Parte 2 --- Lily

Eu e Alex estávamos seguindo o fantasma desde que saímos do colégio, ele veio pelo parque, acho que talvez seja um atalho, muitos estudantes passam por aqui para ir para suas casas. Ele está parando perto de uma fonte, acho que finalmente vamos saber o que ele faz, ou no mínimo seu verdadeiro nome.

–Alex, é agora. –Cochicho para ele, um clima estranho seguido por uma onda de silencio me preocupou. –Alex? –Olho para trás e me espanto em não vê-lo, será que aquele garoto já se perdeu. Olho para frente e o fantasma já não estava mais lá. –Que droga. –Corro rápido para a fonte para ver se encontro, mas isso não acontece. Não acredito, agora o fantasma sumiu de vez.

–Me procurando. –Ai carraca, aquela voz fria e tenebrosa que vinha por trás me deixava que nem um gato assustado. Temos aí outro motivo para chama-lo de fantasma

–Não, quem, eu, imagina. –De repente deu vontade de me bater.

–Ainda bem, tive a impressão de que estavam me seguindo. –A voz dele continuava do mesmo jeito, mas conseguia sentir um pouco de sarcasmo.

–Que doidera né. –Porque eu não consigo disfarçar, que raiva, até um burro descobriria.

–Então o que traz você aqui essa noite?

–Bem, é que... –Caraca o que eu falo agora, acho que deu para notar que eu não sei mentir. –É que eu vou visitar a minha vovozinha essa noite e eu me deparei com esse atalho, aí resolvi vim por ele, para variar um pouco né. –Serio, agora só faltava estar usando um capuz vermelho e dizer que um lobo me indicou esse caminho.

–Entendo. –Espero que ele tenha engolido essa. –Só mais uma coisa chapeuzinho vermelho, isso serve para você e para o seu amigo, nunca mais cheguem perto de mim, entendeu. Ah e cuidado com o lobo mau. –Como essa voz fria me irrita, e ele continuou a andando como se nada tivesse acontecido. E essa de lobo mau, quem ele pensa que é.

Aquele garoto é estranho, como uma pessoa quer que ninguém fale com ela, dane-se, eu vou conseguir descobrir o que esse cara tem a esconder. Depois disso tudo acho que vou para casa, espero que Alex esteja bem, ele anda muito distraído ultimamente, tenho medo de que ele tenha caído em um buraco ou algo do tipo.
Hoje foi um dia exaustivo, mas finalmente estou em casa. Melhor ligar para Alex, saber se está tudo bem e pedir um favor, tive uma ideia genial assistindo TV.

–Alô, Alex?

–Ah, oi Lily, tudo bem?

–Tudo bem? É isso que você fala, onde você foi Alex, quando olhei para trás não estava mais lá.

–Ah, desculpa... –Alex parecia confuso, nunca tinha visto ele assim. –É que eu acabei me distraindo no caminho. –Não me parece convincente, mas vou deixar quieto por enquanto, afinal meu assunto aqui é outro.

–Tenho um favor para te pedir, quero que vá nas coisas do seu pai e pegue a lista de frequência da sala C. –Bem, o pai de Alex é professor de química na escola, ele deve ter uma lista dos alunos.

–Eu, sabe o que vai acontecer comigo se ele me pegar.

–Alex, deixa de ser medroso, vai dar tudo certo, é só pegar enquanto ele está fora.

–Ah Lily, porque você quer fazer isso mesmo? –Às vezes acho Alex tão desligado.

–Alex, vou explicar bem devagar, todo professor tem uma lista dos alunos, seu pai é professor do nosso colégio logo ele deve ter uma lista como essa. –Impossível não entender agora.

–Mas para que você quer essa lista. –Mas como esse garoto é desligado.

–Alex, use um pouco a cabeça, o fantasma estuda na escola.

–Ah sim. –Finalmente.

–Ainda bem, pensei que teria que desenhar, Alex, não ouse ler antes de mim, ok.

–Porque?

–Tenho, meus motivos. –Aquele garoto vai ver, vou descobrir o que ele esconder.

–Lily, vem jantar.

O panaca do meu irmão veio me chamar para jantar, tive que parar de falar com Alex e ir, minha família não passa muito tempo junta e o jantar é um dos raros momentos que estamos todos juntos. No jantar de hoje temos um lindo peixe esfarelado com cheiro de enxofre e um molho amarelo que eu não quero saber do que é feito, minha mãe nunca foi uma boa cozinheira, eu preferia pedir uma pizza.

–A comida está maravilhosa querida. –Ele fez uma cara terrível e diz que a comida está uma maravilha, ah papai, quando vai aprender a mentir, bem agora eu já sei para quem eu puxei.

