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45 Capítulo 45 — Data.
Notas iniciais
Capítulo 45 — Data.
— E por que ele foi transferido? — Christopher indagou, ainda mais preocupado.
— Parece que a mãe dele quer que ele tenha aulas particulares, não está satisfeita com o nosso ensino. É um pouco estranho, não acha?
— Acho, acho sim. — Concordou.
...♕...
Um homem de cabelos grisalhos e barba não muito longa passou pela porta de entrada, Theodore encarou-o com estranheza, tentando não rir ao lembrar-se da comparação que Gioconda fez de Ernest ao Dumbledore.
Era realmente parecido com o professor do filme, com pele clara e enrugada, olhos claros estreitos, acompanhados por óculos de lentes com formato de meia lua. Cumprimentou-o e assim foram guiados ao escritório.
Alba preparou uma mesa para Theodore estudar, onde o professor colocou seus livros e iniciou suas aulas daquele dia.
Um pouco mais tarde, após despedir-se de Ernest, o garoto devorou o lanche que Gioconda preparou para ele, enquanto conversava com a governanta na cozinha.
— Acredita que ele já passou dever de casa? — Theodore tomou um gole de suco. — O que no fundo achei um pouco irônico.
— Pensando por esse lado, é mesmo. — Gioconda soltou uma risada.
Poucos segundos depois, ouviram a campainha.
— Quem será que é?
— Pode ser que o Dumbledore esqueceu alguma coisa aí. — Theo levantou-se, acompanhando a governanta até a entrada.
Gioconda abriu a porta e deparou-se com uma jovem, que olhou-a aparentemente confusa.
— Lizzie! — O garoto a chamou. — Essa aqui é nossa governanta, Gioconda.
— Ah, eu não sabia... — A garota sorriu, desajeitada.
— Gio, essa é a minha prima, Elizabeth.
— Olá, Elizabeth. — Cumprimentou-a. — Entre, por favor.
A governanta fechou a porta enquanto os observava, pensando se deveria ligar para Alba, para avisar da presença da sua sobrinha.
— Gostaria de algo, Elizabeth? Algum suco, um lanchinho? — Gioconda ofereceu.
— Não, obrigada.
Theodore percebeu que a governanta se retirou do local, sem questionar a ordem que sua mãe tinha dado sobre receber visitas, então quando ficaram a sós, a prima sussurrou:
— Ei, Theo, o que tá acontecendo? A Susannah e o Christopher estão loucos atrás de você... Tá tudo bem?
— Mais ou menos. — O garoto respondeu. — Eu estou bem, se quer saber, mas não posso falar com mais ninguém.
— Hã?
— Tô de castigo. — Franziu o cenho.
— É sério? — Gargalhou. — Tá zuando, né?
— Não. — Falou, seriamente. — E não é uma piada, Liz, minha mãe descobriu tudo sobre o Chris.
— É sério?! — Arregalou os olhos. — M-Mas como?! Como assim?!
— É difícil explicar, tá confuso até pra mim. — Suspirou. — Ela tirou meu celular, meu notebook, não posso mais sair de casa, ela contratou até a Gioconda pra ficar aqui comigo, me supervisionando.
— Nossa, Theo! — Preocupou-se. — Mas me explica, me conta o que aconteceu...
— Ela viu eu e o Christopher juntos, mas ainda não sei aonde, só sei que ela escondeu isso de mim por um tempo, depois disso ficou agindo estranho sem me dizer nada, só descobri que ela sabia sobre o namoro, quando Christopher veio falar comigo.
— Quando Chris foi falar com você sobre o quê?
— Na segunda-feira teve reunião de pais e mestres, minha mãe reconheceu o rosto do Christopher na escola e depois disso, ameaçou ele. Então o Chris me disse tudo o que aconteceu, que minha mãe pediu para ele se afastar de mim e tudo mais...
— Ai meu Deus... — Botou a mão na boca. — Isso é sério? Sério mesmo?
