Fallacy - Pride

20 Alma Comprometida


De repente, o silêncio te conduz a um estado de espírito tão imprevisto que por um segundo, você abre os olhos assustado para ter certeza de que seus pés continuam no chão. Quando apenas o poder da sua mente age sobre seu corpo, você se torna não influenciável e por um breve momento, indestrutível. Às vezes, apenas o mais puro e perfeito silêncio pode levar um ser humano a tal grau de reflexão. E naquela manhã gelada, eu me tornei refém de meus próprios pensamentos.
Um leão pela primeira vez encurralado por gazelas. Surpreso; desorientado e cético ao quanto a probabilidade de tal coisa acontecer. De repente, a fera imponente se torna nada mais do que um indefeso filhote de gato. O rugido voraz e impiedoso se transforma para não mais que um simples eco na caverna escura que é obrigado a se abrigar. Pois, ele não é mais o rei da selva. É apenas mais um felino desarmado sem suas garras e suas dentes, covarde por não conseguir encarar três belas gazelas. A presa toma conta do predador; fazendo-o se sentir um vazio grande em seu peito, onde o orgulho de ser poderoso costumava reinar, mas até mesmo isso ele parecia ter perdido. Pobre leão. De dono do mundo passou a um nada. E isso tudo por causa de três gazelas, que ele costumava caçar.
Três malditas gazelas.
Encolhido em seu trono escuro e lúgubre, o rei abdicado daria a própria alma para recuperar tudo que as esguias e sagazes gazelas dele tiraram. Até que, com uma delas ele faz um acordo. Ela pede a seu coração impuro, tantas vezes injusto e infiel, que muitas vezes caminhou irreverente beirando o limite entre a maldade e a crueldade. O leão se recusa, ainda com o pouco de dignidade que ainda o resta. Seu coração nunca fora de ninguém e jamais seria. Mas, o que ele não sabia é que ela o tomaria mais cedo ou mais tarde, com um simples olhar misterioso de sua íris azul clara. O leão percebe que as duas outras gazelas somem em um piscar de olhos. De repente, ele retorna a ser o que era. Majestoso e esbanjando esplendor, ele sai da caverna. A tal gazela ele passa a olhar com outros olhos. Não é mais sua caça. Mas, uma semelhança continuava: sem ela, ele não poderia viver. Na verdade, o leão se viu surpreso quando entendeu que sem ela, ele não queria viver. A gazela se transformou em uma leoa.
Mas, as outras duas continuaram a ser o que eram. Simples gazelas.
Um sorriso tímido brincou em meus lábios.
Desde o começo da humanidade, pessoas buscam pelo amor verdadeiro. Pelo menos, pessoas normais. Eu nunca me encaixei nesse grupo. Na verdade, o ato de amar alguém sempre seria suspeito de minha parte. Como o leão da minha metáfora reflexiva, eu nunca vi necessidade nesse sentimento tão procurado. Honestamente, alguns sempre me criticarão por ser assim. Eu nunca conseguiria demonstrar amor da maneira que as pessoas chamam de “certa”. Mas isso realmente não significava que eu não pudesse demonstrar do meu jeito.
E, a minha metáfora era exatamente o que eu estava procurando. Ela era exatamente o que eu estava sentindo naquele momento. E, por mais que isso soe rude, talvez a verdade incondicional atrás de tudo o que estava acontecendo era que eu amava Hillary demais. Era a única explicação no universo para eu conseguir me manter longe de Claire. E de todas as outras.
… Talvez isso inclua Lyra.
Ok, talvez não. Óbvio que inclui.
Quando uma mulher de repente se torna o melhor pedaço do seu coração – honestamente talvez o único que prestasse -, as outras se transformam apenas em simples e mortais mulheres. Exatamente como leoas e gazelas. Hillary me fez descobrir que existe uma diferença entre uma garota e a garota. E nem preciso dizer qual é o artigo para ela.
