Faking

20 Capítulo XX


Notas iniciais
Chegamos ao vigésimo capítulo e eu só tenho o que agradecer por todas as coisas que vocês já me disseram! Fico muuuuito feliz com todo o carinho que recebo e quero deixar aqui o meu MUIIITOOO OBRIGADAAA por tudo! Esse capítulo ficou enorme pra deixar bem claro que AMOO vocês (até os que vão perder um tempão lendo em voz alta :v) e dar um presentinho por todos os dias que fiquei afastada ♥ Mais uma vez, obrigaaada! BJÃÃO PRA TEMPEST, você é demaaais ♥ ♥

A festa estava quase explodindo. Era na casa de algum dos amigos ricos de Daniel e, mesmo que a casa fosse enorme, tantas pessoas não cabiam e havia gente em tudo quanto é lugar. Daniel deixou o carro longe da casa, pois não tinha lugar para estacionar perto. Eu disse que deveríamos chegar cedo, mas ele insistiu que “nunca se deve chegar cedo numa festa”. E agora estávamos andando toda uma esquina, escutando sons abafados do que seria a real aglomeração de pessoas.

Eu não podia conter meu nervosismo. Pra falar a verdade, eu não queria estar ali. Estava fazendo o maior esforço para ir com Daniel só por que ele pediu. Eu achei que teria que fazer algo para ele depois do que ele fez por mim indo até o teatro e fingindo por tanto tempo. Porém, uma parte de mim queria fugir e eu me perguntava o porquê dele querer tanto que eu fosse, já que o natural seria que ele me quisesse longe. Afinal, seria muito mais fácil fingir se eu não estivesse por perto.

Por outro lado, aquela seria minha primeira festa de verdade e isso seria bom para aumentar minha popularidade. Eu não seria popular se continuasse em casa dormindo e revisando textos acadêmicos. Isso não é nada legal. Faria bem conhecer novas pessoas, me soltar, dançar um pouco...

A festa estava perto e meu coração batia forte no ritmo da música. A música estava alta. Imaginei como seria quanto chegássemos lá e nem precisei pensar por muito tempo: depois de uma cerca viva, lá estava a casa imensa que abrigava por algumas horas adolescentes bêbados e sedentos por diversão.

Respirei fundo. Daniel percebeu meu nervosismo e me deu a mão. Eu não sabia dizer se ele só estava entrando no clima e fingindo ou se se importava de verdade.

— Eu acho que mudei de ideia – cochichei, olhando para todos que estavam na grama ainda, com copos descartáveis e roupas curtas e justas conversando com seus simpatizantes.

— Não acha – rebateu Daniel, sorrindo para alguém como não sorria para mim. E eu nem poderia pedir esse sorriso.

Andamos em silêncio até um grupo de pessoas perto da porta. Eram três pessoas que fechavam um círculo para uma conversa que parecia muito importante, já que nem nos perceberam chegando tamanho interesse. Daniel tocou o ombro de um garoto e o círculo se abriu para nós. Nada nunca se abria para mim, nem aquelas portas de shopping que abrem sozinhas; eu tinha que pular na frente delas. Daniel era tão importante, tudo era tão fácil para ele. Quem sabe eu não conseguia ser assim também.

Sorri para as pessoas. Eram dois garotos bem mais altos que eu e uma loira linda. Ela ficou surpresa em ver Daniel e foi a primeira a abraçá-lo. Daniel soltou minha mão e aparentemente esqueceu que eu existia.

— Olha se não é a Carol! – um dos garotos disse com uma felicidade esquisita.

Olhei para trás rápido para ver se ele não estava falando com outra pessoa e, quando constatei que era comigo mesma, sorri da mesma maneira. Eu não sabia nem o nome dele, o que eu diria?

Ele me deu dois beijinhos, um de cada lado da bochecha, e um abraço demorado. Logo depois, o outro menino fez a mesma coisa, mas muito mais rápido. Ele não me conhecia, tinha certeza.

— Grande Daniel! – disse o garoto ágil. Os dois fizeram um cumprimento esquisito que apenas garotos entenderiam. Começaram uma conversa onde nenhuma palavra pôde ser ouvida por mim pelo som alto da música dentro da casa.

A menina veio me cumprimentar, mas não sem antes me olhar de cima a baixo. Encolhi-me de vergonha. Ela usava um vestido justo e curto, que a valorizava muito bem, e eu ainda estava de casaco. Que vergonha, Caroline.

