FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques e Yoru Hiiragizawa

Capítulo 39

O Guardião do Passado

Syaoran se mexeu, estava deitado em algo macio. Respirou fundo, sentindo o perfume de flores. Sorriu. O ar estava fresco, confortável. Se espreguiçou de forma relaxada. Nada doía no seu corpo. Levou a mão a boca, abafando um bocejo e rolou para o lado. Não queria levantar. Kurogane que treinasse sozinho hoje, ficaria dormindo até a hora da primeira aula. Pediria para Sakura acordá-lo dali a pouco para ir à faculdade.

Franziu a testa e abriu os olhos. Levantou-se e viu que estava deitado no que parecia ser uma moita. Olhou para as mãos limpas e se analisou. Estava todo limpo. O ferimento do abdômen estava cicatrizado. Levantou o rosto e viu o paredão de gelo que, provavelmente, era o que tornava o ambiente mais fresco.

Levou uma das mãos ao rosto, ele tinha sonhado que Sakura estava ali, ou ainda estava sonhando? Onde estava mesmo?

‘Acho que agora a gente pode conversar, não é?’ Ele ouviu a voz da namorada e virou-se para trás. Ela estava debruçada na parede olhando para ele com os braços cruzados.

‘O-o que você fez?’ Ele perguntou.

‘Fiz o que era preciso.’ Ela respondeu. ‘Fiz você dormir. Por muito tempo. Você estava esgotado. Aproveitei também para dar um banho em você porque estava fedendo.’ Explicou para ele.

Ele colocou a mão no rosto novamente, sem nem saber direito o que falar. Era verdade que se sentia muito melhor. Sorriu, balançando a cabeça de leve. ‘Você então me fez dormir.’

‘Exatamente.’ Ela falou e ele a observou. ‘Como a Bela Adormecida.’ Completou, sorrindo para ele que balançou a cabeça de leve.

'Você devia ser a princesa que me acorda, não a bruxa que me faz dormir...' Ele falou sorrindo.

Ela se aproximou, aumentando o sorriso. ‘Sou uma bruxa boazinha… Fiz até uma cama para você.’

‘É… estava confortável.’ Ele falou. ‘Até com ar-condicionado.’ Emendou com ar jocoso, fazendo um gesto em direção ao paredão de gelo.

‘Isso também foi para aqueles três não encherem o saco.’ Ela respondeu.

‘É, ficar um tempo longe deles não é ruim.’ Comentou.

‘Imagino que não.’ Ela falou, parando em frente a ele.

‘Ainda mais com você por perto.’ Ele admitiu. ‘Eu, realmente, precisava descansar um pouco.’

‘Eu percebi.’

‘Mas você tem que parar de usar magia em mim.’

Sakura suspirou. ‘A ideia partiu de você primeiro para que apagássemos nossas próprias memórias quando éramos crianças.’

‘Aquela foi outra situação.’ Ele rebateu.

‘Daquela vez, eu que estava no meu limite. Agora, era você.’

‘Acho que sim.’ Falou e passou a mão pelos cabelos. Sorriu de leve. ‘Você realmente veio atrás de mim…’

‘Foi o que combinamos, não?’ Ela falou. ‘Se eu encontrasse um jeito de vir para cá, você concordaria.’

‘Eu aceitaria, nunca concordei.’

‘Enfim… você tem que aceitar os fatos agora.’ Ela rebateu, cruzando os braços. ‘Só saio daqui com você ao meu lado.’ Falou para ele séria, inclinou o corpo, ficando com o rosto na altura do dele. ‘Espero que tenha entendido isso agora.’

‘É… acho que sim…’ Ele murmurou, fitando-a.

‘Ótimo…’ Ela soltou já pronta para se afastar quando ele a segurou pela nuca e a puxou, deixando-a de costas na cama improvisada por ela e ficando acima dela.

‘Senti sua falta.’ Falou sinceramente, contemplando-a. Passou a mão pelo rosto dela e Sakura fechou os olhos, sentindo o toque dele.

‘Também senti muito a sua.’ Ela falou e logo sentiu os lábios dele sobre os dela. Entreabriu-os aprofundando o beijo enquanto o enlaçava pelo pescoço. Sakura o sentiu beijar o rosto dela e descendo pelo pescoço enquanto apertava seu seio de leve. Sorriu de prazer, mas... lembrou de um detalhe. Arregalou os olhos, sentindo o rosto queimar.

‘Syaoran…’ Ela o chamou, embaraçada, segurando a mão dele e a afastando. ‘Não estamos sozinhos.’

‘Você criou um iceberg.’ Ele respondeu com a voz rouca, ainda beijando seu pescoço.

‘Não… Eu não estou sozinha.’ Sakura falou, empurrando o peito do namorado para se afastar dela.

Ele franziu a testa, apoiando-se nos cotovelos. ‘Do que está falando?’ Perguntou sem entender.

Ela desviou os olhos dele. ‘Da maneira que eu achei para vir para cá.’

Realmente esse era um detalhe importante que ele precisava saber, mas tinha postergado a pergunta, dando prioridade a outras coisas. Sentou-se e a observou se erguer e sentar ao lado dele.

‘Estou esperando.’ Ele falou olhando para ela. ‘Acho que tem uma boa explicação, não?’

Sakura pensou em como poderia explicar aquilo para ele. Teria que falar que procurou Tao, ele provavelmente não iria gostar desta informação. Não sabia também como falar da incorporação que aprendeu com os xamãs. Franziu a testa, olhando para o namorado que a olhava.

