FEITICEIROS
50 O Primogênito
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FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques
Capítulo 50
O Primogênito
Kazuo caminhava devagar e atento. Estavam entrando no maldito Deserto Ardente onde ele lutaria contra o tal do Choronzon como Midoriko havia exigido. Assim, ela assumiria o domínio de mais um pedaço daquele monte de areia.
Olhou rapidamente para trás por sobre o ombro esquerdo e viu Midoriko, Arthas e mais alguns demônios, que agora deram para seguir a “Imperatriz do Mundo das Trevas”, como a mãe se auto proclamava. Rodou os olhos. Para que ela queria um monte de idiotas atrás dela se, para enfrentar mesmo o problema, era ele quem ia na frente e, sempre, sozinho?
Apertou mais forte a espada que tinha em suas mãos e que tinha pegado de um dos adversários que havia derrotado anteriormente. Tinha facilidade para lutar com a espada e Arthas já tinha falado que esta também era uma habilidade do pai. Merda! Tudo sempre era alguma coisa do pai. Ele não era o pai. O pai estava morto e ele estava ali naquela merda de lugar.
Franziu a testa, começando a perceber a aproximação de um poderoso ser. Não conhecia o tal Choronzon e Arthas não havia lhe dado muitas informações úteis. Falou apenas que ninguém nunca tinha visto a sua forma verdadeira, pois era um demônio feiticeiro que tinha como especialidade a ilusão e a confusão.
Não demorou muito, um redemoinho se formou à sua frente, levantando a areia do chão. Kazuo colocou-se em posição de luta, flexionando levemente os joelhos e segurando a espada com força. Estreitou os olhos no inimigo que se aproximava, saindo da nuvem de poeira.
Arregalou os olhos de leve, vendo a sua frente a imagem de um homem parecido com ele. ‘Mas que merda é esta?’ Ele se perguntou e viu que o homem, assim como ele, havia se posicionado para lutar.
O adversário avançou em sua direção, atacando-o furiosamente com a espada que também tinha nas mãos. Kazuo bloqueou o ataque, mas foi obrigado a dar alguns passos para trás, segurando mais forte a espada para que ela não caísse de suas mãos. Acabou sendo golpeado por um chute na altura do abdômen e afastou-se mais do inimigo. Sentiu o potente golpe. Olhou novamente para o homem que endireitou o corpo e apontou a espada na sua direção.
‘Você é muito fraco para ser meu filho.’ Falou friamente, fazendo Kazuo arregalar os olhos.
Balançou a cabeça de leve. Seu pai estava morto, não estava? Não conseguiu nem tentar achar uma resposta, pois, novamente, o adversário avançou contra ele, tentando acertá-lo com a arma. Kazuo voltou a bloquear os golpes, fazendo as lâminas faíscarem. Mas que droga! Por que ele não conseguia contra-atacar?!
Pela hesitação, acabou sendo atingido no braço que agora tinha um grande ferimento que sangrava. Deu alguns passos para trás, encarando o adversário.
‘Você realmente é fraco demais.’ O inimigo falou, levantando uma das mãos e a areia que estava sob os pés de Kazuo começou a girar, erguendo-se num imenso redemoinho que circulou o corpo do rapaz, impossibilitando que ele se movimentasse.
Sentiu quando seus pés perderam o contato com chão. Fechou os olhos um pouco para evitar que a areia entrasse por eles e machucasse sua visão, mas ainda conseguindo ver a figura do seu suposto pai caminhando em sua direção. O homem tinha o rosto sério, além de ser parecidíssimo com ele. Viu-o sorrindo de lado de forma irônica.
‘Então você realmente acha que pode entrar nos meus domínios, fedelho, e sair vivo?’
Kazuo franziu a testa, lembrando-se do que Arthas havia dito. Choronzon era um demônio da ilusão. Claro! Aquilo ali era a imagem criada pela sua própria cabeça.
Detestava tanto ser comparado ao pai, viver à sombra dele, que acabou transformando-o naquilo que mais temia. Fechou os olhos, concentrando sua magia e a sentiu circular em volta do seu corpo, anulando a magia que o prendia.
Pousou no chão e flexionou os joelhos apenas o suficiente para pegar impulso e ir em direção ao oponente. Agora que identificara o problema, não seria mais afetado por aquele fantasma da sua cabeça e não teria mais receio. Ao invés de apenas bloquear os golpes, começou a atacar com estocadas cada vez mais violentas contra Choronzon.
‘Vai se arrepender de ter entrado na minha mente, cara.’ Falou entre os dentes enquanto golpeava Choronzon com fúria. Conseguiu atingi-lo e, assim que viu a guarda do inimigo baixa, concentrou energia em uma das mãos e a desferiu contra o corpo do oponente que foi lançado longe.
Kazuo se ergueu, observando a imagem do pai no chão se levantando aos poucos. Engoliu em seco. Tinha que desvincular totalmente aquele ser a sua frente do pai que nunca conhecera. O grande ferimento do braço atingido, ardia bastante, mas isso também significava que estava cicatrizando.
Posicionou-se novamente esperando pelo ataque de Choronzon, que não demorou muito para voltar a avançar sobre ele. Sentiu quando a areia sob seus pés pareceram ter criado vida, envolvendo seus membros como tentáculos para, mais uma vez, prendê-lo. Tentou se soltar, em vão. Pelo menos não estava totalmente imobilizado. Estreitou os olhos em Choronzon e esperou o momento certo.
Assim que o inimigo tentou golpeá-lo com a espada, segurou o pulso dele com uma das mãos, afastou a espada do oponente de seu corpo e, com sua outra mão, que segurava firmemente a espada, cravou-a no meio do peito da ilusória figura paterna. Ouviu o grito e, logo, a imagem foi envolvida por um redemoinho de areia, retornando o demônio a sua forma original antes de, por fim, virar pó.
Kazuo abaixou os braços e percebeu que seus pés já estavam livres. Soltou um suspiro e não soube se foi de cansaço ou de tristeza. Quer dizer, tinha certeza que era de cansaço. Ele era um demônio, e tristeza era um sentimento que não fazia sentido.
Midoriko parou ao seu lado e observou o braço de Kazuo sujo de sangue que ainda pingava. Tinha sido um ferimento feio, mais um pouco e poderia ter decepado o braço dele.
‘Precisa ficar mais atento. Você, com estas palhaçadas sentimentais, quase perdeu o braço.’ Ela falou, olhando para ele duramente. ‘Ainda não conseguimos conquistar nem um terço do que eu quero. Estou louca para acabar com aquela metida e arrogante da Esdeath. Desta maneira, não tem como você derrotá-la.’
Kazuo virou o rosto para a mãe e trincou os dentes. ‘Então… você que a derrote, Vossa Majestade.’
Midoriko franziu a testa e parou a frente do rapaz. ‘Você está vivo graças a mim e, por isso, deve me obedecer.’ Ela respondeu.
‘Tô de saco cheio disso.’ Falou, já pronto para se afastar do demônio feminino quando percebeu que ela levantou a mão para dar-lhe um tapa como fazia quando era menor. Deu um passo para trás desviando da agressão gratuita. ‘Não me bata mais! Nunca mais!’ Falou em tom de desafio e começou a se afastar. ‘Fique aí com mais este pedaço de terra neste lugar de merda.’ Disse sem parar de caminhar.
Respirou fundo e levou a mão ao ferimento do braço, apertando-o. Estava doendo aquela droga e como era profundo, até sumir, ficaria ardendo como se estivesse em brasas. Inferno!
‘Garoto! Você está bem?’ Ouviu a voz de Arthas se aproximando dele, mas nem se deu ao trabalho de se virar para ver o grandalhão.
‘Não me chame de Garoto!’ Gritou irado.