— Oi! – exclamou, erguendo os braços e me envolvendo num abraço.

— Oi! – falei, me perguntando o que gente normal faz numa situação dessas. Queria que Ísis estivesse ali.

Ela me soltou e olhou para mim com um sorriso.

— Você está linda!

Corei. O que dizer? Não sei receber elogios...

— Obrigada! Você também! Essa cor caiu muito bem em você!

Ela sorriu de orelha a orelha e fez um gesto com a mão que nem que eu tentasse por mil anos eu entenderia.

— Já fazendo amigos, Carol? – Daniel se colocou ao meu lado sorrindo. Percebi logo que aquela garota significava algo para ele. Ele não parava de olhá-la.

— Você sabe como sou boa nisso – zombei, alto o suficiente para que a menina escutasse.

— Sua namorada? – perguntou a loira, com cara de quem não estava entendendo.

Daniel demorou a responder e eu me impus, já com raiva do que ele poderia ter feito se eu não estivesse ali.

— Claro – falei. E completei com uma apresentação: – Caroline Campbell.

Ela não pareceu feliz. Talvez estivesse tentando pegar Daniel há semanas e agora ele tinha aparecido com uma namoradinha. Deve ser bem frustrante ter como única preocupação na vida o próximo garoto que vai beijar.

— Parabéns – falou ela, ainda sem olhar para mim.

A conversa telepática que Daniel e a loira estavam tendo parecia bem agradável. Tanto que decidi cortá-la. Puxei Daniel para dentro da casa. Ele não protestou. Sabia o bem o que estava fazendo. Ele é tão imbecil que me dá raiva.

O lado de dentro da casa era mil vezes mais exuberante que o jardim. E trezentas mil mais cheio. Era tanta gente que eu tive dificuldade para andar. Chegamos à recepção – uma sala longa com uma escada à direita depois de uma porta para outra sala e com mais duas saídas para salas ainda maiores, uma à frente e uma à esquerda. Sem pensar, fui andando para frente. Só queria fugir daquela garota.

Passamos por mais uma sala, e, quando eu já estava abrindo caminho no meio daquela gente toda para qualquer lugar, Daniel me puxou e eu fui parar em cima dele.

— Pra onde estamos indo? – perguntou.

— Não sei – respondi com sinceridade.

Ele riu com desdém.

— É por causa da Emma?

— A loira? – perguntei, omitindo metade de meus pensamentos horríveis sobre o que eu achava daquela garota.

— Você sabe quem é.

Fiquei revoltada. Mal tinha chegado à festa e já queria ir embora. Não ia deixar barato para Daniel. Se ele achava que flertar com outra garota na frente da namorada era normal, eu iria mostrar o que é normal.

— Não – respondi, fingindo um sorriso confuso. Não queria começar a brigar.

Daniel acreditou e parou com a carranca. As pessoas à nossa volta dançavam e eu achei que o normal era que dançássemos também, afinal ninguém gosta de uma discussão de relacionamento no meio de uma festa. Escutei a música e segui o ritmo com os pés. Sorri para ele.

— O que está fazendo? – Ele riu.

Comecei a dançar mais, imitando todas as pessoas que eu podia ver. Nunca dancei na vida e não queria pagar um mico na frente de todos aqueles que podiam ser meus amigos no futuro, por isso copiada os passos de todos.

— Dançando! – Rodopiei.

Coloquei uma mão no pescoço de Daniel e a outra na cintura, sem perder o ritmo, e forcei-o a me encarar. Como ele era estúpido. Galinha, mau-caráter, extremamente lindo. Ele sorriu. Parei, preenchida por uma enorme vergonha. Eu não sabia dançar e certamente não sabia o que estava tentando fazer me jogando para cima de Daniel daquela forma.

— BEIJA! – gritou uma menina olhando para nós. Seu berro foi enorme para ultrapassar o som que me impedia de ouvir qualquer coisa que estivesse mais distante que Daniel.

Daniel riu para ela e se aproximou da minha orelha:

— Acho que devemos dar o que querem.

Gelei. Uma sensação de frio percorreu todo meu corpo, passando por todos os meus nervos até as mãos. Minha barriga se revirou. Eu estava nervosa. Precisava me soltar. Aquilo era uma festa, eu não podia ter um ataque de ansiedade ali.

— E eu acho que eu mereço uma bebida.

