FT High School: Where All Began
3 Um Beijo
Notas iniciais
Natsu POV
Um mês havia se passado desde que as aulas começaram. Depois do incidente na lanchonete no primeiro dia de aula, Gray já não olhava mais para a cara de Juvia, e Juvia sempre olhava para o chão quando os dois tinham que ficar perto um do outro.
Erza e Jellal ficavam sempre estudando juntos depois da aula. É, eu penso o mesmo. Estudando, sei. Minha casa parecia mais movimentada do que nunca também. De vez em quando os amigos da Wendy iam lá estudar, ou de vez em quando todo o grupinho da Levy se juntava, e minha mãe adorava ter gente em casa.
Hoje não era um bom dia pra mim, tampouco pra Lucy. Há cinco anos, no dia 8 de setembro, a mãe de Lucy viera a falecer por ter uma rara doença, cuja cura só fora descoberta tarde demais. Nesse dia ela sempre ficava como um zumbi. Ela não falava nem sorria. Normalmente ela ia embora mais cedo da escola e desaparecia o resto do dia, mas no dia seguinte ela voltava a ser sorridente como sempre. Mas eu entendo. Há cinco anos, no dia 8 de setembro, minha mãe deu à luz a um menino, meu irmão. Só que, como ele era muito fraco, morreu alguns meses depois.
Todo dia 8 eu vou ao cemitério para ir ao túmulo do meu irmão, e sempre vejo Lucy no túmulo da mãe dela. Provavelmente é lá que ela fica o dia inteiro, ela leva livros e os lê em voz alta como fazia quando sua mãe adoeceu, ela ia até o hospital e contava histórias para ela. Ninguém sabe que ela faz isso até hoje, só eu.
Mas hoje o tempo estava fechado, com nuvens escuras carregadas sobre toda Magnólia, então talvez eu tivesse que ir ao cemitério outro dia, e eu meio que ficava aliviado que Lucy voltasse para casa, já que, pela primeira vez em cinco anos, ela passou o dia 8 inteiro no colégio.
– A Lu-chan realmente fica mal nesse dia, não é? – Levy perguntou, e eu dei de ombros. – Você vai levar flores para o seu irmão?
– Não sei, parece que vai chover – respondi, e ela revirou os olhos.
– Natsu, ele é seu irmão. Todo ano ele vê como você se importa com ele, seja onde ele estiver, e por causa de uma chuvinha que pode ou não cair você vai deixar de demonstrar o que você sente?
– Se não chover eu vou, ok? – falei, e ela assentiu com um sorriso.
– É assim que se fala – e deu uma risadinha, entrando em casa. Pouco tempo depois, começou a chover. E a chover forte mesmo. Fazia um tempo que eu não via uma tempestade dessas. Quando o relógio marcou sete horas começou a escurecer e a chuva havia diminuído, então eu decidi fazer o que Levy queria que eu fizesse.
– Filho, aonde você vai? – minha mãe perguntou, e eu parei antes de fechar a porta.
– Eu vou dar uma saída rápida – respondi.
– Mas não vai levar um casaco ou um guarda-chuva? Está frio lá fora, e pode começar a chover a qualquer minuto – ela falou, e eu sorri para ela.
– Eu volto antes de começar a chover, não se preocupe – e saí de casa. Pelo menos o cemitério não ficava tão longe de casa, eram apenas umas quatro quadras de distância.
Parei na entrada e respirei fundo. Eu não gostava muito de ir ao cemitério, mas eu ia pelo meu irmão. Então, com um trovão e um relâmpago, a chuva voltou a cair. Com certeza minha mãe estava preocupada. Mas eu já estava ali mesmo, não ia voltar atrás. O túmulo do meu irmão ficava bem no meio do cemitério, que era bem grande. Assim que cheguei, lembrei-me do dia em que ele morreu. Nunca vi minha mãe chorar tanto.
– E aí irmãozinho, feliz aniversário – falei sorrindo. A essa altura eu já estava encharcado. Caiu mais um relâmpago, não tão longe de onde eu estava. Em meio à tempestade, eu ouvi um choro. Eu achava improvável, mas eu fui atrás do som.
O túmulo da mãe de Lucy não ficava tão longe, e quanto mais eu chegava perto, mais eu tinha certeza de que ela estava ali. Então eu vi uma garota loira, com os cabelos soltos encharcados, assim como o uniforme do colégio. Ela nunca fora até o cemitério de uniforme, ela deveria estar ali desde que sumiu do colégio.
