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46 Capítulo 46 — Voz.
Notas iniciais
Capítulo 46 — Voz.
— Que saco, já acabou? — A garota reclamou. — Esses baseados não duram nada...
— Isso não significa que você está mais viciada?
— Não, significa que eu tenho um primo guloso que tragou ele todo.
— Theodore! Elizabeth! — Gioconda batia na porta do quarto. — O bolo está pronto!
— Já vamos! — O garoto respondeu.
— Espera um pouco, Theo. — A prima remexeu em sua bolsa. — Aqui, usa isso.
— O que é?
— Colírio, cinco gotas já bastam. — Riu. — Se os seus olhos estão vermelhos, imagine os meus.
— Pronto. — Piscou, enquanto limpava algumas gotas que escorriam. — Quer que eu pingue em você?
— Não precisa. — Tomou o colírio em mãos. — Sou profissional, meu bem.
— Desculpa aí. — Falou, erguendo as mãos. — Será que ela vai perceber?
— Acho que não, abri as janelas para o cheiro sair.
— Mas convenhamos que as janelas do porão não são tão grandes, né, Liz. — Observou. — E o cheiro na roupa?
— Ela não vai perceber, relaxa.
— Então vamos logo, porque eu quero comer bolo.
...♕...
Estava quase anoitecendo quando Theodore se despediu de Elizabeth. E após a governanta encostar a porta de entrada, o garoto foi pego de surpresa com uma pergunta repentina:
— Sei que posso estar sendo inconveniente com as minhas curiosidades, Theo, mas o que você e sua prima faziam no seu quarto, trancados?
— Conversando.
— Só?
— Só.
— Sei... — Estreitou os olhos. — É um pouco estranho, mas não posso me intrometer, afinal.
— Você já sabe que eu sou gay, o que mais poderíamos estar fazendo?
— Fumando maconha, talvez. — Afirmou, com clareza. — Não tente negar.
— Como você soube? — Theodore perguntou, após uma breve pausa.
— O cheiro, os olhos de vocês, a fome absurda que estavam.
— E-Eu só aceitei, eu não costumo...
— Não precisa se explicar, eu não vou contar pra sua mãe.
— Mas é sério! Eu não sou viciado nem nada do tipo, eu só... Sei lá, aceitei.
— Eu te entendo, Theo, de verdade. — Acompanhou o garoto até o sofá. — Teve uma época na minha vida, assim que deixei a casa dos meus pais, com minha filha um pouco crescida, que eu conheci a maconha... No mesmo dia que conheci meu noivo.
— Você já usou?
— Já fumei muito, sim. — Riu. — Mas não me viciei, mesmo gostando da sensação que me trazia.
— É a mesma coisa que eu penso, não quero me viciar, nem nada, eu só quero esquecer algumas coisas por um tempo...
— Fica tranquilo, tá? — Sorriu. — Eu não vou dizer nada, mesmo.
— Valeu, Gio. — Retribuiu o sorriso.
— Agora vai tomar um banho para tirar esse cheiro de você, sua mãe e o Sidney logo vão chegar. — Aconselhou. — E eu vou lá preparar o jantar.
Quando a governanta retornou à cozinha, não demorou muito para ouvir passos e conversas tomarem conta da casa.
— Boa noite, Gioconda, como o Theodore está? — Alba se aproximou, tirando a bolsa dos ombros.
— Ele está ótimo.
— Está dormindo?
— Não, foi só tomar um banho.
— E ele se comportou hoje?
— Sim, como sempre. — A governanta respondeu. — Ele é um garoto ótimo.
— Fico feliz que estejam se dando bem.
— A Elizabeth veio lhe fazer companhia novamente, na parte da tarde, não senti necessidade de te interromper no trabalho para avisar...
— Tudo bem, ele e a Lizzie se dão muito bem.
— O que teremos para o jantar? — Sidney se aproximou do balcão, onde Gioconda cortava alguns legumes.
