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43 Capítulo 43 — Desconfiança.
Notas iniciais
Capítulo 43 — Desconfiança.
— Theodore, preciso falar com você. — Encarou-o, seriamente.
— Tá, entra aí. — Desceu um degrau, indicando passagem.
O garoto desceu as escadas, sendo seguido por Alba.
Caminhou até onde sua cama se encontrava e se jogou sobre ela, agarrando um travesseiro, observando sua mãe se sentar na beirada do colchão.
— O que foi, Theo?
— Hã?
— Você está com olheiras, seus olhos estão inchados...
— Não é nada.
— Você não me engana, filho. — Tocou em seu queixo, erguendo sua cabeça. — Olha pra mim, me fala, o que houve?
— Só não estou muito animado, é isso. — Deu um sorriso de canto.
— Por quê? — Aproximou-se. — Confia em mim, pode falar...
— Meu coração tá partido. — Olhou para baixo.
— Te magoaram, não foi? — Pegou as mãos do filho, vendo que ele não usava mais aliança. — Saiba que essa garota não te merece...
Theodore olhou com estranheza para a mãe, mas nada disse, sabia que ela estava fingindo não saber do que se tratava, concluindo de que ela tinha caído no plano.
O garoto sentiu os dedos gelados de Alba tocarem mais uma vez a sua face, acariciando suas bochechas. A mulher abriu um largo sorriso, dizendo:
— Sabe, filho, esse é o seu primeiro amor, eu sei que dói, mas muitos outros virão, só saiba que você vai superar...
Theo balançou a cabeça afirmativamente, ainda forçando uma expressão melancólica.
— Vem aqui, me dá um abraço. — Abriu os braços.
Theodore encaixou-se no aconchego da mãe, sendo envolvido e beijado na bochecha.
— Meu bebê... — Alba murmurou. — Como você cresceu tão rápido? Por que não continuou pequeno para sempre?
— Quer dizer que você não pode me amar assim? — Brincou.
— Bobinho! — Apertou-lhe ainda mais com os braços. — Eu te amo ainda mais agora, saiba sempre disso.
— Eu sei, mãe. — Deitou-se no colo de Alba, sentindo afagos em seus cabelos.
Enquanto estavam em silêncio, a mente de Theo vagueava, pensando em como sua própria mãe poderia disfarçar bem daquela maneira, mas entraria em seu jogo até quando fosse preciso.
— Vou deixar você descansar, está bem? — Comentou ela.
O garoto gesticulou afirmativamente, recebendo o último carinho antes da retirada de Alba do local. Assim que ouviu a porta se fechar, encarou o teto branco por alguns minutos, pensando no que faria dali em diante, com seu segredo exposto.
Pegou seu celular e ligou para Christopher, que demorou poucos segundos para atender.
— Alô?
— Oi amor, tenho uma novidade pra você.
— Sério? Sobre o quê?
— Minha mãe, ela acreditou que você terminou comigo...
— Me conte, como foi?
— Bom, na verdade, eu não disse nada sobre você, nem ela. — Explicou. — Quando ela quis falar comigo, fiz a maior cara de tristeza de todas, foi aí que ela me perguntou o que houve.
— E o que aconteceu depois disso?
— Falei que eu estava com o coração partido. — Revelou. — Depois disso, nem pude acreditar na falsidade dela, que falou que eu iria superar o meu primeiro amor, que essa “garota” não me merecia...
— Pelo jeito, ela atua melhor que você.
— Foi no que pensei! — Concordou, rindo.
— Mas é bom que tudo tenha dado certo, então, não é?
— Mais ou menos... — Contornou. — Tem um problema.
— Qual?
— Minha mãe contou de você para o Sidney, ele já começou o inferno na minha vida...
— O que houve, Theo?
— Assim que cheguei em casa hoje, ele estava indo buscar minha mãe na aula de pilates, então, como ela não estava em casa, ele já começou com as provocações.
— O que ele fez?
— Eu não consegui aguentar as piadinhas preconceituosas dele e dei um soco bem dado em seu rosto, só que ele me retribuiu com uma joelhada daquelas no abdômen.
