Fallacy - Pride
15 Amazonas
Quando eu tinha doze anos, meu pai tentou me fazer assistir a uma missa na Igreja. Lembro-me vagamente daquela manhã de domingo, quando o fervoroso Padre Forvendetta questionou os pecadores. Condenou-os por não seguir o que era visto como certo por Deus. Humilhou-os como se nem mesmo fossem pessoas. Eu era apenas um garoto, e nunca tinha feito nada demais. Mas, de algum modo, aquilo fez com que eu me afastasse da Igreja, e de toda e qualquer coisa que me impunha regras. Meu problema estava longe de ser relacionado a pecados. Eu só não conseguia digerir o fato de ser uma criança e conseguir aceitar que cada ser humano é diferente, pensa diferente e vive de maneira diferente. E o discurso do Padre passou a mim a impressão de que apenas um tipo de gente prestava: justamente aqueles que se limitavam a seguir a Igreja.
Eu nunca mais voltei depois daquele dia. Na verdade, mesmo com vinte e cinco anos, eu não tinha uma religião. Talvez por não ter o conceito de certo e errado na cabeça – ou por ter e simplesmente ignorá-lo. Ao Padre Forvendetta, perdoe-me por ser quem sou, mas aceite que é assim que sou.
E eu sou um pecador.
Toda essa história se passou em um quarto de segundo em minha mente. Apertei a mão de Hillary com mais força. Ela me encarou, sem entender o motivo do meu gesto. De repente, senti um incômodo dentro do peito. Mas, uma pergunta ainda continuava sem resposta. Por que lembrar de toda aquela tarde traumática especificamente naquele momento?
Fácil. Porque quando eu entrei na Aldeia, acompanhado de Claire e Hillary, eu vi um mundo de mulheres ridiculamente maravilhosas tendo apenas a mim como objeto de atenção.
Respirei fundo, preso a Hillary. De certo modo, apenas segurar sua delicada mão direita me mantinha no meu lugar. Pela primeira vez na minha vida, me senti intimidado. Eram loiras, morenas e ruivas. Os olhos me encaravam com curiosidade, em todas as cores. Os azuis refletiam um brilho intenso, enquanto os negros quando encarados com firmeza, pareciam me consumir e me levar para outra dimensão. Eu não sabia para onde olhar – e nem mesmo se eu devia olhar. As mais ousadas sorriam para mim de modo convidativo, vestidas com aqueles trajes mínimos de couro. Algumas irradiavam de curiosidade quando viam Claire à minha frente, com os passos pesados e furiosos, me guiando para algum lugar naquela Aldeia. Hillary parecia passar despercebida. Inacreditável.
De repente, cochichos. Muitos, muitos deles. Por onde passávamos, surgiam como folhas mortas no outono. Claire continuava firme, com a expressão enraivada, e não hesitava nem por um segundo. Ninguém teve coragem de se colocar em seu caminho. E logo, eu percebi que não precisava escutar os sussurros no ar para saber do que se tratavam. Uma movimentação surgiu poucos segundos depois, e três amazonas correram para a enorme cabana de madeira que ela fitava, bem coração da Aldeia.
Então, era ali que a Abelha Rainha estava escondida.
Apertamos os passos. Ninguém conseguia definir o que sentia: ansiedade ou tensão.
Claire abriu a porta do aposento da Líder com ódio. Com a postura impecável, desfilou soberana até o que equivaleria a metade da distância da porta ao trono da amazona. Hillary e eu entramos discretamente, separados, deixando que toda a atenção se voltasse apenas para a loira no centro da sala, encarando sua superior com repugnância.
Aquela cabana de madeira mais valia como uma sala nobre de um castelo. Havia janelas, castiçais presos às paredes, e uma coleção inteira de armas no canto. O que me chamou a atenção foi o fato de ter um tapete longo em um tom vinho envelhecido; de talvez dois metros de largura, que ia da porta de entrada até o altar onde se encontrava a cadeira da amazona Líder. Um trono enorme; largo e imponente, acolchoado com couro real e madeira nobre, detalhes em ouro e algumas pedras preciosas. Nos braços, quase como se fizesse parte dele, havia duas amazonas com lanças enormes e pontiagudas. Ambas tinham expressão impenetrável e fria; raramente mudando o foco do olhar. Uma delas – com olhos e cabelos negros bem curtinhos – realmente chegou a me assustar. A outra, de olhos azuis bem claros, chegou a fitar a mim e Hillary, mas seu interesse não durou muito tempo. Era Claire que estava ali, mais uma vez.
