Faith

1 Arco 1 - Primeiro episódio – Contato com a noite


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A noite na capital paulista corrói a todos que andam pelos seus becos e provam da garoa fria, que transforma qualquer homem de ferro em mera ferrugem. Somente esses que experimentam do crepúsculo sabem o que realmente são os humanos, e sua maldita perversidade.


– Acho que teimamos tanto que achamos Gaby. Ali está nossa cama de hoje, disse Lucas a sua fiel companheira, apontando seu dedo para algumas caixas de papelão.


O ato de deitar-se já trazia a ele certa atenção, fruto de seu passado conturbado. Vivera praticamente toda a sua vida rodeado de psiquiatras, que o apontavam como um demente, um ser que deveria viver longe do resto da população, uma ameaça à vida dos outros civis. Já que sempre esteve isolado, adquiriu uma capacidade de ver o mundo de outra forma e, nesse momento, neste exato momento, ele realmente começa a ser diferente do resto, pois começa cada vez mais a se distanciar da fila que a burocracia e o Estado repressor brasileiro nos impõem, que nos torna seres monótonos e “adestrados”, prontos a fazer o que eles precisam, e aceitar o que lhes foi dito.


Por volta das três horas da madrugada, Lucas ouviu estranhos ruídos. Levantou-se e pôs-se atento, a fim de descobrir a origem do barulho que tanto o incomodava. Seguindo os sons ele chegou a uma viela, uns 5 metros de onde estava dormindo e viu algo que realmente o deixou intrigado. Observou um senhor dormindo na rua, rodeado por ratazanas que se deliciavam com os restos de alimento, deixado pelos sacos de lixo e talvez pelo vento, quem sabe. Naquele momento ele viu o quanto um roedor pode ser parecido com um ser humano. Ambos tinham o mesmo nicho e a podridão do odor deles era praticamente igual.


– Acho que a ratazana seria menos julgada que esse senhor, posto que ela é um animal, e esses são seus hábitos naturais — ele pensou — não preciso saber da história desse senhor para saber o que ele passa no dia a dia, é tão visível.


A cara suja e pálida daquele senhor, que se enrolava em umas folhas de jornais para tentar conter o máximo de seu calor possível, mostrou para Lucas que o humano não deixou de ser um animal, independentemente de suas conquistas cientificas, políticas, etc. A buzina dos carros e dos bondes não deixava de ser um rugido, rugido esse que tenta mostrar que a cidade não deixa de ser uma selva, há a competição no dia a dia, há a presa e o predador, há aqueles que prevalecem sobre o outro, e o mais importante, que todos acabam sendo decompostos pelo mesmo ser e acabam virando a mesma coisa no final das contas, composto da terra.



Depois de uma reflexão sobre aquela cena, Lucas gentilmente afastou os roedores do senhor, que mesmo com a sutileza do garoto em tentar fazer o menor barulho possível, acordou. O morador de rua, um pouco assustado, olhou para o menino e soltou algumas palavras, mesmo gaguejando pelo frio:


– Guri, o que veio fazer aqui? É um trombadinha?


– Não senhor. Vim só espantar as malditas ratazanas que o rondavam – respondeu Lucas


– Nossa, já estava desacostumado com a gentileza de alguém. Essas pessoas da cidade estão cada dia mais frias, sem coração. Custa alguém me dar um pedaço de pão...


– Sei disso senhor. Vivo na rua também. Me conte, de onde você veio e como parou aqui, nesse beco frio?


– Uma longa história, uma longa caminhada. Vim do sul, em busca de emprego, mas acabei não achando; fiquei sem dinheiro, porque gastei tudo na viagem até aqui, e acabei virando um morador de rua. É, é isso mesmo. – Respondeu balançando a cabeça.


– Entendo, mas o senhor não tentou voltar para sua terra natal?

Dando uma leve risada o senhor respondeu:


– Quando você entra na cidade, percorre seus becos, cheira de seus odores, vê suas podridões, você não sai mais. É como uma prisão, não há formas tão fáceis de sair. Você precisa de dinheiro, bufunfa!


– Realmente, o capital move o céu e terra – falou Lucas, relembrando das atitudes da igreja ao longo dos séculos.


– Pois é. Bom, vou tentar descansar um pouco mais, antes do amanhecer. Mas lembre-se garoto, você não está num lugar para brincadeiras, as pessoas são capazes de tudo, inclusive atitudes das mais cruéis e desumanas. Boa sorte – despediu-se aquele velho do garoto, com um sorriso no rosto. Logo após, se deitou e adormeceu.


Lucas estava feliz por ter encontrado aquele senhor e conversado um pouco, mesmo com seus problemas de socialização, dos quais tanto os psiquiatras falavam. Ele voltou para o beco onde estava antes com sua companheira e ,com o coração um pouco mais quente pelo contato humano que acabara de ter, deitou-se novamente no papelão, tentando vencer o frio da noite, que consumira tanto a vida daqueles que viviam nas ruas.