Detestava ser chamado assim, simplesmente porque sabia que era assim que Arthas chamava o pai. Ele não era o pai.
Kazuo continuou a caminhar, afastando-se de todos. Queria ficar sozinho até aquela droga de ferimento cicatrizar. Quando percebeu que estava longe o suficiente para, finalmente, sentir-se em paz, sentou-se no chão, encostando-se num rochedo e jogou a cabeça para trás. Passou as costas da mão na testa, limpando o suor.
Como ele odiava aquele lugar e aquela vida. Por mais que tentasse entender aquela ânsia da mãe de conquistar territórios, não conseguia. Para ele não fazia sentido. Sabia que era um demônio, o inferno era seu habitat natural, então porque se sentia tão irritado por estar ali?
Fechou os olhos e tentou relaxar para que a adrenalina da luta abaixasse e o ferimento do braço cicatrizasse por completo. Prendeu a respiração quando sentiu uma forte presença mágica explodir perto dele. Abriu os olhos assustado, não sabendo o que era a enorme esfera multicolorida a sua frente.
Levantou-se devagar, sem tirar os olhos dela. ‘Mas o que é isso?’ Perguntou-se.
Deu um passo à frente e reparou que uma mandala mágica octogonal de cor púrpura apareceu sob os seus pés e sua magia se expandiu em ondas. Estendeu o braço em direção a fonte e sorriu de leve, pensando em como era bonito e acolhedor aquele brilho. Nunca tinha visto nada assim antes no mundo das trevas.
Franziu a testa, concentrando-se brevemente e estranhou ao sentir que, mesmo a energia sendo gigantesca, não era nociva. Pelo contrário, parecia que, de uma forma estranha, ela o estivesse chamando. Ele sabia que poderia ser perigoso se aproximar de algo desconhecido, mas simplesmente não conseguia controlar a atração que sentia por aquela presença mágica. Aproximou-se devagar, não por receio e, sim, por experimentar uma sensação estranha e agradável tomar conta do seu corpo.
Ele ouviu quando Arthas o chamou e pensou ter ouvido Midoriko também, mas não se importou. Continuou a caminhar e foi obrigado a fechar os olhos devido à intensa claridade. Sentiu aquela energia em torno do seu corpo e sorriu novamente. Por alguns segundos, pensou que estivesse levitando, até que finalmente voltou a sentir o chão sob seus pés. Tentou abrir os olhos, mas a luminosidade ainda estava forte e precisou de um tempo até, finalmente, conseguir visualizar ao redor, quando a claridade em torno de si diminuiu.
Olhou em volta e se viu num lugar estranho. Estava cercado de árvores verdes, a temperatura era agradável e o céu estava alaranjado, mas não em chamas. Sentiu uma presença a poucos metros de si e fitou a criatura à sua frente.
Era um menino de cabelos castanho-claros e olhos verdes, que o encarava com o rosto assustado. A aura dele era forte com a coloração de um azul pálido. Observou-o dar dois passos em sua direção, sem desviar o olhar e balançar a cabeça de leve, voltando a encará-lo.
Ficaram se encarando por algum tempo sem falar nada, até que ele percebeu outra presença atrás de si, muito próxima. Virou-se para trás e deparou-se com uma jovem de cabelos longos acobreados. Em torno dela, conseguia sentir uma forte magia como a da esfera luminosa, mas que, conforme diminuía, tornava-se púrpura.
Ela estava com os olhos fechados e tinha uma mandala aos seus pés que se sobrepunha a dele. Fora ela quem o trouxe para aquele lugar? Quem era ela? Quem eram aqueles dois? Onde ele estava?
A energia em torno da jovem diminuiu, assim como a dele, e as mandalas mágicas desapareceram. Ela abriu os olhos devagar, fitando-o com seus brilhantes olhos azuis e a testa franzida.
Marie olhou para o rapaz a sua frente ainda sem conseguir entender o que aconteceu ou o que ela realmente tinha feito. Sentiu o corpo fraco, tinha usado muita magia, de forma descontrolada. As pernas fraquejaram, e estava para cair no chão, quando sentiu que o rapaz a pegou pela cintura, impedindo a queda. Fitaram-se até o rapaz virar o rosto, observando o menino se aproximar.
‘Solte-a.’ Shaolin falou, observando-o.
‘Se eu soltar, ela cai.’ Kazuo respondeu no mesmo tom.
Shaolin desviou os olhos do rosto do rapaz e fitou a prima que tentava se recuperar. Ela realmente estava bem pálida, pois tinha gastado energia demais. Nunca tinha visto Marie daquela forma antes.
Ela ainda tentou se firmar nas próprias pernas por ser teimosa, mas novamente as sentiu fraquejarem, sendo segura com mais firmeza pela cintura.
‘Eu estou bem…’ Marie ainda tentou falar, mas não passava credibilidade nenhuma.
Shaolin não sabia o que fazer. Ao mesmo tempo que, claramente, sentia receio pela presença vindo do rapaz, não poderia negar a grande semelhança que ele tinha com o pai.
Isso já o estava enlouquecendo, quando percebeu a aproximação da mãe e do tio. Virou-se para trás e viu, por sobre ombro esquerdo, Sakura, que vinha correndo, desacelerar o passo e encarar o rapaz com o rosto espantado. Com certeza ela tinha percebido o mesmo que ele.
Eriol olhava perplexo para o que estava acontecendo, mas logo franziu a testa, cravando os olhos no corpo frágil da filha que estava sendo segurada por aquele ser de presença terrível.
‘Afaste-se dela, demônio!’ Proferiu ameaçadoramente.
Shaolin mostrou-se surpreso com as palavras do tio. Então o rapaz era um demônio? Mas por que ele era tão parecido com o pai? Por que a presença dele era parecida com a da prima? Voltou a fitar o desconhecido com mais apreensão.
Marie arregalou os olhos ao ouvir o pai. Sentiu o peito doer com aquelas palavras. Fechou os olhos e conseguiu se ver a frente do homem que a havia lacrado em uma carta, aprisionando-a sem nem ao menos tentar escutar o que ela tinha a dizer.
‘Está lacrada!’ Ouviu-o dizer com a voz ofegante. ‘E assim permanecerá, demônio.’
Kazuo sentiu o corpo da jovem tremer. Voltou-se para ela. ‘Hei! Você está bem, Garota?’ Perguntou, segurando-a com mais firmeza.
Marie não o ouviu. Ainda estava presa em suas lembranças.
‘Você é a mais forte e foi a mais difícil de ser capturada. Como é a líder, deverá se manter afastada das outras.’ Ela ouviu o homem a sua frente falar, estava fraca e presa, sem conseguir se mexer e sem conseguir falar nada. Sentiu-se ser envolvida pela energia mágica daquele feiticeiro e, aos poucos, foi perdendo noção do mundo a sua volta conforme tudo ao seu redor começava a ser mergulhado em trevas. A última imagem que teve antes de, finalmente, tudo se tornar profunda escuridão, foi a de seu carcereiro, cujo rosto era igual ao de seu pai.
‘Clow-sama…’ Marie falou entre os dentes, segurando-se em Kazuo e tentando não cair no chão.
Fora Clow quem a lacrara, fora ele seu carcereiro, quem a deixou nas trevas e no isolamento por séculos. Sem querer sentiu os olhos arderem e, mesmo que a revoltasse, sentiu quando as lágrimas transbordaram dos olhos azuis. Levantou a mão, secando-as o mais rápido que pôde.
‘Afaste-se da minha filha, agora!’ Eriol gritou irado, aproximando-se de Kazuo. Ele levantou a mão direita ao seu lado, materializando seu cetro mágico, e sob seus pés a mandala de Clow brilhou de forma intensa.