– Não achou que fosse se livrar de mim tão fácil, achou Harper? — Claire entonou de modo agressivo. Eu escutei algo se mexer.
Foi quando eu me lembrei de olhar para a Líder. Estava bem acomodada no trono, com as pernas cruzadas e os braços abertos. A pele era levemente bronzeada, e o cabelo liso castanho mel com madeixas meio loiras ia até o final de suas costas. Olhos eram de um castanho amêndoa sólido e ao mesmo tempo, sombrio. O jeito com que ela se movia provocava calafrios em mim. O olhar macabro parecia desafiar a confiança da amazona loira que invadia seu aposento, tentando intimidá-la. Claire tremeu levemente, mas não hesitou. A expressão indecifrável da Líder não deixava claro se estava surpresa. Eu só podia ter certeza que ela não esperaria mais um segundo para matar sua desafiante.
– O que você acha que está fazendo, Mackenzie? — A pronuncia fria e em branco da frase me arrepiou ligeiramente.
– Não faço questão da liderança, Michelle. Apenas que você abdique. Agora.
A Líder riu com ironia.
– Renunciar ao trono passado geneticamente a mim? Deve ter tomado uma pancada muito forte na cabeça, Claire.
– Você sabe o que anda proporcionando nos últimos anos, sua vadia louca. Está criando monstros, Michelle.
– Minha Aldeia está forte e insuperável. Eu tenho as melhores guerreiras e mais resistentes, também. E por falar nisso, como sobreviveu e teve coragem de voltar?
– Pensando em rasgar sua garganta. Coisa que devia ter feito quando tive a oportunidade.
Michelle sorriu, interessada.
– Esses dois... — Ela apontou para Hillary e eu. — Eles te ajudaram, não foi?
– Isso não é de sua conta. — Claire quase rosnou, hostil.
Aquilo pareceu ser uma resposta positiva para a Líder. Ela sorriu mais uma vez, de modo sádico.
– Você. O loiro. — Tremi. — Qual é o seu nome?
Eu abri a boca, esperando que as palavras saíssem. Mas, antes de responder, Claire se virou rapidamente e pronunciou sem som: “não se submeta!” Apenas ler seus lábios e interpretar seria o suficiente. E, com aquele gesto, o David assustado foi completamente substituído pelo Soberbo-Sem-Noção-de-Perigo.
– Não acha rude exercer autoridade sobre mim sem ao menos se apresentar?
Ela se interessou. Sorriu discretamente e suas sobrancelhas subiram.
– Tem toda a razão. — Concordou, meio ironicamente. — Eu sou Michelle Trewartha Harper. Décima sétima geração de Líderes das Amazonas. Sucessora de minha própria mãe, Kim Harper.
– Bem srta. Harper, eu sou David Matlock, herdeiro do Laboratório Matlock em Londres, Inglaterra. — Hillary riu baixo com minha tentativa frustrada de imitar a descendência nobre dela. — Essa é Hillary Williams. — Apontei para ela com o polegar.
– Devo primeiramente dar boas-vindas a vocês dois. Não precisam se preocupar com minhas garotas, elas serão inofensivas, eu prometo. — Ela sorriu. — Na verdade, nós quase nunca fazemos mal a alguém.
Claire bufou.
– Não foi disso que fui informado, senhorita. — Desafiei, confiante. Ela parecia gostar de tentar ser intimidada.
– Não devia acreditar em boatos contados por qualquer vadia loira mentirosa. Mas, sr. Matlock, devo dizer que sou incapaz de manter uma pergunta para mim mesma. Por que diabos – ela entonou com força – você a ajudou?
– Porque eu sou humano. — Claire sorriu.
– Ela não é o anjo que você acha que é. Seria mais vantajoso ter deixado que morresse na floresta.
Hillary riu baixo.
– Por que está tão preocupada com a volta dela, srta. Harper? Está com medo de perder o trono mais uma vez?
– Eu nunca perdi, se foi o que ela te disse. Claire nunca conseguiu arrancar minha liderança.
Claire bufou mais uma vez.
– Além de psicopata, você ainda é uma mentirosa. — Ela chiou. — Sabe muito bem quem foi derrotada, Michelle.
– Sei. Você. — A Líder confrontou.
– Honestamente, não me interessa. Mas, se fizeram uma vez, podem fazer de novo. E é isso que deveria acontecer, e a única maneira justa de decidir. — Eu disse, convicto.