–Maravilhosa... –Aí vem meu irmão falando de um jeito que só ele sabe falar, é um tipo de sarcasmo enquanto ele ataca as pessoas. Seu nome é Andrew, vive se gabando porque é quarenta centímetros mais alto que eu, arrogante e viciado em vídeo game, têm dezessete anos, cabelo liso que vai mais ou menos até o queixo, de cor castanho assim como seus olhos. –Pai seja sincero, nem um cachorro comeria isso. –É, nesse ponto ele está certo.

–É mãe, acho que é melhor agente pedir uma pizza da próxima.

–Não se preocupem, dá próxima vez vocês passarão fome. –Dava para ser menos drástica.

–Kof kof... –Que tosse mais forçada, meu pai ainda não aprendeu a mentir. –Filha, posso saber onde você estava que demorou a chegar em casa. –Tinha que sobrar para mim.

–Pai, eu lhe falei ontem que ia sair mais tarde por conta de um evento que ia ter. –Tenho a impressão que a conversa não acaba aqui.

–Sim, eu não me esqueci, é que você falou que acabava as seis e você chega duas horas mais tarde.

–Provável que estivesse fazendo amor com o namoradinho novo. –Lá vem meu irmão com aquele tom de voz.

–Oi não escutei pode repetir. –Me levanto colocando as mãos sobre a mesa.

–Você entendeu muito bem.

–Isso não vai acabar bem. –Ouço minha mãe sussurrar.

–Mas repete de novo, só para confirmar, ou você prefere que eu conte o porquê de você passar tanto tempo no banheiro.

–O que você disse tampinha. –Ele se levanta colocando as mãos sobre a mesa.

–Chega. –Ouço meu pai gritar. –Os dois de castigo pelo resto dá noite, já para seus quartos.

–Ah está bem. –Olhando pelo lado positivo, eu não vou ter que comer essa gororoba.

Andrew é um panaca mesmo, me admiro que ele esteja na faculdade, ele diz que nunca precisou estudar, que só é preciso escutar uma vez que nunca mais ele se esquece, até que ele é um irmão legal, vive me zoando, mas é legal. Passei a noite jogando vídeo game até pegar no sono.
Acordei em um lugar estranho, quer dizer não era minha casa, era a casa de minha avó, tinha certeza, aqueles moveis antigos, o cheiro de antiguidade no ar, o piso que rangia e o clima pesado que sentia no ar. Levantei da parte de baixo de um dos dois beliches que se encontravam no cômodo, olhei para o lado e vi Andrew que acabara de se levantar do outro beliche. Não falávamos nenhuma palavra, mas sabia o que ele estava pensando através de seu olhar, e por acaso era a mesma que a minha “o que estou fazendo aqui”. Não conseguia mexer minhas pernas, acho que Andrew também não, aos poucos fomos nos movendo, saímos do quarto e fomos para o andar de baixo, descendo as escadas nos deparamos com nossa vó que balançava em sua cadeira, fazendo o piso ranger. Ela estava tricotando quando olhou para nós e perguntou:

–Crianças, vocês acreditam em fadas?

Depois da pergunta minha visão começou a ficar turva até escurecer de vez e eu apagar. Acordei na cama do meu quarto sem fazer a mínima ideia do que tinha acontecido, aquilo teria sido mesmo um sonho. Sem questionar o sonho me levantei e fui tomar o café da manhã, o bom do café é que não é minha mãe que faz e sim meu pai, já que minha mãe sai de casa durante a madrugada para trabalhar. Papai é sempre quem me leva para a escola, depois ele deixa Andrew na faculdade.
Como sempre cheguei mais cedo na escola do que Alex, fico falando com minhas outras amigas enquanto espero ele chegar. O início da aula bate e nada de Alex chegar, acho que vou ter que esperar o horário do intervalo.
Adivinha de quem é o primeiro horário, isso do professor Guilherme, o pai de Alex, no mínimo agora sei que Alex veio.

–Bom dia turma, antes de começarmos a aula hoje vamos dar as boas-vindas à aluna nova. Por favor venha para frente Hetal. –Aquela garota era linda, pele morena, quase escura, cabelos perfeitamente cacheados que iam até seu busto, ela tinha a altura certa para sua idade, mas só quando ela chegou lá na frente e se virou que eu notei em seus olhos, eles eram cor-de-rosa bem claro, tenho certeza de que aquilo não é normal.

–Bom dia pessoal.

Passei o resto da aula olhando para a garota nova, acho que vou falar com ela no horário da saída. O horário do intervalo finalmente bateu, corro para o ginásio para me encontrar com Alex, chego no ginásio e ele está sentado na arquibancada.

–Lily, aqui.

–Oi Alex, conseguiu o que eu pedi. –Mal posso esperar, esse é o primeiro passo para um mar de descobertas.

–Nossa Lily, bom dia para você também. –Que dó, nem falei direito com ele.

