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FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 47

O Círculo da Vida

Eriol levantou os olhos para a enorme construção medieval a sua frente. Kaho estava ao seu lado. A esposa também estava tensa. Nas últimas reuniões do Círculo, os representantes da Igreja voltaram a questionar a fragilidade moral dos detentores de magia e as consequências para a humanidade caso a situação saísse do controle.

Eriol respirou fundo, se as coisas continuassem assim, daqui a pouco voltariam ao tempo da Inquisição. Fechou os olhos por um breve momento para tentar controlar seus próprios nervos. Na última reunião, havia discutido abertamente com Rosas.

‘Vai dar tudo certo.’ Kaho falou ao seu lado.

Ele virou-se para a esposa e tentou sorrir. Foi uma tentativa frustrada, mas se esforçou.

Ela pegou o rosto do marido, puxando-o para que pudesse dar um beijo demorado no seu rosto. ‘Vai dar tudo certo.’ Repetiu, tentando passar tranquilidade.

Ele concordou com a cabeça. ‘Vamos.’ Segurou a mão dela e entrou na construção.

Assim que adentrou o grande salão, deparou-se com o grande grupo de homens de batina negra e solidéu na cabeça. O Vaticano estava enviando cada vez mais representantes para as reuniões do Círculo.

Rosas o encarava de maneira hostil desde que o viu entrar no salão. Devolveu a encarada, franzindo a testa até que alguém chamou o exorcista que foi obrigado a quebrar o contato visual com Eriol para responder.

Hiiraguizawa olhou em volta. O clã Li tinha mandado poucos representantes. Yelan estava sentada em posição ereta com o rosto duro. Desde que o filho abandonou o clã anos atrás, ela se mostrava mais séria e fechada do que antes. Ela nem mesmo o vira chegar. Pensou em falar com ela, mas desistiu.

Olhou para o outro lado e viu o grupo de xamãs. Jun Tao estava sentada de forma elegante conversando com Fausto VIII e outros dois xamãs. Reconheceu um deles como sendo Lyserg Diethel e o outro era um nativo-americano de longos cabelos negros, vestindo trajes cerimoniais. Sentiu um arrepio percorrer suas costas. Realmente não gostava da energia emitida por eles.

Franziu a testa de leve, percebendo que Yelan observava a representante do Clã Tao e reparou Jun cumprimentar levemente a matriarca do Clã rival. Os Tao andavam em ligeira vantagem no cenário político da China, em grande parte por causa do próprio enfraquecimento do Clã Li.

Garwood se aproximou do centro do salão para iniciar a sessão. Logo uma aura dourada envolveu a todos os presentes, foi quando Kaho tocou de leve o ombro do marido e, com um gesto da cabeça, indicou quem acabava de chegar: Smith.

Smith não era um dos feiticeiros mais poderosos dentro do Círculo, mas, de uns tempos para cá, adquirira certa notoriedade. Kaho, principalmente, andava alerta quanto a ele.

Ela sempre o considerou um homem traiçoeiro, que apenas tinha coragem de agir pelas sombras ou através de outras pessoas. Normalmente manipulando-as. Definitivamente, não gostava da energia que percebia ao redor do feiticeiro.

‘Não gosto dele.’ Ela sussurrou, encarando o mago que entrou com um sorriso irônico no rosto.

Ela franziu a testa, reparando a troca de cumprimentos entre ele e Rosas e, logo depois, a forma discreta com que encararam o seu marido. Instintivamente, enlaçou o braço de Eriol, apertando-o de leve e chamando a atenção do esposo. Temia por si, pelo esposo e pela filha. Se aquela loucura de Rosas continuasse, em pouco tempo os feiticeiros seriam todos perseguidos.

Garwood falava de assuntos variados sobre o mundo da magia, nada de muito importante ou relevante. As últimas reuniões tinham sido quase desnecessárias, não fosse a insistência do Vaticano em discutir até onde iria a influência dos detentores de magia na humanidade.

Kaho desviou os olhos de Garwood e observou Harmony, uma maga francesa, que estava acompanhada de outras duas feiticeiras. Ela estava sentada num dos cantos, tirando algumas cartas de seu baralho. Estreitou os olhos nela e viu a magia fluir de forma intensa pelo corpo da velha feiticeira.

Eriol abaixou os olhos, fitando com interesse incomum o piso do imenso salão. Havia uma estrela de cinco pontas no centro e alguns outros desenhos em torno dele. Arregalou os olhos, tendo a impressão de que, por alguns segundos, aquele piso tornou-se uma imensa mandala com uma estrela ao centro, o sol e a lua aos seus lados. Fechou os olhos. Já tinha visto aquela mandala antes, mas onde?

Ultimamente seus sonhos andavam cada vez mais complicados e indefinidos. Voltara a sonhar com a prima que morava em Tomoeda, no Japão. Levantou os olhos, observando novamente Yelan. Havia sonhado com o filho dela também, Xiao Lang Li; apesar de nunca ter visto o rapaz, sabia que era ele quem sempre aparecia ao lado de Sakura.

O que não fazia sentido era o fato de saber que ele não era detentor de magia, embora em seus sonhos, o rapaz mostrasse uma força mágica que chegava a ser devastadora. Conhecia Sakura também, estudaram juntos por quase um ano e tinha certeza de que a prima também não possuía magia.

Não era muita coincidência que sua prima japonesa conhecesse o futuro patriarca do clã chinês e eles se casassem em tão pouco tempo? De forma repentina e, inclusive, fazendo o rapaz abrir mão de todo o poder que teria ao tornar-se o patriarca do poderoso clã? E por que ele, Eriol Hiiraguizawa, estava tendo aqueles sonhos frequentes com os dois? Algo não estava fazendo sentido.

Sentiu novamente um calafrio percorrer suas costas e virou-se, encarando o xamã de cabelos compridos. Engoliu em seco, sentindo como se o olhar dele pudesse invadir sua mente e seus pensamentos.

‘Está tudo bem?’ Ouviu a pergunta da esposa. ‘Você está tremendo.’

Ele quebrou o contato com o xamã e fitou a esposa de forma gentil. ‘Estou bem. Não se preocupe.’

Eriol voltou a tentar prestar atenção no que Garwood falava, mas, realmente, seus pensamentos estavam bem distantes do discurso do homem.

O Círculo estava se fragmentando. Era evidente que a Igreja estava angariando novos aliados, inclusive, dentro do próprio mundo da magia. Os únicos que se mantinham exatamente como sempre foram, eram os xamãs.

Estreitou os olhos neles. Na verdade, eles andavam mais sérios e compenetrados nos últimos tempos. Mais participativos nas discussões também. Estavam ganhando mais força, ou, pelo menos, pareciam ser mais respeitados ou temidos. No fundo, tinha impressão que eles sabiam muito mais do que realmente falavam abertamente e que eram os responsáveis por manter o Círculo ainda unido.

Já havia conversado com Fausto e Lyserg anteriormente. Ambos já o advertiram para que desenvolvesse seu próprio poder xamânico ao invés de negá-lo e temê-lo. No final das contas, feiticeiros eram como todos os seres humanos, temiam demais a morte. E era verdade, ele tinha mesmo medo de morrer, assim como tinha medo de que a loucura de Rosas resvalasse em si e em sua família, principalmente em sua filha.

Seus pensamentos foram interrompidos quando Harmony se aproximou de Garwood, trocou algumas palavras com o velho mago e pediu a palavra, fazendo todos prestarem atenção nela.

