FEITICEIROS
37 Partindo para o Inferno
FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 37
Partindo para o Inferno
Anna observou Sakura e Khala’a e soltou um longo suspiro. ‘Eu vou ver se os rapazes estão prontos. Acho que vocês precisam resolver algumas questões antes de partirem.’ Ela falou de forma serena, seguindo o mesmo caminho que Ren e Yoh, deixando as duas sozinhas.
Khala’a concordou com um gesto, precisava conversar com Sakura e resolver como as coisas ficariam para as outras cartas.
Sakura olhou seriamente para Khala’a. ‘Precisamos deixá-las com alguém que cuide delas até retornarmos ou que as passe para outro mestre se...’
Ela tinha que ser lógica agora. Apesar de querer acreditar que tudo terminaria bem, precisava pensar em todas as possibilidades. Não poderia simplesmente largá-las na expectativa de voltar logo para buscá-las. Não tinha como ter absoluta certeza disto.
‘Acha que ele cuidará bem delas?’ Khala’a perguntou, olhando para sua mestra que pegava as cartas da mesa.
‘Acredito que sim.’ Ela respondeu. ‘Você sabe que ele é a única opção que temos agora.’ Sakura voltou-se para Khala’a. ‘Acho que Eriol…’
‘Não.’ Khala’a a cortou e depois respirou fundo. ‘Desculpe-me. Faça o que achar que é o certo.’
‘Clow não foi justo com você.’
‘Minha mágoa por Clow não deve ser levada em conta agora.’ Retrucou. ‘Precisa decidir o melhor para elas.’
Sakura assentiu com a cabeça. ‘Ele tem força para protegê-las caso queiram pegá-las, não tem interesse em usá-las para proveito próprio e, espero eu, também tem discernimento para escolher um novo mestre caso não consigamos voltar.’
Khala’a meneou a cabeça. ‘Você fala isso porque ele lembra muito o mestre.’ Sakura sorriu com o comentário. ‘Mas tem razão, acho que o caráter dele não é fraco.’
‘Ele é gente boa.’ Sakura falou e a viu finalmente sorrindo pela primeira vez.
‘O mestre não vai gostar se souber que as deixou com ele.’ Ela ainda ponderou.
Sakura deu de ombros. ‘Syaoran não gosta de ninguém, mas é inteligente. Entenderá o porquê de eu deixar as cartas com ele.’ Khala’a concordou.
Sakura olhou para as cartas e fechou os olhos. Há bastante tempo não precisava mais do báculo para solicitá-las. ‘Movimento.’ Ela sussurrou e logo o livro mágico estava na mesa a frente delas. Respirou fundo, abrindo-o e depositando as cartas no centro dele. ‘Fiquem bem. Espero voltar logo para buscá-las, mas…’ Ela reteve-se por alguns segundos. ‘Se não voltar, espero que eu esteja fazendo o certo para que encontrem alguém que as ame tanto quanto eu.’ Falou e engoliu em seco.
Não era fácil lacrá-las novamente, principalmente agora que elas estavam se tornando tão independentes e livres. Sabia que estava exigindo um enorme retrocesso para elas e estava infinitamente feliz em constatar que confiavam nela para não se rebelarem contra o que estava prestes a fazer.
Sakura respirou fundo com as mãos por cima delas, fechou os olhos, conseguindo sentir toda a energia que elas emanavam para sua mestra. Sorriu, mesmo que de forma triste. Abriu os olhos e a mandala se formou em seus pés. Khala’a se afastou, observando-a.
‘Livro que guarda os poderes da minha Estrela. Ordeno que se lacre ao meu comando. Que o guardião do Sol, Kerberus, apresente-se para proteger os poderes da Estrela e que o guardião da Lua, Yue, adormeça em sua falsa forma até que seja novamente despertado por mim ou quando chegar a hora de julgar um novo mestre.’ Sakura abriu os olhos e viu o livro flutuar a sua frente brilhando. Estendeu as mãos em direção a ele. ‘Que o lacre apenas seja rompido por aquele definido como meu indicado.’ Ela sentiu um bolo se formar na garganta vendo Kerberus, adormecido na sua forma falsa, voltar a entrar no livro. Sentiria falta das implicâncias dele e esperava, sinceramente, que quando o reencontrasse, ele fosse capaz de perdoá-la por lacrá-lo novamente. ‘Lacre-se agora.’ Ordenou e o livro se fechou. Ela o pegou com as duas mãos e apertou contra o peito. ‘Muito obrigada.’ Agradeceu de forma sincera por confiarem nela a ponto de abrirem mão de sua liberdade daquela maneira.
Virou-se para Khala’a que a observava. ‘Agora precisamos entregá-lo para ele e, depois, iremos logo buscar Syaoran.’ Falou de forma firme. ‘Estou com um pressentimento ruim.’
Khala’a observou-a em silêncio, teria que contar para ela o que deveria esperar do mundo das trevas. Respirou fundo pensando que, no fundo, também não gostaria de voltar para lá, mas não tinha como permitir que nenhuma outra fosse. Ela era a mais forte; ela é quem deveria proteger seus mestres. Sabia da sua responsabilidade. Olhou para o livro lacrado e sorriu de leve. Sentiria falta de conviver com elas, mas para quem passou séculos isolada, aquele afastamento não seria nada.
Além disso… ela abaixou o rosto fitando o chão, talvez pudesse resolver algumas questões que havia deixado pendentes no mundo das trevas, desde que não colocasse a vida da sua mestra em risco.
Olhou para Sakura que estava parada à sua frente olhando-a de forma intensa. ‘Confia tanto em mim assim?’ Perguntou para a jovem feiticeira e a viu abrir um sorriso.
‘Claro’. A resposta veio rápida e fácil.
Sorriu de volta. Era fácil realmente amá-la. ‘Sabe… no Mundo das Trevas, as coisas são diferentes. O mestre pode estar muito diferente. Não quero que sofra.’
‘Syaoran sempre será o mesmo.’ Ela respondeu de forma convicta.
Khala’a concordou com um gesto, realmente esperava que ele se mantivesse o mesmo.
Sakura soltou um longo suspiro. Sabia que não seria fácil, mas estava sendo mais dolorido do que pensara. Lembrava-se claramente do dia em que capturou cada uma delas, embora algumas tivessem ficado com Syaoran a princípio. Quando chegou o momento de transformá-las sempre contara com o apoio dele. E, agora, ela as estava lacrando novamente.
‘Precisava ser feito.’ Ouviu Khala’a e concordou com ela.
Caminhou devagar, com o livro apertado contra o peito, na direção por onde todos tinham saído. Precisava conversar com Tao e, agora, que o rapaz a obrigara a ouvir tudo que ele achava que precisava ouvir, estava na hora dele ouvi-la. E com muita atenção.
Sakura caminhou pelo corredor, passando por algumas portas. Era fácil saber para onde foram seguindo a presença forte deles. Atravessou uma porta e encontrou, no que parecia ser o pátio da pousada, um grupo que conversava animadamente. Khala’a parou ao seu lado.
Sakura arregalou os olhos observando Yoh ao lado de Anna conversando. Acima dele planava a forma translúcida de um grande espadachim. Ren estava ao lado deles e, agora, ela pôde ver de forma mais clara o grande guerreiro chinês que vislumbrara rapidamente no dia que o viu em frente a sua casa quando saiu do hospital.
‘O-o quê…’ Ela murmurou.
‘São os espíritos guardiões.’ Khala’a lhe explicou. ‘Como xamãs… cada um deles tem um.’
Sakura assentiu com a cabeça entendendo o que ela disse. Olhou para o grupo e ergueu uma sobrancelha. Eles eram bem incomuns. Além de Yoh Asakura e Ren Tao que já conhecera, havia um altão com um topete horroroso e vestido com roupas bem cafonas e, para ser mais bizarro, o que parecia ser seu espírito protetor era um monstro verde e horroroso.
Também havia uma moça de cabelos castanhos, levemente ondulados, presos em um rabo-de-cavalo. Estava de braços cruzados e com o rosto tenso, perto dela se encontrava o espectro de um espadachim ruivo. E, para completar o incomum grupo, um rapaz de cabelos espetados na excêntrica tonalidade azul que não parecia ter nenhum espírito guardião. Provavelmente era o mais bobo de todos, pois não parava de rir.
Anna parou de falar com Yoh e levantou o rosto fitando Sakura, que respirou fundo e tentou relaxar os ombros, mas sem tirar os olhos do grupo.
