Notas iniciais
Espero que não estejam confusos, dois capítulos com o mesmo nome, que estranho né? Acho que eles serão assim, divididos em parte 1 e 2( quem sabe um 3 :p). Espero que gostem.

Andrew

Ah, outro dia terrível. Hoje eu tive que acordar cedo para ir na casa da minha vó, lá até que é legal, mas fica isolada, sem internet, sem sinal e o pior de tudo, ficar dois dias com minha família. Começa o dia e já ouço meus pais gritando, nós moramos em um apartamento pequeno, ás vezes acho que até os vizinhos querem se matar de tanta chatice que eles gritam, faço minha mochila, coloco uma muda de roupa, pijama, meu vídeo game, o carregador dele e um adaptador, sim na casa da minha vó as tomadas são só de dois pinos. Quando percebo já estou no carro esperando que acabe logo esse final de semana, a casa da minha vó fica a uma hora e meia daqui, é sempre uma viajem chata, prefiro dormir nesse tempo, coloco uma máscara de dormir e apago.
Chegamos na casa da minha vó, ela é gigante para uma só uma pessoa morar, três andares, um porão, um sótão, um jardim enorme e um quintal maior ainda, não sei como minha vó consegue dormir aqui sozinha. A primeira coisa que eu faço é colocar minha mochila no quarto, de todos os oito quartos que têm aqui meus pais me obrigaram a dormir com a pirralha, eles disseram que nós precisamos nos entender, que bobagem, eu me entendo muito bem com minha irmã. Acho que eu sabia que vinha para cá, a duas noites atrás eu sonhei com esse lugar e com minha vó, mas tudo que tenho são fragmentos do sonho. Primeira coisa que faço é colocar minha mochila no quarto, o quarto tem dois beliches, um guarda roupa, uma cômoda e uma janela, ele não é muito grande. A casa fica muito chata nas primeiras horas, é muita gritaria, por isso prefiro jogar.
Meia hora jogando videogame, as coisas estavam até que legais, um frio bom, estou quase zerando o jogo novo e o melhor de tudo nada de pais.

–Filho. –Falei cedo demais. Lá vem ele, com aquela cara de infeliz que ele sempre faz. Não importa o que eu faça, para ele nunca está bom, se eu tiro nota máxima em uma prova ele quer mais, se eu limpo a casa toda, canto por canto, ele consegue encontrar um defeito e usa ele como um crime para me punir, pais são uma desgraça mesmo, só servem para sustentar-nos.

–O que foi, veio reclamar de que hoje?

–Que engraçado. –Ele entra na sacada onde eu estava usando o tom de sarcasmo dele, que aliais é péssimo. –Vim ver onde você estava, perguntar se você já falou com sua vó, se já colocou suas coisas no quarto.

–Não sou tão inútil quanto você pensa, pai. –Ele olha para mim zangado, já estou até acostumado com esse olhar, ele olha assim para mim todos os dias.

–Que engraçado. –Aquela tentativa de voz sarcástica, ainda bem que eu não puxei para ele. –Agora me dá isso daqui. –Ele puxa o vídeo game da minha mão, só me faltava essa.

–Ei, eu estava jogando.

–Hoje em dia essa é a única coisa que você sabe fazer. Agora vá brincar com sua irmã. –Não basta ele me tirar o vídeo game, ele tem que me fazer brincar com a pirralha.

–Ótimo pai, jogar o que?

–Vá com sua irmã no porão, lá deve estar cheio de jogos que eu e meus irmãos jogávamos. –Jogo de gente velha, ótimo.

Me dá vontade de socar meu pai as vezes. Ele foi chamar Lily e jogou nós dois no porão, nunca tinha visto tanta coisa empoeirada, parecia um lugar macabro, o piso rangia, a luz era bem fraca, tinham cobras, sapos, peixes, olhos e muitas outras coisas conservadas dentro de potes com formol, é que minha vó era professora de biologia em uma faculdade e nunca quis se livrar dessas coisas.

–Andrew, encontrou alguma coisa?

–Nada que não seja macabro. –O lugar precisava de uma faxina, tinha poeira e teia de aranha por todo lado. Tudo o que via eram coisas velhas, acho que mais velhas que minha vó.

–Andrew vem aqui, acho que encontrei. –Lily estava limpando um armário de metal meio enferrujado, as teias de aranha que estavam nele eram grossas e firmes.

–Vamos dar uma olhada. –Pego um pedaço de madeira e giro ele sobre a teia de aranha, tinha muita teia, acho que o suficiente para parecer um algodão doce.