‘As cartas me revelaram que estão entre nós aqueles que tentarão levar-nos a um retrocesso na História.’ Ela falou com a voz firme, encarando Rosas que franziu a testa. ‘E vejo, num futuro não tão distante, uma grande guerra entre os mundos.’ Falou, fazendo um murmurinho ecoar pelo grande salão. No entanto, ela não se abalou e prosseguiu com a voz firme. ‘Um grande poder, que hoje mantém tudo em equilíbrio, está sendo ameaçado pela ganância e loucura de alguns. Precisamos estar unidos ou o Caos chegará a este universo.’ Ela completou, olhando de Rosas para os xamãs que se mantiveram em silêncio.

Jun olhou para o senhor de cabelos longos, que fez um gesto com a cabeça, permitindo que ela se pronunciasse. A jovem Tao se levantou e fitou a senhora. ‘E o que a senhora acredita que seja este poder responsável por manter o equilíbrio?’

O salão silenciou, observando as duas mulheres até que Harmony desviou os olhos de Jun e finalmente admitiu. ‘Está além da minha capacidade entendê-lo.’

‘E o que acredita, então, que seja esta ameaça?’ Jun insistiu.

A senhora voltou a fitá-la. ‘Vejo claramente um Rato.’ Respondeu.

Kaho arregalou os olhos de leve e, instintivamente, olhou para Smith que se mantinha num dos cantos do salão. Fora inevitável fazer aquela ligação entre o que a senhora falou e o feiticeiro de forma tão rápida e clara.

‘Um Rato?’ Jun perguntou, franzindo a testa de leve.

‘No baralho Lenormand…’ Harmony começou a responder. ‘A carta com a ilustração do rato, ou o sete de paus, representa os furtos pequenos e que inicialmente parecem não ter importância. Também representa a ação dos covardes e, principalmente…’ Ela fez um pausa, voltando a fitar Rosas de forma descarada. ‘...Dos conspiradores.’

Eriol observou a senhora e Rosas se encarando. O clima ficou tenso no salão. Jun caminhou até a senhora e repousou uma mão no ombro dela. Não era hora de brigarem ou, aí sim, o Círculo fenderia. A luta, por enquanto, deveria ser sútil e não aberta. Harmony desviou os olhos de Rosas e fitou o rosto da jovem Tao que sorria de leve.

‘Não se preocupe, tudo há de se resolver, de uma maneira ou de outra.’

‘Assim espero, senhorita Tao. Assim espero.’ Ela falou e sorriu de leve.

Jun acompanhou a senhora ao lugar em que ela estava sentada antes. Agiu de forma a não permitir que a discussão se prolongasse ou se tornasse aberta. Os xamãs, ultimamente, andavam fazendo bastante isso, servindo de moderadores para evitar discussões entres os feiticeiros e entre o Vaticano.

Yelan observou as duas e depois fitou Eriol que, assim que sentiu estar sendo observado, voltou-se para a senhora. Ele franziu a testa, tinha alguma coisa estranha acontecendo entre os membros do Círculo.

Gardwood tentou, novamente, retornar à pauta da reunião e Rosas, ao final, fez o seu discurso sobre as boas intenções da Igreja em apenas monitorar os detentores de magia pelo bem da humanidade.

Final de reunião.

Eriol não tinha dito uma só palavra, mas sentia a boca seca e o corpo dolorido.

Kaho fitou o marido, percebendo que ele não estava bem. ‘Vamos embora, está pálido.’ Ela observou preocupada.

‘Estou apenas cansado. Havia muita energia circulando.’ Ele esclareceu.

Kaho desviou os olhos do marido e procurou Smith que já tinha desaparecido. Varreu os olhos pelo salão e reparou que Rosas também não estava mais presente. Franziu a testa de leve.

‘Rosas e Smith desapareceram.’ Ela comentou.

‘Assim como tantos outros que também já se retiraram.’ Eriol falou, sem dar importância.

‘Talvez.’ A esposa falou meneando a cabeça.

Yelan se aproximou de Eriol com o rosto sério, cumprimentou-o de forma educada. ‘Anda tendo muitos sonhos, meu caro?’ Ela perguntou sem muitos rodeios.

Eriol arregalou os olhos de leve, surpreso pela pergunta. ‘O que quer dizer com isso, Senhora Li?’

‘Que, talvez, devesse dar mais atenção a eles.’ Ela falou e depois desviou os olhos dele, observando Jun Tao se aproximar dos dois com um sorriso no canto dos lábios.

‘Wǎn shàng hǎo’ (Boa noite). Ela cumprimentou os três e voltou-se para a Yelan. ‘Como vai seu filho, senhora Li?’

Yelan estreitou os olhos na xamã. ‘Não sabia que conhecia meu filho, senhorita Tao.’

Ela sorriu. ‘Este universo é menor do que a senhora imagina.’

‘Surpreende-me e preocupa-me saber que os Tao possuíam interesse em algum membro do clã Li.’

Jun ergueu uma sobrancelha. ‘Pelo que eu saiba, ele não faz mais parte do Clã. Além disso, a senhora pode não acreditar, mas temos algo em comum.’

‘Não imagino o que seja.’ Ela rebateu, entre os dentes.

Jun não respondeu, sorriu de leve e voltou-se para Eriol. ‘Como vai sua prima que reside em Tomoeda?’

Eriol franziu a testa, encarando a chinesa. ‘Hã… acho… acho que está tudo bem com ela.’ Respondeu incerto.

‘Espero que sim.’ Ela falou. ‘Ela é uma mulher muito especial.’

O xamã de cabelos longos chamou a jovem Tao que se despediu, afastando-se do grupo para juntar-se a ele, deixando Yelan e o casal Hiiraguizawa, confusos, para trás.

Kaho a observou afastar-se e voltou-se para o esposo. ‘Querido.’ Ela o chamou com o tom de voz decidido. ‘Deveríamos fazer uma visita ao Japão.’

Eriol fitou a esposa com a testa franzida. ‘Por que isso agora, Kaho?’

Ela desviou os olhos do esposo e fitou Yelan. ‘A senhora também deveria fazer o mesmo.’ Falou em vez de responder ao esposo. Conversaria com ele quando chegassem em casa.

A senhora Li concordou com um gesto.

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Syaoran chegou ao dojo com o filho e logo encontraram Kurogane com Kasumi. A menina acenou para o amigo, sorrindo.

‘Está pronto para beijar a lona, Li-kun?’ Kurogane falou de forma desafiadora.

Syaoran ergueu uma sobrancelha, encarando o amigo. Desceu os olhos para a menina que sorria admirando o pai.

‘Não pegue muito pesado comigo hoje.’ Pediu rindo.

Kasumi olhou para o tio desconfiada, fazendo Syaoran franzir a testa, observando-a. Ela abriu um sorriso meigo para ele e inclinou a cabeça de leve.

'Quando será nossa próxima aula, Ojisan?!’

Kurogane fechou o sorriso, enciumado e estufou o peito. ‘Princesinha, preste atenção na luta de seu otousan e aprenda.’

Syaoran sorriu de leve e passou a mão pela cabeça da menina. 'Quem sabe um dia, Kasumi. Quando seu pai não infartar de ciúmes.’ Falou rindo. Olhou para o amigo. 'Quando ela arranjar um namorado, você vai surtar, hein?!’

'Humph… arranco o fígado do gaki metido a príncipe que se aproximar da minha princesinha.’

Kasumi olhou para o pai sem entender. 'Arrancar o fígado dele para quê, tousan? Tá pensando em comer? Não conheço nenhuma receita boa com fígado…’ Falou com um dedinho no queixo, pensativa.

Syaoran riu e passou novamente a mão na cabeça da guria gulosa. Inclinou o corpo a frente a fitando de perto. 'Bonita como você é, acho que seu pai vai ter que se especializar em receitas de fígado.’ Falou brincando.