‘Então…’ Começou incerta quando perto dos dois se formou a imagem de Khala’a.

‘Mas o que é isso?!’ Li perguntou, levantando-se e olhando para a figura da bela guerreira de cabelos longos. ‘Sakura?’ Voltou-se para a namorada que fitou a jovem de armadura.

‘Eu incorporei a Khala’a.’ Sakura explicou.

‘Quem?’ Ele perguntou, olhando de uma para outra.

‘Esperança.’ Sakura clarificou. ‘Khala’a é o nome verdadeiro dela e não da carta.’

‘Essa não é Esperança. Eu conheço a Esperança.’ Ele rebateu.

Sakura olhou para Khala’a, não sabia bem como explicar porque ela mudou tanto. Khala’a rodou os olhos e cruzou os braços, olhando para Syaoran.

‘Sou eu mesma. Sakura provocou uma… uma evolução em mim. Para simplificar, vamos dizer que eu amadureci conforme o sentimento de vocês dois, que é o que canaliza a nossa incorporação.’ Ela explicou, tentando ser didática.

Syaoran franziu a testa ainda olhando de uma para a outra. ‘Então vocês duas…’

‘É como se ela estivesse dentro de mim, por isso eu consigo sobreviver aqui.’

‘E por que ela agora está ali?’ Ele apontou.

‘Poder de Ilusão.’ Khala’a clarificou. ‘Na verdade eu estou realmente no corpo dela.’

‘Humph…’ Ele murmurou, desviando os olhos delas e se sentindo envergonhado do que estava prestes a fazer com a namorada.

Khala’a abaixou o rosto rindo. Realmente a situação seria bem estranha se aquilo continuasse. Já foi constrangedor quando ele beijara sua Mestra. Sakura e ela se entreolharam e depois fitaram Li que estava completamente sem graça.

‘E isso pode ser desfeito?’ Ele perguntou ainda sem encará-las.

‘Quando voltarmos, sim.’ Sakura respondeu. ‘Se for desfeito aqui, eu não sobrevivo.’

‘Certo…’ Ele murmurou, passando a mão pelos cabelos. Olhou de uma para a outra e balançou a cabeça de leve. Não teve como não pensar que devia ser realmente um pervertido, como o enfermeiro Taniguchi o chamava, se continuasse o que estava pensando em fazer com a namorada. Seria como fazer com as duas. Ao mesmo tempo. Isso era loucura. ‘E de onde veio esta ideia?’

Sakura respirou fundo, sabia que ele chiaria. ‘Eu fui falar com o Ren Tao.’

‘O quê?!’ Não deu outra. ‘Como assim você foi falar com os Taos de novo?’

‘Eu não fui falar com os Taos. Eu fui falar com o Ren Tao.’ Ela retrucou.

‘Ah! Logo com quem? Você fez isso só para me provocar.’

Sakura franziu a testa. ‘Você realmente está ficando maluco.’

‘Não fui eu que procurei… sei lá… o clã rival da sua família.’

Sakura rodou os olhos. ‘Não existe clã rival dos Kinomotos. Isso é besteira de vocês. E infantilidade.’

‘Isso é questão milenar.’

‘Você está fora do clã.’

‘E para que você foi falar com aquele cabeça de chifre?’

‘Eu precisava deixar as cartas com alguém.’

‘O quê?!’ Ele quase berrou. ‘Você deixou as cartas com o Tao? Você realmente fez isso?’

Ela semicerrou os olhos nele. ‘Você queria que eu as deixasse com quem? Sua família? Com o seu clã?’ Ela retrucou e ele desviou os olhos dela. ‘Eu acho que não, não é?’

‘Poderia deixá-las com Hiiragizawa.’

Sakura olhou rapidamente para Khala’a que comprimiu os lábios, mas não falou nada. ‘Eriol não entenderia e, no final, foi a melhor decisão. Fui me encontrar com ele e conheci o grupo de xamãs de quem ele é amigo.’

Syaoran virou-se para ela com os olhos arregalados. ‘Você conheceu os amigos do Tao?! O que você vai me contar agora? Que virou a melhor amiga dele?’

Sakura meneou a cabeça. ‘Ele não seria tão interessante, ao invés disso estou pensando em conhecer melhor Anna Asakura para ela me ensinar algumas coisas.’

“Quem sabe assim você aprende a me obedecer sem reclamar,” Sakura pensou e Khala’a não conseguiu segurar o riso, mas tentou disfarçar abaixando o rosto.

‘Os Asakuras também estão metidos em coisa barra pesada.’ Syaoran falou.

‘Então você os conhece?’

‘Já ouvi falar.’ Ele respondeu sinceramente. ‘Você é uma Feiticeira, não é o mesmo que eles fazem…’

‘Que você fez com o seu primo.’ Sakura observou, erguendo uma sobrancelha e o viu sem graça.

‘Foi uma situação completamente diferente.’

‘Certo.’ Sakura falou, pensando que Anna talvez tivesse razão quando disse que precisavam abrir suas mentes.

Khala’a pigarreou. ‘Bem…. Faltam quantas brechas para serem fechadas?’ Perguntou, tentando acabar com a discussão dos seus mestres.

Li respirou fundo e franziu a testa fazendo as contas. ‘Faltam seis ainda.’ Ele respondeu.

‘Seis?’ Sakura arregalou os olhos. ‘Você já destruiu sete brechas em três dias?’

‘O tempo aqui passa mais rápido… bem mais rápido.’ Ele respondeu. ‘Parece que eu já estou aqui há uma eternidade.’

