FEITICEIROS
49 O Filho do Demônio
.
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 49
O Filho do Demônio
Arthas observava o céu em chamas. Estava sentado no chão, encostado em um dos rochedos que fazia parte da paisagem daquele local. Estava meio cansado de não fazer nada. Já tinha se passado muito tempo desde que completara sua importantíssima missão de fechar as brechas do Mundo das Trevas. Desde que fechou a última, no Território dos Ossos, não tinha participado de mais nenhuma missão gloriosa.
Tadmoth havia recebido o perdão de Enma Daiyoh e, provavelmente, havia reencarnado sabe-se lá onde. O guerreiro só queria mesmo cair fora daquele inferno, então ele devia estar bem.
Depois que Li e Sakura morreram, desaparecendo daquele lugar, junto com aquele demônio feminino que antes estava incorporado na feiticeira, sentiu-se sozinho e, sinceramente, não gostava disto.
Sabia que Midoriko tinha aprontado. Ele conhecia bem como as fêmeas eram ardilosas e traiçoeiras. Para aquele demônio feminino ter ido embora, sem mais nem menos, antes de chegarem ao Território dos Ossos e abrir mão da recompensa que receberia, era porque certamente tinha algo muito mais interessante nas mãos.
Como tinha a eternidade, foi atrás dela. Demorou bastante para encontrá-la novamente, mas sabia que não seria uma busca em vão. Quando a encontrou e a viu com uma criança nos braços, viu que sua intuição estava certa. Na verdade, dizer que ela estava com a criança “nos braços” seria exagero. A criança que a acompanhava estava era andando de um lado para o outro, sendo completamente ignorada por Midoriko.
Foi fácil para ele deduzir que o rebento tinha sido resultado da invasão dos sonhos do Garotão, como ela se referia a Li. Saber que uma parte do Garoto tinha permanecido no Mundo das Trevas, mesmo que daquela forma não convencional, já fazia o grandalhão se sentir melhor e menos sozinho. Pronto! Havia encontrado sua nova ocupação.
Midoriko não tinha nem colocado um nome nele, ainda, então Arthas decidiu que o chamaria de Kazuo, que significa o primeiro filho. Filho dele! Filho do grande Arthas! E, mesmo que isso não fosse verdade, era assim que ele gostava de ver aquela criança.
Obviamente Midoriko o desmentia o tempo todo. Enchia a boca para falar que Kazuo era filho do demônio que destruiu todas as brechas e seus guardiões. O mais temido e o mais terrível de todos. O mais poderoso e forte e o mais um monte de adjetivos que ela adorava falar.
Mas isso não importava. Midoriko não estava nem aí para o garoto, então Arthas resolveu tomar conta dele até que estivesse desenvolvido o suficiente para ser independente. Arthas deu um longo suspiro. Kazuo já não era mais tão indefeso como ele gostaria que permanecesse.
‘Hei, Arthas!’ Ouviu chamarem-no e virou o rosto, observando o rapaz se aproximar dele. Era muito parecido com o Garoto, a mesma cara emburrada na maioria das vezes, mas tinha os cabelos negros, num tom meio acinzentado.
Kazuo parou a frente do grandalhão, olhando sério para ele. ‘Midoriko está querendo invadir aquela droga que ela chama de Deserto Ardente. Como se tudo aqui não fosse ardente!’ Ele falou irritado.
Arthas se levantou, encarando o rapaz com a aparência de um jovem de 16 anos. ‘Acho que é o domínio de Choronzon.’
‘Eu estou de saco cheio desse negócio de ficar dominando isso ou aquilo para ela.’ O rapaz falou, abrindo os braços. ‘Isso aqui é tudo igual! Não faz diferença.’
Arthas meneou a cabeçorra. ‘O Território dos Ossos é diferente. E tem alguns domínios, como os que eram de Illska, que são como cidades. E Midoriko está só esperando juntar mais seguidores para tentar atacar os domínios da tal Esdeath, que dizem ser parecido.’
Kazuo passou a mão pelos cabelos. ‘Só se for isso mesmo, porque tudo isso daqui…’ Falou abrindo os braços e olhando em volta. ‘É uma droga. Ela quer dominar o que mais? Mais um pedaço de areia debaixo deste céu em chamas. Isso é tedioso demais.’
‘Midoriko quer ser a rainha do mundo das trevas.’ Arthas explicou. ‘E você, como filho dela, tem que apoiá-la.’
‘Rainha disso aqui?’ Ele soltou, ainda mostrando irritação.
Arthas riu com gosto. ‘Ouvindo você falar assim, lembra muito o seu pai.’ Ele soltou. ‘Reclamava exatamente da mesma coisa.’
Kazuo fechou mais o rosto. ‘Meu pai era fraco. Ele está morto. Pronto!’
Arthas parou de rir e encarou o rapaz. ‘Seu pai foi um dos demônios mais…’
‘Eu já sei!’ Kazuo o interrompeu, irritado. ‘Você já me falou um milhão de vezes a mesma coisa. Midoriko também adora falar que ele foi um dos demônios mais poderosos que já existiu e blá-blá-blá.’
‘E cabeça dura.’ Arthas completou, rindo-se. ‘Igual a você!’
‘Rá!’ Kazuo falou de forma irônica.
O rapaz soltou um suspiro, subiu num dos pedregulhos e se sentou, com os joelhos flexionados, olhando para o horizonte. ‘Isso aqui… é uma droga.’ Resmungou.
‘E você gostaria de ir para onde?’ Arthas o indagou.
Kazuo deu de ombros. ‘Sei lá. Mas não pode existir só essa droga de lugar.’
Arthas se apoiou no pedregulho em que o rapaz estava sentado. ‘Agora só terá oportunidade de passar por alguma brecha daqui a muito tempo, quando voltarem a surgir as fixas que o próximo guardião virá destruir.’ Arthas soltou um suspiro. ‘O próximo guardião vai ter vida mansa. Não vai precisar lutar contra nenhum demônio, só se tiver muito azar.’
Kazuo meneou a cabeça. ‘E isso demora muito para acontecer?’
Arthas respondeu que sim com a cabeça. ‘É um evento que acontece de forma muito espaçada. Acho que nenhum de nós estaremos mais vivos até lá.’
‘Eu vou estar. Você que precisa ficar mais esperto ou vão acabar cortando o seu pescoço.’
Arthas olhou de esguelha para ele. ‘E por que você quer tanto atravessar uma brecha?’
Kazuo levantou as sobrancelhas. ‘Não é óbvio? Para sair daqui. Acho que qualquer lugar deve ser melhor que isso. Este negócio de ficar conquistando pedaços de areia e lutando contra outros demônios perdeu a graça há muito tempo, Arthas.’
‘Você fala isso porque nunca encontrou um oponente forte o bastante para você.’
Kazuo soltou um suspiro. ‘A luta contra o cara lá de chifre foi bem complicada.’ Ele falou. ‘Demorei muito para cicatrizar. E este negócio arde demais até fechar completamente.’
‘Não deveria reclamar deste poder. Isso foi herança do seu pai e lhe é muito útil.’ Arthas o advertiu.
‘Herança do meu pai…’ Ele repetiu contrariado. ‘Humph. Podia não arder. Seria muito mais vantajoso.’
Arthas sorriu de leve, lembrando de Li reclamando o tempo todo sobre as dores e, mesmo assim, recusando-se a parar para descansar. Realmente, uma das coisas que tinha que admitir era que o Garoto era muito cabeça dura. Tinha saudades dele e tinha saudades da feiticeira. Ela era a única que ouvia suas histórias e façanhas com paciência.
Olhou rapidamente para Kazuo pensando que, nem mesmo ele, tinha paciência para ouvi-lo muitas vezes.
‘Tá sorrindo por quê, Arthas?’ Kazuo perguntou, erguendo uma sobrancelha.
‘Estou me lembrando da Feiticeira. Já falei dela para você, não?’
Kazuo soltou um longo suspiro. ‘Já. Várias vezes.’
‘Ela era uma criatura bem interessante. Tinha aparência frágil, mas tinha um poder enorme.’
‘E o arremessou pelo ares da primeira vez que o viu.’ Kazuo completou, olhando para ele. ‘Você já falou dela. Ela também está morta, então não era tão forte como você falou.’
‘Ela e seu pai eram muito ligados.’ Arthas comentou.
Kazuo olhou o horizonte. ‘Morreram juntos. Devem ser ligados mesmo.’ Falou fazendo pouco caso. O rapaz franziu a testa, observando Midoriko caminhar em direção a eles. ‘Droga.’ Não conseguiu evitar o resmungo. ‘Ela vai encher o saco novamente, dizendo que tenho que derrotar o tal do... Qual é o nome dele mesmo?’
‘Choronzon.’ Arthas respondeu.
‘É, isso aí.’ Kazuo suspirou, vendo Midoriko se aproximando. ‘E o que você sabe sobre ele, Arthas?’
‘Está interessado agora, Garoto?’
