, Claire. Não se pode ter tudo o que se quer. Entenda. Elas franziu as sobrancelhas loiras. – Eu acho que você vai ter que fazer entender. Revirei os olhos, desconfiado. – Qual a proposta?– Me leve para ver os lobos amanhã. – Nada feito. – Então me morda. – Sem chance. – Eu vou ter que fazer você morder? A aproximação sensual de Claire fez um arrepio passar por mim. A desgraçada sabia como usar o corpo. – A-amanhã... — Gaguejei. Merda. — Mas, eu não vou te transformar. De qualquer modo, eu não sou o único da casa. Você pode pedir a Hillary. Claire riu alto, completamente irônica.– Se eu for pedir para ela me morder, eu acho que ela arranca um pedaço inteiro de vez. — Nós rimos. — Dave, sério, como você aguenta? Ela é uma vadia nojenta. – Deus, por que vocês duas não podem simplesmente se resolver? Eu não mereço uma reclamando da outra no meu ouvido! – Ela é toda esquentadinha e o problema sou eu? — Claire riu. — Hillary é louca e obsessiva! Ela devia estar internada, e não vagando por ai como se fosse completamente normal. – Claire, ela é normal. Mas, se ponha no lugar dela. Você está morando na casa dela, comendo a comida dela, quebrando as regras dela...– … O homem dela está na minha mão... — Ela sorriu sedutoramente. Precisei de alguns segundos para me recuperar. – Eu não estou na sua mão. Bom saber que eu ainda tinha um pouco de coragem. Só não sabia se tinha soado convincente o suficiente. – Jura? — Ela debochou. — Eu posso provar. Respirei fundo e fechei os olhos. – Eu não vou dizer “prove” porque é perigoso demais brincar com você. – Você não precisa dizer nada. Eu não pedi sua permissão. Eu a encarei mais uma vez, e estava brincando com os cachos de seu cabelo loiro radiante. Quando seus olhos encontraram os meus, travessos e tentadores, foi como se a realidade tivesse me atingido em forma de uma pedrada.– Sabe o que eu acho disso tudo? — Perguntei. – Diga. – Que toda essa coisa de brincar comigo é, na verdade, uma obsessão sua. Você não quer apenas a mim. Você quer que Hillary não me tenha. Ela sorriu, inacreditavelmente radiante.– Não acha isso um tanto quanto superficial? – Estou errado? – Eu só sou objetiva, Dave. Se eu quero algo, eu consigo. Não interessa o que está em meu caminho. Eu sorri. Claire e eu nos sentamos no sofá discretamente. – Dessa vez vai ser diferente. Eu tenho sentimentos por ela, Claire. – Mas eu sei que você sente algo por mim também, Dave. — Ela ajeitou a franja de lado. — Uma hora ou outra, isso vai crescer dentro de você. Crescer tanto que você não vai conseguir controlar. – Tolice sua achar que eu vou me deixar levar pelo fato de você ser uma escultura da perfeição viva. Ela riu baixo. – Eu não disse em nenhum momento que isso era o mais importante. Eu sei que você me acha bonita, mas ainda assim, você ama mais ainda o meu jeito. E apesar de tudo, você ainda repara no meu sorriso e em meus olhos. Você é um péssimo canalha. Claire timidamente se aproximou de mim e se recostou em meu peito; deitando praticamente, aninhando sua cabeça em meu ombro. Eu passei meu braço por volta de seu pescoço, e em um instante ela pegou minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus. – Isso tudo é mais um de seus jogos, não é? Ela respirou fundo. – Olhe para nós dois, agora. Somos amigos, e nos importamos um com o outro. Isso não faz parte de jogo nenhum. Aliás, o que estamos sentindo nesse momento um pelo outro é algo que nada no mundo pode pagar. – Às vezes você se torna tão antagônica... Vive tentando me seduzir, e agora diz que não há interesse. – Eu não disse isso. — Ela logo retrucou.– Então o que quer dizer? – Você sabe, Dave. Você me entende perfeitamente. Talvez ela estivesse certa. Eu a entendia, e não conseguia ficar com raiva dela. De algum modo, no fundo, eu sabia o que estava sentido. Ela se importava comigo e queria viver aquilo. Mesmo assim, eu tinha uma parcela da verdade na minha teoria. Era fácil compreendê-la; Claire e eu éramos praticamente um só. E o mais engraçado era que nos mantínhamos próximos, como se ela não me assombrasse. Eu não conseguia mentir para mim mesmo. Aquela garota ia muito além de toda e qualquer expectativa que eu tinha. Ela era única. E, sobre a personalidade dela... Realmente. Conseguia contar mais do que a beleza divina que tinha. – Se eu te fizer uma pergunta, você me responde com sinceridade?– Claro. – O que você quer que aconteça entre nós dois? Ela pareceu pensar por alguns segundos, com o olhar completamente perdido no nada. – O que tiver que acontecer. – Então, você não planeja me tirar de Hillary? – Eu não planejo nada. Vai acontecer espontaneamente, mais cedo ou mais tarde. — Uma leve risada escapou de mim.– E por que diz isso? Claire respirou fundo. – Você só vai ter o melhor quando tiver a mim, Dave. — Claire sussurrou. E no mesmo instante, as seguintes palavras martelaram em minha mente “Isso não seria nada difícil”. Engoli em seco mais uma vez. – Talvez você não seja o melhor para mim, Claire. – Hey Matlock, você não pode enganar alguém mentindo para si mesmo. Existe um sentimento verdadeiro por uma mulher, dentro de você. Você pode achar que é por ela, mas querendo você ou não, pode ser por mim também. E, quando você perceber, Hillary pode ser apenas um equívoco. É impossível que aquela vadia seja a garota da sua vida. Eu ri baixo. – Bem, ela parece ser. Eu nunca senti por ninguém o que eu sinto por ela. E honestamente, não acho que vou sentir por nenhuma outra. – É essa a questão, Dave. Você nunca amou ninguém. Essa pode ser a primeira vez, mas não significa que será a única. – Então, que o tempo nos diga. Eu vou dormir. Amanhã nos vemos. Boa noite.– Boa noite, Dave. Claire se levantou para que eu saísse do sofá. Antes de seguir, eu me virei e ela me presenteou com um sorriso leve. Os passos suaves e inaudíveis na madeira que costumava ranger foram a prova mais evidente do meu bagunçado estado mental. Quando deitei na cama, Hillary dormia divinamente, virada de lado e agarrada a um travesseiro. Eu a abracei por trás, se enfiei meu braço no vão entre o dela e sua barriga, puxando seu corpo contra o meu. Beijei sua nuca quente e me derreti quando sua pele macia tocou meus lábios. Só então, eu fechei os olhos.
Foi uma questão de minutos até eu esquecer do que Claire acabara de falar. Eu tinha tudo que eu precisava em meus braços, e nada nem ninguém poderia mudar aquilo. Era Hillary. Era ela que estaria na cama comigo dali a sessenta anos, com o mesmo sorriso perfeito e os olhos azuis mais brilhantes do universo. Ela era a mulher para mim. Eu não queria outra.
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