‘Melhor falar com ele.’ Khala’a recomendou e Sakura concordou.
Caminhou em direção a Ren e desviou os olhos vendo que as outras pessoas pararam de falar para observá-la em silêncio. Sentiu aquele arrepio pela coluna e, não soube se era bem por causa dos fantasmas ou dos olhares para ela. Parou na frente de Ren.
‘Preciso falar com você.’ Ela falou e ele semicerrou os olhos nela. ‘Sobre o favor que eu queria pedir.’ Ela explicou, esperando pela resposta dele.
‘Está bem.’ Ele falou depois de respirar fundo.
Ela virou para trás, olhando por sobre os ombros para o grupo que estava todo olhando para eles. Voltou-se para Ren. ‘Pode ser em particular?’ Perguntou apertando o livro nos braços.
Ele concordou com a cabeça mais uma vez e fez um gesto para entrarem na pousada. Sakura caminhou à frente, logo seguida por ele. Ouviu-o ainda falando alguma coisa para o grupo de amigos antes dos dois entrarem novamente na pousada.
Sakura parou e virou-se para Ren que a observava esperando o que a garota louca lhe pediria desta vez.
‘Hã…’ Ela começou incerta ainda. Franziu a testa observando-o e pensando se realmente seria certo o que estava fazendo. Respirou fundo pensando que agora não dava para pensar em outra alternativa. Apertou o livro contra o peito. ‘Eu preciso que você cuide de uma coisa muito importante para mim enquanto eu estiver fora.’
‘Estiver fora…’ Ele falou rindo de lado. ‘Não deixa de ser um ponto de vista.’
‘É… e se eu não conseguir voltar…’ Ela o viu fitando-a intensamente. ‘Eu preciso que você... eu sei que você terá condições de escolher alguém para…’ Ela respirou mais uma vez. ‘... escolher alguém que se torne o novo mestre das minhas cartas.’ Falou de uma vez.
Ren arregalou os olhos, realmente tinha sido pego de surpresa. ‘Você está falando daquelas cartas?’
‘É.’ Ela confirmou. ‘Eu não posso levá-las comigo. Não seria justo com elas. Eu as lacrei. E vou deixá-las com você. Se eu não voltar, eu preciso que você escolha um novo mestre para elas.’
‘Garota… você não acha que deveria deixá-las com os Li.’
‘Não!’ Sakura falou mais alto do que queria. Achou melhor se acalmar. ‘Não quero que nenhum Li fique com elas, entendeu?’
Ren observou-a em silêncio.
‘Não é só você que tem problemas com o seu clã.’ Ela respondeu e o viu sorrindo de lado.
‘É… acho que ele deve ter muitos, não?’
‘Isso não vem ao caso.’ Ela não queria entrar em detalhes. ‘Só me prometa, por favor, que escolherá um mestre para elas. Caso eu não volte.’
Ele cruzou os braços ainda em silêncio, deixando-a quase louca de ansiedade.
‘E se aquele seu amigo, o tal Clow aparecer?’
‘Ele vai ter que aceitar a minha escolha. Eu sou a mestra delas agora e eu decido com quem as deixo.’
Ele assentiu com a cabeça.
‘E então?’ Sakura perguntou.
‘Está bem.’ Respondeu por fim, fazendo-a finalmente abrir um sorriso enorme de alívio. ‘Queria ver a cara daqueles velhos idiotas do Clã Li se soubessem que um Tao está em posse dessas cartas.’ Falou de forma irônica.
‘Não deixe que eles se aproximem delas.’ Sakura falou séria para ele.
Ren franziu a testa fechando o sorriso. Percebeu que realmente ela não gostava nem um pouco da família do namorado. Ponderou que, conhecendo como são os clãs, as coisas não deveriam ter sido fáceis para Xiao Lang.
Ela estendeu o livro para ele. ‘Elas estão lacradas no livro.’ Falou.
‘Tinha que ser rosa?’ Ele falou olhando para o livro.
‘Oras, eu sou uma feiticeira.’ Sakura falou sorrindo de leve. ‘E eu gosto de rosa.’
‘Claro.’ Ele respondeu pegando o livro e observando-o.
Sakura não soube direito o que ele estava pensando, mas precisava acreditar que estava tomando a decisão certa para suas queridas amigas. ‘Elas são muito importantes para mim.’ A feiticeira falou.
‘Você abriria mão delas para fazer um kyonshi dele.’ Ren retrucou.
‘Porque ele é tudo para mim.’ Ela respondeu fitando-o. ‘Talvez, se um dia você amar alguém como eu o amo, entenderá o que eu fiz e o que estou fazendo agora.’ Falou abaixando os olhos.
‘Humph.’ Ele murmurou, incomodado. ‘Um xamã precisa confiar na própria capacidade e força, senão o espírito incorporado é quem fica no comando, entendeu?’ Ren falou. ‘Você precisa de autoconfiança ou não conseguirá se sobrepor na incorporação.’
‘Quem falou que vou me sobrepor?’ Ela falou sorrindo e o viu franzir a testa. ‘Acho que eu e ela podemos entrar num acordo, não é?’
‘As coisas não são bem assim.’
‘Talvez para os xamãs… Mas…’ Ela falou, balançando o corpo. ‘Eu sou apenas um estúpido Pilar.’
Ele riu. ‘Sabia que chega a ser uma blasfêmia você falar desta maneira?’
Sakura soltou um suspiro. ‘Ninguém perguntou o que eu queria antes. Eu não tive escolha. Syaoran não teve escolha. Simplesmente colocaram a responsabilidade nas nossas mãos.’
‘Alguém precisa fazer o que tem que ser feito.’ Ele retrucou.
‘Acho que sim. Mas como eu falei… Eu só queria ter uma vida normal.’
Ficaram em silêncio alguns segundos.
‘Queria me desculpar também…’ Sakura falou. ‘Não deveria ter extravasado a minha raiva em você daquela vez.’ Falou de forma sincera. ‘Não foi justo.’
‘Você precisava descontar em alguém, não é?’
‘Sim. Eu sinto muito mesmo.’
‘Não sinta. Eu não me importo em receber o ódio dos outros.’
Sakura o fitou por alguns segundos, perguntado-se o que realmente aquilo significava. Respirou fundo e olhou para a porta que levava para fora da pousada. ‘Eu preciso ir logo. Ele está precisando de mim.’
Ren concordou. Caminhou com o livro, deixando-o num dos móveis da pousada. ‘Não se preocupe. Ninguém o pegará daqui. Guardarei em um lugar seguro depois que você atravessar o portal.’ Ela concordou com a cabeça e os dois saíram ao encontro dos outros.
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Syaoran subia a colina junto com Midoriko, Tadmoth e Arthas. Como se não bastasse estar naquela porcaria de deserto, o terreno ainda tinha que ser acidentado e, é claro que para dificultar, a maldita brecha precisava estar bem lá no topo. Arthas caiu sentado no chão, exausto.
‘Não aguento mais.’ Ele falou com a respiração acelerada. ‘Estamos subindo esta porcaria há quase uma eternidade’
Syaoran olhou para o grandão e soltou um suspiro tentando controlar a irritação. Ultimamente não andava conseguindo mais se manter diplomático. Pensou que, talvez, fosse mais fácil se tivesse vindo sozinho. Arthas às vezes parecia um encosto, Tadmoth era irritante e Midoriko já estava enchendo o saco, perguntando coisas que não lhe diziam respeito e às quais ele não tinha a menor inclinação de responder. Será que nenhum deles tinha pressa em sair daquele lugar?
Passou a mão pelo cabelo e olhou para aquele horizonte sem nada. Via-se algumas construções do que um dia poderia ter sido alguma coisa e hoje não era nada além de ruínas. Via-se um rio que cortava ao longe a paisagem. A água era fervente, não dava nem para tentar se limpar nela. Que saudades de uma ducha gelada, pensou para si. Não dava para esperar. Olhou para Tadmoth. ‘Onde está a porcaria da brecha? Eu vou na frente.’
O guerreiro semicerrou os olhos nele. ‘Acha que é tão bom assim para enfrentar um grupo inteiro sozinho, Garoto?’
‘Grupo?’
‘A próxima brecha é guardada por um demônio que tem um grupo de seguidores.’ Ele explicou. ‘Para chegarmos até o guardião da brecha vai ter que passar por um monte de outros demônios, provavelmente de nível baixo para médio, mas ainda são muitos.’