– Outra luta? — Michelle perguntou em um tom aparentemente cético. — Tudo bem... Se é essa a melhor maneira de decidir as coisas, eu faço.
– Hoje. — Claire hostilizou mais uma vez.
– Não seja apressada. Amanhã lutaremos. E quanto a você – ela se dirigiu a mim e Hillary -, quero que os dois passem a noite conosco.
– Ahn... Se Dave e eu passarmos a noite aqui, amanhã pela manhã nós podemos ir embora sem Claire? — Hillary perguntou a Michelle.
– É essa a ideia, não?
– Temos um acordo, Michelle! — Hillary irradiou de alegria. Sua frase saiu sem que pensasse duas vezes.
Claire se virou e procurou meu olhar. Estava perdida, e completamente vulnerável. Não entendi de primeiro momento o motivo de sua expressão ter mudado tanto em tão pouco tempo. Era aquilo que ela queria, não era?
A Líder se recostou no braço do trono e se inclinou para cochichar com a de cabelos negros bem curtinhos. A amazona ouviu atentamente as palavras de sua superior, submissa, e com o olhar perdido em algo próximo à porta. Quando Michelle terminou de falar, a garota afirmou positivamente com a cabeça. Depois, com a ordem de sua Líder, desceu do altar do trono e começou a caminhar pelo canto da sala até sair do aposento, em silêncio.
Claire caminhou com passos pesados em minha direção. Estava preocupada, e visivelmente alterada.
– Para o acordo ser válido, srta. Mackenzie, eu não permito que se comunique com Dave ou Hillary durante a estadia de ambos aqui. — Michelle pronunciou, calmamente.
Claire parou de andar, e xingou baixo. Depois, ela se virou para a Líder.
– Eu vou pedir por gentileza que Hillary acompanhe Debbie – a amazona de olhos azuis do lado de Michelle sorriu com simpatia — até o quarto que será especialmente preparado para ela. E, o mesmo vale para você, David. Eu pedi para Alex chamar duas garotas para te acompanhar.
– Eu agradeço a sua gentileza, Michelle. Mas, onde elas estão?
– Chegando, acredito eu...
No mesmo momento, nós escutamos a porta da entrada se abrindo. A tal Alex estava de volta ao aposento, acompanhada de uma pequena e linda ruiva. As linhas do rosto eram bem delicadas, e o sorriso tímido e charmoso não custou a aparecer. Os cabelos tinham grossos e definidos cachos sedosos que iam até o final de suas costas. Os olhos tinham um tom vivo de azul claro e delicado, cintilavam intensamente quase como diamantes. Ela era bem baixinha e delicada, e aquilo realmente me fez associá-la a uma pequena fada. Mas logo se soltou, e começou a zombar com alegria da outra, mesmo que ela fosse completamente ranzinza. E ruiva apenas ficou séria de verdade quando se viu diante à Líder.
– Srta. Harper. — Ela sorriu, um tanto intimidada. Estava à sua disposição.
– Alex, eu pedi por Lyra e Úrsula. Vejo apenas uma delas. Onde está a outra? — Ela pronunciou pausadamente, com ódio.
– Você sabe como ela é. Não é surpresa que esteja atrasada... Deve ser outro problema com as botas.
Sorri discretamente para a ruiva. A ponta de travessura em seu espírito chamou minha atenção. Foi quando a porta se abriu mais uma vez, rangendo. Mas, diferentemente de antes, eu não procurei imediatamente pela garota que vinha. Apenas mantive o foco nos olhos furiosos da Líder, que provavelmente a encaravam.
– Me desculpe pelo atraso srta. Harper. Problemas com as botas. — A ruiva riu baixo. Mas, devo admitir que a voz da outra me chamou atenção. Algo, em algum lugar, clamou para que eu olhasse. E foi exatamente o que eu fiz.
Foi quando eu esqueci completamente do mundo à minha volta. Soberana, caminhou pelo meio da sala como se não tivesse nada a temer e parou do lado de sua amiga – era engraçado ver o quanto ela era mais alta. Sua atitude entretanto, não intimidou a Líder. Ela puxou os cabelos castanhos claros para trás – um tom singular, bem longe do loiro mas ao mesmo tempo, diferente do castanho tradicional. Como eu estava posicionado um pouco mais atrás do que ela, apenas vi seu sorriso quando virou um rosto por um breve segundo. E se eu dissesse que aquele era o sorriso mais maravilhoso que eu já tinha visto? Por pouco não me matou. E logo meus olhos desceram para uma parte bem avantajada de seu corpo – ela estava de costas para mim; era impossível ignorar aquela perfeição. Eu mal tinha visto o rosto dela direito. E por um breve momento, parte de mim achou melhor nem ver.