‘Um, não me chame de “Garoto”...’ Kazuo falou sério. ‘E dois, você já deveria saber que conhecer o inimigo é meia batalha ganha.’
Arthas concordou, sorrindo de leve. ‘É… você realmente é muito parecido com ele.’
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Shaolin observou a imensa criatura a sua frente. Franziu a testa de leve e arrastou a perna esquerda para trás, segurando a empunhadura da espada com as duas mãos. Marie estava ao seu lado, olhando para o gigante de pedra.
‘Deixa comigo.’ Shaolin falou.
Marie ergueu uma sobrancelha. ‘Tem certeza, pirralho?’
Shaolin desviou os olhos da criatura e fitou a jovem de 16 anos ao seu lado, vendo-a cruzar os braços.
Ela fez um gesto com a cabeça, apontando para o gigante com desafio. ‘Vai lá que eu quero ver.’
O menino de 13 anos voltou a olhar para o seu gigantesco oponente. Tinha que pensar em como combatê-lo de forma mais eficaz. Olhou para a espada que tinha nas mãos.
A mãe, usando Gêmeos, tinha duplicado a esfera negra do pai. Lembrava-se de ter rido quando o pai a entregou para ele, pedindo que transformasse aquela pequena peça de metal numa espada. Levou um cascudo. Quando o pai materializou a espada mágica na frente dele, ficou boquiaberto. Foram semanas até conseguir fazer o mesmo.
Shaolin flexionou de leve os joelhos e correu em direção ao gigante. Pulou a frente dele, pegando um dos talismãs, levando-o até a altura do rosto. Aos seus pés a mandala do baguá se formou, brilhante.
‘Eu invoco o Deus Trovão com a máxima urgência de acordo com o pacto estabelecido.’ Invocou sua magia, jogando o talismã para cima e tocando a espada mágica nele. ‘Ataque relâmpago.’
O raio desceu dos céus e atingiu o talismã que o refletiu em direção à criatura, envolvendo-a pelo poder mágico.
Shaolin pousou no chão e levantou o rosto, vendo que, apesar de ter atordoado a criatura, o ataque não foi capaz de destruí-la. Saltou, desviando da tentativa do gigante de atingi-lo com uma das mãos.
‘Tem certeza que não quer ajuda?’ Ele ouviu a voz de Marie e trincou os dentes.
Ele tinha que dar um jeito nisso sozinho. Gostava de lutar com a prima, mas, às vezes, ela fazia questão de tratá-lo como se ainda tivesse oito anos. Não respondeu. Voltou a flexionar os joelhos e correu novamente em direção ao oponente.
‘Eu invoco as flores do vento.’ O menino convocou outra magia que circulou apenas as pernas do gigante, fazendo-o desequilibrar e cair no chão produzindo um estrondoso barulho. Rolou para o lado, evitando, por pouco, ser atingido. Estava muito próximo do adversário quando invocou a magia. Levantou-se e correu ao longo do corpo do gigante. Pulou, levantando a espada e se concentrando.
Marie ergueu uma sobrancelha, vendo a aura do primo expandir rapidamente e sorriu de leve.
Shaolin passou a espada acima dos ombros do gigante, cortando-lhe a cabeça e, fazendo-o parar de se movimentar. Pousou no solo com um joelho apoiado no chão e a respiração ofegante. Levantou-se e virou para trás, reparando que o inimigo não existia mais.
Virou o rosto e viu o pai observando-o com os braços cruzados e o semblante sério. Ao seu lado, estava a mãe que sorria. Ela quem tinha criado o inimigo de pedras para eles derrotarem. Sorriu de volta e coçou a cabeça, sem graça.
Sentiu que passaram a mão na sua cabeça, bagunçando seus cabelos. ‘Até que você não foi nada mal.’ Ouviu Marie em tom de brincadeira.
Shaolin olhou para a prima. ‘Eu falei que podia deixar comigo.’
‘Você podia também ter usado Bosque para imobilizar o gigante.’ Ela retrucou.
‘Ele era feito de pedra, não de terra.’ O menino retrucou.
‘Ora, ora! Até que você está bem espertinho.’ Ela continuava, rindo.
‘Além disso, não gosto de usar as cartas.’ Shaolin ainda comentou.
Marie meneou a cabeça. ‘Se você me deixasse ajudá-lo, eu poderia usar algo parecido com Bosque e, então, você poderia cortar a cabeça do grandão. Foi assim que eu fiz ao lutar junto com o seu pai.’ Ela falou, fazendo ainda pouco caso.
‘Com tousan?’ Shaolin perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Marie arregalou os olhos, observando o primo que a fitava ainda de forma interrogativa. Sentiu sua aura se expandir, sem controle a mandala de Clow se formou aos seus pés. Fechou os olhos e deu um passo para trás, afastando-se do primo.
Ela conseguia se ver, claramente, lutando contra um gigante de terra ao lado de Syaoran que tinha em suas costas um par de asas de dragão. Lembrou-se de invocar o poder de Bosque, imobilizando o adversário e levantou o rosto, vendo o homem entrar pela boca da gigantesca criatura. Uma sucessão de explosões aconteceu no corpo do titã até que, no seu peito, abriu-se um imenso buraco onde uma fonte de luz multicolorida brilhava. Viu quando o tio estendeu a mão em direção a luz e uma pequena esfera vermelha flutuou até ela.
‘Nee-san!’ Shaolin a chamou, tocando em seu ombro.
As mandalas dos dois estavam sobrepostas para que o menino conseguisse se aproximar da prima sem ser repelido pela magia que circulava o corpo dela.
Marie levantou o rosto e fitou o semblante preocupado do primo.
‘Nee-san! Você está bem?’
Ela piscou algumas vezes, sentindo sua energia diminuir. ‘A-acho que sim.’ Marie respondeu um pouco tonta ainda.
‘Isso está cada vez mais frequente.’ Shaolin comentou. ‘O que foi desta...’ O menino se reteve quando percebeu que a presença dos pais estava mais próxima.
‘Marie-chan!’ Sakura a chamou, aproximando-se da jovem, seguida por Syaoran. Os dois tinham os rostos tensos.
A jovem colocou as mãos a frente. ‘Eu estou legal! Está tudo bem.’ Já falou, sabendo que os tios perguntariam a mesma coisa que o primo.
Sakura e Syaoran entreolharam-se preocupados e Shaolin percebeu. O menino suspirou e transformou a espada em esfera negra para guardar no bolso.
‘Acho que, por hoje, já está bom.’ Ele falou.
‘Hei, Hei!’ Marie olhou para ele. ‘Eu já disse que estou ótima.’
Ele olhou para a prima e depois para os pais. ‘Ela é teimosa. Eu tô fora.’ Falou simplesmente.
Syaoran sorriu de leve. ‘Por hoje está bom.’ Ele conhecia o filho, sabia que ele estava parando o treinamento para poupar a prima.
‘Eu estou bem, Ojisan!’ Marie ainda insistiu. ‘Foi apenas… apenas…’ Ela reteve-se, mexendo a mão à frente do corpo, tentando achar as palavras para tentar explicar o que nem ela mesma sabia direito.
‘Recordações?’ Sakura a indagou, olhando para Marie de forma doce.
A jovem fechou os olhos e balançou a cabeça de leve. ‘Deve ser coisa da minha cabeça. Não se preocupem.’
Sakura se aproximou dela e pousou uma mão no ombro da jovem, chamando a atenção dela. ‘Você sabe que, se quiser conversar sobre isso, pode me procurar, não é? Já falei isso com você.’
Marie abriu um sorriso para a tia e acenou com a cabeça. ‘Sei, sim, Obasan, mas não se preocupe, eu estou bem.’ Insistiu. Ela olhou em volta. ‘Onde está otousan?’
‘Ele está estudando na biblioteca, por isso não pôde ficar até o final do treino.’ Sakura respondeu e viu a jovem dar um suspiro decepcionado.
‘Ele anda sempre muito ocupado, né?’ Ela retrucou.
‘Seu pai está tentando achar alguma informação importante nas anotações de Clow-sama.’
Marie ficou em silêncio enquanto observava Shaolin e Syaoran conversarem alguns metros a frente. O tio chamava a atenção do primo por ter usado uma magia que não teria como fazer efeito no inimigo. Syaoran cobrava um bocado do primo, mas estava ali ao lado dele sempre que podia.
Na verdade, não sabia como o primo aguentava ser criticado sem perder a calma. Shaolin só acenava com a cabeça informando que estava prestando atenção. Às vezes, retrucava com o tio, mas só quando tinha certeza de algo, senão simplesmente ouvia.
Marie invejava um pouco o relacionamento dos dois. E sentia falta de quando era mais nova e o pai insistia em treiná-la pessoalmente. Ele vinha participando cada vez menos dos treinamentos e passando cada vez mais tempo trancado na biblioteca.
