FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 38

Na teia da Aranha

Syaoran abriu os olhos e observou o sobrado branco a sua frente. Sorriu de forma aberta e caminhou devagar, empurrando o portão de ferro e atravessando o jardim com as flores que Sakura gostava de cuidar junto com Flor. Tocou de leve os dedos nas pétalas enquanto atravessava o jardim e subiu os degraus para alcançar a porta da frente. Empurrou-a devagar e sorriu novamente ao observar os móveis. A mesa da sala estava repleta de livros das faculdades dele e de Sakura.

Caminhou devagar, olhando tudo com atenção. Como teve saudades daquele lugar, passou os olhos pelo sofá onde assistia a filmes com a namorada e, algumas vezes, amavam-se não conseguindo esperar até irem para o quarto.

Olhou para as escadas que levavam até o segundo andar do sobrado. Caminhou até ela e olhou para cima, subindo devagar os degraus. Parou, observando o corredor e reparando em algumas fotos penduradas na parede. Deu alguns passos e ouviu o barulho do chuveiro. Parou em frente a porta do banheiro e a empurrou devagar.

Sorriu, vendo a silhueta da namorada dentro do box. Lembrou-se do primeiro dia em que os dois se amaram. Entrou no banheiro tirando as roupas que tinha no corpo e entrando no box. Sakura se virou para ele com aquele sorriso maravilhoso que o fazia se sentir o homem mais sortudo do mundo.

‘Você demorou.’ Ela falou, sorrindo.

‘Mas agora eu estou aqui.’ Ele falou segurando o corpo dela contra o seu.

Sentiu a água gelada batendo nas suas costas e o corpo quente da feiticeira contra o seu peito. Abaixou o rosto finalmente tomando os lábios que tanto amava. Ela estava linda. Ela era linda. Como estava com saudades dela.

Sentiu Sakura tocando o seu corpo e fechou os olhos, enquanto explorava o corpo tão amado. Gemeu baixinho quando sentiu os lábios molhados na namorada beijando seu pescoço e seu rosto.

Segurou a cintura dela, levantando-a e sentiu as pernas envolverem seu corpo. Abriu os olhos, fitando os olhos esmeralda que tanto amava. Ela sorriu para ele novamente. Syaoran sorriu de volta. Estava quase em casa. Ele desviou os olhos dela por alguns segundos, fitando um ponto além do box onde estavam prontos para se amarem novamente.

Franziu a testa, reparando numa mariposa que estava pousada em cima do espelho do banheiro. Fechou os olhos, ainda sentindo o corpo de Sakura colado ao seu e pronto para novamente se unir ao dele.

‘Inferno.’ Ele sussurrou, irritado.

Syaoran estendeu o braço na direção do inseto e segurou um pulso com força esmagadora. Abriu os olhos e encarou Midoriko a sua frente.

‘O que pensa que está fazendo?’ Ele perguntou, encarando-a com raiva.

Ela o encarava assustada. Ele estava dormindo, como pôde acordar do nada?

‘Nada!’ Ela respondeu, puxando o pulso e tentando soltar-se. Gemeu de dor quando ele apertou com mais força.

‘Pensa que eu sou idiota? Você acha que pode entrar na minha cabeça desta maneira?!’

‘Eu… Eu não fiz nada disso! Só vim acordá-lo para seguirmos viagem.’ Ela ainda falou.

‘Nunca… Nunca mais faça isso! Entendeu?’ Ele disse por entre os dentes, vendo-a assentir com a cabeça. ‘Se tentar isso novamente, eu a mato.’

Syaoran a empurrou longe. Levantou-se, ainda olhando para Midoriko que permanecia no chão com a mão no pulso que, por muito pouco, ele não quebrou. Inferno. Nem mesmo em sonhos ele poderia ter um pouco de paz naquela merda de lugar.

Colocou a mão no ombro que já estava quase cicatrizado. Tinha uma vontade enorme de matar aquele demônio. Ele estava com Sakura, tinha voltado, mesmo que de forma ilusória, para casa e aquele demônio se achou no direito de entrar na sua cabeça e atrapalhar tudo. Cerrou os punhos, realmente controlando a vontade de matá-la.

‘Hei, Garoto!’ Arthas o chamou, aproximando-se dos dois. Olhou Syaoran, que tinha o rosto raivoso, e depois para Midoriko. Suspirou, já deduzindo o que tinha acontecido. ‘Você acordou.’ Falou para tentar desviar a atenção de Li para si.

‘Fui acordado.’ Ele falou, desviando os olhos de Midoriko. ‘Vamos para a próxima brecha. Chega de descansar.’

Arthas observou o rapaz se afastando para falar com Tadmoth e perguntar onde estava a próxima maldita brecha.

Midoriko respirou aliviada com o afastamento dele, levantou-se e já estava caminhando até os dois quando Arthas segurou o ombro dela.

‘Você realmente quer morrer, não é?’

Midoriko o olhou com desprezo. ‘Isso não lhe interessa.’

‘Interessa, desde que você atrapalhe. Ele precisava descansar para não explodir e o que você faz? Entra na cabeça dele... Ele agora não vai mais querer descansar e quem vai, no final, aguentar o tranco serei eu.’ Falou irritado.

Ela empurrou a mão dele, afastando-a. ‘Ele é um idiota. Sonha só com aquela humana. Não vi nada demais.’

‘Idiota? Ele não caiu no seu feitiço. Acha que pode com ele, Midoriko? Quem está sendo idiota aqui é você.’

Ela se afastou de Arthas sem responder. Estava tão irritada por ter sido descoberta quanto Li por tê-la flagrado. Se continuasse assim, não teria como conseguir nem o apoio dele, nem como achar um método de manipulá-lo. Como ele tinha conseguido detectá-la no seu sonho? Como? Isso nunca tinha acontecido antes.

