FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 36

Os Xamãs

Syaoran entrou com Arthas, Midoriko e Tadmoth nos domínios de Typhon, o demônio guardião da quarta brecha. Eles tinham destruído outras duas, desde o demônio escorpião.

‘Tem certeza que é aqui mesmo, Tadmoth?’ Arthas perguntou. O grande demônio caminhava à frente, mas estava começando a diminuir o passo.

Tadmoth confirmou com um gesto da cabeça. ‘Acabamos de atravessar o Domínio Abandonado. Os domínios de Typhon começaram depois do despenhadeiro.’ Ele afirmou, apontando para trás.

Syaoran deu um longo suspiro. Estava irritado, pois perdiam mais tempo caminhando naquele inferno, atravessando lugares com almas rastejantes e enfrentando grupo de demônios inferiores que cruzavam seus caminhos, do que realmente destruindo as brechas.

Midoriko caminhava logo atrás do rapaz, analisando-o. Não conseguia entender direito como um demônio de aparência humana tão frágil tinha tanto poder acumulado e, principalmente, por que fazia tanta questão de manter aquela aparência frágil. Rodou os olhos, impaciente com a estupidez dele.

Tirando a primeira luta contra o monstro aracnídeo, que ele derrotou com extrema facilidade, nas outras duas lutas seguintes ela conseguiu ver melhor o potencial que ele possuía. Sabia que, se Enma Daiyoh tinha selecionado aquele rapaz para vir até o mundo das trevas destruir as brechas, realmente, não era de se espantar que tivesse tanto poder.

O Mundo das Trevas estava uma verdadeira confusão depois que se espalhou a notícia de um demônio que tinha derrotado Tichondrius, atravessado a brecha e estava vivendo tranquilamente como um humano normal. Semicerrou os olhos nas costas do rapaz e deduziu, de forma óbvia, que se tratava dele. Então, o Garotão tinha derrotado já 4 guardiões de brechas.

Desviou os olhos para Tadmoth, que caminhava ao lado de Arthas, parecendo disputar com ele quem dava o passo a frente primeiro para mostrar ser o líder do grupo. Novamente seus olhos foram até Li que parecia não estar nem aí para isso. Caminhava atrás, por vezes com os passos arrastados e a cabeça baixa. Estava na cara que detestava aquele lugar, por isso a pressa absurda para destruir logo as brechas.

Como ele sempre dizia nas suas raras conversas com Arthas: queria logo voltar para casa.

Além disso, não conseguia entender direito aquela humildade exacerbada. Também estava na cara que não tinha nascido demônio, como ela, e sim humano como Tadmoth, mas o que será que o Garotão tinha feito para parar naquele lugar? Assassino? Talvez…

Ele mostrava ser bastante violento durante as lutas e sua magia era bem destrutiva. Inclusive, ela notara que reagia de forma diferente ao enfrentar os guardiões das brechas. Parecia sentir-se revigorado quando enfrentava demônios superiores, o que indicava que gostava de lutar contra oponentes poderosos e que o forçassem a usar de extrema violência, sem sentir-se covarde. Talvez tivesse sido um assassino e agora estivesse tentando conseguir o perdão para reencarnar.

Franziu a testa, lembrando-se de tê-lo visto com uma humana antes dele entrar na sua brecha para voltar ao inferno. Ele também tinha o domínio de uma besta infernal. O lobo elétrico tinha um poder fenomenal, mas se comportou como se fosse um cão fiel a ele. Por quê?

Aquela história estava muito mal contada. Não era de querer saber da vida dos outros, muito pelo contrário. Estava naquele grupo apenas por que lhe foi prometido o domínio de uma parte dos territórios depois que todos os demônios superiores fossem derrotados e mortos. Ela não era idiota, sabia que uma nova Era estava se iniciaria assim que os guardiões das brechas fossem derrotados, um a um.

No entanto, começava a ficar bastante curiosa para saber a história de Li. Tentara falar com ele uma ou duas vezes, mas o diálogo foi monossilábico. Ele só falava mais com Arthas e, mesmo assim, de forma comedida. Arthas, por outro lado, mostrava claramente que o adorava. E, obviamente, isso devia ser porque o Garotão salvara o pescoço dele outras vezes.

No último confronto que tiveram, Li tinha saído bem machucado, mais por consequência de tentar salvar a pele de Tadmoth, que era por demais imprudente, do que por erro dele. Reparou que ele tinha o poder de cicatrização, o que era bem raro também. E, o que mais a intrigava, era o porquê daquele autocontrole imenso para não expandir demais seu poder. Era como se ele não quisesse perder o controle.

Isso simplesmente não fazia sentido para ela. Apesar dele ser um demônio, a alma continuava como a de um estúpido humano.

‘Acho que seria melhor descansarmos um pouco.’ Arthas comentou.

‘Se já estamos aqui, é melhor chegarmos logo até o tal do Typhon’. Li murmurou. Para variar estava com pressa. ‘Você descansa enquanto estivermos lutando contra ele.’ Completou sem parar o passo.

Midoriko sorriu de forma irônica. Ele havia começado a usar o plural há algum tempo para não arranjar atrito com Tadmoth, mas estava na cara que quem lutaria seria apenas ele.

‘Você está com pressa demais, Garoto.’ Arthas retrucou. ‘Eu sou um demônio poderoso e preciso recuperar minhas forças. Vai que precise ajudar vocês na próxima luta? Preciso estar na minha melhor forma física.’

‘Para de enrolar, Arthas. Vamos logo.’ Li reclamou e, no final, acabou fazendo o grandão desistir de parar.

‘Estamos quase chegando.’ Tadmoth falou. ‘Provavelmente a brecha deve estar naquelas ruínas.’ Apontou.

Li levantou o rosto e fitou as ruínas do que parecia ser um templo ou coisa assim. Tudo naquele inferno era assim. Olhou de esguelha para Arthas que se tornava sempre reticente e cauteloso quando se aproximavam dos seus destinos. O grandão gostava mais era das viagens onde podia ficar falando um monte de besteira e, no máximo, lutavam contra demônios mais fracos. Quando o bicho pegava, ele já se esquivava.

Depois que tinha perdido Luthor na luta contra Tichondrius, Arthas tornara-se bem medroso, talvez a perda do companheiro o tivesse afetado mais do que ele mesmo gostaria de admitir. Não era à toa que já tinha perguntado, umas não sei quantas vezes, para Li se não gostaria de permanecer no mundo das trevas para que os dois juntos dominassem um daqueles vales, desertos ou sabe-se lá o quê, que, no final, não passava de um monte de areia sob aquele céu em chamas e aquele calor insuportável. Realmente, para Li, não fazia muito sentido querer dominar droga nenhuma daquele lugar.

Pararam em frente às ruínas. Li conseguia já perceber a presença dos portais quando se aproximava de um. No fundo, adorava rever a luz multicolorida que tanto o lembrava de Sakura. Era incrivelmente prazeroso apreciar aquela fonte de luz.

‘Bem…’ Li falou, dando um passo à frente. ‘Acho que é aqui mesmo.’ Levantou os olhos, analisando as ruínas. Franziu a testa percebendo que a presença de Typhon era bem forte. Os inimigos estavam se tornando cada vez mais fortes. Tadmoth não era de todo burro, estava seguindo um caminho crescente de dificuldade dos guardiões dos portais. Li pensou que, destruindo aquela, faltariam mais nove apenas.

Tadmoth parou a frente de Li e o encarou. ‘Nem pense em me ajudar desta vez. Não preciso e não quero sua ajuda, entendeu?’ Falou.

Li ergueu uma sobrancelha. Se ele não tivesse intervindo na última luta, o cara que estava lhe enchendo o saco agora estaria morto. ‘Preciso que você fique vivo até que eu chegue a última brecha.’ Ele respondeu.

Tadmoth trincou os dentes. ‘Se me ajudar, eu juro que o mato. Não quero dever nada para você.’

