Facção. Dos. Perdedores

111 O último de 2024.


Picone pelo buraco.


Eventualmente, Picone encontrou seu caminho, mesmo se perdendo e sendo reguiado por algumas criaturas comuns, mas que falavam. No caminho, até chegou a observar algum tipo de dinossauro gigante no horizonte caminhando entre montanhas e soltando algo que parecia ser raios lasers continentais por um olho, mas não focou muito nisso porque realmente não entendia muito bem o que focar. É claro que ele era Picone ainda, e de qualquer jeito também. Por mais esquisita que fosse sua recém-jornada ele voltava a se recordar aleatoriamente de alguns momentos de sua infância, alguns contratos que não deveria ter assinado e daquela vez que precisou pegar um ônibus porque foi flertar com uma jornalista ou alguma coisa assim há uns 90 capítulos antes. Só não eram pensamentos que tinham a ver com o que estava experienciando e isso era uma sensação bem macabra, quase como se não pertencesse à nada. Um sapo que o acompanhava, sábio com os outros de sua espécie, estava preocupado com o emocional do rapaz mas nada fazia a não ser observá-lo. Ajudaria quando necessário.


Então, encontraram a entrada muito escondida de uma caverna por trás de dezenas de hectares similares de selva sem fim. Os barulhos animalescos eram óbvios e a claustrofobia da imensidão da natureza eram sinal de um mundo muito vivo mas que nenhum outro animal ousava dar as caras porque tratava-se de uma situação importante demais que decidirá o futuro daquele mundo por completo. Picone, sendo um cara legal, vai fazer a escolha certa e tinham certeza daquilo porque são filhos do mesmo. Esse foi o universo que o mesmo criou. O garanhão desceu com cuidado pelas escadarias obscuras construídas faz alguns milênios.


Apesar de que acompanhavam na espreita o ratinho, o sapo e o louva-deus desapareceram intencionalmente da vista do herói para que ele seguisse a jornada e fizesse o mesmo as suas escolhas.


Um sentimento nunca antes percebido em seu coração acendeu: uma repulsa infinita maior da primeira vez que experimentou jiló cozido aos 3 anos de idade. Com o sentimento veio a reação instantânea, girando para a direção onde sentia a aura do oponente repugnante com uma cotovelada sem misericórdia. O vulto que sofrera com o ataque desapareceu tamanha fora o impacto, atravessando a realidade por caminhos peculiares até encontrar o teto. Com isso, sua aura sumiu e Picone aliviado seguiu em frente sem se perguntar muito de nada.


Ao chegar a um vasto horizonte escuro plano, a repulsa ressurgiu e Picone ouviu a voz que ecoava na direção que encarava, distante para ser observada.


- Nós podemos ser amigos, ok? Pense nisso.


Não era a voz de nada humano e também não soava com sapo, dragão ou rato — outras raças que ele ouvira falar. Aproximou-se com mais curiosidade do que intenção agressiva, de maneira até que inocente. Sem que a figura se movimentasse, vislumbrou seu espectro incomparável que demonstrou um semblante demoníaco.


- Não precisamos lutar. — O demônio estava sentado, como se cansado dos mesmos clichês repetidos em que costuma ser retratado.


Como um cavalheiro, Picone manteve a compostura para suprimir a repulsa e buscar ter consideração pelo outro. Nesse caso, o próprio diabo. Abriu-se ao diálogo entretanto não se encontrava no espírito de discutir com o diabo que não queria lutar, algo muito filosófico e fora do seu escopo de personagem. Talvez nem Robin sentir-se-ia à vontade e nenhum outro personagem porque por mais bregas que são, não é pra tanto também.

- O que você faz aqui? — Perguntou pelo mais simples primeiro. Esperava uma resposta que não fosse tão absurda.


- Cansei-me de batalhas e de épicos, por mais que tenham me criado para isso.


- O propósito de sua vida é tu quem faz. — Sentou-lhe um discurso moralista meritocrático porque estava se sentindo à vontade.


