Faces Da Morte

2 O outro Anjo


Notas iniciais
Tão inerente ao ser humano quanto morrer, é nascer! Por isso, assim como a bela dos olhos cor de mel que suave a amorosamente vem nos buscar quando o tempo se finda, outra bela anuncia o momento mágico, quando abrimos os olhos pela primeira vez do lado de cá.

Ainda me recuperava das últimas emoções vividas por uma revelação intensa e surpreendente quando o telefone tocou, o homem do outro lado identificou-se como Mário. Eu custei a acreditar, quanto tempo já havia se passado que eu não tivera mais notícias desse amigo, na verdade, eu era amiga mesmo de sua esposa, a Clara.

Nós nos conhecemos no colégio e estudamos juntas na mesma classe por oito anos, nos tornando confidentes, amigas-irmãs. Lembro de haver incentivado aquele relacionamento no terceiro ano do ensino médio.

Cinco anos depois, por fim, me entregaram o convite para o casamento e revelaram o desejo de me ter como madrinha no altar da igreja. A cerimônia foi linda e emocionante, muitas lágrimas de felicidade inundavam nossas faces a todo o momento quando nos lembrávamos dos tempos de escola, das aventuras vividas, de todas as vezes que passávamos a noite em claro comendo brigadeiro e chorando porque estávamos sofrendo por amor.

Ao final da festa, nos reunimos todos num grande abraço e eles partiram em lua de mel.

No quinto ano de casamento, decidiram que teriam um filho e, no final do primeiro trimestre de gravidez, um aborto espontâneo revelou uma doença silenciosa e cruel. Instalou-se o pânico no seio da família e entre os amigos que estavam sempre juntos.

Clara era uma moça linda e seus cabelos longos avermelhados destacavam os grandes olhos verdes; tinha um sorriso capaz de dissolver qualquer situação, fosse tensa ou embaraçosa; a vida pulsava em seus movimentos, em suas atitudes e na vontade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Ficamos chocados, seus dias estavam contados. Ela, porém, não se abateu, trataram de reunir a família e os amigos, os dois haviam decidido tentar tratamentos no exterior. No mês seguinte, embarcaram para o Canadá de onde vinham notícias de novos tratamentos.

Houve uma festa de despedida, onde apesar da música e da tentativa de fazer daquele um momento alegre, um silêncio doloroso reinava absoluto dentro de cada um. Como não tinham previsão de uma volta para breve, então, seria como se estivessem se mudando para lá.

Os meses passaram, houve pioras e melhoras, pioras e melhoras, até que um dia, através de um email com cópias à família e aos amigos, Mário anunciou que não haveria mais contato constante, pois, devido ao estado de Clara os médicos concluíram que o melhor seria mantê-la no hospital por tempo indeterminado o que também exigiria dedicação extrema de sua parte. Avisou-nos que sempre que possível nos passaria as novidades, o que com o tempo também deixou de acontecer. Apesar de preocupados, não havia nada que pudéssemos fazer a essa distância.

Nada mais soubemos do casal por um longo tempo, até agora. Tive ímpetos de atacá-lo verbalmente, já que era só o que eu poderia fazer através do telefone, como ele pôde nos abandonar à sombra da preocupação, aos braços da tristeza, imaginando que a falta de notícias só poderia significar uma coisa, Clara se fora e ele não tinha coragem de voltar.

Por fim, ele me pediu que fosse ao Hospital Central o mais rápido que eu pudesse e desligou o telefone. Eu não sabia o que pensar, como assim? Eles estavam aqui? Estavam de volta? Ela estava novamente no hospital? Ela está viva? Sem conseguir respostas imediatas para qualquer uma dessas perguntas, peguei minha bolsa, meu carro e fui o mais rápido que pude. Chegando lá, nem sabia a quem deveria procurar, mas logo o vi no corredor, entre a sala de espera e a entrada de emergência para as salas de cirurgia e terapia intensiva. Ele correu em minha direção e me abraçou, eu queria bater nele e então ele me segurou pela mão e me conduziu para a direção oposta, rumo aos quartos próximos ao berçário.

Completamente tonta, eu o segui até uma porta com um enfeite rosa que dizia: “Cheguei! Sophia”. Olhei para ele que tinha os olhos marejados e o sorriso de uma pessoa que obviamente não estava passando por nenhum tipo de tragédia.

Quando ele abriu a porta, não pude acreditar no que meus olhos viam e eu não estou falando de Clara ou de Sophia! Ela estava lá e como eram parecidas! No mesmo instante, entendi que apesar da semelhança cada uma tinha uma missão diferente. Essa possuía os mesmos olhos da cor de um pote de mel contra o sol, mas eles não carregavam uma tristeza contida, eram irradiantes. Sua túnica era quase uma neblina azul que tinha o efeito de transparência, embora não se pudesse ver nada através dela, e parecia conter detalhes prateados cintilando à menor iluminação, o tecido obviamente tão nobre quanto ao da outra. Sua presença emanava um perfume sutil de chuva na relva, indicando que a vida se renovava e, espantosamente, também olhava diretamente em meus olhos como a me dizer: “olha só, eu sou o outro lado da moeda!”

Dessa vez pude ver suas mãos, claras, lisas e dispostas como alguém que acabou de entregar uma encomenda muito preciosa. Lentamente, foi se afastando da cama, deslizando suavemente em minha direção e eu nada consegui fazer além de lhe dar passagem, como se isso fosse necessário. Ela pareceu divertir-se com meu movimento e, ao passar por mim, fez um aceno delicado com a cabeça, eu sabia que havia um sorriso em seus lábios, dessa vez não havia peso, tristeza, dessa vez não era o fim e sim o começo.

Quando me voltei para a cama, tanto Mário, quanto Clara me olhavam e obviamente não entendiam meus movimentos e minha reação. Em seguida fui apresentada à Sophia, que nascera saudável. Clara havia se recuperado no quarto ano em que estavam no Canadá, porém, devido à gravidade do problema, os médicos decidiram manter vigilância cerrada durante um bom tempo com exames regulares, uma dieta específica, etc. Assim que engravidou, o casal decidiu que faria uma surpresa a todos e voltaram quando ela entrou no oitavo mês de gestação, queriam que sua filha nascesse aqui, entre amigos. A saudade e a felicidade de vê-los bem não cabiam nos abraços que eu distribuía.

Quanto a “ela”, não sei, talvez tenha acompanhado todo o drama vivido anteriormente e, sabendo que eu havia conhecido “o outro anjo”, quem sabe também tenha se afeiçoado a mim, e deve ter desejado que eu soubesse que existe o outro lado da história, que cada acontecimento tem seu mensageiro, que a vida pode causar dores implacáveis, mas também alegrias que não cabem em nós e, por fim, que cada momento tem sua importância. Cabe a nós saber aproveitá-los e absorver seus ensinamentos.