Observou Tadmoth explicando para Li onde estaria a próxima brecha. Li ainda tinha a mão no ombro, indicando que ainda sentia dores. Ele tinha tudo para continuar dormindo e sonhando. Estava com a maldita humana, prestes a possuí-la. Não fazia sentido ele descobrir que estava sendo observado. Soltou um palavrão irritada, e acabou chamando a atenção dos dois. Li lhe lançou outro olhar mortal. Tinha certeza que ele se controlara muito para não matá-la e agora ficaria na defensiva ainda mais.

Arthas passou por ela, também a olhando atravessado e parou perto de Li que desviou os olhos de Midoriko para encarar o grandão.

‘A próxima brecha é depois do Vale das Cinzas.’ Tadmoth falou. ‘Acho que não é tão longe, só temos que descer a montanha. O guardião dela é um demônio fêmea.’ O guerreiro falou e suspirou. ‘Ela é perigosa. Muito.’

‘Todas as fêmeas são.’ Arthas emendou.

‘Humph.’ Li murmurou; baixou o braço que segurava seu ombro e estalou o pescoço. 'Vamos logo.'

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Sakura caminhava devagar pelo deserto. Olhava em volta e não via nada. Simplesmente nada. Olhou para cima onde o céu em chamas fazia com que o ar ficasse mais pesado, quente. Passou a mão pela testa e pelos cabelos prendendo-os no alto da cabeça.

‘Agora entendo porque ele gostava tanto daqueles banhos gelados.’ Murmurou. Aquele calor insuportável era irritante demais.

Parou novamente e deu uma volta em torno de si mesma olhando o horizonte. Tentou se concentrar novamente tentando localizar a presença de Syaoran, mas não conseguia. Ele deveria estar longe, mas o quão longe? Para que direção deveria seguir?

“Calma.” Ela ouviu a voz de Khala’a. “Se eu não me engano, estamos no Vale Devastado.”

Sakura respirou fundo. ‘É estranho demais ouvir você dentro da minha cabeça.’ Ela falou e ouviu Khala’a rir.

“Deve ser mesmo. Tenho uma ideia.” Sakura ouviu novamente e, depois de alguns segundos, apareceu ao seu lado a imagem de uma mulher com longos cabelos ondulados, vestida com uma armadura onde no peito havia o desenho de um coração alado. Na cabeça havia um elmo com asas pequenas nas laterais e uma estrela na frente.

‘Quem é você?’ A jovem feiticeira perguntou assustada.

Khala’a riu mais alto. ‘Oras, sou eu!’

Sakura franziu a testa. ‘Não… Você não era assim.’

‘Antes da incorporação eu sofri uma evolução que resultou no crescimento do meu potencial.’ Khala’a explicou. ‘Como o que nos une é algo que você criou a partir dos seus sentimentos pelo mestre e, naturalmente, estes sentimentos amadureceram, isso se refletiu em mim.’

Sakura sorriu de leve. ‘Você está mais parecida com a minha mãe.’ Ela falou, observando a imagem da mulher de olhos verdes.

Khala’a meneou a cabeça. ‘Talvez você, inconscientemente, acabou fazendo isso. Sente-se mal?’

A ruiva balançou a cabeça negando. ‘Não. Muito pelo contrário.’ Ela abriu um sorriso. ‘Fico feliz que agora posso vê-la’

‘Eu ainda estou dentro de você. Não posso me desconectar de você, apenas usei algo parecido com Ilusão para que você tenha a impressão de que estou ao seu lado.’

‘Funcionou. Sinto-me bem melhor. E menos sozinha.’ Falou com sinceridade e desviou os olhos dela para fitar o horizonte. ‘Não consigo localizar a presença de Syaoran.’

‘A presença dele pode ter mudado.’ Khala’a ponderou.

‘Não. Eu a reconheceria de qualquer maneira.’ Ela foi firme. ‘Não há viva alma aqui. Ninguém para quem a gente possa perguntar e obter informações.’

Khala’a riu novamente. ‘Mestra, isso aqui não é um deserto. É o Mundo das Trevas. Não pode encontrar um posto de informações.’

‘Eu sei que isso não existe…’ Falou, rolando os olhos. ‘Mas não há nada que a gente possa usar para se localizar?’

Khala’a olhou ao redor. ‘O mestre veio com a missão de destruir as brechas que não foram destruídas pelo guardião anterior, então…’

‘Hei, hei, hei…’ Sakura a interrompeu. ‘Que história é esta? Que guardião anterior?’

Khala’a suspirou. ‘Isso é uma longa história. Posso lhe contar enquanto caminhamos. Estou tentando lembrar onde ficava mesmo a brecha próxima ao Vale Devastado…’ Ela falou colocando uma mão no queixo. ‘Hum… Acho que seria no Vale das Cinzas. É o território de Kalista.’

‘Kalista?’

Khala’a abaixou os olhos. ‘É uma conhecida minha. Nós… Nos encontramos algumas vezes.’

‘Ah, então é sua amiga!’

Khala’a riu novamente. ‘Aqui não existe amigos, Mestra. Você tem que entender isso. Você só pode contar com você mesma. Aqui é a lei do mais forte. Não há meio termo.’

A ruiva desviou os olhos dela. ‘Então, se não é sua amiga, é o quê? Inimiga?’

‘Lutamos algumas vezes. É um demônio muito ardiloso. Eu a detestava.’

‘Vocês só brigam aqui?’

‘Mais ou menos… Ninguém está aqui porque quer ou de férias.’

‘Eu sei… Mas, enfim… Deve ser muito ruim então.’ Ela falou e olhou em volta. ‘É como viver sempre em alerta.’

‘Exatamente isso. É um inferno. Não é à toa que as almas que merecem ser punidas vêm para cá.’

