Faking
18 Capítulo XVIII
Acordei e fui tomar café da manhã. Mamãe sempre fazia biscoitos frescos nos sábados para comermos com leite. Dessa vez, os biscoitos eram cobertos de chocolate e tinham formato de gotas d'água. Minhas primas achavam divertido cozinhar para seus maridos de mentirinha quando éramos crianças. Eu também achava divertido cozinhar, mas para mim. Afinal, desde criança sabia que eu não era mordomo de ninguém.
Comi os biscoitos elogiando os dotes culinários da Sra. Campbell. Ela sempre foi boa em tudo. Me admirava que, mesmo com todas as habilidades que tinha, ela ainda ficava presa ao mundo dentro de casa.
Meu pai me deu bom dia, sorrindo e uniformizado. Meu pai trabalhava todos os dias pela manhã e chegava tarde para compensar a mamãe. Mas ele não reclamava, amava ver sua esposa feliz e agradecia a cada segundo pela comida que ela fazia.
Subi para o quarto e escovei os dentes. Já estava me preparando para revisar a matéria de trigonometria quando minha mãe me chamou animada.
— O que foi? — gritei sem nem me mexer. A cama parecia confortável demais para sair.
— Visita pra você! — gritou.
Finalmente! Até que enfim Paola tinha deixado de lado essa ideia ridícula de me ignorar a todo segundo e foi até minha casa pedir desculpa. Interessante como ela também tinha mudado naquela semana: a Paola que eu conhecia nunca pediria desculpas.
— Manda subir! — pedi animada por poder enfim conversar com minha amiga sem que ela ficasse revirando os olhos a todo segundo.
Tinha tanta coisa que eu queria falar com ela. Coisas que eu não entendia, mas ela certamente poderia me explicar. Paola era o tipo de menina que, mesmo que não tivesse nenhum relacionamento, entendia tudo sobre qualquer cara. Era ela quem adivinhava exatamente o que os caras pensam, a incrível mãe dos relacionamentos. E, por ser tão boa com relacionamentos interpessoais, ela me explicaria o porquê da fala de Daniel na noite anterior. Mesmo sem querer, o que ele disse ainda pesava pela minha cabeça e me martelou a noite inteira.
Ouvi passos perto da porta e comecei a falar para que Paola não tivesse chance com suas lições de moral.
— Antes que você conhece com o papo de "isso é errado, Carol" — os passos pararam na frente da minha porta -, eu queria adiantar esse discurso e dizer que...
Soltei um grito ao me virar. Não era Paola e sim Allan. Rolei pela cama e cobri-me rapidamente.
— ALLAN! — berrei. — Me avise pelo menos!
— Desculpe!
Abri uma fresta no meio das cobertas e olhei para ele. Allan estava de jeans e com uma camisa vermelha e chamativa, do jeito que eu nunca o vi usar, mas nada me chamou mais atenção que seus óculos. Fazia tanto tempo que eu não o via de óculos.
— Eu juro que não vi nada!
Fiquei completamente vermelha. Allan era um péssimo mentiroso, assim como eu, e eu podia ver pela marca rubra em seu rosto que meu pijama não me cobriu da maneira que devia.
— Não olhe! — falei.
Allan virou o rosto, já com os olhos fechados.
Levantei da cama num salto e peguei uma camisa na gaveta. Que situação mais embaraçosa. Coloquei uma calça de moletom qualquer por cima do pijama e sentei na cama outra vez.
— Já pode olhar...
Ele abriu os olhos me examinando com cuidado.
— Não foi minha intenção, eu juro!
— Não tem problema, eu achei que fosse a Paola. — Sorri, um dia eu riria alto daquela triste hora da minha vida, porém naquele momento eu queria sumir.
Allan entrou no quarto e se sentou na cama.
— Desculpe por vir tão cedo, mas é que meu pai está preocupado com as matérias que não peguei daqui.
— Ah, sim, pode pegar meu fichário.
— Obrigado, tentei pedir para a Paola, mas ela usa caderno e disse que iria fazer anotações nesse fim de semana.
— Eu só vou tirar umas folhas do dever de matemática pra segunda e o resto você leva.
— Certo.
Fui até minha mochila e peguei o fichário. Peguei dois cadernos no armário e entreguei para Allan.