–Ah, uma aranha. –Lily começa a gritar, tinha uma aranha em cima de uma caixa de jogo, ela tinha o tamanho do dedo polegar, seu abdômen era amarelo com listras negras.

–Calma Lily é só uma aranha. –Pego um dos livros antigo que estavam em cima da estante que dividia o porão e esmago a aranha.

–Não era preciso tanto.

–Diz a pirralha que só faltava desmaiar. –Ela faz cara feia e mostra a língua para mim.

–Ridículo. –Tiro a caixa do armário e tiro a poeira de cima dela. –Vamos ver o que temos aqui. –Em cima da caixa estava escrito “summoning spiritus”, não é preciso ser nenhum gênio para saber que na caixa estava escrito invocação de espíritos, a caixa era de madeira, ela tinha o formato retangular e era bem fina. Tive uma ideia. –Ei Lily, está pensando na mesma coisa que eu?

–Pode acreditar. –Eu e a pirralha podemos não nos dar tão bem, mas se tem uma coisa que nos uni essa é a busca pelo sobrenatural.

Levamos o jogo para o quarto e deixamos ele lá, ficamos conversando sobre isso no quintal de casa, ele era gigante, não possuía cercas, se qualquer um quisesse invadir faria isso sem dificuldades, o quintal dava direto para uma floresta assustadora. A noite finalmente chegou, nossa mãe nos chamou para o jantar, ainda bem que dessa vez não foi ela quem fez, minha vó é uma ótima cozinheira, ficamos o resto da noite conversando e quando bateu meia noite subimos para o quarto.

–Está na hora. –Lily tira a caixa do jogo de baixo da cama e a abre, o jogo é uma tabua de madeira com algumas coisas escritas em latim e quatro pernas que parecem elefantes. Lemos as regras e começamos.

–Me de suas mãos. –Segurei as mãos de Lily e ela as minhas então começamos. O tabuleiro tinha duas partes, elas são divididas em um círculo, a primeira é ação, onde o espirito faz alguma coisa, a segunda é possessão, onde ele possuirá um de nós, a terceira é a mais tranquila e é dividida em duas partes, onde ele respondera sim ou não e temos a quarta a mais sinistra, onde ele aparecerá.

–Espirito, você está aqui? –Lily começou a perguntar. A peça de madeira seguiu para a terceira parte do tabuleiro marcando sim. Talvez finalmente tenhamos encontrado algo de verdade.

–Poderia nos guiar sobre os segredos dessa casa. –A peça voltou para o início e se moveu novamente para o terceiro quadrante dessa vez para a parte do não.

Uma série de perguntas foram se passando, todas iam para a terceira parte do tabuleiro. Me veio uma pergunta na cabeça, tinha me lembrado de dois sonhos que eu tive nesses dias, e em ambos havia essa pergunta.

–Espirito, as fadas, elas existem? –A peça voltou para o início, como toda vez que fazemos uma pergunta, dessa vez se movendo para o primeiro quadrante. Eu e Lily ficamos esperando por quinze minutos e nada. –Sabia que isso era palhaçada.

No momento que parei de segurar as mãos de Lily, um pote da cômoda começou a se mexer.

–O que é isso. –Lily olhou assustada para mim, não era eu quem estava fazendo aquilo.

A porta do guarda-roupa se abriu lentamente, ela rangia. Não conseguia me mover, será que finalmente encontramos algo de verdade. Olhava para Lily e via sua pupila dilatada, eu não devia ter parado de segurar as mãos de Lily. As roupas começaram a sair aos poucos do guarda roupa, elas se arrastavam pelo chão e o pior nós éramos o seu alvo.

–Andrew, eu estou com medo. –Um suéter rosa de Lily se arrastava pelo chão em sua direção, tanto eu como ela não nos movíamos, sei que nunca se deve fazer isso, vi vários filmes de terror, mas pessoalmente parece outras coisas.

A manga do suéter agarrou a perna de Lily, podia sentir a agonia de minha irmã, um grito típico de filme de terror saiu de sua garganta, ela estava pálida e com um aspecto terrível, foi quando eu ouvi, alguém tinha soltado uma gargalhada fofa e meiga. Mal conseguia pensar direito, depois daquela gargalhada que eu ouvi as coisas pararam de se mexer e tudo parecia ter voltado ao normal. Olhei para minha irmã e ela não se mexia.

–Lily? –Ela não se mexia, acho que tinha entrado em colapso.

–O que ouve aqui! –Meu pai entra quebrando a porta do quarto, imagino o que ele tenha pensado. –Filha! Filha! –Tinham lagrimas escorrendo dos olhos de Lily, meu pai a balançava chorando também. –O que você fez! –Ele me culpava, como sempre fez, só que dessa vez era diferente eu sabia que ele tinha razão, me sentia um inútil por não poder fazer nada.