‘Eriol-san!’ Sakura chamou o amigo, parando a frente dele. ‘Mantenha a calma!’
O homem encarou Sakura rapidamente. ‘Ele é um demônio. Olhe o que ele fez a Marie.’
‘Não sabemos o que aconteceu aqui.’ Ela argumentou, tentando acalmá-lo antes que entrasse numa briga desnecessária.
Shaolin olhou para o tio que estava transtornado. Para ele começar a atacar não faltava muito. Por algum motivo, sabia que aquilo não era o certo. O rapaz, demônio ou não, não havia feito nada contra Marie.
Voltou a fitá-lo e balançou a cabeça de leve. Era parecido demais com o pai e alguma coisa dentro dele lhe afirmava que não precisava temê-lo. Soltou um suspiro e começou a se aproximar de Kazuo sob o olhar atento da mãe, que também estava nervosa, com receio do que Eriol faria. Parou em frente a ele e os dois novamente se encararam por alguns segundos.
‘Deixe que eu a segure.’ O menino falou. ‘Ela é teimosa, mas não está conseguindo se manter sozinha…’
‘Acha que consegue?’ Kazuo perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Shaolin assentiu com a cabeça de leve e apontou com o polegar para trás em direção a Eriol. ‘Eu aguento. Ossan ali atrás é que não está aguentando ver você abraçado à filha dele.’
Kazuo franziu a testa de leve, desviou os olhos rapidamente do garoto e observou Eriol. O menino tinha razão, a aura daquele lá estava agitada demais. Voltou a fitar o menino e acenou com a cabeça de leve.
Shaolin segurou a prima pela cintura, passando um braço dela sobre seus ombros.
Os dois voltaram a se encarar por alguns segundos até Kazuo dar um passo para trás, percebendo que o garoto segurava bem a ruiva.
‘Devia tratar este ferimento.’ Shaolin comentou, fazendo um gesto de leve com a cabeça em direção ao machucado que sangrava no ombro do rapaz.
Kazuo esboçou um sorriso com a observação do menino. ‘Daqui a pouco ele cicatriza.’ Achou graça do olhar descrente do garoto. ‘Mas arde muito até ficar bom.’ Completou.
‘Tudo tem um preço, não?’
Deu de ombros. ‘Acho que sim…’
‘Shaolin-san!’ Eriol chamou o garoto com a voz nervosa. Queria logo ver a filha longe daquele ser das trevas. Shaolin era ingênuo demais, como Sakura quando mais nova. ‘Afaste-se dele!’
‘Fica frio, Eriol-san!’ Sakura interveio. Estava com receio do autocontrole de Eriol. Ela estava prestando atenção no diálogo entre o filho e o rapaz e percebeu que não havia com o que se preocupar.
Shaolin soltou um suspiro. ‘Vou nessa. Ossan está nervoso.’
‘Eu estou bem…’ Marie tentou novamente ficar firme em suas pernas, mas falhou miseravelmente, sendo obrigada a se segurar no primo.
Kazuo sorriu de lado. ‘Bem que você disse que ela é teimosa…’
Shaolin concordou com a cabeça e sorriu se leve, finalmente se afastando do rapaz para alívio de Eriol.
Kazuo ajeitou o corpo, observando o garoto levar a jovem para perto da mulher que havia chegado há pouco, junto com o feiticeiro que continuava a fitá-lo com raiva. Não estava afim de brigar. Queria primeiro saber onde estava e o que realmente tinha acontecido.
Marie se segurou no primo. ‘ Shaolin-kun, não me solte.’ Ela sussurrou.
‘Nee-san, você está chorando.’ Ele perguntou, preocupado. ‘Sente alguma dor?’
‘Não.’ Ela respondeu baixinho, voltando a secar as lágrimas teimosas. ‘Eu vou ficar bem.’
‘Vou levá-la até seu pai.’ Ele falou, mas sentiu a prima o segurando mais forte pelas roupas.
‘Não.’ Marie respondeu, suplicante. ‘Não me deixe com ele, por favor.’
‘Nee-san, o que foi que aconteceu?’ Shaolin perguntou, espantado.
O menino parou de caminhar com a prima, sem saber o que faria agora. Mas que diabos estava acontecendo com ela? Quem era o rapaz que ela tinha trazido do nada? E por que não queria ser deixada com o pai?
Eriol ainda tinha os olhos em Kazuo, pronto para atacá-lo ao menor sinal de ameaça à filha. Olhou para Shaolin, não entendendo porque o menino havia parado. Caminhou devagar na direção de Marie para pegá-la e levá-la para um lugar seguro. Não suportaria que alguma coisa acontecesse a ela.
Ele se aproximou dos dois, e estava pronto para pegá-la, quando franziu a testa ao observar Marie desviar o olhar, segurando-se às roupas de Shaolin.
‘Venha, Marie.’ Ele falou com a voz doce. ‘Vamos para um lugar seguro.’
‘Não…’ Ela sussurrou, recuando e agarrando-se ainda ao primo.
Shaolin levantou o rosto encarando o tio. ‘Ela é teimosa, Ossan. Eu a levarei.’ Falou com a voz calma, tentando sorrir de leve para o homem que se mostrava completamente desnorteado com a atitude da filha.
O menino desviou os olhos do tio e fitou a mãe que ainda observava o estranho. Franziu a testa de leve, vendo os olhos dela brilharem e sentindo a aura mágica dela agitada. Voltou-se rapidamente para trás e reparou, novamente, no rapaz que parecia estar bem perdido.
Sakura deu alguns passos a frente, parando ao lado do filho, observando-o. ‘O que aconteceu, Shaolin?’
‘Eu não sei, kaasan. Acho… acho que nee-san o trouxe de algum lugar.’ Ele respondeu.
A feiticeira tirou os olhos do filho e observou Marie. Ela estava com a energia muito baixa, mas olhava desconfiada para Eriol. Sakura reparou no rosto decepcionado do amigo e deu um longo suspiro. Sabia que as coisas um dia chegariam a este ponto.
‘Seu pai já está chegando.’ Sakura falou, sentindo a presença do esposo se aproximando de forma rápida. ‘Melhor levar sua prima para um lugar onde ela possa descansar.’
‘Eu estou bem.’ Marie falou teimosa. ‘Preciso só de um tempo.’
Sakura olhou para o filho que levantou rapidamente as sobrancelhas, mostrando-se indeciso com a teimosia da prima. Ela se virou para o rapaz que estava de braços cruzados, observando-os.
Por que ele era tão parecido com Syaoran? Seria aquela a forma original dele? Ela sabia que alguns demônios eram capazes de mudar de forma, no entanto, algo lhe dizia que aquele não era o caso.
Ela deu alguns passos em direção a ele e ouviu uma recomendação de Eriol para não se arriscar, mas o ignorou, rolando os olhos. Eriol precisava parar com aquela paranoia. Ela já conviveu e lutou com demônios demais para saber quando um deles oferecia perigo.
‘Quem é você?’ Perguntou, fitando-o com atenção. Quanto mais reparava nos detalhes, mais se surpreendia com as semelhanças entre ele e o marido.
Kazuo respirou fundo, encarando a mulher à sua frente. Desviou os olhos rapidamente para o menino e depois voltou a fitá-la. Eles eram parecidos. Tinham os mesmos olhos verdes. Pelo que percebeu eram mãe e filho.
‘Não vai responder?’ Ela insistiu.
‘Acho que já deve saber o que sou. Por isso aquele ali está todo nervoso.’ Falou, fazendo um gesto com a cabeça em direção a Eriol.
‘Não foi isso que perguntei.’ Ela falou de forma firme.