— Pedi para ela preparar um ensopado. — Alba afirmou. — E enquanto isso vou tomar um banho, com licença.
A promotora se retirou e Sidney apoiou os cotovelos sobre o mármore do balcão.
— Você está se saindo bem. — O homem elogiou. — Até parece uma perfeita profissional.
— É a minha obrigação, não é? Depois do que você fez pelo Tom.
— Não dá para ficar sempre salvando a cabeça de vocês. — Sidney ergueu os ombros. — Mas estou satisfeito com o seu desempenho.
Theodore semicerrou os olhos ao chegar no local, ouvindo pouco, mas o suficiente daquela conversa.
— Olha só quem está aí! — O homem olhou na direção do garoto. — Como estão suas aulas com seu professor novo? Eu sei que você tem um fraco pelos mais velhos, mas tente não se apaixonar por esse também...
— Vai tomar no cu.
A governanta, mesmo achando engraçada a situação, ficou preocupada com o que Theodore poderia ter ouvido, já que ele lhe lançava um olhar totalmente reprovador.
— Vou ir tomar um banho também, aproveitar que sua mãe está no chuveiro. — Sidney esboçou um sorriso pervertido. — Até daqui a pouco.
O garoto permaneceu estático quando o homem passou por ele, trombando levemente o ombro no seu.
— O que foi, Theo? — Gioconda indagou, preocupada.
— Que história é essa?
— Do que você está falando?
— Eu ouvi o que você estava conversando com o Sidney! — Vociferou. — Você é amiga dele, não é?! Quem é você? Porque governanta agora eu sei que não é...
— Você está certo, eu não vou mentir.
— Eu confiei em você, por que fez isso? Por que está fingindo ser quem não é?
— Ele me ajudou, Theodore. — Falou, em baixo tom. — Ele salvou o meu noivo de ir preso por uma bobagem, eu só estou retribuindo o favor...
O garoto permaneceu em silêncio.
— Me desculpe, Theo. — Suspirou.
— Não, não vai dar. — Deu-lhe as costas.
...♕...
No dia seguinte, o garoto não teria aula e assim esperou mais do que nunca a visita de sua prima, que chegou no horário combinado.
Gioconda recebeu a garota e voltou aos seus afazeres, enquanto Elizabeth corria em direção de Theodore, que a puxou, para irem ao seu quarto.
Ao descerem as escadas do porão, Theo adiantou-se, dizendo:
— Me fala que hoje você trouxe o celular!
— Aqui! — A prima tirou o smartphone do bolso.
— Posso?! — Perguntou, com os olhos brilhantes.
— É claro que sim, idiota! — Entregou-o. — Já tenho o número salvo do Christopher aí, o da Susannah também.
— Eu adoro a Su, mas ela vai ter que esperar. — Admitiu. — Eu tô doido para falar com o Chris.
— Vai em frente!
— Você disse para ele que eu iria ligar?
— Não, pensei que se caso desse alguma coisa errada, não deixaria ele com esperanças falsas.
— Você está certa, bom... — Suspirou. — Lá vou eu.
O garoto desbloqueou a tela e levou o telefone ao ouvido. Sentiu seu coração acelerar ao ouvir os toques da chamada, ainda mais ao ouvir o “alô” do outro lado, com uma voz familiar que ainda o deixava com as pernas bambas.
— Chris... — Sua voz saiu falhada, um tanto trêmula.
— Theo?!
— Sim, sou eu. — Riu, querendo chorar. — A Elizabeth me emprestou o celular dela e...
— Sim, sim, eu tenho o número dela gravado aqui. — A voz do professor saiu animada. — Meu Deus, eu não acredito! E como você tá? Como as coisas estão? Meu Deus, Theo... Você não sabe o quanto eu tô com saudade...
— Eu estou bem, na medida do possível, né? — Riu mais uma vez, ainda abobalhado. — Mas também estou morrendo de saudade! Eu quero tanto te ver, tanto...