‘Entendo.’ Sakura murmurou.

Khala’a a olhou de esguelha. ‘Não se sinta mal. Realmente é muito difícil de entender a dinâmica desse lugar. Vamos caminhando para aquela direção.’ Ela apontou para a direita e começou a caminhar seguida por Sakura. ‘Aqui prevalece só uma lei: que é a do mais forte. Mas lembre-se que força não é sinônimo apenas de força física, apesar disso ser importante também. Aqui precisa ser astuto para sobreviver.’

‘Certo.’

‘A maioria são demônios masculinos. Os femininos são poucos, mas são mais competitivos e, por vezes, mais violentos que os masculinos. Além de terem pequenas doses de crueldade.’

‘Essa tal de Kalista é assim?’

Khala’a confirmou com a cabeça. ‘Espero que cheguemos nela antes do mestre.’ Falou com sinceridade. ‘Alguns demônios vivem sozinhos, outros procuram se associar a um mais forte e outros ainda formam numerosos grupos.’

‘Assim como era você e todas as outras?’

Khala’a assentiu com a cabeça. ‘Éramos um grupo. Eu nasci demônio, fui criada aqui. Não era a mais forte, por isso tive que aprender a sobreviver.’

‘Como assim? Você era a líder, era a mais forte. É a mais forte. Foi muito difícil capturá-la.’

‘Eu adquiri força conforme fui derrotando cada uma delas. Como eu lhe falei, nem sempre a força física é que vence um confronto. Como a derrota, consequentemente, seria a morte delas, eu fiz uma troca.’

‘Troca?’

‘Um acordo.’

‘Que tipo de acordo?’

‘Eu bebia um pouco do sangue delas e, com isso, adquiria os poderes delas. É o mesmo princípio do que os humanos chamam de vampirismo. O Mestre adquiriu o poder de cicatrização desta maneira.’

‘Syaoran bebeu sangue?’ Sakura perguntou, arregalando os olhos.

Khala’a olhou para ela com o semblante sério. ‘Isso aqui não é filme, Sakura!’ Falou de maneira ríspida, chamando-a pelo nome. ‘Aqui você mata ou morre, entendeu? E, se você morrer, deixa de existir. Não o julgue.’

‘Não o estou julgando!’ Sakura falou rapidamente. ‘Estou apenas… Fiquei surpresa…’ Ela fitou o chão enquanto caminhava. ‘Ele deve ter sofrido muito aqui.’

‘Sim. Não tenha dúvidas quanto a isso.’ Falou. ‘Admira-me ele não ter enlouquecido. O caráter dele é forte. Assim como espero que seja o seu, por isso estou aqui com você.’ Ela suspirou de forma pesada. ‘Talvez… Talvez Clow tenha certa razão em deduzir que vocês são almas gêmeas.’ Falou, nitidamente contrariada.

Sakura levantou o rosto, observando-a caminhar ao seu lado. Sorriu de leve. ‘Obrigada. Sei que não queria voltar para cá.’ Sakura olhou em volta. ‘E estou começando a entender o porquê.’

‘É meu dever. Não permitiria que viesse sozinha e nenhuma das outras conseguiria efetivamente ajudar você e o mestre a finalizar a missão. Isso precisa ser feito para ele poder ir embora deste inferno.’

‘Você fala em missão, você já sabia disso?’ Sakura perguntou.

‘De tempos em tempos, aqui no Mundo das Trevas, acontece um evento. Por motivos que eu realmente não sei explicar, algumas brechas fixas surgem. Um guardião vindo de um dos universos é designado a vir para cá para destruí-las. Enquanto, ele não consegue isso, alguns demônios podem até passar por elas para alguns dos universos. Os guardiões devem estar preparados, os pilares também. Acho que em alguns universos o pessoal chama de Eras Negras, pestes, sei lá… As religiões estão aí para dar nome a todas essas coisas que o ser humano não consegue explicar. Pelo que conversei com o Mestre, ele disse que as brechas fixas estavam sendo guardadas por demônios superiores, o que é estranho, pois elas não deveriam existir mais. Eu realmente não sei o que aconteceu. Quando aquele amigo maluco de Clow abriu o portal, eu e meu grupo estávamos por perto e tentamos impedir. Eu não tenho nada contra o Guardião… Acho que ele faz o trabalho dele e pronto. Não ajudo, mas também não atrapalho. Não gosto de covardia. Demônios que atacam os seres humanos de forma covarde não possuem honra.’ Falou erguendo o corpo. ‘Estávamos lá para intervir na entrada ou na saída daquela brecha, que eu sabia ter sido aberta de forma indevida, mas aí Clow a fechou e acabamos presas no universo de vocês.’ Ela soltou um longo suspiro. ‘E aí… Bem, você já sabe a história que ele lhe contou.’

‘Você não tentou explicar isso para ele?’

‘Clow tinha tanto medo que não queria ouvir nada.’ Ela falou com a voz ressentida. ‘Era mais fácil para ele simplesmente nos lacrar em cartas e assim ele o fez.’

‘Ele devia estar assustado.’

‘Então não deveria se meter em coisas que não sabe se pode controlar.’ Rebateu, ríspida.

Sakura a olhou novamente pelo canto dos olhos. Ela realmente não gostava de Clow.

‘Exatamente. Eu realmente não gosto dele.’ Khala’a falou e a viu arregalando os olhos. Sorriu. ‘Nós estamos ligadas. Esta conversa está acontecendo na sua cabeça. Não precisa ser gentil comigo… Eu sei o que realmente você sente e você sabe o que eu realmente sinto.’

Sakura olhou para frente. ‘Então você sabe que também tive problemas com Clow.’

‘Quem não teve problemas com Clow?’ Perguntou de forma irônica.