Syaoran lembrou-se do que tinha conversado com Esperança. Ela tinha dito que era a líder das cartas antes de todas serem aprisionadas por Clow, por isso o mago a lacrou. Eles tinham encontrado alguns grupos de demônios que pareciam ter algum sistema hierárquico enquanto faziam aquelas malditas travessias entre uma brecha e outra.
‘E você sabe quantos são ao todo?’ Syaoran perguntou para Tadmoth.
‘Difícil estimar. Acredito que sejam uns 50, mais ou menos.’
Syaoran ponderou que por conta da quantidade talvez fosse realmente melhor tentar entrar em grupo. Se eram demônios mais baixos, pelo menos Arthas poderia fazer algo além de ficar sentado, esperando que ele lutasse contra os guardiões das brechas.
Li afastou-se dos três, olhando em volta enquanto Arthas e Tadmoth descansavam, sentados no chão. Midoriko foi atrás dele.
‘Nunca pensou em ter a liderança de um grupo?’ Ela perguntou e não teve resposta.
Li a ouviu, mas pensou que, se não respondesse, ela se afastaria e o deixaria em paz.
Ela insistiu. ‘Você poderia ter um grupo enorme de seguidores, seria como um rei.’
Ele a olhou de soslaio e se afastou novamente, tentando, primeiro, não ter aquele tipo de conversa camarada e, principalmente, ver se aquela geografia acidentada poderia ser útil para atacarem um grupo grande de demônios de uma só vez.
‘Eu pensei que os humanos gostassem mais de falar e conversar.’ Ela ainda falou indo atrás dele.
Syaoran parou e a encarou. ‘Não fale comigo. Quando esta merda acabar, eu vou embora. Você fica nessa bosta de lugar fazendo o que quiser e nunca mais nos veremos. Não me atrapalhe.’ Falou e se afastou novamente.
Midoriko observou-o afastar-se novamente. O Garotão era bem arrogante mesmo. Realmente tê-lo como aliado não seria possível. Depois que ele fosse embora, quando finalmente destruíssem a última brecha, os demônios começariam a disputar novamente os territórios. Ela já teria uma área que Enma Daiyoh havia lhe oferecido, provavelmente teria alguns benefícios, mas seria muito interessante ter aliados para expandir depois seus domínios. Precisava de aliados fortes e, principalmente, que ela pudesse manipular para o seu interesse.
Olhou para trás vendo Arthas e Tadmoth. Aqueles dois ali eram uns inúteis. Um só servia para encher o saco e o outro para ser guia até as brechas. O único que parecia ser interessante como aliado era justamente o mais arrogante e inacessível.
Tinha que pensar em como tirar uma vantagem daquela situação. Depois que ele fosse embora, como ele mesmo deixou claro, seria interessante tentar manter alguma fama ou algo que pudesse impor respeito ao outros. Franziu a testa, observando-o analisar o terreno inquieto.
Parecia um lobo enjaulado e irritadiço. Estava louco para largar o grupo e partir sozinho, só não fazia isso porque, de alguma forma, ponderou que ainda era vantajoso permanecer. Precisava de Arthas para destruir as brechas, pois sabia que não conseguiria fazer isso e precisava de Tadmoth para guiá-lo até elas.
Era bem arrogante com relação a sua capacidade, apesar de que, depois de lutar contra Miroki, havia fica mais irritadiço do que antes. Apostaria como ele planejava atravessar a próxima brecha antes que Arthas a destruísse. Enquanto não visse a tal da Sakura não sossegaria. No final… era um estúpido humano apaixonado. Tinha um poder fenomenal, mas estava completamente preso a paixões e fraquezas humanas.
Ela inclinou a cabeça observando-o atentamente. Agora, um descendente dele teria um poder fenomenal, não? E com o bônus de não ter nenhum defeito humano. Poderia ser moldado. Sorriu, começando a traçar algumas possibilidades que lhe fossem vantajosas. Ele ainda tinha a cabeça humana, então seria muito fácil entrar nela para descobrir o que queria.
Li voltou para perto do grupo e parou a frente de Arthas. ‘Eu já avistei o tal grupo.’ Falou. ‘Estão próximos. Acho que descansaram suficiente, não?’
Arthas soltou um suspiro irritado. ‘Você está mais irritado e irritante do que antes.’ Murmurou.
Li não falou nada. Apenas semicerrou os olhos, encarando Arthas.
O grandalhão ergueu seu braço e se levantou. 'Está bem, vamos.' Falou sendo acompanhado por Tadmoth. O guerreiro nem tentava mais discutir com Li depois da surra que levou quando tentava impedi-lo de atravessar a brecha protegida pelo tal feiticeiro. No final, de maneira sutil e sem falar nada, Li acabava decidindo as coisas.
Midoriko sorriu constatando isso. Ele agora mandava nos dois só em olhar para eles. Era realmente divertidíssimo observá-los. Caminharam na direção em que Li avistara o tal grupo. Eles estavam no que parecia ser um acampamento, ou qualquer coisa assim, descendo uma parte da montanha pela encosta oposta a que haviam subido. Pareciam realmente ser uns cinquenta ao todo. Li estranhou não sentir o presença de uma brecha e questionou Tadmoth se ele estava certo quanto à localização.
‘A brecha deve estar escondida.’ Tadmoth comentou.
Li rodou os olhos impaciente. As brechas não tinham o tamanho para serem escondidas dentro de um baú. Tinha algo diferente. Se Tadmoth estivesse certo, então, provavelmente, o próximo guardião também teria algum poder para camuflar uma presença forte como a de uma brecha a fim de não chamar atenção. Isso dificultaria as coisas, além de indicar que o tal guardião tinha um poder considerável. As coisas estavam começando a ficar cada vez mais complicadas. Pensou também na possibilidade de Tadmoth estar enganado. Se isso fosse verdade, aí o mataria logo, pois não servia para nada.
Li passou a mão pelo cabelo novamente, gesto que Midoriko aprendera a reconhecer como sinal de irritação.
Tadmoth olhou para Arthas. ‘Acho que desta vez você não tem desculpa para ficar só assistindo, não?’
Arthas olhou para o guerreiro. ‘Hum…’ Murmurou. ‘Resolveu implicar comigo agora que viu que não pode com o garoto, é?’
‘Ah, cala a boca, você é inútil demais.’
‘Os dois são.’ Midoriko falou. ‘Agora, calem-se.’
Li ainda analisava o grupo, tentando identificar onde seria possível estar a brecha. Pensou que já estivesse com facilidade em percebê-la. Não havia nenhuma construção grande o suficiente para cobri-la e também nenhuma caverna ou local próximo. Semicerrou os olhos, a única explicação seria se a brecha estivesse abaixo deles, como numa galeria abaixo daquele pseudo acampamento. É, esta seria uma possível explicação. E, dependendo da profundidade, realmente seria possível camuflar a presença da brecha. Agora onde estaria a entrada?
Ouviu Arthas e Tadmoth discutindo atrás de si, irritando-o mais ainda. Se não estavam ajudando, poderiam, pelo menos, não atrapalhá-lo.
‘Dá para os dois calarem a boca!’ Li gritou irritado, voltando-se para os dois. ‘Inferno.’ Soltou seguido de mais alguns palavrões. Olhou novamente para o grupo que teriam que enfrentar, tentando descobrir onde a maldita entrada poderia estar. Teria que descobrir lá embaixo mesmo. Já estava de saco cheio de ficar ali parado.
Arthas e Tadmoth estavam observando-o de maneira desconfiada, calados. Midoriko só se divertia com a situação.
‘Vamos.’ Li falou já descendo a encosta íngreme e sendo acompanhado pelos três.
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Sakura parou ao lado de Khala’a que a fitou. Fez um gesto com a cabeça informando a ela que tinha entregado as cartas para Ren.
Khala’a olhou para o rapaz que caminhava em direção a Anna e Yoh. Não gostou muito de saber que elas estariam agora com ele, mas tinha que concordar com Sakura que ele era a melhor opção que tinham no momento. Entre um xamã e Clow, não tinha nem dúvidas do que era melhor.
‘Elas vão ficar bem com ele.’ Sakura falou para ela, fazendo-a arregalar os olhos de leve, não imaginou que era tão transparente assim para sua mestra. Concordou com a cabeça.
Sakura caminhou até Anna e tirou as duas chaves do bolso da calça jeans que vestia. ‘Acho que eu consigo abrir, lembro-me da invocação de quando abri um portal para outro universo.’ Sakura falou. ‘Só não tenho certeza se será parecido para abrir um para onde quero ir.’