– Vocês duas vão levar David até o quarto dele. Peguem o que está mais isolado, ao lado do estábulo. Eles vão passar a noite aqui; são amigos de Claire.
Elas assentiram com a cabeça, aceitando a ordem.
Depois, se viraram.
Foi quando, ainda sorrindo, aquela garota fitou diretamente minha íris. De repente, tudo estava acabado. Não havia nada nem ninguém naquele lugar além de nós dois. O modo com que ela me encarou mexeu comigo, logo no primeiro segundo. Os olhos dela eram verdes, cor de esmeralda, ridiculamente definidos e perfeitos, acompanhados de sobrancelhas ligeiramente grossas e angulosas. Os cílios longos e negros completavam o olhar intimidador e ao mesmo tempo provocante, dando a ela um poder quase hipnótico. O contraste na pele branca e delicada era o maior possível. Ela se assustou comigo; eu pude perceber. Suas sobrancelhas se ergueram em uma expressão de surpresa, e por um breve segundo ela hesitou em caminhar, mas logo continuou. E aquilo rompeu completamente todas as barreiras do meu autocontrole. O modo com que sorria, misturando inocência com um tom meio abobalhado me fez sentir meu coração estourar dentro do peito, fazendo meu sangue pulsar latejante em minhas veias. A mandíbula lhe era um pouco mais larga que o normal, dando a seu rosto um formato peculiar que conseguia ser ainda mais belo por sustentar dentes alinhados e simpáticos. De repente, meus órgãos pareciam espremidos dentro de meu próprio corpo. E ela exibia toda aquela sensualidade no jeito dela de andar, com atitude e soberania transbordando por seus poros. Aquela garota era tão irritantemente perfeita que eu mal sabia para onde olhar. Por um instante, fitei seus lábios grossos, vermelhos e definidos que se moviam com extrema delicadeza enquanto ela sussurrava algo para a ruiva. Devagar, meus olhos foram indo mais baixo. Os seios redondos e fartos, perfeitamente envolvidos pelo top de couro. A barriga seca, com linhas delicadas e suaves fazendo os contornos. O quadril mais largo, em perfeita harmonia com a cintura fina. As pernas... Que pernas eram aquelas... Enormes, perfeitas, definidas, longas, lisas e macias. E para piorar, ainda tinha uma linda expressão de menina meiga, que eu achava completamente encantadora.
A garota desviou os olhos por um breve instante para a amazona ruiva, e mordeu o lábio inferior, fazendo charme para a amiga; desencadeando em mim sem nem mesmo saber, uma série de pensamentos que eu realmente não devia pensar. Depois, ela sorriu abertamente, gargalhando, enquanto eu via a cena de sua aproximação passar em câmera lenta. Eu prestava atenção em cada detalhe dela; cada linha que participava da composição de seu rosto. Quando me encarou mais uma vez, sorriu para mim. Estava tão concentrado nela que pude escutar sua respiração e seu coração batendo tão forte que mais parecia que ia subir por sua garganta. Eu procurei desesperadamente em minha cabeça por algo que pudesse ser tão irresistível quanto seus lindos olhos esverdeados. Mas, para o meu azar, nada conseguiu. Ela era encantadora em proporções surrealistas.
Fechei os olhos relutante, e virei a cabeça, tentando tirá-la de foco. Eu sabia que estava demonstrando demais toda a atração inexplicável que eu senti por ela. Mas, quando abri novamente, tudo foi em vão. Encontrei Hillary me encarando e me perdi mais uma vez na imensidão azul de sua íris perfeita.
– Não confie em nenhuma das duas. Não temos como saber o que querem. — disse Hillary, se afastando aos poucos. — A Líder não chamaria duas amazonas tão bonitas apenas para te levar lá. E duas.
– Pelo menos estou bem acompanhado. — Sorri. Hillary me deu um tapa.
– Isso não é brincadeira, Dave. Quero que se proteja, e faça o que for necessário. Não fale sobre nosso relacionamento, e seduza-as se for preciso. Tem alguma coisa errada nessa história.
– Você vai realmente me dar a liberdade de seduzir aquelas duas? — Perguntei, malicioso.
– Você tem minha confiança. Seduzir por interesse não significa trair. Não nesse caso, pelo menos. Eu vou tentar dar o meu jeito também.