‘Mesmo assim… você foi muito rápido. Não me admira que estivesse tão cansado.’ Khala’a comentou, olhando para ele que desviou os olhos.

‘Eu estava com pressa.’ Respondeu. ‘Precisava voltar para casa antes que a senhora cabeça dura fizesse alguma besteira.’

Sakura rodou os olhos. ‘Bem, eu sou casada com o senhor cabeça dura, não?’

Ele balançou a cabeça de leve e sorriu. ‘Sim, você é.’

‘Então faltam seis brechas…’ Khala’a repetiu. ‘Se o Mestre já estiver recuperado, devemos prosseguir.’

Sakura olhou para Syaoran que assentiu com a cabeça. ‘Eu já estou bem.’

‘Ótimo.’ Khala’a falou e sorriu antes de desaparecer.

Syaoran olhou para Sakura. ‘Isso é bem estranho.’

Ela sorriu. ‘Imagina para mim.’ Comentou. ‘Bem, vamos lá. Acho que seus amigos devem estar ansiosos para vê-lo.’ Ela falou e se aproximou dele, semicerrando os olhos. ‘Khala’a me avisou para ficar de olho naquela fêmea.’ Li desviou os olhos dela e Sakura não gostou disto.

‘Eles não são meus amigos. Aqui, ninguém é amigo de ninguém.’ Ele respondeu.

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Syaoran caminhava atrás de Sakura e Arthas, observando-os conversar. O Grandão, inicialmente, tinha ficado na defensiva com a Feiticeira por ela tê-lo arremessado longe quando o viu pela primeira vez, mas, depois de um tempo, os dois já estavam conversando. Arthas gostava de falar, Sakura não conseguia ignorá-lo como os outros, então ele simplesmente a tinha adorado.

‘E falta muito para a gente chegar?’ Sakura perguntou para ele.

‘É logo depois do Deserto Ardente.’

‘Deserto Ardente? Sério?’ Ela comentou. ‘Como se esse inferno já não fosse “ardente” o suficiente.’

O grandão meneou a cabeçorra. ‘Não são tão quentes quanto os Campos Crepitantes e é mais agradável que as Barragens Furiosas.’

‘Isso é bem reconfortante.’ Ela comentou, passando a mão na testa suada.

‘Eu já falei que lutei contra mais de 40 demônios de uma só vez nos Campos Crepitantes?’

‘Acho que já.’ Sakura falou. Ele tinha falado tanta coisa naquelas últimas horas que ela ficara até um pouco perdida nas histórias.

‘Eu acho que não.’ Arthas rebateu e começou a contar mais uma de suas façanhas para ela.

Li sorriu de leve, observando-a caminhar devagar ao lado de Arthas, balançando a cabeça ao ouvi-lo falar.

‘Se ficar sorrindo desta maneira o tempo todo, não vai conseguir destruir mais brecha nenhuma.’ Ele ouviu Tadmoth falar ao seu lado. Rodou os olhos. ‘Ela não deveria estar aqui. Agora o Arthas também não vai mais parar de falar.’

Syaoran não respondeu à provocação.

‘Não foi combinado que você teria mais ajuda, se é que ela realmente veio aqui para lhe ajudar. Isso de certa forma não é justo.’ Ele continuou a falar.

‘Contanto que as brechas sejam fechadas, qual a diferença?’ Li falou por fim.

‘Ela é humana e é feiticeira. Não deveria estar aqui. Feiticeiros são traiçoeiros.’

Li ergueu uma sobrancelha, observando o guerreiro caminhar ao seu lado. Ele não tirava os olhos de Sakura. ‘O que tem contra feiticeiros?’ Acabou perguntando.

‘Eles não são confiáveis.’

‘E você conheceu algum?’ Li perguntou.

‘Sim.’ Tadmoth respondeu. ‘Ele falava que tudo seria possível, que viriam tempos de glória e riquezas… Tudo balela.’

‘Entendo…’ Li comentou.

‘Não deveria confiar nela assim. Além de feiticeira, é mulher.’ Tadmoth recomendou. ‘Aposto como só está aqui para espionar e impedir que a gente feche as brechas. Ela está distraindo você.’

Syaoran franziu a testa. ‘Você fala como se por experiência própria.’

‘Foi o que aconteceu. Por isso estou preso neste lugar até hoje.’ Tadmoth falou. ‘Estou avisando. Não vou permitir que outro feiticeiro me engambele. E mulheres não são confiáveis! Principalmente feiticeiras!’

‘E o que aconteceu realmente?’ Li perguntou.

‘Shyrai falou que, caso eu destruísse as brechas, estaria agindo contra as regras do universo que selecionam apenas os mais fortes para sobreviverem. Ele prometeu que eu teria fama por tomar a decisão correta e quebrar o ciclo e não sei mais o quê…’ Tadmoth continuou com a voz ressentida. ‘No final, a intenção dele era apenas criar uma confusão e eu é que me dei mal, ficando aqui até hoje neste inferno.’

‘Humph.’ Li murmurou. ‘Então você conheceu Shyrai.’

‘Ele era uma cobra peçonhenta.’

Li teve que concordar com um gesto.

Sakura olhou para trás quando ouviu o nome do feiticeiro que tinha começado aquela confusão toda na vida deles. Lembrou-se de um detalhe, falou com Arthas que já voltaria para ouvir mais de suas façanhas e diminuiu o passo até ficar ao lado de Li, ignorando a careta de Tadmoth.