‘Clow foi uma pessoa muito infeliz, nunca soube o que realmente são sentimentos. No fundo, tenho muita pena dele.’

‘Eu não concordo. Ele é arrogante e soberbo.’ Ela discordou e riu. ‘Você é boazinha demais. Vai precisar mudar isso se quiser sobreviver aqui.’

‘Syaoran era arrogante e soberbo.’ Sakura a lembrou. ‘E ele mudou.’

‘Não compare o mestre a Clow!’

‘Por quê?’ Sakura a indagou.

‘Porque… Porque são pessoas completamente diferentes. O mestre tem bom caráter, Clow não tem. É covarde.’

Sakura olhou para ela novamente, pensou que ela tinha realmente muita mágoa.

‘Tenho mesmo.’ Confirmou.

‘Isso é difícil demais para mim.’ Sakura falou, estranhando ter ao seu lado uma pessoa que soubesse tudo de si, tudo que estivesse pensando.

‘Desculpe-me, mas na incorporação é assim que as coisas acontecem.’

Sakura confirmou com a cabeça. ‘A gente vai se entender.’

Khala’a sorriu para ela. ‘Sim.’

Caminharam por mais algum tempo, Khala’a mostrava para ela alguns detalhes, informando os nomes e tentando colocá-la a par da organização e geografia do mundo das trevas.

Sakura olhava para o horizonte quando avistou um grupo de vultos vindo no sentido contrário.

‘Lembre-se…’ Khala’a a alertou. ‘Aqui todos são seres das trevas.’ Sakura concordou com um gesto.

Ela parou de caminhar e Khala’a desapareceu do seu lado. O grupo de seres caminhava devagar, olhando com curiosidade para a jovem feiticeira que estava sozinha. Eram cinco ao todo.

‘Ora, o que temos aqui?’ Um deles falou, olhando para Sakura de cima para baixo. ‘Uma humana perdida sozinha.’

A ruiva franziu a testa, olhando para ele, todos eram grandes, pareciam bárbaros ou algo similar. Cerrou os punhos, pensando em como poderia agir de maneira mais eficaz para se livrar deles e continuar seu caminho. Estava um pouco nervosa, pois não sabia exatamente qual seria o alcance de seus poderes sem a presença das cartas.

“É o mesmo! Você tem o poder de todas as cartas.” Ouviu a voz de Khala’a e sorriu de lado.

‘E a belezinha ainda sorri…’ Um falou, aproximando-se dela e levantando o braço para tocá-la.

Sakura deu um passo para trás, afastando-se e batendo na mão dele.

O homem olhou para ela com raiva e tentou agarrá-la pelos cabelos, mas ela se abaixou e chutou com força as pernas dele, fazendo-o cair no chão sentado.

Sakura reconheceu os poderes de Força e Luta. Então ela também teria…

‘Espada.’ Sussurrou e a espada se formou na mão direita da Feiticeira.

Sakura não soube exatamente o que aconteceu com ela. Não sabia se era por estar naquele lugar e, por isso, sentia-se amedrontada ou se era por influência de Khala’a, que agora estava incorporada a ela, mas sentia um formigamento pelo corpo e aquela ansiedade que tinha quando lutava contra os seres das trevas pelas ruas de Tomoeda protegendo as pessoas.

Ficou em posição de luta, esperando um dos bárbaros se aproximar correndo com uma pesada espada em punho, tentando golpeá-la de forma violenta. Sakura saltou por cima dele, desviando de todas as estocadas.

‘Fogo!’ Gritou e a bola de fogo se formou em sua mão esquerda e foi arremessada sobre ele, transformando-o em pó.

Um outro tentou segurá-la por trás, mas ela se abaixou fazendo o homem se abraçar; deu uma cambalhota para frente e levantou-se já se protegendo com a espada de um ataque de machado de um dos bárbaros. ‘Vento!’ Solicitou e a rajada de vento circulou o corpo do homem, levantando-o de jogando-o longe.

A jovem feiticeira sorriu, sentindo a energia circular de forma rápida e poderosa pelo seu corpo. Correu em direção a um terceiro, saltando à frente dele passando por cima e, antes mesmo de encostar no chão, golpeando-o com a espada. Girou o corpo e acertou um chute em outro que deu alguns passos para trás. ‘Bosque.’ Falou e galhos espinhosos saíram do solo seco e árido, envolvendo e aprisionando o oponente. Ela semicerrou os olhos nele e, não soube bem o porquê, mas simplesmente falou. ‘Aperte.’ Ordenou assim que os galhos envolveram todo o corpo do bárbaro que gritou até se transformar em pó.

Ela virou-se para trás onde os dois restantes a olhavam assustados. Sakura deu um passo à frente e arregalou os olhos, vendo-os sair correndo afastando-se dela. Não teve como não rir da situação. Coçou a cabeça ainda observando-os se afastar.

“Covardes.” Ouviu Khala’a.

‘Só tinham tamanho mesmo.’ Sakura comentou.

Ela franziu a testa e levantou a mão a frente, o arco se formou, puxou e a flecha de luz que apareceu, mirou e atirou. A flecha cortou o ar e se duplicou acertando os dois demônios de forma certeira, deixando em seu lugar apenas uma nuvem de pó.

Relaxou os ombros e respirou fundo. ‘Estávamos indo para aquela direção, não?’ Falou apontando.

“Isso.”

‘Vamos lá, então.’ Sakura falou, voltando a caminhar.

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A hundred days have made me older

(Cem dias me fizeram mais velho)

Since the last time that I saw your pretty face

(Desde a última vez que eu vi seu lindo rosto)

Syaoran caminhava ao lado de Arthas. Tadmoth seguia a frente com Midoriko. O Vale das Cinzas era exatamente isso, cinzas. Uma merda como tudo naquele lugar, Li pensou olhando desanimado para frente. Olhou para o chão formado de algo que parecia fuligem. O cheiro era de queimado, mas também ele nem ligava mais. Ali só tinha fedor.

