Faith

3 Arco 1 – Terceiro episódio – O cortiço


\"\"

Depois de um café da manhã barato, porém carinhoso, o casal, mais o senhor, foram andar pelas ruas, catando materiais recicláveis, como já era de costume para o velho homem. A felicidade no rosto do garoto era evidente. Seu sorriso, meio amarelado e com vestígios de cárie, lançava àqueles que o viam, um ar de uma alegria celestial, divina. Ele até esquecera de seus problemas com os homens, que continuavam olhando-o e, consequentemente, julgando-o.

Quando o sol já estava se pondo, o velho sulista disse ao menino:

– Já é tempo de buscar o nosso refúgio de cada dia. Vamos antes que o sol se ponha.

Obedecendo ao senhor, que tinha um sotaque meio gozado, eles foram procurar um lugar para passar a noite. Para a surpresa de Lucas, o seu novo amigo já tinha um lugar em mente, dizia que aquele era o local perfeito para passar a noite e para conhecer boas pessoas, pessoas de bem. A caminhada foi longa, eles saíram do centro até um bairro cheio de casebres improvisados, onde as pessoas vestiam trapos que até pareciam pano de chão. Não que ele pudesse falar algo, já que estava fedendo à carniça, parecera até um cachorro vira-lata.

– Cachorro vira-lata – pensou o garoto, dando risadas – só falta às pessoas falarem “Sai daqui!”, “sai!” e “Xô!” para mim. – continuando suas gargalhadas, mas sabendo que aquilo já acontecia, mas não de uma forma verbal, ou que ele conseguisse ouvir.

Após a longa caminhada, eles chegaram a uma espécie de uma vila, composta por diversos cortiços. Era incrível a engenhosa sabedoria daquele povo, tanto para fazer os famosos “gatos”, que nada mais eram que ligações irregulares de energia elétrica, quanto no despejo do esgoto, que mesmo sendo a céu aberto, tinha uma lógica sistemática de despejo. Eram acolhedores, mesmo que pobres; eram quentes, mesmo não tendo agasalhos de lã.

– A linda sensação de humildade dessas pessoas me faz sentir acolhido, parte do bando- disse Lucas ao senhor

– Essa é a logica, guri. As pessoas estão esquecendo os nossos valores biológicos. Vivemos em sociedade, juntos, um ajudando o outro, a simples lógica do conjunto. Mas o individual está prevalecendo. Egocentrismo maldito! – respondeu o senhor indignado com aquilo.

– O governo, para contribuir, ainda reprime esse povo, tornando-os mais individualistas ainda! “Cada um deve pagar pelos seus atos, e cuidar da sua vida e sua família, pelo bem da nação”. Cadê a lógica do principio social nisso tudo? – Questionou Lucas, que acabou ficando sem resposta.

Lucas percebeu naquele momento que aquele provérbio alemão: “O ar da cidade torna o homem livre” não era bem assim. A imprensa estava sendo abafada pela ditadura, aqueles que vão contra os ideais do governo são exilados ou mortos, então, cadê a liberdade?

Logo após os primeiros cumprimentos e conversas com os habitantes daquela vila, o velho senhor disse para eles irem para a casa do amigo dele. Não era muito distante da onde eles estavam, alguns passos e já chegaram. Chegando a casa, o sulista deu alguns socos na porta e gritou:

– “Ae ,Chicão! Ae ,Chicão!” Abre a porta aqui, cavalo! Abre logo que “tá” ficando frio!

Depois de alguma insistência por parte do senhor, um homem barbudo, de cabelo preto crespo, todo vestido de fiapos, com uns pares de dente na boca, olhou para eles e disse:

– Mas você me tenta, velho. Cabra chato!

Logo após o curto diálogo, o homem estampou um sorriso no rosto e começou a dar gargalhadas, junto com o senhor do sul. Depois de um forte abraço entre os dois, o homem os convidou para entrar.

A casa era simples. Feita de tábua e chão batido. A luz era à base de vela e lampião. Dava para contar os móveis do homem com os dedos das mãos. O homem que os atendera chamava-se Francisco, que era também um fruto da migração para São Paulo em busca de uma vida melhor, que acabou não achando. O homem passou horas falando de sua vida para todos do grupo, ou seja, falou das suas dificuldades, sua miséria, sua esperança, seus amores, sua família que estava no nordeste, enfim, muita coisa. No final da noite o homem os convidou a se juntar a uma roda de fogueira, e assar umas batatas doces que havia comprado. O convite foi prontamente aceito.

Lucas passou a madrugada naquela fogueira, e não havia de estar mais feliz. Ele olhava para Gabi que se sentia muito contente por estar no meio daquelas pessoas; olhava para o velho sulista que conversando com o Francisco, dava aquelas belas gargalhadas noturnas; olhava a luz da lua, a luz do fogo, a luz da vela, e a luz que somente a humanidade consegue produzir, a luz do convívio e do afeto.

Para finalizar a noite, o senhor nordestino cantarolou uma música que ele achava engraçada e de que gostava muito, que acabou grudando na cabeça de todos a sua volta:

– Eu sou a lâmpida.E as muié é as mariposa.Que fica dando vorta em vorta de mim.Todas noite só pra me beijá [...] – cantarolava o senhor, dando risada ao mesmo tempo que cantava, e alegrando o povo na roda da fogueira.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.