Kazuo estreitou os olhos, conseguia perceber a aura multicolorida em torno dela. Era muito parecida com a da esfera que o tinha trazido para aquele lugar estranho, embora fosse mais calorosa e acolhedora. Não pôde negar que era uma aura lindíssima e diferente de tudo que já tinha visto antes na sua vida. Quem seria ela?
Olhou rapidamente para o menino e reparou na aura forte e de coloração azul-pálida. Apesar dele ser novo, dava para perceber que tinha bastante domínio da própria magia. Reparou na aura dourada do homem que parecia desnorteado ao olhar para a jovem ruiva. Franziu a testa de leve ao observá-la, reparando na aura fraca dela, mas púrpura. A mesma tonalidade que a sua. Mas ela era humana, não? Como ela podia ter uma aura ligada às trevas como ele?
Soltou um suspiro, percebendo que a mulher de olhos verdes ainda o encarava e sorriu de lado. ‘Deveria ter medo de mim, não?’
Sakura franziu a testa, notando a mesma expressão de deboche do marido. Deu um passo à frente, parando bem próxima a ele e o encarou seriamente, ignorando a advertência de Eriol para que tomasse cuidado. ‘Demônios não são inerentemente ruins.’
‘Tem certeza disto?’ Ele replicou em tom irônico.
‘Absoluta.’ Ela respondeu sem se abalar.
Ele fechou o sorriso debochado. ‘Não é o que o nervosinho ali pensa.’
Ao invés de responder, ela apenas abriu um sorriso suave que o desarmou, deixando-o confuso.
Kazuo franziu a testa. Alguma coisa estava errada ali. Os humanos temiam os demônios. Esta era a regra. Mesmo que fossem feiticeiros, como estava constatando e, inclusive observando que eram bem fortes, deveriam ter receio de um ser das trevas. No entanto, com exceção do pai da garota ruiva, eles pareciam mais surpresos com a aparência dele do que com a natureza. Primeiro o garoto, que se aproximou dele sem temê-lo, e agora, aquela mulher.
‘Kazuo.’ Ele respondeu, enfim. ‘Meu nome é Kazuo.’
‘Kazuo…’ Sakura repetiu devagar e ele sorriu de leve. Gostou de ouvi-la falar o seu nome. ‘E como você encontrou uma brecha para sair do mundo das trevas, Kazuo-san?’
Ele arregalou os olhos de leve. Então aquela fonte luminosa era uma das tais brechas? É claro! Mas Arthas tinha falado que elas apenas surgiriam daqui um longo período já que as haviam destruído pouco tempo atrás, antes dele nascer. Como aquela brecha apareceu ali? E por que ele teve a impressão de que ela o chamava?
‘Eu não sei. A luz simplesmente apareceu na minha frente.’
‘E você resolveu atravessá-la para quê?’ Eriol perguntou autoritariamente, dando um passo a frente sem desviar os olhos do rapaz.
Sakura se voltou para o amigo e o encarou com a testa franzida.
‘Para sair daquele lugar de merda.’ Kazuo respondeu debochado, fazendo Eriol segurar com mais firmeza seu cetro.
Sakura colocou-se diante do rapaz, semicerrando os olhos no mago. ‘Eriol-san, acalme-se.’
Kazuo observou a mulher assumir uma postura defensiva à sua frente e inclinou levemente a cabeça, estranhando a situação. Sentiu seu rosto esquentar quando ela voltou a encará-lo e desviou o olhar.
‘E… Porque eu achei que ela estava me chamando.’ Admitiu, voltando a fitar a garota ruiva que observava os dois, ainda apoiada ao menino. Ela era teimosa, bem teimosa. Voltou a fitar Sakura. ‘Ir para qualquer lugar… Seria melhor do que continuar lá.’
‘Seria mesmo.’ Sakura concordou.
O rapaz ergueu uma sobrancelha e depois sorriu de forma irônica. ‘Acho que não sabe do que está falando, moça.’
Sakura sorriu de lado. ‘Não há muito o que saber de lá, não? É só um deserto sem fim sob um céu em chamas e um calor insuportável. Exceto pelo Território dos Ossos e alguns Domínios que lembram cidades, mas isso não quer dizer que sejam muito melhores.’
Kazuo arregalou os olhos. ‘Como… como você… peraí… você é humana.’ Ele estreitou os olhos nela. ‘Quem realmente é você?’ Ele apontou para o menino. ‘Quem são vocês? E por que me trouxeram para cá?’
‘A pergunta certa é: o que você está fazendo aqui?’ Eriol retrucou.
Kazuo fitou o feiticeiro novamente, dava para ver que realmente ele morria de medo de seres das trevas, diferente do resto do grupo. ‘Se estou aqui, é por causa daquela garota ali.’ Respondeu, fazendo um gesto em direção a Marie.
‘Você está inventando isso!’ O inglês falou não acreditando na resposta do rapaz.
Marie virou-se para o pai e depois abaixou os olhos. Droga, como era difícil encará-lo agora. ‘Não é mentira dele.’ Ela falou e sentiu a voz falhar. Respirou fundo e trincou os dentes. ‘Algumas vezes, demônios saem do Mundo das Trevas por causa das ações de humanos.’ Disse com ressentimento.
Shaolin sentiu o corpo da prima estremecer. Segurou mais forte o braço dela que estava sobre seus ombros e a cintura. Preferiria vê-la debochando dele do que daquela maneira.
Eriol arregalou os olhos de leve, observando a filha. Ele sempre tinha reparado na aura púrpura dela e era verdade que fingia não ver nem dar importância para isso. Balançou a cabeça de leve. Talvez estivesse na hora de tentar entender ao invés de ignorar.
Sakura virou-se para trás, sentindo a presença do marido próxima. Ela o viu caminhando, devagar e com passos duros, em direção a eles. Estava com o rosto muito sério, como não o via há muito tempo.
Kazuo voltou-se para onde a mulher olhava e franziu a testa, reparando no homem que se aproximava deles. Inferno! Pela segunda vez em tão pouco tempo? O que era aquilo? Outra ilusão?
Syaoran passou por Shaolin, olhando rapidamente para o filho e Marie, verificando que estavam bem, embora Marie estivesse fraca. Cruzou com Eriol que o chamou, mas ergueu uma mão, pedindo que não interferisse.
Shaolin fitou o pai rapidamente e depois, Kazuo. Voltou a fitar o pai ainda sem conseguir entender o que estava acontecendo.
Syaoran caminhou em direção ao rapaz que estava próximo a esposa. Havia percebido uma brecha se abrindo e se assustou quando sentiu a presença de um ser das trevas próximo a sua família. Já estava a caminho para encontrá-los e apenas acelerou o carro. Se a aura de Sakura não estivesse controlada, teria se desesperado.
A presença do rapaz era, com certeza, a de um demônio, apesar dele ter aparência humana. E a aparência era muito similar à sua. Tanto a aura como a aparência física eram similares a dele de quando era um demônio e mais jovem.
Sabia que existiam demônios capazes de adquirirem qualquer forma, mas tinha a certeza que não era o caso daquele ali a sua frente. Trincou os dentes, concluindo o óbvio. Parou a frente de Kazuo, encarando-o, e fitou rapidamente a esposa antes de se voltar para o rapaz.
‘Midoriko.’ Ele rosnou, raivoso, o nome daquele demônio feminino traiçoeiro, fazendo o rapaz arregalar os olhos e confirmar suas suspeitas.
Sakura suspirou, fechando os olhos brevemente e cruzando os braços encarando Syaoran. ‘Foi o que pensei também.’
Marie baixou os olhos, desviando-os dos três. Shaolin percebeu a atitude da prima, gostaria de levá-la para um lugar onde pudesse descansar, mas não queria sair dali. Tinha que entender o que estava acontecendo.