Olhei ao redor e vi uma mesa cheia de coisas pelo espelho à minha esquerda. Fui até lá sem esperar por Daniel. Tinha certeza que ele iria falar com seus amigos e eu não queria impedir, eu não ia ser o tipo de namorada chata que não deixa o cara fazer nada, mesmo que fosse só de mentirinha.

Passei por um arco enorme para ir de uma sala à outra e esta estava mais cheia ainda. Todas as pessoas dançavam com um copo na mão. A mesa estava logo ali. Aproximei-me, mas não tinha nada que eu poderia beber. Um suco de maracujá? Coca-Cola? Limonada? Quem sabe um chazinho?

— Ei! – Uma menina gritou ao se aproximar de mim e me envolver com o braço para uma dança. Ela não parecia ter os quadris no lugar pela maneira como se movia. – Perdida?

Olhou para mim. Fiquei nervosa outra vez. Ela estava visivelmente bêbada e eu não estava preparada para lidar com gente assim.

Outra menina tratou de nos separar. Ela puxou a menina bêbada e a virou para o outro lado, fazendo-a andar para longe.

— Desculpe por isso, sempre tem umas pessoas estranhas nessas festas – falou sorrindo.

Queria abraçá-la e agradecê-la de todo coração por ter feito um favor tão grande para mim.

— Você é um anjo – consegui dizer, depois de alguns minutos constrangedores de observação.

A menina riu. Seu sorriso era a coisa mais fofa do universo.

— Não foi nada, estou ajudando a manter a ordem. Eu moro aqui.

Meu queixo caiu. Ela estava usando roupas tão simples, apenas uma saia florida e uma pequena camiseta preta. Admito que achei que quem morasse naquela casa devia sair por aí com o lustre da sala de recepção na cabeça.

— Eu... Eu nunca tinha vindo aqui...

— Jura? Meu irmão sempre faz essas coisas e traz essa gente pra cá. Quer alguma coisa?

Olhei para a mesa cheia de coisas que eu não entendia. Havia coisas coloridas de neon e salgadinhos, além de potes de batata e jarras e mais jarras de um líquido rosa claro.

— Eu queria beber alguma coisa.

— Ah, claro. Você deve ser nova com essas coisas. – Ela sorriu e pegou minha mão para me levar até uma das jarras. A garota pegou um copo e o encheu com o líquido. – Aqui.

Peguei o copo e bebi um pouco. O líquido desceu pela minha garganta arranhando, mas era gostoso, tinha gosto de morango e algo de diferente.

— O que é? – indaguei bastante curiosa.

— Vodka.

Quase cuspi tudo na cara dela. Se o líquido antes estava arranhando, agora que eu sabia o que era ele tinha um efeito catastrófico na minha garganta. Tossi por três horas. A menina riu.

— Desculpa! – esclareceu ela, ainda rindo bastante. – Eu não sabia que você não bebia!

Coloquei o copo na mesa e agarrei minha garganta. Por pouco não fiquei muda. Como as pessoas conseguiam beber aquilo sem engasgar? A menina pegou meu copo e bebeu um pouco, esperei uma careta, alguma reação exagerada, mas ela só sorriu.

— Você se acostuma. – Piscou. – Vire o copo, vai ficar mais animada.

Ela me entregou aquele poço de ácido e eu já estava me vendo vomitar toda aquela tralha no vestido de alguém. Pensei no que deveria fazer. As opções eram poucas: bancar a certinha ou perder a linha pelo menos uma vez na vida. Talvez eu devesse testar a segunda opção. Virei o copo e engasguei. Minha garganta... Ela não existia mais. Fiz uma careta e a garota riu.

— Sou Riley, muito prazer – apresentou-se.

— Caroline... – Minha voz estava embargada.

— Carol, hein? Vem, vamos dançar um pouco.

Pensei no que Daniel diria se me visse dançando com uma completa estranha e cheguei a conclusão que não me importava de verdade com o que ele diria. Ele possivelmente estaria se jogando para cima daquela garota e eu não estava a fim de ver isso.

Fomos para um lugar onde eu não conseguia escutar meus próprios pensamentos. Não que eu ainda estivesse pensando. A música estava tão alta que fiquei com medo da minha cabeça estourar. Olhei para Riley e vi que ela não sentia a mesma preocupação que eu e dançava loucamente. Será que ela não estava ouvindo? Estava alto demais.

— Dance! – Berrou para mim.

