Existem vários tipos de morte, e, várias maneiras de se morrer.

Na verdade, não pensamos muito nisso durante a primeira parte de nossas vidas, a não ser, claro, que sejamos acometidos de algum mal grave ou então que venhamos a sofrer perdas dolorosas durante essa época. No mais, prestes a completar quarenta anos, nunca pensei na morte como ultimamente. Na verdade, não sei bem como dizer, mas, eu a vejo! Não, eu não vou morrer, pelo menos não que eu saiba, não agora, entretanto, ela participa da minha vida e, posso lhes garantir, ela não é apenas um acontecimento, é algo visível, como aquela colega com quem você cruza às vezes e até cumprimenta.

Tudo começou a partir do momento em que decidi ler um livro que há muito estava depositado em minha estante. O interessante era que todos os dias eu passava por ele e o olhava, e ele por sua vez, parecia projetar-se um pouco em comparação com os outros, quase como se suplicasse para ser lido.

Dentre os motivos que me faziam relutar por essa leitura estava o fato de tratar-se de um livro que abrangia parte da história do holocausto e, sinceramente, só em pensar no sofrimento de tantas pessoas já me causa grande opressão no peito, então ficava pensando que se lesse certamente isso iria piorar, pois a ignorância dos fatos nesse caso era bem cômoda, assim como é para a grande maioria da humanidade nos dias de hoje.

Finalmente tomei coragem e iniciei a tal leitura. Já de cara, o que li na contra capa deixava claro que não seria possível retornar, eu havia pegado um caminho sem volta, algo naquela frase me prendeu definitivamente à obra: “Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler.” Nesse exato instante eu deixei de ver a morte apenas como um acontecimento, foi exatamente aí que ela passou, gradualmente, a ter uma forma e uma personalidade.

Assim que terminei o prólogo, não sei se conseguirei me fazer entender com a mesma intensidade, mas já era como se fôssemos próximas, é isso mesmo, eu e a morte! Eu entendia com tanta clareza o que ela dizia, ainda que estivesse escondido nas entrelinhas, que até me espantava. Na verdade, era como se ela estivesse ali pessoalmente me contando aquela história. Não houve uma só palavra, uma só frase ou parte, ou sentença que eu precisasse voltar e reler por estar em dúvidas quanto a ter compreendido.

No decorrer da leitura, que começou com rapidez devido à curiosidade e terminou lentamente, devido à iminente tristeza em ter que me despedir. Eu sentia que estava lá, em Molching, na rua Himmel, na casa do prefeito, durante a leitura para Frau Holtzpfel, e no porão dos Fiedler, sempre acompanhada por “ela”, que fazia questão de me apresentar todas as pessoas e mostrar de perto todos os locais e os acontecimentos.

Como disse antes que aconteceria, terminei a leitura com pesar, durante o percurso de ônibus da minha casa até meu trabalho e, nas últimas páginas, foi inútil tentar segurar as lágrimas. As pessoas me olhavam e eu sabia que a última coisa que poderia estar passando pela cabeça delas era o real motivo daquele pranto.

Passei alguns dias ainda carregando aquele livro na bolsa e, às vezes, o pegava folheava e relia a contra capa. Por fim, passaram-se alguns dias e fui aos poucos me afastando de tudo aquilo e até mesmo “ela”, que parecia tão próxima a mim, estava se distanciando, mas isso só foi o que pensei!

Depois de um tempo, ela passou a ser na minha lembrança apenas mais uma personagem de uma história que havia valido a pena ler. Porém, penso que talvez “ela” não tenha se sentido muito à vontade com a nova posição a que fora reduzida na minha vida, talvez tenha se comovido pelo fato de eu haver compreendido com tanta facilidade não só a história que me havia contado, mas também sua posição dentro dela, e por eu não tê-la julgado ou demonstrado nenhum sentimento contrário a ela, como medo ou receio de estar tão próxima naqueles momentos. O fato é que ela não deixaria de se fazer notar, ainda que não fosse para cumprir sua tarefa usual diretamente comigo.

Contarei a seguir, histórias de momentos em que claramente pude concluir que tudo o que li anteriormente se referia a alguém que queria me dizer que era real e que nem sempre carregava o peso de uma missão fúnebre, e que às vezes deixava escapar pequenas demonstrações de humanidade.

No nosso primeiro encontro, ela quis deixar bem claro qual era seu papel, que nada do que pudesse vir a fazer, ainda que destoasse de suas características, mudaria quem ela é de verdade.

No segundo encontro, ela não veio, mas também quis deixar claro que tem conhecimento de um lado mais florido da vida e o respeita. Dado o recado, passaria ao segundo nível do relacionamento aonde eu iria tomar conhecimento de seu bom e mau humor, de sua ira, certa solidão, o desejo praticamente irrealizável de ter amigos, enfim, ela iria me surpreender com suas múltiplas facetas.

Você não deveria perder essas histórias, garanto que vai acabar concordando que a morte não é um mero acontecimento.