— Eu quero arrebentar esse homem, te juro.
— Acha que eu não? Ele tá enganando a minha mãe, além do mais, estão falando de casamento o tempo todo, não duvido nada de que já escolheram a data.
— É sério? Que droga, Theo...
— Vou fazer de tudo para provar para ela que ele não presta, antes que seja tarde demais.
— Isso é complicado, amor, mas você pode contar comigo pra tudo, você sabe.
— Valeu. — Sorriu.
— Estou falando sério, se você estiver precisando de mim, abandono tudo, pode me ligar a qualquer hora que for, até de madrugada, onde quer que eu esteja, irei correndo.
— Isso foi bem gay, demais até pra mim! — Riu.
— Bobo! — Gargalhou.
— Ah, bateu uma fome... — Reclamou e se levantou. — Vou dar um pulo na cozinha.
— Não desliga, não.
— Quem disse que eu vou? Você vai junto.
O garoto subiu as escadas e abriu a porta, caminhando pelo corredor, viu que a porta do quarto de sua mãe estava fechada, concluindo que ela já tinha ido deitar.
Chegando, ligou a luz da cozinha e falou ao celular, enquanto abria a geladeira.
— Barra limpa, todos estão dormindo.
— O que o ladrãozinho de geladeira noturno vai beliscar?
— Hum, eu queria chantilly e frutas, mas aqui não tem, sabe?
— Aqui tem. — Provocou.
— Acho que vou comer cereal. — Pegou o leite.
— Ei, falando no chantilly, me deu uma baita saudade disso, Theo.
— Me deu saudade também, adorei te provocar nesse dia.
— Quando a gente pode repetir isso?
— Quando você quiser. — Abriu o armário, procurando a caixa de cereais. — Ai!
— O que foi? — Perguntou, preocupado pelo barulho.
— Quase derrubei tudo, só porque tenho que fazer silêncio.
— É sempre assim. — Riu.
— Prontinho. — Colocou o cereal e o leite na tigela. — Vou para o quarto agora.
Tomando uma colher e a tigela em mãos, caminhou de volta para o quarto e desceu as escadas. Colocou o que trazia sobre o pequeno balcão que havia no porão e se sentou em um dos bancos altos.
— Então, aonde paramos?
...♕...
Na manhã seguinte, Alba se levantava atrasada para o trabalho, pulou da cama e Sidney acordou com seus barulhos.
— O que foi, querida? — O homem perguntou, esfregando os olhos. — Para que esse desespero todo?
— Estou atrasada! — Colocava um vestido com pressa. — Você entra mais tarde hoje?
— Sim, entro, mas vou aproveitar para levantar também. — Espreguiçou-se.
Alba penteou os cabelos lisos, que por serem curtos, não lhe custaram muito tempo. Pegou um blazer no espaldar da poltrona e o vestiu, o abotoando em seguida. Após escovar os dentes com pressa, calçou os saltos e deu um beijo rápido em seu noivo, se despedindo, faria sua maquiagem no carro.
Chegou com poucos minutos de atraso, jogando a bolsa em sua mesa.
Passou algumas horas focada em suas pesquisas, precisava ser concisa para levar o seu caso finalmente ao tribunal, há meses tentava recolher provas suficientes para o ex-prefeito corrupto de São Francisco, mas o homem era esperto, como imaginava.
Descansou os olhos quando as letras começaram a embaralhar em sua mente, não conseguia se concentrar por muito tempo. O seu trabalho sempre tinha sido prioridade em sua vida, até Theodore começar a tomar conta de seus pensamentos.
Jogou os óculos de leitura para o lado e suspirou.
Pensou que estivesse livre do professor de matemática até a conversa com Theodore a noite, pois tinha ficado aliviada em pensar que seu filho não seria mais enganado por um aproveitador, quando — no começo da madrugada — indo à cozinha, saindo de seu escritório, ouviu o filho, aparentemente ao telefone, numa conversa implícita, mas com uma leve conotação sexual, com o suposto namorado.