Seus braços iam para o ar e ela dava pulos. Todos à nossa volta faziam o mesmo. Segui os passos de Riley. Nunca tinha me divertido tanto. Dançamos mil músicas. Em uma delas – a única lenta – Riley fingiu ser meu par e dançamos calmamente no começo só para explodir no final, contagiando todos. Em outra, montamos um trem naquela sala e eu podia senti-la atrás de mim enquanto guiava o trem por várias outras salas. Quando voltamos para a sala de antes, Riley inventou de fazer uma disputa de dança, e acabou que montamos times de acordo com nossas pulseiras de neon e dançamos que nem cabras desordenadas voltando para o cercado.

Riley era uma garota de poucas palavras, mas muitas ações. Tudo o que ela fazia me soava divertido e eu também queria testar. Ela me levou até os fundos da casa e sentamos na grama. Não muito tarde, dois meninos se juntaram a nós. A princípio fiquei desconfortável, mas percebi que Riley estava tranquila, como se soubesse de tudo sobre os garotos e confiasse neles.

— E então, Riley! Boa festa! – falou um deles enquanto se jogava na grama ao lado da garota de cabelo roxo. Ele a despenteou toda e ela o xingou de nomes que eu, até então, desconhecia.

— Quem é a garota? – perguntou o outro, de cabelo preto e uma camisa do tamanho do mundo, que certamente não era adequada para ele. Pensei que o certo a fazer era me apresentar, mas nenhum som saía. Eu estava tão tímida. – Ela é muda?

— Essa é a… – Riley fez uma careta bem feia para tentar se lembrar do meu nome e, depois de três segundos, percebi que era melhor que eu me apresentasse.

— Carol – falei, tão baixinho que não tinha certeza se ele ouviu. – Prazer.

— Não vire amiga dessa daí – aconselhou-me o garoto, com um sorriso no rosto e apontando para Riley. – Ela só faz merda. E fode os outros também. Sou Mike.

Sorri para não parecer que eu estava completamente surpresa e desesperada. Como alguém diz coisas tão incomuns sobre um amigo e ainda sorri na cara de pau? Fiquei quieta pela falta do que fazer.

— Vá à merda! – Riley pediu gentilmente.

— Deixo a passagem pra você, querida – rebateu Mike.

— Você é um idiota mesmo.

Riley revirou os olhos e sorriu. Não entendi o relacionamento afetivo deles, se fosse para descrever em uma cena seria uma guerra de pompons, já que o que um diz não afeta o outro. Aquilo era demais para que eu entendesse.

— Não devia estar curtindo a festa, Carol? – o garoto loiro me perguntou. E, sério, continuou: – Sabe, sentar na grama e olhar as estrelas é coisa de gente esquisita.

Pensei em todas as vezes que eu fiz isso e fiquei constrangida. Não consegui responder. Riley foi a primeira a desatar em risadas e rolar no chão. Mike sorriu e olhou para o chão, mas não mais que isso. O loiro me olhava com um sorriso bobo, como se quisesse que eu entendesse a piada, mas eu não conseguia.

— Somos esquisitos! – berrou Riley enquanto ria.

Decidi que ficar quieta e sorrir era a melhor coisa que eu poderia fazer. Mike começou a falar sobre algum disco indie que uma banda que ele conheceu no final de semana passado tinha lançado. Ele conhecia bastante sobre música, coisas que eu talvez nunca entenderia. Durante a conversa percebi o quão pouco eu sabia sobre as coisas. Eu poderia resolver todas as equações nas aulas, listar todas as fórmulas de física e ainda saberia menos que Mike sobre música ou relacionamentos interpessoais ou bandas indie ou até sobre as melhores lojas para se comprar uma camisa extra grande. Passei a vida toda pensando em como eu era superior por saber mais e acabei não percebendo as coisas que não sei.

— Caroline! – chamou-me uma voz irritada. De início, achei que fosse Mike me perguntando como diabos eu não conhecia NeverShoutNever, contudo, estava errada.

— Você o conhece? – perguntou Riley com raiva. Ela olhou para Daniel como se pudesse matá-lo com os olhos.

— Ah, ele é meu namorado – respondi, sem entender o motivo para tanta raiva. A confusão estava explícita no meu rosto.

Mike riu alto e se levantou, puxando Riley para cima também. O menino loiro os imitou, com uma cara séria.

— Se essa festa fosse minha você estaria longe daqui! – Riley deu dedo para Daniel e se virou para voltar para dentro da festa.