Olhou rapidamente para trás, vendo Midoriko caminhar sozinha. Franziu a testa. Realmente não tinha gostado dela.

‘Acho que Shyrai era um meio-demônio.’ Ela falou para Syaoran que franziu a testa.

‘De onde tirou isso?’

‘É uma boa explicação para ele ter conseguido sobreviver aqui.’ Ela observou. ‘Eriol falou que toda a família dele foi morta por seres das trevas, menos ele. A senhora Asakura me alertou que realmente é bem estranho apenas ele ter sobrevivido e que, provavelmente, o tal ser das trevas era, na verdade, o pai dele.’

Syaoran meneou a cabeça. Fazia sentido. E se havia alguém com informações sobre demônios e essas coisas no mundo, com certeza, seriam os xamãs. Por isso que simplesmente não gostava deles. Principalmente dos Taos. Mas aí a namorada tinha logo que resolver virar amiga de quem?

‘O que você acha?’ Sakura perguntou, fazendo-o o voltar à realidade.

‘Pode ser.’ Respondeu.

‘Foi exatamente isso que aconteceu.’ Sakura falou com a voz assertiva.

Li ergueu uma sobrancelha. Estava começando até a se acostumar com a bipolaridade da namorada agora, sabia que quem estava falando era Khala`a.

‘Como tem certeza?’ Ele perguntou sem parar de andar e olhando para frente.

‘Quando lutamos contra ele na Torre de Tókio.’ Ela respondeu.

Li suspirou de forma pesada. ‘Será que Clow não desconfiaria que Shyrai era um meio-demônio?’

Ele ouviu uma risadinha debochada. ‘Clow não tem todas as respostas.’ Khala`a se arrependeu do comentário. ‘Ele era meio-humano e feiticeiro, pelo jeito tinha o dom da persuasão também.’ Comentou, olhando de relance para Tadmoth.

‘Isso realmente poderia justificar o porquê dele sobreviver no mundo das trevas.’

‘É muito mais comum do que as pessoas pensam que demônios tenham relação com mulheres humanas.’

Syaoran olhou para ela e sorriu de forma irônica. ‘Mesmo?’

Khala`a riu. ‘Como também é comum demônios femininos terem relação com homens. Só que é um pouco diferente em alguns casos. Muitas vezes não há necessidade de contato físico. Elas apenas invadem os sonhos deles.’

Li se incomodou com a informação. Estalou o pescoço e tentou relaxar. Khala’a reparou na reação dele. ‘E isso também acontece entre demônios. Certas fêmeas não precisam copular para reprodução.’

Midoriko, Tadmoth e Arthas acompanhavam a conversa em silêncio.

O demônio feminino observou Syaoran e depois Sakura. Aquela humana tinha alguma coisa muito estranha, a energia dela definitivamente vinha de um demônio. A aparição dela certamente dificultaria mais ainda os seus planos. O Garotão estivera a ponto de desmaiar por conta do esgotamento. Por mais resiliente que fosse, não aguentaria muito mais tempo no ritmo que estava seguindo, mas aí a feiticeira tinha que aparecer do nada e, agora, não saía mais de perto dele. O rapaz estava mais relaxado e tinha ficado até com a língua mais solta.

Khala’a olhou para trás, novamente, encarando Midoriko com os olhos semicerrados.

Definitivamente, aquela humana tinha alguma coisa muito estranha.

Tadmoth os encarou, desconfiado. ‘Vocês também conheceram Shyrai?’

Khala’a e Li se entreolharam. ‘Nós o matamos.’ Li respondeu por fim. ‘A confusão da minha vida começou com aquele cara.’

Tadmoth ficou um tempo em silêncio enquanto caminhava. ‘Precisamos fechar essas brechas desta vez. Não aguento mais este lugar. Só assim vou sair daqui e reencarnar.’

Khala’a esticou o pescoço e reparou no guerreiro que caminhava ao lado do mestre. ‘Você era o guardião do ciclo anterior?’ Perguntou, franzindo a testa e encarando-o. ‘Por que não destruiu as brechas quando deveria?’

O guerreiro parou de caminhar e olhou para ela. ‘Você lê mentes, Bruxa?’

Li ficou entre os dois, apesar de Khala’a tentar, por duas vezes, desviar dele para encarar Tadmoth.

‘Foi você, então, quem fez a merda toda.’ Khala’a o acusou.

Li franziu a testa, olhando para o rosto da namorada. Não era ela quem estava falando, era Khala’a.

‘A culpa foi de um bruxo igual a você.’ Tadmoth rebateu.

‘Você realmente é um guardião incompetente! A sua falha resultou nesta confusão toda de demônios protegendo brechas que não deveriam nem existir mais.’

‘Hei! Olha como você fala comigo, mulher!’ Ele falou, dando um passo para cima de Khala’a, Li se colocou na frente dele.

‘Nem pense nisto.’ Syaoran falou encarando-o.

‘Eu não preciso de proteção.’ A ruiva falou ainda encarando Tadmoth. ‘Você não tem ideia do tamanho da droga que você fez.’

‘Shyrai me falou que…’

‘Você era um Guardião! Tinha que cumprir com o seu dever e não se deixar corromper por promessas de alguém que conheceu aqui, no Mundo das Trevas. Você ou é idiota ou é muito inocente.’

‘Estou tentando arrumar isso.’ Tadmoth falou por fim e levantou o queixo.

‘Arrumar?’ Khala’a ergueu uma sobrancelha. ‘Por sua causa o trabalho dele.’ Falou, apontando para Syaoran. ‘Ficou muito mais complicado.’