— Não acho que você vá usar esses cadernos também, mas eles têm anotações importantes sobre várias coisas.
Sentei e comecei a mostrar todas as páginas onde as divisões para as matérias se encontravam. Parei quando percebi que ele não estava dando a mínima para o que eu estava falando.
— Se consegue se achar sozinho, não vejo motivos para te explicar nada – falei sorrindo.
Ele pareceu sair de um transe e olhou para mim com surpresa. Tentei imaginar no que ele poderia estar pensando e primeira coisa que veio na minha cabeça foi Ísis. Perguntei se havia algum problema com os dois e ele me respondeu que não com um sorriso falso no rosto. Conhecia Allan o bastante para dizer que ele estava mentindo.
— Quer me dizer o que está acontecendo? – perguntei.
Ele se virou de frente para mim.
— Nós não terminamos de conversar ontem – lembrou.
Minha mente voltou ao momento em que estávamos falando das mudanças nas nossas vidas e Daniel apareceu para me pedir explicações sobre o que aconteceu no refeitório. Eu deixei Allan na mão...
— Certo. Vamos começar de onde...
— Carol, eu preciso perguntar: desde quando vocês namoram?
— Duas semanas – respondi, lembrando-me do acordo entre mim e Daniel.
— Vocês parecem tão bem juntos.
Ri. Sério que as pessoas acreditavam naquilo?
— Você e Ísis também. Agora podemos voltar naquela parte onde eu te mostro as divisórias pra você não ficar perdido depois?
— Não, calma.
Bufei. Allan era inteligente o bastante para achar furos na minha farsa e eu não queria que ele estragasse tudo. Eu estava quase conseguindo, só mais três semanas e eu seria conhecida e ninguém mais me machucaria outra vez.
— Quando isso tudo começou? – continuou.
— Nos encontramos na biblioteca – respondi na hora, como um verso decorado do meu poema favorito. – Começamos a conversar e agora deu nisso. Incrível como a vida é absurda, não?
Ele fez que sim com a cabeça, encarando o chão. Já estava achando aquele papo irritante. Não entendia o porquê de ele estar tirando as próprias conclusões da minha vida e não estar me falando nada. Allan sempre me disse tudo, me sentia mal por finalmente ter meu amigo de volta, mas pela metade...
— Minha vez de perguntar. Você e Ísis, como começaram?
— Internet – resumiu.
Não era o que eu queria ouvir, mas doeu como se eu tivesse tido todos os detalhes. Ela estava perto dele quando eu tinha sumido... Eu parei de falar com ele antes mesmo dele ir embora e ela não, ela estava lá por ele. Talvez eu fosse mesmo uma péssima amiga.
— Comecei a conversar com ela depois de ir embora – Allan contou. Tive vontade de acertar a cabeça dele com um taco de beisebol e falar que tinha um mosquito nele. – Ela disse que você a fez terminar com Ian.
Senti-me envergonhada. Então Allan sabia de tudo o que eu falei pra ela. Provavelmente ela tinha chorado no ombro dele por horas e, pior, talvez ela, e somente ela, fosse o motivo para ele ter voltado agora.
— Eu... Eu não quis ser tão rude – desculpei-me.
— Não tem problema, eu não achei que pudesse falar pra ela as coisas que você disse. Ele era um babaca mesmo, mas ela o amava tanto que eu não poderia falar aquelas coisas. Você fez um ótimo trabalho.
— Aposto que gostou, abri caminho pra você, não?
Assim que terminei aquela frase tampei a boca. Que diabos eu tinha dito? Ele olhou para mim com raiva.
— Não é por isso, Caroline. Mas, se quer saber, abriu sim.
Foi como levar uma facada. Preferiria que alguém me acertasse com um taco de beisebol do mesmo jeito que, há poucos minutos atrás, eu pensei em fazer com Allan, do que ouvi-lo me dizer aquelas palavras. Cavei minha própria cova sem saber.
— Acho que eu já vou...
Ele se levantou com o fichário e os cadernos que ofereci e saiu do quarto. Era o meu feitio ir atrás dele, mas eu simplesmente não estava aguentando mais ouvi-lo falar sobre a Ísis e ter algo no nosso caminho todas as vezes que tentávamos manter uma conversa.
Joguei-me na cama enquanto ouvia a porta da frente abrindo e fechando.
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