FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 17

Pavilhão das Peônias

‘Agora chega.’ Sakura falou, levando a mão até sua chave para invocar sua magia. Não tinha como ficar ali parada vendo o primo de Syaoran levar uma surra para protegê-la. Ela não precisava ser protegida. Se Syaoran não tivesse aquela mania de querer resolver tudo sozinho, talvez ainda estivesse ao lado dela e não morto. ‘Este cara é um covarde.’ Falou já puxando o pingente.

Estava pronta para intervir quando sentiu a presença tão amada se manifestar. Arregalou os olhos, inicialmente pensando que tinha se deixado enganar por estar na mansão Li, mas não, não era isso. Ela conseguiria distinguir aquela presença em qualquer lugar do mundo. Sorriu sem querer, sentindo os olhos arderem. Observou Hyo Ling se levantar devagar, depois de ter recebido mais um violento golpe de Reyume.

‘Sabe, Reyume, já estava com vontade de lhe dar uma surra há muito tempo. Pena que não tivemos oportunidade antes.’ Ouviu o chinês falar, com um tom de deboche conhecido, enquanto limpava o sangue que escorria do canto dos lábios.

O rapaz estendeu a mão ao lado e a esfera negra tão conhecida da feiticeira voou em direção a mão dele. Jogou-a para cima duas vezes com a mão direita, brincando com ela enquanto encarava Reyume. Jogou, então, a esfera mais alto e pegou a espada mágica materializada com a mão direita, passando-a para a esquerda antes de, finalmente, empunhá-la com ambas as mãos.

‘Vamos acabar logo com isso.’ Ele falou trincando os dentes. ‘Vou fazer você engolir cada palavra que falou para Sakura.’

Sakura afastou-se de Tomoyo e deu um passo a frente sentindo o coração acelerar de forma louca, como se estivesse participando de uma maratona. Em volta do corpo de Hyo Ling, ela conseguia ver a aura esverdeada de Syaoran. Os movimentos que o rapaz tinha feito agora, ao invocar a espada mágica, eram os mesmos que já tinha visto o namorado fazer tantas e tantas vezes a sua frente.

‘Syaoran...’ O nome amado saiu de seus lábios, reconhecendo-o.

Eriol franziu a testa, pois, assim como Yelan, ele conseguia ver claramente o espírito de Syaoran agindo no corpo do primo. Não era para ele estar fazendo isso. O amigo deveria estar no paraíso, descansando da vida terrível que teve, e não ficar se envolvendo nos assuntos terrenos, principalmente fazendo aquele tipo de interferência. Aquilo não acabaria bem.

Olhou para os lados e verificou que vários membros da família Li estavam em volta, observando o que estava acontecendo no pátio principal da mansão. Era o normal, já que uma luta entre Reyume e Hyo Ling chamaria muito atenção. E, no fundo, era o que os anciões queriam; que todos observassem o poder que eles tinham, fazendo, assim, com que todos os temessem, principalmente os mais jovens para que fossem mais facilmente manipulados.

Reyume franziu a testa observando o rapaz. ‘Então você resolveu dar as caras, Xiao Lang. Sabe muito bem que este tipo de interferência não é permitida, não é? Isso é coisa dos Taos.’

‘E você tem muito medo deles, não é?’ Comentou de forma debochada.

O homem riu. ‘Fez este estardalhaço todo só porque não gostou do que eu falei para sua amante? Você é um fraco sentimental.’

O rapaz balançou a cabeça de leve. ‘Acho que vou ter que quebrar seus dentes para que aprenda a tratá-la com mais respeito.’

O homem avançou em direção ao rapaz que desviou dos golpes sem muito esforço. As duas espadas se chocaram com fúria, fazendo os dois oponentes se deslocarem pela área livre e obrigando quem estava presente a se afastar, abrindo espaço. Os anciões entreolharam-se preocupados, agora a luta tinha ficado equilibrada demais. Não se lembravam de Xiao Lang alguma vez ter lutado em pé de igualdade contra o ancião. Reyume avançou, novamente, tentando golpear o jovem que segurou seu pulso.

Syaoran virou-se de costas, atingindo o homem com uma cotovelada no peito e outra no rosto. Soltou-lhe o pulso, observando-o cambalear para trás. Rodou a espada na mão de forma experiente e, não dando tempo para que se recuperasse, avançou para uma nova sequência de golpes.

‘Ainda não quebrei todos os seus dentes.’ O rapaz comentou de forma fria.

Meilyn olhava para o marido lutando daquela forma sem conseguir entender. Nunca tinha visto magia se manifestar nele, mas agora o via lutando de forma segura e muito semelhante ao primo morto. O que estaria acontecendo? O ancião que a segurava estava tremendo ao ver a demonstração de força se reverter em humilhação para o grupo de anciões. Conseguiu se desvencilhar e parou perto da tia que também tinha os olhos vidrados no combate a sua frente.

‘O que está acontecendo, tia?’

Ela não respondeu. A jovem olhou para os visitantes e arregalou os olhos observando os olhos da jovem ruiva brilhando de forma magnífica. Eriol estava com o rosto sério e ela percebeu que ele segurava o braço de Sakura para evitar que a jovem intervisse na luta travada a frente de todos. Desviou os olhos dos dois e observou quase toda a família rodeando-os, as irmãs de Xiao Lang apareceram com seus esposos e filhos sem entender o que estava acontecendo. Ela tremeu por dentro pensando que Hyo Ling não sairia vivo daquela luta. Os anciões nunca admitiriam passar tal vergonha na frente de toda a família. Levou suas mãos até a altura do peito e começou a rezar pela vida do marido.

Syaoran girou a espada a sua frente e voltou a golpear Reyume que agora se mantinha mais na defensiva. O homem tentou se afastar, mas o rapaz não permitiu e, novamente, as espadas se chocaram numa sequência violenta de golpes faiscantes.