Kasumi sorriu para o tio e depois olhou para o amigo que estava ao lado, olhando para ela.

'Vamos treinar hoje, Shaolin?!’ Perguntou, sorrindo de leve para ele.

O menino arregalou os olhos e assentiu com a cabeça. 'Sim… vamos.’

'Que bom!’

Kurogane colocou as mãos na altura do coração. ‘Você não vai ver a luta do seu tousan, Princesinha?’

Ela cruzou os braços. ‘Isso aqui é um treino sério, tousan!’

Syaoran riu e começou a se afastar, seguindo ao vestiário com o filho para se trocarem. Shaolin balançou a cabeça de leve, rindo enquanto pai e filha ainda discutiam.

‘Por que o senhor nunca luta para valer com o Ossan?’ Shaolin perguntou enquanto caminhava ao lado do pai.

Syaoran olhou para o filho e ergueu uma sobrancelha. ‘Quem disse que eu não luto para valer com ele?’

O menino meneou a cabeça. ‘Eu já vi o senhor treinando. E, às vezes, o senhor pega mais pesado comigo do que com ele.’

Syaoran sorriu. ‘Não exagera.’

‘Não estou exagerando.’ Ele rebateu, na lata.

‘Você é meu filho, é normal que eu cobre mais de você.’

‘Ossan tem, pelo menos, quatro vezes o meu tamanho.’ Ele falou, exagerando um pouco. ‘Não acho justo.’

Syaoran franziu a testa de leve. Talvez o filho tivesse certa razão. Cobrava realmente bastante dele e, depois da visita de Gabriel, provavelmente começaria a cobrar ainda mais do garoto. Sorriu de leve e passou a mão pela cabeça dele.

‘Eu me preocupo com você.’ Ele falou de forma suave. ‘Quero que esteja preparado para o que pode vir a enfrentar no futuro.’

O menino suspirou. ‘Gosto de luta, tousan, mas…’ Ele fitou o pai por alguns segundos. ‘Gosto porque estou com o senhor... E com Kasumi.’

‘Eu sei disso.’ Ele respondeu, sorrindo de leve.

Shaolin, na maioria das vezes, lembrava-o demais de Sakura quando criança.

Trocaram de roupa e, logo, encontraram-se com os Kurogane. Kasumi, para variar, estava comendo. Shaolin costumava implicar com ela, dizendo que comia tanto que um dia explodiria, mas a garota não dava ouvidos e continuava a comer.

Kurogane tentava fazer chantagem emocional enquanto Kasumi se mantinha inflexível querendo treinar e ainda insinuou que o pai não levava a sério os treinos com o tio, pois ficava só querendo se mostrar para ela ao invés de prestar atenção.

Os quatro foram para o salão onde podiam fazer sessões de treino livre fora dos horários das aulas. Kurogane e Syaoran foram para um lado enquanto as crianças foram para outro.

Li pediu que o amigo esperasse um pouco, pois gostaria de observar as crianças lutando um pouco. Ele havia ficado surpreso ao ver como Kasumi lutava durante o torneio e sabia que a garota não brincava durante os treinos. Estava curioso para saber como o filho reagiria em uma luta contra ela. Ela certamente estaria mudando de categoria em breve, também.

Shaolin também o havia surpreendido durante o torneio do último final de semana. Mais de uma vez, reparou que o filho simplesmente evitara de completar o golpe apenas para poupar o adversário ou para alertá-lo de algum erro.

Não era uma boa atitude, considerando a situação. Se ele estivesse num combate para valer, mostrar ao adversário seus erros e dar a ele a chance de se corrigir poderia ser a diferença entre ganhar e perder.

Syaoran respirou fundo. Na sua vida, ganhar sempre representou a sobrevivência. Reparou que o filho tinha um ótimo contra-ataque quando, após a primeira luta, mesmo estando relaxado, conseguiu se proteger do garoto que resolveu descontar a frustração de ter perdido para um menino mais novo.

Verdade que levou um baita susto, assim como a esposa, pensando que o filho não havia percebido o perigo, mas Shaolin simplesmente se defendeu, levantou-se e sorriu como se nada tivesse acontecido.

As duas crianças se posicionaram, uma a frente da outra e se cumprimentaram antes de começarem. Kasumi inclinou a cabeça de leve, observando o amigo.

‘Você não vai me atacar, né?’

Ele endireitou o corpo. ‘Não estou com pressa de apanhar…’ Resmungou.

A menina soltou um suspiro. Moveu-se na direção dele e tentou acertá-lo pela direita. Shaolin bloqueou o ataque sem problemas, como era esperado pela amiga, que girou o corpo e tentou acertá-lo com um chute alto, novamente bloqueado. Ela abaixou de leve o corpo apenas para pegar um pouco de impulso no chão e tentou acertar o menino com um pulo. Shaolin deu um passo para trás desviando por um triz.

‘Está mais rápida.’ Ele comentou.

‘Você que está mais mole.’ Ela retrucou.

‘Então agora é minha vez.’ Shaolin disse confiante, aproximando-se dela e tentando golpeá-la agora.

Kurogane colocou a mão no ombro de Li, observando os filhos treinando. ‘Tal pai, tal filha, hein?’ Falou, sorrindo.

Syaoran olhou de soslaio para o amigo. ‘Acho que sim.’ Voltou a prestar atenção na luta das crianças, pensando que a desenvoltura de Kasumi, muitas vezes, era superior à de Kurogane.

Shaolin se abaixou e deu uma rasteira na menina, que já estava caindo no chão, quando ele a segurou pelo uniforme, fazendo-a ficar com o rosto vermelho de raiva.

‘Não é para me ajudar!’ Ela falou, empurrando-o de leve.

O menino levantou os braços. ‘Está bem. Desculpe-me.’

‘Shaolin…’ Ela o chamou, cruzando os braços e encarando-o. ‘Se fosse uma luta de verdade, você poderia perder.’

‘Mas não estamos lutando a sério. Estamos só treinando.’

Ela respirou fundo e virou os olhos. ‘É… você não vai mudar nunca.’

Ele suspirou pesadamente. ‘Está bem. Vamos lutar então pra valer.’

Novamente Kasumi tentou acertar Shaolin. Ele virou o corpo, segurou o pulso dela, passando a perna pela de Kasumi e a segurou pelo cotovelo, inclinando-a para frente.

Ela trincou os dentes e Shaolin a soltou, dando um passo para trás. Kasumi virou-se para ele novamente. ‘Você recuou de novo!’

‘Não é isso…’ Ele respondeu.

‘Então é o quê?’ Falou, dando um passo à frente e encarando o amigo de perto.

Ele desviou os olhos. ‘Eu aprendi isso com tousan, não é justo imobilizar você desta maneira se não foi ensinado pelo shifu. É desonesto.’

‘E por que você já considerou que eu não pudesse me livrar da sua imobilização?’ Ela perguntou, inconformada.

Ele coçou a bochecha sem graça. ‘Pensei que a tivesse machucado.’

Kasumi sorriu e deu um beijo no rosto dele. ‘Você não me machucaria.’

Syaoran franziu a testa, observando o filho. Ele realmente era parecido demais com Sakura. Deu um longo suspiro e cruzou os braços. Pelo menos deu para ver que o menino tinha aprendido o que ele tinha ensinado alguns dias atrás. Só que não adiantava ele aprender e depois se sentir mal em executar.

Syaoran observou os dois voltando a lutar. Kasumi era séria durante a luta e isso era bom, pois obrigava o filho a levar os treinos com mais seriedade, também. Tinha curiosidade para saber se ela manteria aquele nível em alguns anos. Era claro que ela lutaria bem em qualquer modalidade, mas se surpreendeu quando a menina se recusou a treinar com bastões, que era o primeiro passo para depois ir para a luta de espadas.