- Que burrice, não se enxergas? — Desferiu um golpe veloz que realmente sugeriu que Picone não enxergava nada e nem a si mesmo, no sentido de que não entendia e era na realidade incapaz de conceber, devido à sua ingenuidade e mortalidade humana, seu lugar como criador daquele universo. O golpe fez um corte bem feio no braço de Picone, mas esse ficou sem reagir mesmo perdendo uma de suas camisas sociais preferidas. Foi como se ninguém tivesse se movido uma vez que o diabo continuava sentado e cansado.


- Não. — Assumiu. Afinal sua consciência estava ainda perdida.


- Então não está pronto nem para o buraco e nem para a esfera. E nunca estarás. Temo que deva ser desse mesmo jeito que irá encarar a verdade. Aceite minha piedade, pois não me interessa também enfrentar os mortos — E essa última frase resume o motivo de tamanho desânimo em sua parte de seguir narrativas. Na verdade já esteve satisfeito uma vez com a luta do outro Picone, o Picone mais fraco porém com mais espírito.


O diabo lentamente desapareceu enquanto ditava sua última fala para nunca mais ser visto com o cenário o movendo para o além da escuridão. Aquele mundo trouxe-o então, a esfera e o buraco.


Picone escolheu o buraco de qualquer jeito. E essa foi a decisão de cara legal que salvou aquele mundo — o seu mundo — mesmo sem que soubesse de qualquer coisa. Os bichinhos apenas ficaram atônitos de tamanha a perdição que a cabeça daquele homem seguia por ter caminhado para cair.


No fim, tudo manteve-se como esteve.


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O Terceiro Messias.


No deserto árido e pacato de terreno planar e nenhuma ventilação um ser meio-homem meio máquina movida a combustíveis fósseis seguia para frente em uma perambulação sem sentido. Pontko Struisto julgava que suas ações acarretaram mais na perdição de tudo do que colaborassem com a manutenção da existência, apesar dos esforços terem sido feitos nessa última direção.


O que aquele mundo dizia para Robin era deveras triste. Como se já tivesse morrido e apenas estava ouvindo o murmurar de seus remorsos. Isso o angustiou. Pontko Struisto, na verdade, estava mais angustiado. Batalhou nos últimos tempos para buscar reconfigurar a tranquilidade ou os tempos de abundância no seu mundo acabado. Entretanto, seus esforços aparentavam ter sido em vão.


Pontko viveu aventuras com uma uma jovem terráquea normal tecnóloga da informação viciada em cigarros e em jogos retrô que foi, de todas as pessoas, possuída por uma consciência cósmica com a capacidade do extermínio. E quando escrevo extermínio é completo, exterminar desde a matéria até a essência e a presença da pessoa/objeto em todo o espaço-tempo. Um poder, sem dúvida avassalador, e a garota nunca soube controlar muito bem, sendo possuída pela consciência cósmica de pouco conhecimento e maturidade de mundo ou emocional.


A habilidade de Reia baseava na reconstrução da realidade com base na inexistência dos átomos desintegrados de qualquer que seja o seu alvo. Para pessoas comuns que não possuem conhecimento desse poder, é como se nada mudasse em sua vida realmente. A realidade se reinicia mas é como se sempre fosse assim para sua caixota, de algum jeito. Pontko, por possuir esse conhecimento, conseguia ver o mundo mudando em um piscar de olhos — ou numa faísca do raio laser da Consciência Exterminadora.


Em algum momento na longa jornada que caminharam juntos, Pontko e Reia se separaram para a infelicidade de ambos. Pontko presenciou algumas alterações instantâneas e não-espontâneas que julgou ser devido a novos extermínios. Entretanto, a realidade de seu mundo não mudou praticamente nada. E fazia já algum tempo que não observava nenhuma alteração que pudesse ser correlacionada.


A sua civilização que vivia abaixo da perigosa superfície em cavernas úmidas e venenosas não parecia ter mais futuro. Sua missão era encontrar o Messias e julgou que Reia fosse. Mas pelo jeito não. Pelo jeito Pontko desperdiçou seu tempo e já não mais acreditava em um Messias. Sua profissão não fazia mais sentido e a superfície, tal qual a espécie humana e aquele mundo, estavam condenados.