‘Está mais forte.’ Reyume falou, tentando limpar o sangue que escorria da boca.

‘Agora estamos numa luta justa.’ Retrucou e voltou a golpeá-lo e, no fundo, sentia-se irritado porque o homem só fugia.

Novamente lutaram por alguns minutos até Syaoran, com um golpe das pernas, fazer o homem cair no chão. Observou Reyume se levantar com extrema dificuldade e franziu a testa. Ele tinha sido um dos seus principais algozes quando criança. Tinha vontade de se vingar dele pelo que tinha feito, mas nada o deixara mais irado do que a falta de respeito com que tratou a sua Sakura. Assim que o homem se levantou, deu dois passos a frente, golpeando-o com fúria e fazendo-o novamente ir ao chão para, dessa vez, não se levantar mais.

Sentiu o perigo se aproximar e a magia dos anciões se elevar rapidamente. Virou o rosto e arregalou os olhos, vendo a enorme esfera de energia se aproximar dele para atingi-lo, quando aos seus pés a mandala mágica em forma de octógono baguá, com o simbolo do Yin-Yang ao centro, brilhou de forma esplêndida e Escudo se materializou em torno de seu corpo, protegendo-o do golpe traiçoeiro.

Virou o rosto e fitou Sakura que também tinha sua mandala sob seus pés e sorriu para ela. Eles eram sempre uma dupla, não?

Quem tinha algum poder mágico poderia ver as duas presenças aumentarem de forma estupenda. Eriol soltou o braço de Sakura que deu dois passos a frente ainda com a mandala brilhante aos seus pés. Ela pegou as cartas e as jogou para o alto.

‘Vão.’ Ordenou.

As cartas voaram em direção ao corpo de Hyo Ling, fazendo todos olharem embasbacados para o que estava acontecendo.

‘As cartas!’ Fu Wang gritou. ‘Pegem-nas! Agora!’ Ordenou aos mais jovens que estavam olhando, ainda perplexos, o desenrolar dos eventos.

Eles se aproximaram de Hyo Ling, tentando alcançar as cartas que rodavam ao redor dele enquanto a magia fluía de seu corpo.

A jovem feiticeira sorriu ao ver a aura verde esmeralda circular o corpo do rapaz de forma incrível. Assim como ela, todos os outros detentores de magia podiam perceber e temer aquele poder.

‘Você quer tanto assim as cartas, Fu Wang?’ Syaoran perguntou, sorrindo de lado. ‘Vou dar uma amostra delas para você então. Esta é Bosque.’

A carta se manifestou, fazendo com que árvores e plantas surgissem da terra e, com seus galhos, aprisionassem alguns homens do clã que se aproximavam na tentativa de pegar as lâminas mágicas.

‘Estas daqui são Vento e Água.’ Invocou mais duas, atingindo outros que se aproximavam do rapaz pelas costas.

‘Esta é uma das minhas preferidas... Tempestade.’ Invocou e a carta reteve mais um grupo que tentava atacá-lo. ‘Ah, e tem Flutuação.’ Dois dos anciões foram suspensos e entraram em desespero ao se verem com as pernas pro ar. ‘Tem Areia também.’ A carta se manifestou atingindo três homens que se aproximavam de Sakura, Eriol e Tomoyo.

Eriol observou o rapaz manipulando as Cartas sem problema. Olhou para sua sucessora que tinha o rosto sereno. Ela mesma poderia ter feito isto, mas estava tão ligada ao rapaz que sabia da importância de ser ele a utilizá-las. Talvez ela não tivesse certeza, nem ideia do que aquilo causaria dentro da família, mas tinha a intuição de que seria muito mais humilhante para os velhos anciões verem o rapaz utilizando-as.

‘Sakura...’ O inglês sussurrou, chamando a atenção da jovem que o fitou rapidamente.

‘Eu já disse isso antes, Eriol. As cartas sempre foram nossas.’

‘Isso… isso não é possível.’

‘Olhe... e conclua.’ Falou, fazendo um gesto para que o rapaz continuasse a ver o corpo de Hyo Ling controlando os lâminas mágicas.

‘Existem umas bem interessantes... hum...’ Syaoran continuava explicando, mas fez uma pausa. ‘Algumas são apenas para pessoas especiais, se é que vocês me entendem.’ Falou sorrindo e virando-se para Sakura. ‘Flor.’

A jovem desviou os olhos dele e viu-se envolvida por nadeshikos. Ela sorriu para ele e limpou o rosto molhado, não queria que ele a visse chorando.

‘Ah, sim... tem outras bem legais às quais vocês nunca deram muita importância, mas...’ Ele olhou para as lâminas que flutuavam ao seu redor esperando por sua ordem. Sorriu de forma debochada. ‘Kerberus, adora esta… Bolhas.’ A carta se manifestou, atingindo os velhos anciões que se viram envolvidos por uma espuma borbulhante. Alguns deles se contorciam enquanto riam e tentavam inutilmente invocar alguma magia para interromper o poder da carta. ‘E Doces, claro!’ Invocou, fazendo aparecer nas mãos de seus sobrinhos e das outras crianças as guloseimas. Sorriu ao reparar nos olhos delas assustados, mas brilhantes ao ver os doces em suas mãos.

Depois voltou a fitar os anciões que estavam com as roupas molhadas e envoltos em bolhas. Ele tinha, literalmente, humilhado a todos e sabia disto, mas não tinha como simplesmente perder aquela oportunidade de mostrar aos outros que aqueles velhos não eram deuses e que não precisavam seguir as ordens deles como se fossem inatingíveis. Estava fazendo aquilo para tentar libertar todos os jovens do seu Clã.

‘Então... você sempre teve domínio das cartas, Xiao Lang.’ Um dos anciões falou, parando perto do rapaz. ‘Você foi um teimoso idiota! Sempre pôde pegá-las e não o fez!’

‘Responda-me, velho, por que eu as pegaria para vocês?’