Li suspirou tentando controlar a irritação, deu um passo para o lado desviando-se dele. ‘Vamos terminar logo com isso.’

Midoriko acompanhou o diálogo entre os dois. Li continuava mantendo-se diplomático, apesar de ela ter reparado que ele cerrou os punhos, controlando a vontade de dar um murro em Tadmoth. Sorriu de lado. Isso estava ficando muito interessante, adoraria ver até onde o Garotão conseguiria segurar aquela raiva toda. Ela era um demônio feminino, entrar na mente e no inconsciente masculino era extremamente interessante e prazeroso.

Arthas, como sempre, tinha encontrado algum lugar para sentar e descansar, enquanto os três entravam para desafiar o guardião da brecha. Ela caminhou até ele e o encarou. ‘Você realmente é um inútil.’ Murmurou com desprezo.

Arthas daria uma resposta, mas reteve-se ao encarar o olhar frio dela. Era melhor não começarem a brigar. O grandão desviou os olhos dela. ‘Minha missão é outra.’ Falou como resposta.

‘Humph…’ Ela murmurou antes de seguir atrás de Li e Tadmoth que adentravam as ruínas.

Li franziu a testa, observando o local. ‘O que sabe deste demônio?’ Perguntou para Tadmoth.

O guerreiro tirou a espada das costas e a segurou a frente do corpo. ‘Está com medo, Garoto?’

Syaoran rodou os olhos. O cara era realmente um idiota. Para um guerreiro ele era bem limitado. Deveria saber que conhecer o inimigo é meia batalha vencida. ‘Que tipo de demônio é? Cospe fogo, feiticeiro, lutador, idiota…?’

“Igual a você”, pensou, mas reteve-se para não iniciar mais uma das inúmeras discussões que tinha com ele.

Tadmoth olhou para o rapaz e semicerrou os olhos nele. ‘É um demônio grande pelo que eu sei. Possui várias cabeças, humanas e em forma de serpente.’

‘Conhece se tem alguma fraqueza?’

‘Se eu soubesse, com certeza, não lhe diria.’

‘Claro…’ Li retrucou. ‘Desde que o derrote, você não precisa me falar nada.’

Realmente o cara não queria colaborar com nada.

‘Normalmente, a fraqueza deste tipo de demônio são as cabeças humanas.’ Midoriko falou, chamando a atenção de Li. Era a primeira vez que ela falava algo que realmente ajudaria. Ponderou, apenas, se seria verdade ou não a informação. Ela parou a frente dele, encarando-o. ‘Sempre a parte humana é a mais fraca, entendeu?’

Ele concordou com um gesto e voltou a caminhar, adentrando as ruínas. A presença da brecha estava cada vez mais próxima, mas conseguia sentir duas outras presenças fortes. Materializou a espada e começou a avançar com cautela, observando o local.

‘São dois…’ Li murmurou, avisando os dois demônios que estavam com ele.

‘Impossível.’ Tadmoth retrucou. ‘Existe apenas um demônio protegendo cada brecha.’

‘Estou avisando… existem duas presenças. São dois.’ Reafirmou.

Li franziu a testa, realmente começava a se preocupar pensando que não contava com dois demônios superiores de uma só vez. Concentrou-se para identificar onde os dois adversários estavam. Arregalou os olhos, levantando o rosto e olhou para cima, vendo as duas criaturas que estavam de tocaia acima deles.

‘Estão em cima.’ Alertou e, logo, as duas criaturas pularam no chão, produzindo uma grande onda de choque que atingiu os três demônios, fazendo-os serem jogados para trás até baterem em alguma parte das ruínas.

Syaoran se levantou, balançando a cabeça de leve. Franziu a testa encarando as duas criaturas, exatamente como havia percebido antes. Droga. Olhou de esguelha e viu que Tadmoth e Midoriko também tentavam se levantar depois do forte e inesperado golpe.

As duas criaturas gritaram na direção deles, tinham cinco cabeças cada. Duas humanas e três de serpentes. O corpo era formado por dois pares de braços com garras afiadas e apenas um par de pernas. Li semicerrou os olhos. Eles eram desproporcionais. A base era fraca, mesmo que as duas pernas fossem robustas e fortes. Duas das mãos estavam armadas com espadas ou machados.

Sabia que não conseguiria dar conta dos dois ao mesmo tempo.

‘Eu cuido de um e vocês dois do outro!’ Ele gritou para Tadmoth que nem conseguiu responder, pois o chinês já estava correndo na direção de um dos monstros. Precisava separá-los para que tivessem uma chance de vencê-los. Correu o mais rápido que pôde.

Tadmoth observou o garoto ir direto contra o monstro e soltou um palavrão, chamando-o de maluco.

Syaoran se abaixou, escorregando e passando por baixo das pernas de um deles. Com a espada tentou cortar fora uma das pernas, porém apenas a feriu, fazendo o monstro cair de joelhos e por pouco não ir ao chão. A pele do monstro era mais resistente do que havia previsto.

Estando de costas para o animal, flexionou os joelhos para pegar impulso e pulou até uma parte da ruína, apenas para ajudá-lo a aumentar a distância do salto e alcançar a altura das cabeças do monstro para tentar atingir uma das cabeças humanas, porém foi atingido pelo machado de uma das mãos e voou até novamente colidir às ruínas, destruindo parte da construção e caindo finalmente no chão.

Não teve nem tempo de levantar e já sentiu a aproximação da criatura que tentou atingi-lo com a espada que trazia na outra mão. Rolou, evitando o impacto e levantou-se, voltando a correr em direção ao oponente. Tinha que achar um jeito de cortar aquelas duas cabeças. A criatura tentou golpeá-lo com a espada, que se chocou com a de Li, mas fora atingido pelo cabo do machado nas costas. Caiu no chão. O cara era mais forte do que pensava. Seria golpeado novamente se não esquivasse na última hora. Tinha que dar um jeito de desarmar aquele monstro.

Correu novamente na direção dele e quando estava próximo o suficiente, pegou um de seus talismãs. ‘Deus do Trovão, vinde a mim!’

A magia atingiu uma das mãos do monstro, que acabou soltando o machado, mas não parou a espada que vinha em sua direção, tentando acertá-lo. Desviou no último segundo e a lâmina passou a milímetros de seu abdômen, mas acabou sendo mordido no ombro por uma das cabeças de serpente.

Sentiu a perfuração dos dentes no corpo e mordeu os lábios, evitando soltar um grito pela dor lacerante, trocou a espada de mão, segurando-a apontada para baixo e cravando-a na cabeça da criatura que ainda segurava seu ombro. Chutou com força a outra cabeça que estava pronta para mordê-lo, também, mas teve a perna direita aprisionada por uma das mãos que rodou o corpo do rapaz, jogando-o novamente contra as ruínas.

Levantou-se sentindo o corpo doer. Fitou, rapidamente, Midoriko e Tadmoth lutando contra o outro monstro. Também não estavam numa situação melhor que a dele. Droga. Tinha que dar um jeito ou acabariam os três morrendo ali.

Correu em direção ao monstro, flexionou os joelhos e saltou por cima dele, esquivando-se das inúmeras tentativas de atingi-lo. Pegou o cabo da espada, que ainda estava cravada numa das cabeças do monstro, e girou, chutando outra cabeça dele. Pegou outro talismã. ‘Deus do fogo, vinde a mim!’ Gritou atingindo, finalmente, uma das cabeças humanas.

O monstro urrou de dor enquanto suas mãos tentavam apagar as chamas mágicas que consumiam uma das duas cabeças humanas da fera.

Assim que o rapaz tocou o chão, abaixou-se e atingiu uma das pernas do animal, cravando a espada com força e penetrando, assim, na resistente pele do monstro. Chutou com força o cabo da própria espada aumentando o impacto do golpe e, finalmente, cortando o membro inferior do monstro de maneira que ele não tivesse mais o apoio de uma das pernas.