E pensar que havia jogado fora sua humanidade pela missão…


Distante, o Grande Diabo caminhava pela planície sufocadora e infernal. Era a representação da inevitável calamidade que aquele mundo sofreu e a manutenção do caos que se seguiu desde então. Há milênios. Há milênios o Grande Diabo continuava a caminhar, de forma horripilante de um gigante em chamas com chifres enormes que podiam ser vistos a centenas de quilômetros de distância. Em outra direção, mas não tão distante, sombras da escuridão divagavam e atormentavam os espíritos presos amaldiçoados nessa terra sombria.

O diabo, subitamente, caiu e pedras e areias seguiram seu tombo em todas as direções, provavelmente circulando todo o planeta de tamanho impacto que a terra abrasada sentiu. Em outra direção, um raio de luz tremendo apagou toda a escuridão e Pontko observou os espíritos serem arrebatados e convertidos em seres angelicais e celestes, ascendendo aos céus.


Esses acontecimentos se seguiram em centenas de segundos assim como o cerco de escorpiões espirituais malignos que estavam esperando apenas algum descuido do profeta para atacá-lo e terem um bom rango. O que surpreendeu Pontko, no final dessa sequência de eventos, foi de ver os escorpiões espirituais malignos mortos ao chão após uma fina luz atravessá-los. Então, encontrou o terceiro candidato a Messias que conhecera na vida. Robin Tenyst Wood.

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Molly nunca consegue ganhar.


O Caos dissipou-se em todas as direções e reuniu-se logo atrás de Molly para desferir um poderoso soco na nuca do caolho. O adversário do Caos fez o mesmo e dissipou-se para impedir o ataque. Convertido em matéria, atravessou o abdome da forma humanoide da entidade mas não encontrou êxito, tendo que dissipar-se novamente para um local mais distante, acima de um edifício qualquer que provavelmente já fora um açougue ou uma padaria, pelas suas dimensões.


Aproximou suas mãos para o tapaolho com intenções assassinas antes de ser interceptado por um cotovelada em um movimento tão veloz que sentiu como se tivesse sido acertado pelo vento. Além da própria luz. O impacto levou-o a atravessar algumas edifícios e destruí-los por completo. Não foi mais do que um golpe qualquer que já tivesse levado centenas de vezes nas suas histórias heróicas de guerra e como Super Militar, ou até mesmo nas Guerras de Vril. Molly já havia atravessado o Caos antes que esse enviasse novos ataques à distância.


O Caos dissipou-se após transmitir a energia solar de Molly. Dessa vez, dissipou-se e recuperou à distância. Molly sorria, de costas para o inimigo, entendendo que a sua estratégia era exata. O adversário maligno dessa vez não tinha o que comentar.


Foi então que Molly sentiu seu peito ser perfurado dessa vez por uma figura dourada, um humanoide que representava o extremo oposto do seu adversário atual. Afastou-se sem dificuldades e distribuiu sua energia para a ferida. Nada fora do usual.


O que era fora do usual no instante seria batalhar com essas duas entidades cósmicas que não reconheria. Não pareciam ser Vrils, nem alienígenas, nem dragões, então seu histórico de criaturas místicas não colaborava muito para a situação. Também não eram representações de matéria escura, apesar do Caos assemelhar-se em certo grau. A Ordem não alterou sua posição em nenhum segundo, movendo-se apenas para acompanhar Molly que novamente desviava de ataques do Caos.


Molly desferiu o segundo golpe no Caos. Nessa vez uma porrada no rosto. A Ordem conseguiu acertá-lo de raspão no tronco com raios de energia altamente ordenados, composto apenas por fótons idênticos que oscilavam harmonicamente com os arredores entrópicos do universo. Molly tentou atacá-lo, também, mas recebeu uma joelhada no abdômen que quase o levou ao chão. Recuperou-se para desviar do segundo ataque e nesse momento olhou de fato para o segundo inimigo, antes de atacá-lo com uma porrada no rosto também que levou a Ordem para além do horizonte.


Era claro que seus punhos deviam tratá-los de maneiras diferentes, tal qual o que representavam no fundo. Molly não conseguia compreender, mas era claro que a retirada do tapa-olho colaborava. Sua maldição já havia infectado o cerne dos seus inimigos.