A thousand lies have made me colder

(Milhares de mentiras me fizeram mais frio)

And I don't think I can look at this the same

(E eu não sei se eu posso ver isso da mesma maneira)

Levantou o rosto e viu Arthas, caminhando com o semblante sério e pose imponente. Respirou fundo e voltou a olhar para frente, observando as costas de Tadmoth e Midoriko. Estava cercado de demônios. Ele próprio era um agora. Enfrentariam outro daqui a pouco. Provavelmente ele, sozinho, apanharia. Provavelmente, sairia bem machucado, como sempre ficou desde que tinha onze anos.

Arthas destruiria a brecha, novamente, antes que ele pudesse ver Sakura e eles partiriam para destruir outra. Ele teria o tempo da maldita viagem para sentir o corpo todo arder enquanto as feridas cicatrizavam. Aí, novamente, enfrentaria outro demônio, ficaria todo arrebentado e a mesma coisa aconteceria.

Sorriu de forma triste. Era sempre assim, não? Foi assim quando voltou para Hong Kong e apanhou dos anciões. Foi assim depois, durante o treinamento que fora obrigado a fazer e ele sabia ser o mais cobrado. Era o mais responsável. Tinha que ser o mais forte. Para quê, mesmo?

But all the miles that separate us

(Mas toda distância que nos separam)

They disappear now when I'm dreaming of your face

(Desaparece quando eu sonho com o seu rosto)

Para voltar para Sakura. A resposta veio rápida. Sim, para voltar para a jovem feiticeira. Para protegê-la. Era sua missão não era? E mesmo que não fosse, ele faria de tudo para protegê-la, mesmo que ela não precisasse ser protegida. E viveria, sei lá, três ou quatro meses de felicidade, até algum maluco tentar matá-la e ele ter falhado em protegê-la. Ou mais alguns poucos meses até ele ser obrigado a voltar para aquele lugar de merda e ficar ali se arrastando de um lado para o outro, apanhando como um saco de pancadas e matando.

I'm here without you, baby

(Eu estou aqui sem você, baby)

But you're still on my lonely mind

(Mas você ainda está em minha mente solitária)

I think about you baby

(Eu penso em você, baby)

And I dream about you all the time

(E eu sonho com você o tempo todo)

I'm here without you, baby

(Eu estou aqui sem você, baby)

But you're still with me in my dreams

(Mas você ainda está comigo em meus sonhos)

And tonight, it's only you and me

(E hoje à noite, somos só você e eu)

Respirou fundo e passou a mão pelos cabelos. Teria que matar mais quantas criaturas? O inferno inteiro? E, depois que voltasse para casa, teria mais quanto tempo de felicidade até, novamente, voltar para o início do seu ciclo eterno de infelicidade e dor. Teria que se separar de Sakura, mais uma vez, e ficar com a imagem dela chorando gravada em sua mente porque ele tinha que resolver as coisas, era o dever dele. Pensou no que Sakura poderia estar fazendo agora. Talvez indo para a faculdade. Talvez algum outro rapaz normal a estivesse convidando para ir ao cinema, fazer um programa normal de namorados. Algo que eles mal conseguiram fazer, pois se enfiaram numa brecha que os levou para um outro universo. Nunca seriam normais.

The miles just keep rolling

(A distância continua aumentando)

As the people leave their way to say hello

(Enquanto as pessoas saem de seu caminho para dizer “Olá”)

I've heard this life is overrated

(Eu ouvi que essa vida é super valorizada)

But I hope that it

(Mas eu espero)

Gets better as we go

(que ela melhore enquanto nós a vivemos)

Ele não poderia nem casar com ela e lhe dar seu sobrenome porque, teoricamente, ele estava morto. Então ela já era viúva. Balançou a cabeça. Seria justo levá-la para aquele poço sem fim?

Talvez, se ele realmente não tivesse voltado para o Japão, ela poderia ainda estar namorando aquele idiota do Makoto. Ele poderia pedi-la em casamento, constituiriam uma família e seriam felizes e normais. E ele? Ele não sabia nem se poderia ter filhos com ela porque era um demônio.

Chutou uma pedra no chão. Então, talvez, se ele conseguisse, depois de passar por tudo aquilo, voltar como humano poderiam ter uma família. Ela o teria esperado, como sempre o esperou. Sorriu de leve, pensando que, no fundo, ela tinha se guardado para ele. Tinha esperado-o voltar e para quê? Ele a teve, ele a fez mulher e agora só ficava longe dela. Será que valia a pena? Por quanto tempo eles teriam paz até aparecer outro maluco ou ele ser obrigado, novamente, a se afastar dela.

I'm here without you, baby

(Eu estou aqui sem você, baby)

But you're still on my lonely mind

(Mas você ainda está em minha mente solitária)

I think about you, baby

(Eu penso em você, baby)

And I dream about you all the time

(E eu sonho com você o tempo todo)

I'm here without you, baby

(Eu estou aqui sem você, baby)

But you're still with me in my dreams

(Mas você ainda está comigo em meus sonhos)

And tonight, girl, it's only you and me

(E hoje à noite menina, somos só você e eu)

E se eles tivessem filhos, será que os filhos, no final, não teriam a mesma sina dele? Aquele eterno ciclo de violência que ele era obrigado a viver.

‘Está tudo bem, Garoto?’ Arthas perguntou, chamando a atenção dele.

‘Tudo.’ Respondeu ainda com a cabeça baixa.

‘O ombro ainda está doendo?’ Perguntou novamente preocupado.

‘Não faz diferença, chegando lá eu vou apanhar de qualquer maneira.’ Respondeu.

Arthas franziu a testa, sabendo que não estava nada bem. ‘Você é forte. Conseguirá vencer.’