O ancião o fitou com raiva. ‘Você nunca respeitou o clã.’

‘Eu sempre respeitei os ideias de meu pai no clã. Não as decisões idiotas de vocês.’ Retrucou.

‘Estas cartas…’ O homem apontou para as lâminas que circulavam o espírito do rapaz. ‘Elas deveriam ter sido trazidas para nós, mas você, com sua arrogância e teimosia, nunca as trouxe.’

‘Elas nunca foram minhas.’

‘Elas sempre foram nossas.’ Li ouviu a voz de Sakura, que parou ao lado dele, encarando os velhos.

A magia dos dois movimentava-se em alta velocidade pelo ambiente aberto. As cartas voltaram todas para as formas de lâminas e circulavam os dois que se fitavam. Sakura olhava para o rosto do marido de Meilyn com o cenho franzido. Gostaria de ver o rosto do amado, mas sabia que ele estava ali.

Syaoran estendeu a mão e as cartas repousaram sobre ela. As duas mandalas estavam sobrepostas. As auras mágicas dos dois tinham se expandido tanto que estavam praticamente unidas.

Eriol franziu a testa, notando como o poder mágico dos dois aumentava quando estavam próximos, mesmo em planos espirituais diferentes. Além disso, a presença de sua sucessora estava equilibrada e forte, como sempre fora antes da morte de Syaoran.

‘Como o Yin-Yang.’ Ouviu a voz de Yelan ao seu lado. A senhora estava, provavelmente, observando o mesmo que ele.

‘Acho que tem razão.’ Concordou. ‘Isso não tinha sido previsto nas profecias.’

‘Ou, talvez, nós não soubemos interpretá-las.’ A senhora falou, ainda admirando os dois jovens a sua frente.

‘Talvez… talvez o que aconteceu ainda não tenha sido o Caos.’ Ele falou, engolindo em seco.

‘Talvez… talvez…’ A senhora repetiu, com evidente descontentamento quanto àquela incerteza.

Eriol desviou os olhos dela e voltou a fitar os amigos A magia que circulava os dois era tão forte que não permitia que ninguém se aproximasse.

‘Obrigado.’ Syaoran agradeceu de forma suave, entregando a Sakura as cartas. ‘Cuide bem delas. Estão preocupadas com você, assim como eu.’ Falou.

Sakura pegou as cartas da mão dele e as apertou contra o peito. ‘Sinto demais a sua falta.’

‘Eu também.’ Falou e respirou fundo. Olhou para cima, pensando que deveria ir agora. Fechou os olhos, a mandala abaixo de seus pés desapareceu e o corpo de Hyo Ling caiu ao chão desacordado.

Sakura parou de sentir a presença do amado e fechou os olhos, controlando-se para não cair em desespero por, novamente, encontrar-se sozinha. Abaixou-se, apertando as cartas contra o peito sentindo as lágrimas nos olhos.

Eriol imediatamente notou um padrão errático tomar conta da aura da jovem feiticeira, tornando-a desequilibrada. O jovem mago deu uns passos a frente, vendo a bela aura, sempre rósea e por vezes multicolorida, tornar-se opaca e negra em alguns pontos. Franziu a testa não gostando do que estava percebendo. Era claro como o dia que a aura mágica de Sakura estava instável. Libra se manifestou, brilhando fortemente e expandindo sua presença para dissipar as manchas negras, na tentativa de manter a sua Mestra em equilíbrio.

‘Precisamos ficar de olho nela.’ Yelan falou também percebendo o mesmo que o mago.

‘O que está acontecendo?’ Ele perguntou com sincero desnorteio.

A senhora balançou a cabeça de leve. ‘Eu não sei… mas não estou com um bom pressentimento. A ligação entre os dois é perigosa.’

Tomoyo estava parada ao lado dos dois, ouvindo o diálogo que transcorria. Era verdade que não tinha poderes mágicos para identificar este lance de aura mágica, mas ela amava sua prima com toda a sua alma e doía profundamente vê-la sofrendo daquela forma pela ausência do amado.

‘Desculpe-me, senhora’. Ela chamou a atenção dos dois que a fitaram. ‘Vocês fizeram de tudo para que eles dois não se amassem. Você…’ Fitou Eriol ‘...fez de tudo para ela se sentir atraída por Yukito.’ Eriol sentiu-se, novamente, incomodado pela lembrança. Tomoyo voltou-se para Yelan. ‘E eu me lembro bem do choro contínuo de Sakura depois do último telefonema dela para tentar falar com Syaoran. Mesmo longe, ela pressentia e sofria infinitamente sabendo que havia algo errado acontecendo com ele quando retornou para Hong Kong.’ Yelan sentiu o olhar de reprovação da jovem e fechou os olhos por alguns segundos pensando que ela estava certa. Tomoyo continuou. ‘E, apesar de tudo que vocês fizeram, mesmo assim, eles nunca deixaram de se amar…’ Ela fez uma pausa, olhando com sobriedade para os dois magos. ‘Acho que vocês ficam tão ligados na questão da magia e esquecem do fator humano. Esquecem que Sakura e Syaoran estão unidos por um sentimento único: o amor.’

Eriol arregalou os olhos fitando a amiga de infância. Tomoyo não tinha magia, não tinha poderes, mas era, muitas vezes, mais sábia que todos eles. Ela tinha total razão. O que unia os dois feiticeiros tão poderosos, era nada mais nada menos, do que o sentimento mais humano.

A jovem morena passou entre eles e caminhou devagar em direção a sua adorada prima. Faria o que sempre fez, tentaria consolá-la.

Meilyn estava ao lado do marido, que se encontrava desacordado. Olhou para o lado, vendo a amiga, ajoelhada e abraçada às suas cartas. Ela tinha ideia de como Sakura estava sofrendo com a morte do primo. Não fora justo, depois que eles estavam juntos e felizes, serem separados assim e, agora, de forma definitiva. Não era mais uma separação de espaço físico, era uma separação de planos espirituais. Sakura sabia que nunca mais veria Syaoran. Não poderia ter mais esperanças sobre isso.