E o revestimento fotônico de seus ataques colaboravam. Revestimento fotônico harmônico para o Caos e Browniano para a Ordem. Engraçado que sua expertise nunca fora revestimentos, algo mais para Xupa e Wilson, mas descobriu como acertá-los assim de corpo a corpo ao invés da sua artimanha com rajadas de energia solar. Sentiu que entendeu um pouco como quando se transmitiu através de Caos e o calou… Mas estava longe de ter realmente danificado o adversário.


De qualquer jeito, agora era a sua luta. E seus inimigos, principalmente Caos, não tinham mais comentários.


Dois segundos haviam se passado desde que ambos foram golpeados e isso era tempo demais para adversários desse nível. Mesmo não acostumado com embates tão calorosos — lembrava-se apenas de Terry no passado — já estava acostumado com o ritmo dos inimigos. Sejam quem sejam, os punhos de Molly não mentiriam.


Dois feixes intensos de energia chegaram até Molly, mas foram cancelados. Era o Ying-Yang ou algo assim. Era os dois que precisava entender. Permaneceu intocável enquanto recebia toda aquela energia e apenas a canalizava ao seu interior após cancelar sua intenção maligna com o revestimento modulado. Caos foi o primeiro que ousou um ataque sujo após uma emissão contínua de 30 segundos. Buscou abater Molly pelas costas, mas o mesmo não surgiu efeito. Ordem seguiu igualmente falhando uma porrada no rosto do rosto. Molly permaneceu intacto.


Alguns segundos de combate se seguiram. Os inimigos nunca caiam de vez, não importa o quanto eram espancados e “queimados” com ondas de energia. Eventualmente, os golpes cresceram em intensidade e passaram a ameaçar mais o planeta do que o próprio Molly. Quando isso ocorreu e Molly viu uma cratera abrir abaixo de si após desviar calmamente de um ataque, ele espancou os inimigos simultaneamente com todos os seus músculos e sua aptidão e entendimento de energia solar até que fosse interrompido.


- Você está perdendo tempo — Uma voz disse no fundo de sua mente, em meio ao som de seus punhos jogando os inimigos para a distância e o vento que se cruzava em Molly voando em alta velocidade.


Tomou um susto, como quando uma criança pêga por pais evangélicos xingando em uma brincadeira de bonequinhos.


- Você pode ser mais forte, mas não será capaz de desferir um golpe final nesses inimigos. E sua energia irá se esgotar em breve. — Era uma voz feminina com sotaque similar ao da deusa que conheceu recentemente.


Sobrevoava agora um oceano roxo de morte e de maldições. Parou para escutá-la, e ao olhar brevemente para acima de seu ombro viu um pedaço do céu escuro ser rasgado por uma imensidão ainda mais escura de onde uma mulher surgiu, pisando em um objeto que não conseguia compreender.


- Você sabe o que são?


- Mais importante, eu sei onde estão os seus meninos. Robin e Picone. — Hipátia sabia o que falar — Sobre as essências, desafiaram-te seguindo do nada, mas comigo conseguirá retornar para o seu mundo. É para onde eu vou, buscar Edésia.


- Você também é uma deusa ou algo assim? — Molly estava desconfortável, sentindo-se muito à deriva na história. Claramente os acontecimentos aconteciam em cima dele e esse negócio de deuses estava começando a desafiar seu entendimento da realidade de um jeito chato. As coisas eram para ser mais simples, de algum jeito.


- Sim. Estou aqui para ceder minha mão em direção à manutenção da existência, da vida e do mundo…

Nessa deusa Molly tinha mais dificuldade de acreditar. Enquanto que Edésia só parecia uma esquisitona que falava bobalhagens, Hipátia parecia uma figura pomposa e farsante. Aparecendo repentinamente nessa situação aparentemente desfavorável para Molly e se pondo como uma ajudante para salvar o mundo. Não apertaria sua mão — o que para si próprio foi ótimo — mas aceitaria de qualquer jeito a carona para casa.


Notas finais
Esse capítulo foi muito de improviso e foi o que eu precisei (e acho que é o que preciso continuamente) para quebrar esse bloqueio de escrita que ando tendo.