O monstro caiu no chão, tentando se segurar com as quatro mãos. Li pegou a espada e saltou novamente em cima do demônio, cortando a segunda cabeça humana e fazendo-o virar pó. Pousou no chão com a respiração ofegante pelo esforço físico intenso e a força que teve que usar para desferir os golpes.

Virou o rosto, vendo, por sobre o ombro esquerdo, que Midoriko estava sendo golpeada sem trégua pelo monstro enquanto Tadmoth já estava caído com o corpo coberto de sangue. Esperava que o infeliz estivesse apenas inconsciente, e não morto, ou ele e Arthas teriam problemas para achar as outras brechas. Levou uma mão ao abdômen que tinha um enorme ferimento causado pela luta e o ombro ardia demais pelas perfurações dos dentes do animal.

Midoriko foi golpeada, caindo ao chão e mal conseguindo se levantar. Seria atingida em cheio pela espada da fera, se Li não se colocasse a frente dela, bloqueando o golpe com sua espada. Logo depois, foi atingido pelo martelo e arremessado contra a parede. No entanto, o rapaz virou o corpo e, assim que alcançou a parede, tomou impulso, voltando na direção do monstro com velocidade. Girou o corpo com a espada a sua frente e cortou a primeira cabeça humana do segundo monstro.

Foi atingido nas costas, novamente; a arma que o demônio tinha em mãos causou-lhe um talho profundo. Caiu no chão, fazendo um rolamento para evitar a queda brusca, e levantou-se em seguida, correndo na direção deste para não lhe dar tempo de reagir de alguma outra forma.

‘Flores do vento, venham a mim!’ Invocou sua magia, fazendo o redemoinho de vento se formar a partir das pernas do inimigo, desequilibrando-o e fazendo-o cair no chão. Tentou, novamente, aproximar-se para golpeá-lo, mas foi mordido, no braço que segurava a espada, por uma das cabeças de serpente enquanto outra cabeça o mordeu na perna, prendendo-o. A terceira tentava segurar a perna livre, mas o rapaz conseguiu ignorar a dor das perfurações e chutá-la, evitando, assim, ficar completamente imobilizado.

Pegou sua espada com a mãos esquerda, que estava livre, apesar de não ser canhoto, e o golpeou com fúria a segunda cabeça humana, decepando-a. O demônio, finalmente, virava pó e sentiu-se livre das presas peçonhentas. Caiu de joelhos, exausto. Estava com o corpo cheio de perfurações e cortes que sangravam. Também sentia o corpo dolorido por ter sido golpeado diversas vezes.

Tentou controlar as dores que o poder de Luthor lhe causavam, mas sabia que aquela ardência era necessária para a cicatrização de seus feridas. Em volta dele, havia uma imensa poça do seu próprio sangue. Fechou as mãos, segurando a areia melada e mordeu os lábios para não gritar de dor.

Tinha que ser forte, precisava ainda destruir outras nove brechas para voltar para casa. Levantou o rosto vendo a bela luz multicolorida surgir depois que o segundo monstro foi derrotado. Sorriu de leve, lembrando-se de Sakura. Precisava continuar. Ela estava esperando por ele.

Midoriko observou o rapaz banhado de sangue se levantar e estender o braço, fazendo a espada caída no chão voar até sua mão. Apesar de ferido, ele deu alguns passos, aproximando-se da luz com aquele sorriso idiota na cara. Ela franziu a testa, não conseguia entender o porquê de ele, estando completamente ferido daquela maneira, levantar-se apenas para se aproximar da brecha. Ela levantou-se com a mão no braço direito onde também havia um enorme ferimento causado durante a luta.

‘Afaste-se!’ Ela ordenou. ‘Você não pode atravessar ainda.’

Ele virou-se para trás, olhando-a por sobre o ombro e franziu a testa. ‘Não se meta.’ Respondeu e voltou-se para a luz, mas sentiu a aproximação dela e virou-se, rapidamente, encontrando-a pronta para golpeá-lo pelas costas.

Bloqueou o ataque com o braço esquerdo e encarou-a. Ela o atacou novamente e, apesar de Li tentar desviar das garras de sua mão, acabou tendo o rosto cortado. O rapaz trincou os dentes e, sem pena, acertou com o punho da espada em cheio no rosto dela, fazendo-a girar e cair no chão. Não gostava de lutar contra mulheres, mas aquele demônio já o estava irritando demais.

Arthas se aproximou deles e encarou Li, viu a briga dos dois. ‘Afaste-se, Garoto. Ainda não é a sua hora.’

Syaoran ainda o encarou por alguns segundos antes de se afastar, passou por Midoriko que se levantava depois de ter sido atingida por ele.

‘Da próxima vez que tentar me atingir pelas costas, eu corto o seu pescoço.’ Ele falou para ela.

Midoriko levantou o rosto, observando-o se aproximar de Tadmoth, chamando-o para que acordasse logo. Ele queria que, assim que Arthas destruísse a brecha, já começassem a jornada até a próxima.

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Sakura levantou-se da cama se debatendo. Tinha a respiração entrecortada e os batimentos cardíacos acelerados. Fechou os olhos e sentiu o suor escorrer pelo rosto e corpo. Era mais um pesadelo que tivera com Syaoran. Levou uma das mãos ao rosto e fechou os olhos tentando se acalmar. Era só um pesadelo. Syaoran estava bem. Ele logo estaria com ela. Tinha que acreditar nisto. Tinha que confiar nele.

Ficou vários minutos sentada na cama, olhando para o nada e esperando se acalmar. Estava num dos quartos de hóspedes da casa de Eriol e Kaho. Não queria voltar para a casa que tinha com Syaoran e também não gostaria de voltar a morar com Touya ou Tomoyo. Estava ali apenas temporariamente. Até Syaoran voltar. Ele voltaria. Logo.

Passou a mão no cabelo molhado de suor e jogou a cabeça para trás, soltando um suspiro sofrido. Aquela maldita sensação ruim lhe espremia o coração de tal forma que, algumas vezes, parecia que ele parava de bater. Sentiu o corpo trêmulo. Tentou se levantar e cambaleou um pouco, obrigando-se a segurar na cabeceira da cama. O que realmente estava acontecendo com ela?

Levantou-se, novamente, e sentiu algo viscoso e grudento sob os pés descalços no chão. Tentou dar um passo a frente para alcançar o interruptor do abajur, mas escorregou no líquido caindo sentada no chão. O quarto todo parecia estar com aquele negócio no chão. Sentiu aquele cheiro que sempre lhe embrulhava o estômago.

“É sangue.” Ouviu a voz de Syaoran ressoando em sua cabeça. Foi ele quem a ensinara a identificar aquele cheiro.

Levantou a mão melada a altura do rosto e, mesmo com a fraca luz que vinha pela janela, conseguiu vê-la tingida de vermelho. Arregalou os olhos em pânico.

‘Syaoran!’ Ela gritou, tinha certeza que o sangue era dele. ‘Syaoran!’ Chamou novamente pelo namorado, tentando se levantar e novamente seus pés escorregaram naquela imensa poça de sangue. Segurou-se aos lençóis próximos da cama, conseguindo erguer o corpo e ficar de pé. ‘Luz!’ Invocou sua magia e o quarto foi iluminado pela carta mágica.

Olhou assustada para Sonho que estava a sua frente. Não era possível ver os olhos da carta, cobertos pela máscara que usava, mas Sakura sabia que olhava diretamente para ela, com o semblante extremamente sério e os lábios contraídos. Os braços estavam levantados na altura do peito, mas se abaixaram, apontando para a enorme poça de sangue aos pés da jovem, que agora a cobria completamente.

Sonho havia sido capturada por Syaoran na torre de Tókio. Ela lembrava-se perfeitamente daquele dia. Ele tinha ficado bem mal, após conseguir, além de capturá-la, fazer com que Sakura saísse de sua influência.