Anna franziu a testa. ‘É diferente.’ Respondeu. ‘É muito mais perigoso e instável. Por isso pedi para eles estarem preparados.’ Falou mostrando com um gesto o grupo de xamãs que estava próximo a elas. Sakura os fitou e viu que, novamente, haviam parado de conversar para observá-la. ‘Eles estão curiosos por causa do poder do Pilar.’ Anna esclareceu o porquê de estarem observando-a tanto. ‘Além de serem muito xeretas.’ Completou tentando controlar o tom de irritação.
‘Entendo.’ Sakura falou observando os espíritos guardiões pairando acima deles. ‘É bem estranho…’ Ela observou o guerreiro chinês ao lado de Ren. ‘Antes quando eu o encontrei, não consegui vê-lo. Tao me falou dele, mas pensei que era loucura da cabeça dele.’ Anna sorriu de leve. ‘Agora… Acho que é coisa da minha cabeça.’ Ela completou e depois fitou a loira. ‘O que mudou?’
‘Bem… Você morreu, não foi?’ Anna falou. ‘Você só voltou a vida porque usou o poder do “estúpido pilar” como você fala. Se não fosse ele, como feiticeira, não conseguiria fazer o que fez.’
‘Eu não sabia que tinha este poder.’ Sakura falou com sinceridade. ‘Eu só não queria morrer naquela hora.’ Ela soltou um suspiro. ‘E este poder que me deram têm relação com os xamãs?’
‘De certa forma, tem relação com todos. Xamãs, feiticeiros, humanos comuns.’ Anna respondeu. ‘Mas, talvez os xamãs, por terem conhecimento dele há mais tempo, saibam mais a respeito.’
Sakura franziu a testa. ‘Mas os xamãs tem poder sobre a vida e a morte?’
Anna balançou a cabeça de leve. ‘Os xamãs não conseguem controlar a vida e a morte, eles manuseiam e moldam os espíritos, tanto os da natureza quanto os dos mortos que não fizeram a travessia.’
‘Então… O que eu fiz…’
‘Só você conseguiria fazer.’ Anna respondeu olhando-a seriamente. ‘Então vamos parar de blasfemar sobre o poder que recebeu, certo?’
Sakura concordou com a cabeça. ‘Ninguém nunca me explicou.’ Ela falou ainda tentando se defender. ‘Eu só tive problemas por causa disto. Talvez você tenha razão sobre a falta de treinamento. Mas para mim não faz sentido eu ser uma feiticeira que recebeu este “poder” sem ter conhecimento do potencial. Talvez fizesse mais sentido se fosse um xamã, não?’
‘Tudo acontece segundo a vontade do Grande Espírito.’ Anna respondeu de forma firme. ‘Se você tem este poder, é porque pode controlá-lo. Só deve ter a mente aberta e confiar em si. Não sabemos de tudo que acontece ao nosso redor. Para tudo existe uma explicação, não podemos achar que sabemos de tudo.’
Sakura concordou. ‘Eu preciso ir para lá.’ Falou decidida.
‘Eu sei. Por isso a estamos ajudando.’ Anna respondeu. ‘Preste atenção agora: A incorporação do espírito com o xamã é algo que deve ser treinado para que se consiga alcançar um grande grau de poder. Eles…’ Ela fez um gesto com a cabeça indicando o grupo que voltava a conversar de forma animada. ‘Treinam há muito tempo e possuem total domínio neste processo. No entanto, no seu caso e no dela…’ Sakura olhou por sobre o ombro direito onde Khala’a estava parada com os braços cruzados observando o grupo. ‘Vai ter que ser um pouco diferente.’
‘Ela não é um espírito.’ Sakura falou.
‘Não. Ela é uma criatura das trevas. A natureza é um pouco diferente. E você não foi desenvolvida corretamente como xamã. Como temos pressa, vamos ter que usar um artifício para que a incorporação aconteça de forma segura e você sobreviva lá.’ Anna falou com o tom de voz sério. Sakura precisava entender exatamente o que estava prestes a fazer, pois se a ligação delas estivesse fraca, ela não sobreviveria nem por um segundo para onde estava indo.
A ruiva voltou-se para Anna, olhando-a e aguardando a explicação. ‘Deu para ver que você e ela estão de alguma forma ligadas. Por isso ela apareceu e se manifestou rapidamente, tomando a decisão de ir com você para lá, mesmo estando na cara que não é exatamente o que ela queria.’
Sakura concordou. ‘Quando eu a transformei em uma carta minha… Ela acabou ficando com uma parte muito importante de mim.’ Falou de forma evasiva, não gostaria muito de falar sobre aquilo, era pessoal demais.
‘Não precisa explicar.’ Anna falou, vendo-a sentir-se incomodada. ‘Você só precisa saber exatamente o que liga vocês duas, entendeu?’ Sakura concordou com a cabeça. ‘E será isto que canalizará a incorporação.’
‘Certo.’ Sakura falou. ‘Acho que agora podemos abrir o portal, não é?’ Perguntou ansiosa.
‘Vamos ver se você consegue fazer a incorporação primeiro.’ Anna sugeriu e a ruiva concordou. ‘Você precisa se concentrar e expandir seu poder, e então usar o que une vocês como canal para incorporação. Vamos tentar?’
Anna caminhou, sendo seguida por Sakura até onde Khala’a estava aguardando sua mestra.
A feiticeira reparou no rosto apreensivo, também deveria ser a primeira vez que ela se incorporaria em alguém. No final, as duas estariam descobrindo como fazer aquilo ao mesmo tempo.
‘Pronta para tentar?’ Anna perguntou para Sakura, que concordou com a cabeça.
‘Vamos lá.’ A feiticeira falou seguido de um suspiro. Olhou para Khala’a que fez um gesto com a cabeça, concordando e informando que estava pronta.
Sakura fechou os olhos e se concentrou. De olhos fechados conseguia perceber mais forte a presença de todos do grupo e de seus espíritos guardiões. Sentiu novamente um calafrio percorrer a coluna. Ela tinha que ignorar aquilo. Precisava fazer com que aquilo desse certo, era a única forma de conseguir ir até Syaoran. Estar ao lado dele. O lugar que era dela.
A mandala da sua estrela surgiu aos seus pés brilhando fortemente e logo o corpo pequeno foi envolvido pela aura inicialmente rosada, o ar em torno dela começou a girar formando um redemoinho que levantou as folhas das árvores que estavam no chão. A aura rosada começou a ficar multicolorida brilhando de forma mais intensa em torno do corpo da jovem.
O grupo de xamãs parou de falar para observar a jovem expandindo seu poder. Ren franziu a testa lembrando-se da mesma aura que tinha visto e reparou que, desta vez, não havia mais aquelas manchas escuras que tinha reparado da outra vez, pelo contrário. Estava mais brilhante e forte.
Sakura precisava se concentrar no que a ligava a Khala’a. Levantou as mãos até o peito lembrando-se do momento em que descobriu que amava Syaoran quanto tinha onze anos de idade. Quando conseguiu afastar de si toda a influência de Clow e finalmente conseguiu descobrir que o que sentia por ele era amor. Sorriu de leve lembrando-se daquele momento e não pôde deixar de sentir os olhos arderem. Não choraria mais, não havia porque disso, agora não havia mais nenhuma confusão na sua mente. O amor que tinha por Syaoran era a única certeza que tinha na vida.
Khala’a arregalou os olhos dando um passo à frente. Levou uma mão a altura do peito sentindo a quentura daquele sentimento dentro dela. Sorriu, pensando no momento que havia recebido aquele sentimento maravilhoso e na imensa alegria de ser invadida por ele quando nunca o havia sentido antes. Olhou-se por alguns segundos vendo-se envolvida pela aura de sua mestra.
Sakura apertou as mãos ao peito, pensando em Syaoran e em tudo que passaram juntos até aquele momento. Pensou em todos os desafios que haviam enfrentado para estarem juntos, sorriu de leve lembrando-se de todas as vezes que se amaram. Ele era sua vida, ele era o seu coração. Sem ele, era como se estivesse sem uma parte de si e apenas com ele sentia-se completa. Sentiu quando sua energia aumentou, levantando-a do chão, ao mesmo tempo que envolvia Khala’a e aproximando-a de sua mestra ficando logo atrás dela.