A chinesa se abaixou, pegando o rosto do marido e beijando-o com carinho. Estava irritada pela atitude dele de se colocar em perigo daquela forma para defender Sakura, mas também, orgulhosa demais. Abraçou-o com amor e rezou para que nunca passasse pelo sofrimento que a amiga vivia. Um dos cunhados de Xiao Lang se aproximou, oferecendo ajuda para levar Hyo Ling e tratar os ferimentos que tinha pelo corpo. Informou que já mandaram chamar o médico do clã para atendê-lo. Meilyn aceitou a ajuda.

Syaoran tinha conseguido atingir seu objetivo. Os jovens e as crianças olhavam com desconfiança para os anciões que blasfemavam irritados pela sessão de humilhação que sofreram. Estavam encharcados e bem longe da compostura autoritária e arrogante de antes. Dois rapazes foram até Reyume que ainda estava desacordado depois da surra que levou de Syaoran atuando no corpo de Hyo Ling.

Tomoyo se aproximou de Sakura, ajoelhou-se a sua frente e tocou de leve o ombro da amiga chamando a atenção dela. A ruiva abraçou-a sem controlar os soluços. A morena a apertava forte em seus braços enquanto pedia para ela se acalmar.

Eriol se aproximou das amigas e olhou para Yelan. Eles sabiam que aqueles eventos teriam desdobramentos dentro do Clã, mas talvez estivesse mesmo na hora.

A matrona, no entanto, estava mais preocupada com a pequena voz dentro dela alertando que havia mais com o que se preocupar além da situação de sua família. Ela sentia que o mundo ainda estava em perigo. Os anciões estavam mais preocupados em se esconder da imensa vergonha que passaram do que em perceber a alteração da energia do pilar deste universo. Alguma coisa precisava devolver-lhe o equilíbrio. E ela tinha uma ideia do quê. Apenas não sabia ainda o como...

Abaixou o rosto observando Tomoyo ajoelhada no chão com Sakura em seus braços. A jovem feiticeira amava demais seu filho. Desde que colocara os olhos nela, quando ela tinha dez anos de idade, percebera a ligação que existia entre ela e Syaoran, mesmo que ele se mostrasse completamente irritadiço toda vez que ela tocava no assunto. Ela precisou mandar que ele apresentasse Hong Kong para a menina a fim de protegê-la de Madoushi que estava atrás da jovem na época.

Era sua obrigação, agora, tentar ajudar a amada de seu filho. Se ele estivesse vivo eles estariam juntos. Syaoran, em seu último telefonema, tinha revelado sua intenção de permanecer no Japão. Ele, inclusive, gostaria que ela fosse para lá também, por receio de alguma retaliação dos anciões devido sua decisão de abandonar o Clã. Não houve tempo de seu pequeno lobo concretizar seus objetivos. Ela respirou fundo e sentiu os olhos arderem. Não era uma mulher de chorar, era dura, como deveria ser, por causa da posição que ocupava. Engoliu o bolo que se formava na sua gargante. Sakura agora era sua responsabilidade. A senhora respirou fundo e olhou para a reencarnação de Clow.

‘Vocês ficam aqui em casa. São meus hóspedes.’ Ela declarou, já ordenando às filhas que preparassem os quartos de hóspedes.

‘Mas mãe…’ Fuutie falou receosa, olhando para os poucos anciões que ainda estavam no pátio esbravejando. A maioria já tinha sumido da vista de todos.

Yelan olhou de forma tão séria para a filha que esta se afastou acompanhando as irmãs, para cumprirem as ordens da mãe. Yelan voltou-se para o trio e encarou Eriol. ‘Não aceito recusa, senhor Hiiraguizawa.’ O rapaz concordou com um gesto.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

‘Então você já tinha percebido aquela instabilidade antes?’ Yelan perguntou para Eriol antes de beber um gole de chá.

Estavam em um dos cômodos da enorme mansão Li. O mais difícil fora convencer Tomoyo a ficarem na residência. A morena achou que era loucura, considerando a forma como foram recebidos, mas Sakura havia concordado. A verdade era que a jovem ruiva concordaria com tudo que lhe desse alguma sensação de estar próxima a Syaoran.

Por fim, ficaram na residência, em dois quartos de hóspedes, já que Tomoyo só aceitou com a condição de dormir no mesmo quarto de Sakura e, é claro, trancando todas as portas e janelas durante a noite. Se pudesse, nem dormiria para ficar de guarda cuidando da amiga enquanto esta estivesse a dormir. A morena tinha impressão de que um assassino sanguinário entraria a qualquer momento no quarto, pronto para arrancar as cartas da amiga e matá-la.

Sakura percebeu isso e fora obrigada a usar Sono para fazer a jovem dormir ou era bem capaz de Tomoyo realmente fazer serão.

‘Sim…’ Eriol respondeu, soltando o ar lentamente e encarando a senhora. ‘Já tinha percebido antes, mas pensei que tinha sido…’ Ele reteve-se, envergonhado demais em falar que estava alcoolizado na situação. ‘...que tinha sido apenas imaginação minha.’ Concluiu.

‘Ela está desnorteada.’

‘Sim, desde que Li partiu.’

A senhora deu um longo suspiro. ‘Isso não estava previsto. O guardião e o Pilar não deveriam estar ligados desta maneira.’

‘Não. Quando eu…’ Ele fez uma breve pausa. ‘...soube das intensões de Muy Shyrai, eu fiz de tudo para impedir o Caos que se instalaria com o retorno dele do mundo das trevas.’

Yelan o fitou de forma profunda. ‘Será que não foram as ações de Clow que criaram o cenário para o Caos?’