— Queria que não fosse.
— Mas e agora? O que você vai fazer?
— Eu não sei, Lizzie. — Entristeceu-se. — Mas você poderia falar com ele por mim? E com a Susannah também, dizer o porquê de eu ter sumido.
— Claro que sim!
— Eu queria tanto saber como o Christopher está...
— Ele procurou falar com a Su, ela disse que ele estava bem preocupado, que ficou sabendo que você tinha sido transferido, mas que não recebeu notícias suas, que não sabia o que estava acontecendo...
— Liz, explica o que houve para eles, por favor...
— Explico sim, não se preocupa.
Longe de Theodore, Gioconda se encaminhou ao escritório de Alba, pegando o telefone fixo e ligando para a mãe do garoto, avisando da presença de sua sobrinha, que foi permitida por ela. A governanta retornou aos seus afazeres, ouvindo a conversa de Theo quando possível.
...♕...
Ao entardecer, Christopher havia se encaminhado para a casa de Emmet e Michael, precisava contar aos amigos do ocorrido. Foi recebido por eles e não demorou a desabafar de tudo que lhe estava perturbando.
— Mas eu não entendo... — Michael iniciou, após ouvir toda a história. — Se Theodore mesmo disse que estava tudo bem, que a mãe dele achava que vocês tinham terminado e tinha o deixado em paz, então qual o motivo de ela ter feito isso?
— É isso que eu quero descobrir, Mikey. — Chris rebateu. — A mãe do Theo é inteligente demais para deixar as coisas como estavam.
— Às vezes ela só o mudou de escola porque não queria que ele te visse mais...
— Se fosse isso, não me diriam que ele está tendo aulas particulares em casa. — Afirmou. — E outra, ele não atende o telefone há alguns dias, nem entra na internet, tenho certeza que isso é obra da Alba também.
— Ou daquele padrasto maluco dele. — Emmet concluiu.
— É, é bem provável, aquele cara faz de tudo para tornar a vida do Theo um inferno. — Bagunçou os cabelos. — Droga!
— Ficar estressado agora não vai adiantar em nada, Chris. — Michael aconselhou.
— Eu sei, mas é que você não faz ideia do quanto eu queria ir para lá, tirar satisfações com todos eles...
— É, isso realmente vai mudar tudo. — Emmet ironizou.
— Por que essas coisas só acontecem comigo? — O professor se queixou.
— Desde o início eu te avisei que ele era um garoto problema.
— Isso não importa, Emm, porque eu vou ficar com ele, mesmo que eu tenha que passar o resto da minha vida esperando, atrás das grades.
— Não seja dramático.
— Chris, vai ficar tudo bem. — Michael encorajou-o. — Nós vamos te apoiar em tudo o que for necessário.
...♕...
— Ficaram prontos. — Sidney se aproximou de Alba, na sala de estar, após passar pela porta de entrada.
— Os convites?! — A mulher se animou. — Deixa eu ver!
— Aqui. — Entregou-lhe a embalagem com os vários envelopes dentro.
— Meu Deus! Ficaram lindos! — Alba sorriu.
— Ficaram mesmo.
— Agora eu só preciso me preocupar com o vestido. — Afirmou. — Eu deveria ter ido escolher antes, mas não tive tempo... Além do mais, não quero nada extravagante, será meu segundo casamento, não tenho que me vestir como se fosse receber um prêmio...
— Nada disso. — Discordou. — Você é uma mulher linda, deve se sentir especial e se vestir como uma rainha.
— Sid... — Sorriu, envergonhada. — Não seja bobo, isso não é um conto de fadas.
— Escolha um vestido que irá se sentir bem, não se importe com o que vão achar. — Beijou sua testa.
O homem olhou para o lado e viu um vulto, percebendo que era Theodore.
— E aí garoto!
— Theo! — Alba olhou em sua direção. — Venha aqui um minuto, por favor.
Theodore se aproximou de ambos, sem nada dizer.