‘É, acho que sim… Aí iremos para outra brecha, não é?’ Ele falou.

‘Isso.’ Arthas respondeu. ‘Se puder a gente vai direto ou, se preferir, você descansa.’

‘Para entrarem na minha cabeça de novo?’ Ele retrucou. ‘Acho que não vale a pena.’

‘O que não vale a pena? Descansar? Eu fico de olho na Midoriko.’

‘Não. Acho que, no fim, nada vale a pena.’

‘Hei! O que está acontecendo com você?’ Arthas perguntou assustado, parando de caminhar e segurando o braço dele.

Li empurrou o braço dele e continuou caminhando. ‘Não está acontecendo nada.’

‘Ali!’ Tadmoth falou, apontando para uma construção em estilo gótico. ‘A brecha está ali, com certeza.’

Syaoran levantou o rosto e fitou a construção, não tinha nem percebido que estavam tão próximos assim. Não conseguia sentir a presença da brecha. Talvez, depois que perdeu o controle, tivesse virado mesmo um demônio e o que o ligava a sua humanidade desapareceu. Respirou fundo, soltando o ar vagarosamente pela boca.

‘É acho que é isso aí.’ Falou sem muita emoção. ‘Se eu sobreviver, você entra para destruir a brecha, Arthas.’

‘Claro que você vai!’ O grandão retrucou.

‘Vamos ver até quando.’ Respondeu de volta e começou a caminhar, seguido por Midoriko e Tadmoth.

‘Hei, Garoto, está tudo bem?’ Tadmoth perguntou, olhando para Li.

O rapaz levantou o rosto. ‘Acho que está. Talvez. Depende de quão arrebentado eu vou sair, não?’

Tadmoth e Midoriko se entreolharam apreensivos. Syaoran olhou para cima vendo as colunas altas da construção e os arcos góticos e pensou que parecia até uma igreja. Uma igreja no inferno? Que ironia.

Everything I know, and anywhere I go

(Tudo que eu sei, e em qualquer lugar que eu vou)

It gets hard, but it won't take away my love

(É difícil, mas isso não vai tirar o meu amor)

Os passos estavam mais arrastados do que ele normalmente andava naquele maldito lugar. Mas, também, por que ele teria pressa? Ninguém tem pressa de sofrer, não é? Ele devia ser mesmo maluco. Olhou para uma das mãos e pensou que talvez tivesse que matar mais. Talvez quisesse matar mais. No fundo, começava a querer simplesmente morrer e acabar com tudo aquilo de uma vez.

Ele já tinha morrido. Sakura sofreu a beça. Ela deveria estar sofrendo agora também, então qual seria a diferença dele estar morto e estar naquele inferno apanhando? Será que voltaria mesmo? Talvez, se ele não voltasse, ela pudesse esquecê-lo com o tempo. A aura dela já estava mais forte, ela saberia se equilibrar novamente. Talvez, fosse o melhor para ela também se ele desaparecesse.

And when the last one falls, when it's all said and done

(E quando o último cair, quando tudo isso estiver dito e feito)

It gets hard, but it won't take away my love

(É difícil, mas isso não vai tirar o meu amor)

Olhou para frente e viu a luz multicolorida da brecha. Sorriu de leve, pensando que era parecida com a da namorada, mas não era ela.

‘Onde ela está?’ Ouviu Tadmoth perguntar enquanto tirava a espada das costas e a posicionava a frente do corpo. Estava em alerta.

Li olhou para ele e deu de ombros. ‘Vai saber.’ Respondeu e recebeu um olhar assustado do guerreiro.

‘Hei, Garoto! Você enlouqueceu?’

Syaoran não falou nada, caminhou devagar em direção a brecha e olhou para ela. Desviou os olhos para os lados, não sentia a presença de ninguém. ‘Acho que não está aqui.’ Comentou.

‘Pare de ser idiota!’ Midoriko falou para ele. ‘É claro que ela está aqui. Fique alerta.’

Ele olhou para cima e depois para os lados. ‘É… lá vem ela…’ Falou, fazendo um gesto com a cabeça para cima.

Os dois levantaram os olhos e observaram o demônio metade aranha, metade mulher descendo pelos fios da teia que produzia. Tadmoth e Midoriko entraram em posição de defesa. Olharam para Syaoran que rodou os olhos e suspirou profundamente, materializando sua espada na mão direita.

Ele arrastou a perna esquerda para trás e segurou o cabo da arma com as duas mãos. Estava pronto para mais uma sessão corriqueira da sua vida, onde lutaria até mal conseguir ficar de pé.

I'm here without you, baby

(Eu estou aqui sem você, baby)

But you're still on my lonely mind

(Mas você ainda está em minha mente solitária)

I think about you, baby

(Eu penso em você, baby)

And I dream about you all the time

(E eu sonho com você o tempo todo)

I'm here without you, baby

(Eu estou aqui sem você, baby)

But you're still with me in my dreams

(Mas você ainda está comigo em meus sonhos)

And tonight, girl, it's only you and me

(E hoje à noite menina, somos só você e eu)

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Sakura observou a construção gótica a sua frente. Parou de caminhar, olhando para ela e franzindo a testa. Levou uma das mãos ao peito e abaixou o rosto. Tinha alguma coisa errada.

‘Não precisa ficar com medo.’ Ouviu Khala’a falar ao seu lado.

Ela não respondeu, ainda olhando para a construção. Olhou para o chão onde via as pegadas na fuligem. Eram quatro, ela contou. Uma estava arrastando os pés.

‘Syaoran…’ Ela sussurrou e levantou o rosto.

Ainda não sentia a presença dele, mas tinha certeza que ele estava lá dentro e sabia que tinha alguma coisa muito errada. Começou a correr em direção à construção enquanto sentia aquele peso enorme dentro do peito. Viu quando alguns espectros tentaram envolvê-la.