Respirei fundo e finalmente abri os olhos. Mais um longo dia pela frente.

Por trás da pose de leitora fiel e interessada, estava uma das mulheres mais belas que eu já havia esbarrado em toda a minha vida. Se mantinha focada no livro, daquela vez de Meg Cabot, passando a ponta dos dedos cuidadosamente pelas linhas. Era inexplicavelmente gratificante ficar contemplando a íris azul escura acompanhando cada palavra, completamente doada a mais uma das histórias de Cabot. Hillary mantinha as pernas cruzadas, apertadas por um jeans skinny bem escuro e agarrado. Eu encostei no batente, completamente estupefato. Era surreal pensar que ela era minha.
– Bom dia, linda.
Ela se assustou brevemente com minha voz. Me encarou, e sorriu divinamente.
– Bom humor pela manhã? Deve ter tido bons sonhos, safado. — Ela riu baixo.
– Hill...
– O que foi, Dave?
– Eu te amo. Tipo, muito, muito mesmo. — Um sorriso leve surgiu em meus lábios.
Hillary foi pega de surpresa por minhas palavras. Pela primeira vez, seus olhos azuis fitaram os meus com um ar de serenidade, completamente incomum – porém magnífico – para ela. Um sorriso se moldou de forma leve no canto de sua boca, enquanto ela me encarava, perdida em uma onda de pensamentos ao mesmo tempo inesperados e doces. E quando ela finalmente abriu a boca para me responder, eu pude ler com perfeição o que seus grossos lábios diziam...
– Eu também te amo, Dave. Do tipo, de verdade.
Ela largou o livro no sofá e veio caminhando até mim, devagar. Parou na minha frente, me encarando com intensidade. Eu passei os dedos por entre a alça da blusa preta e do sutiã, puxando-os para o lado e deixando minha palma da mão tocar em seu colo. Curioso, franzi as sobrancelhas. O machucado já estava completamente cicatrizado.
– Isso só pode ser brincadeira... — Eu disse, procurando por indícios da ferida. Não tinha absolutamente nada.
– Incrível, não? Podemos estar redescobrindo a história da medicina. — Ela sorriu, radiante.
– Mas, você está bem, não está?
– Sim, por que?
– Porque tem outra coisa que eu quero redescobrir antes da medicina. — Sorri, galante.
– E, o que seria? — Ela deu um passo para frente.
– Seu corpo.
Meus lábios correram até seu pescoço. Em um instante eu senti Hillary relaxar. Ela colocou as duas mãos em meus ombros, me obrigando a chegar mais perto ainda dela. Quanto mais sua essência se apoderava de minha mente, mais eu apertava o abraço em que a envolvia. Eu passeei por ela até que meus lábios finalmente encontrassem os dela.
Hillary e eu nos consumimos em um beijo voraz e extremamente intenso. Minhas pálpebras se fecharam devagar, colocando em evidência o quanto cada toque que trocávamos era perfeito. Ela arfava sutilmente, querendo me provocar mais ainda. Com as últimas reservas de autocontrole destruídas por ela, joguei Hillary violentamente contra a parede. De um jeito bom, claro. Logo um sorriso sedutor demais surgiu em seu rosto, dando a mim o sinal. No mesmo momento, eu a espremi contra a madeira grossa, beijando seu pescoço mais uma vez. As mãos de Hillary desceram arranhando minhas costas de forma lenta e prazerosa, e mais uma vez ela expirou alto demais.
Hillary envolveu meu quadril com suas pernas, e as fechou em minhas costas, me prendendo. Quando notei que estava em meu colo, eu a tirei da parede. Seguimos pela casa nos beijando intensamente, completamente consumidos pela luxúria. Eu deitei minha namorada no sofá, e segui beijando seu pescoço e descendo sutilmente pelo colo. Hillary cedeu um pouco as pernas para que eu desafivelasse minha calça. E mordi a borda da camisa dela, e fui puxando vagarosamente para cima até que meus dedos a encontrassem e ficassem a ponto de arrancar sua peça de roupa. Hillary me puxou para mais um beijo delicioso. Ela era tão...