Na verdade, a última vez que o pai esteve presente por mais de alguns minutos durante o início de uma sessão foi quando ele decidiu testar algumas novas invocações de magia que tinha encontrado e estudado em antigos manuscritos celtas. Eram encantamentos que pareciam ser mais ofensivos e práticos do que aqueles que ele usava desde sua encarnação passada, como Clow.
‘Sabe…’ Marie comentou, chamando a atenção de Sakura que estava ao seu lado. ‘Às vezes, eu gostaria que otousan esquecesse desse tal de Clow-sama.’
Sakura franziu a testa. ‘Por que diz isso?’
‘Eu não gosto dele.’ Ela falou e Sakura sentiu o coração acelerar. ‘Otousan perde muito tempo tentando entender o que esse cara escreveu. Eu acho que ele não devia saber de droga nenhuma.’
Sakura ficou calada ouvindo a jovem, sentindo o tom chateado da voz dela.
‘Otousan e Okaasan acham que esse cara sabia de tudo’. Ela continuou a falar. ‘Dizem que Otousan é, sei lá, reencarnação dele ou coisa assim. Eu acho que não.’
Sakura respirou fundo. ‘Mesmo que seu pai seja a reencarnação de Clow-sama, não quer dizer que ele seja Clow-sama.’ Ela falou devagar.
‘Acho que sim.’ Ela falou, balançando o corpo de leve, ainda observando o tio e o primo.
Desviou os olhos para a janela da biblioteca que estava com a luz acesa, provavelmente porque o pai estava debruçado em cima daquele monte de papel velho.
Sakura passou o braço sobre os ombros dela e sorriu. ‘Que tal a gente marcar alguma coisa no final de semana? Poderíamos fazer um programa de garotas, ir ao shopping, fazer compras, ou ir ao clube... O que acha? Não a vejo com muitas amigas.’ Ela falou, começando a caminhar com a jovem.
‘As meninas da minha escola não gostam muito de mim.’ Marie falou.
‘Não diga isso. Você é uma menina adorável.’ Sakura retrucou.
Marie soltou um suspiro, triste. ‘Kasumi-chan está chateada comigo e com Shaolin-kun. Ela tem evitado a gente.’ Esclareceu e observou o primo que caminhava à sua frente. ‘Tem evitado, principalmente, Shaolin-kun…’
‘Hum...’ Sakura murmurou, também observando o menino.
Já tinha percebido que Kasumi e Shaolin não estavam bem, mas imaginou que fosse uma briga boba como eles tinham às vezes e que, em pouco tempo, fariam as pazes. Era verdade que agora estava demorando um pouco mais para eles se resolverem.
Marie encolheu os ombros de leve. ‘Acho que estamos falando muito sobre magia. Kasumi-chan é observadora, sabe que estamos escondendo algo dela… Percebe que mudamos de assunto…’ Ela abaixou os olhos. ‘Então prefere não se aproximar.’
Sakura deu um longo suspiro. Tomoyo sempre fora muito observadora, era claro que Kasumi também seria. O filho já tinha reclamado inúmeras vezes de sentir-se mal por mentir para Kasumi, mas tanto ela quanto Syaoran temiam pela segurança da menina também. Não sabiam exatamente quais seriam os desafios que o filho teria que enfrentar logo.
Estava percebendo que Shaolin andava triste ultimamente, mas, assim como Syaoran naquela idade dele, não falava o que era. Agora fazia sentido ter flagrado o filho olhando para o vazio com o rosto triste.
Além disso, tinha ligado para Tomoyo para perguntar como estava Kasumi, quando Shaolin, num domingo, apareceu chateado porque tinha convidado a amiga para ir ao clube e ela disse estar indisposta. Kasumi nunca havia ficado indisposta, então tinha ficado preocupada com a menina.
As duas conversaram e Tomoyo disse para Sakura que Kasumi estava crescendo e estava um pouco confusa. Tinha também percebido o afastamento dos dois nos últimos tempos e que Sakura não deveria se preocupar, pois conversaria com a filha para ajudá-la. Sorriu de leve, pensando em como sentia falta de Tomoyo e as conversas que tinham quando mais jovens.
Tomoyo havia se tornado uma mãe maravilhosa e amorosa com Kasumi. Havia alguma coisa na filha da amiga que lhe era intrigante demais, além daquela cumplicidade e parceria natural entre Kasumi e Shaolin…
Os dois eram terríveis quando menores, quando Marie chegou, ajudou a controlá-los melhor por ser mais velha e menos inconsequente que os dois. Mas, desde pequenos, Shaolin e Kasumi sempre estavam um ao lado do outro fazendo travessuras. Espelho sofria com os dois, mas também se divertia muito. Espelho, como as outras Cartas, andava sentindo falta da menina. Shaolin, às vezes, usava-as escondido de Kasumi, ou as próprias Cartas se manifestavam sozinhas para salvar as crianças de alguma enrascada em que se metiam.
Até mesmo Syaoran andava sentindo falta de Kasumi e reparou no “sumiço” dela. Sorriu de leve, observando o marido. Ele sempre falava o quanto a menina era ágil e forte no Kung Fu, Kurogane que não desconfiasse por ser um pai tão ciumento, mas Syaoran adorava-a. Tinha tanto orgulho das vitórias dela nos torneios quanto o amigo.
Lembrou-se da vez que viu o marido consolando a menina quando, em uma das travessuras, tinha ralado o joelho. Enquanto Shaolin correu para pegar a caixa de primeiros socorros, Syaoran se abaixou ficando com o rosto quase na altura do de Kasumi e lhe falou algumas palavras. Nunca soube o que ele disse, mas lembrava-se da menina secando o rosto e parando de chorar na hora.
Quando Shaolin voltou com os medicamentos, ela se aproximou para ajudá-los, passou o antisséptico, que sabia arder bastante, e levantou os olhos para o rosto de Kasumi que apenas trincou os dentes, mas não chorou. Reparou na troca de olhares dela e de Syaoran e o sorriso satisfeito do esposo, que passou a mão na cabeça da menina e se inclinou para beijá-la na testa antes de se afastar, recomendando que o filho cuidasse de Kasumi.
Soltou um suspiro e olhou de esguelha para Marie. O marido adoraria ser pai de uma menina. Ele tratava as duas com muito carinho.
‘Tenho certeza que logo vão se entender. Vocês três.’ Sakura falou, sorrindo.
‘É chato mentir para ela. Shaolin-kun está cada vez mais incomodado com isso e... Eu confesso que está me incomodando também.’
‘Eu imagino que sim, mas é melhor assim. Pela proteção dela, principalmente.’
Marie concordou com a cabeça. ‘Shaolin-kun fica se perguntando se, quando Kasumi-chan descobrir, vai continuar amiga dele. Ele tem muito medo disso.’
Sakura desviou os olhos da jovem e voltou a fitar o filho que estava ouvindo o marido com atenção. Já tinha percebido também que o menino sentia-se incomodado com sua magia. Achava que era anormal e chegou a perguntar para ela se Kasumi ficaria com medo dele se soubesse a verdade.
No final, o garoto sempre ficava num enorme dilema entre querer contar a verdade para Kasumi ou não. Às vezes, Sakura se perguntava se realmente fizeram o certo, obrigando o filho a manter aquele segredo da garota. Mas, assim como ela decidira não revelar para Tomoyo novamente sobre magia, para proteção dela, Shaolin teria que fazer o mesmo por Kasumi.
‘Um dia Kasumi-chan saberá de tudo e eu tenho certeza…’ Virou-se para Marie sorrindo. ‘Que ela agirá da mesma forma que tem agido até agora.’
‘Espero que sim, Obasan. Gosto da pirralha gulosa, mesmo ela me olhando de maneira a me dar calafrios às vezes.’
‘Calafrios?’
Marie balançou a cabeça de leve. ‘Às vezes, ela me olha como o Ojisan.’
‘Mesmo?’ Sakura indagou, inicialmente achando engraçado, mas franziu a testa de leve pensando no que a jovem falou. Realmente sempre achou alguma coisa intrigante na filha dos amigos e lembrou-se do filho falando algo parecido. Que Kasumi, às vezes, olhava-o de maneira que lhe lembrava muito o pai, principalmente antes de iniciar uma luta. Balançou a cabeça de leve, rindo para desanuviar os pensamentos. ‘Acho que Syaoran anda pegando muito pesado no treino de vocês, não?’
Ela balançou a cabeça, negando. ‘Não é por isso. É… complicado explicar.’
‘Na magia as coisas são realmente complicadas de explicar.’ Sakura falou, mas reteve-se por alguns segundos pensativa. ‘Apesar de Kasumi-chan não ter magia.’
Marie olhou séria para a tia. ‘É por isso que, às vezes, sinto calafrios quando ela me olha.’
‘Besteira… logo vocês voltarão a ser dar bem como sempre.’ Passou um braço pelo ombro da jovem, caminhando com ela em direção à casa. ‘Vamos marcar uma sessão de filmes românticos como fazíamos antes?! Vou chamar Tomoyo-chan e Kasumi-chan! Elas não vão recusar!’