— Já encomendei um smoking para você, chega na semana que vem.
— Legal.
— Quer ver o convite? Chegaram hoje.
— Não, valeu. — O garoto colocou as mãos dentro do bolso da calça. — É só isso, Alba?
— É, é só. — A promotora fechou a cara.
Theo deu as costas e se retirou do local.
— Por que ele te chamou pelo nome? — Sidney encarou-a.
— É a nova gracinha dele.
— Ele está saindo dos limites.
— Também acho, mas sei que ele está contrariado porque não estou fazendo mais nenhuma das suas vontades.
— Você está certa, mas tem que aguentar firme.
— Eu sei, eu sei... — Suspirou. — Mas não quero me estressar com isso agora, principalmente quando o nosso dia está cada vez mais perto.
— Pois é, faltam só seis meses.
...♕...
No outro dia, enquanto olhava para a folha cheia de exercícios em sua frente, Theodore apoiou seu rosto em sua mão, bufando. Ernest parou o que lia e perguntou:
— Tudo bem, aí? Quer ajuda?
— Não, não. — Respondeu. — Tô de boa.
— Não precisa ter vergonha em me chamar, caso esteja com dúvidas.
— Eu sou bom em matemática, não preciso.
— Certo. — O professor tomou o livro em mãos.
Theo olhou mais uma vez para o caderno, deixando sua mente se perder em pensamentos, lembrando-se de Christopher. Toda vez que resolvia uma equação, era como se estivesse na escola novamente, na primeira carteira, sabia que mesmo que estivesse concentrado nas contas, Chris estaria o olhando.
Deu um sorriso e logo percebeu que Ernest o encarava.
— Bom, já deu a minha hora. — Olhou no relógio.
O garoto fechou os cadernos e deu graças a Deus quando o professor se levantou, após findar as aulas.
Gioconda acompanhou o senhor até a porta de entrada.
— O que vai querer para o almoço? — A governanta perguntou a Theodore.
— Não estou com fome, não precisa se preocupar. — Respondeu.
— Você tem que comer. — Aconselhou. — Você sabe disso.
— Ando sem apetite ultimamente. — Caminhou até o sofá e se jogou.
— Não é por andar preocupado com aquilo que me disse?
— Bom, não sei dizer, acho que sim...
— Ei... — Gioconda se aproximou dele. — Sei que posso estar sendo um tanto curiosa demais, só que sua mãe me disse algo que me deixou pensativa.
— O quê?
— Ela disse que você tentou se suicidar, é verdade?
Theo abaixou a cabeça, gesticulando positivamente.
— É um assunto íntimo, se não quiser me contar, eu vou entender...
— Não tem problema, eu conto.
A governanta se sentou ao lado dele e notou o nervosismo em seu rosto.
— Você se lembra que eu te disse que aconteceu um “imprevisto” e eu fui parar no hospital, quando Christopher foi me ver, enquanto estávamos separados?
— Claro, me lembro sim.
— Então, não foi um acaso, foi quando eu tomei uma superdose do antidepressivo da minha mãe.
— Meu Deus, Theo...
— É, eu tinha descoberto que o Sidney é um filho da puta que está enganando a minha mãe...
— O quê? Como assim?
— Ele não ama a minha mãe, ele disse isso na minha cara. — Fechou os punhos. — E o pior de tudo é que eu tentei desmascarar ele, mas não consegui, ela acha que eu estou inventando isso porque estou com ciúme dele.
— Mas isso é sério? O que o Sidney quer com sua mãe? Por que ele vai casar com ela, então?
— Tem a ver com tirar o emprego dela, algo assim, eu não sei o que ele está planejando, só sei que esse cara é perigoso.
— Sua mãe precisa saber disso, Theodore.
— Como eu te disse, eu tentei avisar, tentei até gravar ele dizendo o quanto odiava a minha mãe, para ter provas, mas foi nesse dia que o Sidney me arrebentou, de tanto me bater...