– Lucy? – chamei, mas ela pareceu não ouvir. Parei atrás dela e a chamei de novo, mas ela me ignorou.
– Agora você vai poder me zoar o resto da vida, não vai? – ela perguntou, e eu fiquei confuso. – Você vai usar isso contra mim, não vai? Eu pensei que você não viria ao cemitério com chuva.
– Você está aqui desde que saiu do colégio? – ela começou a soluçar e a tremer.
– Isso não te interessa – respondeu e eu suspirei.
– Quer dizer que você está tomando chuva esse tempo todo? E você não comeu nada o dia todo? – perguntei, e ela ficou em silêncio. Eu decidi levá-la para casa, não a deixaria ali. Sua pele estava muito fria, e eu percebi que ela estava mais branca que o normal. Eu a puxei para se levantar e ela ficou em pé, tombando de repente, inconsciente, em meus braços.
Peguei-a no colo e fitei seu rosto pálido e seus lábios roxos. Como minha casa era mais perto do que a dela, eu a levei até lá. Minha mãe ficou aliviada de vê-la porque, segundo ela, o pai de Lucy ligara em casa perguntando pela filha. Levy logo apareceu e entrou em pânico ao ver a amiga naquele estado, e nós a levamos para o quarto de hóspedes.
Lucy POV
Abri os olhos, mas ao olhar em volta não reconheci o lugar em que eu estava. Não era o meu quarto, e não parecia ser minha casa. Meu corpo estava quente, diferente de quando eu estava no cemitério. Eu sentia tanto frio que achei que fosse morrer no túmulo da minha mãe, até que Natsu apareceu. Natsu. Ele me tirou de lá. Por que ele faria isso? Por que ele foi legal comigo e não me deixou lá? Fitei a janela bem em frente à cama. O céu estava escuro e caía uma tempestade forte cheia de raios e trovões lá fora.
– Ah, você acordou – olhei para o lado e vi a pessoa que menos esperava ver: Natsu. – Levy, ela acordou! – ele gritou, e Levy entrou correndo no quarto, seguida por Saeko e Wendy.
– Lu-chan! Como você está se sentindo? – Wendy perguntou.
– Você se lembra do que aconteceu? – Levy perguntou.
– Ainda bem que você acordou, estávamos tão preocupados, você está com fome? – Saeko perguntou, e Natsu pigarreou.
– Ela acabou de acordar, façam uma pergunta de cada vez – falou, e Levy me ajudou a sentar.
– O que aconteceu? – perguntei confusa.
– Natsu te encontrou no cemitério e te trouxe pra cá – Levy respondeu. — Você estava tão pálida que eu achei que o pior tinha acontecido... Eu não poderia perder minha melhor amiga, nunca mais nos assuste desse jeito.
– Eu vou avisar seu pai que você acordou e está bem – Saeko falou, e correu para fora do quarto.
– Nós vamos pegar algo para você comer – Levy falou, levando Wendy consigo, e deixando apenas eu e Natsu no quarto.
– Obrigada – falei depois de algum tempo e ele não respondeu nada. Eu achei que ele poderia pelo menos demonstrar um pouco de compaixão pela pessoa acabada na cama.
– De nada – respondeu de repente. – Mas você não deveria estar lá esse tempo todo.
– Eu não conseguia mais me mexer, quando você me puxou eu... sei lá. Apaguei. Se você não aparecesse lá eu... eu achei que fosse morrer...
– Você... – Natsu ia falar, mas foi interrompido por uma Levy entrando com uma tigela de sopa no quarto, então ele saiu sem completar sua frase. Saeko convenceu meu pai de que eu deveria passar o restante da noite na casa dos Dragneel, e que ele não precisava se preocupar que ela iria cuidar de mim. A chuva não cessou nem um minuto naquela noite, e eu acabei dormindo sem saber o que Natsu ia dizer.
Natsu POV
Assim que acordei na manhã seguinte, minha mãe estava no meu quarto com a mão em meu rosto, provavelmente para ver se eu estava com febre. Ela sorriu para mim ao perceber que eu a fitava.
– Bom dia Natsu – ela falou, com um grande sorriso no rosto. – Eu tenho más notícias.
– A Levy e a Wendy nunca vão ir embora daqui – falei e ela riu, dando um tapinha de leve no meu braço.