Marie abriu um sorriso. ‘Sim!’
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Smith caminhava de forma imponente entre os jovens que treinavam no pátio com Reyume Li. Sorriu de forma satisfeita, vendo como todos ali o respeitavam. Ali ele era o mestre, o líder. Cumprimentou rapidamente com um gesto o ex-integrante do clã Li e entrou numa das construções do imenso castelo que tinha adquirido apenas com a finalidade de montar o seu exército particular de “guardiões”.
Clow realmente tinha sido um idiota, deixando tudo explicado de forma detalhada sobre as possíveis características de um guardião das trevas. Verdade que ainda não tinha achado nenhum talento que lhe chamasse a atenção, pois quando alguém se destacava na luta, normalmente era mediano no máximo na magia; e quando se destacavam na magia, eram quase um desastre em luta.
Soltou um suspiro um pouco contrariado. Já que não tinha encontrado “o” guardião perfeito, tinha simplesmente criado um exército deles. Ganharia pela quantidade.
Levantou as mãos na altura do peito, tocando os dedos e batendo-os levemente. Sentia-se um pouco frustrado. Acreditava realmente que encontraria alguém perfeito, mas não tinha mais tempo a perder. Yanamoto estava quase falido e não poderia continuar a patrociná-lo por muito mais tempo, não queria ficar nas mãos de Rosas e da colaboração do Vaticano. Era tempo de agir.
Iria, nesta semana mesmo, reunir-se com todos os instrutores e selecionaria os melhores para a missão. Seria necessário, novamente, adquirir a chave de Janos, mas isso seria fácil, nem entraria em contato com um ladrão profissional desta vez. Escolheria dois candidatos fortes e, simplesmente, invadiriam o museu em busca do artefato, não precisava ser discreto.
Agora… ele era quase invencível. O “quase” se devia, única e exclusivamente, ao fato de ainda não ter o verdadeiro poder em suas mãos. Ainda.
Deu um longo suspiro, pensando que precisava ser cauteloso com Rosas. Ele realmente acreditava que a missão deles era destruir o pilar. Fanático idiota. Era claro que destruir aquela fonte de energia teria consequências terríveis entre os universos. Seria o Caos. Smith não queria o caos, ele queria o poder.
Uma vez que o Pilar estivesse enfraquecido, ele conseguiria com mais facilidade manipular o detentor deste poder em seu universo e, quem sabe, até mesmo fazer com que o passasse para ele.
Parou de caminhar e meneou a cabeça de leve. Ainda não tinha descoberto um ritual que permitisse, de forma eficaz, esta transferência de poder. Mas, na pior das hipóteses, com o detentor enfraquecido, seria necessário apenas um feitiço para entrar na mente dele e conseguir manipulá-lo para seguir suas ordens.
Sorriu de lado, voltando a caminhar. Convenientemente, o detentor deste poder era uma mulher belíssima. Não seria tão ruim assim tê-la em suas mãos. Tinha conhecido Sakura Kinomoto, brevemente, em sua outra existência. Linda e jovem. Belíssimos olhos verdes. Hoje devia estar uma mulher madura, mas apostaria como ainda era lindíssima.
Fechou o sorriso. Seu maior problema seria o verdadeiro guardião. Teria que dar um jeito de afastá-lo dela quando o poder do pilar estivesse mais enfraquecido para poder entrar na mente dela e fazer, assim, com que o feitiço de manipulação fosse eficaz.
Levantou os olhos e viu o jovem Takeda aproximando-se. Em pouco lembrava o rapazinho franzino que havia chegado até ele anos atrás. Depois do ritual ao qual fora submetido, e que o deixou em coma por pouco mais de dois meses, o rapaz havia acordado com um nível interessante de magia. Claro que isso acabou gerando um efeito colateral que o rapaz tivera que pagar. Takeda tinha aberto mão de parte da sua energia vital, por isso, agora aparentava ser um homem maduro, muito mais velho que seus 20 anos.
Além disso, Takeda tinha se destacado muito na modalidade de lutas. Reyume já tinha comentado sobre ele.
‘Mestre.’ Takeda falou, inclinando-se levemente a frente em sinal de respeito.
‘Diga, meu jovem.’ Smith falou em tom paternal.
Takeda levantou o rosto. ‘Otousama...’ Começou a falar, mas reteve-se. Smith fez um gesto com as mãos mandando que ele continuasse a falar. ‘Preciso visitá-lo. Okaasama entrou em contato comigo, ele não está falando mais coisa com coisa. Ela acha que ele não sobreviverá por muito mais tempo.’
Smith soltou um longo suspiro. ‘Eu realmente…. sinto muitíssimo, meu rapaz.’ E, no fundo, sentia mesmo. Yanamoto era sua principal fonte de renda. Mesmo falido, ainda poderia ajudá-lo assumindo dívidas para financiá-lo, mas, morto, não lhe servia de nada. ‘Entendo, mas acho arriscado que se afaste daqui agora.’
Takeda inclinou a cabeça novamente. ‘Mestre… suplico que me permita visitar Otousama para renovar minha promessa de vingança.’
Smith arregalou os olhos de leve. Takeda seria um ótimo candidato para testar um ritual que havia encontrado nas anotações de Clow sobre viagem do tempo. O rapaz tinha tanta raiva de Syaoran Li que não falharia. Isso resolveria o problema do Guardião.
Smith colocou a mão no ombro do rapaz. ‘Entendo, meu jovem…’ Soltou um suspiro. ‘Autorizo você a visitar meu grande amigo Yanamoto, mas seja breve. Precisamos de você aqui conosco. Você sabe o quanto é importante para nossa missão.’
O rapaz sorriu orgulhoso ao ouvir aquelas palavras de seu mestre. ‘Eu serei.’
‘Agora vá.’ Falou por fim, fazendo um gesto com as mãos para que ele se afastasse.
Smith voltou a caminhar devagar pelo largo corredor. Alguns jovens passaram por ele e, como Takeda, inclinaram-se levemente, cumprimentando-o respeitosamente.
Precisava verificar o melhor momento para que o ritual de abertura do portal fosse realizado. O Halloween ainda estava longe. Não gostaria de esperar até final de Outubro para abrir o portal.
Pressionaria novamente o grupo de teólogos que havia contratado para encontrar qualquer outra data. Ou algum ritual que descartasse este artifício, para a abertura do portal. Se aqueles idiotas o estivessem enrolando apenas para arrancar mais dinheiro dele, iriam se arrepender. Talvez fosse hora de fazer algumas ameaças, a eles ou a alguns parentes, para que fossem mais eficazes.
Principalmente agora, sabendo da situação delicada da saúde mental de Yanamoto, teria que começar a fazer certos cortes em seu orçamento e nada era mais eficaz do que ameaças à integridade física das pessoas para fazer com que o trabalho tivesse resultados incríveis e inesperados.
Soltou um longo suspiro, pensando que, em breve, deveria se encontrar com Rosas outra vez. Não gostava muito dos encontros com o representante do Vaticano. Tinha sempre que medir de forma milimétrica suas palavras. Isso era por demais desgastante; se pudesse já teria se livrado de Rosas.
Ele era um fanático maluco e, mais de uma vez, chegou a pensar que realmente perderia a paciência com ele, mas lembrava-se que, assim que tivesse o poder do pilar em suas mãos, não precisaria de mais ninguém. Por enquanto, este era um preço pequeno a se pagar.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Sakura conversava de forma animada com Tomoyo. Estava feliz em rever a amiga. Estava na casa dos Kurogane que os convidaram para um jantar. Syaoran e Yuo se encontravam todos os dias no trabalho e até fora dele, mas as duas mulheres não tinham oportunidades para se encontrarem com tanta frequência. Tomoyo estava gravando seu segundo CD de músicas líricas. Estava entusiasmada com seu repertório, falava sobre uma possível turnê pela Europa e o convite de participação em um festival nacional.
‘Que maravilha, Tomoyo-chan!’ Sakura exclamou tão entusiasmada quanto a amiga. ‘Tenho certeza que tudo acontecerá, você é talentosíssima.’
Tomoyo sorriu, ficando levemente ruborizada. ‘Estou muito feliz.’ Ela falou e desviou os olhos, rapidamente, para o marido que conversava com Syaoran sobre trabalho um pouco mais afastados. ‘Yuo tem sido tão companheiro. Ele tem me incentivado muito.’
‘Como deve ser.’ Sakura falou mexendo a cabeça de leve. ‘Ele é seu marido, tem que apoiá-la.’
Tomoyo suspirou, mas depois fechou o sorriso brevemente. ‘Pena que Kasumi-chan parece não gostar muito de clássicos.’
Sakura sorriu de forma meiga. ‘Ela é uma menina adorável.’
‘Eu sei.’ Tomoyo falou rapidamente, abrindo um sorriso suave. ‘Ela está fazendo aulas de teatro e canto como eu sugeri.’
Sakura levantou uma sobrancelha fitando a amiga. ‘Você a está forçando a fazer isso, Tomoyo-chan?’