‘Hei! Do que você está falando?’ Li perguntou.

A namorada parecia uma caixinha de surpresa agora, vinha sempre com uma novidade. Sendo que ele sabia não ser a namorada quem estava falando. Aquilo estava ficando surreal, Sakura parecia bipolar. Ou nem tanto assim, no final a personalidade das duas eram parecidas. Ele enlouqueceria se continuasse daquela maneira quando voltassem.

‘O guardião vem apenas para destruir as brechas que se abrem a cada ciclo, depois reencarna. Elas nunca foram protegidas por demônios antes. Isso deve ter sido manobra de Enma Daiyoh para tentar contornar a droga que esse aí fez.’ Ela falou. ‘E, agora, ao invés de você vir aqui apenas para destruir as brechas, ainda tem que enfrentar os demônios que ficaram responsáveis por elas de um ciclo para o outro.’

Syaoran pensou que realmente ele não tinha sorte mesmo. Olhou para Tadmoth esperando que o cara falasse alguma coisa, mas ele só virou o rosto não respondendo nada.

O chinês olhou para frente e viu que passariam por um grupo de almas rastejantes. ‘Qual o nível de consciência entre vocês duas?’

‘Como assim?’ Ela perguntou.

Ele voltou-se para ela. ‘Sakura e você ficam conscientes ao mesmo tempo?’

‘Sim. Ela permite que eu esteja falando agora, mas ela está ouvindo e vendo tudo. E o contrário também prevalece.’ Ela explicou.

‘Certo.’ Ele falou e a segurou no colo, fazendo-a levar um susto. ‘Acione silêncio agora, por favor.’ Ele pediu. ‘Vamos passar por algumas almas, não quero que Sakura veja nem ouça nada.’ Esclareceu em um sussurro.

‘Eu não sou uma donzela, Syaoran.’ Era definitivamente Sakura quem falava agora. ‘Coloque-me no chão.’

‘Faça o que estou pedindo, por favor.’ Pediu gentilmente e Sakura fechou os olhos, ouvindo Khala’a pedir o mesmo.

‘Silêncio.’ Ela falou a contragosto.

‘Feche os olhos e fique abraçada a mim. Não abra por nada.’ Ele sussurrou ao ouvido dela e, no final, foi exatamente isso o que ela fez.

Enlaçou o pescoço do namorado e afundou o rosto na linha do pescoço dele. Não ouviu nenhum dos gritos de desespero e pedidos de ajuda das almas que tentavam ainda agarrar os pés do grupo que passava.

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Syaoran observava o horizonte a frente. Franziu a testa analisando os arredores. Tadmoth tinha dito que a próxima brecha era guardada por um demônio superior gigante. Quando perguntou o quão gigante o cara era, Tadmoth foi evasivo na resposta.

‘Tokë tem uns 50 metros mais ou menos.’ Ele ouviu a voz da namorada ao seu lado.

Virou-se para ela para perguntar como sabia, mas pensou que provavelmente fora a outra quem falou. Assentiu com a cabeça, pensando que Khala’a andava mais eficiente em informações que Tadmoth.

‘Se eu usar Grande acho que dá para lutar com ele. Eu fico com cerca de 10 metros.’ Sakura falou. ‘Fica meio difícil ainda.’

‘Humph.’ Ele murmurou. ‘Acho melhor você ficar aqui e deixar que eu cuide disso.’

Ela ergueu uma sobrancelha. ‘Certo… você vai lá, sozinho, lutar contra um cara de 50 metros... suas chances realmente são incríveis.’

Syaoran retrucaria dizendo que iria com Midoriko e Tadmoth, mas desistiu. Não faria muita diferença mesmo estar com eles ou não.

‘Estava pensando que talvez a gente nem precise matar o cara.’ Sakura continuou falando. ‘O objetivo é apenas destruir as brechas, então eu poderia distraí-lo enquanto o grandão iria lá para destruí-la. Depois iríamos embora.’

‘Você realmente já tem tudo planejado, não?’ Syaoran falou em tom irônico.

‘Estou apenas ponderando as possibilidades.’ Ela falou dando de ombros.

Ele não sabia se ria ou ficava irritado da situação em que se encontrava agora. Respirou fundo, pensando que ela tinha certa razão, por mais cabeça dura que fosse, sabia que ela o ajudaria mais do que os outros dois e que podia confiar nela.

‘Talvez funcione esta sua ideia.’ Ele admitiu.

‘Fugir de uma batalha?’ Tadmoth disse estupefato. ‘Isso é coisa de covardes!’

Sakura olhou para o cara. ‘Se quiser ficar para trás e continuar brigando com ele, fique à vontade.’

Tadmoth deu um passo a frente encarando-a. ‘Você é ardilosa.’

‘E você é um idiota.’

‘Hei! Não adianta nada vocês discutirem.’ Li tentou interromper a discussão.

‘Eu me recuso a concordar com este plano de covardes.’ Tadmoth falou, cruzando os braços sobre o peito. Olhou para Li. ‘Eu falei que as mulheres são perigosas. Ela o está transformando num fracote.’

Li respirou fundo e soltou o ar devagar. Por que tudo tinha que ser sempre tão complicado?

‘Por que você não mata logo este cara?’

Tudo bem que ele sabia que Khala’a estava incorporada na namorada, mas era estranho demais ver a imagem de Sakura e saber que era outra pessoa falando agora, ou não? Ele franziu a testa, observando bem o rosto de Sakura. Às vezes se perguntava quem estava realmente falando.