Eriol franziu a testa. Soube que ela mediu as palavras, principalmente, por causa do cuidado em falar que Clow, e não ele, tinha feito algo. ‘Como assim?’

‘O Caos é o desequilíbrio da interface entre todos os universos. Talvez o que Muy Shyrai tenha aberto fosse apenas uma brecha entre o mundo das trevas e o nosso universo.’

Eriol tremia enquanto acompanhava o raciocínio da senhora, ela tinha uma certa razão nas suas conclusões. Sentiu o coração disparar e o sangue correr rápido por suas veias. Será que ela estava certa? Será que, no final, ele é quem tinha criado a situação perfeita para se criar a instabilidade dos universos que culminaria no Caos?

Yelan percebeu que o rapaz estava nervoso, mas precisava continuar. ‘Talvez a tentativa de Clow de proteger a todos dos ideais de Muy Shyrai tenha criado a situação que geraria o caos dos universos.’

‘Quando deu a responsabilidade do pilar para sua sucessora.’ Ele concluiu de forma penosa. ‘É responsabilidade demais para uma só pessoa. Principalmente se esta não estiver devidamente preparada, como haviam me alertado. Eu pensei… pensei que a passagem pelo juízo final por Yue seria capaz de evitar isto.’ Ele respirou novamente de forma pesada. ‘Porém… o juízo final testa apenas as habilidades mágicas não… não a capacidade de controlar este poder.’

‘Exatamente.’ Yelan concluiu. ‘É poder demais para uma só pessoa.’

‘Sim.’ Concordou tirando os óculos do rosto e pressionando o polegar e o indicador nos olhos. ‘Droga.’

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Yelan repousou a xícara num móvel ao seu lado e suspirou.

‘Xiao Lang tem que voltar.’ Declarou, fazendo o rapaz arregalar os olhos de forma assustada.

‘Ele está morto!’ Exclamou encarando a senhora de forma interrogativa. ‘Ele não pode voltar.’

‘Se ele não voltar, ela não conseguirá se equilibrar. Nossa missão é controlá-la até que ele consiga.’ A senhora falou de forma serena. ‘Ele vai encontrar uma forma de fazê-lo.’

Eriol abriu a boca duas vezes tentando falar algo, mas não conseguia. O que aquela senhora tinha lhe dito era simplesmente impossível. Fechou os olhos de forma dolorida novamente e abriu-os, encarando-a duramente.

‘Isso é impossível. Sakura aprenderá a se controlar. Ela precisa fazer isso.’

‘Acho que você não entendeu ainda o que está acontecendo, rapaz. Até mesmo a senhorita Daidouji, que não possui qualquer poder mágico, já concluiu de forma óbvia.’ O rosto da senhora era sério, ela não estava brincando ou estava louca como ele inicialmente pensou ao ouvir a afirmação de que o filho teria que voltar. ‘Clow subestimou o maior poder e o mais humano sentimento: o amor.’

O rapaz se levantou irritado. ‘Isso é loucura! Sakura saberá aceitar a morte de Syaoran. Com o tempo ela aceitará que ele não está mais aqui e seguirá sua vida normalmente.’

‘Você tem certeza disto?’ Ela o interrompeu com a voz serena. Eriol desviou o olhar dela, fitando um ponto distante qualquer.

‘Ela precisa. Ela não é a primeira pessoa a perder seu companheiro. Existem várias viúvas no mundo e nenhuma delas enlouqueceu.’

‘Várias delas enlouqueceram...' Yelan o corrigiu. ‘Mas nenhuma delas tinha o poder de equilíbrio do universo dentro do peito.’

Encararam-se de forma dura por um longo tempo. Eriol sabia que a senhora poderia estar com a razão. Ele fechou os olhos e deu um longo suspiro como se parte de sua alma tivesse saído junto com o ar, o que de forma irônica era verdade, sentia que parte de sua força vital estava lhe deixando, tamanho o remorso que sentia por suas decisões equivocadas. Novamente, o seu erro fora subestimar os sentimentos humanos.

‘Inferno!’ Gritou pegando o objeto mais próximo de si e jogando com força no chão.

Yelan não se abalou com a explosão, observou o rapaz tremendo e tentando se controlar.

Clow tinha sido, no final, corrompido pela sua arrogância em achar que poderia prever tudo, controlar tudo. Ele realmente era o responsável pela situação que estavam vivendo agora, colocando em risco toda a existência do universo ao qual faziam parte e quem sabe de quantos outros universos. Tentando proteger o universo contra a loucura de Shyrai, ele criou, justamente, a situação que o ex-pupilo tanto queria. De certa forma, era até irônico concluir isso. ‘Não era a minha intenção.’ Ele falou, afinal, com os punhos fechados e a voz controlada.

‘Tenho certeza que não. Além disso… Clow não foi o único a tomar esta decisão. Lembre-se que ele fez isso com o suporte de todos do Círculo.’ Ela o lembrou bem.

‘Todos do Círculo concordaram em passar o poder do pilar deste universo para a minha sucessora.’

‘Exatamente.’

‘Eu os convenci que ela seria a única capaz de controlar o caos.’ Ele falou.

‘E você estava certo. Ela é a única a conseguir controlá-lo, pois ela é a única a provocar o caos.’

‘Eu interpretei errado o que eu vi.’ O rapaz concluiu de forma amarga.

‘Todos os detentores de magia da época concluíram o mesmo. Lembre-se que foi uma decisão tomada por todos.’

‘Mas fora Clow… Eu, quem os convenceu!’ Falou com o tom de voz um pouco mais alto.

‘Você, novamente, está acreditando que tem o poder de tudo, rapaz.’ Yelan repreendeu-o. ‘Clow poderia argumentar, mas a decisão coube a todos. Não banque o soberano. Não foi uma decisão de Clow, foi uma decisão do Círculo e dos mais poderosos detentores de magia da época. De todos os tipos de magia existentes.’