Tomoyo respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Espero que isso a ajude a superar um pouco essa timidez excessiva dela.’
Sakura balançou a cabeça de leve. ‘Kasumi-chan nunca nega nada a você.’
‘Ela é uma filha maravilhosa.’ A morena falou, abrindo ainda mais o sorriso. ‘Yuo tem tanto orgulho dela pela dedicação ao Kung Fu.’
Sakura riu. ‘Como ele mesmo fala: “Kasumi-chan conseguiria dar um chute bem dado no traseiro de qualquer gaki metido a príncipe encantado.”’
Tomoyo fechou os olhos rapidamente, balançando a cabeça de leve. ‘Ele é ciumento demais.’
‘Como todo pai de menina.’ Sakura rebateu. ‘Syaoran também seria um pai bem ciumento se tivéssemos uma filha.’ Falou, virando-se para observar o marido. Suspirou, pensando que, realmente, gostaria de ter mais um filho… ou filha.
Tomoyo observou a amiga e colocou a mão no ombro dela, chamando a atenção de Sakura.
‘Você não está planejando se colocar em risco novamente, não é Sakura-chan? Você nos deu um susto enorme da última vez.’ A amiga falou preocupada. ‘Antes de mais nada, você tem que pensar em Shaolin-kun. Ele ainda é um menino e precisa da mãe.’
‘Eu sei… eu sei.’ Sakura falou, balançando a cabeça de leve para dissipar os pensamentos. ‘Será que os dois já finalizaram a preparação da janta?’
Tomoyo esticou o corpo tentando ver as duas crianças na cozinha. Sorriu de leve. ‘Deixe-os mais tempo juntos. Vamos ver se eles se entendem.’
‘Shaolin anda sentindo muito o distanciamento de Kasumi-chan.’ Sakura falou, observando a amiga.
Tomoyo comprimiu os lábios de leve e soltou um suspiro. ‘Conversei com ela depois que nos falamos. Kasumi-chan…’ Desviou os olhos e sorriu de leve. ‘Está um pouco confusa agora, mas logo os dois se acertarão. Eles sempre se acertam.’
‘Espero que sim…’ Sakura concordou. Sabia o quanto o filho gostava da amiga e andava sentindo a falta dela.
‘Ah! Enquanto os dois ainda não finalizam o preparo da refeição, quero lhe mostrar o que eu encontrei…’ Tomoyo falou, levantando-se e pegando um álbum de fotografias da estante. ‘Nossas fotos do primário!’ Falou entusiasmada, mostrando as fotos. ‘Olha!’ Apontou para uma foto das duas com Touya e Yukito.
Sakura sorriu de leve. ‘Onii-chan estava com cara de mau humorado, como sempre…’ Falou e pensou que não importava a existência, ele sempre estaria com aquele rosto carrancudo.
‘Claro! Você estava lindíssima!’ Tomoyo exclamou. ‘Ah! E como está Touya-san? Há muito tempo não falo com ele.’
‘Ele está se adaptando ainda.’ Ela falou e soltou um suspiro. ‘Acho que ele nunca vai aceitar ter saído de Tomoeda, mas é cabeça dura e orgulhoso demais para aceitar ajuda.’
Tomoyo concordou com a cabeça. ‘Sinto a falta dele também.’ Ela sorriu. ‘E acho que até Yuo sente falta dos olhares assassinos que Touya-san lançava para ele.’ Completou rindo.
Touya e Yukito tinham resolvido fechar a loja devido aos prejuízos constantes gerados pela crise internacional e mudaram-se para Osaka, perseguindo uma vaga de trabalho numa empresa de médio porte. Kurogane até tinha oferecido uma vaga para ocupar o mesmo cargo, no setor de informática da empresa Daidouji, mas foi categoricamente rejeitado pelo orgulhoso irmão de Sakura, mesmo que de forma polida e educada.
Já fazia quase dois anos desde que Touya e Yukito se mudaram de Tomoeda. Viam-se nas principais festividades e aniversários, e ela falava com certa frequência com eles, mas não era a mesma coisa.
Sakura deu um longo suspiro. Shaolin não tinha contato com a família de Syaoran, fora alguns encontros breves com Meilyn, o marido e os filhos, e a única família de Sakura era Touya que também estava longe. Olhou para as fotos que Tomoyo continuava a mostrar.
‘Falando em olhar mortal…’ A morena falou, apontando para o rosto contrariado de Touya em outra foto. ‘Olha só a cara dele para Yamazaki-kun quando ele foi o príncipe no Festival do Cravo!’ Comentou, rindo.
Sakura levantou os olhos para o marido, que estava conversando com Kurogane, e abriu um sorriso enorme. Lembrava-se dele vestido de príncipe e lhe oferecendo o braço para dançarem naquela ocasião. Ele estava lindo.
Syaoran virou-se para ela, sentindo que estava sendo observado e franziu a testa de leve ao ver o sorriso da esposa, mas logo abriu um sorriso tímido de volta. Independente do que ela estava pensando, era maravilhoso vê-la sorrindo para ele. Kurogane chamou sua atenção, fazendo-o voltar-se para a conversa.
Sakura voltou a olhar para as fotos e reparou que Tomoyo tinha fechado o sorriso.
‘O que foi?’ Ela perguntou para a morena.
Tomoyo balançou a cabeça de leve. ‘É que, às vezes… eu olho para estas fotos e acho que elas estão erradas.’
Sakura olhou com doçura para a amiga. Gostaria tanto de falar para ela que, como sempre, ela estava certa. Entendia perfeitamente o que o filho sentia quando reclamava de não poder falar para Kasumi sobre magia.
‘Eu olho… sei que fui eu quem as tirei, mas parece que tem algo que não está certo.’ Tomoyo continuou. Balançou de novo a cabeça mais forte. ‘Besteira minha.’ Falou por fim. Voltou a abrir um sorriso. ‘Tenho certeza que logo Kasumi-chan participará de uma peça no festival do Cravo!’ Disse com os olhinhos brilhando. ‘E vou fazer um figurino lindo para ela como eu fiz para você. Ela ficará linda de princesa.’
‘Tenho certeza que sim. Ela é uma menina linda.’
Tomoyo concordou com a cabeça e soltou um suspiro já imaginando a filha em um de seus figurinos. Adorava fazer roupas para Kasumi e apesar dela, inicialmente, sentir-se constrangida, acabava aceitando vestir e usar os vestidos e roupas que ela fazia com tanto capricho para sua princesa.
Sakura sorriu enquanto a amiga apontava para as fotos, comentando alguma coisa. Desviou os olhos das fotos e observou a morena, suspirando. No fundo, gostaria que ela se lembrasse de tudo que viveram quando eram crianças e caçavam as Cartas Clow; assim como o tempo que passaram juntas na faculdade.
Tomoyo fora um dos maiores suportes dela naqueles tempos, sempre acreditando nela, sempre ao seu lado, dando-lhe forças e fazendo-a acreditar que ela seria capaz de fazer tudo. Que tudo sempre terminaria bem. E sempre em grande estilo com suas incríveis roupas especiais.
Sorriu de forma aberta, lembrando-se deste detalhe.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Shaolin soltou um suspiro, passando as costas da mão direita na testa. ‘Já está bom, Kasumi! Tem comida para um batalhão.’
Ela olhou para o menino e depois esticou o pescoço olhando para os vegetais que ele preparava. ‘Ainda tem pouco. E você é quem gosta de vegetais, você sabe que eu prefiro carne.’
Ele fechou o rosto contrariado. ‘Você é uma carnívora.’
‘Seres humanos são onívoros.’ Ela replicou o resmungo dele. ‘Gosto tanto de vegetais quanto de carnes… só prefiro carnes.’ Falou, dando de ombros.
‘Não sei como consegue comer tanta carne.’
Kasumi abriu a tampa da panela e o cheiro bom invadiu a cozinha. ‘Acho que já está quase bom. Anda logo com os legumes. Tenho que colocá-los para cozinhar um pouco com a carne.’ Ralhou com ele.
‘Você sabe que não gosto de cozinhar.’ Continuava resmungando. ‘Mas se esta é a única maneira para você agora fazer alguma coisa comigo, então eu faço o que você mandar.’ Completou, descascando os legumes e os picando em seguida, mesmo com o rosto contrariado.
Ela olhou de esguelha para o menino ao seu lado e mordeu de leve o lábio inferior. Era verdade que estava evitando-o, mas porque sabia que ele e Marie-nee-san estavam sempre falando de algo que não gostariam que ela soubesse.
Além disso… achou que, ao se afastar um pouco do menino, as coisas dentro do seu coração ficariam melhor resolvidas, mas a mãe conversou com ela e a alertou que estava agindo errado. Balançou a cabeça de leve, sabia que aquela história de jantar tinha sido obra da mãe para fazer os dois se entenderem.
O menino terminou e estendeu para ela o recipiente com os legumes devidamente descascados e picados. ‘Pronto.’