– Ahn... É... B-bem... Ahn... Que dia é hoje mesmo?
Mas. Que. Porra...
Eu levantei a cabeça, assustado. E, no canto da sala, próxima a porta, estava Claire. M-mas...
Por quê? P-o-r q-u-ê? Ela não poderia ter esperado outro momento, poderia? Pelo menos se Hillary parasse antes de começarmos a transar, eu ia me sentir menos mal do que sendo freado por Claire e largado na expectativa de finalmente desonrar minha maldita namorada. Era impossível que fosse uma coincidência. Claire devia mesmo ter feito de propósito. Em nenhum momento da minha vida, eu tive tanta vontade de estrangular uma loira quanto naquele.
Hillary e eu nos largamos. Ela passou a perna por cima de mim e se sentou, e eu me levantei, arrumando o cabelo mais uma vez. Claire continuava encostada no batente, em um sorriso malandro que para mim, só significava que aquilo tinha sido sim parte de um jogo dela. Hillary apenas lançou a ela um olhar furioso, sem dizer uma só palavra. Não parecia envergonhada. A amazona não fazia diferente. Na verdade, a pose arrogante com os braços cruzados deixava claro que estava bem à vontade.
– Me desculpem, eu não...
– Claro que não queria. — Hillary interrompeu, seca e sarcástica.
– Hillary, menos. Vocês duas pela manhã não, por favor. — Eu chiei. — Hey Claire, quer alguma coisa?
– Na verdade, eu achei que fôssemos sair. Sabe, você disse que ia me levar ontem à noite quando conversamos.
Hillary soltou o ar dos pulmões lentamente. Depois, sua cabeça se virou de modo teatral até que ela finalmente pudesse me encarar com os olhos tão vermelhos que mais pareciam dois rubis.
– Você vai sair com essa vagabunda? — Ela perguntou pausadamente. Ela me assustava quando fazia isso.
– Não é nada demais, Hill. Só precisamos trocar umas ideias...
Claire irradiou.
– Escute aqui, piranha. Encoste em um fio de cabelo dele e você vai amanhecer mastigando o próprio coração. — Eu podia jurar que vi Hillary voando na garganta de Claire. — E o mesmo vale para você, engraçadinho.
Histérica, ela se levantou e começou a caminhar em direção à porta. Indiferente, Claire apenas abriu caminho e deixou que Hillary passasse, fervendo. A loira revirou os olhos e torceu os lábios. Assim que ela saiu, a amazona entrou na casa e encostou a porta levemente com um largo sorriso descontraído no rosto. Ela virou a cabeça e, debochante, me mandou um beijo. Eu não pude evitar rir baixo. Ela era irônica demais para levar a sério.
– Parabéns. Você interrompeu um momento crucial. Feliz agora, sua traíra dos infernos? — Claire riu alto com meu tom meigo-desapontado.
– Dave, ela não ia até o fim.
– Como pode saber? Você lê a mente dela ou algo parecido?
Um sorriso sutil e arrogante surgiu em seus lábios.
– Ela é mulher. E não uma mulher qualquer, mas a chata da sua namorada. Ela não confia em você para isso. Hillary vai te manter preso a ela dessa maneira por um belo tempo, Dave. Se acostume, pois ela só está brincando.
Bufei.
– Isso é complô de vocês duas. — Claire riu mais uma vez.
– Como se dirigíssemos a palavra uma a outra sem nos ofendermos.
Pensando melhor... Claire estava certa.
– Só para tirar uma dúvida minha... Isso foi armação, não foi? Coincidências como essas não existem com você.
Ela sorriu abertamente, de modo galante.