As duas crianças estavam ofegantes, e a luta finalizou com Shaolin sendo imobilizado pela menina.

Balançou a cabeça de leve, enquanto Kurogane foi abraçar a filha que sorria abertamente.

‘Esta é a minha princesinha!’ Falou, levantando a garota.

Shaolin se aproximou com o rosto corado. ‘Devemos ser sempre cavalheiros, não?’ Ele falou para o pai.

‘Sua mãe sempre detestou que eu a tratasse como uma donzela indefesa.’ Syaoran disse, sorrindo de leve.

‘Kasumi também detesta.’ Shaolin deu de ombros. ‘Ela é muito boa em lutas, mas…’ Reteve-se, virando o rosto e observando Kasumi sem graça sendo abraçada pelo pai. Sorriu de leve. 'Ela sempre será a princesa Kurogane…’

Syaoran olhou para o filho e franziu a testa de leve. ‘Ela tinha razão, você estava mais lento hoje.’ Comentou.

O menino soltou um suspiro e voltou a fitar o pai. ‘Tive treino de futebol antes de vir para cá.’

‘Você não me falou sobre isso. Se estava cansado poderíamos ter marcado para outro dia.’

Shaolin sorriu. ‘Como eu falei, tousan. Fico feliz de estar lutando, pois estou ao seu lado e ao da Kasumi.’

Li sorriu de leve e passou a mão pela cabeça do menino, bagunçando seus cabelos.

‘Bem, agora é sua vez.’ Shaolin falou, afastando-se do cafuné. ‘Ossan está com a corda toda. Kasumi está mais vermelha que um pimentão de vergonha. Melhor começar a luta com ele logo.’

‘Então, desta vez, eu vou resgatar a princesa.’

O menino sorriu, concordando energicamente.

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Sakura observou, pela porta da cozinha, Syaoran lavando a louça da janta e Shaolin a secando e guardando nos armários. Eles estavam conversando em mandarim para que o menino praticasse. Ela sorriu, percebendo que Shaolin cometia quase os mesmos erros que ela e Syaoran sempre consertava, pedindo para repetir até que estivesse satisfeito.

Ela sorriu levemente observando o marido interagir com o filho. Syaoran era um ótimo pai. Atencioso, carinhoso, severo na medida adequada. Ele tinha tanto amor para dar, ainda. Baixou os olhos e cerrou os punhos levemente.

Era verdade que tivera uma gravidez bastante complicada. Dera muitos sustos em Syaoran durante aqueles nove meses. O pior de tudo era não saberem o que estava acontecendo. Fizera todos os exames possíveis e, fisicamente, não havia nenhum problema. Os médicos, até hoje, não conseguiram explicar o que causara todos aqueles problemas. Aquela incerteza, mais do que qualquer outra coisa, foi o que os levou a insistirem ainda por um tempo depois, mesmo sendo contraindicado.

Respirou fundo, voltando a encarar pai e filho. Syaoran tinha razão. Eles tinham uma família perfeita, mas, por algum motivo, ela sentia que algo estava faltando.

‘E quando vamos para Hong Kong?’ O menino perguntou, secando um prato.

‘Não sei…’ Syaoran respondeu. ‘Talvez nas próximas férias.’

Sakura franziu a testa, mas não falou nada.

‘E então eu vou poder conhecer todos os meus outros primos?’

Syaoran respirou fundo para ganhar tempo e pensar em como responder para a filho. ‘Podemos visitar seus tios Mei Ling e Hyo Ling e seu primo Cheung. O que você acha?’

Sakura arregalou os olhos de leve, lembrando-se de Meilyn. Talvez pudesse conversar com ela.

‘Cheung era muito pequeno da última vez que eu o vi.’ Shaolin comentou. ‘Acho que não dá para brincar com ele.’

Syaoran franziu a testa. ‘Mas agora ele já está maior. Acho que deve estar com 5 anos.’

Shaolin concordou com a cabeça. ‘Então a gente já pode jogar bola.’

‘Provavelmente. Seu tio falou que ele também já está fazendo aulas de kung fu.’

Sakura se afastou da cozinha ainda ouvindo o marido e o filho conversando. Foi até o segundo andar e passou pelo quarto de Shaolin onde Kero jogava videogame de forma frenética depois de ter se empanturrado na janta. Sorriu de leve, pensando que ele nunca mudaria. Entrou no seu quarto, fechando a porta e pegando o telefone. Discou o número e esperou que atendessem. Logo ouviu a voz alegre de Meilyn do outro lado da linha.

‘Boa Noite, Meilyn-chan. É a Sakura.’

‘Olá, Sakura! Tudo bem por aí?’ Ela respondeu. ‘Estava com saudades de você!’

‘Eu também. Não temos mais nos falado com tanta frequência.’ Sakura suspirou. ‘Shaolin está crescendo muito rápido.’

Meilyn riu do outro lado da linha. ‘Cheung também! Eles crescem rápido demais… mas estamos pensando em um irmãozinho para ele.’ Ela falou com entusiasmo.

Sakura sorriu, pelo jeito não era só ela quem pensava em aumentar a família. Mordeu de leve o lábio inferior enquanto caminhava de um lado para o outro do quarto com o telefone ao ouvido. ‘Vocês estão pensando em adotar outra criança?’

‘Sim! Hyo Ling gostaria de ter uma filha!’ A Chinesa falou entusiasmada e soltou um suspiro. ‘Adotar meninas aqui na China é muito mais fácil. Você sabe…’

‘Eu imagino…’ Ela fez uma pausa. ‘Sabe… hum… eu queria perguntar… uma coisa…’

‘Está querendo adotar uma criança também, Sakura?’ Meilyn foi direta, chegando a assustar a amiga.

Sakura levou um tempo para se recuperar. ‘Acho… que é algo a ser considerado.’

‘Hum… sabe… Você tinha razão quando falou que as crianças devolvem de forma exponencial o amor que dedicamos a elas. Cheung é uma das minhas maiores alegrias, independente de toda confusão que causou no Clã.’

‘Eu lembro bem…’ Sakura falou, pesarosa.

Quando Meilyn e Hyo Ling resolveram adotar uma criança, os anciões do clã Li quase surtaram e, por muito pouco, o homem não fez o mesmo que Syaoran e abandonou o clã.

Ela soube que, inclusive, Yelan fora terminantemente contra a adoção da criança. No final, da mesma maneira que todos fizeram vista grossa com relação a Meilyn fazer faculdade e trabalhar fora, aceitaram o menino adotado, na condição dele não entrar na linha de sucessão da família.

Hyo Ling e Meilyn, no entanto, evitavam as reuniões familiares, pois, apesar de aceitarem, deixavam claro que não concordavam. Evitavam assim que a criança fosse exposta a muitas situações de constrangimento.

‘Cheung acaba ficando muito sozinho, pois evitamos contato com as outras crianças do clã… Não quero que meu filho sofra por causa de pensamentos arcaicos e idiotas dos outros.’ A chinesa falou com a voz mais séria. ‘Por isso estamos já com os papéis prontos para a adoção de uma menina agora.’ Finalizou a frase em tom alegre novamente.

‘Acho que será muito bom para Cheung-kun ter uma irmãzinha… Também gostaria que Shaolin não fosse filho único…’

Meilyn ficou em silêncio do outro lado da linha por alguns segundos. ‘Já conversou com Xiao Lang sobre isso?’

‘Ainda não.’ Sakura respondeu. ‘Mas… não sei… Syaoran saiu do clã, mas, às vezes, parece que permanece com alguns pensamentos…’

‘Você realmente acha que Xiao Lang seria contra, Sakura?’ A voz da chinesa era séria.