–Oh desculpa meu bebê, vem aqui fofinho. –Abraço ele forte e fico apertando suas bochechas.

–Amor de mais, amor de mais. –Paro de abraça-lo.

–Aqui está a lista.

–Certo, primeiro eliminamos todos os nomes femininos. –Risco os nomes da lista. –Agora os das pessoas que nós conhecemos e sobra... –O que? Como sobram três nomes, pensei que conhecesse todos os alunos da sala C. –Como assim sobram três nomes?

–Calma Lily, acho que devem ter alunos novos na sala.

–Droga, pensei que assim a gente ia descobrir o nome dele.

–Lê aí os nomes que sobraram.

–Temos Bruno, Logan e Leonardo.

–Depois do fim de semana a gente procura. –Meus olhos se desviaram para onde o fantasma fica durante o intervalo, a tal da novata estava falando com ele, normalmente.

–Alex olha ali.

Ficamos observando Hetal falar normalmente com o fantasma, uma dúvida vinha a minha cabeça “será que eles se conheciam”. O fantasma vai embora deixando Hetal sozinha.

–Vamos falar com ela. –Hetal me pareceu uma boa pessoa quando ela apareceu na classe, perguntar o que ela tem com o fantasma não vai ser problema.

–Quem é ela?

–O nome dela é Hetal, é uma aluna nova da minha sala.

–Ah bem.

Hetal estava descendo as escadas, ela era realmente linda, seus cabelos cacheados batiam contra o vento, mesmo a expressão em seu rosto sendo de decepção ela continuava meiga.

–Bom dia Hetal.

–Bom dia, me desculpe por perguntar, mas quem é você? –Sua voz é não é fofa como a de uma criança, mas mesmo assim cativante, acho que a palavra correta para descreve-la seria bela.

–Nós ainda não nos conhecemos. Prazer, meu nome é Lily e este aqui é o Alex. –Alex estava desligado da vida como sempre, ele olhava fixo para Hetal.

–Prazer, acho que você já sabe o meu nome. O que vocês querem?

–Seus olhos. –Alex, você está me assustando. –Eles são cor-de-rosa. Porque?

–Ah sim, eu uso lentes, é que eu tenho miopia e pedi para minha mãe essas lentes. –Lentes, é claro, como eu não pensei nisso.

–Legal.

–Hetal, você poderia dizer o que você tem com o fantasma.

–Fantasma? –Ela ainda não deve saber desse apelido.

–Do garoto de cabelo grisalho.

–Ah, você está falando do Yuri. Minha mãe é amiga da tia dele, nos vemos todo final, eu pensei que agora que estamos na mesma escola poderíamos nos conhecer melhor, mas ele continua a não querer falar comigo. –Espera um pouco, Yuri, mas esse nome nem está na lista, será que ele é realmente é um fantasma.

–O nome dele é Yuri? –Alex estava tão pasmo quanto eu, porque não existia esse nome na lista, eu tinha certeza que li certo.

–Sim. Algum problema? –Mostrei a lista para ela.

Hetal procurava pelo nome de Yuri na lista, mas nunca conseguia encontrar. Expliquei para ela o porquê do apelido de fantasma.

–Pessoal, acho que vocês estão exagerando, erros acontecem, se vocês quiserem posso leva-los na casa dele esse final de semana, já que estão tão interessados.

–Porque nos ajudar? –Conseguia entender o pensamento de Alex, nós não sabíamos o porquê disso, afinal acabamos de nos conhecer.

–Eu conheço o Yuri desde que ele chegou na cidade, nós éramos muito amigos, até que um dia ele disse: “não fale mais comigo”. –Então quer dizer que ele nem sempre foi assim. –Tentei voltar a falar com ele, brincar com ele, mas não adiantava, ele fingia que eu não existia. Também quero saber o que ouve com Yuri, talvez assim nós possamos voltar a ser amigos.

O sinal do intervalo tocou e voltamos para as nossas salas, pedi para Alex ir esse final de semana para a casa do fantasma junto com Hetal já que eu não iria poder ir, meus pais falaram de última hora que nós iriamos para a casa da minha vó, lá até que é legal, mas não têm internet, TV a cabo nem sinal de telefone. Fui dormir de madrugada naquele dia, não estava nem um pouco empolgada com essa história de ir para casa da minha vó.
Acordei em uma floresta, a luz do sol entrava pelas brechas entre as folhas das arvores e reluzia as margens de um lago que havia ali perto. Andrew também estava lá e sua expressão no rosto era a mesma que a minha, aquela expressão de “que lugar é esse”, andamos até a beira do lago, nossos reflexos que estavam turvos por conta do movimento da agua ganharam nitidez aos poucos e quando atingiram a clareza total perguntaram:

–Vocês acreditam em fadas?