– Essa eu vou deixar sua mente chegar a própria conclusão.
– Que vadia.
– Que gentil. — Ela ironizou. — Bem, eu só preciso de uma coisa antes de sairmos. Pode esperar três minutos?
– Bem, você já tirou Hillary de casa mesmo... Posso esperar uma eternidade.
– Não me tente.
A loira desencostou do batente e com passos delicados, caminhou do meu lado, me encarando de modo fervoroso. Os olhos estavam impecáveis naquela manhã; completamente dominados pelo tom violeta escuro que apenas a íris dela conseguia ter. Claire umedeceu os lábios de forma lenta e provocante, obrigando-me a virar a cabeça para acompanhá-la. Quando a distância entre nossos corpos foi a mínima possível, Claire catou meus dedos suavemente com os dela, e acariciou instantaneamente minha mão de modo cortês. Quando ela me soltou, passou por minhas costas e caminhou rapidamente até o quarto dela.
Eu passei a mão pelo rosto, e em seguida eu puxei meu cabelo para trás – e aquilo provavelmente só o fez ficar para cima. Eu tinha que entender que eu não era Hillary, Claire ou Lyra para ficar fazendo essas bruxarias e continuar com um penteado estupendo. Depois, caminhando lentamente e brincando com minhas unhas, eu segui Claire até seu quarto, de cabeça baixa. Paciente, eu encostei meu ombro no batente da porta e continuei me distraindo. Apenas coloquei os olhos na amazona quando escutei um barulho curioso na madeira. E honestamente, melhor seria se eu continuasse concentrado em brincar comigo mesmo.
Claire vestia uma camiseta preta de mangas até os pulsos, feita provavelmente de algodão, extremamente colada ao corpo perfeito dela; mas o equilíbrio do material era magistral. Estava suave e delicado, por mais que a blusa fosse decotada e justa. O cabelo dourado caía pelos ombros com incrível brandura. Ela ajeitou a franja mais uma vez, depois seguindo a linha da silhueta com suas mãos macias, Claire puxou a saia de couro preta – que honestamente não me parecia muito diferente do que as mulheres usavam na atualidade – um pouco mais para baixo. O fato era que aquela peça não pegava mais do que um terço da perna maravilhosa da amazona. E depois, ela ajeitou as botas. Só então se virou, com um sorriso inacreditável no rosto.
O meu queixo quase foi ao chão. Havia uma maneira dela conseguir ficar mais bonita do que já era?
E, percebendo meu momento de instabilidade, Claire logo colocou um meio sorriso sedutor no rosto e caminhou devagar até mim. Uma perna na frente da outra; quase como se estivesse em uma passarela em Paris. A respiração era fraca e o coração batia sutilmente. Sua essência se espalhou pelo quarto em um instante. Logo, me vi extasiado demais para esboçar alguma reação.
– Agora entende que está mentindo para si mesmo? — Ela perguntou, provocante.
– Você está... Wow... — As palavras engasgaram em minha garganta.
– Diga. Eu quero ouvir.
– Gostosa demais.
Claire soltou uma risadinha baixa.
– Qual vai ser saída de mestre agora? Dizer que, diria que eu estou linda se estivesse realmente interessado, mas como disse que estou gostosa, eu sou apenas mais uma?
– Na verdade, eu não achei que apenas “linda” faria jus à você nesse momento. Mas, vamos logo. Não queremos perder mais tempo, queremos?
Assim que me virei, eu senti um toque em meu antebraço que não me deixou seguir em frente. As mãos de Claire subiram timidamente até meu ombro, e desceram novamente por meu peito. Engoli em seco. Então, ela segurou a gola de minha camisa e me puxou para dentro do quarto. De repente, me vi completamente envolvido por ela e seu sorriso malicioso. Devagar, passou os braços por volta de minha nuca e começou a brincar com a raiz de meu cabelo. Sem que eu percebesse, meus dedos fizeram o caminho de sua cintura lentamente. Claire foi diabolicamente inteligente. Ela esperou até que eu permitisse o contato dela comigo para que pudesse se aproximar devagar, unindo nossos corpos. Francamente, eu perdi minha cabeça; estava completamente fora de mim.