‘Midoriko…’ Eriol repetiu, franzindo a testa. ‘Quem…’
‘Não se meta nisto.’ Marie o interrompeu com severidade. ‘É o melhor.’ Concluiu, fazendo o pai olhá-la assustado, pensando no que estaria acontecendo com a filha.
Eriol ainda tentou, mais uma vez, segurá-la, mas a jovem voltou a insistir que preferia ficar com o primo.
Syaoran respirou fundo, tentando controlar a vontade de soltar vários palavrões e xingamentos a Midoriko. Controlou-se, sabendo que isso simplesmente não resolveria a situação.
‘Então ela realmente entrou nos seus sonhos...’ Sakura constatou, observando o esposo.
‘Uma vez…’ Ele respondeu, fitando-a. ‘A única maldita vez que Arthas me convenceu a descansar antes de você chegar. Ela…’ Ele deixou morrer a frase, sabendo que a esposa entenderia.
Kazuo deu um passo para trás, franzindo a testa. ‘Você é humano…’ O rapaz falou, encarando Syaoran e balançando a cabeça em negação e descrença. ‘Você não pode ser ele. Meu pai morreu!’
‘É… Eu morri.’ Ele confirmou, ainda encarando o rapaz.
Kazuo desviou os olhos de Syaoran e fitou Sakura. Então aquela era a Feiticeira de quem Arthas também tanto falava. Eles tinham morrido e… E agora eram humanos?
Kazuo abaixou o rosto, cerrando os punhos com força. ‘Então você veio para cá e me deixou naquele lugar de merda…’
Syaoran franziu a testa. ‘Eu não sabia que você existia. Eu não vou nem falar o que eu penso daquela… da sua…’ Ele soltou o ar devagar. Precisava manter a calma, mas a vontade que tinha era de simplesmente poder quebrar o pescoço de Midoriko. ‘Droga!’ Soltou por fim.
Kazuo trincou os dentes, irritado. ‘Eu quero voltar para lá!’ Falou e depois levantou o rosto, fazendo um gesto em direção a Marie. ‘Ela tem que fazer aquele negócio aparecer de novo para eu voltar para…’
‘Para onde? Para aquele lugar de merda?’ Syaoran perguntou em tom irônico. ‘Melhor você pensar bem, garoto.’
‘Não me chame de garoto!’ Ele retrucou.
‘Certo. E qual foi o nome que a va–…’
‘Syaoran.’ Sakura o interrompeu. Ela sabia que ele estava a ponto de explodir, mas teria que se controlar.
Não poderia, simplesmente, ignorar os fatos sobre o rapaz que estava a sua frente e, por mais dolorosa que fosse aquela descoberta, eles tinham que tentar resolver e decidir o melhor. O melhor para todos, inclusive para o rapaz que não tinha culpa das circunstâncias de seu nascimento.
Syaoran fitou a esposa e fechou os olhos brevemente antes de fitar novamente o rapaz. ‘Como o chamam?’
‘Kazuo.’ Ele respondeu. ‘Foi o nome que Arthas me deu.’
‘Arthas…’ Syaoran repetiu o nome do grandalhão. ‘Então foi ele quem cuidou de você?’
Kazuo respirou fundo, evitando olhar para Syaoran. ‘É… Acho que sim. Midoriko é… Ela estava sempre tentando conquistar novos territórios daquele deserto idiota.’
Sakura olhou para Kazuo, prestando atenção no estado dele. Midoriko devia ter maltratado bastante o rapaz. Pelo menos, saber que Arthas estava próximo dele, de alguma forma, tornava a situação menos ruim.
‘Acho que devemos ir para casa e pensar melhor no que fazer agora.’
‘Acho que sim.’ Syaoran concordou, tentando relaxar o pescoço.
Shaolin franziu a testa ao ouvir a decisão dos pais. Como assim eles iriam para casa? Para casa deles?
‘Fica sentada aqui ou com seu pai, nee-san.’ Ele falou, tentando se soltar do braço da prima, mas ela o segurou, fazendo-o voltar-se para ela. ‘Eu tenho que entender o que está acontecendo!’
‘Você está pensando errado, pirralho.’ Ela falou para ele.
‘Pensando errado?’ Shaolin retrucou, sarcástico. ‘Eu não sou idiota, nee-san. Eu já tive essa aula de biologia.’
‘Não é a mesma coisa para os demônios. A mãe dele é uma súcubo. Ela se reproduz invadindo os sonhos dos machos.’ Ela tentou explicar para o primo.
‘Como você sabe disso, Marie?’ Eriol perguntou cada vez mais assustado com o que ouvia da boca da filha. ‘No que você se meteu?’ Perguntou, voltando-se para ela e tentando se aproximar da jovem que se esquivou.
Agora ela não poderia se aproximar dele, estava com a cabeça e o peito doendo por causa de sua última lembrança e constatação. Precisava de tempo.
‘Eu sei do que estou falando.’ Ela respondeu. ‘Shaolin-kun… Você…’
‘Você quer mesmo que eu acredite nisso?’ Shaolin a interrompeu. ‘Se aquele cara é meu irmão, então, tousan…’ Ele trincou os dentes e reteve-se para não ofender o homem por quem sempre tivera imenso respeito. Mas não podia negar que estava decepcionado.
Os pais sempre contaram histórias de como se conheciam e se amavam desde criança. Histórias fantásticas confirmadas, inclusive, pelas Cartas. Eles eram o casal perfeito. O amor deles era lindo e perfeito. Como é que aquele rapaz agora aparecia dizendo que também era filho dele? Quem era a mãe dele?
‘Não é nada disso.’ Marie falou novamente. ‘Você está entendendo errado.’ Ela falou, segurando o primo que estava, tentando realmente soltar-se dela para tirar satisfação dos pais.
‘Eu não sou idiota!’ Ele gritou, chamando a atenção de Syaoran e Sakura.
Syaoran soltou um longo suspiro. Droga! Como explicaria isso para filho? Teriam que contar para ele aquela parte da história que sempre deixaram de fora das aventuras deles… E que, sinceramente, esperavam nunca ter que revelar.
Kazuo observou o garoto e franziu a testa, deu para perceber que a aura mágica dele explodiu e que ele estava bem irritado agora. Diferente de quando se aproximou dele antes, que estava calma e estável, apesar de forte. Olhou para a apreensão de Syaoran e arregalou os olhos, entendendo a situação. O garoto era seu meio-irmão. Filho do pai com a tal Feiticeira. Sorriu de lado, pensando na ironia de ser o irmão a primeira pessoa que ele viu assim que atravessou a brecha. Pior, tinha simpatizado com ele antes… Agora a coisa mudava de figura.
Syaoran sentiu-se mal ao fitar os olhos de Shaolin e encontrar neles decepção. “Merda!” Pensou para si. Nunca imaginou que doesse tanto deparar-se com isso. Deu um passo em direção a ele, mas Sakura segurou o seu braço.
‘Eu falo com ele.’ Ela disse.
‘Quem tem que explicar sou eu.’ Syaoran argumentou.
‘Shaolin é cabeça dura igual a você. Acha que vai escutar qualquer coisa que diga para ele agora?’ Ela retrucou e viu o marido balançar a cabeça, passando a mão pelos cabelos.
‘Droga!’ Ele soltou, sem saber direito o que fazer.
‘Eu falarei com ele.’ Sakura falou mais uma vez, repousando brevemente a mão no rosto do marido. ‘Kazuo-san está com o braço sangrando. Parece profundo e vai demorar ainda para ele cicatrizar, mesmo que ele tenha o mesmo poder que você tinha.’ Ela o alertou antes de se afastar.
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Syaoran ouviu a porta do quarto do filho se fechando com um estrondo. O garoto veio quieto o caminho todo, entrou em casa como uma flecha e se trancou no quarto, batendo a porta bem forte para mostrar que realmente estava com raiva.