‘Eu…’ Ela reteve-se e respirou fundo. ‘Não… ele não seria.’ Respondeu por fim.

‘Claro que não! Ele foi quem mais conversou com Hyo Ling sobre isso.’ Meilyn falou. ‘E você sabe que, no final, foi Hyo Ling quem me convenceu.’

Sakura sorriu de leve. ‘As coisas estão meio complicadas no momento, mas acho que eu só precisava ouvir isso de outra pessoa.’

‘Está tudo bem com Xiao Ling?’ Meilyn perguntou preocupada.

‘Está tudo bem, sim… Tudo vai ficar bem.’

‘Certo…’ A chinesa falou reticente. ‘E quando vocês virão nos visitar?!’

Sakura soltou um longo suspiro e fechou os olhos brevemente. ‘Talvez, nas próximas férias. Teremos uma nova sobrinha para conhecer, não?’

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Smith caminhava ao lado de Rosas pela enorme construção que tinha comprado no interior da Irlanda, com financiamento de Yanamoto. A imensa propriedade encontrava-se isolada e afastada de qualquer cidade.

‘É uma propriedade fenomenal.’ Rosas falou ao lado de Smith.

‘Ela será perfeita para o treinamento dos jovens selecionados.’

‘Mandarei alguns noviços que observei possuírem mais poderes.’ Rosas comentou.

‘Entrei em contato com alguns feiticeiros que não foram aceitos pelo Círculo e temos uma grata surpresa.’ Smith falou com um sorriso maldoso. ‘Um dos membros do Clã Li se juntará a nós no treinamento de artes marciais.’

‘Membro do clã Li?’ Rosas perguntou, erguendo uma sobrancelha.

‘Sim. Reyume Li andou tendo problemas com o Clã um tempo atrás. As tradições já não são seguidas sem questionamento pelos jovens. Os tradicionalistas estão perdendo poder. O clã está começando a se deteriorar.’

Rosas suspirou. ‘Se continuar assim, não sei aonde esta juventude levará o mundo. Regras e tradições existem para que o equilíbrio seja mantido.’

‘Concordo, meu caro.’ Smith falou. ‘E com os manuscritos que os Li tinham para o treinamento de seus membros, poderemos transformar nossos jovens em guerreiros de elevada categoria. Além disso, nos manuscritos há várias anotações e estudos de magia que ajudarão no desenvolvimento necessário. Reyume Li será uma peça fundamental para o nosso objetivo.’

‘Assim como o dinheiro que conseguiu adquirir em tão pouco tempo, não?’ Rosas comentou, com um tom de acusação velada.

Smith fitou Rosas em silêncio por alguns segundos. ‘Minhas fontes financeiras são apenas de meu interesse, caro colega.’ Ele rebateu. ‘Mas a Igreja também poderia nos ajudar neste quesito, não?’

‘Já estou providenciando isso.’ Rosas comentou. ‘Já está na pauta da próxima reunião com o conclave.’

‘Excelente.’

‘Quantos jovens pretende treinar aqui?’

‘Acho que uns duzentos.’ Smith comentou. ‘Estou trabalhando na seleção de jovens e crianças. Principalmente nos orfanatos.’

‘Soube que encontrou alguns bons candidatos na Índia e Oriente médio.’

‘Exatamente. Foi um pouco complicado conseguir que eles viajassem para cá, mas nada que o poder do dinheiro não pudesse resolver, não é, meu caro? Não devemos poupar esforços quando o que está em jogo é o futuro da humanidade.’

Os dois pararam perto de uma das imensas janelas e observaram um pequeno grupo de jovens treinando com espadas no pátio ao comando de Reyume.

‘Este treinamento que você fala tanto… Por que os Li o teriam e para quê?’

‘Você leu as anotações que eu lhe entreguei, não?’

‘Sim… Sobre o mundo das trevas, pilares e o mundo superior.’ Rosas falou. ‘Inferno, Terra e Céus.’

‘Exatamente.’ Smith falou. ‘Então também achou interessante a leitura sobre o Guardião das trevas, não?’

‘Acredita nisso realmente?’ Rosas perguntou, erguendo uma sobrancelha.

‘Assim como você, caro colega. Ou não estaria aqui ao meu lado conversando.’ Rebateu.

‘Se os Li tinham esse treinamento para formar o Guardião, por que ele não surgiu?’

Smith encarou Rosas de forma desafiadora com a testa franzida. ‘E quem disse que ele não surgiu?’

Rosas estreitou os olhos nele. ‘O que realmente você sabe, Smith?’

O homem deu um longo suspiro. ‘Syaoran Li.’ Falou finalmente. ‘Ele é o Guardião.’

‘O filho de Yelan Li que abandonou o clã por causa de uma vadia japonesa?’ Rosas falou incrédulo.

‘Exatamente.’ Smith confirmou. ‘A história daquele rapaz é muito interessante. Demorei um pouco para me lembrar de tudo e, confesso, que isso aconteceu apenas depois que fiz alguns rituais para que minha memória retornasse.’ Continuou explicando. ‘E a “vadia japonesa” é justamente o Pilar.’

‘Os anciões do Clã Li me falaram que essa japonesa seduziu o rapaz de tal maneira que ele nem hesitou antes de largar toda a tradição do clã, inclusive, dando as costa para a própria mãe.’ Rosas falou com tom julgador.

‘As mulheres possuem artifícios muito eficientes para manipular um homem, meu caro.’ Smith comentou. ‘Uma bela mulher, com conhecimento de como enlouquecer um homem através de fornicação… realmente seria capaz de tal façanha.’

Rosas calou-se, observando o homem. Não confiava nele, mas não podia negar que a leitura que ele havia lhe oferecido, realmente, havia sido bem interessante. Além de fazer uma correlação com vários manuscritos secretos que eram guardados nos cofres do Vaticano e que não deveriam ser estudados por ninguém fora da Igreja.

‘Os xamãs acreditam que esse poder é algo enviado pelo Grande Espírito…’ Smith começou a falar.

‘Os xamãs são feiticeiros da morte.’ Rosas o interrompeu. ‘O que eles consideram o Grande Espírito é Deus, que está acima de todos nós.’ Rebateu. ‘Isso é blasfêmia!’

‘Concordo… Realmente, afirmar, ou mesmo insinuar, que Jesus Cristo foi um Rei Xamã é algo inadmissível.’

‘Exatamente.’ Rosas falou entre os dentes, voltando a caminhar. ‘Pelas anotações de Clow, esse poder, que ele chama de Pilar, seria comparativo ao Espírito Santo.’

‘A correlação que ele fez foi comparar o Grande Espírito a Deus e o Pilar, ou Rei Xamã, a alguém aqui na Terra que receberia este poder, que seria o Espírito Santo, diretamente das mãos de Deus.’ Smith falou levantando os braços em posição teatral. ‘A divina trindade.’

Rosas estreitou os olhos nele, trincando os dentes. ‘Blasfêmia.’

‘Concordo.’ Smith continuou. ‘O que aconteceu… É que a “vadia japonesa”, como você mencionou, recebeu um poder extraordinário. Imagine Maria Madalena, coberta de pecado e perversão, receber o poder do Espírito Santo?! Seria algo inadmissível, não?’

‘Exatamente.’ Rosas concordou novamente.

‘Precisamos arrumar isso. Nós somos encarregados de reverter esta situação.’ Smith falou com o rosto sério. ‘Precisamos detê-los antes que comecem a doutrinar os incautos. Esta é a nossa missão, meu caro amigo.’

Rosas fez um gesto positivo com a cabeça.