– Isso é coisa para se falar das suas primas? Enfim, você não vai poder ir para a aula hoje, está com febre, deve ter pego uma gripe depois da tempestade de ontem. Seu pai e suas primas já saíram, e a Lucy ainda está dormindo. Eu vou ter que sair agora de manhã, portanto fique de olho para ela não sair.
– Vou ter que ser babá de uma garota da minha idade? – perguntei, quando a minha mãe abriu a porta.
– É só não deixá-la sair de casa até eu voltar. O pai dela teve que ir para uma reunião em outra cidade, e só volta amanhã – falou, já no corredor. – Até que ele volte, ela ficará aqui – e fechou a porta. Suspirei. Tinha a impressão de que a minha mãe estava fazendo aquilo de propósito.
Fiquei algum tempo olhando para o teto do meu quarto. Não conseguia mais pegar no sono, então levantei e fui até a sala, ligando meu xBox. Demorou algum tempo, então senti alguém se sentando ao meu lado. Era Lucy. E ela estava enrolada em um cobertor que parecia ser muito grosso, e seu rosto estava levemente avermelhado.
– Bom dia – falei, voltando a atenção para o jogo.
– Bom dia – ela espirrou, e se encolheu no sofá, tremendo.
– Você não parece nada bem – eu a senti me fitando.
– Eu não estou me sentindo lá essas coisas...
– Ah, seu pai viajou e só volta amanhã.
– Tá – falou, fechando os olhos.
– Ei, se você quer dormir, volta para o quarto
– Não me enche, eu estou cansada – e jogou uma almofada em mim, fazendo com que eu me distraísse e morresse no jogo.
– Você está morta – falei, jogando a almofada de volta nela, que apenas ficou parada. Eu comecei o jogo de novo. Ah, só de pensar que eu teria que passar tudo aquilo de novo, já desanimava. Mas eu tinha a manhã inteira. Então senti um peso em cima de mim. – Dá pra você sair daí? – perguntei, e ela resmungou alguma coisa que eu não ouvi.
– Natsu? – ela chamou, depois de algum tempo. – Você é um chato, sabia? Nem quando uma mulher está doente você se importa em deixá-la um pouco mais confortável... – e ficou em silêncio. Alguns minutos depois, eu percebi que ela tinha pegado no sono. Incrível, ela dormiu falando e ainda encostada em mim. Revirei os olhos e voltei ao meu jogo.
Levy POV
– Tia, calma – perdi as contas de quantas vezes repeti isso. Minha tia saiu pouco depois de nós para fazer compras na cidade, e acabou deixando Natsu e Lucy sozinhos esse tempo todo. Ela achava que a essa altura os dois já tinham se matado.
– Eu esqueci dos dois! – ela falou. Eu e Wendy voltávamos para casa, junto com Gray, Erza, e Gajeel, que queriam ver como os dois estavam, e encontramos Saeko andando e falando ao celular, carregando várias sacolas de boutiques. Assim que ela nos viu, ficou desesperada, e checou o horário em seu relógio. Então ela deu a louca. – E a Lucy estava tão mal a hora que eu saí, como eu pude me esquecer?
– Eu acho que eles estão bem, tia, não se preocupe – foi a vez de Wendy falar, e ela respirou fundo.
– Eu não acho que os dois iriam se matar enquanto estão doentes – Erza assegurou. Assim que chegamos a casa, todos corremos em direção ao quarto de hóspedes, mas Lucy não estava lá, então fomos até o quarto do Natsu, que estava vazio. Minha tia deixava algumas sacolas no quarto de hóspedes, e depois foi até a cozinha pedir que preparassem algo para nós comermos.
– Onde eles estão? – Gray perguntou, e eu suspirei.
– Nós ainda não olhamos na sala – Wendy falou, e nós fomos até a sala. Ela acertou em cheio. Os dois dormiam no sofá, um encostado no outro. Lucy estava com o rosto avermelhado, assim como o de Natsu. A única diferença entre eles era que Lucy estava enrolada em um grosso cobertor marrom.
– Ah, eles ficam tão bem juntos – Erza falou, e todos sorrimos. Vendo os dois assim, era difícil acreditar que todos os dias eles diziam que se odiavam.
– Alguém tem coragem de acordar os dois? – perguntei, e todos deram um passo para trás.
– Deixem os dois aí e vamos comer alguma coisa – Saeko apareceu, aliviada.