Levou uma mão ao rosto tendo certeza do que o garoto devia estar pensando dele. E o pior é que não sabia nem como tentar esclarecer a situação.
Kazuo entrou na casa e franziu a testa. Sentia magia circulando por todo o ambiente. Sorriu de leve, gostando da energia do lugar, era diferente de todos os lugares em que já estivera. Apesar de que, para dizer bem a verdade, qualquer lugar realmente seria melhor que aquele inferno.
Sakura parou ao lado do marido que olhava para o segundo andar por onde o filho tinha desaparecido. ‘Ele precisa de um tempo.’ Ela falou.
‘Mas é uma merda saber o que ele está pensando de mim.’ Respondeu, caminhando até a cozinha para pegar um copo de água e se afastando da esposa.
Sakura soltou um suspiro e franziu a testa pensando que, realmente, o marido sempre era interpretado errado. Embora ele bem que podia ter contado para ela antes que Midoriko invadira os seus sonhos.
Ela sabia que não era culpa dele. Khala’a já tinha explicado tudo e a tinha, inclusive, alertado para ficar de olho em Midoriko. Principalmente quando Syaoran fosse descansar. Ela lembrava bem o estado em que o encontrou por não ter descansado em momento algum, mas nunca imaginaria que Midoriko já tivesse dado o bote.
Franziu a testa de leve, lembrando-se da reação do esposo quando Khala’a lhe contou sobre como alguns demônios não precisavam de contato físico para se reproduzirem, bastando que invadissem os sonhos de humanos e outros demônios. Devia ter desconfiado. Syaoran tinha ficado incomodado com a informação, mas também não tinha falado nada.
‘Então é assim que se vive neste mundo?’ Ela ouviu Kazuo perguntar enquanto olhava curioso para a casa.
Forçou um sorriso. Aquele demônio feminino tinha criado uma confusão enorme na família dela. Devia ter quebrado o pescoço dela quando teve a oportunidade. Sakura suspirou e pensou que o rapaz não tinha culpa também.
‘É, sim.’ Ela respondeu e suspirou novamente. ‘É bem diferente do Mundo das Trevas, não?’
Kazuo concordou com a cabeça. ‘É estranho.’ Ele respondeu, por fim.
‘Você… vejo que tem o mesmo poder que Syaoran tinha de cicatrizar.’ Ela falou, apontando de leve para o ferimento no braço dele que, apesar de não estar completamente fechado, estava bem menor agora.
Ele levou a mão até onde estava o ferimento. ‘Arde bastante.’
‘Melhor você tomar um banho e…’ Ela não sabia direito o que falar para ele. Lembrou-se de que, quando Syaoran voltou de lá pela primeira vez, tinha reclamado que sentia muita fome. ‘Que tal se eu preparar algo para você comer?’
Kazuo ainda ficou um tempo observando a feiticeira, perguntando-se porque ela estava sendo gentil com ele. Olhou para onde o menino tinha desaparecido, percebendo que a aura dele estava quase explodindo. Olhou rapidamente para onde Syaoran tinha também desaparecido e sorriu até de forma triste. Estavam bem irritados. Os dois. Franziu a testa pensando que eram pai e filho, era o normal serem parecidos daquela forma.
‘Vamos?’ Sakura falou, começando a subir e pedindo para ele acompanhá-la.
Kazuo ainda ficou na dúvida, mas, por fim, respirou fundo, seguindo-a. Ela lhe mostrou onde poderia se banhar, mostrando como abrir o chuveiro, e lhe entregou uma muda de roupas antes de deixá-lo sozinho pela primeira vez desde que havia chegado naquele universo diferente.
Kazuo se fitou no espelho, franzindo a testa. Realmente era muito parecido com ele, constatou trincando os dentes. Talvez por isso o espanto de todos e a conclusão tão rápida de que era filho dele. Pelo jeito, eles tinham mesmo morrido e, talvez, Enma Daiyoh permitiu que voltassem como humanos.
Arthas falou uma vez sobre estes acordos. Seria a evolução de um demônio regenerado. Bem, cada um que pensasse na evolução como quisesse.
Tirou as roupas que mais pareciam trapos e abriu o chuveiro, entrando debaixo do jato de água gelada. Sorriu abertamente. Aquilo, sim, era muito bom. Inclinou a cabeça, pensando no porquê daquilo ter acontecido.
Estava no Mundo das Trevas e, do nada, surgiu aquela brecha. Tinha certeza que aquilo era obra da garota ruiva. A energia dela estava muito forte, antes de cair de forma vertiginosa, deixando-a fraca. Mas por que diabos ela criaria uma brecha para ele passar? Por quê? Quem realmente era ela?
Lembrou-se das palavras dela falando que, algumas vezes, demônios saem do Mundo das Trevas por causa das ações de humanos. O tom foi diferente, ele percebeu isso. A energia dela também era claramente ligada às Trevas. Mas como, se ela era humana?
Bem, isso não importava. Ela tinha que dar um jeito de criar uma outra coisa daquelas para ele poder voltar para lá. Midoriko devia estar louca e Arthas devia estar bem preocupado com ele. Além disso, estava claro que ele não pertencia àquele universo. O melhor que tinha a fazer era voltar para aquela merda de lugar mesmo. A última coisa que queria era conviver com o pai, a fêmea dele e o meio-irmão.
Levou a mão à barriga e franziu a testa. Sentia uma estranha dor no estômago e ouviu-o fazer um barulho alto. ‘Mas que droga é essa agora?’
Fechou o chuveiro e colocou as roupas que a Feiticeira tinha lhe entregado. Estavam largas. Deviam ser do pai. Sorriu quando se deu conta do absurdo que era estar usando as roupas dele. O seu pai devia estar morto.
Balançou a cabeça de leve. Odiava tanto ser comparado com ele o tempo todo, mas agora constatava, de forma irritante, que eram realmente parecidos. Soltou um suspiro e saiu do banheiro, caminhando em direção a escada para voltar ao andar inferior.
Reteve-se por alguns segundos em frente a uma porta, sentindo a presença do garoto e franziu a testa, pensando que, para alguém tão novo, até que o moleque tinha um controle bem interessante da própria magia. Apesar de agora perceber que ela estava expandida e agitada por causa da irritabilidade.
Afastou-se, descendo as escadas e encontrou a feiticeira preparando algo que tinha um cheiro bem atrativo. Ela voltou-se para ele, mandando-o se sentar em uma cadeira. Kazuo obedeceu e ela colocou na frente dele o que tinha preparado.
‘Isso se come.’ Ela explicou para ele.
‘Eu nunca precisei disso antes.’ Ele retrucou. ‘Demônios só comem para rituais e... alguns… sei lá o porquê.’
Sakura sorriu de leve. ‘Aqui você vai sentir fome e vai precisar comer. Pense que é um ritual para… não se sentir fraco. Isso.’ Falou de forma que ele pudesse entender.
‘Por que está fazendo isso por mim?’ Ele perguntou, olhando-a rapidamente.
‘Porque você deve estar com fome.’ Respondeu, simplesmente.
‘Por que está sendo gentil comigo?’ Ele foi específico.
Sakura olhou para a porta que levava até o quintal dos fundos, por onde o marido tinha saído para esfriar a cabeça.
‘Por que não come?’ Ela sugeriu, sem responder à pergunta dele e se afastando do rapaz.
‘O Arthas sempre a chamou de Feiticeira.’ Ele falou, fazendo-a parar e voltar-se para ele. ‘Mas acho que você deve ter um nome, não?’ Perguntou, ainda olhando a comida no prato a sua frente.
‘Sakura. Meu nome é Sakura.’ Ela respondeu.