— Que porra você estava fazendo com eles? – perguntou Daniel.

Levantei-me.

— Eles me chamaram quando você sumiu. Quem era ela?

— Não se meta com ela. Estou te dizendo pra não fazer isso.

— Querido, pra começar, eu faço o que eu quiser! E segundo, me explica o que aconteceu aqui, não entendi bulhufas!

— Não é pra entender. Me escuta e fique longe dela, ou nosso trato acaba.

Parei de protestar. Não queria que nosso trato acabasse no meio da festa. Caso acontecesse, Daniel pegaria todas as meninas da festa para mostrar o quão fácil foi me largar por outras e, obviamente, ele saberia que eu não faria o mesmo. E, pela lei da sociedade machista, ele seria o galinha atraente – mais uma vez – e eu a trouxa.

— Certo. Não perguntarei mais nada.

— Ótimo. Vem, quero te apresentar pra uns colegas.

Ele segurou-me pela mão e me levou de volta para a casa. Parecia mais lotada do que antes e todos os copos que eu virei estavam começando a fazer efeito naquele momento. As luzes fortes piscando nos meus olhos foram o necessário para que uma dor de cabeça se iniciasse.

Daniel me guiou pacientemente pelo meio daquela gente, me desviando de pessoas esquisitas e me mantendo por perto. Perguntei-me se ele sabia que eu estava alterada ou tinha aquele jeito meigo pra todas as garotas que o chantageavam com uma surra.

Chegamos numa sala mais vazia. A música não estava tão alta naquele cômodo e vários sofás estavam disponíveis para se sentar. Algumas pessoas estavam lá, sentadas em grupos e conversando sobre as últimas fofocas da festa. Noutro sofá, duas pessoas se beijavam com vontade e eu fiquei com vergonha por eles. Estava tão ocupada imaginando o quão nojento devia ser enfiar minha língua na boca de outra pessoa que não percebi quando Daniel me colocou de frente para um grupo de pessoas.

— Essa é a minha namorada, Carol – apresentou-me, com uma mão na minha cintura.

— Como você mente bem! – soltei de repente, e só depois percebi o que eu tinha dito.

Perdi o filtro. Daniel me olhou com uma mistura de surpresa e confusão. Comecei a rir para disfarçar. Olhei para as pessoas e elas também estavam confusas. Que merda eu tinha feito?

— Todo mundo sabe que somos mais que apenas namorados, né? – Continuei.

— Que fofo! – exclamou uma garota loira que estava sentada no colo de um dos amigos de Daniel cujo nome eu desconhecia ou simplesmente preferia ignorar. – Vocês são tão lindos! Bem que eu tinha escutado por aí o quanto se gostavam!

— Claro, amor… – Daniel sorriu pra mim e piscou, ele devia achar muito engraçadas as bobagens que eu estava fazendo.

Daniel sorriu e me abraçou. Tentou me beijar, mas eu virei o rosto com sucesso e mantive minha boca salva de saliva alheia por mais tempo! Ele se sentou em uma poltrona que estava lá e me puxou para que eu sentasse na perna dele. Fiquei sem graça, embora aquilo parecesse comum. Olhei para as pessoas com a cara toda vermelha de vergonha, mas ninguém dava a mínima, aquilo era uma coisa normal.

Daniel começou uma conversa com o pessoal e eu dava pequenos comentários empolgados de vez em quando. A verdade era que as pessoas ali pareciam bem mais superficiais do que com Riley, era como se vivessem com medo de não agradar; eu sabia, pois eu estava exatamente assim.

Todos viraram as cabeças para a sala ao lado quando uma música começou a tocar. Eu não fazia ideia de que música era aquela, mas todos ficaram risonhos de repente. Uma das meninas dali gritou “Vamos dançar!” com tanta vontade que todos se levantaram. Menos eu. Menos Daniel. As pessoas correram para a sala ao lado e nos deixaram lá.

— Acho que a gente tinha que ir, né? – perguntei.

Olhei para Daniel, ele parecia desinteressado e não me respondeu. Levantei e fiquei de frente para ele.

— Vamos dançar, amor – pedi, sorrindo.

A bebida estava realmente fazendo efeito. Eu estava com muita vontade de me movimentar. A música era animada e todas as pessoas no outro cômodo dançavam e pulavam sem parar. Eu queria sentir a emoção de uma festa pelo menos uma vez na vida. Paola não iria nem acreditar!