– Ok – todos falaram em uníssono, um tanto alto, então olhei para Lucy e Natsu, que apenas se mexeram e ficaram mais próximos um do outro. Eu sorri maliciosamente. “Ah, Natsu, essa vai ficar para a história”, pensei.
Lucy POV
– Ok – abri de leve os olhos, vendo meus amigos falarem juntos. Levy nos fitou, e depois saiu andando atrás de Saeko com os outros. Respirei fundo, e percebi onde eu estava dormindo: em cima de Natsu. Eu teria saído, mas não conseguia me mexer muito bem, graças ao enorme cobertor no qual estava enrolada. Ah, quer saber? Tanto faz. Fechei os olhos para voltar a dormir. “Eu estou doente”, pensei.
...
– Lucy – alguém me chamava, mas eu não queria abrir os olhos. Então essa mesma pessoa apertou meu nariz. “Maldito seja”, pensei, e afastei sua mão.
– Eu te odeio – falei, dando um tapa em Natsu, que ria da minha cara embaraçada. Sentei-me no sofá, bocejando e me espreguiçando, e Natsu fez o mesmo. Olhamos um para a cara do outro, e depois para fora da sala, de onde vinham várias risadas.
– Só para a sua informação – ele começou a falar, e eu o olhei novamente – eu também te odeio.
– Você é ridículo, sabia? – falei, e ele me mostrou a língua. – Nossa, como você é infantil – mostrei a língua também, e me levantei do sofá, desequilibrando no começo, mas me apoiei na parede e fiquei em pé.
– Vejam só quem acordou! – Levy falou, sorrindo para mim assim que adentrei à sala de jantar.
– Sente-se Lucy, você deve estar com fome – Saeko falou, e eu me sentei ao lado de Erza, que por acaso estava ali também.
– Então, como é dormir com o Natsu? – ela me perguntou, disfarçadamente.
– Hum, ele é quente – respondi, sem perceber, e todos os outros adolescentes sentados à mesa me fitaram. Saeko e Igneel, o pai de Natsu, conversavam sobre viajar para algum lugar animadamente. – O que foi? – perguntei, e meu rosto corou quando eu percebi o que eu falei. – Não do outro jeito gente, literalmente – protestei, e eles começaram a rir.
– Lucy, você só vai piorar as coisas se continuar falando – Gajeel falou, e eu suspirei.
– Eu vou ficar quieta – falei, abaixando a cabeça e começando a comer.
– Yo! – Natsu apareceu bem atrás de mim, e por algum motivo eu esperava que ele fosse tentar me assustar, então eu o ignorei, enquanto ele se sentava à minha frente. Foi a vez dele de receber todos os olhares maliciosos na mesa. – Qual o problema? – ele falou, com a boca cheia de comida.
– Ah, mais quanta indecência vinda de uma pessoa só – falei, fazendo cara de desaprovação, e ele me fitou.
– Indecência? – ele repetiu, e eu revirei os olhos.
– Você deveria comer com a boca fechada, Dragneel – falei, e ele engoliu a comida, mostrando a língua pra mim. – Tinha que começar a agir como uma criança outra vez?
– “Você deveria comer com a boca fechada, Dragneel” – ele repetiu, afinando a voz.
– Idiota – falei, e ele deu um sorrisinho de canto.
– “Idiota” – coloquei a colher na mesa, e o fitei.
– Você não presta mesmo, não é? – falei, e ele riu.
– A Lisanna não acha isso – ele respondeu, e eu o olhei perplexa.
– Quando foi que a Lisanna entrou na conversa? Aliás, o que ela tem a ver com o que acabou de acontecer?
– Se ela estivesse no seu lugar ela estaria muito agradecida, diferente de certas pessoas que só sabem reclamar – falou, e suspirei irritada.
– Sinto muito por não ter agradecido corretamente – falei e me levantei, indo até ele.
Natsu POV
– Sinto muito por não ter agradecido corretamente – Lucy falou, ficando em pé, e andou até mim. Ela ficou alguns segundos parada atrás de mim, até que eu senti sua mão gelada em meu pescoço. Por um momento, achei que ela fosse me estrangular.
Todos estavam em silêncio na mesa. Levy me mandava mais um de seus sorrisos maliciosos. A mão de Lucy desceu do meu pescoço até a minha clavícula, e a outra mão ela passou pelo meu braço. Certo, meu rosto começou a esquentar. O que raios ela estava fazendo?