Khala’a percebeu quando o coração alado surgiu a sua frente na altura do peito. Fechou os olhos sabendo que estava mudando. Sua aparência de menina de quando havia sido capturada por Sakura tornava-se mais madura, assim como os sentimentos de seus mestres haviam evoluído para maturidade. Um par de asas enormes surgiu em suas costas. Em uma de suas mãos surgiu uma espada, enquanto ela percebia a manifestação de todos os poderes de cada uma das cartas em seu corpo. O coração alado aproximou-se do seu corpo, envolvendo-a e transformando-se numa belíssima armadura vermelha. As pequenas asas em sua cabeça diminuíram e, juntamente com a estrela que havia em sua testa, transformou-se num elmo que brilhava de forma magnífica.
Sakura apertou mais ainda as mãos contra o peito, sentia que Syaoran precisava dela, precisava encontrá-lo o quanto antes. Ele estava sofrendo, ela tinha certeza disto. Sentiu quando não conseguiu mais se segurar e as lágrimas saíram de seus olhos molhando sua face. Precisava estar ao lado dele.
Khala’a abriu os olhos e sorriu de leve, reparou nas suas mudanças e pensou que nem mesmo quando era um dos demônios mais poderosos do mundo das trevas sentiu tanto poder circulando nela daquela forma. Olhou para sua mestra que estava um pouco mais abaixo e sorriu de leve. Elas conseguiriam. Elas venceriam todas as dificuldades e o trariam de volta.
Estava na hora. Khala’a sabia disto. Fechou os olhos e sentiu quando seu corpo tornou-se apenas energia e, aos poucos, uniu-se ao de sua amada mestra. Aquela que tinha lhe ensinado o que era o sentimento mais forte e que tornava qualquer um invencível. Superando todo o ódio ou raiva que pudesse sentir por ter sido aprisionada, lacrada, isolada e esquecida.
Sakura sentiu a energia de Khala’a unir-se ao seu corpo, inicialmente sentiu toda a dor que ela tinha no coração pelo que Clow havia feito a ela, mas depois este sentimento foi diminuindo dando lugar ao amor que ela sentia agora. Sorriu de leve e finalmente abriu os olhos. Sabia que agora elas eram uma só.
A energia foi diminuindo, Sakura pousou no chão e aos poucos o vento em torno de seu corpo foi enfraquecendo. A luz foi diminuindo até se concentrar apenas no peito da feiticeira e se apagou no mesmo momento que a mandala também desapareceu.
Anna sorriu para ela e fez um gesto com a cabeça informando que ela tinha conseguido. Na verdade, a jovem tinha conseguido evoluir Khala’a e depois unir-se a ela. Realmente não fora à toa que o Grande Espírito permitiu que aquela jovem adquirisse aquele poder. Ela tinha um potencial enorme.
Sakura secou o rosto com a manga do casaco que vestia. Não gostava que a vissem chorando, mas fora impossível não pensar no amor que sentia por Syaoran e não se emocionar. O que a ligava a ele era algo tão forte e tão grande que parecia ir além do que ela mesma poderia compreender e sentir.
Levantou o rosto encarando o grupo de xamãs que a olhava abismados. ‘Acho que agora eu já estou pronta para ir até ele.’ Falou sorrindo.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Li já tinha a espada em punho assim que chegou ao final da descida, uma nuvem de poeira seca levantou-se com o avanço dos quatro ao mesmo tempo. Os demônios que estavam mais perto gritaram pelos outros, informando do pequeno grupo de intrusos. Li deu dois passos à frente, já cortando qualquer um que se aproximava dele. Segurou o punho da arma e franziu a testa, aquilo tudo o irritava demais. Por que simplesmente não achava a maldita brecha, destruía e pronto? Precisava lidar com aquele monte de lixo enchendo-lhe o saco.
I've been down in the dirt, lost for so long
(Eu fui nocauteado, perdido por tanto tempo)
And pushed around beaten down
(E empurrado, abatido)
Girou o corpo, bloqueando o ataque de um demônio maior que tentava se aproximar dele armado com uma lança. Abaixou-se, girando novamente o corpo e acertando-o com uma cotovelada na altura do abdômen que fez o oponente se dobrar ao meio. Bateu com o punho da espada nas costas dele e girou novamente o corpo, decapitando-o de uma vez e fazendo-o virar pó.
Outro se aproximou tentando também acertá-lo de todas as formas possíveis com uma espada. O chinês bloqueou duas tentativas. Quando o inimigo tentou novamente acertá-lo, o rapaz o pegou pelo braço que segurava a arma e o encarou.
‘Onde está a maldita brecha?’ Perguntou, encarando o rosto assustado do demônio. Ele não respondeu e Li ponderou que teria mais uns trinta de quem arrancar a resposta. Girou o punho, fazendo-o se contorcer até quebrar-lhe o braço e, em seguida, golpeou-o, transformando-o em pó.
Got nothing left to lose, all hope is gone
(Não tenho nada a perder, toda esperança se foi)
Got buried deep underground
(Fui enterrado profundamente no chão)
Um grupo de três outros demônios se aproximaram juntos, tentando acertá-lo com suas armas. Li esquivou-se das investidas e estocou a espada no peito de um deles; abaixou-se acertando as pernas de outro que caiu no chão e não teve um destino diferente do primeiro. O terceiro tentou acertá-lo, mas Li se defendeu e o desarmou; chutou-o, fazendo-o girar e cair no chão. Ele se abaixou e pegou o demônio pelo pescoço, levantando-o.
‘Onde está a brecha?’ Perguntou extremamente irritado.
Oh, can you see me?
(Oh, você pode me ver?)
Sentia que dali a pouco explodiria, era melhor encontrar a maldita brecha de uma vez. Se ele quisesse realmente atravessar para ver como Sakura estava, não poderia estar naquela maldita forma. Precisava encontrá-la logo.
O Demônio se debateu, tentando fazer com que Li o soltasse, mas era em vão. Ele perguntou mais uma vez e irritou-se ao não receber uma resposta, matando-o de uma vez.
Oh, can you hear me?
(Oh, você pode me ouvir?)
Olhou para trás onde via os outros três demônios com quem estava viajando lutar com outros oponentes. Pelo menos eles agora não estavam sendo tão inúteis. Deixaria o lixo a cargo deles enquanto chegava até a brecha. De preferência antes de Arthas.
Arthas urrava enquanto socava os adversários com seu único braço e pulava em cima das criaturas que tentavam se aproximar dele. Pegou um demônio menor pela cabeça com sua enorme garra e arremessou-o longe.
Outro acertou-o nas costas com um machado, fazendo o grandalhão voltar-se para trás irado por ter sido atingido. Gritou correndo na direção do seu agressor e golpeando-o o máximo que podia. Pegou-o pelo braço e girou o corpo, jogando-o em cima de outras duas criaturas que vinham na sua direção, fazendo os três irem ao chão. Pulou em cima deles com suas garras e dilacerou-os.
Tadmoth estava com a espada a sua frente, golpeando qualquer um que se aproximava dele, às vezes acertava dois ou três ao mesmo tempo. O garoto era maluco de simplesmente chegar e enfrentar o grupo todo ao mesmo tempo daquela forma. Maldito arrogante, pensou para si. Acabou sendo acertado na cabeça por alguma arma que o fez cair no chão. Arregalou os olhos, vendo que estavam para desferir um golpe fatal e rolou, esquivando-se das tentativas de golpeá-lo.
Levantou-se, protegendo-se com a espada e com um escudo que fora obrigado a pegar de um dos inimigos que transformara em pó anteriormente. Avançava aos poucos, desferindo golpes certeiros com sua espada enquanto se defendia com o escudo. Um adversário pulou nas suas costas, agarrando-o pelo pescoço e tentando cortá-lo. Jogou-se no chão com força, quebrando alguns ossos do idiota que tentara degolá-lo. Levantou-se e, com uma só estocada da espada, transformou-o em pó.
Midoriko tinha as garras das mãos mais compridas, como verdadeiras facas afiadíssimas. Tinha, literalmente, retalhado dois que se aproximaram dela por infortúnio. Deu um chute alto em um, fazendo-o ir ao chão enquanto outro, que a atacava com uma lâmina, conseguiu ferir-lhe o braço. Ficou irritada e conseguiu parar a segunda tentativa dele de acertá-la com apenas um braço, aproximou-se cravando suas garras na jugular, transformando-o em pó.
Sentiu o impacto de alguma coisa nas suas costas, fazendo-a cair no chão, mas cruzou as pernas em forma de tesoura e golpeou o inimigo que também foi ao chão. Foi o tempo dela chutar a arma que ele tinha nas mãos e cravar as garras na altura do peito.