— Não tem como a gente dar um jeito nisso? Você sabe que eu faço qualquer coisa.
— Eu queria, mas não dá.
— Como não? Eu falo com sua mãe, com o Sidney, com quem for preciso...
— Não é assim, eu tenho medo do que possam fazer com você, não quero te causar mais problemas do que eu já tenho causado. — Entristeceu-se.
— Para de bobagem, Theo, eu faço qualquer coisa por você, não ligo para o que eles vão fazer comigo.
— Mas eu ligo. — Choramingou. — Eu te amo, não quero que nada te aconteça...
— Eu também amo você, mas é difícil, eu sinto sua falta.
— Me desculpa, mesmo. — Deixou a primeira lágrima cair. — Eu n-não, não quero estragar a sua vida mais do que eu já estraguei.
— Não fala assim, amor... — Sentiu um nó na garganta. — Você mudou sim a minha vida, mas para o melhor possível, como eu nunca imaginei. É tão estranho olhar para os cômodos vazios, não ouvir sua voz, não ter seu abraço a noite... Sinto sua falta nos detalhes mais pequenos, Theo, até a Dora está sentindo saudade.
— Até parece. — Sorriu, enxugando uma lágrima. — Ela me odeia.
— Nem pensar, como ela poderia odiar o outro pai dela?
— Pai? — Soltou uma risada fraca.
— É sim, nossa filha.
— Estou com saudade das mordidas dela no meu tornozelo também.
— Não faz nem uma semana completa que você está longe de mim, mas parece que faz um século. — Christopher confessou. — Minha cama tá sempre gelada com o seu lugar vazio... O seu corpo sente minha falta, como o meu está sentindo do seu?
— Não posso dar detalhes sobre isso no momento. — Envergonhou-se.
— Elizabeth?
— É.
— Ela está ouvindo tudo?
— Não, não se preocupa.
— Mas tem alguém que eu tenho certeza que quer te ouvir. — O professor colocou sua chamada no modo viva voz. — Fala “oi” Dora.
Theodore riu ao ouvir latidos estridentes.
— Oi, Dorinha! — O garoto chamou a cadela, ouvindo mais latidos.
— Eu acho que ela está reconhecendo a sua voz. — Chris afirmou. — Você tem que ver como ela está pulando aqui.
— É sério? — Surpreendeu-se.
— Fala mais alguma coisa, ela está te ouvindo.
— Bom, tem uma coisa que eu quero pedir pra você, filha. — Falou, como se estivesse conversando com uma criança. — Você pode cuidar do seu pai para mim? Promete fazer companhia para ele?
Theodore ouviu mais latidos.
— Acho que isso foi um “sim”, Theo.
— Que bom. — Soltou um sorriso. — Eu realmente não quero que você se sinta só...
— Eu sei que isso vai passar, amor. — Encorajou-o. — Eu não vou desistir de nós.
O garoto ouviu batidas na porta, Gioconda o chamava.
— Espera um pouco, Chris. — Retirou o telefone do ouvido e gritou. — O que é?!
— Sua mãe chegou, ela quer falar com você! — A governanta exclamou, do lado de fora da porta.
— Fala pra ela esperar! — Retomou ao telefonema. — Chris?
— O que está havendo aí?
— A governanta que minha mãe contratou para ficar de olho em mim, estava me chamando.
— O que ela queria?
— Disse que minha mãe chegou, que ela quer falar comigo.
— Sobre o quê?
— Eu não sei, nem quero saber.
— Pode ser importante.
— Você é importante. — Afirmou. — Do que estávamos falando?
— De eu te sequestrar na calada da noite.
— Bem que eu gostaria! — Riu. — Não é uma má ideia, hein.
— Eu também adoraria te manter refém aqui, fazer como a Alba, te ter todo pra mim, todos os dias, o tempo todo.
— Chris... — Fez uma pausa. — Eu sei que pode parecer um pouco estranho, mas sabe, não é de tudo uma ideia ruim. Eu não quero mais ficar aqui, já pensei em fugir, mesmo que um pouco difícil, não é impossível, posso dar um jeito...