— Quer mesmo dançar? – Ele se levantou e olhou para as pessoas no escuro.

— Quero! Muito! – Ri de mim mesma.

— Está bêbada?

Olhei para trás como se estivesse procurando outra pessoa.

— Bêbada? Eu? Claaaaro que não!

Ele sorriu. Seu sorriso era lindo. Talvez, só talvez, se ele não fosse tão arrogante e idiota, eu poderia cair de amores por aquele sorriso. E, quem sabe, até cair de amores por Daniel Chevark.

— Você é cheia de surpresas. Não achei que fosse ficar bêbada aqui.

— Nem eu – confessei rindo. – Vamos dançar, por favor!

Peguei a mão do meu namorado de mentira e o puxei para o cômodo seguinte. Lá estava ainda mais escuro do que quando chegamos. A mesma música tocava e parecia que todo mundo sabia a letra daquela melodia. Menos eu, claro, que só ouvia música quando meus vizinhos colocavam som alto um dia antes das provas de literatura só pra me ajudar a ir mal. As matérias de humanas sempre foram um desafio pra mim. Do mesmo jeito que sempre fui péssima em saber como me comportar num lugar transbordando de gente.

Daniel encontrou os amigos novamente e as pessoas o cumprimentavam por onde ele ia. Aquilo devia ser bom. Era o que eu mais queria. Ser reconhecida, ter amigos, é por isso que eu estava ali, no meio daquela gente toda, me forçando a ser legal com todo mundo. Abri um enorme sorriso ao perceber que estava dando certo: um grupo de meninas me chamou para conversar. Olhei para Daniel pedindo permissão e ele sorriu em aprovação. Fiquei tão animada que meu coração quase saiu pela boca. Depois de Riley, eu queria que ele me dissesse com quem conversar; eu poderia não admitir, mas Daniel sabia muito mais sobre as pessoas do que eu, e ser pega em alguma brincadeirinha sem graça seria meu fim. Queria estar com alguém que eu confiasse e ele poderia me dizer com quem.

As garotas eram divertidas. Bem, todas elas deviam ter ficado daquele jeito pelos mil copos de bebida que tomaram. Todas – sem uma única exceção – estavam bêbadas. Elas eram tão engraçadas que eu tive que entrar na onda. Era divertido estar com gente que eu não conhecia. Quando eu pensava em festas era como se eu não pudesse me divertir, agora eu via que era fácil me enturmar.

Elas começaram um jogo de dança onde você tinha que dançar para cada uma delas. Quem seduzisse mais, ganhava. Eu comecei sendo “jurada”, pois não sabia como jogar. Tínhamos três juradas e cinco dançarinas. Uma delas, Violet, de cabelo marrom e sorriso perfeito, decidiu que seria uma boa ideia dançar comigo. Ela era tão boa naquilo que fiquei com vergonha. Ela simplesmente era toda móvel. Pisquei várias vezes pra ter certeza de que todos os ossos dela estavam no lugar quando ela, em um movimento só, rebolou de uma maneira que eu não faria nem com o quadril deslocado. Ela se virou para mim sorrindo e sorriu.

— Sua vez! – ela gritou.

O desespero tomou conta. Como assim? Eu tinha acabado de começar a jogar, não sabia nem o que estava fazendo, e já tinha que dançar? Olhei em volta, as outras juradas já começavam a dançar também, disputando o resto das meninas. Estranhamente, nenhuma delas chegava perto de nós, embora pudessem trocar de parceira. Violet chegou mais perto e colocou a mão no meu quadril. Comecei a rir de vergonha.

— Faça assim – ordenou no meu ouvido. Suas mãos se moviam em direções opostas, para cima e para baixo, e minha cintura ficava confusa na tarefa de me movimentar.

Tentei de todas as formas e Violet era uma ótima professora. Se eu não dançasse bem por mim mesma, a bebida me fazia o favor. Rapidamente eu já estava solta a ponto de ser a dançarina do jogo. Violet ficou parada observando-me. Fiz exatamente o que ela tinha me ensinado a fazer e adicionei passos esquisitos que, na minha cabeça desorientada, pareciam ótimos. Violet riu e mordeu os lábios. Ponto pra Carol, já ganhei esse jogo, pensei.