Ela os pegou satisfeita e acrescentou à panela, mexendo de leve.
Shaolin sorriu, observando-a preparar a comida. Kasumi era uma das melhores alunas das aulas de culinária da escola. Eles sempre eram dupla, ou faziam parte do mesmo grupo.
Kasumi virou-se para ele de repente e bateu as mãos na frente do rosto. ‘Agora vamos fazer os korokkes!’
Ele olhou para ela desanimado. ‘A gente já fez um monte de coisa. Somos só eu, você e nossos pais.’
‘Tousan e Ojisan são homens. Comem bastante.’
‘Você come mais que eles.’ O garoto resmungou, enquanto ela já começava a colocar os ingredientes em cima do balcão para preparar o que queria, beliscando o que já estava pronto.
‘Você está distraído.’ Ela falou e virou-se para o menino. ‘E cansado. Muito cansado.’
Ele concordou com a cabeça. ‘Isso é verdade.’ Falou, esticando as costas.
O pai tinha pedido para a prima pegar pesado com ele nos treinos e Marie estava cumprindo a ordem à risca.
‘Você não tem ido mais treinar no dojo.’ Ela falou com o tom triste.
Ele soltou um suspiro. ‘É por isso que anda chateada comigo?’ Perguntou encarando a menina que arregalou os olhos de leve.
Kasumi desviou os olhos dele e continuou a pegar o material para a preparação dos croquetes. ‘Não estou chateada com você.’ Ela murmurou.
‘Não?’ Ele a interrogou. ‘Tem certeza?’
Ela o olhou rapidamente e depois desviou os olhos novamente. ‘Tenho… Não estou chateada. Estava com alguns… algumas… enfim… Estava confusa com algumas coisas.’ Ela respondeu afinal, sorrindo de leve. ‘Mas kaasan me ajudou a entender melhor as coisas.’
‘Se me contasse, eu poderia ajudá-la.’ Ele rebateu.
Kasumi comprimiu os lábios novamente e mexeu nas panelas. ‘São coisas de meninas…’ Sussurrou como resposta.
‘Certo.’ Ele falou ainda contrariado. ‘E já resolveu?’
Ela sorriu de leve. ‘Acho que sim.’ Respondeu e inalou o cheiro da refeição quase pronta. ‘Hummmm… Acho que já está quase pronto. Não posso deixar os vegetais cozinhar muito, senão ficam moles.’ Falou, pegando um garfo e espetando. Provou um pedaço e sorriu, satisfeita. ‘Está bom!’
O menino balançou a cabeça de leve novamente. ‘Não sei como você consegue comer tanto e não explodir. Parece até Kero-chan.’
‘Kero-chan?’ Kasumi perguntou, erguendo uma sobrancelha e olhando para o amigo.
Shaolin respirou fundo e soltou o ar devagar. Isso acontecia de vez em quando. Era difícil demais se controlar o tempo todo. Ficou calado, não aguentava mais mentir para a amiga. Começou a descascar rápido tudo o que ela tinha pedido e estendeu para ela, achando que ao ver que tudo estava como ela mandara, Kasumi esqueceria de cobrar uma resposta.
‘Pronto! Terminei!’ Ele falou satisfeito, sorrindo de forma nervosa para ela. ‘O que mais quer que eu faça?’
A menina soltou um suspiro e desviou os olhos dele. ‘Você não anda bem, não é? E acho que apenas nee-san é quem tem lhe ajudado, né?’ Falou com o tom triste.
Shaolin olhou para ela de esguelha. ‘Nee-san é minha prima.’
Kasumi encolheu os ombros de leve, não gostou de ouvir a colocação dele. ‘Sim… Ela é sua prima. Deve ser por isso que há tantos assuntos entre vocês que não posso saber.´
‘Não é nada disso.’ Ele falou em tom nervoso.
‘Você está vermelho, Shaolin. Está mentindo.’ Ela falou, desanimada.
‘Só porque estou vermelho, não quer dizer que estou mentindo.’ Falou irritado.
Ela virou-se para ele estreitando os olhos no menino. ‘Eu o conheço desde que eu me entendo por gente, então eu sei quando está mentindo.’ Falou em tom calmo, o que no fundo deixava-o mais incomodado ainda. ‘Você só fica vermelho quando está mentindo ou quando vira o centro das atenções… Ou quando está ao lado da Maeda-chan.’
‘Eu não fico vermelho quando estou ao lado da Maeda-chan.’ Ele rebateu.
‘Fica sim.’ Ela falou, sorrindo de forma triste e deu um suspiro desanimado, voltando a atenção a preparação dos croquetes. ‘Todos os meninos ficam vermelhos ao lado da menina mais bonita do sexto ano.’
Shaolin observou o perfil da menina. ‘Eu não acho que ela seja tão bonita assim.’ Ele rebateu, sentiu o rosto corar novamente pensando que achava Kasumi mais bonita, mas não teve coragem de falar.
‘Você não está ao lado dela agora, estamos só eu e você aqui e você está vermelho… Então você está mentindo.’
Ficaram em silêncio, Kasumi voltou a prestar atenção na preparação dos croquetes. Shaolin baixou os olhos, sabia que, apesar da amiga falar que não estava chateada, este era o motivo que a estava fazendo se afastar dele.
‘Você sempre tem que ir na casa de Nee-san. Quase todos os dias...’
Shaolin coçou a bochecha direita. ‘Eu vou com os meus pais. Estamos… estamos… ajudando os tios… em…’
‘Você está mentindo. Melhor nem continuar.’ Ela o interrompeu.
O menino se calou e engoliu em seco. Estava mesmo pensando em uma mentira. Olhou de esguelha para a menina ao seu lado que começava a preparar os pratos para servir. Soltou um suspiro.
‘Kasumi…’ Ele começou a falar. Pediria desculpas para ela e seria honesto em falar que não poderia dizer.
‘Nos últimos meses, você e Nee-san estão conversando e, quando eu chego perto, vocês mudam de assunto… Não querendo que eu saiba do que estão falando. Vocês têm muitos segredos, não?’
‘Não é isso… é que Nee-san, às vezes, precisa desabafar. Nós somos primos e ela não tem muitos amigos.’ Ele tentou justificar.
‘Eu poderia continuar amiga dela, mas…’ Kasumi olhou para Shaolin. ‘Acho que ela prefere falar só com você, né?’
Shaolin balançou a cabeça. ‘Não é isso, Kasumi…’
Kasumi soltou outro suspiro e voltou a preparar a massa dos korokkes. ‘Mas tudo bem… Somos amigos. Quando você quiser falar comigo, eu vou estar aqui. Só espero que esteja tudo bem com você e com ela. Não gosto de vê-lo cansado dessa maneira. Fico preocupada com você.’
Shaolin desviou os olhos dela, sentia um arrepio toda vez que ela falava de forma meiga com ele daquela forma. ‘Você… você não entenderia.’
‘Talvez… Tem coisas que realmente são difíceis de entender mesmo, né?’ Falou, forçando um sorriso.
Shaolin virou-se para ela, fitando-a. ‘É complicado.’
‘Acho que sim...’ Kasumi falou e depois os dois ficaram em silêncio. Um incômodo silêncio.
Shaolin cerrou os punhos, ainda fitando Kasumi que voltava a preparação da massa dos croquetes. Detestava saber que ela estava magoada com ele. Fechou os olhos, pensando que não aguentava mais guardar aquele segredo dela. Não aguentava mais perceber que aquilo a estava afastando dele.
Tinha certeza que, se fosse o contrário, sentiria-se traído pela amiga. Possivelmente, era o que ela devia estar sentindo também. Mas Kasumi esperava de forma paciente o momento que ele contaria para ela. Se fosse ele, provavelmente, já a teria colocado contra a parede até que a garota falasse o que estava acontecendo. Já estava se sentindo incomodado por sentir que estava fora de alguma coisa da vida da amiga, por ela estar evitando-o.
‘Eu sinto muito, Kasumi.’ Ele falou, quebrando o silêncio e fazendo-a virar-se para ele. O menino se aproximou mais dela e a fitou de perto. Chegava a sentir o ar lhe faltar quando os olhos grandes dela o fitavam daquela forma. ‘Eu realmente não quero esconder nada de você.’
‘Você não precisa! Shaolin, o quer que seja, eu vou entender. Talvez eu até possa ajudar!’ Ela falou com a voz suave, sorrindo de leve e fazendo-o sorrir também.
Shaolin franziu a testa. Pensou que, com certeza, receberia uma bronca do pai e que a mãe se decepcionaria com ele, mas não dava para continuar com aquilo.
‘Eu… eu…’ Ele começou a falar, tentando achar as melhores palavras. ‘Hum…’ Murmurou, achando que talvez fosse mais fácil mostrar. Olhou para trás, ouvindo as vozes dos pais conversando com os tios na sala. Não poderia invocar nenhuma magia forte para não levantar suspeitas. Pegou um ofuda no bolso, fazendo-o pegar fogo sozinho.