Li franziu a testa sem conseguir encontrar a entrada para o possível esconderijo da brecha. Invadiu uma das barracas e alguém o agarrou pelo pescoço com uma lâmina encostada na sua pele. Ele pegou o braço que o prendia e puxou para frente, arremessando seu agressor no chão a sua frente, apontou a espada para ele.
‘A brecha?’ Perguntou novamente, sem conseguir nenhuma resposta. Estava pronto para acertá-lo de maneira certeira quando foi atingido pelas costas sendo cortado na altura do ombro. Virou-se e encarou com raiva o demônio que o havia acertado. Não teve pena, as espadas apenas se chocaram duas vezes antes que Syaoran girasse o corpo e o acertasse com um chute alto que o fez cambalear antes de ser cortado ao meio pela espada do chinês.
Can you hear me screaming for you?
(Você pode me ouvir gritando por você?)
I'm afraid I'm gonna die out here
(Tenho medo de morrer aqui fora)
I can't save, I can't save myself
(Não posso, não posso salvar a mim mesmo)
Get me out, get me out of Hell
(Me tire, me tire desse inferno)
I'm suffocating waiting for you
(Estou sufocando esperando para você)
Cause the angels don't fly down here
(Porque os anjos não voam aqui embaixo)
I need you because no one else
(Eu preciso de você porque ninguém mais)
Can get me out, get me out of Hell
(Pode me tirar, me tirar desse inferno)
Soltou novamente alguns palavrões por não achar nada que parecesse a entrada de algum esconderijo. Saiu da barraca e outro tentou golpeá-lo com uma lança afiadíssima da qual teve que desviar e se defender com a espada para não ser acertado em cheio.
O adversário tentou estocar a lança no seu peito, Li desviou do ataque, mas segurou a lança, dando um puxão e pegando-o de surpresa antes de apenas atravessá-lo com a lâmina afiada, transformando-o em pó.
Foi atingido no ombro por uma flecha. Ergueu os olhos, vendo três criaturas armadas com algo que pareciam bestas. Puxou a flecha que estava cravada em seu ombro e a jogou no chão.
I can't trust anyone, all that I got
(Eu não posso confiar em ninguém, tudo o que eu tenho)
Is another scarred, broken heart
(É um outro coração cheio de cicatrizes, quebrado)
Pegou um dos seus talismãs e levou ao rosto. ‘Deus do trovão, vinde a mim!’ Gritou, jogando-o para o alto e inclinando a espada. A magia acertou os três ao mesmo tempo.
Gritou por Arthas, que se aproximou-se dele perguntando o que queria, mas o rapaz apenas flexionou os joelhos e, usando o ombro do grandão como apoio para aumentar o impulso, pulou no local onde estavam os três arqueiros, golpeando-os com fúria e transformando-os em pó.
Estava num lugar mais alto e virou-se, observando a quantidade de sangue e pó que se espalhava pelo local. Ainda não tinha achado nenhuma pista de onde poderia estar a brecha. Inferno, onde ela estaria?
I've been stabbed in the back, the bleeding won't stop
(Fui apunhalado pelas costas, o sangramento não vai parar)
Just another cut in the dark
(Apenas outro corte na escuridão)
Passou a mão no rosto. Sua cabeça doía demais. Sabia que o que tinha visto durante sua luta contra Miroki era apenas uma ilusão, fruto do seu imaginário, mas, enquanto não visse Sakura e tivesse certeza de que estava bem, não conseguiria tirar aquelas malditas imagens da cabeça. Gritou, furioso por não conseguir encontrar a maldita brecha para poder atravessar e vê-la. Sentiu as costas arderem, sendo rasgadas de dentro para fora, fazendo surgir nelas o par de asas como da outra vez.
Fechou os olhos, permitindo que a raiva finalmente fluísse por seu corpo. Agora não havia mais a necessidade de se controlar. Queria mesmo era destruir tudo.
Oh, can you see me?
(Oh, você pode me ver?)
Flexionou os joelhos e saltou, batendo as asas e plainando no ar enquanto observava o local. Já que não achava onde era a entrada, abriria ele mesmo uma.
Estendeu o braço a sua frente e sentiu a energia se acumular como da outra vez. Sorriu de lado e, sem hesitar, jogou tudo que pôde no meio o acampamento, provocando uma imensa explosão e levantando uma nuvem de pó e areia. Ainda não conseguia ver a maldita brecha, trincou os dentes. Começou a acumular cada vez mais energia nas mãos, jogando contra o terreno em todos os lugares possíveis.
Oh, can you hear me?
(Oh, você pode me ouvir?)
Arthas, Tadmoth e Midoriko olharam assustados para Li que, agora, sobrevoava o local, explodindo tudo que podia. Tiveram que se afastar, assim como alguns poucos sobreviventes do grupo inicial.
Uma imensa cratera foi aberta pelos golpes de Li e, depois que a nuvem de pó e areia se dissipou, revelou o brilho de uma das brechas no fundo. Syaoran sorriu, observando o brilho multicolorido, enquanto suas asas batiam agitadas. Jogou-se para frente, pronto para dar um rasante em direção a brecha quando foi atingido por outro demônio também alado.
Os dois trocaram socos e golpes enquanto voavam sob o céu de fogo do inferno. Afastaram-se apenas para finalmente se encararem.
‘Quem é você?’ O demônio perguntou, observando Li que apenas segurou com mais força o cabo da espada.
‘Saia do meu caminho.’ Ele respondeu, já partindo para cima do adversário que também foi ao seu encontro, os dois se chocaram no ar com fúria. Cada um tentava golpear o adversário da forma mais certeira possível.
Can you hear me screaming for you?
(Você pode me ouvir gritando por você?)
I'm afraid I'm gonna die out here
(Tenho medo de morrer aqui fora)
I can't save, I can't save myself
(Não posso, não posso salvar a mim mesmo)
Get me out, get me out of Hell
(Me tire, me tire desse inferno)
Li foi arremessado contra um dos rochedos, destruindo parte dele. Levantou-se e pegou impulso para novamente voar contra o adversário. Apertou o punho da espada e tentou golpeá-lo, mas o demônio segurou a espada com uma de suas garras, impedindo o golpe, enquanto a outra mão pegou o pescoço de Li, apertando-o e cravando as garras. Li segurou o punho do demônio, e golpeou-o com as duas pernas fazendo com que ele o soltasse. Fez um loop no ar e estendeu a mão, trazendo a espada, que tinha caído no chão, de volta para ela.
Franziu a testa, observando o inimigo arremessar, assim como ele, bolas de energia em sua direção. Desviou dos golpes, ouvindo as explosões que elas produziam ao se chocarem com parte do terreno daquele lugar.
Li novamente planou no ar, observando o adversário. Tinha algo errado ali. Segurou a espada com força e semicerrou os olhos nele. Alguma coisa não estava certa, ele conseguia sentir isso.
Voou em direção ao oponente, novamente tentando acertá-lo, de todas as formas possíveis, sem sucesso. De repente, o oponente avançou sobre ele, desferindo uma sequência de golpes parecidos com os que ele tinha tentado.
I'm suffocating waiting for you
(Estou sufocando esperando para você)
Cause the angels don't fly down here
(Porque os anjos não voam aqui embaixo)
I need you because no one else
(Eu preciso de você porque ninguém mais)
Can get me out, get me out of Hell
(Pode me tirar, me tirar desse inferno)
Ah! Aquele ali não era real. Afastou-se o suficiente para voltar a acumular energia em uma das mãos, viu o oponente fazer o mesmo. Sorriu de lado e fechou os olhos. Tinha que identificar a fonte da magia. Quando localizou de onde vinha o poder, abriu os olhos e, finalmente, jogou a energia na direção do responsável por manipular o adversário.
Não esperava, no entanto, ser atingido pela energia acumulada pelo oponente, sendo atirado, novamente, contra os rochedos.
Li abriu os olhos vendo o inimigo alado desaparecer como mágica. Levou uma das mãos ao ombro que apresentava um enorme ferimento e sangrava sem parar. Suas asas bateram com força, fazendo-o levantar voo e dar um rasante para que parasse a poucos centímetros do chão, encarando o demônio a sua frente que tinha o corpo todo machucado. Estava assustado.
‘C-como soube?’ Ele perguntou, olhando assustado para Li que nem ao menos se dignou a responder.