‘Por que eu preciso dele para me indicar onde estão as brechas.’

‘Khala’a sabe onde estão as brechas.’ Ela retrucou, fazendo-o arregalar os olhos.

Putz, foi mesmo Sakura quem havia sugerido matar o cara! Tinha que tirar logo a namorada daquele inferno.

‘Dá para você ficar fria?’

‘Neste calor infernal não tem como.’ Ela falou, olhando para cima. ‘Preciso de um banho gelado.’ Resmungou, ouvindo Li rir.

Ele meneou a cabeça e respirou fundo. ‘E você se perguntava como eu conseguia aguentar a água congelante.’

‘Deu para entender.’ Ela respondeu. ‘Quando voltarmos será a primeira coisa que vou fazer.’

Ele olhou para ela e sorriu pensando que realmente gostaria de ficar horas com ela debaixo da ducha fria. Balançou a cabeça de leve, tinha que colocar a cabeça no lugar.

‘Vamos lá.’ Ele falou por fim, continuando a caminhar e sendo seguido pelos outros. Estava com um pressentimento estranho. Tudo estava muito calmo. Nunca havia se enganado com relação àquela sensação de perigo iminente.

Arthas caminhava à frente, tentando puxar conversa novamente com Sakura, mas ela também estava tensa, observando o local. Tadmoth caminhava atrás com Midoriko que andava calada demais. O guerreiro ainda tentou reclamar com ela sobre a situação, mas foi ignorado.

De repente a terra aos pés deles começou a tremer, fazendo-os ficarem em estado de alerta.

‘Mas que merda é esta?!’ Tadmoth soltou, percebendo a terra se inclinar, derrubando-o no chão.

‘Alada.’ Um par de asas negras surgiu nas costas da Feiticeira e ela pegou a mão de Syaoran, levando-o com ela. Afastaram-se e finalmente puderam ver o Gigante se levantar. Eles estiveram andando por cima dele aquele tempo todo.

Syaoran arregalou os olhos vendo o tamanho do cara. Sakura franziu a testa, observando os outros três caindo enquanto o Gigante despertava. ‘Flutuação.’ Falou, envolvendo o corpo de Arthas para que ele chegasse até um lugar seguro sem se machucar, quanto aos outros dois… Era problema deles. Aqui era cada um por si.

Segurou mais forte o pulso de Syaoran enquanto suas asas batiam com força para mantê-los no ar.

‘Mestre…’ Syaoran a ouviu falando. ‘Você tem asas. Tem que se concentrar e se controlar, entendeu? Se não expandir seu poder, não vai conseguir chegar até a última brecha.’

Ele franziu a testa. ‘Não quero me transformar.’

‘Se não for capaz nem de se controlar, não vai ter como sair daqui com ela.’ Khala’a falava através de Sakura enquanto desviava das pedras que estavam caindo por eles durante a ascensão do grande monstro. Eles quase foram atingidos por uma, obrigando Khala’a a dar alguns rasantes para evitar o impacto.

‘Não vamos conseguir fazer isso de mãos dadas.’ Ela falou novamente olhando para Li. ‘Você tem que conseguir.’

Syaoran fechou os olhos e trincou os dentes. ‘Droga.’ Falou. ‘Solte-me.’

Khala’a olhou para ele e o viu abrir os olhos devagar. Encararam-se até que ela o soltou, permitindo que ele caísse em direção ao chão.

Li franziu a testa, concentrando-se e sentiu quando as asas surgiram em suas costas, cortando o ar e fazendo-o planar. Materializou a espada e voou até parar ao lado de Sakura.

Khala’a assentiu com a cabeça para ele e depois virou-se para o Gigante completamente desperto.

‘Vamos lá.’ Ele falou voando à esquerda do oponente enquanto Khala’a se deslocou pela direita. Teriam que trabalhar juntos ou não daria para derrubar aquele monstro. Ainda não tinham avistado a brecha para destruí-la.

Syaoran voou em direção de Tokë, pegou um de seus talismãs e o jogou para o alto. ‘Deus do trovão, vinde a mim!’ Tentou usar magia, mas, no final, isso apenas chamou a atenção do grandão para ele. Arregalou os olhos, vendo o gigante virar-se para ele, tentando golpeá-lo, desviou sendo quase atingido. A magia nem tinha feito cócegas nele. Droga!

Bateu suas asas com força para subir querendo ficar acima do monstro e tentar atingi-lo no rosto ou em algum lugar que parecesse mais frágil. Reparou que Khala’a voava em torno do monstro tentando fugir das investidas dele para segurá-la. Normalmente, os monstros maiores como dragões possuíam como ponto fraco os olhos. Voou em direção ao que parecia ser a face do gigante de terra e tentou cravar sua espada em um dos olhos dele. Tokë urrou e levou uma das mãos ao rosto, pegando Syaoran como se fosse um mosquito, esmagando-o. Li sentiu os ossos gritarem pelo impacto.

‘Vento!’ Khala’a gritou, criando uma corrente de ar nos pés do monstro e fazendo-o se desequilibrar e cair no chão.

Durante a queda, o monstro afastou a mão do rosto, libertando Syaoran que flexionou os joelhos e levantou voo novamente. Tokë se levantou irado, tentando avançar sobre os dois.

‘Água!’ Khala’a gritou, atingindo-o com um cortante jato que levou uma parte do corpo dele embora. Porém não era suficiente e, logo, ele havia se recomposto.