– Obrigado por tudo, Nat-kun – ela sussurrou em meu ouvido, com a voz rouca, e me deu um beijinho estalado na bochecha. – Mas nunca mais me compare com a vadia da sua namorada. Você é o maior idiota de todos – falou, e olhou para os outros na mesa. – Muito obrigada pela refeição – e sumiu na porta.
Erza POV
Quando eu vi aqueles dois idiotas dormindo juntos no sofá, eu realmente pensei que as coisas fossem melhorar, e ser como antes. Mas então Natsu começou a provocar Lucy enquanto comíamos. Normalmente os dois ficavam se insultando até cansarem (o que demorava a acontecer), mas Lucy surpreendeu a todos dessa vez.
Ela levantou, andou até Natsu, passou as mãos no corpo dele, sussurrou algo em seu ouvido que ninguém mais além dele conseguiu ouvir e ainda lhe deu um beijo na bochecha. Ele estava vermelho como um tomate quando ela saiu andando, com uma expressão irritada no rosto.
– Você é o maior idiota de todos – falou, encarando-o. Ele estava completamente sem palavras, ainda vermelho. Mas de repente, ela sorriu. – Muito obrigada pela refeição – e com uma última encarada, ela saiu da sala.
Todos encararam Natsu, até mesmo seus pais, que estavam entendendo tanto quanto a gente o que acontecera. Ele seguiu Lucy com o olhar, e ficou vermelho com o sorriso malicioso clássico de Levy depois da cena, e ainda mais vermelho por todos estarem fitando-o.
– Continuem comendo logo – ele falou, e todos deram de ombros. Ele ainda olhou para a porta mais uma vez, e depois continuou a comer. Natsu, Natsu. Era um tapado mesmo.
Lucy POV
Eu não deveria ter feito o que fiz, mas não me arrependo. Só de ver a cara daquele idiota do Natsu, eu me senti satisfeita. Ele era um, um... idiota mesmo! Ah, como eu o odiava! Entrei no quarto de hóspedes e fechei a porta com cuidado. Com certeza se eu estivesse em casa, eu teria fechado com força.
Fitei-me no espelho do banheiro que havia no quarto, e eu estava com o rosto vermelho. Podia ser febre, mas eu também estava morrendo de vergonha do que acabara de fazer. Havia anos que eu não me aproximava tanto de Natsu propositalmente. Joguei um pouco de água em meu rosto e respirei fundo. Queria voltar para casa. Isso, eu ia voltar para casa agora mesmo.
Eu só não tinha o que vestir, afinal eu não sairia na rua com as roupas da Levy que eu estava vestindo, que ficavam...justas demais no meu corpo, por causa da diferença de tamanho. Procurei meu uniforme que eu estava vestindo no dia anterior, e acabei encontrando duas sacolas no chão. Dentro das mesmas haviam uma saia e uma blusa do meu tamanho, um par de botas, e um cartão com a letra de Saeko que dizia “Melhoras”. Desde pequena ela sempre fora muito gentil comigo, mas não poderia aceitar assim, então decidi que a pagaria depois.
Depois de me trocar, abri a porta lentamente e observei quaisquer movimentações nas duas extremidades do corredor. Apaguei a luz do quarto e acabei ficando em meio à escuridão do lugar, sendo que a única luz ali era a que vinha de fora pela janela. Assim que pisei fora do quarto, senti alguém se colocar a minha frente e me empurrar para dentro do quarto, trancando a porta.
– Abre a porta, algodão doce – falei quando percebi Natsu. Algodão doce era por causa de seus estranhos cabelos rosas, tão incomuns. Eu o apelidei dessa maneira quando éramos crianças, mas fazia muito tempo que não o chamava assim. Ele me empurrou contra o armário, segurando meus pulsos. – Dá pra me soltar ou está difícil pra você fazer isso? – e ele segurou mais forte, começando a machucar.
– Sabia que você me deixa louco, loirinha? – perguntou. Cruz credo, aquela voz rouca e sinistra nem parecia a do Natsu que eu conhecia desde pequena, eu estava até com um pouco de medo dele agora. Mas eu não deixaria o medo transparecer, não na frente dele.
Ele me fitou por um tempo, então se inclinou e beijou meu pescoço. Ele. Beijou. O. Meu. Pescoço. O MEU PESCOÇO. Mas o que raios ele estava fazendo? Ele estava enlouquecendo? E ele beijou mais uma vez. E outra. Cada vez chegando mais perto da minha boca.