‘É dele?’ Sakura perguntou, mesmo temendo pela resposta. A carta confirmou com a cabeça e Sakura sentiu os olhos arderem. ‘O que eu faço?! Por Deus! Diga-me o que posso fazer!’ Ela pediu, olhando para a carta que não respondeu. Mantinha ainda a mesma expressão séria.

A feiticeira levantou-se, firmando os pés no piso escorregadio, e deu um passo a frente em direção a carta. ‘O que eu faço?!’ Gritou para ela que, ao invés de responder, desapareceu, permitindo a manifestação de Ilusão.

A frente de Sakura a figura abstrata de Ilusão começou a tomar a forma de Syaoran. Sakura deu um passo a frente, estendendo a mão para alcançá-lo, mas ele desapareceu antes que conseguisse e o que ela viu foi a areia quente sob seus pés e o céu em chamas. Deu uma volta em torno do corpo, observando aquele deserto e sentindo o cheiro de enxofre no ar. O calor queimava-lhe a pele, fazendo-a suar ainda mais. A camisola agora estava suja de sangue e suor. Ela olhava atordoada para aquele lugar, o que as cartas estavam querendo lhe dizer? O que significava aquilo?

‘Sakura!’ Ela ouviu a voz de Eriol, mas a feiticeira nem precisou solicitar que Cadeado se libertasse e impedisse o ex-mestre de entrar no cômodo em que a jovem estava. As cartas agiam de forma completamente independente, porém era nítida a proteção que elas tinham para com sua mestra. Cadeado estava informando a Eriol que ele não deveria intervir.

‘Eu tenho que ir atrás dele, não é?’ Ela perguntou, mas já sabia qual era a resposta, não precisava nem ouvi-la. Cerrou os punhos e fechou os olhos. Ela daria um jeito de sobreviver lá. Nem que ficasse com o corpo todo queimado, não importava, ela iria atrás de Syaoran. Sabia que havia uma maneira, pois Shyrai havia sobrevivido.

Sakura olhou rapidamente para a porta onde Eriol e Kaho batiam de forma frenética. Sorriu de lado ao ver uma pequena e faceira fadinha a sua frente. Ela fez um gesto, permitindo que fizesse o que estava planejando. Foi até o armário, praticamente rasgando a camisola do corpo e colocando a primeira roupa que encontrara. Correu, sabendo que as cartas viriam com ela. Cadeado destrancou e abriu a porta para ela. Eriol, Kaho e os guardiões do amigo estavam adormecidos em frente à porta.

‘Movimento!’ Ela sussurrou e a chave de Eriol apareceu entre seus dedos.

Sentia pelo amigo, mas tinha que ir até Syaoran. Ele precisava dela. Ela sentia isso. Não tinha mais tempo a perder procurando em teorias por métodos de sobreviver no inferno. Ela sobreviveria. Como? Ainda não sabia, mas tinha certeza que encontraria a resposta.

Correu pela mansão, pulando por sobre os móveis para chegar o quanto antes à porta. Cadeado a abriu, sem que ela nem ao menos solicitasse e Alada logo surgiu em suas costas. Ela apenas flexionou os joelhos e levantou voo, cortando os céus de Tomoeda em alta velocidade. Ela precisava ir para lá. Tinha que ser agora. Estava seguindo em direção a Torre de Tókio, mas reteve-se, planando no ar.

‘Preciso deixar vocês com alguém…’ Ela sussurrou.

Sentiu uma fisgada no peito, mas sabia que não poderia levá-las consigo. As cartas não queriam voltar para lá, ela sabia disto. Estavam felizes vivendo com um mestre que as amava. Não seria justo levá-las com ela. Fechou os olhos em total desespero sem saber com quem deixaria suas queridas amigas.

Não poderia deixá-las com Eriol. Ele a impediria de ir para o mundo das trevas enquanto não descobrissem como Shyrai havia conseguido sobreviver lá. Aquelas pesquisas poderiam durar anos, séculos... a eternidade. Deixá-las com o irmão e Tomoyo seria perigoso para eles. Eles não tinham poderes e ela sabia que, no mundo da magia, as cartas eram visadas.

Deixar com Yelan estava fora de cogitação. Não confiava mais na mãe de Syaoran depois que soube o que ela permitiu que o filho passasse quando retornou para Hong Kong. Nenhum Li, que não fosse Syaoran, jamais chegaria perto das cartas novamente. Então, quem? Quem poderia ficar com elas até que voltasse com Syaoran ou, se o pior acontecesse, seria capaz de guardá-las e escolher outro mestre para elas? Quem? Quem?

Estava beirando ao desespero quando…

‘Pelo visto não sou apenas eu que tenho problemas com o meu clã.’

Ela escutou a manifestação de Voz, imitando o namorado. Sorriu de lado e balançou a cabeça. Não. Aquela voz não era de Syaoran, apesar de ser extremamente parecida. Pensou que nunca mais precisaria procurá-lo, mas agora ele era sua única alternativa.

Olhou em volta para o céu estrelado e a cidade ao horizonte. Semicerrou os olhos, concentrando-se. Desde que tinha voltado à vida, depois de ser alvejada por Yanamoto, conseguia perceber a presença dele com mais clareza. Fechou os olhos, pensando que ele a chamaria de garota louca como da outra vez, mas também sabia que ele não se recusaria em ajudá-la.

Virou-se para a esquerda, percebendo que a presença vinha daquela direção. Abriu os olhos. Naquele momento, a aura dele não estava expandida como das outras vezes que a sentira, mas era suficientemente forte para guiá-la. Girou o corpo e as asas angelicais cortaram o céu do Japão em alta velocidade. Agora, ela tinha pressa.

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Syaoran caminhava devagar demais, como sempre, naquele maldito lugar. Como ele odiava estar ali! Passou a mão pelos cabelos molhados de suor e olhou para o céu em chamas, estava pensando demais em Sakura. Droga. Estava desesperadamente com saudades da jovem feiticeira. Faltavam ainda mais oito brechas para eles destruírem.

Tinham acabado de sair dos domínios de Miroki, o demônio que protegia a brecha que há poucos instantes destruíram. Miroki fora um Feiticeiro das trevas e, verdade seja dita, a luta contra ele tinha sido a pior para Syaoran.

O maldito bruxo tinha entrado na sua mente, fazendo-o ver coisas que nem em seus piores pesadelos tinha visto. E todos eram com Sakura. Passou a mão pelo rosto, tentando esquecer as malditas imagens da namorada sendo espancada e coisas piores. Caiu no chão de joelhos. Tinha um imenso ferimento no abdômen que ainda não havia parado de sangrar, pois fora profundo demais.

‘Ei, Garoto!’ Arthas foi até Li, abaixando-se até ele preocupado. ‘Você precisa descansar.’

‘Não!’ Li gritou. ‘Inferno! Por que não me deixou passar por aquela brecha para, pelo menos, ver como ela estava?!’ Ele esbravejou com raiva, empurrando o braço enorme do demônio para se afastar dele. Tentou se levantar, mas cambaleou.

‘Você não pode passar ainda.’

‘Era só para vê-la!’ Ele gritou para Arthas. ‘Eu precisava vê-la. Saber que ela está bem! Depois eu voltaria para esta merda de lugar!’

‘Você não voltaria!’

‘Vai a merda, Arthas!’ Li gritou. Tentou se levantar, novamente, mas voltou a cair de joelhos. Uma das mãos estava por cima do corte enquanto a outra estava ainda sobre o rosto.

Arthas repousou a mão no ombro de Li. ‘Foram apenas imagens. Ilusão. Nada daquilo que viu foi real.’ Falou mais uma vez.

Li trincou os dentes. ‘Aquele desgraçado… ele...’

‘Ela não está aqui. Ele nunca se aproximou dela.’ Arthas falou novamente. ‘Agora para de ser cabeça dura! Você precisa descansar.’

Midoriko e Tadmoth observavam os dois. A luta de Miroki tinha deixado os três bastante feridos, mas o pior realmente tinha ficado com Li. Miroki torturou mentalmente o rapaz o quanto pôde enquanto o surrava. Tadmoth pensou, pela primeira vez, que o garoto realmente morreria. Não soube nem ao certo como ele conseguiu sair do transe para desferir o golpe certeiro que matou o feiticeiro das trevas.