Ela levou os lábios até os pés de meu ouvido e sussurrou com a voz trêmula e transbordando erotismo:
– Nós já vamos para o inferno mesmo...
Claire desceu com a respiração quente bem próxima a minha pele. Por um momento, eu podia jurar que senti minhas pernas bambas. Eu não conseguia pensar em outra coisa e nem agir de outra maneira. Era intenso demais...
Até que os lábios delicados dela tocaram meu pescoço com suavidade em leves de deliciosos beijos. Claire praticamente me derrubou quando começou a passear por minha pele sem limite algum, me levando a um ponto extremo de tentação que fazia com que eu tirasse meus pés do chão completamente. Sua mão macia e sedosa desceu por meu rosto, me acariciando devagar. Ela espremeu meu corpo contra a parede, me deixando sem ter para onde correr. E, quando eu vi a cama no canto do quarto, o meu corpo agiu automaticamente.
Eu tirei Claire do chão, a segurando pelas pernas macias que já estavam envolvidas em meu quadril. Aquela desgraçada era tão irritantemente inteligente que ela não tentou me beijar, para não me assustar. E, sem me comprometer, ela fez com que eu a deitasse na cama e caísse por cima dela. Apoiou as pantorrilhas na parte de trás de minhas coxas, me prendendo. Seus lábios mais uma vez procuraram por meu pescoço.
Minhas mãos caminharam até seu ombro com um tanto de receito. Mas, o olhar que lançava a minha naquele momento não me permitia parar. A ponta de meus dedos passeou por seu colo, até que meu indicador desceu fazendo o caminho entre o vão os seios dela. Claire fechou os olhos, e a mão dela se fechou em minhas costas. Depois, eu a notei entrando por baixo de minha camisa até a lateral de meu corpo, fazendo com que a peça subisse sutilmente. Foi naquele momento que ela se levantou e realmente tentou me beijar.
E com um surto da consciência que eu havia perdido, eu a impedi de tocar em mim, colocando os dedos levemente em seus lábios grossos e vermelhos. Claire sorriu de modo licencioso. Passou a língua vagarosamente entre os dentes. Foi quando eu balancei a cabeça negativamente, e me afastei dela, finalmente me levantando. Logo, escutei uma gargalhada. Ela se sentou no colchão, debochadamente sorridente e alegre.
– Bela pegada, Matlock. — Ela provocou.
– Você é uma desgraçada. — Retruquei, irritadiço.
– Ah, vai dizer que não gostou?
– Tem noção do que acontece se Hillary pega nós dois?
– Eu sei, meu amor. — Ela sorriu. — Por que você acha que eu fui tão sutil e silenciosa? Eu não quero arrumar problemas para você.
– Tenho medo de imaginar o que você faria se quisesse.
– Hey Dave, não fique tão tenso. Somos adultos e eu me importo com você. Não vou contar para Hillary, nem nada. Na verdade, eu curti. Mas, ainda acho que poderíamos ter ido mais longe... — Ela enfatizou.
– Claire, eu perdi o controle. Não vai acontecer novamente.
Ela riu baixo, repleta de ironia.
– Eu duvido muito disso. Mas, vamos embora logo.
– Seria perda de tempo pedir para você parar de provocar, não é?
Ela se levantou da cama e passou por mim, me encarando tão intensamente que parecíamos dois ímãs.
– Total.
Ela se virou, e depois piscou com um dos olhos. Só então ela continuou a andar, desfilando com tanta soberania que realmente fazia qualquer um acreditar que o mundo era dela e de mais ninguém. Como podia uma garota tão bela oferecer tanto perigo a mim? Era até engraçado pensar que alguns meses atrás, se ela fizesse metade do que acabara de fazer, nós dois íamos terminar no teto.