– Natsu, chega – falei e ele parou subitamente, encarando-me.
– Só se você for um pouquinho mais educada, ou eu terei que te punir loirinha – falou. Ele estava tirando sarro da minha cara, só pode.
– Ah, mas que coisa – assim que sua mão afrouxou, eu o empurrei, conseguindo ficar livre. Coloquei a mão na maçaneta da porta e a forcei para abrir, e lembrei que Natsu a trancara e a chave não estava mais ali. – Qual o seu problema? Está fazendo isso por quê? Vingancinha? – ele deu uma risadinha, girando a chave dourada em sua mão. – Abre essa droga de porta Natsu.
– Ora loirinha, vai dizer que está com medo de ficar trancada comigo nesse quarto? Achei que você não tivesse medo de mim, afinal você mesma disse isso.
– Por que eu teria medo de você? – perguntei, e senti sua mão segurar meu braço e me puxar, então me deitou na cama e ficou sobre mim. – S-Saia de cima de mim. Agora.
– Que bonitinho, o medo é tanto que está até gaguejando.
– E daí? Só porque eu gaguejei uma vez, não quer dizer que eu vá fazer isso outra vez, algodão doce – ele me fitou intensamente. Nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância, e eu conseguia sentir sua respiração quente. Eu devo admitir que eu estava um pouco apavorada por dentro. Ele começou a beijar meu pescoço novamente, e eu estremeci. O que eu fiz para merecer isso? Tudo o que eu queria era sair dali, mas com ele em cima de mim ficava impossível.
– Você tem um cheiro muito bom, loirinha – e continuou me beijando, então fechei meus olhos com força. Por que logo eu?
– N-Natsu, pare, por favor... – pedi, e ele parou. Era isso? Tudo o que ele queria era que eu pedisse “por favor”? O quarto estava todo escuro, e eu só conseguia ver o brilho de seus olhos próximos aos meus. Sua boca estava tão próxima a minha que a vontade de beijá-lo se tornou maior do que a de querer sair dali. Por que eu estava com essa vontade? Por que ele simplesmente não me deixava sair dali? – Nat... – antes que eu pudesse terminar, ele encostou seus lábios quentes nos meus, e lentamente aprofundou o beijo. Agora sim era a hora perfeita para pergunta: Mas o que raios está acontecendo aqui?
– Aqui – ele se distanciou de mim e se levantou, puxando-me da cama e me entregando a chave. Eu não soube o que fazer, então corri para a porta e a abri, mas antes de sair, eu me virei. Ele estava de costas para mim, olhando para a janela. Eu não sabia o que dizer, provavelmente era possível imaginar uma enorme interrogação vermelha flutuando acima da minha cabeça.
Sem fazer muito barulho eu fechei a porta do quarto e fui até a entrada, saindo da casa. Andei apressadamente até a próxima quadra, onde ficava minha casa, e parei encostada ao muro. Respirei fundo e toquei meus lábios. Aquela sensação quente permanecia ali. Olhei para o céu e pensei no que havia acabado de acontecer. Ou aquilo era um pesadelo e eu logo acordaria, ou era a realidade mais estranha e absurda possível.
Natsu POV
Acho que eu estava tão confuso quanto Lucy devia estar naquele minuto. Eu não sabia direito o que estava fazendo. Eu fiquei tão impressionado no momento em que ela me provocou durante o jantar, que eu cheguei a sentir meu coração dando alguns pulos. Quando me recuperei, levantei e fui atrás dela para tirar a história a limpo, e a vi saindo do quarto em silêncio.
– N-Natsu, pare, por favor... – aquelas palavras me tiraram de um transe. Eu não lembrava o que tinha acabado de fazer, e fiquei estupefato ao me encontrar numa cena onde eu estava deitado sobre Lucy na cama do quarto de hóspedes. Como eu havia chegado até ali? Porque ela parecia com medo? Com um impulso, eu a beijei, e antes que eu fosse mais longe naquele momento, eu lembrei de Lisanna.
– Aqui – falei, levantando e colocando-a no lugar. Eu não estava entendendo nada. Ela correu para a porta, e eu me virei para olhar a janela, pensando no que acabara de acontecer, e depois de um minuto, ela fechou a porta atrás de mim. Eu toquei minha boca, sem entender nada. Aquele rápido beijo valera mais a pena do que esses dois anos de namoro com Lisanna.
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