‘O que é isso?’ Sakura perguntou enquanto corria e tentava desviar deles.

“É a influência de Kalista!” Khala’a falava. “O poder dela é de letargia, apatia. Ela torna tudo mais pesado, lento, escuro… Principalmente, os pensamentos.”

‘Como assim, Khala’a?’ Sakura perguntou, mas não conseguiu esperar a resposta. ‘Escudo!’ Ela gritou, sabendo que a energia os afastaria. ‘Corrida!’ Solicitou outro poder para que fosse mais rápido.

“Pensamentos depressivos”. Khala’a foi mais específica.

Sakura parou em frente à construção e teve certeza, sentia a presença de Syaoran. ‘Ele está aqui dentro.’ Falou em tom de urgência.

‘Hei, Garota!’ Ela ouviu chamarem-na e virou para o lado, vendo um monstro grandalhão olhar para ela assustado. Ele se aproximou e ela estendeu a mão a frente.

‘Vento!’ Invocou a magia, acertando o grandão que foi arremessado longe.

Voltou a correr o mais rápido que Corrida lhe permitia, seguindo a presença de Syaoran dentro daquela construção. Atravessou um grande portal gótico e viu a luz da brecha multicolorida, mas seus olhos estavam no corpo que o grande demônio, metade aranha metade mulher, estava pronto para abocanhar.

‘Syaoran!’ Ela gritou. ‘Disparo!’

Os feixes de energia saíram do corpo de Sakura, atingindo o demônio feminino e fazendo-o soltar o rapaz que caiu no chão com tudo. Estava todo machucado. Sakura deu um passo à frente, mas reteve-se ouvindo Khala’a adverti-la que não poderia se aproximar ou seria atingida pela aura negra do demônio.

Seus olhos desceram até Syaoran que tentava se levantar e olhava para ela com o rosto assustado.

Kalista avançou sobre dela. ‘Salto!’ Sakura pulou, desviando das investidas da criatura enquanto tentava se manter distante.

‘Trovão!’ A descarga elétrica atingiu a aranha gigante que uivou de dor, mas aquilo ainda não tinha sido o suficiente para detê-la. Sakura tentou novamente saltar para se manter afastada, mas o monstro lançou uma teia que agarrou um dos pés da feiticeira e a puxou, fazendo-a cair. Atingiria o chão com tudo se não tivesse usado Vento para amortecer a queda. O monstro já estava começando a tecer a teia para enrolá-la.

‘Névoa’. Chamou, fazendo com que a teia se deteriorasse, libertando sua perna novamente. Levantou-se e correu, afastando-se do monstro que, com suas patas, corria atrás dela, enlouquecida. Parou, de repente, voltando-se para trás. ‘Escudo!’

O animal bateu com tudo no escudo, chegando a ficar tonto.

‘Flecha!’ Sakura não deu trégua, puxou a arma mágica e disparou; a flecha se multiplicou, atingindo a criatura que, mesmo machucada, ainda se levantou para avançar em direção a ela.

‘Mas que droga! Como eu vou matar essa aranha gigante?!’ Sakura soltou irritada. Arregalou os olhos. ‘Grande!’

Viu seu corpo crescer e aumentar de tamanho. Sua cabeça bateu no teto e destruiu parte dele. ‘Escudo.’ Solicitou para circular o corpo de Li que ainda estava sentado no chão, observando o que estava acontecendo ali. Syaoran não sabia se era real ou não que a namorada estivesse ali.

Sakura franziu a testa, olhando para a criatura que agora se tornara, proporcionalmente, bem pequena. Não teve pena; antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, levantou a perna e pisou nela, esmagando-a e transformando-a em pó.

‘Bicho nojento!’ Soltou enquanto sentia seu corpo diminuindo de tamanho até ficar no tamanho normal. Olhou para onde tinha visto Syaoran e o fitou com um sorriso enquanto o rapaz ainda olhava confuso para o que estava acontecendo.

Ele se levantou com a mão no abdômen, onde tinha um grande machucado, sem desviar os olhos dela.

‘Sakura?’ Ele perguntou incerto, dando um passo à frente.

‘Eu não disse que acharia um jeito de estar ao seu lado?’ Ela perguntou para ele, que balançou a cabeça, parecendo ainda não acreditar que a namorada estivesse ali.

‘Não… isso é alucinação.’ Ele falou irritado, balançando a cabeça e desviando os olhos dela. Já tinham entrado tanto na cabeça dele que, simplesmente, não conseguia acreditar que ela estava ali na sua frente.

Sakura caminhou até ele e tocou no ombro do namorado que voltou a encará-la. Ela o abraçou pela cintura, apertando o rosto contra o peito dele.

Foi então que ele conseguiu sentir novamente a aura dela se misturar com a dele. Ele soltou finalmente o ar, pois tinha a respiração presa talvez pela surpresa ou pelo pânico em ver a namorada ali.

Fechou os olhos e, mesmo que não quisesse, sorriu abraçando-a e encostando seu queixo no topo da cabeça dela. Podia sentir novamente o perfume de cerejeiras que emanava dos cabelos dela.

‘Acho que morri.’ Soltou, apertando-a contra o corpo.

‘Não, mas foi por pouco.’ Ela falou, seriamente. ‘Ainda bem que eu cheguei a tempo.’

Syaoran riu. ‘O que você está fazendo aqui?’

Sakura se afastou e fitou o namorado. ‘Você tinha concordado que eu poderia vir se descobrisse um jeito de sobreviver, não?’