‘Ele é muito grande.’ Syaoran falou entre os dentes. ‘A magia nunca será suficiente para acertá-lo de forma efetiva.’

‘Vamos tentar combinar.’ Khala’a sugeriu. Trocaram um breve olhar e se afastaram um pouco para tentar distribuir melhor os golpes.

‘Deus dos relâmpagos, vinde a mim!’ Syaoran invocou novamente sua magia.

‘Trovão!’ Khala’a gritou.

As duas magias se uniram atingindo o Gigante que cambaleou.

‘Já sei!’ Li gritou, pegando outro talismã. ‘Dragão d’água, vinde a mim!’ Invocou.

Não costumava usar duas magias ao mesmo tempo para que uma não potencializasse a outra. A água seria o condutor e catalizador da corrente elétrica provocada pela magia do relâmpago.

Khala’a sorriu de lado. Era por isso que gostava dele. Ele tinha criatividade. ‘Água!’ Usou o mesmo método.

A corrente elétrica circulou todo o corpo do gigante que se debatia enquanto se desintegrava aos poucos. Os dois cessaram as magias e olharam ofegantes para o monstro que tinha caído de joelhos, no entanto ele logo se ergueu e, como se puxasse toda a terra e areia do chão, voltou a se recompor.

‘Mas que droga.’ Li falou, trincando os dentes.

‘A brecha deve estar dentro dele.’ Khala’a falou, planando no ar ao lado de Li que olhou para baixo vendo Arthas e os outros dois encolhidos no escudo de Sakura.

‘Acho que eu tive uma ideia.’ Ele falou. ‘Distraia-o.’ Falou, voando em direção ao trio.

Li olhou por sobre o ombro direito, vendo Khala’a voar em círculos enquanto fugia das mãos dele. Parou em frente a Arthas.

‘Eu quero uma daquelas coisas vermelhas!’ Ordenou, estendendo a mão. O grandão ainda ficou na dúvida. ‘Agora!’ Ele gritou e foi prontamente obedecido pelo companheiro que jogou uma das esferas para ele.

Li a pegou no ar e olhou para cima, batendo suas asas com força para que pudesse subir o mais rápido possível.

‘Imobilize-o que eu vou até a brecha.’ Syaoran gritou quando passou por Khala’a.

‘Como assim?’ Ela perguntou sem entender, mas não teve resposta; Li já estava distante dela.

Khala’a o observou voando até o alto e se perguntou o que ele estava planejando fazer. Olhou novamente para o monstro e desviou das mãos dele que novamente tentavam agarrá-la. Imobilizá-lo… talvez com Gelo, gelo e água o congelariam, não? Foi assim que Areia havia sido aprisionada.

‘Vamos lá.’ Ela falou se concentrando, teria que aumentar sua energia se quisesse atingi-lo completamente. ‘Água!’

Usou novamente a magia, fazendo com que o monstro ficasse encharcado e, depois, invocou Gelo para paralisar o Gigante. Funcionou. Ele havia parado de se mexer. Sorriu aliviada e olhou para cima onde avistou Syaoran se aproximar do rosto do monstro. Franziu a testa.

‘Mas que droga ele está fazendo?’ Perguntou-se quando o viu dar um rasante e voar na direção da boca aberta da criatura. ‘Ele é maluco!’ Gritou, não acreditando ao vê-lo desaparecer por dentro do monstro.

Bateu suas asas vigorosamente, para que subisse até a altura do rosto do monstro. Não conseguia identificar onde Li estava. Na verdade, tinha apenas uma vaga ideia de que a brecha estivesse lá dentro, mas não sabia dizer onde exatamente. Como ele poderia descobrir então?

Arregalou os olhos, vendo o monstro começar a se mexer, quebrando sua magia de gelo, alguns blocos caíram no chão espatifando-se sobre o escudo que protegia o trio de patetas.

‘Droga.’ Falou entre os dentes. ‘Cadê ele?’ Preocupou-se sem saber direito o que poderia fazer. Precisava tomar uma atitude, mas só conseguiu voltar a fugir das investidas furiosas do gigante contra ela.

“De acordo com o ciclo destrutivo dos elementos, madeira vence terra!” Ela ouviu a voz de Sakura. Terra! Claro! Aquele monstro não era de areia.

‘Bosque!’ Gritou e viu os galhos começarem a crescer a partir dos pés do gigante e irem subindo, enrolando-se em suas pernas e tronco.

O Monstro se debatia sem conseguir entender o que estava acontecendo com ele.

Khala’a franziu a testa, teria que aumentar o poder de Bosque ou não conseguiria envolvê-lo completamente. Cerrou os punhos, concentrando-se para fazer o grandão parar de se mexer. O corpo de Tokë foi ressecando conforme os galhos de Bosque se retorciam ao redor dos membros, envolvendo-o completamente e deixando-o imóvel.

Uma sequência de detonações aconteceram dentro do peito do titã imobilizado e ela deduziu que fosse Li tentando abrir caminho pelo corpo colossal para chegar aonde queria. Era bom ele fazer logo alguma coisa ou ela não conseguiria aguentar muito tempo.

De repente, uma explosão mais violenta abriu um buraco na altura do abdômen da criatura e os galhos que cobriam aquela área se afastaram, permitindo que ela visse Syaoran estender a esfera vermelha em direção à brecha, momentos antes de se afastar da implosão, saindo pela fenda que criara.

Khala’a soltou um suspiro aliviada e cessou a magia, fazendo Tokë se desmontar caindo no chão. Ela sabia que em breve ele se recuperaria.