E, para complicar ainda mais a situação, Li realmente esteve prestes a atravessar a brecha que Miroki protegia. Arthas quase acabara morto pelo rapaz que estava enlouquecido. No final, Tadmoth e Midoriko tiveram que lutar contra ele para ganhar tempo até Arthas destruir a brecha. Por muito pouco ele não matou os três.

Li se levantou com a mão no corte e respirou fundo, empurrou Arthas com raiva e voltou a caminhar. ‘Vamos logo para a próxima maldita brecha.’

Midoriko se aproximou de Arthas que observava Li, pela primeira vez, tomar a liderança, caminhando a frente e arrastando-se enquanto o poder de Luthor ainda não o curara completamente.

‘Quem é Sakura?’ O demônio feminino perguntou, também observando o rapaz se afastar.

Arthas olhou de esguelha para ela. ‘Eu não sei do que você está falando.’ Ele se fez de desentendido.

‘Ele gritou este nome durante todo o tempo que estava sendo torturado por Miroki.’ Ela respondeu. ‘Não sou idiota, Arthas. É o nome da tal fêmea dele?’

‘E o que isso lhe interessa, Midoriko?’ Arthas perguntou. ‘Quando tudo acabar, ele voltará para onde estava, assim como você terá o seu prêmio também. Todos nós estamos aqui em troca de algo. Não é do seu feitio ficar interessada nos outros. Principalmente quando estes não querem o mesmo que você.’

‘Curiosidade, meu caro. Curiosidade.’ Ela respondeu com um sorriso zombeteiro. ‘É excelente saber que o Garotão ali tem um enorme ponto fraco.’

Arthas franziu a testa. ‘O que você está tramando? Você precisa dele tanto ou mais do que ele de você.’

‘Eu sei…’ Ela respondeu, voltando a caminhar. ‘Mas é sempre bom saber como manipular os homens. Principalmente homens apaixonados.’

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Sakura voava pela noite sem lua. Não sabia exatamente para onde estava indo, apenas perseguia a presença dele que ficava cada vez mais próxima.

Olhando do alto verificou que estava numa área quase agrícola, com poucas construções; os últimos arranha-céus pelos quais passara tinham ficado para trás fazia alguns minutos. Ela cruzou por extensos campos abertos que deduziu serem plantações de arroz. Franziu a testa, pensando que nunca havia imaginado que ele estaria num lugar tão pacato quanto aquele.

Pairou no ar, verificando que estava próxima agora. Olhou para baixo e verificou uma área descampada e, em frente a ela, uma construção em estilo tradicional. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Conseguia sentir agora várias presenças que antes lhe eram estranhas. Não eram feiticeiros. O que estaria acontecendo com ela?

Por alguns segundos, ficou se perguntando se isso era realmente o certo a ser feito, mas agora não tinha como voltar atrás. Tirou a chave de Eriol do bolso e a apertou com mais força na mão. O amigo ficaria irado com ela quando acordasse. Esperava apenas ser rápida o suficiente para que ele não a alcançasse antes dela fazer o que precisava.

Pousou na rua e as asas sumiram de suas costas. Levantou o rosto observando a construção. ‘Pousada Funbari.’ Leu na fachada.

Sorriu de lado. Por esta ela, realmente, não esperava. Ele não parecia do tipo que ficava hospedado em uma pousada com ar tão familiar.

Fechou os olhos e respirou fundo. Agora não tinha como retroceder. Novamente sentiu aquele arrepio pela coluna. Que inferno. Eram muitas as presenças estranhas que sentia agora. Mas que diabos eram elas?

Ouviu um barulho e abriu os olhos. Provavelmente ele também tinha sentido a presença dela se aproximando. Estava com aquele sorriso irônico na cara que ela detestava.

‘É noite de lua nova. A escuridão insere medo nos corações dos homens, mas as estrelas brilham mais forte por isso.’ Ele falou, debruçando-se no batente da porta e a fitando.

Sakura ergueu uma sobrancelha. ‘Não sabia que era tão poético...’

Ele levantou o rosto e fitou o céu estrelado. ‘Às vezes.’

‘E também não imaginava que gostava em ficar em lugares tão afastados. Pelo que eu saiba os clãs adoram colocar os membros em lugares luxuosos.’

‘Acho que você não sabe nada mesmo sobre os xamãs, não é?’

Sakura franziu a testa. ‘Você sabe que eu não sou uma.’

Ele meneou a cabeça. ‘Será?’ Perguntou em tom irônico.

Sakura estreitou os olhos nele, sabia que ele não era de fazer aquele tipo de irônia a toa. Mas agora não tinha tempo para tirar a limpo a insinuação. Respirou fundo e deu alguns passos em direção a ele. ‘Preciso de um favor.’

‘Outro?’ Ele falou rindo. ‘Não tem mais como eu fazer um kyonshi.’

‘Eu não pediria isso de novo.’ Ela falou séria e ele a encarou, confirmando com a cabeça.

‘Acho que precisamos conversar.’ Ele se endireitou, apontando para dentro. ‘Além disso, Anna mandou você entrar.’

Ela ergueu uma sobrancelha e balançou a cabeça, seriamente. ‘Eu não tenho tempo.’

‘Não percebi mais a presença dele.’ Ren comentou. ‘Acho que é por isso que você está aqui, não?’ Ela confirmou com a cabeça.

‘Preciso que tome conta de algo para mim enquanto eu estiver fora.’ Sakura parou na frente dele, encarando-o. ‘Não tem como eu deixar com outra pessoa. Por incrível que pareça, você se tornou minha única alternativa.’

‘Então você realmente deve estar bem enrolada.’

Ela respirou fundo, tentando controlar a ansiedade. Tinha pressa. Estava nervosa por simplesmente ter roubado a chave de Eriol. Tentaria abrir um portal que mal sabia se conseguiria controlar e aquele maldito aperto do coração ainda a sufocava. Não queria conversar. Queria apenas deixar as cartas com ele e pronto.

‘Não concordarei com nada do que pedir se não entrar para conversarmos.’ Falou de forma dura. ‘Não vai adiantar nada esse seu desespero. Da outra vez, você não pensou direito e quase faz uma besteira. Melhor ficar fria, entendeu?’

Inferno! Parecia que todo chinês que conhecia sempre tinha o mesmo discurso! Ficar fria. Como?

Concordou com a cabeça. ‘Você realmente é muito parecido com ele.’ Murmurou.

‘Humph.’ Ele soltou incomodado com a colocação dela.

‘Hei, Ren!’ Os dois ouviram uma voz de dentro da pousada. ‘Não é à toa que você não consegue arranjar uma namorada!’ Um rapaz com ar despreocupado apareceu ao lado do chinês, olhando para Sakura e sorrindo. ‘Não a convidou para entrar, não?’

‘Ela é que é teimosa demais.’ Ren falou irritado. ‘E você não deveria se meter nisto, Yoh.’

O rapaz continuava sorrindo. ‘A Anna está curiosa para conhecê-la.’ Ele falou para Sakura que olhava de um para o outro. ‘Hei! Não precisa ficar com medo. De algum jeito, tudo se acerta.’

Sakura arregalou os olhos de leve, observando-o. Desviou os olhos dele. ‘É… eu espero que sim.’ Ela suspirou e depois voltou a fitar Ren. ‘Você vai mesmo me obrigar a isso, não é?’

Ele assentiu com a cabeça. ‘Você precisa ouvir algumas coisas, garota. E começar a colocar a cabeça no lugar.’

Sakura se aproximou deles e Yoh abriu mais o sorriso, dando passagem para que ela entrasse. A ruiva ainda encarou Ren mais uma vez antes de entrar. ‘Espero que desta vez a gente não precise brigar.’