— Eu falei brincando, amor.
— Eu não.
— Eu sei que você está mal com tudo isso, mas ela é sua mãe, eu entendo toda essa raiva dela.
— Nada mais importa, saiba que para mim, ela não é mais minha mãe.
— Theodore... — Suspirou. — Não fala isso.
— Não adianta, por mais que eu tentei avisá-la sobre o Sidney, ela vai realmente se casar com esse cara. — Sentiu os olhos lacrimejarem. — Ela já marcou a data, será em maio. Agora você já parou para pensar que ela não acredita no próprio filho? Eu não quero o mal dela, Chris, mas olha... É difícil, é difícil para mim ver os dois juntos, tão grudados, sinto que eu vou vomitar toda vez que eu olho na cara dele, de tanta repulsa que esse homem me dá!
— Por favor, não chora. — Ouviu os soluços do garoto, que despedaçaram seu coração.
— D-Desculpa... — Fungou, com a voz manhosa.
— Não precisa pedir desculpa, Theo.
— C-Chris. — Chamou, ainda em prantos. — Me deixa... Me deixa morar com você? Eu prometo que vou fazer o máximo para não te incomodar, e-eu vou ajudar na limpeza, vou me comportar, por favor!
— Você não faz ideia de como eu quero você aqui. — Sentiu o peito apertar dentro de si. — Mas eu realmente não posso.
— P-Por quê?
— Quero enfrentar tudo isso, quero ficar com você sim, mas eu quero o respeito de sua mãe, ela vai entender a nossa história, eu sei que vai, é só termos paciência.
— Ela me bateu, Chris! — Deixou mais lágrimas caírem, mal conseguindo olhar para a prima pela visão turva. — Eu não sei mais quem ela é, eu não a reconheço, o Sidney a transformou em um monstro... E-Ela disse que sente nojo de mim!
— Os pais falam coisas que não querem às vezes, ela deve ter se arrependido, Theo.
— Não importa, porque eu não consigo esquecer, o tapa que ela me deu não doeu tanto como as palavras dela...
— Eu queria poder estar aí para te consolar, te dar infinitos abraços, afagos. Mas promete pra mim que vai continuar aguentando firme? Promete?
— E-Eu não sei, eu não quero mais ficar aqui.
— Promete pra mim, amor. — O professor evitou transparecer o choro pela sua voz, tentaria permanecer forte.
— Eu prometo. — Theo fungou mais uma vez, enxugando as lágrimas na camiseta.
— Me perdoa por fazer você passar por isso.
— Eu fui o culpado de tudo, Chris, você é o mais inocente nessa história.
— Theodore! — Alba gritou atrás da porta, impaciente.
— Minha mãe está chamando... Me desculpa, mas eu tenho mesmo que ir agora, antes que ela derrube a porta.
— Tudo bem. — O professor sentiu uma pontada em seu coração, não queria se despedir. — Foi maravilhoso falar com você, eu estava doido de saudade da sua voz...
— Eu também. — O garoto deu um sorriso bobo, ainda com lágrimas nos olhos. — Se cuida.
— Pode deixar, Theo.
— Eu te amo mais do que tudo, tá? Não se esquece.
— Você também sabe que eu amo você, branquelo, demais, demais mesmo...
Quando a chamada foi finalizada, Christopher encarou o celular por poucos minutos antes de desabar desesperadamente em lágrimas. Tinha sido difícil, mas conseguiu se manter firme durante a ligação, queria passar segurança a Theodore, ele não precisava de outra pessoa para o colocar para baixo.
Aconchegou Dora em seu colo enquanto acariciava seus pelos, abraçando-a enquanto fungava, deixando lágrimas escorrerem até seu queixo. Seu peito apertava de preocupação, mas ao mesmo tempo, com saudade de seu sardento.
Muita saudade.
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