Voltaram a ficar em silêncio. Ouviram bater levemente na porta e a senhora mandou que entrassem. Shiefa adentrou o ambiente e percebeu a tensão entre os dois. Olhou para os cacos de um vaso valiosíssimo no chão e estranhou, mas não ousou comentar. Perguntou se a mãe gostaria de um pouco mais de chá e a senhora confirmou.

‘A senhorita Kinomoto já chegou?’ A senhora perguntou para Shiefa que lhe servia o chá. Tinha percebido o deslocamento da presença da jovem pela casa.

‘Sim. Ela a está esperando.’ Shiefa respondeu.

‘Esperando?’

‘Ela gostaria de ir ver Xiao Lang… quer dizer… ela gostaria de ir ao cemitério.’ Estendeu a xícara para a mãe que a pegou, ainda observando a filha. ‘Acho que ela está com receio de causar algum problema para o clã… bem, depois do que Reyume falou para ela.’

A senhora tomou um longo gole da bebida quente. ‘Ela está apenas me esperando para ir junto. Seu irmão fez a manobra de vir a Terra e deixar bem clara a posição dela como companheira dele.’ A senhora deixou a bebida de lado e se levantou, encarando Eriol que estava num dos cantos remoendo as conclusões que tiraram. ‘Não vou mais fazê-la esperar.’ Falou retirando-se da sala acompanhada pela filha.

Eriol permaneceu ainda no aposento olhando para o vazio. Como havia sido tão estúpido em achar que realmente tinha o controle de tudo por causa de suas previsões. Yelan tinha razão, ele tinha sido corrompido por sua própria arrogância e autoconfiança exacerbada.

O celular tocou dentro de seu bolso, tirou o aparelho e leu o nome da esposa no visor com a foto dela sorrindo no dia do casamento dos dois. Ficou um tempo observando o aparelho tocar de forma insistente enquanto admirava o rosto belo e sereno da esposa. Ela sabia que ele estava sofrendo apesar da enorme distância física entre os dois. Fechou os olhos de forma dolorida e apertou o botão para ignorar a ligação, não queria falar com ninguém naquela hora. Na verdade, queria nunca ter existido, nem como Eriol Hiiraguizawa e muito menos como Reed Clow.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura caminhava devagar ao lado de Yelan. Não trocaram muitas palavras, apenas os cumprimentos por educação. Nas mãos da jovem havia uma belo arranjo de peônias. Tinha comprado-as hoje pela manhã quando passeou pela cidade com Tomoyo. Sentiu-se obrigada a sair com ela, pois sabia que a prima estava uma pilha de nervos por preocupação. Sentia-se péssima por saber que estava fazendo a jovem morena chegar quase ao seu limite de esgotamento mental. Não queria ser uma preocupação constante para Tomoyo. Acordou aquela manhã decidida a sair com ela da mansão Li e passear por Hong Kong na tentativa de fazer a prima espairecer e quebrar aquele clima constantemente tenso.

Meilyn não pôde acompanhá-las, pois estava cuidando do esposo que ainda se recuperava da luta contra Reyume. Quando o rapaz acordou a primeira coisa que fez depois de abraçar, beijar e dizer que amava a esposa foi perguntar por Sakura e saber se ela estava bem. O rapaz fora muito gentil e se desculpou pela maneira como a jovem fora recebida pelo clã. Ele não tinha culpa. Estava naquela cama todo machucado, justamente por tê-la defendido dos insultos dos anciões, mas mesmo assim se desculpou. Ainda perguntou se Reyume tinha se desculpado formalmente e a jovem ruiva tentou fazer o rapaz esquecer daquela ideia. Não se importava com o que falassem dela, não estava ali para tomar para si o título de viúva de Syaoran. Estava ali para outros propósitos.

Sakura pensou que realmente havia se enganado com relação ao marido de Meilyn. Era verdade que o primeiro encontro dos dois, quando ele invadira seu dormitório estudantil para buscar a amiga chinesa daquela forma, fez com que a impressão de Sakura sobre ele ficasse bem distorcida. Ele era ciumento. Assim como Syaoran era ciumento em relação a ela. Isso deveria ser característica predominante do DNA da família chinesa.

A jovem apertou mais forte as flores que tinha nas mãos. O perfume delas era maravilhoso. As flores eram grandes e majestosas.

‘Você conhece a Ópera “Pavilhão das Peônias”, de Tang Xianzu?’ Yelan perguntou para a jovem, quebrando o silêncio. Sakura arregalou os olhos de leve e apertou as flores que trazia nas mãos. Balançou a cabeça indicando que não conhecia. ‘Era uma das óperas favoritas de Xiao Lang.’

‘Eu… eu não sabia.’ Falou com os olhos ainda fixos nas flores.

‘É da Dinastia Ming. O drama exalta a coragem dos jovens contra os costumes da sociedade confuciana feudal, especialmente contra o casamento arranjado.’

Sakura manteve-se em silêncio, será que Yelan achava que ela tinha escolhido as flores como alguma indireta com relação a isso?

‘Peônia era a flor favorita dele…’ A senhora comentou, mas reteve-se por alguns segundos. ‘Acho que depois das Cerejeiras’. Completou sorrindo de leve.

Sakura soltou um suspiro incomodada. Detestava quando falavam de Syaoran no passado.

‘Xiao Lang me falou, no nosso último telefonema, que ele não voltaria mais para China.’

Sakura permaneceu em silêncio.

‘Ele nunca aceitaria um casamento arranjado como os anciões estavam já planejando para ele.’

Permaneceu em silêncio apertando o caule das flores em suas mãos. Ela sabia muito bem que já haviam escolhido uma noiva para ele.