‘Eu também.’ Ele respondeu. ‘Apesar de que, agora… acho que seria bem mais interessante.’

Ela semicerrou os olhos nele. ‘Você me dá calafrios, sabia? O que era aquela coisa com você quando eu o vi do lado de fora da minha casa?’

‘Agora não está mais com pressa?’ Ele retrucou, desconversando.

‘Humph’. Ela murmurou e o viu fazer um gesto para ela ir em frente. Sakura desviou os olhos dele e seguiu o outro rapaz pela residência. Sentiu aquele arrepio novamente percorrer a espinha e se abraçou esfregando as mãos nos braços. Eram tantas presenças diferentes que ela se sentia perdida.

‘Hei… então foi verdade que você deu uma surra no Ren?’ Yoh perguntou sorrindo, virando-se para Sakura.

‘Ela não me deu uma surra!’ Ren falou mais alto. ‘Dá para parar com a palhaçada?’

Yoh riu. ‘Não foi bem isso que a Jun contou para a Anna.’ Ele ainda retrucou.

‘Minha irmã não sabe do que está falando! Vamos logo antes que a Anna comece a gritar e aí… o problema vai ser seu!’

Yoh não parou de rir, Sakura olhou Ren sobre o ombro direito e não teve como não achar graça da cara contrariada dele. Voltou a olhar para Yoh que sorria para ela. Acabou sorrindo de forma sincera. De certa forma, ele transmitia tanta tranquilidade que era impossível não se deixar envolver pelo carisma dele.

‘O Bason falou para o Maru que você era muito bonita.’ Ele falou divertido.

‘Bason?’ Sakura perguntou sem entender. Tinha ouvido Ren falar aquele nome antes.

‘Vamos logo, Yoh!’ Ren apressou o amigo.

Yoh riu novamente e Sakura percebeu que ele estava era provocando Ren. Assim como Touya adorava provocá-la.

Chegaram numa sala com uma mesa baixa onde uma jovem de longos cabelos louros, vestida num quimono servia quatro xícaras de chá. Ela levantou os olhos negros e fitou Sakura que estaqueou. Sentia que a presença dela era forte demais, mas também era diferente de todas as que tinha sentido anteriormente. Não tinha como não sentir receio.

Anna ainda ficou alguns segundos observando Sakura e soltou um suspiro, mostrando um pouco de irritação. ‘Isso que dá quando se adquire poderes sem o devido treinamento.’ Ela soltou. ‘Você não tem mesmo ideia do que está acontecendo, não é?’

Sakura engoliu em seco. ‘Não sei do que está falando.’

‘Aquele seu amigo, ou sei lá, que é a reencarnação de Clow, deveria ter explicado melhor as coisas. Pelo menos agora você não estaria me olhando com essa cara de boba e tremendo de medo.’

‘Não estou com medo.’ Sakura falou de forma firme. ‘Estou com pressa.’

‘Sentem-se.’ Anna ordenou e foi logo obedecida por Yoh e Ren.

‘Mandei ficar fria.’ Ren ainda falou para Sakura quando passou por ela.

A ruiva adoraria dizer que não queria droga de chá nenhum. Cerrou os punhos, tentando controlar a vontade de começar a xingar Ren ou de dar meia veia volta e começar a pensar em outra alternativa. Fechou os olhos e lembrou que não tinha outra alternativa. Mordeu o lábio inferior e caminhou, sentando-se à mesa a contragosto. Olhou para os dois que começavam a beber o chá de forma tranquila e depois fitou Anna que bebia um gole demorado.

‘Acho melhor você se acalmar primeiro.’ Ela falou para Sakura.

A Feiticeira já estava de saco cheio. Não era hora de beber chá. Ela precisava abrir logo um portal. Daqui a pouco Eriol conseguiria localizar a presença dela. Não queria brigar com o amigo.

‘Então você quer realmente ir para lá?’ Anna falou, de repente, chamando a atenção de Sakura. ‘Tem certeza disto?’

Sakura franziu a testa. ‘Você tá lendo a minha mente?’

‘Você é realmente mais louca do que eu podia imaginar’. Ren soltou. ‘Então, agora, ao invés de trazê-lo de volta, você quer ir atrás dele? Isso é patético.’

‘Hei! O que eu vou fazer não interessa a ninguém!’ Sakura falou na defensiva. ‘Eu só vim aqui para falar com você.’ Ela falou encarando Ren e depois fitou os outros dois. ‘Não tenho a menor ideia de quem são vocês!’

Yoh sorriu para ela. ‘Verdade… o Ren não nos apresentou… Embora todos nós já saibamos quem é você, Sakura Kinomoto.’ Ele falou para Sakura. ‘Eu sou Yoh Asakura e esta a minha esposa, Anna.’

‘Eu não tenho tempo para tomar chá.’ Sakura falou, trincando os dentes e ameaçou se levantar.

‘Você tem ideia de onde está querendo ir, Garota?’ Anna falou, olhando para ela. ‘Ou realmente você acha que vai abrir um portal para lá como se atravessa uma porta qualquer?’

‘Eu sei que eu vou conseguir controlar.’ Ela retrucou.

‘Você quase morreu tentando fechar o portal que aquele Feiticeiro louco abriu.’

‘Eu não tinha controle ainda, mas agora eu sei como fazer isso.’

‘Claro…’ Anna falou devagar. ‘E você acha que vai sobreviver lá sem problema algum?’

‘Eu sei que tem um jeito de sobreviver lá! Aquele maluco do Shyrai sobreviveu, porque eu não conseguiria? Eu sei que eu posso aumentar minha presença, eu sei que…’

‘Não seja idiota! Sua energia não é das trevas! Você não vai conseguir nem chegar perto do portal que você mesma está querendo abrir.’

Sakura bateu na mesa e se levantou, encarando-a. ‘Eu sei que eu consigo!’

‘Sente-se!’ Anna ordenou de forma assertiva e Sakura, que estava debruçada na mesa encarando a loira, sentiu seu corpo obedecer ao comando sem resistência. ‘Você acha mesmo que aquele feiticeiro sobreviveu lá só por causa dos poderes dele?’

‘Eriol me contou que quando abriram o portal ele, simplesmente, entrou. Ele não mentiria para mim.’

‘E este seu amigo entrou também?’

‘Não! Ele desistiu.’

‘Ele desistiu ou ele percebeu que não dava para ele?’

Sakura arregalou de leve os olhos, começou a vacilar. ‘E-ele desistiu…’

‘Foi o que ele falou?’

‘Ele não mentiria.’

‘E qual foi a história que ele lhe contou sobre este feiticeiro? Este seu amigo tem ideia da natureza do tal Shyrai?’

‘Ele era um homem movido pelo ódio. Teve a família toda morta por seres das trevas. Queria vingança.’

‘Ah!’ Anna exclamou, sorrindo de leve e fazendo Sakura ficar mais irritada ainda. ‘Então ele teve toda a família morta por seres das trevas menos ele? Por quê?’

‘Oras, e eu vou saber o porquê?’

‘Garota… demônios não costumam poupar vidas.’

‘E não sei por que não o mataram!’

‘Não seria porque ele era um meio-demônio?’

‘O quê?!’ Sakura voltou a se levantar. ‘Você está ficando louca! Como assim?’

Anna suspirou de forma tranquila. ‘Então não sabe que existem seres metade humanos, metade demônios?’

‘E o que isso tem a ver?’

‘Só assim, com uma natureza destas, o tal feiticeiros sobreviveria lá.’ Ela esclareceu. ‘Provavelmente o demônio que matou toda a família dele deveria ser seu pai. Por isso sua vida foi poupada.’

‘Isso… é loucura!’ Sakura falou.

‘Um demônio pode muito bem ter um filho com uma humana e, depois que a criança nasce, ele simplesmente mata a família inteira.’

‘Mas como isso é possível?!’

‘Você não sabe mesmo como isso é possível?’ Ren perguntou, olhando para ela, com sorriso irônico.