E honestamente, não ceder à provocação de Claire possivelmente foi uma das coisas mais difíceis que eu já tinha feito em minha vida. Sem piadas.

Depois de algum belo tempo caminhando e indiretas voando pelos ares, finalmente Claire e eu chegamos à um pequeno lago consideravelmente perto da Aldeia das Amazonas. Quando viu o campo aberto que mais parecia um pedaço do paraíso na Terra, um sorriso sincero e sereno se formou no rosto da loira. Eu vi seus olhos brilhando com tanta inocência que por um breve segundo, nem mesmo acreditei que aquela era Claire. Mas, para mim, aquilo era só mais uma prova do que ela tinha em seu interior. No fundo, era doce feito uma garotinha. Ela só precisava confiar em alguém para mostrar isso.
Nós dois seguimos caminhando calados, beirando o lago maravilhoso. A água quase transparente – apenas não era completamente porque chegava perto de um tom azul que por um momento me lembrou os olhos de Hillary — , inodora e calma feito uma brisa suave que toca a pele com delicadeza e ternura, fazendo com que até mesmo o ar de repente pareça mais puro. Por um momento, aquele lugar inimaginável me fez esquecer de tudo que me atormentava. Era tudo tão perfeito que nem mesmo parecia real. E, francamente, custei a acreditar que fosse.
Até que Claire finalmente parou de andar e se sentou na grama rala que contornava o lago, antes de começar a intensa concentração de árvores altas da floresta. A amazona encarava a superfície em um devaneio enérgico que se apoderou de sua mente. Seus lábios se descolaram ligeiramente. O vento fazia com que o cabelo loiro poderoso chicoteasse no ar, antes dela puxar para trás mais uma vez. Ela abraçou suas próprias pernas, e por um instante, eu jurei que seus olhos se encheram de lágrimas que ela se recusou a deixar cair. Percebendo que algo estava errado, eu me sentei ao seu lado, de frente para o enorme lago.
– O que aconteceu aqui, Claire?
Ela engoliu em seco.
– Quem te disse que algo aconteceu aqui?
– Ninguém precisa me dizer. Basta olhar para você. — Eu coloquei a mão no joelho dela, tentando aconchegá-la. — Me conte.
Claire suspirou.
– Sabe como esse lugar ficou conhecido nos últimos dezoito anos?
– Como?
– Devil's Cauldron.
Respirei fundo, assombrado.
– E por quê isso?
– Porque uma das guerras mais sangrentas de que se tem conhecimento aconteceu às beiras desse lago. Foram tantas mortes aqui dentro que a água ficou vermelha por um belo tempo.
– E... Por que eu tenho a leve impressão de que as amazonas estavam envolvidas?
Claire esfregou os olhos, abaixando a cabeça. Mas, logo se recompôs.
– A Líder daquela época se chamava Mika von Lipphaus. Aquela mulher fazia Michelle parecer uma santa. Ela matou todo o tipo de gente nessa Ilha, e isso fez com que uma rebelião fosse organizada. O fato é que ela perdeu mais da metade da Aldeia naquela guerra. Só que, ainda assim, não parou. Vendo a instabilidade que tinha causado e que setenta por centro das garotas dela estavam mortas, Mika foi procurar por novas meninas em outros lugares. E, Dave, eu não sei se você sabe que eu não nasci dentro da Aldeia...
Meus dedos procuraram pela mão de Claire. E, quando encontraram, a apertaram com força.
– Meus pais, minha irmã mais velha Audrey e meu irmão Jeremy... Aniquilados. Dizimados como uma praga, bem diante aos meus olhos. Eu tinha cinco anos. Lembro perfeitamente de quando Mika e mais três acabaram com eles para me pegar. Audrey tinha treze anos, e elas não a queriam por já ter alguma idade.