– Prometa que vai tomar cuidado com você mesma.
– Não seja estúpido, eu sou mais esperta, mais fria e mais atenta que você. Não preciso nem dizer quem vai conseguir armar um plano primeiro.
Expirei com força.
– Essas suas demonstrações de carinho me deixam saltitando de felicidade, sabia? — Ironizei.
– Cale a boca e siga com a porra do plano!
– Eu também te amo. — Nós sorrimos. Então, Hillary seguiu até a tal Debbie.
Logo, tudo ficou completamente desorganizado lá dentro. Michelle conversava com algumas garotas enquanto Hillary ia se afastando e as meninas vinham conversando. Eu estava completamente perdido. Até que eu senti algo se posicionando ao meu lado e respirando discretamente em meu ouvido.
– Fique longe delas! — Claire disse, firme. — Temos que nos encontrar hoje à noite no estábulo. Você está sendo parte do plano de Michelle.
– Eu estarei lá, não se preocupe.
Claire se afastou de mim com a mesma leveza e discrição que se aproximou. Realmente, estava preocupada com alguma coisa. Aquele já era o segundo aviso para ficar longe das duas meninas. Alguma coisa realmente muito ruim acontecia ali dentro. E cada vez mais, eu me sentia parte disso.
– Hey! — Quando eu percebi, a ruiva já estava sorrindo ao meu lado. — Bem-vindo à Aldeia!
Quando vi a de olhos verdes tão perto de mim, por um instante me senti instável. Era impossível que fosse real.
– Não seja tímido! — Ela dirigiu a palavra a mim pela primeira vez. — Meu nome é Lyra Baker e essa é minha amiga, Úrsula Shrewbury.
Lyra Baker. Sim, aquele nome se repetiu milhares de vezes em minha cabeça, em apenas um milésimo de segundo.
– Eu sou David Matlock. — Eu disse, cuspindo as palavras enquanto olhava nos olhos dela.
– Acredito eu que aquela morena deve ser sua namorada, não é? — Perguntou a ruiva.
– Não... Somos apenas amigos. Hillary e eu não temos muita coisa a ver.
Elas sorriram, animadas.
– E o que faz aqui, David Matlock? — Lyra enfatizou o meu nome.
– Tentando ajudar Claire a resolver os problemas. Não acha que Michelle vai matá-la até amanhã cedo, acha?
Ela riu levemente.
– Não se preocupe com Claire e Hillary, elas vão ficar bem. Mas, você tem que vir conosco.
– Aprendi com a vida que quando a esmola é muita, o santo desconfia. — Sorri. — Qual é o lance com vocês duas? Eu devo ter que matar alguém para que me levem ao quarto, não é? Isso tudo está fácil demais...
Lyra sorriu mais uma vez. Um sorriso extraordinariamente perfeito.
– Ah, você é tão chato... Acabou com nosso jogo. — Ela disse, entristecida, mas ainda sorrindo com sensualidade.
– E qual era o jogo?
Elas se encaram, sorrindo. Depois, uma segurou em cada braço meu e me arrastou para fora do quarto da Líder. Mesmo que a distância tenho sido mínima, a ruiva teve que aturar piadas sobre sua altura, que vinham da feliz e implicante amazona dos olhos verdes incríveis. Eu beirava um metro e noventa. Lyra, um e setenta e três. A pobre Úrsula se contentaria com um metro e sessenta.
– Não é nada difícil, não se preocupe. — Disse Úrsula. — Apenas quero que segure isto.
Ela ergueu para mim uma espada com o cabo dourado, lâmina afiada feito navalha e o equilíbrio perfeito. Forjada provavelmente no calor mais intenso possível. Eu podia ver meu reflexo perfeitamente. E, com aquela arma entre nos dedos, por um segundo, me senti indestrutível.
– O que eu faço com isso? — Eu perguntei a Úrsula.
– Você tem uma chance para descobrir... — Lyra respondeu. Imediatamente tirei meus olhos da arma.
Quando olhei para a amazona de olhos verdes, ela fez um giro com outra espada na mão, testando seu ponto de equilíbrio. Depois, para demonstrar o corte perfeito, ela deu uma leve investida no ar. Só aquilo era o suficiente para que eu entendesse que provavelmente estaria morto dali a três minutos.
Ainda assim, aquilo estava longe de ser meu maior problema. A pior coisa sobre a tal Baker era óbvia: fazer minha mente entender que eu não podia trair minha maldita namorada.
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