‘Precisamos sair daqui logo.’ Ela disse a Syaoran quando ele parou ao seu lado, vendo-o concordar. Os dois olharam para baixo, localizando os três demônios que apenas assistiram à luta sem erguer nem um dedo para ajudar. ‘Por mim, só resgataria Arthas.’ Ela falou com sinceridade.

Ele soltou um suspiro. ‘Você pega ele que eu levo os outros dois.’ Falou já descendo.

Ela voou parando na frente dele e o encarando séria.

‘Você está de sacanagem comigo se acha que vai carregá-la no colo!’ Agora Li tinha certeza que não era mais Khala’a.

‘O que sugere?’

Ela franziu a testa, olhando para ele. ‘Movimento.’ Falou a contragosto e os três desapareceram. ‘Vamos embora daqui.’ Ela falou, batendo as asas e sendo acompanhada por ele.

‘Para onde os mandou?’ Perguntou.

‘Para o inferno.’ Foi a resposta mal-humorada.

‘Eu não acredito que você está com ciúmes, Sakura.’ Ele falou, rindo de lado.

‘Para de ser convencido.’ Retrucou, deixando-o para trás.

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Eriol estava sentado no seu escritório. Não estava estudando, estava brincando com sua chave entre os dedos. Respirou fundo e soltou o ar devagar pensando em Sakura. Sentia-se decepcionado. Não com a sua sucessora em si, mas com ele mesmo. Ela não tinha confiado nele para proteger as cartas, preferindo deixá-las com um representante do Clã rival aos Li e um xamã, ainda por cima. O pior era que uma parte dele, aquela parte que ainda se confundia com Reed Clow, enxergava aquela decisão como uma provocação. Como traição.

E ele sabia que Sakura não decidiria algo tão importante apenas por provocação. Ela decidia as coisas com o coração. Então, ela ponderou que Ren Tao poderia ser mais digno de guardá-las e até mesmo de escolher um futuro sucessor do que ele.

‘Ela, no fundo, não confia mais em mim.’ Soltou de forma pesada.

Apertou a chave que Anna Asakura havia lhe devolvido sem titubear quando ele pediu. E ele estava convencido que precisaria lutar para tê-la de volta. Meneou a cabeça, realmente, não entendia os xamãs. Eles contaram por alto e sem muitos detalhes o que tinha acontecido com Sakura. Não explicaram como ela sobreviveria no mundo das trevas, apenas o aconselharam a confiar na força que sua encarnação passada havia convencido a entregar para ela.

Não tinha nada exatamente contra os xamãs. Apenas sabia que não conseguiria trabalhar com a morte. Talvez fosse fraqueza dele; talvez, receio dela. Não sabia direito o que fazia com que, simplesmente, temesse esta vertente do sobrenatural.

Tirou os óculos e passou a mão pelo rosto, estava cansado, tinha dormido pouco e, mesmo assim, as poucas horas de descanso foram marcadas por pesadelos.

Nakuru entrou no escritório com uma bandeja com chá e torradas. Eriol levantou o rosto, observando-a.

‘Mestre Eriol, precisa sair um pouco deste escritório.’ Ela falou, colocando a bandeja sobre a mesa e começando a preparar o chá. Olhou em volta do ambiente e viu a enorme quantidade de livros, cadernos e folhas soltas espalhados por todos os lados. Aquele lugar estava uma bagunça, assim como a cabeça de seu mestre.

Nakuru estendeu a xícara para ele que a pegou por educação, não estava com vontade de tomar chá.

‘Está preocupado com a Sakurinha, não?’ Ela falou. ‘Ela vai conseguir. Eles vão conseguir.’ Disse com otimismo.

‘Espero que sim.’ Ele falou antes de beber um gole demorado.

Nakuru afastou-se dele e pegou um caderno qualquer. Folheou-o, meneando a cabeça de um lado para o outro tentando ler e entender aquelas línguas estranhas. Sorriu, pensando que a sonoridade não era tão feia assim. Falou em voz alta e riu achando engraçado.

‘Repita!’ Ouviu a ordem de seu mestre que tinha deixado a xícara na mesa e levantava-se, olhando-a seriamente.

A jovem repetiu e ele solicitou que ela repetisse novamente. Nakuru o fez sem achar tanta graça, agora. Na verdade começou a ficar nervosa.

Eriol fechou os olhos e murmurou. Franziu a testa, tentando traduzir. ‘E será então, quando o Céu arder em chamas, que um coração partido trará a Esperança e uma Era de bem-aventuranças.’

‘Céu em chamas?’ Nakuru indagou. ‘O céu do mundo das trevas não arde em chamas?’

O inglês assentiu com a cabeça. Passou a mão na cabeça, sentindo-se tonto. ‘Acho… Acho que um deles não conseguirá voltar.’

‘Como assim, mestre?’

‘Acho que o coração partido é o de Sakura…’

‘Então, acha que Li não conseguirá?’

‘Eu temo que não.’ Ele falou com pesar. ‘Esta é a última parte da profecia do Caos de Clow.’

Continua.

Notas finais
Notas específicas: Quanto à forma de reprodução de certos demônios, tais informações não foram tiradas do nada. Em bestiários e estudos de demonologia é muito comum encontrar informações sobre succubus e incubus. São demônios que se apoderam dos sonhos, Incubus são demônios masculinos que afetam as mulheres e Sucubus são demônios femininos que afetam os homens, ambos agem durante a noite sugam a força vital das sua vítimas, têm aparência sedutora e usam os sonhos para se reproduzirem.