‘Certo. Sakura.’ Ele repetiu. Kazuo virou-se para ela rapidamente. ‘Obrigado, então... Sakura.’
‘Por nada.’ Ela sorriu de leve e fez um gesto em direção à comida. ‘Coma e depois seria bom você descansar.’
Ele concordou com a cabeça e ela o observou por alguns segundos antes de se afastar.
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Syaoran entrou no quarto e encontrou a esposa se preparando para dormir. Sakura se virou para ele e reparou no rosto cansado do esposo. A situação não era fácil para ninguém.
‘O garoto…’ ele começou a falar e franziu a testa de leve, não sabia nem como chamá-lo direito.
‘Kazuo-san.’ Sakura o ajudou e o viu concordar com a cabeça. ‘Ele estava exausto, assim como você quando voltou daquela vez. Ele está dormindo no quarto de Kero-chan.’ Ela falou. ‘Tirei o videogame de lá e pedi para instalar na sala.’
‘Aquela bola de pelo deve estar bem assustada.’ Syaoran falou e deu um leve sorriso irônico.
Lembrava-se bem como ele e Yue ficaram quando ele tinha voltado do mundo das trevas como demônio.
‘Kero-chan saberá se controlar.’ Ela falou. ‘Se não… Acho que seria uma boa ideia ele passar um tempo com Eriol-san. Apesar de que…’ Sakura desviou os olhos do esposo e suspirou. ‘Acho que as coisas na casa dele também não devem estar muito bem.’
‘Eu percebi também.’ Syaoran falou, tirando a camisa e sentando na beirada da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos. ‘Para ela ter criado uma brecha com o plano inferior, deve ter se lembrado de tudo. Eu senti a magia dela explodindo.’
Sakura encolheu os ombros. ‘Sabíamos que isso aconteceria. Eriol-san tentou ignorar a natureza da magia de Marie-chan até agora… Acho que… no fundo sempre esteve com medo deste momento.’
‘Acho que sim.’ Syaoran concordou. ‘Mas eu ainda não entendo o porquê, nem como, ela criou aquela brecha.’
Sakura sentou-se ao lado do esposo. ‘As brechas podem surgir de maneira aleatória, lembra-se?’
‘Brechas entre os universos paralelos, não entre o plano inferior ou o plano superior.’ Ele rebateu. ‘Isso exige muita energia e ela conseguiu sem usar nenhuma chave ou coisa parecida.’
‘Talvez Khala’a tivesse mais poder do que a gente imaginava… Na verdade, para Clow-sama tê-la lacrado daquela forma, ele deve ter percebido isso e a temeu.’
‘Hiiraguizawa vai ter problemas.’ Syaoran comentou.
‘Eriol-san precisa superar seus próprios preconceitos. Clow-sama teria evitado muitos problemas se aprendesse a ouvir os outros e não pensasse ter todas as respostas.’
‘É até certo ponto irônica a situação dele agora.’ Syaoran comentou. ‘Enma Daiyoh parece ter um senso de humor esquisito.’
‘Talvez seja justamente para os dois se acertarem.’ Sakura falou, dando de ombros. ‘Khala’a tem muita mágoa de Clow-sama e Eriol-san tem muito o que superar. Os dois vão ter que se acertar de alguma forma. São pai e filha agora.’
‘Acho que sim.’
‘Assim como você vai ter que se acertar com os seus filhos.’ Sakura comentou, olhando para ele.
‘Meus filhos…’ Ele repetiu devagar, batendo a mão de leve no joelho e suspirou, fechando os olhos brevemente. ‘Não era isso que eu tinha em mente quando disse que queria vários filhos.’
‘Não, mas é a situação que temos nas nossas mãos.’ Disse, desviando os olhos para um canto qualquer do quarto.
‘Eu sinto muito, Sakura.’ Ele falou para a esposa. ‘Eu pensei que tivesse percebido a presença dela a tempo. Nunca pensei na possibilidade de que pudesse... enfim…’
‘Não o estou julgando, Syaoran.’ Sakura falou e suspirou.
‘Shaolin está fazendo isso muito bem.’ Falou, forçando uma risada.
‘Shaolin não tem todos os fatos. Nunca contamos esta parte das nossas vidas para ele.’
‘Saber que o pai foi um demônio não será muito legal.’
‘Ele convive com demônios desde sempre, apenas não sabe disso.’
‘Verdade.’ Syaoran falou. ‘Bem… acho que vou precisar conversar com ele depois. Não pensei que teria este tipo de conversa com ele nesta idade e tentar explicar que… vai ser difícil ele acreditar mesmo. Eu não acreditaria, se não estivesse vivendo esse pesadelo.’
‘Ele é um bom garoto.’ Ela disse, olhando para o esposo. ‘E Kazuo-san é um bom garoto, não importa a natureza dele. Os dois são seus filhos.’
‘Exatamente… são bons garotos. Só estão com muita raiva de mim.’ Ele falou de forma depreciativa, levantando as sobrancelhas e respirou fundo.
‘No fundo… são adolescentes.’ Ela falou, dando de ombros.
‘Rá.’ Ele retrucou, levantando-se para trocar de roupa. ‘Adolescentes…’ Ainda repetiu. ‘Bem… pensei que os meus problemas com filhos adolescentes seriam as namoradas e as notas da escola.’
Ela sorriu para ele de forma doce. ‘Quem sabe ainda não terá esses problemas?’
Syaoran balançou a cabeça de leve. ‘Eu… Eu não sei nem como resolver esta situação, Sakura.’ Ele falou com sinceridade, desviou os olhos dela e respirou fundo. ‘Aquele rapaz… eu não sei quem ele é e eu sou o pai dele!’ Disse de forma triste, apontando para o peito. ‘Pior… Ele ainda é um demônio, como eu era. Filho daquela filha da…’ Ele contraiu os lábios e reteve-se. Observou a esposa que o fitava. ‘Eu não queria um filho com nenhuma outra mulher. Ou melhor… eu sempre quis ter filhos só com você. Foi você quem eu escolhi para ser a mãe deles.’ Disse de forma sincera, não para amenizar a situação com a esposa. Abaixou os olhos e soltou um suspiro, decepcionado.
Sakura levantou-se e foi até Syaoran. Parou em frente a ele e levantou a mão, passando no rosto do esposo com carinho. ‘Eu sei disso, meu amor.’ Ela falou. ‘Mas este menino… Kazuo-san é uma parte de você. Não pode ignorar.’
Ele concordou com a cabeça e colocou a mão sobre a dela, segurando-a firmemente contra seu rosto.
Ela respirou fundo. ‘Imagine o que ele deve ter passado sendo criado naquele lugar…’
‘Eu não consigo nem ter ideia do que ele passou.’ Syaoran confessou. ‘Eu odiava aquele lugar. Eu sofri… Nós dois sofremos demais naquele lugar.’
Sakura concordou com a cabeça, pegando o rosto do marido com as duas mãos e fazendo-o olhar para ela diretamente. ‘Mas nós saímos de lá. Juntos. Ficamos um tempo afastados, mas nos encontramos, Syaoran. Somos felizes há quase 15 anos. Ele… Kazuo-san… Passou esse tempo todo lá.’
Syaoran trincou os dentes. Como tinha ódio de Midoriko. Ele tentou desviar os olhos da esposa, mas ela segurou o rosto dele para que não fizesse isso. Não havia motivos para ele se envergonhar. Ela sabia exatamente o caráter do homem que sempre amou.
‘Nós vamos resolver isso.’ Ela disse devagar. ‘Nós dois. Eu e você vamos ajudar este rapaz a partir de agora.’
Syaoran acenou que sim com a cabeça e sorriu de leve. Levantou as mãos, fazendo um carinho no rosto da adorada esposa. ‘Você é especial demais, Sakura.’