‘Por que ele a amava muito.’ concluiu fazendo finalmente a jovem parar de andar. Ela engoliu em seco. O que Yelan estava querendo dizer com aquilo? Qual o motivo daquela conversa? Ela levantou o rosto desviando os olhos das flores e fitando a senhora, que também parou de caminhar, ao seu lado. Fitaram-se em silêncio por um longo tempo. ‘Você precisa se equilibrar, Sakura.’ Ela falou devagar.

‘Do que está falando?’ A jovem finalmente falou.

‘Da sua dor.’

‘Minha dor nunca vai passar.’

‘Você acha que ele, vendo-a sofrer desta maneira, estará feliz?’

Ela mordeu o lábio inferior e fechou os olhos, não estava entendendo o motivo daquela conversa com Yelan.

‘Ele também está sofrendo com a sua ausência.’ A senhora concluiu para a jovem.

‘Eu…’ Ela começou a falar tentando achar as palavras. ‘Eu não consigo.’ Apertou novamente as flores em suas mãos e voltou a caminhar. ‘Eu simplesmente não consigo aceitar que ele se foi.’

Voltaram a caminhar, cruzando o cemitério e subindo a pequena colina. Yelan parou de caminhar e olhou para Sakura. ‘É aquela.’ Falou apontando para a lápide. ‘Eu não posso ir. Pela tradição chinesa não posso prestar homenagem ao meu filho.’ Sakura franziu a testa. ‘Meilyn, que era a mais jovem, cuidou dos rituais de Xiao Lang.’ Explicou sorrindo de leve. ‘Isso não quer dizer que não possa rezar por ele em segredo.’ Falou de forma suave.

Sakura desviou os olhos da senhora e começou a caminhar em direção a lápide que ela tinha indicado. Yelan ficou ali observando a jovem que se aproximou da lápide e depositou as flores junto à pedra. Franziu a testa observando novamente a presença mágica da jovem se manifestar. Cerrou os olhos com cuidado, tinha que prestar atenção a cada detalhe.

Sakura ajoelhou-se em frente a pedra talhada, não havia foto dele e ela não conseguia entender as inscrições que estavam gravadas na pedra fria. Olhou para o lado e depois para cima. Sentia-se estranhamente perdida, sem saber o que fazer. Não queria rezar por Syaoran, queria pedir que ele estivesse com ela e que não tivesse morrido.

Ponderou que isso poderia ser considerado egoísmo. Nunca havia se imaginado uma pessoa egoísta, mas também custava a aceitar a situação de que nunca mais poderia rever Syaoran. Por fim, sentou-se ao lado da lápide olhando para o alto da colina onde havia outras lápides, umas maiores que as outras, a do rapaz era bem discreta comparada com as outras. Isso se devia ao fato dele ter morrido jovem.

A morte e os rituais fúnebres chineses eram de acordo com a idade do morto. Syaoran era jovem, não era casado, não tinha filhos e ainda, pelo jeito, tinha uma situação bem complicada com os anciões. Surpreendia-se que o corpo não tivesse sido cremado e, sim, enterrado.

A jovem voltou a fitar o túmulo de Syaoran, pensou que tinha que aproveitar aquela oportunidade para procurar logo os Taos. Logo Eriol e Tomoyo começariam a insistir que voltassem para o Japão. Agora que já sabia com exatidão qual era o túmulo dele, tinha que passar para a segunda parte dos seus planos. Olhou a lápide novamente e sorriu de lado. Ele logo estaria ao lado dela, ela tinha certeza disto. Ela faria de tudo para que isso logo acontecesse.

‘Sakura!’ Yelan gritou se aproximando da jovem com o rosto assustado. ‘O que está fazendo?’ Ela perguntou.

A jovem olhou assustado para a senhora que parou ao seu lado. ‘Nada… estou apenas… rezando.’ Mentiu.

‘Não! Em que estava pensando? Sua aura…’ Ela reteve-se, encarando a jovem seriamente. ‘No que estava pensando?’ Repetiu a pergunta em tom baixo e controlado. A testa franzida mostrando que estava preocupada.

Sakura se levantou incomodada, Yelan já estava passando dos limites. ‘Em nada! Estava rezando por Syaoran apenas. Não posso?’ A jovem deu uma última olhada na lápide e uma olhada em volta para ter certeza de qual era quando viesse buscar o que precisava e se afastou da senhora com pressa.

Yelan foi ao encalço dela. ‘Sua aura está com manchas!’ Ela falou para a jovem que se voltou, encarando-a. Do que ela estava falando afinal? A senhora se aproximou dela novamente e a segurou pelos braços. ‘Você não pode fazer o que está pensando.’

Sakura arregalou os olhos. Será que ela desconfiava? Mas como? Será que Yelan conseguia ler seus pensamentos? Será?! A senhora era uma maga poderosa, nunca soube exatamente qual a extensão dos poderes dela.

‘Eu não estava pensando em nada!’ Falou mais alto do que realmente gostaria. Desvencilhou-se das mãos da senhora e voltou a caminhar em direção a saída do cemitério. Yelan olhava atordoada para a aura da jovem, que antes sempre resplandecente, tornava-se opaca e manchada.

‘Ela precisa estar com as cartas.’ Reconheceu a voz do filho atrás de si. ‘As cartas estão conseguindo repelir dela esta influência. Libra está se manifestando sem que ela solicite, tentando equilibrá-la de forma paliativa.’ Ele esclareceu.

A senhora olhou para o lado onde estava o jovem espírito, também observando a jovem se afastar depressa.

‘Ela não rezou, não foi?’

‘Não.’ Ele respondeu. ‘Ela veio aqui apenas para ter certeza de que existia um corpo.’

‘Então ela aceita que você está em outro plano.’

Syaoran meneou a cabeça. ‘Não sei.’ Ele respirou fundo. ‘Mas acho que não.’

‘Ela está desequilibrada.’

‘Eu sei.’ Respondeu. Já tinha percebido. Estava atrás de Sakura o tempo todo com medo dela fazer algo de que pudesse se arrepender terrivelmente depois. A fuga para o passado com o uso de Retorno, para estar próxima à versão dele do passado, já tinha demonstrado o desequilíbrio da jovem em decidir o que é certo e errado.