Smith olhou para o homem à sua frente. ‘Pelo que eu saiba exorcistas conhecem bem o Apocalipse, não?’

Rosas franziu a testa. ‘Claro. Todo cristão deveria saber.’

‘Apocalipse, capítulo 11, versículos 3 a 6.’ Smith desafiou Rosas.

Rosas observou com atenção o homem e finalmente começou a falar o que sabia de cor.

‘E darei poder às minhas duas testemunhas, e profetizarão por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de saco.
Estas são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Deus da terra.
E, se alguém lhes quiser fazer mal, fogo sairá da sua boca, e devorará os seus inimigos; e, se alguém lhes quiser fazer mal, importa que assim seja morto.
Estes têm poder para fechar o céu, para que não chova, nos dias da sua profecia; e têm poder sobre as águas para convertê-las em sangue, e para ferir a terra com toda a sorte de pragas, todas quantas vezes quiserem.’

‘Excelente memória! Estou impressionado.’

‘Não seja debochado, Smith.’

‘As duas testemunhas…’ Ele começou. ‘As duas oliveiras diante de Deus com enorme poderes.’

‘O que tem elas? Quem são?’

‘O Pilar e seu Guardião.’ Smith respondeu e reparou Rosas arregalar de leve os olhos. ‘Isto mesmo, meu amigo, o renegado Li e sua vadia.’

Rosas respirou fundo, cruzando os braços sobre o peito. Tinha o semblante fechado, preocupado. ‘Se esse poder realmente existe, está nas mãos das pessoas erradas. Nas mãos de uma prostituta.’ Ele falou, tocando com a ponta dos dedos no pesado crucifixo de prata. ‘Apocalipse, capítulo 17, versículos 1 a 5.’

Smith franziu a testa não entendendo e Rosas recitou para ele.

‘E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas;
Com a qual fornicaram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua fornicação.
E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres.
E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua fornicação;
E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra.’

Smith franziu a testa, pensando por alguns momentos no significado da citação de Rosas antes de balançar positivamente a cabeça.

‘Exatamente, caro colega. É por isso que estamos aqui. Criando um santo exército para nos ajudar nesta nova Cruzada.’

‘Não seria melhor simplesmente…’ fez uma breve pausa. ‘Eliminá-los?’

‘Acredite, Rosas. Isso já foi tentado antes. Precisamos estar preparados e atacá-los com todas as nossas forças para que nada saia errado e, principalmente…’ Deu um suspiro com as sobrancelhas franzidas. ‘Para que vidas inocentes não sejam afetadas.’

Rosas concordou com a cabeça. ‘Tem razão.’

Um rapazinho se aproximou deles, pedindo licença. Estava acompanhado de um dos magos que Smith havia contratado para ajudar no treinamento mágico dos jovens. O rapazinho parecia um pouco assustado enquanto olhava para a construção, mostrava-se claramente incomodado de estar ali.

Smith, assim que o viu, abriu um sorriso paternal. ‘Jovem Takeda! Que bom que se juntou a nós.’ Falou, observando o rapaz de 15 anos.

‘Meu… meu pai pediu que eu viesse.’ Ele respondeu incerto.

‘Ele não tem magia.’ O mago que o acompanhava falou de forma ríspida.

Smith caminhou até o rapaz e colocou uma mão no ombro dele, chamando a atenção de Takeda. ‘Nisso nós podemos dar um jeito, não é?’

‘E-eu acho que sim.’ Respondeu incerto.

‘Acha ou tem certeza, meu rapaz?’

Takeda respirou fundo. ‘Tenho certeza. Meu pai me mandou aqui, só volto para casa depois que estiver pronto.’

‘Ótimo. Uma determinação admirável.’ Smith falou. ‘Este pequeno problema da falta de magia nós podemos reverter com um ritual bem simples.’

‘Simples?’ O mago que estava ao lado de Takeda perguntou, arregalando os olhos. ‘Senhor… isso é algo muito perigoso.’

Smith olhou para o garoto. ‘Mas acho que nosso corajoso Takeda está pronto para se arriscar, não?’

Takeda cerrou os punhos. Tremia de leve. ‘Sim.’ Respondeu, tentando passar credibilidade.

‘Eu conversei com seu pai. Expliquei tudo para ele e ele tem certeza que será capaz de aguentar o ritual e o treinamento.’

‘Meu pai?’ Takeda perguntou, piscando os olhos.

‘Exatamente. Ele conta com a sua coragem e força para vingar a morte de seu irmão.’

‘Sim.’ Takeda falou com segurança. ‘Estou aqui para isso.’

‘Excelente.’ Smith falou e depois voltou-se para Rosas. ‘Está vendo, meu caro amigo. Jovens determinados! Isso sim é que precisamos para limpar o mundo dos males.’

Rosas acenou que sim com a cabeça e franziu a testa, observando o rapazinho. ‘Quer mesmo se tornar um feiticeiro, garoto?’

Takeda concordou com um gesto.

‘Humph.’ Rosas murmurou. ‘Os feiticeiros todos queimarão no inferno.’

Smith sorriu. ‘Rosas, meu caro, com poder… o inferno não é nada para um feiticeiro.’ Voltou-se para Takeda. ‘Esteja pronto. Esta noite faremos o ritual, você provavelmente ficará inconsciente por alguns dias. E sabe muito bem dos riscos, não?’

Takeda concordou com a cabeça. O mago que estava ao lado do rapaz, novamente tentou persuadir tanto Smith como o garoto quanto aos riscos inclusive da morte de Takeda, mas foram inúteis as explicações.

O jovem estava obcecado em fazer o que o pai havia pedido, ou melhor exigido. Não poderia voltar para casa, sem fazer o que tinha prometido: vingar a morte de seu irmão mais velho, Seiya Yanamoto.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura preparava o café da manhã quando Syaoran entrou na cozinha.

‘Bom dia.’ Ela o cumprimentou, sorrindo.

Ele a abraçou por trás e beijou o rosto da esposa, depois olhou o que ela preparava para o café. ‘Parece bom.’ Comentou.

‘Espero que sim.’

Syaoran franziu a testa. ‘Percebeu a presença de Hiiraguizawa ontem?’ Perguntou.

Ela concordou com a cabeça. ‘Sim. Percebi. Tanto a dele como a de Kaho-san.’

‘E uma terceira…’ Syaoran falou em tom preocupado.

‘Deve ser de Marie-chan, filha deles.’ Sakura comentou.

‘Sim… mas você não percebeu…’

‘Percebi.’ Ela o interrompeu.

Syaoran se afastou dela e se sentou à mesa, enquanto a esposa servia o desjejum para ambos. ‘Seria possível?’ Ele perguntou.

Sakura deu um longo suspiro. ‘Eu… Eu realmente não sei, Syaoran.’ Sentou-se ao lado dele, encarando o próprio prato. ‘Não sabemos o que realmente aconteceu depois… Depois que…’ Sakura não sabia nem o que falar direito. Dez anos depois e ainda era estranho admitir que tinham morrido.

‘Seria bom se realmente fosse ela.’ Syaoran comentou, sorrindo de leve e vendo-a concordar.

‘Pelo menos saberíamos que ela não ficou presa naquele lugar.’

Syaoran franziu a testa de leve, lembrando da conversa que tiveram com Gabriel algum tempo atrás. ‘Será que era a isso que aquele Anjo idiota estava se referindo quando falou que Shaolin teria a mesma ajuda que nós?’

Sakura arregalou os olhos de leve. ‘Não seria justo com ela.’ Falou preocupada. ‘Se ela realmente voltou em outra forma… Não seria justo fazê-la lembrar da existência anterior, não?’

Ele respirou fundo. ‘Aquele anjo nunca pensa muito nas pessoas.’