Ainda estava em dúvida, o que tinha ouvido não tinha sido o suficiente para saber se era realmente o professor na ligação.
Pensou um pouco mais no que faria, talvez tentaria pedir conselhos ao Sidney, mesmo que de início o noivo não havia lhe ajudado muito, ficou surpresa ao ver que ele tinha sido compreensível quando lhe contou sobre o ocorrido.
Alba concluiu que se o que pensava fosse realmente verdade, Theodore ainda estava atrás do professor, talvez até teriam feito as pazes, ou o filho mentido que havia terminado o relacionamento.
Medidas precisariam ser tomadas.
Massageou as têmporas, tentando se livrar da dor de cabeça que começava a latejar.
Sairia com as amigas para almoçar em pouco tempo, mesmo que não se sentisse com muito apetite, seu estômago parecia revirar pelo nervosismo.
Retornou aos seus afazeres após tomar uma boa xícara de café que a copeira havia acabado de trazer, tentaria manter a concentração e esquecer os problemas pessoais.
Quando seu horário de almoço chegou, tinha conseguido preencher uma pequena parcela dos dados que havia planejado para aquele dia. Então, um pouco mais aliviada, encontrou-se com Maggie e Nancy no estacionamento e partiram para um restaurante.
Durante a refeição, recebeu uma mensagem de Sidney, marcando um happy hour com ela assim que seu turno acabasse. Aceitou e logo ouviu burburinhos das duas mulheres, que perguntavam se era Sidney que tinha lhe mandado a mensagem.
Dizendo que sim, Alba foi bombardeada com milhares de perguntas, principalmente sobre o casamento. Não hesitou em responder, vendo a animação das colegas de trabalho ao dizer que a data já tinha sido definida.
...♕...
Alba, após o seu expediente, retocou a maquiagem e guiou-se ao estacionamento, para ir ao encontro do noivo.
Ao chegar, avistou-o na entrada do estabelecimento.
— Já reservei a nossa mesa. — Sidney a cumprimentou. — Vamos entrar?
Sempre se encontravam naquele café bar, um local aconchegante, no centro da cidade, com petiscos e bebidas de requinte.
— Você está ainda mais bela do que quando a vi pela manhã. — Segurou nas mãos de Alba, sobre a mesa.
— Você e os seus gracejos... — Riu, envergonhada. — Já sabe o que vai pedir?
— Queria um coquetel, mas estou dirigindo, então pedirei um suco.
— Acho que vou querer o mesmo. — Olhou o cardápio.
Escolheram os petiscos e fizeram o pedido; enquanto esperavam, assistiam ao conjunto local, que tocava blues.
— Sabe, querida, eu queria te dizer algo.
— Diga.
— Eu percebi que há muito tempo você vive a sua vida voltada ao garoto e ao trabalho, além de tomar conta de todos os deveres domésticos sozinha. Eu não acho isso justo. — Revelou. — Não sei se ficará brava comigo, mas tomei a liberdade e contratei uma governanta, assim você terá mais tempo livre...
— É sério?
— Fiz mal em não te consultar antes?
— Não, não, isso é ótimo! — Sorriu. — Eu já tinha pensado sobre, mas nunca tomava a atitude.
— Bom, minha noiva tem que ser paparicada. — Beijou uma de suas mãos. — De agora em diante, você não vai mais precisar se preocupar com nada...
— Você é mesmo um anjo.
...♕...
Naquela noite, Alba chegou em casa acompanhada de Sidney, tinham passado algumas horas no bar e mal viram o tempo passar.
A mulher olhou em volta, vendo a casa escura e notando o pleno silêncio.
Caminhou até o fim do corredor, a porta do porão estava aberta e não havia encontrado o filho. Um sentimento ruim lhe apertou o peito, não pensou duas vezes e tomou o celular em mãos, ligando para o garoto.
— Theodore, cadê você? — Indagou, assim que ele atendeu.
— Tô na academia.
— Desde que horas você está aí?
— Faz pouco tempo que cheguei.
— Vem pra casa logo, tá?
— Tá bom, é só isso?