‘Do que você está falando?!’ Sakura perguntou, olhando para ele.

Ren respirou fundo. ‘Aquele seu namorado também era bem esquisito. Acho que você dois estavam na mesma situação, não?’

Sakura arregalou os olhos e se deixou cair sentada. Desviou os olhos dele, sentindo o rosto esquentar. Balançou a cabeça de leve, pensando que Syaoran tinha tanto receio de não ser capaz de ter um filho que agora era até irônico pensar nisto.

‘Isso não é da sua conta.’ Ela falou baixinho.

‘Acho melhor você tomar o chá, antes que esfrie.’ Anna falou.

Sakura voltou a fitá-la e balançou a cabeça de leve. Se Shyrai realmente era um meio-demônio, então essa era a razão para ter sobrevivido lá. Devido a sua natureza e não por causa de seus poderes. Droga! Ela pegou a xícara nas mãos e olhou a bebida. Mil vezes droga. Bebeu um pouco do chá em silêncio, pensando no que faria. Deixou a xícara a sua frente. Levantou o rosto e fitou Ren.

‘Eu vou de qualquer maneira. E ninguém vai me impedir.’

‘Quem falou alguma coisa sobre impedi-la?’ Ele sorriu, calmamente. ‘Apenas não queremos que você morra.’

‘E… e o que vocês querem que eu faça?’ Sakura perguntou. ‘Eu não tenho mais tempo para ficar estudando e procurando um meio de sobreviver lá. Eu não tenho mais tempo.’

Anna a fitou de forma profunda. ‘Você já perguntou para aquele seu amigo, Hiiraguizawa, qual é realmente a origem dos seus poderes?’

‘Ele me explicou que eu sou um estúpido Pilar de não sei o quê!’

Anna riu e foi acompanhada pelos dois que estavam sérios até o momento.

‘Interessante você falar desta maneira.’ Yoh comentou.

‘Ela não tem a menor ideia do que é.’ Ren emendou.

‘E vocês sabem o que é esta porcaria?’ Sakura perguntou com raiva. ‘Isso só me trouxe problemas! Por causa disso eu tive que fechar uma droga de portal que o maluco lá abriu, o meu namorado morreu tentando impedir que um monte de demônios atravessassem para este universo. Depois ele teve que ir para o inferno porque eu estava enlouquecendo e todo mundo achava que eu, sei lá… explodiria o mundo!’ Ela falou abrindo os braços irritada. ‘Então ele volta como um demônio e quando estávamos felizes, reerguendo nossas vidas em paz, aparece um anjo, do nada, dizendo que ele tem que voltar para lá porque o mundo das trevas está um caos… Claro… Como se lá fosse hiper organizado… e ainda o chantageia, dizendo que, se ele não for, eu posso sei lá… explodir de novo! Grande maravilha ser esta porcaria de Pilar!’ Falou de uma só vez mal conseguindo respirar.

Ren e Yoh olhavam para ela assustados depois do acesso de fúria de Sakura, apenas Anna mantinha o mesmo semblante.

‘Isso aconteceu porque você não foi desenvolvida de maneira correta. Você recebeu um poder sem preparo, sem saber como manipulá-lo. Como utilizá-lo. Por isso você é tão perigosa.’

‘Eu só quero ter uma vida normal com o homem que amo!’ Ela gritou, levantando-se e encarando Anna. ‘Isso é pedir demais?!’

Anna sorriu para ela pela primeira vez e olhou para o esposo que também sorriu de leve. Voltou a fitar Sakura. ‘Yoh também só queria levar a vida tranquilamente.’

‘E isso é pedir demais?’ Sakura repetiu.

‘Impressionante como o poder é sempre colocado nas mãos daqueles que, no fundo, não o querem.’ Ela falou e suspirou. ‘Como acha que conseguiu sobreviver depois de ter sido alvejada, Kinomoto?’

Sakura olhou rapidamente para Ren que acompanhava a discussão das duas com os braços cruzados. ‘Eu não sei.’ Respondeu, voltando a olhar para Anna. ‘Eu simplesmente não queria ir.’

Ela sorriu. ‘E você acha que qualquer pessoa que queira ficar, conseguiria isso?’

‘Eu não sei.’ Respondeu sinceramente. ‘Mas o que isso tudo tem a ver com o fato de eu querer ir para o mundo das trevas?’

‘Você, como feiticeira, nunca vai conseguir sobreviver lá.’ Ela respondeu. ‘Acho que você já entendeu bem esta parte, não?’

‘Eu não sou um meio-demônio!’ Ela falou de forma irônica.

‘Mas você convive muito bem com eles, não?’ Anna perguntou.

Sakura arregalou os olhos, entendendo que ela estava falando das cartas. Tirou-as do bolso, colocando-as sobre a mesa.

‘Eu apenas peço ajuda para elas.’ Respondeu. ‘Elas não fazem mais mal a ninguém.’

‘Ninguém aqui está falando isso.’ Anna rebateu. ‘Você já ouviu falar de incorporação?’

Sakura mordeu o lábio inferior nervosa. Nunca tinha ouvido falar disto, mas desde que Syaoran tinha se manifestado no corpo do primo para lutar contra os anciões, ela não podia mais ignorar o fato de que aquilo existia. No entanto, ela era uma feiticeira. As magias entre eles eram diferentes. Syaoran estava morto naquela época.

‘E-eu… tenho ideia mais ou menos do que é.’ Respondeu com sinceridade.

‘Humph!’ Ren soltou irritado. ‘E ter ideia não é saber o que é?’

‘Hei! Eu estou sendo honesta. Eu já vi uma vez uma incorporação… Syaoran, ele…’

‘Rá!’ Ren soltou irônico. ‘Então agora os Lis andam fazendo incorporações? Essa foi boa.’

‘Ele teve fazer! Mas foi só uma vez.’

Ren olhou para ela de forma debochada. ‘E logo ele que adorava dizer que isso era coisa dos Taos! Que ironia!’

‘Não precisa ser mais claro falando que não gosta dele, está bem?!’

‘Para mim, ele é indiferente! Desde que a namorada dele não venha me procurar com ideias loucas!’

‘Ren!’ Yoh chamou a atenção do amigo que desviou os olhos de Sakura e bufou.

‘Então você sabe o que é uma incorporação?’ Anna perguntou novamente.

‘Eu já vi uma acontecer.’ Ela respondeu de forma específica. ‘Mas qual a importância disso?’ Perguntou irritada, sentia que estava perdendo tempo.

Syaoran poderia estar precisando dela e ela estava ali discutindo, com pessoas que nunca tinha visto na vida, sobre espíritos e incorporações.

‘Você só conseguirá sobreviver onde quer ir se um de seus demônios incorporar em você.’ Anna finalmente respondeu.

Sakura olhou assustada para ela. Levantou-se pela terceira vez da mesa e debruçando-se em direção a ela. ‘Você está maluca?! Eu sou uma feiticeira. Eu não faço isso! Eu não tenho poderes para isso ou sei lá do que precisa para fazer isso.’

‘Por isso que eu falei que, como feiticeira, é impossível você sobreviver lá.’ Anna rebateu de forma calma. ‘Mas o poder do Pilar dará condições de você fazer isso.’

‘Mas… mas como?’ Ela perguntou. ‘Você está sugerindo que uma das minhas cartas incorpore em mim?’

‘Exatamente.’ Ela respondeu. ‘Incorporando em você, terá condições de sobreviver lá.’

‘Mas… e o que acontece com a carta quando incorporar? O que acontecerá comigo? Quando Syaoran incorporou no primo, ele o estava controlando.’

‘Há várias forma de incorporação, garota.’ Ren explicou. ‘O que deve ter acontecido foi que aquele seu namorado arrogante incorporou num xamã sem treinamento algum e, por isso, teve o controle total do corpo dele. Quando o xamã é fraco, o espírito toma o controle.’

‘Mas eu não sou uma xamã.’ Ela ainda respondeu encarando-o. ‘Você sabe disso.’