‘É… Eu o detesto.’ Sakura não teve como não deixar escapar.

Syaoran riu de leve. ‘Bem… Segundo me falaram ele é o meu alter ego.’

Sakura levantou os olhos para o marido e meneou a cabeça. ‘Pode ser… Quando você chegou a Tomoeda era bem arrogante e sabichão também.’

Ele ergueu uma sobrancelha. ‘Caramba! Realmente pensava isso de mim?’

Sakura riu. ‘Estou mentindo?’

Ele se encostou a cadeira observando a esposa. ‘Talvez eu fosse um pouco arrogante… Mas não sabichão. Eu sabia do que eu estava falando.’

‘Gabriel-san também acha que sabe do que está falando.’ Ela rebateu.

‘Humph’. Ele murmurou. ‘Gabriel só aparece para nos trazer problemas.’

Ela suspirou e sorriu para ele. ‘Ainda bem que você mudou.’

Syaoran sorriu. ‘Mudei?’

‘Sim…’ Sakura respondeu. ‘Gabriel-san, no fundo, realmente acredita que está fazendo o correto, tem senso de responsabilidade, parece que gostaria de resolver tudo sozinho…’

‘Hei, Hei, Hei… Pode parando por aí!’ Syaoran a interrompeu. ‘Ele não resolve nada sozinho… Ele sempre deixa a batata quente na minha mão. Assim é fácil ser o guardião sei lá da onde se quem resolve o problema mesmo sou eu.’ Ele respirou fundo. ‘E agora… Pelo visto, o nosso filho.’

Sakura franziu a testa de leve. ‘É por isso que eu o detesto. Ele é bem arrogante… Como você era.’

Syaoran cruzou os braços. ‘Às vezes, eu me pergunto se uma luta entre nós dois realmente seria eterna.’

‘Como assim, Syaoran?’ Sakura perguntou, olhando surpresa para o marido.

‘Eu confesso que estou querendo dar um murro nele há muito tempo.’

‘Ah, mas isso eu também quero. Desde que o chantagearam para voltar para aquele inferno.’

Ele concordou com a cabeça. ‘Estou com receio, Sakura.’ Falou sinceramente. ‘Não quero que Shaolin tenha a vida que eu… Que nós tivemos.’

Sakura desviou os olhos do esposo. ‘Eu também não.’

Ficaram em silêncio por um tempo até ouvirem o menino descer as escadas e aparecer na porta da cozinha sorrindo. ‘Bom dia!’ Cumprimentou os pais.

Kero estava voando ao lado dele e rapidamente pousou na mesa, olhando para o que tinha no desjejum. ‘Oba… panquecas!’ O guardião solar falou, já esfregando as mãozinhas.

Shaolin sentou-se à mesa e olhou para os pais. ‘O que aconteceu?’ Perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Sakura e Syaoran arregalaram os olhos de leve.

‘Nada!’ Sakura respondeu abrindo um sorriso, já se levantando para preparar a refeição para ele. ‘Você quer quantas panquecas?’ Perguntou.

Shaolin observou a mãe e depois fitou o pai, esperando pela resposta.

‘Eu quero três!’ Kero respondeu logo.

Sakura voltou-se para o bichano. ‘Kero-chan, você vai explodir um dia de tanto comer.’

‘Não seja mesquinha como este seu marido.’ Ele reclamou e Syaoran desviou os olhos do filho para encarar Kero.

‘Você… continua um baita guloso.’ Ele falou em tom de recriminação.

Shaolin observou Kero e sorriu de leve. Voltou-se para a mãe que preparava as panquecas e finalmente encarou o pai. ‘Não vão me responder o que aconteceu para vocês dois estarem com aquelas caras preocupadas?’

Syaoran estreitou os olhos no filho. ‘Assunto de adultos.’ Respondeu por fim.

Sakura se aproximou com as panquecas, colocou a frente do filho e de Kero. ‘Fiz duas para você, Kero-chan. É mais que o suficiente.’

‘Está ficando igual a este seu marido: pão-dura.’ Ele resmungou. ‘Agora que Clow-sama voltou, vou morar com ele. Acho que seria mais bem tratado.’

Sakura e Syaoran se entreolharam e, como imaginaram, Shaolin foi direto. ‘Clow-sama?’

Syaoran deu um cascudo na cabeçorra do bichano. ‘Esqueceu que ele não lembra de você, bola de pelo?’

Kero arregalou os olhos e murchou suas asinhas. Era verdade. Ainda não conseguia acreditar que seu criador tinha esquecido da sua gloriosa existência.

‘Quem é Clow-sama?’ Shaolin insistiu na pergunta e reparou que novamente os pais se entreolharam. Franziu a testa, estava na cara que estavam escondendo alguma coisa dele.

Syaoran respirou fundo. ‘Na verdade, não foi Clow quem voltou. Foi o primo da sua mãe. Eriol Hiiraguizawa. Ele deve ter chegado ontem em Tomoeda.’

‘Ele ligou para a senhora, kaasan?’

Sakura sorriu de leve. ‘Não, ainda não. Mas deve nos fazer uma visita muito em breve.’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura recebeu o telefonema do primo no meio da manhã, perguntando se poderia visitá-la naquele dia mesmo. Não foi muito claro quanto aos motivos de seu retorno. A feiticeira se perguntava se Eriol realmente tinha se lembrado da sua existência anterior.

Syaoran não conseguia disfarçar muito bem sua apreensão com relação a volta de Hiiraguizawa. Como ele já tinha colocado para a esposa, assim como Gabriel, quando Eriol aparecia, normalmente, era para trazer-lhes problemas também. Mas ambos não podiam negar que estavam curiosos para conhecer a filha dele.

O inglês, como era de se esperar, foi pontual. Eriol parou em frente ao sobrado branco onde a prima residia e que também fora a residência da mãe de Kaho antes dela se mudar para Londres. Franziu a testa de leve, observando a construção. Era um sobrado típico, sem muita ostentação. Havia um bonito jardim à frente. Sorriu de leve, percebendo que tinha magia demais circulando aquela casa. Muito mais do que quando a Sra. Mizuki morava ali.

Kaho sorriu, lembrando-se da casa em que havia crescido, abaixou-se até ficar da altura da filha. ‘Sua avó morava aqui antes. Fui criada nesta casa.’

Marie desviou os olhos da mãe e fitou a construção. Respirou fundo e levou a mão ao peito, sentindo-o acelerado. Estava ansiosa, mas não sabia exatamente o porquê. Talvez fosse a timidez por conhecer os parentes do pai… Talvez…

A porta da frente se abriu e Sakura apareceu, sorrindo para o casal e a filha. ‘Olá! Sejam bem-vindos.’

Eriol piscou algumas vezes, surpreso pela aparição repentina da prima. Sorriu para ela de leve e se aproximou da casa, abrindo o pequeno portão para que a esposa e a filha passassem, entrando em seguida.

Sakura desviou os olhos de Eriol e fitou a menina de cabelos longos vermelhos e olhos azuis. Sorriu sem conseguir disfarçar a alegria de vê-la. Ela balançou a cabeça de leve e abriu a porta, convidando-os a entrarem.

Eriol parou a sua frente e a cumprimentou de forma polida, não tinham muito contato, principalmente nos últimos anos. Kaho também a cumprimentou e apresentou a filha.

Sakura se abaixou, apoiando as mãos nos joelhos para ficar com o rosto na altura da menina. Sorriu novamente e a viu sorrir timidamente.

‘Olá, Marie-chan.’ Ela falou de forma doce.

‘Olá.’ A menina respondeu, sorrindo de leve.