‘Você tem que voltar.’ Yelan falou, virando-se para o rapaz com o rosto duro. Ele arregalou os olhos surpreso. ‘Se o pilar for corrompido, como parece que irá acontecer, aí sim o caos chegará a Terra.

‘Peraí… Tem alguma coisa errada. Esse Caos não era aquele lance daquele maluco amigo do Hiiraguizawa?’ O rapaz perguntou desnorteado.

‘Acho que Clow interpretou errado suas previsões.’ Yelan respondeu.

‘Ela está certa.’ Ouviram uma voz atrás dos dois. Eles se voltaram para trás onde um anjo havia aparecido. Estava com o semblante sério e tinha uma espada na cintura. Estranharam observar um ser celeste com uma arma. ‘As coisas estão saindo do controle. Não podemos arriscar o equilíbrio do universo desta maneira.’

‘E quem é você?’ Li perguntou erguendo uma sobrancelha

‘Gabriel.’ Ele respondeu. ‘Assim como você é o guardião das trevas eu sou o guardião dos céus deste universo.’

‘Hum… seu alter ego, Xiao Lang.’ Yelan concluiu.

Os dois se encararam por alguns segundos. Não se simpatizaram de primeira.

‘E o que está fazendo aqui?’ Syaoran perguntou.

‘Clow deu responsabilidade demais para um ser humano despreparado. Ela não consegue eliminar a influência negativa dos acontecimentos de sua vida e está se corrompendo. A energia dela logo será convertida em destruição.’

‘Você está falando de Sakura?’ Syaoran perguntou, erguendo uma sobrancelha. ‘Você está é maluco!’

‘Você sabe muito bem o que está acontecendo.’ Gabriel rebateu.

‘Ela quase morreu para fechar aquela merda de portal e ninguém veio nos ajudar, agora ela é considerada o quê? A destruição e o caos! Vocês estão loucos!’ Soltou irritado.

‘É exatamente isso que está acontecendo, Xiao Lang. Clow previu o Caos de forma errada. Ele ficou tão receoso do poder de Muy Shiray que criou o pilar e deu poder demais para um ser humano. Sakura não está aguentando a pressão. Ela precisa de equilíbrio.’ A senhora tentava esclarecer para o espírito do filho.

‘Equilíbrio?’ Syaoran perguntou sem entender. ‘Do que diabos vocês dois estão falando?’

‘Você é o equilíbrio dela. Você precisa voltar. Esta é a única maneira de deter o caos.’

‘Na verdade é uma das maneiras. A outra é destruir o portador do pilar antes que o corrompa.’ Gabriel falou sem rodeios.

Syaoran arregalou os olhos e foi até o anjo parando em frente a ele. ‘Se encostar um dedo em Sakura eu te mato, está me ouvindo?’

‘Eu não posso morrer.’ Rebateu.

Li trincou os dentes. ‘Eu juro que eu faço você querer estar morto.’

Gabriel rodou os olhos. ‘Não vamos perder tempo com isso. Entenda que uma luta entre nós seria eterna. Não estou a fim de perder minha eternidade olhando para a sua cara.’

‘Pois pode ter certeza que, se for para proteger Sakura, ficarei a eternidade lhe dando murros e olhando para sua cara feia.’ Li respondeu.

‘Vamos ser práticos. Tem uma outra maneira e é por isso que estou aqui.’

‘Você tem que voltar, Xiao Lang.’ Yelan repetiu, chamando a atenção dos dois.

‘Diga-me, então, como é que eu posso voltar? O que eu mais desejo é voltar a ficar com Sakura.’ Li respondeu abrindo os braços.

‘Você não é o guardião do mundo das trevas? Então…’ Gabriel falou, chamando a atenção do rapaz que franziu a testa começando a acompanhar o raciocínio do anjo.

‘As brechas.’ Ele sussurrou.

‘Exatamente.’ Concordou. ‘Você, como um ser das trevas, receberá um corpo físico e poderá encontrar uma brecha que ligue o plano inferior ao seu universo. Não tem como você conseguir de onde está agora.’

Syaoran meneou a cabeça. ‘É uma opção.’

‘Só que, ao ir para lá, se conseguir voltar, não terá mais a natureza humana. Será um demônio.’ Gabriel quis esclarecer tudo ao rapaz antes dele tomar uma decisão. ‘Além disso, nada garante que conseguirá achar uma brecha. Pode passar a eternidade lá.’

‘Isso não é uma opção.’ Declarou seriamente, garantindo que não falharia. ‘Se eu achar uma brecha, vocês não vão intervir?’

‘Tem minha palavra que ninguém o perturbará. Até porque…’ O anjo reteve-se por alguns segundos. ‘Seu pior inimigo será você mesmo se ajustando a sua nova natureza.’

‘Disso eu dou conta.’ Ele falou determinado.

‘Além disso…’ O anjo encarou Yelan. ‘Temos que ter um prazo. O pilar logo será corrompido.’

‘Ele está falando da Sakura de novo?’ Syaoran perguntou, olhando para a mãe que acenou positivo com a cabeça. Detestava quando se referiam a ela daquela maneira. Voltou-se para o anjo. ‘Quanto tempo eu tenho?’

Ele balançou a cabeça de leve com o rosto mais duro, se fosse possível. ‘Isso eu já não sei. Ela está evoluindo muito rápido.’

‘Eu a controlarei até você conseguir, Xiao Lang.’ Yelan falou decidida.

O anjo encarou a senhora. ‘Sabe que, se não conseguir, terei que intervir.’

‘Eu sei.’ Olhou para o filho. ‘Confie em mim. Eu a controlarei até você voltar.’

‘Então…’ O anjo falou olhando para os dois. ‘Temos um acordo.’

Continua.