Kasumi arregalou os olhos, observando o talismã com a chama ardendo sobre ele, sem queimar o papel. Inclinou a cabeça de leve, analisando. ‘Como você fez isso? É um isqueiro bem estranho.’
‘Não é isqueiro, Kasumi.’ Ele falou decepcionado. A chama se apagou e ele olhou em volta, pensando no que poderia fazer. ‘Tá bom…’ Falou estreitando os olhos no prato a frente da menina, no qual ela preparava a massa dos korokkes. Fez um gesto com a cabeça, pedindo para ela olhar e Kasumi abaixou o rosto, observando o objeto. ‘Flores dos ventos.’ Invocou a magia, fazendo um redemoinho circular o prato, levantando-o até a altura do rosto de Kasumi.
Ela arregalou os olhos, observando o prato que flutuava à sua frente e estendeu o braço. A magia cessou e ela pegou o prato com as mãos para que ele não caísse e se quebrasse.
‘Co-como você fez isso?’ Kasumi perguntou, virando-se para o amigo.
‘É magia.’ Ele falou em tom baixo, dando de ombros.
Sentia como se um peso enorme estivesse saindo de seus ombros. Além disso, gostou de ter surpreendido Kasumi. O olhar de admiração dela o fazia sentir-se muito bem. O que mais temia era que a menina ficasse assustada.
‘Magia?’ Ela repetiu devagar. ‘Tipo… truque mágico?’
Shaolin franziu a testa e fechou o sorriso bobo que tinha nos lábios ainda há pouco. ‘Você é mesmo cética, hein?’
Kasumi abriu a boca umas duas vezes, tentando falar alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Observou o menino voltar a atenção ao material culinário espalhado pelo balcão da cozinha.
‘Desde quando você tem isso?’
‘Sempre tive, mas só comecei a treinar magia há uns cinco anos. É isso que eu faço na casa de Nee-san. Ela também tem magia, então treinamos juntos. É sobre magia o que falamos, às vezes...’
‘Nee-san também usa os ofudas? Como você?’
Shaolin balançou a cabeça. ‘Não… A magia dela é um pouco diferente. Na verdade… É bem diferente. Ela é muito forte.’
‘Ah...’ Kasumi soltou ainda espantada. Calou-se novamente, observando o menino ao seu lado por alguns segundos, fazendo-o voltar a ficar tenso. ‘Você então tem poderes mágicos? Você é como um super herói?’
‘Também não é assim.’ Ele falou, rindo-se e coçando a bochecha sem graça, apesar de ter gostado da comparação.
‘E o que mais você consegue fazer?’ Ela perguntou animada.
Ele encolheu os ombros. ‘Bem… Minha magia é parecida com a de tousan, então...’
‘Peraí! Ojisan tem magia também?’ Kasumi perguntou em tom mais alto, surpresa.
Shaolin arregalou os olhos, fitando a amiga. ‘Fala baixo! Eu vou levar uma bronca dele por ter contado para você.’
Ela tampou a boca, prometendo que falaria baixo.
‘Tousan e kaasan possuem magia.’ Ele respondeu, e a fitou intensamente. ‘Kasumi… Por favor, você não pode contar para ninguém sobre isso.’
Ela balançou a cabeça. ‘Prometo que não conto para ninguém. Pode confiar em mim.’
Shaolin assentiu com a cabeça. ‘Eu confio.’
Voltaram a ficar em silêncio, a preparação da refeição deixada de lado agora.
Kasumi se voltou para ele, subitamente. ‘E quem é Kero-chan?’ Ela perguntou.
‘É um dos guardiões de kaasan… A história é comprida. Enfim… Ele parece um bichinho de pelúcia que fala, come muito, tanto quanto você…’ Disse rindo para ela. ‘E dorme roncando, além de jogar videogame o dia inteiro. Mas é gente boa.’
‘Um bichinho de pelúcia?’
‘Ele é, na verdade, uma criatura mágica e a aparência de ursinho de pelúcia é só um disfarce. A forma original dele é como um leão sem juba ou um tigre sem listras… Enfim… É um felino alado enorme… É bem legal...’
‘Parece legal mesmo.’ Ela concordou.
‘Um dia eu conto a história toda. Da próxima vez que você for lá em casa, eu prometo apresentá-la para ele. Kero-chan vai gostar disso.’ Shaolin falou, sorrindo para ela. ‘E as Cartas também. Elas gostam muito de você.’
‘Cartas?’ Kasumi voltou a perguntar.
‘Esta também é uma longa história.’ Falou, fazendo uma careta.
Voltaram a ficar em silêncio.
‘Hei, Kasumi! Shaolin-kun!’ A voz de Kurogane na porta da cozinha chamou a atenção das duas crianças que quase pularam de susto. O homem franziu a testa. ‘Está tudo bem?’
‘Tudo bem.’ Ela falou atrapalhada, voltando a preparação das coisas. ‘Mais cinco minutos e a gente começa a servir, está bem?’
‘Não quer mesmo ajuda?’ Ele perguntou.
Ela balançou a cabeça de leve. ‘Shaolin já está me ajudando. Obrigada.’
‘Está bem.’ Ele falou. ‘Mas se precisar, é só chamar.’ Encarou o menino. ‘Se ela pegar muito pesado com você, também pode me chamar, certo?’
‘Gosto de cozinhar com ela.’ Ele respondeu, sorrindo.
‘Ela é muito mandona na cozinha.’
‘Assim como o senhor.’ Kasumi rebateu, estreitando os olhos no pai.
‘Exatamente.’ Kurogane falou, voltando a deixar as duas crianças sozinhas.
‘Agora você não tem mais segredos comigo?’ Kasumi perguntou, sorrindo para o menino.
Shaolin balançou a cabeça. ‘Não. Mais nenhum. Você sabe tudo sobre mim agora.’ Ele a encarou por alguns segundos. ‘E você? Está guardando algum segredo de mim?'
Ela arregalou os olhos e desviou-os por um momento, voltando a encará-lo em seguida. Sentiu o coração palpitar de maneira que parecia que queria sair para fora de seu peito. Mordeu os lábios nervosa, e lembrou-se da conversa com a mãe. ‘Eu… Eu gosto muito de você, Shaolin.’ Falou, sentindo o rosto esquentar.
Ele sorriu para ela e sentiu o rosto esquentar, desviou os olhos, sentindo o coração bater de forma descompensada. ‘E-eu também, Kasumi.’ Engoliu em seco e, inconscientemente, cerrou os punhos. ‘Você é como uma irmã para mim.’
Ela suspirou e concordou com a cabeça, já esperava por esta resposta. ‘Certo! Vamos logo finalizar isso. Pelo jeito tousan está com fome. Hei! Tem magia para preparar comida?’
Shaolin riu, desanuviando o nervosismo. ‘Tem uma Carta que consegue criar doces.’ Ele respondeu e viu os olhinhos dela brilhando.
‘Isso deve ser muito legal!’
‘É, sim… Kero-chan a adora. Quando for lá em casa peço a ela vários doces para você.’
‘Vou cobrar.’ Disse entusiasmada.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Marie olhou de esguelha para o primo às suas costas. Eles estavam lutando contra alguns seres criados por ela com um poder como o de Criatividade. Shaolin cortou um ao meio enquanto Marie, que também tinha uma espada na mão, combatia outro. Estavam de costas um para outro.
‘Kasumi-chan hoje voltou a falar comigo. Ela andava bem chateada.’ Marie comentou antes de decapitar uma criatura.
Shaolin bloqueou o ataque de uma das criaturas, chutou-a e atingiu-a com a espada. ‘Sim… Ela estava chateada comigo também.’ Respondeu a prima.
‘Você não segurou a língua e contou para ela, não foi?’ Marie falou antes levantar a mão e, com uma rajada de vento, afastar o inimigo que tentava golpeá-la.
Shaolin suspirou, afastou-se um pouco da prima para golpear mais outras duas criaturas que tentavam acertá-lo. ‘Eu não conseguia mais mentir para ela.’ Finalmente respondeu. ‘Levei uma baita bronca do tousan quando contei para ele.’
‘Que novidade você levar bronca de Ojisan.’ Marie ainda falou, debochando e logo invocou seu poder, fazendo surgirem galhos do chão que prenderam uma das criaturas, estreitou os olhos nela e fez com que os galhos a apertassem até destruí-la. ‘A bronca valeu a pena, pelo menos?’ Ela perguntou, olhando de esguelha para o primo que lutava contra uma criatura maior desta vez.
Ele saltou para trás, evitando ser atingido, e parou mais próximo a ela. ‘Como assim valeu a pena? Claro que valeu… Agora não preciso mais mentir para Kasumi...’ Respondeu, pegando um talismã. ‘Deus do trovão, vinde a mim!’ Convocou sua magia para atingir o inimigo.
‘Deve ser difícil mesmo, ter que mentir o tempo todo para sua namoradinha, né?’ Marie riu enquanto soltava bolas de fogo em dois adversários, ao mesmo tempo.