Ele levantou o braço e passou a mão pelo rosto dela, talvez ainda não acreditando que ela estava ali na frente dele. Ela fechou os olhos sentindo o toque dele, como tivera saudades dele. Syaoran abaixou o rosto e sentiu a textura macia dos lábios dela novamente. Não acreditou que era real. Não podia ser real, ela estar ali na frente dele, podia? Sentiu uma fisgada do ferimento que ardia e se afastou.

‘Hei, Syaoran.’ Ela falou, colocando a mão em cima da dele que estava melada de sangue. ‘Você precisa cuidar disso.’

Li balançou a cabeça e arregalou os olhos. ‘Você está aqui mesmo?’

‘É claro que sim! Você ainda está lerdo?’

‘Não era para você estar aqui! Como é que você… droga.’ Ele esbravejou, apertando o ferimento.

‘Você precisa descansar.’ Ela falou, encarando-o seriamente.

‘Você não devia ter vindo para cá!’ Ele gritou.

‘Olha! Ou você fica frio e descansa ou eu uso magia para você dormir, entendeu?’

‘Você é maluca!’ Ele falou irritado. ‘Eu disse que este lugar não é para você.’

‘Também não é para você!’ Ela gritou de volta. Encararam-se com a respiração ofegante. ‘Mas já que você veio para cá, então é onde eu preciso estar…’ Sakura declarou olhando séria para ele.

Syaoran passou a mão pelo cabelo, olhando para a namorada. Olhou para a brecha e depois para ela.

‘Só passo por ela se você vier comigo.’ Ela falou, já sabendo o que o namorado tinha na cabeça, conhecia-o bem demais. ‘E você não tem como me obrigar a fazer isso, entendeu?’

‘Você é teimosa demais.’ Ele soltou.

‘Eu? Pensei que, depois que conversamos, você tivesse entendido que é bem mais fácil enfrentar as coisas sem estar sozinho.’

‘Isso foi sobre problemas normais!’

‘Nossos problemas nunca vão ser normais, Syaoran!’

‘Onde aquele anjo idiota estava quando você resolveu vir para cá?’

Ela semicerrou os olhos nele. ‘Você realmente acredita que ele conseguiria me impedir, Syaoran?’ Ela falou com a voz baixa. ‘Pode ter certeza que a minha luta com ele não seria eterna.’

Arthas apareceu na entrada da câmara parcialmente destruída e observou o casal discutindo. ‘Garoto!’ Falou em tom de urgência, vendo Li a frente da garota que, literalmente, tinha o arremessado longe.

Syaoran olhou para o grandalhão e depois para Sakura. ‘Você não vai mesmo atravessar, não é?’

‘Não. Tive um trabalho enorme para vir para cá. Só volto com você. Entendeu?’

Syaoran respirou fundo e olhou para a brecha. ‘Fecha logo essa porcaria, Arthas.’

Arthas se aproximou com cautela do casal, olhou para Li e depois para a garota.

‘Fecha logo!’ Li gritou irritado e foi obedecido prontamente.

Sakura olhou o grandão se aproximar da luz e estender uma esfera vermelha a frente, implodindo-a e fazendo o ambiente ficar escuro.

‘Luz.’ A jovem falou e o ambiente se iluminou. ‘Não gosto do escuro.’ Ela falou, olhando para Li que ainda a olhava sério.

Arthas olhava ainda de longe para o casal quando se lembrou de Midoriko e Tadmoth. Observou o ambiente iluminado pela magia e encontrou o guerreiro que estava caído no chão com alguns escombros por cima. Foi até ele para ajudá-lo. Novamente olhou para Syaoran que encarava a jovem com o rosto duro e a mão direita no lado esquerdo do abdômen, segurando o machucado mais profundo.

‘Você precisa descansar.’ Sakura falou para Li.

‘Não! Eu não preciso descansar.’

Ela suspirou irritada. ‘Sono!’

Syaoran arregalou os olhos, não acreditando que ela tinha feito isso, viu-se envolvido pela névoa mágica, antes de sentir o corpo pesado e os olhos se fecharem. Sakura o segurou antes dele cair no chão.

‘Cabeça dura.’ Falou entre os dentes. ‘Força.’ Disse, sendo assim capaz de levantar o corpo do namorado.

Caminhou com ele, procurando algum lugar em que pudesse ficar até que aquele ferimento cicatrizasse e a cabeça esfriasse.

Midoriko parou a sua frente e a encarou, desceu os olhos vendo Li desacordado nos braços dela. ‘O que você fez com ele?’

‘Saia da minha frente.’ Sakura falou, tentando passar, mas Midoriko permaneceu no mesmo lugar.

‘Quem é você, garota?’

‘Movimento.’ Ela falou.

Midoriko arregalou os olhos quando a jovem desapareceu de sua frente, ressurgindo vários metros atrás dela. Virou-se, vendo-a caminhar com o rapaz nos braços e ir até um dos cantos mais limpos do salão.

‘Bosque.’ Sakura falou e os arbustos brotaram do chão formando uma cama improvisada em que ela depositou Li ainda adormecido. A jovem desviou os olhos do rosto do namorado e os desceu até o ferimento. Estava bem feio. Ela levantou o rosto e encarou o demônio feminino que a olhava ainda sem entender como aquela humana estava ali com aquele poder todo.

Arthas e Tadmoth se aproximaram de Midoriko com os rostos tão ou mais surpresos com a aparição de Sakura.

‘Q-quem é ela?’ Tadmoth perguntou sem entender. Arthas estava dando um passo a frente para se aproximar do casal.

‘Gelo.’ A jovem levantou um paredão de gelo, impedindo que os três se aproximassem dela e de Li.

Arthas olhou para o guerreiro. ‘Eu aposto meu único braço que ela é a tal Sakura.’

Continua.

Notas finais
Música do capítulo: Here Without You (Aqui sem você) - Three Doors Down Notas Específicas: Este capítulo não passou por revisão. Será posteriormente revisado e editado.