Ela sorriu para ele. ‘Você é especial demais, Syaoran.’ Ela rebateu.
Syaoran inclinou o corpo, alcançando os lábios da esposa e beijando-a.
Como ele a amava. Ele desejava tanto que apenas ela pudesse ser a mãe de seus filhos, pois sabia exatamente o quão extraordinária era aquela mulher.
Sakura beijou o esposo e o abraçou com carinho. Ele se afastou dela apenas para voltar a contemplar os olhos glaucos tão serenos que o fitavam com amor. Ele tinha certeza que tudo daria certo porque ela estava ao seu lado. Eles saberiam como contornar a situação. Eles saberiam como ajudar Kazuo, protegê-lo de Midoriko e saberiam esclarecer tudo para Shaolin.
Syaoran franziu a testa e sentiu o corpo estremecer. Sakura observou a apreensão do esposo. ‘O que foi?’ Ela perguntou em tom preocupado.
‘Será que a vinda do Kazuo tem algo a ver com o que Gabriel nos falou daquela vez? Sobre Shaolin?’ Ele perguntou, engolindo em seco.
Sakura arregalou os olhos de leve. ‘Talvez… ele não foi muito claro com a gente.’ Ela trincou os dentes. ‘Ao contrário de quando chantageou você.’
Syaoran fechou os olhos de forma dolorida. ‘Tenho a impressão de que logo… Ele estará dando as caras, novamente.’
Sakura concordou com a cabeça. Os dois se abraçaram forte. Ela apoiou a cabeça do peito do esposo. ‘Eu tenho medo, Syaoran…’ Confessou. ‘Tenho medo por Shaolin, por nós e… agora, por Kazuo-san.’
Ele respirou fundo, apertou-a mais forte entre os braços. Beijou a cabeça da esposa e depois encostou o queixo nela. ‘Eu também.’
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Marie abriu os olhos e fitou o teto do seu quarto. Voltou a fechá-los e suspirou. Não queria levantar e ter que encarar como as coisas tinham ficado.
Rolou na cama, abraçando o travesseiro e pensando no que faria a partir de agora. Não era à toa que nunca gostou de quando lhe falavam da vida passada de seu pai. Agora tinha a certeza da razão para aquela aversão que sempre sentia à menção do nome do tal poderoso Mago Reed Clow.
Soltou outro longo suspiro, apertando o travesseiro entre os braços. Lembrava-se, agora, de forma dolorosa, de todo o longo tempo que havia ficado presa naquela escuridão. Sem poder se mexer. Sem ter com quem falar. Era como se estivesse morta, mas consciente.
Ouviu a porta do quarto se abrir e sabia que era a mãe, pela presença. Sentiu quando Kaho se aproximou, sentando-se na beirada da cama para afagar-lhe as costas e os cabelos, mas permaneceu de costas para ela.
‘Como você está, meu bem?’ Kaho perguntou com a voz suave.
Marie ficou tentada a fingir que estava dormindo e não responder, mas sabia que a mãe não era boba. ‘Tá tudo bem, kaasan.’ Respondeu por fim, com a voz abafada contra o travesseiro. Não gostaria de conversar agora.
Kaho suspirou. ‘Seu pai está muito preocupado com você. O que realmente aconteceu?’
Marie sorriu de forma irônica. ‘Preocupado, é?’
Kaho suspirou, pacientemente. ‘Sim. Assim como eu. Estamos preocupados com você.’
‘Não tem porque se preocupar. Eu estou ótima.’ Respondeu de forma ríspida.
Kaho observou a filha que ainda evitava fitá-la. Ontem, enquanto estava no templo, junto com Nakuru e Spinel, sentiu uma poderosa energia surgindo de forma explosiva. Assim como sentiu a presença da filha se expandir de forma exponencial. Assustou-se depois, percebendo que, ao mesmo tempo em que a presença diferente diminuía junto com a presença da filha, outra energia das trevas havia chegado a este universo.
Quando chegou em casa com os guardiões, ainda viu Shaolin levar a prima para o quarto dela, enquanto a filha recusava a ajuda do pai. Marie, inclusive, evitava olhar para Eriol. Logo em seguida a família Li saiu, levando com eles o ser das trevas que aparecera ali mais cedo. Não fez perguntas porque sabia que, naquela hora, não teria respostas. Sabia esperar.
Soltou um longo suspiro ainda observando Marie. A magia em torno dela estava muito mais forte do que antes. Agora que ela havia descansado e se recuperado, dava para ver a aura púrpura brilhante e forte em torno do corpo delicado que estava encolhido na cama.
Kaho sempre soube da natureza da magia da filha e tentou conversar com Eriol várias vezes, mas ele sempre se mantinha resistente à constatação de que os poderes de Marie eram provenientes das trevas.
Eriol foi lhe contando o que se recordava de sua outra existência e, aos poucos, ela também começou a recuperar suas memórias, principalmente ao voltarem para Tomoeda quando ela reassumiu o cargo de sacerdotisa do templo Tsukimine. O lago da lua já a havia alertado sobre Marie, assim como ela também já sabia que a jovem filha havia vindo à terra justamente para acertar as contas com Eriol.
Esta era a lei maior, a lei do equilíbrio. E a única forma de tentar equilibrar um ódio muito grande era através do amor.
Kaho se debruçou na cama, alcançando o rosto da filha e passando a mão nele para afastar as mechas ruivas que cobriam a face delicada. Inclinou a cabeça beijando-a. ‘Nós a amamos muito, Marie. Você é a pessoa mais importante da minha vida e da de seu pai. Nunca se esqueça disso.’ Falou ao ouvido dela e sentiu o pequeno corpo tremer.
‘Okaasan…’ Ela sussurrou. ‘Eu queria ficar sozinha…’
‘Se acha melhor…’ Kaho falou com suavidade enquanto afagava os cabelos dela. ‘Às vezes, desabafar algo que está no nosso peito pode minimizar o peso que se sente dentro dele.’
Marie abraçou mais forte o travesseiro. ‘Eu… queria…’ Ela fechou os olhos. ‘Eu gostaria de conversar com o Shaolin-kun.’
‘Está bem… já que se sente melhor conversando com o seu primo.’
‘Acho que sim.’ Ela falou e sentiu que os olhos voltaram a arder, mas não queria chorar mais.
‘Está bem, meu bem. Vou ligar para Sakura-san e pedir para Shaolin-kun vir hoje aqui depois da aula.’
‘Não…’ Ela falou. ‘Eu posso encontrá-lo na saída da escola… Isso se ele realmente foi para a aula hoje.’
‘É… acho que ele também deve ter faltado.’
Marie concordou com a cabeça. ‘Eu o encontrarei. É fácil achar a presença dele.’
‘Está bem.’ Kaho falou. ‘Sei que não quer ver seu pai agora, Marie.’ Ela suspirou, fazendo uma breve pausa. ‘Mas lembre-se que ele estará esperando por você.’
‘É… acho que sim.’ Falou, encolhendo os ombros.
Kaho beijou novamente o rosto de filha e se levantou para sair do quarto e deixá-la sozinha.
Marie afundou o rosto no travesseiro e sentiu novamente as lágrimas saírem de seus olhos. Amava o pai, praticamente o idolatrava como a pessoa que a havia ensinado a caminhar, a falar, escrever. Foi ele quem a ajudara nas lições de casa e quem se sentava no chão para brincar com ela. Eriol também havia sido o Feiticeiro que a ensinara a controlar seus poderes.
Mas não podia ignorar o fato de que odiava Clow por tudo que ele tinha feito contra ela. Aquele ódio era tão potente e a mágoa que sentia era tão intensa. Tudo estava tão confuso dentro dela.
Definitivamente, não sabia que sentimento trazia dentro do peito.
Continua.
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