Shaolin arregalou os olhos de leve, sentindo o rosto esquentar. Voltou-se rapidamente para a prima pelo ombro direito. ‘Ela é…’
Foi interrompido quase sendo golpeado, fez um rolamento escapando do ataque e viu a criatura que quase o acertara ser empurrada por uma rajada de vento de Marie. Levantou-se irritado e atingiu o oponente, cortando-o ao meio. Pegou outro talismã e levou-o a altura do rosto.
A mandala baguá do pai formou-se ao seus pés. ‘Metal, Madeira, Água, Fogo, Terra. Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas. Eu os invoco para meu auxílio. Agora!’ Ordenou fazendo com que os raios atingissem todos os oponentes que ainda estavam em pé. Franziu a testa e olhou para a prima com o rosto fechado. ‘Ela é como se fosse minha irmã. Você sabe disso.’ Finalmente conseguiu responder.
Marie olhou para o primo de forma irônica e passou a mão pelos cabelos dele, bagunçando-os mais. Fazia isso para irritá-lo. ‘Ficou nervosinho, hein, pirralho?’
‘Humph.’ Ele murmurou, afastando a mão dela. ‘Estas criaturas que você criou é que são muito fracas.’
Marie balançou o corpo de leve, observando o primo emburrado. Era raro vê-lo assim, mas ela sabia que realmente o tinha provocado ao falar da namoradinha. Não podia negar que era divertido.
‘Bem… Você destruiu todos.’ Falou, olhando em volta. ‘Acho que poderíamos elevar o nível do treinamento, não concorda?’
Shaolin deu de ombros. ‘Sei lá… Você é quem sabe.’ Respondeu, ainda contrariado.
‘Então, vamos lutar um contra o outro, o que me diz?’ Marie sugeriu.
Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Lutar? Magia contra magia?’
‘Claro…’ Ela falou, rindo de lado. ‘O outro tipo de luta…. É especialidade da Kasumi-chan, né?’ Completou cantarolando e dando uma piscadinha para ele.
‘Ah, você está chata pra caramba hoje, hein?’
‘Seria um bom exercício de reflexo e aplicação dos conceitos teóricos da magia.’ Ela explicou, ignorando o comentário dele. ‘Para evitar acidentes, não usaremos ataques diretos, que tal?’
Ele franziu a testa, pensativo. ‘Então, um invoca uma magia e o outro teria que anular? É aquele lance de ciclos de inibição, é isso?’
Ela concordou com um aceno rápido da cabeça e sorriu de lado, vendo que ele tinha ficado interessado.
‘Está bem.’ Shaolin respondeu por fim. Pegou as Cartas da mãe que estavam no bolso e olhou para a prima que se sentia satisfeita por ele aceitar o desafio. ‘Quem começa?’
‘Pode ser você.’ Ela falou, encolhendo os ombros. ‘Mas tem que ser rápido na decisão de qual vai usar, senão… você já era.’
Shaolin sorriu de forma irônica para a prima. Hoje ela realmente estava pegando no pé dele. Deu um longo suspiro, pensando que não gostava muito de usar as Cartas de forma combativa. Ele fora criado convivendo com elas. Para ele era mais fácil ver a magia que tinha aprendido com o pai nos últimos anos como algo realmente de combate do que as Cartas. Mas sabia que a prima tinha razão. Seria um treinamento interessante.
‘Flecha!’ Ele iniciou o ataque mágico. A carta foi liberada e a flecha mágica seguiu em direção a uma árvore qualquer próxima de Marie, multiplicando-se no meio do percurso.
‘Trovão!’ Marie falou atacando as várias flechas mágicas e as anulando. Olhou para o primo e sorriu. ‘Bosque!’
Os galhos seguiram na direção do menino que arregalou os olhos, tentando pensar em qual carta usaria. Estava na dúvida se usava Gelo para congelar os galhos ou Névoa para destruí-los.
‘Névoa!’ Decidiu por fim, fazendo os galhos ressecarem, destruindo-os. Por muito pouco, não perdeu o embate. ‘Fogo!’ Solicitou outra carta.
Marie levantou o braço e uma onda formou um paredão, anulando as chamas mágicas. ‘Terra!’ Falou em seguida. Uma “serpente” de terra brotou do chão, avançando sobre o primo.
‘Bosque!’ Shaolin escolheu a carta que aprisionou a terra, impedindo-a de chegar até ele e logo a fez desaparecer. ‘Tempestade!’ Ordenou e um tufão se formou seguindo na direção de Marie.
A jovem pensou que ele estava ficando esperto, vamos ver como ele se sairia sendo atacado de volta. ‘Aro!’ Solicitou a magia, fazendo com que o tufão se voltasse contra Shaolin que realmente fora pego de surpresa, vendo seu ataque retornar.
‘Através!’ Foi a única coisa que ele conseguiu pensar, fazendo o tufão atravessar seu corpo e se dissipar depois. Estava para invocar outra magia, mas Marie foi mais rápida.
‘Areia!’ Ela falou e a enorme nuvem de pó se ergueu, voando em direção a Shaolin.
Ele arregalou os olhos. ‘Vento!’ Invocou a magia que, atingindo a nuvem de areia, formou uma imensa nuvem de pó. O menino fechou os olhos, colocando a mão em frente ao rosto antes de invocar Escudo.
Marie franziu a testa, observando o primo ser envolvido pela tempestade de areia. Abaixou o rosto e levou uma das mãos até a cabeça, sentindo a familiar sensação que acompanhava mais uma de suas visões. Sua magia expandiu enquanto a mandala púrpura de Clow, mais uma vez, apareceu sob seus pés.
‘O que você está fazendo aqui, Midoriko?’ Ela ouviu uma voz familiar falando, não conseguia ver direito quem era. Sentia-se fraca. ‘Por que não está lutando contra Pazuzu com o Garoto e Tadmoth?’
Marie levantou o rosto e viu o grande demônio com um braço só, que volta e meia aparecia em suas visões, falando com a mulher de longos cabelos vermelhos, que lhe era também familiar, mesmo que ainda não soubesse dizer quem eram eles e o que estava acontecendo.
‘Estou caindo fora!’ A mulher falou de forma sarcástica.
‘Você realmente é um demônio traiçoeiro.’ Retrucou o grandão. ‘Se não ajudar, estará quebrando seu acordo com Enma Daiyoh. Não vai receber sua recompensa!’
‘O que Enma Daiyoh me prometeu não será nada comparado ao que conquistarei quando eu tiver o filho do Garotão.’ Ela falou antes de atacá-lo, deixando-o inconsciente.
Marie deu uns passos para trás, levando agora as duas mãos à cabeça. A mandala de Clow que havia se formado aos seus pés, aos poucos mudava. O grande Sol aos poucos era encoberto pela Lua que aumentava em tamanho, formando algo que se assemelhava a um eclipse. Ao centro, numa área escurecida, uma estrela dentro de um círculo surgiu.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Shaolin olhava assustado para a prima.
‘Apagar!’ Invocou a magia, dissipando completamente a tempestade de areia. ‘Nee-san!’ Chamou-a e tentou se aproximar, mas a energia da prima havia crescido de forma estrondosa.
Ele reparou na mudança da mandala dela e a viu tirar as mãos da cabeça e levá-las ao peito. Estava com os olhos fechados. Apesar da mandala ser dominantemente púrpura, o menino conseguiu ver que, no centro dela, um brilho multicolorido surgia e foi se expandindo e aumentando de forma súbita.
‘Nee-san!’ Shaolin gritou novamente, fazendo uma nova investida para se aproximar da prima, mas sentiu quando foi empurrado pela magia em torno do corpo dela.
A luz multicolorida, que inicialmente era pequena, aumentou criando uma esfera que planava no ar a frente de Marie. Droga! O que seria aquilo?!
Shaolin percebeu que o brilho da esfera se intensificou de tal forma que foi obrigado a fechar os olhos para não se cegar. Colocou o braço a frente dos olhos, protegendo-os da luz intensa e, quando finalmente conseguiu abri-los, percebeu a silhueta de um rapaz surgindo de dentro da esfera. A luz diminuiu, tão rápida quanto havia surgido, e finalmente desapareceu. Shaolin piscou os olhos algumas vezes, ainda incomodado e conseguiu ver com nitidez o ser que havia surgido através da esfera multicolorida.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Franziu a testa, percebendo que a presença dele era parecida com a da prima, mas não igual. Ele estava envolto na aura púrpura que conseguia ver com clareza em torno de Marie. Porém não foi isso que mais lhe chamou a atenção.
Deu dois passos à frente, encarando o rapaz que estava a poucos metros dele, na frente de Marie. Balançou um pouco a cabeça sem conseguir entender o que acontecia.
Shaolin e o desconhecido permaneciam em silêncio, encarando-se como que analisando um ao outro. O menino olhava de forma confusa para aquele rapaz a sua frente que era extremamente parecido com o seu pai.
Continua.
Fale com o autor