‘E eu já falei que o poder do Pilar lhe dará condições de fazer isso.’ Anna falou, chamando a atenção dela. ‘Para de ser cabeça dura e abra sua mente.’ Falou irritada. ‘Você não quer ir lá atrás dele? Então… estamos lhe explicando a única maneira de você não morrer. Preste atenção. E sente-se novamente!’

Sakura obedeceu imediatamente. Agora começava a compreender o porquê dos dois obedecerem Anna prontamente quando ela lhes dava uma ordem. Olhou de esguelha para Yoh e depois para Ren. Respirou fundo e tentou relaxar os ombros. Ela estava certa, tinha que abrir a mente.

‘Como eu faço isso?’ Sakura perguntou encarando-a.

Anna sorriu de leve. ‘Agora sim… você começou a agir de forma coerente.’

‘As incorporações são quando o espírito e o xamã se unem.’ Yoh explicou de forma serena. ‘O xamã acaba adquirindo o poder e a natureza do espírito. Normalmente cada xamã tem um espírito protetor.’

‘Espírito protetor?’ Sakura perguntou.

‘Exatamente.’ Yoh continuou. ‘No meu caso eu tenho o Maru.’ Falou sorrindo. ‘E o Ren tem o Bason.’

‘Fantasmas?’ Ela perguntou, engolindo em seco.

‘Ah, vai dizer que você tem medo de fantasma?!’ Ren falou irritado.

Sakura controlou a vontade enorme de soltar vários palavrões para ele. ‘Você é irritante…’ Falou por fim encarando-o.

‘Oras! Você tem um namorado que é um demônio e eu é que sou irritante?!’ Rebateu.

‘Ren!’ Yoh repreendeu novamente do amigo. ‘Realmente você não tem tato nenhum com uma garota. Não vai arranjar nunca uma namorada.’

‘Para de palhaçada, Yoh!’ Soltou irritado, fazendo o amigo rir mais ainda.

Anna rodou os olhos. ‘Vocês dois parem.’ Ela ordenou.

Sakura viu o chinês voltar a cruzar os braços com o rosto amarrado e franziu a testa. Precisava aprender algumas outras coisas com Anna.

‘Ren, vá procurar o Horo-Horo e o Ryu. Podemos precisar da ajuda deles.’

O chinês bufou e se levantou contrariado. Encarou Sakura antes de se afastar da mesa.

‘E também chame a…

‘Tá, eu já sei!’ Ren interrompeu Anna. Yoh não resistiu em soltar uma risadinha, fazendo o chinês olhar para ele atravessado.

Sakura observou o rapaz se afastando e sumir por uma das portas. Soltou um suspiro. ‘Irritante igual a Syaoran quando quer.’

Yoh riu. ‘Acho que você poderia conversar com a Matsu e dar umas dicas para ela sobre como lidar com ele.’

Sakura franziu a testa, observando o rapaz que não conseguia controlar o riso.

‘Yoh.’ Anna chamou o marido. ‘Acho que também seria bom você ir com ele. Os dois podem começar a brigar.’

O rapaz concordou ainda sem controlar o riso. Levantou-se e seguiu pelo mesmo caminho feito por Ren, deixando Anna e Sakura sozinhas. As duas se fitaram em silêncio.

‘Preciso da sua ajuda, por favor.’ Sakura falou com sinceridade. ‘Se há um jeito de eu sobreviver lá para encontrá-lo, eu preciso saber. Eu aceitarei todos os riscos.’

Anna assentiu com a cabeça. ‘Não será fácil, mas lembre-se: você tem um poder enorme dentro de si e a primeira coisa que precisa fazer é acreditar nele, senão, nada vai dar certo, entendeu?’

Sakura concordou de forma firme. Tirou os olhos de Anna e fitou as cartas que estavam sobre a mesa. Respirou fundo. Não podia negar que estava receosa, mas tinha que tentar. As cartas a tinham guiado até eles. Fechou os olhos e deixou a respiração ficar controlada. Ren tinha certa razão, ela tinha que ficar fria. Precisava pensar direito para conseguir achar a solução. A mandala se formou em torno da Feiticeira e as cartas brilharam de forma magnífica.

Anna sorriu de lado, observando-a. Logo apareceu atrás de Sakura a figura de uma garota de cabelos longos ondulados, olhos verdes, com uma estrela na altura da testa e pequenas asas na cabeça. Tinha o rosto sereno e uma presença fortíssima. Anna franziu a testa, observando uma e depois a outra. Elas estavam muito mais ligadas do que havia pensado. Tinha alguma coisa ali que, para ela, também não se encaixava.

Sakura abriu os olhos e sorriu. Sabia que era Esperança quem estava atrás de si.

‘Eu vou.’ A carta falou, encarando Anna que concordou com um gesto. ‘As outras ficarão aqui.’

Sakura se levantou e virou-se fitando a carta. ‘Tem certeza…’

‘Sim.’ Esperança interrompeu. ‘Eu vou com você buscá-lo.’

Sakura sorriu para ela.

‘Mas precisa saber de algumas coisas antes de ir para lá.’ A carta falou, fitando sua mestra que assentiu com a cabeça. ‘Você vai precisar ser muito mais forte do que pensa que é. Lá existem demônios muito mais violentos do que você já enfrentou. Não pode e não deve sentir pena de nenhuma alma que esteja lá. Não deve julgar, nem pode interferir no julgamento de Enma Daiyoh. Se a alma está lá, é porque deve estar.’

Sakura engoliu em seco. ‘Inclusive Syaoran.’

‘Exatamente. Ele precisou ir para lá com um propósito. Você precisa aceitar isso.’

‘Eriol...’

‘Clow não tem ideia de como é lá.’ A carta a cortou, Sakura sabia que ela não gostava de Clow, tinha suas razões. ‘Ele era limitado em seu conhecimento com relação à base do mundo. O que eu e você precisamos fazer é trazer o mestre de volta. Se ele morrer lá, deixará de existir. Precisamos ajudá-lo a cumprir seu propósito e finalmente tirá-lo de lá.’

Sakura franziu a testa. ‘Do que você está falando?’

‘As brechas precisam ser destruídas. Ele era uma alma que está na situação de demônio, caso ele morra lá, ele deixará de existir para sempre.’

A jovem feiticeira arregalou os olhos e engoliu em seco. ‘Ele não pode… não pode deixar de existir.’

‘Se ele deixar de existir, você terá problemas também para se equilibrar. E, consequentemente, eu e minhas companheiras também.’ A carta falou séria. ‘Por isso eu estou aqui. Nenhuma de nós quer voltar para o que éramos antes.’ Ela respondeu.

Sakura respirou fundo e fechou os olhos. ‘Certo. Iremos para lá e o ajudaremos a cumprir sua missão.’ Ela abriu os olhos novamente, fitando-a preocupada. ‘Eu não sei como fazer isso.’

Ela sorriu. ‘Nós vamos conseguir.’

Sakura sorriu de volta. ‘Obrigada.’

‘Não me agradeça ainda.’ A carta falou, abaixando a cabeça e respirando fundo. ‘Eu não fui muito legal lá. Talvez… Tenhamos problemas com alguns conhecidos meus. Lembre-se do que eu era antes de parar neste universo e ser aprisionada por Clow.’

‘Syaoran me contou da conversa que tiveram.’

‘Ele precisava ouvir algumas coisas. Ele precisava entender, assim como você também vai precisar entendê-las. Eu explicarei tudo.’ Ela respirou fundo e fitou sua mestra novamente. ‘Para começar… meu nome é Khala’a.’

Sakura sorriu e concordou. ‘Vamos conseguir, Khala’a.’

Anna se levantou e foi até elas. ‘Agora… acho que podemos começar a pensar em realmente abrir um portal.’

A feiticeira virou-se para ela, lembrando-se de um detalhe. ‘E como vamos fechá-lo?’

Anna abriu um sorriso insolente. ‘Isso… Você deixa comigo.’


Continua.