Violet não ficou mais um segundo parada. Andou os dois passos que nos afastavam e dançou ao meu lado, colocando as mãos em mim. Eu já tinha começado a ficar desconfortável com a situação. Olhei para as outras garotas e três apontavam para nós. Uma delas colocou dois dedos, o indicador e o médio, na frente da boca e eu entendi o recado. Merda, merda, merda. Ela era lésbica. Menos um ponto para Carol, você é uma idiota mesmo, minha mente afirmou.

Violet estava perto demais. Tentei de todas as formas me afastar, mas ela estava realmente me agarrando.

— Não quero! – gritei.

Ela não parecia escutar. Segurou meu rosto e realmente tentou me beijar. Virei a cara a tempo e a empurrei com toda força. Não queria beijar ninguém naquela festa. Realmente estava longe de querer alguém. Beijar não era algo que eu queria. Não mesmo.

Violet foi para trás e demorou dois segundos para perceber o que estava acontecendo; justamente os dois segundos que eu usei pra sair correndo dali. Queria encontrar Daniel. Queria ir embora. Tudo parecia dar errado. Eu realmente não queria mais ficar ali. Abri espaço no meio daquela gente toda e fui para onde o grupinho de Daniel estava. E lá estava ele. Encostei em seu braço, prestes a chorar, e ele se virou para mim. Estava sorrindo e animado. Ele olhou para mim com surpresa e parecia feliz em me ver outra vez. Suas mãos foram mais que rápidas e circularam minha cintura. Ele me puxou para perto.

— E aí, como foi? – perguntou em tom de brincadeira.

— Foi horrível!

Ele se afastou para olhar meu rosto. Eu estava prestes a chorar. Não achei que as pessoas poderiam ser baixas ao ponto de forçar alguém a algo que elas não quisessem. Não queria ser amiga de gente assim, aquilo era o cúmulo. Daniel se aproximou outra vez.

— Quer conversar? – Ele parecia calmo, diferente de mim, que estava explodindo.

— Quero ir embora!

— Agora? Mas ainda está cedo!

— Por favor.

— Mas, Carol, olha as horas! Tá cedo, vamos ficar um pouco mais.

Fiquei mais irritada ainda. Ele não percebia que eu simplesmente não queria mais ficar ali? Ele tinha mesmo que insistir numa coisa que eu não queria? Ele tinha me levado para aquela festa, ele é quem devia me levar embora.

As lágrimas já estavam chegando quando alguém no meio da multidão começou com “Beija, beija, beija!” e, logo, todos estavam no coro. Olhei para cada pessoa que eu escutava com essa besteira desejando uma morte dolorosa e lenta.

— Acho que devemos dar o que pedem, né? – Daniel falou.

Voltei a encará-lo e seu sorriso transmitia calma. Ele parecia mesmo querer fazer aquilo. Que coisa mais ridícula! Fiquei mais irritada. Ele olhou para mim com expectativa.

— Mas não mesmo!! – Neguei. Eu definitivamente não queria que meu primeiro beijo fosse ali naquele lugar com aquelas pessoas. Na verdade, eu nem queria meu primeiro beijo. Contato físico não é uma coisa atraente de onde eu vim.

O coro continuava e as pessoas ficavam cada vez mais irritantes com o passar do tempo. Um cara de repente passou atrás do Daniel e o empurrou para cima de mim. Daniel ficou mais perto do que jamais devia. Minhas bochechas queimaram de vergonha e a mão dele na minha cintura me apertava de uma maneira boa, mas que eu não gostaria naquele momento.

Ele sorriu para mim e os gritos estavam mais altos. Nem mesmo eu sabia o que fazer. Eu sempre tive certeza de tudo, contudo, naquele momento, eu só queria sumir. Estava me sentindo mal, horrível por dentro, e Daniel continuava com aquele sorriso ridículo no rosto. Para terminar com a pior noite da minha vida, Daniel se aproximou mais e, rapidamente, encostou os lábios nos meus. Foi como levar um tiro. Foi como se, por todos esses anos, eu tivesse construído um castelo pra proteger algo que era realmente importante pra mim e ele me tirou tão facilmente… Foi um roubo. Um assédio. Foi horrível.

Quando seus lábios se afastaram e eu vi em seu rosto a naturalidade quase absurda. Fiquei mais chateada do que estava antes. Toda a empatia que eu tinha por ele desapareceu. Eu já não o aturava mais. Quando a mão na minha cintura se tornou mais fraca, percebi que era hora de ir embora de uma vez por todas. Afastei-me rapidamente e comecei a correr.