Faith
2 Arco 1 – Segundo episódio – Andarilho
Depois de mais uma noite fria, Lucas acordou com o cantar dos pombos e das moscas, que perambulavam pelas caçambas de lixo, procurando algum treco que fosse comestível. Levantou-se e, antes de acordar sua companheira, olhou profundamente para o rosto dela, passando a mão nas suas sobrancelhas, com um toque afetivo, carinhoso e talvez amoroso. Com leveza ele sussurrou nos ouvidos dela:
– Ei... Ei... Acorda, já é manhã!
Como uma flor desabrochando, ela abriu seus olhos, mirou-os para a cara de seu companheiro e deu um leve sorriso. Logo após, levantou-se e olhou para sol, espreguiçando e dizendo:
–Ah! Como é lindo esse sol, não é, Lucas?
– É verdade. Pena que a maioria das pessoas não percebe essa beleza. Talvez um astro tão grande como esse pudesse descongelar o coração desse povo, dar um pouco de calor e luz aos espíritos desses seres. Eles estão precisando...
– Eles não vão admirar o sol, a cidade os priva. A vida aqui é corrida, automática, não tem tempo para filosofar e contemplar a natureza, eles necessitam ganhar dinheiro. — Falou Gaby, dando uma risada sarcástica e continuando a mirar a estrela.
Enquanto admiravam a beleza natural que estava exposta naquela manhã, Lucas percebeu que algo se aproximava dele, fazendo um som estranho, parecido com o bater de latas no concreto. Olhou para trás para verificar o que era aquele ruído bizarro, que para sua alegria não passava do senhor que conhecera na madrugada, carregando seu saco cheio de latinhas, prontas para serem vendidas e convertidas, no mercadinho, por um pão com café preto. Exprimindo um ar de felicidade, o garoto disse:
– Senhor! Como está? Bom dia!
– Estou bem, guri. Não sabia que estava tão próximo a mim! – disse contente o velho morador de rua — Isso é bom, quero convida-lo para tomar um café comigo, aceita?
– Fico lisonjeado! Mas o senhor tem dinheiro suficiente para nos pagar o café da manhã?
– Para tudo dá-se um jeito. Se você andar comigo, juro que não vai morrer de fome, e isso já não nos basta? – Falou o senhor, meio eufórico.
Naquela hora, Lucas olhou para o céu, e pensou:
– Será que esse mundo está realmente condenado? Porque quando estou com esse senhor me sinto aliviado e seguro? Será ele o meu Deus? Será... – E as idéias fluíam na mente do jovem menino.
Depois de um momento reflexivo e cheio de sentimentos, Lucas respondeu, exaltando uma aura brilhante, límpida:
– Confio plenamente em você, senhor. Sei que se estou contigo, estou com Deus! – Disse ele, sentindo que agora tinha encontrado algo para se apoiar, seguir. Como uma religião, de certo.
– Ótimo, então vamos indo, porque a caminhada é longa. Já lhe aviso, esteja preparado aos olhos humanos e seus julgamentos. – falou o senhor, referindo-se às pessoas que se espalham pelas ruas paulistanas, no período da manhã.
Lucas não tinha uma boa noção de cartografia, posto que vivera boa parte da sua vida no hospício, diferente daquele velho catador de latinha, que ao andar pelas ruas, avenidas e becos paulistanos, parecia estar andando na sua própria casa.
Depois de alguns minutos de caminhada, eles saíram das vielas daquela periferia onde estavam e chegaram a um lugar mais urbanizado, cheio de carros, prédios, e o que mais assustava o protagonista dessa história, cheio de pessoas.
Com um andar meio tremulo e amedrontado, ele caminhava pelas avenidas e via nos olhos daqueles humanos, que pareciam juízes com seus pequenos martelos de madeira, prontos para aplicar seus julgamentos, os ferirem com as palavras e até mesmo com os olhares, que chegavam a eles com um sinal de desprezo. A tradução daquelas miradas humanas foi a pior possível. Lucas se lembrou da camisa de força, que tanto usara no manicômio. Ele pensou:
– Me sinto oprimido, preso, sem movimentos. É tão parecido com a camisa de força. Que pressão é essa que me faz ficar tremendo desse jeito? Creio que estou na penumbra ideológica humana... Onde está a luz no fim do túnel?
Nesse mesmo momento o senhor chamou a atenção do garoto falando:
– Ei! Tá com a cabeça longe? – e com um sorriso caloroso continuou – Não tenha medo, você deve se adaptar ao ambiente, guri! Esqueça as pessoas a sua volta, porque senão você vai se afogar no sofrimento. Estou aqui, sou teu amigo, vou te ajudar no que for preciso.
Depois de ouvir aquelas palavras, Lucas achou a luz no fim do túnel que tanto almejava. A luminosidade que poderia dissipar parte da penumbra humana; a amizade. Com um sinal de muita felicidade e, agora, menos tremulo, olhou para o senhor e para Gaby, deu um belo sorriso e continuou a caminhar até o mercadinho.
Enquanto tomava uma caneca de café preto naquele lugar humilde, ele refletiu e observou que o mundo no qual ele estava inserido poderia se relacionar com o conceito darwinista de evolução, ou seja, os mais adaptados às realidades impostas em sua época, seja no absolutismo europeu, seguindo as vontades absolutas do rei, ou no caráter opressor e autoritário da ditadura brasileira, sobreviveriam e estenderiam a sua linhagem familiar.
Mas a mais importante conclusão que teve foi que se tivesse fé naquele senhor, naquela amizade, poderia enfrentar o leão de cada dia, que mesmo com o rugido e porte intimidador, não seria capaz de dissipar a nova luz que acabara de descobrir. Agora, mais do que nunca, queria mudar a sua realidade e a daquele senhor. Pobre senhor sulista, sábio e companheiro, barbudo e imundo, simples e acolhedor.
Deixando escapar o seu pensamento em voz alta, disse:
– Fé, agora sei o que és...
Percebendo que estava pensando em voz alta, voltou a sua linha de pensamento silencioso, terminando a oração que iniciara:
– És a luz que falta nesse mundo.
Terminando assim sua linha de raciocínio.
Fale com o autor