‘Eu posso lhe dar um abraço?’ Pediu e viu a menina acenando que sim com a cabeça.

Sakura alargou o sorriso e envolveu carinhosamente a criança entre seus braços. Sentiu os bracinhos dela também envolvê-la e teve a certeza de quem ela era.

‘Que bom que você está aqui.’ Falou, tentando controlar a voz que lhe falhava.

Eriol e Kaho observaram a filha abraçada à Sakura. Marie não era muito sociável, estranharam a menina ter se deixado abraçar pela mulher que acabara de conhecer.

Syaoran se aproximou do casal, cumprimentando-os também de forma polida. Observou a esposa abraçada ainda a menina e sorriu de leve.

Sakura afastou-se de Marie e a fitou com carinho. ‘Você é uma menina muito bonita.’ Falou sorrindo e depois fitando Eriol e Kaho. ‘Parabéns! Vocês devem estar muito orgulhosos.’

Ela se levantou e olhou para o esposo sorrindo. ‘Onde está Shaolin?’

‘Ele já está descendo.’ Syaoran respondeu e se aproximou da menina, afagando-lhe os cabelos. ‘Olá, Marie.’ Cumprimentou. ‘Que bom que vocês…’ Ele falou, virando-se rapidamente para Eriol e Kaho. ‘...estão aqui.’

Marie levantou o rosto, fitando Syaoran e sorriu para ele. Eriol pigarreou, franzindo a testa e ajeitou os óculos no rosto.

Shaolin apareceu na sala e Syaoran se afastou da menina para apresentar o filho. O menino franziu a testa ao cumprimentar Eriol e Kaho. Conseguia ver claramente a aura do casal de primos da mãe.

‘Ele tem os seus olhos, Sakura-san.’ Kaho comentou sorrindo. ‘É um belo menino e… muito forte.’ Completou, fitando Sakura que concordou com a cabeça.

‘Shaolin…’ Sakura o chamou. ‘Esta é Marie-chan. Ela é sua prima.’

As crianças se aproximaram e fitaram-se de forma demorada. Marie franziu a testa de leve observando a aura em volta do menino, era diferente das que tinha visto antes. Shaolin sorriu, fazendo-a ficar encabulada e abaixar os olhos.

‘Muito prazer.’ Ele falou inclinando de leve o corpo em cumprimento. ‘Você quer brincar no quintal, Nee-chan?’ Ele perguntou, apontando com o polegar para trás.

Ela sorriu, levantando o rosto e acenou que sim com a cabeça. Depois virou-se para os pais que concordaram.

‘Vamos, então.’ Ele falou e segurou a mão dela, puxando-a para ir até o quintal dos fundo.

‘Shaolin, só você e Marie-chan.’ Sakura o advertiu, vendo-o confirmar enquanto saía da sala.

Quando os quatro adultos finalmente ficaram sozinhos, Sakura ofereceu o sofá para se sentarem. Kaho a fitou de forma profunda e sorriu de leve.

‘Acho que temos muito a conversar, não?’

Sakura concordou com a cabeça e fitou Eriol. ‘Por que voltou, Eriol-san?’

O homem respirou fundo. Observou a prima e depois o esposo dela. Aquilo não fazia sentido. Ele sentia a magia fluindo pela casa. Percebera a forte presença mágica que envolvia o filho da prima, mas o casal a sua frente, aparentemente, não tinha magia. Como aquilo era possível?

Kaho observou Sakura e Li, respirou fundo e fechou os olhos brevemente, antes de interromper o silêncio. ‘Alguma coisa está acontecendo e achamos que pode ter relação com todos nós, inclusive com nossos filhos.’

‘Tem alguma coisa a ver com o Círculo?’ Li perguntou de forma direta.

Eriol arregalou os olhos de leve, surpreso pelo rapaz saber da existência daquele grupo.

Syaoran sorriu de leve. ‘Minha mãe também participa do Círculo.’ Ele clarificou.

Eriol assentiu, aceitando aquela explicação e comentou: ‘O Círculo está enfraquecendo.’

‘Entendo.’ Li falou, pensativo. ‘Acho que é o normal, não? Pelo que eu saiba, é muita política envolvida.’

‘Também.’ Eriol respondeu. ‘Mas não é só isso.’

‘Então não veio aqui por isso, não é?’ Sakura perguntou.

‘Não, eu… eu comecei a me lembrar de algumas coisas.’ Respondeu, fazendo o casal se entreolhar.

‘E precisou vir até o Japão por causa de algumas lembranças, por quê, Hiiraguizawa?’ Li perguntou, encarando-o.

‘Porque… eu espero ter a ajuda de vocês.’ Eriol olhou para Kaho que acenou com a cabeça. ‘Estou tendo visões sobre… sobre alguns acontecimentos que acho que fizeram parte da minha vida... Das nossas vidas, mas, por algum motivo, foram apagadas da minha memória.’

‘Se teve um motivo para elas serem apagadas, por que insistir agora em recuperá-las?’ Syaoran perguntou com o rosto sério.

‘Porque, de alguma forma, essas lembranças podem me ajudar a proteger minha filha.’

Sakura encarou o rapaz por alguns instantes e abriu um pequeno sorriso. ‘Você a ama muito, né?’ Ela perguntou.

Ele assentiu com a cabeça e fechou os olhos brevemente, podia se ver naquela mesma sala com uma Sakura mais jovem à sua frente.

‘Sabe, Eriol-san, você tem uma visão muito distorcida do que é o amor. Não sei se isso é reflexo das suas lembranças como o Mago Clow, mas você deveria rever isso.’ Ele ouviu Sakura falando sentada no sofá, um jogo diferente de sofá, a frente dele. Ela tinha a aparência fragilizada e um curativo na altura do peito.

‘Do que está falando, Sakura-san?’ Ele se ouviu perguntar enquanto a fitava.

‘Clow-sama achava que, se eu amasse Yukito-san e ele me amasse, eu estaria protegida. Ele achava que se as Cartas me amassem, elas me obedeceriam. Amor não é isso, Eriol-san.’ Sakura falava devagar sem desviar os olhos dele. ‘O amor não é um sentimento que serve de ferramenta para um fim. Para um objetivo. O amor a gente sente de forma plena. Sem esperar nada do outro. Apenas querendo estar perto da pessoa que a gente ama para ser feliz.’

Sentiu-se incomodado com a colocação da jovem e sentiu um bolo se formar na sua garganta, sabendo que tinha ouvido a verdade. Clow sempre vira o amor como o meio para um fim e ele, por muito tempo, como reencarnação do poderoso mago, tivera a mesma abordagem para com aquele sentimento.

Eriol sabia que, hoje, amava a esposa, mas quando se casou com Kaho não o fez por amor e, sim, porque ela seria uma poderosa aliada e importante companheira para um mago. A verdade era que, até o momento em que segurou a filha em seus braços pela primeira vez, ele sempre tomou suas decisões baseadas em objetivos práticos, nunca em sentimentos verdadeiros.

Eriol abriu os olhos e fitou Sakura que olhava para ele. ‘Acho que você tinha razão, Sakura-san.’ Ele falou devagar. ‘Clow-sama podia não entender nada sobre amor, mas eu finalmente consegui aprender o que é amar.’

Sakura sorriu para ele. ‘Fico muito feliz em saber disso, Eriol-san.’

Continua.

Notas finais
Nota específica: Sei que o personagem apenas apareceu e nem teve uma participação muito grande, mas o xamã nativo americano que se encontrava na reunião do Círculo era o Silver, da tribo patchi. Para quem não conhece a história de Shaman King, essa tribo era responsável por organizar e escolher o novo Rei Xamã a cada 500 anos e o Silver era um dos juízes do torneio.