— Quando você vem?
— Eu não sei.
— Não demora, é sério!
— Tá bom, mãe...
— Juízo, hein!
— Tchau!
Sem cerimônias, ele desligou.
Alba voltou para a sala de estar, ainda pensativa, vendo Sidney ligar a televisão e se sentar. Se ajeitou ao lado dele e apoiou sua cabeça em seu ombro. Juntos assistiram ao filme.
Ao findar, a mulher olhou para o relógio, vendo que havia passado duas horas desde o momento que tinha falado com o filho, não sabia quanto tempo mais ele ficaria na academia e pensou que ele não demoraria a retornar.
— Vou ir para a cama. — Sidney afirmou, olhando para Alba.
— Tão cedo assim? Não são nem onze horas ainda...
— Hoje o dia foi estressante, estou morto. — Se queixou. — Você vem?
— Agora não, querido, mas pode ir dormir.
— Tá certo. — Beijou-a e se levantou. — Não demora muito...
Mais algumas horas se passaram e Alba permanecia na sala, olhando fixamente para a televisão, mesmo sem prestar muita atenção ao que passava. Estava perto de desistir de tanto esperar Theodore chegar, no entanto, ouviu a porta de entrada se abrir.
Se levantou e correu em direção ao filho, gritando, exasperada:
— Aonde você estava?!
— Na academia, eu te disse.
— Ninguém passa mais de quatro horas na academia, Theodore.
— Demorei porque estava compensando os treinos dos outros dias...
— Não minta para mim!
— Não estou mentindo.
— E por que não está suado? Por que cheira a perfume?
— Eu tomei banho depois do treino, sempre levo as coisas para trocar de roupa.
— Eu realmente percebi que tomou banho. — Olhou para os cabelos molhados do filho. — Mas tenho certeza de que não foi no vestiário da academia.
— Hã?
— Você se meteu com aquele tal de Christopher de novo, não foi?
— Do que você tá falando agora?!
— Chega de mentir, Theodore! — Segurou em seus ombros.
— Me larga!
— Volta aqui! — Puxou-o, impedindo-o de escapar. — Ei... O que é isso?
Olhou para o pescoço do garoto e o trouxe para perto, abaixando a gola de sua camiseta.
— Tá aqui a prova. — Soltou-o. — Não adianta mais negar, você andou transando com ele de novo, não foi?
— Para com isso! Eu nem sei do que você está falando!
— Não se faça de idiota, Theodore! Eu sei de tudo! — Alba notou sua voz ficar rouca. — E esses chupões em você não me deixam mentir!
As pernas do garoto ficaram bambas, olhou para os olhos avermelhados de sua mãe e tentou fugir, mas não conseguia; além de tudo, sabia que não era o correto.
— Eu nem sei mais o que fazer com você... — A mulher murmurou, com os lábios trêmulos. — Por que, Theodore? Por que está fazendo isso?! Eu achava que te conhecia tão bem... Tinha tanto orgulho de você. Mas olha! Olha para você! Acha que o que está fazendo é correto?! Por que, filho?! Por quê?!
— Mãe, eu...
— Cala a boca! — Exclamou. — Eu não te conheço mais! Eu olho nos seus olhos e só consigo enxergar mentiras! Todo esse tempo mentindo... Mentindo para ir deitar com outro homem! Isso é doentio, nojento...
Theodore não conseguia descrever o amargor do arrependimento, deixava as lágrimas caírem livremente pelo seu rosto, observando o tão doloroso desgosto de sua mãe.
— Eu até entenderia se você viesse e me contasse que era gay, Theo, poderia até tentar me acostumar com essa ideia. — Encarou-o, com o rosto encharcado e borrado pelo rímel. — Mas eu nunca esperaria de você um escândalo desses, nunca... Você me decepcionou demais.
— Eu... — Iniciou a frase, sentindo suas forças serem levadas pelo olhar reprovador de Alba.
— Você não me deixa escolha... — Fez uma pausa, enxugando o rosto. — E já passou da hora de você aprender uma lição, Theodore.
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