— E sua mãe não ficou sabendo?
— Não. — Seus olhos lacrimejaram. — Ela não acreditou em mim, acreditou no Sidney, que mais uma vez mentiu para ela, inventando que tinha me salvado de uma gangue que tentou me assaltar, para justificar os ferimentos...
— Mas Theo, isso é sério, não pode ficar assim.
— O que aconteceu foi que eu não aguentava mais, a minha vida estava se tornando um inferno: eu estava chateado com a minha única amiga, Christopher havia terminado comigo, esse imbecil do Sidney havia me deixado cheio de hematomas, minha mãe não acreditava mais em mim...
— E foi aí que decidiu sobre a superdose?
— Foi. — Engoliu seco. — Eu fiquei em coma por algumas horas, pelo o que me disseram.
— Mas poderia ter sido fatal.
— Às vezes penso que isso teria sido o melhor.
— Não, Theo, não pensa assim...
— Eu sei, eu tenho que suportar. — Suspirou. — Pelo Christopher e por todas as pessoas que ainda gostam de mim, porque minha mãe eu sei que já não me ama mais.
— Não diga isso, uma mãe por mais decepcionada que estiver com o filho, nunca vai deixar de o amar.
— “Decepcionada” não é a única palavra que ela citou para mim, “envergonhada” e “enojada” também entraram na lista.
— Ei, posso te dar um abraço? — Sorriu.
Theodore abriu um largo sorriso e sem nem responder, envolveu-a em um abraço apertado, enquanto a governanta ria.
Ouviram a campainha no mesmo momento e se entreolharam.
— Quem será que é?
— Vou lá dar uma olhadinha.
Gioconda se levantou, indo à porta de entrada.
— Olá, Elizabeth.
— Oi! O Theo está?
— Está sim, vamos, entre.
Já na sala de estar, a garota correu até o primo, que ficou surpreso ao vê-la.
— Lizzie!
— Conversamos muito pouco no outro dia, tinha que vir de novo para te encher o saco.
— Boba! — Gargalhou.
— Gostam de bolo de chocolate? — A governanta indagou. — Estava pensando em preparar, o que acham?
— Eu quero! — Theodore se animou.
— Eu também!
— Certo, vou para a cozinha, qualquer coisa que precisarem, é só chamar.
— Até que ela é legal. — Elizabeth afirmou, quando a governanta se retirou.
— Ela é gente boa.
— Ah, Theo! Tenho novidades para você!
— Você falou com eles?
— Falei sim, mas tem como a gente conversar no seu quarto?
— Tem, vamos.
Se levantaram do sofá e ao passarem pelo corredor, foram ao porão. O garoto fechou a porta e assim desceram as escadas.
— Tá ainda mais bonito do que nas fotos. — A prima elogiou o local. — Gostei daqui.
— Valeu... Mas e aí? Você falou com o Christopher ou com a Susannah?
— Falei com os dois.
— E então?
— A Susannah tá morrendo de saudades e diz que não vai aguentar ficar sem falar com você, que vai até dar um jeito de tentar vir um pouco antes do natal.
— Sério? — Sorriu. — E o Chris?
— O Christopher tá super preocupado com você e com o que sua mãe e o Sidney podem fazer, mas mandou dizer que vai esperar tudo isso passar, que tá doido de saudade, também.
Outro sorriso escapou dos lábios de Theodore.
— Lizzie, por acaso você está com seu celular aí?
— Não trouxe, Theo, mas prometo que vou trazer na próxima vez que eu vir...
— Não tem problema, só de saber sobre eles, já fico feliz.
— Ah, Theo... — Tirou a bolsa dos ombros e abriu-a. — Trouxe uma coisa que pode te animar.
— O quê?
— Isso aqui. — Mostrou um embrulho que o garoto já havia visto antes.
— Ah, não... Isso não.
— Ah, sim. — Sorriu maliciosamente, pegando um isqueiro. — Não quer relaxar?
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