– Claire... E-eu... Sinto muito.
Ela sorriu timidamente.
– Eu já superei, Dave. Mas, estar em Devil's Cauldron vai sempre me lembrar disso. Não interessa quantos anos eu tenha.
– Você... Quer ir embora? — Perguntei, suave.
– Não. Ficar aqui ou ir embora não vai mudar nada. — Ela esfregou os olhos.
– E o que aconteceu com Mika no final das contas?
Claire suspirou.
– Ela foi morta. — Ela puxou o cabelo para trás. — Brooke Donnelly Baker deu a vida dela por todas nós.
– Baker? — Eu perguntei, assustado. — Ela por acaso é...
– Sim, Dave. — Claire interrompeu. — Quando Brooke e Mika morreram lutando na arena, Kim Harper foi ao poder. Lyra tinha oito anos quando ficou órfã. Por sorte, Kim sempre cuidou dela como se fosse sua própria filha. Lyra era não apenas a única ligação com Brooke, mas também teria uma mãe se não fosse pelo ato de coragem dela. Kim foi a décima sexta Harper na liderança da Aldeia. Na teoria, ela teria que passar para Michelle, sua herdeira de sangue. Mas, a filha dela a cada dia que se passava, ficava pior. E isso claramente fez Kim pensar e repensar em Lyra. Porém, antes de comunicar a decisão oficial da Líder, ela caiu doente e morreu em dias. Era estranho, pois nada jamais ameaçou a saúde dela. Então...
– Michelle foi mais rápida e assumiu a liderança. — Completei, finalizando no que mais parecia um pensamento alto.
Os olhos de Claire se perderam na água calma do lago sangrento.
– Lyra não fez questão. Ela nem se pronunciou. No fundo, todas nós desconfiamos que Michelle tenha envenenado Kim para não perder a chance de ser Líder. Ainda mais porque ela tinha dezenove anos e Lyra, quinze. Mas, as amazonas não quiseram levantar essa questão. Só não contávamos que Michelle seria uma Mika mais discreta.
Eu respirei fundo, completamente assombrado. Eu sabia que o que tinha acontecido a minha mãe, Catherine, era trágico. Mas as histórias de Claire e Lyra faziam a minha parecer uma produção no estilo “Todo Mundo Em Pânico”. Eu nem mesmo sabia que isso era possível.
– Não se pode confiar em amazonas, Dave. São poucas as que realmente valem à pena. A grande maioria delas se organiza em dois grupos: assassinas diplomadas ou vadias incansáveis.
– Fala isso em relação à Lyra?
– Não acredito que seja o caso de Baker. Todavia, existem umas lá dentro que são encantadoras à primeira vista e se você confiar, elas destroem sua vida. A verdade é que Michelle matou grande parte das amazonas boas que tentaram fugir e foram pegas. As que conseguiram, deram sorte. A reposição de Mika e de Kim aumentou tanto os números de garotas que, na atual liderança, ela pode matar quantas quiser sem se preocupar com quantidade.
– Isso é assustador, sério. E é mais estranho ainda pensar que grande parte de todas essas histórias começou exatamente onde estamos sentados.
Claire deitou a cabeça em meu ombro. A mão dela puxou minha perna de encontro à dela. Mas, aquele toque não era malicioso. Eu sabia que ela estava apenas me usando como refúgio. E foi exatamente por isso que eu passei meu braço por volta de seu pescoço, trazendo-a pra mais perto ainda de mim.
– A verdade é que com você ao meu lado, as coisas parecem ter ficado menos ruins. É como se você conseguisse me proteger de meu próprio passado. — Ela disse baixo, fechando os olhos devagar.
– Eu vou proteger você de tudo que eu conseguir, loira.
Um sorriso inocente surgiu em seu rosto. Ela entrelaçou seus dedos nos meus e apertou devagar.
– Obrigada, Dave. Por tudo.