Meu pai levou Lily para o hospital, e me levou junto para dizer o que havia acontecido. Sabia que não podia dizer a verdade, afinal se dissesse me internariam em um sanatório, falei que eu acordei no meio da noite e vi Lily mexendo no guarda-roupa, que ela jogava tudo no chão e que quando fui falar, ela me jogou no chão, gritou e caiu. Eu e meu pai dormimos no hospital enquanto minha vó tentava acalmar minha mãe.
Um pouco antes de Lily acordar o médico já tinha diagnosticado ela, um caso comum de sonambulismo, estou até aliviado por ele não ter ido a fundo. Logo que Lily acordou fui direto falar com ela.

–Pirralha, está bem?

–Andrew, por favor me diga que aquilo foi um sonho.

–Infelizmente não. –Dos olhos de Lily começaram a sair lagrimas, ela nunca foi de chorar, até porque agora ela deve estar chorando por dentro. –Lily, você poderia não contar para ninguém sobre o que nós vimos de madrugada.

–Não sou tão burra quanto você pensa, se tem uma coisa que eu aprendi em filmes foi que as pessoas nunca vão acreditar em você.

–Diga que você não se lembra de nada, te diagnosticaram com sonambulismo.

–Entendo. Quando vamos para casa°

–Daqui a pouco, papai só está resolvendo o pagamento.

O hospital ficava á trinta minutos da casa. Chegamos em casa e nossa mãe se jogou em cima da pirralha, parecei que alguém tinha morrido, acho que nunca vou entender essa preocupação, minha vó era tranquila, nunca vi ela preocupada. Subimos para o quarto e sentamos em nossas camas.

–Vamos guardar o jogo? –Perguntei, não tenho certeza se devemos subir lá em cima de novo.

–Seria melhor esconde-lo onde ninguém mais o encontrará. –Ela tem razão, não podemos deixar que isso caia nas mãos de ninguém. –Que tal na floreta que tem depois do quintal?

–Melhor do que colocar de volta no porão.

Descemos as escadas e nos deparamos com minha vó, ela estava sentada em sua cadeira de balanço tricotando, talvez um tapete, ou quem sabe uma toca, esse é o robe dela.

–Então vocês encontraram esse jogo velho. –Ela deu uma risada. –Levaram muitos sustos? –Ela parecia brincar com nossa cara, minha vó não é tão velha, ela tem sessenta e cinco anos.

–Bem... –Nem eu nem Lily sabíamos o que falar, será que ela sabia, do que estava acontecendo.

–Crianças, não me digam que vocês estão com medo desse jogo. Eu joguei ele a minha vida toda, é tudo farsa. –Nós vimos o que aconteceu, temos certeza que funciona. –Garotos, se existe uma coisa que eu posso afirmar é que isso é mentira. –Acho que ela notou nossa preocupação. –Não se deixem levar pelo que veem, as coisas nem sempre são o que parecem. –Ela não parecia estar se referindo ao jogo.

–Não vamos vó.

–Mais uma coisa garotos, vocês acreditam em fadas? –Aquela sensação de Déjà Vu.

–Vó, que pergunta besta. –Não tinha como não dizer aquilo, ela ainda acha que somos crianças.

–Como eu esperava, vocês não são mais crianças.

Aquela pergunta sem noção, o que ela queria insinuar com isso. Lily e eu pensamos sobre esconder o jogo, tínhamos certeza do que íamos fazer e do que tínhamos passado, ninguém poderia passar pela mesma coisa que nós. Decidimos colocar o jogo junto com a urna do nosso avô, sim sabemos que isso é muito estranho e que pode dar tudo errado, mas é um dos poucos lugares onde ninguém pensaria em abrir. A urna do meu avô fica dentro de um oratório antigo no início da floresta, ele adorava aquele lugar.
Demora uns cinco minutos andando do quintal da casa até o oratório, ele estava cheio de buques de flores que minha vó sempre traz, estava trancado com um cadeado, nada que um alicate não resolvesse, minha surpresa foi que a urna não estava sozinha, junto a ela estava um livro com capa de couro e uma placa de metal losangular, Lily pegou o livro, que por sinal estava todo empoeirado, e soprou, ela parecia pasma e continuou com aquela expressão por cinco segundos.

–O que foi pirralha? –Tiro o livro da mão dela.

Acho que minha expressão foi a mesma que a dela, não podia me ver para comprovar. Escrito no metal losangular estava a palavra "Fadas".

Notas finais
Obrigado por ler