Faking
19 Capítulo XIX
Notas iniciais
Parei de estudar quando ouvi uma música. Não sabia de onde estava vindo, mas era perto. Minha mãe devia estar com o rádio no maior volume. Olhei para a cama e algo em baixo das cobertas estava brilhando. Demorei exatos três segundos para perceber que era a praga que Daniel me comprou. Remexi as cobertas centenas de vezes até pegar a caixinha e atende-la.
— Carol? – perguntou alguém do outro lado da linha. – Por que não atende logo?
Olhei para a tela do celular e vi “Amor” na tela.
— Daniel? Está louco? Como você me liga assim sem aviso prévio?
— Como quer que eu te avise? Com uma carta? Ou talvez um pombo correio? Você não lê as mensagens!
— Eu estava dormindo!
Algo se mexeu perto das escadas e escondi o celular na hora. Passos no corredor me deixaram tensa.
— Caroline, com quem está falando? – perguntou meu pai. Vê-lo me deixou assustada. Geralmente ele não chega cedo e ainda devia estar no trabalho. Olhei pela janela e fiquei pasma ao perceber que era noite.
— Estou recitando um poema, pai – menti rapidamente. – Quero ver como fica em voz alta.
— É de sua autoria?
— Hm... claro! Ele ainda precisa de uns ajustes...
— Seria ótimo escutar, filha, diga.
Eu estava ferrada. Meu pai iria me deixar de castigo se soubesse que eu estava mentindo e ainda me colocaria num hospício por estar falando sozinha, e, logo depois de descobrir que eu estava com um celular em casa, iria mandar me matarem. Precisava pensar em algo, e muito, muito rápido.
— Ele não está bom ainda...
— Não importa, querida, qualquer coisa será perfeita vinda de você!
Eu já estava suando frio. Precisava criar um poema.
— Tudo bem, aí vai. “Meu amor me acordas de um sonho tão belo, À realidade me trás com um beijo sincero, Não esperava do homem que amo tal esmero, Eu estava dormindo!”
— Esplêndido! Mas ainda acho que deve rever essa última parte.
— É talvez, ela não esteja tão boa – sorri morrendo de vergonha.
— Vou deixar que termine seu poema, está ficando fantástico!
Meu pai saiu do quarto e eu fui fechar a porta. Nunca suei tanto na vida. Vi todos os momentos felizes e tristes da minha vida passarem diante dos meus olhos desde o momento em que ele entrou no quarto.
Coloquei o celular no ouvido outra vez e Daniel estava morrendo de rir. Fiquei com raiva.
— Cale a boca!
Ele tentou falar algo, mas não conseguiu de tanto que estava rindo.
— Daniel, estou falando sério!
— “Eu estava dormindo” – repetiu, ainda rindo horrores.
— Vou desligar isso!
— Tá bom! – Ele deu um longo suspiro antes de continuar: – Olha, vai ter uma festa daqui a pouco e eu queria saber se eu podia ir.
Daqui a pouco? Olhei a tela outra vez e percebi que eram oito e quarenta da noite. Eu fiquei a tarde inteira fazendo deveres de matemática e não tinha visto a hora passar. Que noite produtiva! Fiquei orgulhosa de mim mesma, mas o sentimento não durou muito, já que Daniel estava lá para me encher o saco.
— Dá pra me responder?
— Me ligou pra me perguntar se você pode ir numa festa? Eu lá sou sua mãe?
— Você é minha namorada, né?
Admito que achei a coisa mais fofa do mundo ele ter pensado em mim como sua namorada e não como uma parasita. Era a coisa mais legal que ele poderia ter dito.
— Sou, mas e daí?
— Que as namoradas vão a festas com os caras, Caroline, você não tem vida social? Nunca saiu na vida?
— Deixa de ser insuportável, tenha calma. Quer ir sozinho ou quer que eu vá com você?
Ele riu.
— Se eu não for com você, não tenho certeza do que posso fazer.
— Tá dizendo que vai trair sua namorada de mentira? – Sorri, ele era um verdadeiro babaca, o cretino perfeito. Tantos garotos no universo e aquela oriental dos infernos decide que eu teria que transar com ele. Mereço.
— Eu não disse isso!
— Eu precisaria falar com a minha mãe. E aliás, estou fazendo o dever de matemática, tenho que terminar...
— Hoje é sábado!
— Eu sei, também tenho calendário, sabia?
— Tá fazendo dever num sábado?
— É, no domingo eu reviso a matéria e...
— Chega – interrompeu-me –, sua rotina é desastrosa! Vou te buscar nove e meia, esteja pronta ou te levo de pijama mesmo.
Revirei os olhos. Que grosso. Ele se despediu com um “tchau” rápido e desligou na minha cara. Que vontade de matá-lo. Levantei da cama e fui para o quarto dos meus pais. Minha mãe estava na cama lendo um livro tão velho que eu chutaria ter sido publicado no século XVII.
— Mãe! – chamei. – Linda do meu coração!
— Pode – falou.
Dei pulinhos de alegria e me deitei ao lado dela.
— Você é demais! Como sabia que o que eu ia pedir?
— Também já fui adolescente, querida. Sei que quer ir comprar sorvete com seu pai. Ele também queria te levar, mesmo que esteja de noite, pode ir.
Comecei a rir. Já devia saber que ela não tinha a menor ideia do que eu queria.
— Na verdade, é uma festa. – Sorri.
Ela olhou curiosa para mim através dos óculos.
— Uma festa? Tem que levar presente? Posso embrulhar pra você.
Não me aguentei e ri. Será que minha mãe era como eu na escola? Bem provável que sim.
— E você vai assim? É uma festa do pijama?
— Não! Eu ainda não me arrumei. Não é de aniversário, é de... É de festa só, sabe?
— Festa de festa? Parece ser péssimo.
— Não é. É que eu não beijei o Daniel ontem...
Ela até se sentou quando eu o citei. Minha mãe era fissurada em romances e adorava qualquer fofoca de namorado que contassem para ela. Não era à toa que estivesse totalmente feliz com meu primeiro relacionamento.
— E o Allan e a Ísis?
Quase a mandei ficar quieta, não aguentava mais esse papo do meu melhor amigo e minha nova amiga juntos.
— Ah, eles foram legais, se beijaram o encontro inteiro.
— Então o problema é com vocês?
— Eu disse que não estava preparada!
— E hoje está?
Pensei sobre o assunto. Não tinha parado para pensar que talvez eu o beijasse naquela festa, a ideia de um beijo era muito distante para que eu pudesse sequer ver como seria. Eu não tinha maturidade nenhuma para aquilo, não era o momento e eu simplesmente achava aquilo inútil naquele momento da minha vida. Se eu estava preparada? Óbvio que não, mas minha mãe parecia tão feliz em ver sua filhinha enfim crescendo e aprendendo a ser gente que não pude contar a verdade.
— Sim! Sinto que vai ser hoje!
Ela sorriu. Seu sorriso era tão calmo que descarregou toda minha mente. Eu agradeci mentalmente pela presença dela e por todas as coisas que ela fez por mim.
— Então você pode ir. Vá, querida, se divirta!
Fiquei feliz. Seria minha primeira festa. Bem, a primeira onde eu iria me divertir de verdade em vez de ficar olhando os filhos das minhas tias enquanto elas bebem e choram pela escolha que fizeram. Eu iria aproveitar cada segundo!
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