Syaoran deu um passo à frente e, com uma só estocada, deu o golpe final no verdadeiro adversário, transformando-o em pó.
Can you hear me screaming for you?
(Você pode me ouvir gritando por você?)
I'm afraid I'm gonna die out here
(Tenho medo de morrer aqui)
I can't save, I can't save myself
(Não posso, não posso salvar a mim mesmo)
Get me out, get me out of Hell
(Me tire, me tire desse inferno)
Sentiu a respiração ofegante, estava exausto, ferido e irritado. Virou-se para trás, onde a fonte multicolorida brilhava de forma belíssima.
Deu um passo naquela direção, estendendo a mão a frente. Franziu a testa, vendo as longas garras em sua mão. Levantou-a até a altura do rosto e deu um passo para trás. Tinha que ficar frio e fazer aquilo desaparecer. Voltar ao normal. Não podia, não queria que Sakura o visse daquela forma novamente. Fechou os olhos, tentando controlar a respiração, mas, quanto mais tentava se acalmar, mais irritado ficava por não conseguir.
I'm suffocating waiting for you
(Estou sufocando esperando para você)
Cause the angels don't fly down here
(Porque os anjos não voam aqui embaixo)
I need you because no one else
(Eu preciso de você porque ninguém mais)
Can get me out, get me out of Hell
(Pode me tirar, me tirar desse inferno)
‘Afaste-se, Garoto!’ Ouviu a voz de Arthas.
‘Espera!’ Ele gritou. ‘Ainda não!’ Caiu de joelhos, sentindo-se exausto ao mesmo tempo em que tentava fazer alguma coisa para que aquelas malditas asas e garras desaparecessem.
Arthas olhou para Li e engoliu em seco, pensando que era bem capaz dele tentar matá-lo depois. Respirou fundo, pegou uma das esferas vermelhas e estendeu a frente, fazendo-a flutuar.
‘Eu disse ainda não!’ Li gritou, tentando se levantar irado.
A esfera vermelha entrou na luz do portal e, como das outras vezes, a implosão aconteceu, fazendo-a desaparecer.
‘Não!’ Li gritou finalmente conseguindo se levantar e avançando para cima de Arthas. ‘Eu falei que não era para destruir ainda!’
Como da outra vez, Tadmoth e Midoriko se aproximaram para tentar ajudar Arthas, mas Li apenas levantou o braço, cortando o ar ao sentir a aproximação dos dois, fazendo com que uma onda de energia os atingisse e arrastasse por metros.
Li encarou Arthas. Agora estava quase do tamanho do grandalhão que o olhava assustado.
‘Seu idiota!’ Gritou, jogando-o longe. Estava pronto para golpeá-lo quando se se reteve, balançando a cabeça e dando um passo para trás. ‘Inferno.’ Ele ainda soltou.
Fechou os olhos, tentando normalizar a respiração e se acalmar. Tinha que se acalmar, tinha que tentar voltar ao normal. Tinha que se controlar. Não poderia voltar para Sakura naquela condição.
Oh, can you hear me?
(Oh, você pode me ouvir?)
Oh, can you save me?
(Oh, você pode me salvar?)
I can feel you now
(Eu posso sentir você agora)
Get me out, get me out of Hell
(Me tire, me tire desse inferno)
Sentiu os ferimentos arderem enquanto cicatrizavam. Caiu de joelhos com as mãos no chão, tentando manter o controle. As asas desapareceram e ele abriu os olhos, vendo novamente suas mãos humanas com os dedos cravados na terra. Sorriu aliviado. Por um momento pensou que não conseguiria mais voltar ao normal. Sentou-se no chão com a mão no ferimento do ombro que quase fora dilacerado. Aquilo ali demoraria um bocado para cicatrizar, pensou sentindo a cabeça pesada.
Arthas se aproximou dele e se abaixou. ‘Garoto… Você precisa descansar. Senão vai enlouquecer, está me ouvindo?’
‘Não.’ Ele respondeu. ‘Vamos para a próxima.’
Arthas encarou-o por alguns segundos. ‘Para você, novamente, tentar atravessar e ver a sua humana? Como? Se você não teve coragem de atravessar daquela forma? Se você perder novamente o controle, vai acontecer a mesma coisa.’ O grandalhão falou e viu Li desviar os olhos dele. ‘Enquanto não descansar, vai ficar cada vez mais irritado.’
Li passou a mão no rosto tentando pensar no que faria. ‘Está certo.’ Falou, por fim, e Arthas soltou um suspiro de alívio.
‘Eu o ajudo a se levantar.’
‘Eu não preciso.’ Li falou, levantando-se e recusando ajuda.
Caminhou, cambaleando, em direção a um dos rochedos e se deixou cair sentado, apoiando as costas na pedra quente. Fechou os olhos enquanto mordia os lábios para controlar as dores que lhe ardiam pelo corpo. Não soube direito se dormiu ou se perdeu os sentidos.
Can you hear me screaming for you?
(Você pode me ouvir gritando por você?)
I'm afraid I'm gonna die down here
(Tenho medo de morrer aqui)
I need you because no one else
(Eu preciso de você porque ninguém mais)
Can get me out, get me out of Hell?
(Pode me tirar, me tirar desse inferno?)
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Sakura pegou as duas chaves que tinha no bolso e caminhou até Anna. ‘Esta é a chave que aquele maluco usou para abrir o portal.’ A feiticeira falou para ela.
Anna sorriu para ela novamente e deu um longo suspiro. ‘Prefiro eu mesma abrir o portal, pois assim será mais fácil para que eu controle o tamanho e o feche assim que você passar.’
Sakura franziu a testa. ‘Mas… Como você fará isso?’
‘Não existe apenas uma chave.’ Ela respondeu, fazendo a ruiva arregalar os olhos. ‘Existem algumas chaves espalhadas pelo mundo que são capazes de abrir os portais se forem corretamente utilizadas. Uma destas chaves está comigo. Será ela que utilizarei para abrir a passagem para você.’
Sakura apertou as chaves dela e de Eriol na mão e abaixou a cabeça envergonhada. ‘Eu roubei a chave dele e agora não será necessária.’ Falou, balançando a cabeça de leve.
‘Você não tinha como saber. Este seu amigo deveria parar de temer desenvolver os próprios poderes e lhe explicar as coisas corretamente.’ Anna falou.
Ela conhecia-o do Círculo e sabia que ele tinha poder xamânico, mas tinha um temor enorme do próprio dom. No final, acabou criando uma tremenda confusão na vida daquela garota que agora a fitava aflita.
Sakura estendeu a chave de Eriol para ela. ‘Será que poderia entregá-la para ele por mim, por favor? Com certeza ele virá atrás dela e, depois que descobrir onde eu estarei, talvez…’ Ela virou-se rapidamente para trás fitando Ren. No final, tinha colocado o rapaz em outra confusão. Eriol ficará realmente bem chateado com ela quando souber que confiou em outra pessoa para cuidar das cartas. Bem… Pelo menos Tao seria forte o suficiente para se defender e defender as cartas. Voltou-se para Anna. ‘Talvez ele fique bem chateado.’ Falou por fim.
A loira levantou os olhos para Ren e depois fitou novamente Sakura. ‘Não se preocupe com eles.’ Ela falou. ‘Nem com seu amigo e nem com Ren.’
Sakura concordou com um gesto. Agora já estava tudo feito. Não tinha como voltar atrás.
Anna pegou a chave que a jovem estendia para ela e a guardou. Olhou para o grupo de xamãs que agora estavam quietos olhando para as duas. A loira não pôde deixar de rir das caras deles. Foi até eles dando algumas ordens para que estivessem preparados.
Sakura observou a noite sem lua e reparou que havia muitas estrelas no céu. Levou novamente a mão ao peito, sentindo aquele incômodo terrível. Fechou os olhos e tentou se acalmar. ‘Eu já estou indo, Syaoran…’ Sussurrou.
Respirou fundo e abriu os olhos, observando Anna ainda dando algumas recomendações para o grupo. Logo depois a loira a chamou. Eles abririam o portal no terreno descampado que ficava na frente da pousada.
O grupo todo se deslocou, seguindo Anna que ia a frente. Sakura não pôde deixar de sorrir ao ver aquele monte de marmanjo obedecendo-a como a um general. Apertou um pouco as mãos e mordeu o lábio inferior. Estava nervosa, não podia negar. E também com medo, mas tinha mais medo de não ver Syaoran novamente.
Caminhou devagar atrás do grupo que se dirigia para o local indicado pela loira. Reparou que alguns olhavam para ela de relance e comentavam algo. Pareciam muito próximos. Ren tinha bons amigos, apesar de ter aquela cara emburrada o tempo todo. Pensou que, se ele precisasse de ajuda, caso tivesse algum problema por causa das cartas, eles poderiam ajudá-lo também.
“Vai dar tudo certo.” Sakura ouviu a voz de Khala’a. Parou de caminhar e franziu a testa. Pensando no que estava acontecendo?
“Oras… Agora estou unida a você.” Novamente ela ouviu. Sakura pensou que precisaria de um tempo ainda para se acostumar com a situação e ouviu uma risadinha de Khala’a, ela também pensava a mesma coisa.
‘Vai dar tudo certo.’ Sakura repetiu.
Tinha que acreditar nisto. Observou Anna caminhando até o centro da área descampada. Todos eles estavam tensos, isso ela pôde perceber.
Ren parou ao lado dela. ‘Tome cuidado por lá, Kinomoto.’ Ele recomendou, fazendo-a se virar para ele.
Sakura estendeu a chave dela para que ele a pegasse. ‘É a chave que abre o meu livro.’ Ela explicou.
‘Rosa, claro.’ Ele observou.
‘Eu gosto de rosa.’ Ela rebateu. ‘Com ela você conseguirá romper o selo. Se houver necessidade de achar um novo mestre, a chave vira o báculo.’ Ela explicou. ‘Aquele em que você pisou, achando que eu não conseguiria mais controlar as cartas.’ Ela fez a observação e o viu franzir a testa. ‘Não se preocupe. Kerberus instruirá o novo mestre.’
Ele pegou a chave e a colocou no bolso. ‘Eu realmente espero devolver tudo para você.’
‘Eu também… Mas…’ Ela reteve-se. ‘Eu não sei como vão ser as coisas lá. Se eu não conseguir trazê-lo de volta, permanecerei lá.’ Falou.
‘Humph.’ Ele murmurou enquanto observava Anna se preparar para o ritual. ‘Quando o portal abrir, você o atravessa e deixa o resto com a gente.’ Ela concordou com a cabeça.
Sakura deu um passo à frente e abraçou Ren, que foi pego de surpresa. ‘Obrigada, Tao.’ Agradeceu sinceramente. ‘Por tudo.’
Ele a abraçou. ‘Cuide-se, Kinomoto. Espero ver vocês dois de volta.’ Falou e ela se afastou dele, fitando-o. ‘Mas isso não quer dizer que eu goste dele.’ Concluiu, fazendo-a sorrir de leve.
Os dois voltaram-se para Anna que iniciava o ritual.
‘Okiina Tenshi. Hi to Mizu no seishin. Kuuki to Chikyuu no seishi (Grande espírito. Espíritos do fogo e da água. Espíritos do ar e da terra).’ Anna começou a invocação, segurando o colar de contas que antes estava em seu pescoço para o alto.
Sakura observou a energia circular em torno da jovem e do artefato. Olhou de esguelha para Ren que ainda estava ao seu lado e reparou no semblante sério dele. Estava tenso. Como todos.
‘Oh! Grande Espírito, que criou tudo antes e que reside em cada objeto, em cada pessoa e em todos os lugares, nós acreditamos em Ti. Nós Te invocamos dos mais distantes lugares para nossa presente consciência.’
A energia aumentou em torno do colar de contas conforme a jovem falava.
‘Oh! Grande Espírito do Norte, que dá asas às águas do ar e rola a grossa tempestade de neve antes de Ti. Tu, que cobres a Terra com um brilhante tapete de cristal, principalmente onde a profunda tranquilidade de cada som é maravilhosa. Tempera-nos com a força para permanecermos como parte da nevasca; sim, faça-nos agradecidos pela beleza que flui e se aprofunda sobre a quente Terra em seu despertar.’
Uma parte das contas do colar começou a brilhar intensamente e tudo ao redor de Anna esfriou bruscamente de uma hora para a outra. A grama aos pés dela foi coberta por uma fina camada de gelo.
‘Oh! Grande Espírito do Leste, a Terra do Sol Nascente. Tu que seguras em Tua mão direita os anos de nossas vidas e em Tua mão esquerda as oportunidades de cada dia. Sustenta-nos para que não esqueçamos nossas oportunidades, nem percamos em preguiça as esperanças de cada dia e as esperanças de todos os anos.’
Outra parte das contas do colar começou a brilhar e, agora, o que antes estava gelado começou a derreter pelo calor que substituía o frio anterior.
‘Oh! Grande Espírito do Sul, cujo quente hálito de compaixão derrete o gelo que circunda nossos corações, cuja fragrância fala de distantes dias de primaveras e verões, dissolve nossos medos, transmuta nossas aversões, acenda nosso amor em chamas de verdade e existentes realidades. Ensina-nos que aquele que é forte é também gentil; que aquele que é sábio tempera justiça com piedade; e aquele que é um verdadeiro guerreiro combina coragem com compaixão.’
Uma terceira parte das contas brilhou, e o vento circulou com mais força ao redor da jovem, carregando as folhas que antes estavam caídas no chão.
‘Oh! Grande Espírito do Oeste, a Terra do Sol poente, com Tuas elevadas e livres montanhas, profundas e extensas pradarias, abençoa-nos com a sabedoria da paz que segue a contenção e a liberdade de quem vive como túnica flutuante nas asas da vida bem-disciplinada. Ensina-nos que o fim é melhor que o começo e que o pôr-do-sol não glorifica nada em vão.’
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A última parte das contas do colar se iluminou, completando todas que agora brilhavam intensamente nas mãos dela. Ela rodou o colar em uma das mãos e ele pareceu, subitamente, ter aumentado de tamanho.
‘Oh! Grande Espírito dos Céus, em dias de infinito azul e misturado às infindáveis estrelas da noite de cada estação, lembra-nos o quanto és imenso e bonito e majestoso, além de todo o nosso conhecimento ou saber, mas que também não estás tão longe de nós, quanto o mais alto de nossas cabeças ou o mais baixo de nossos olhos.’
O colar de contas se expandiu de forma absurda e Sakura pôde ver que na parte central dele a imagem começava a ficar mais opaca, como se o colar de contas estivesse delimitando um plano astral diferente daquele em que estavam.
‘Oh! Grande Espírito da Mãe Terra sob nossos pés; Mestra dos metais; Germinadora das sementes e Celeiro de ocultos recursos da Terra, ajuda-nos a dar graças incessantemente pela Tua presente generosidade.’
Do plano delimitado pelo colar, Sakura começou a ver a paisagem de seu pesadelo. Deu um passo à frente e observou os xamãs já todos em posição defensiva. Olhou rapidamente para Ren que, assim como os outros, tinha seu espírito guardião em alerta.
‘Quando ela mandar você atravessar, não pense, Kinomoto. Apenas vá.’ Ela o ouviu orientando.
‘Oh! Grande Espírito de nossas almas, que ardes há tempos em nosso corações e em nossas profundas aspirações, fala-nos agora e sempre de tudo que precisamos saber sobre a grandeza e bondade de Teus presentes para a vida, para sermos orgulhosos do inestimável privilégio de viver.’ Anna abriu os olhos e fitou Sakura. ‘Abra-se agora o portal para que a detentora de parte do vosso poder atravesse até o plano inferior.’
A imagem do mundo das trevas ficou nítida e Sakura viu o céu em chamas e o solo arenoso e estéril. Arregalou os olhos vendo alguns seres se aproximando da abertura criada por Anna.
‘Atravesse agora!’ Anna ordenou.
‘Vá!’ Ren gritou atrás dela.
Sakura correu na direção da abertura. Fechou os olhos e pulou na direção dele, sentindo uma onda avassaladora de calor. O ar era denso e o cheiro de enxofre e outros gases lhe embrulharam o estômago. Abriu os olhos devagar e olhou para trás. A abertura estava fechada e os demônios que estavam por perto também haviam desaparecido. Esperava que Ren e os outros estivessem bem.
Passou a mão na testa, limpando o suor que escorria por ela. Olhou para o horizonte, franzindo a testa ao olhar o céu em chama e a paisagem desértica. Um lugar de merda, com ouvia várias vezes o namorado soltar referindo-se a aquele lugar.
‘Agora… É só achar Syaoran.’ Falou, sabendo que Khala’a estava lhe ouvindo. ‘E tirar ele desse inferno.’
Continua.
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