Notas iniciais
Notas Iniciais: Esclarecemos novamente que esta parte da história abordará assuntos polêmicos voltados para a religião, não num aspecto específico, mas de uma forma geral. Em nenhum momento a intenção é ofender ou ir contra quaisquer religiões. Foi realizada uma vasta pesquisa para a elaboração de algumas cenas e várias referências de textos religiosos serão utilizados, assim como eventos históricos e menção a personalidades históricas ao longo da trama. As citações usadas para o enriquecimento da trama e suas interpretações (apresentadas pelos personagens) são ajustadas para as cenas em questão, e não apresentam nem a opinião das autoras ou uma “verdade absoluta” dentro das próprias religiões trabalhadas. Também foi utilizada “licença literária” para enriquecimento dramático. Lembrando sempre que esta é uma obra ficcional e qualquer semelhança com pessoas ou situações reais é mera coincidência. Também gostaria de deixar bem claro que esta história é de fã para fã sem fins lucrativos, então a liberdade de criar é infinita e não restrita apenas ao que foi apresentado no anime/mangá. Além disso, vale lembrar que vivemos num país laico e sendo assim a liberdade de expressão é direito de todo cidadão brasileiro. Não gosta deste tipo de assunto, favor não insistir, parar de ler a história e procurar o tipo de literatura que está dentro de sua capacidade de aceitação. Comentários ofensivos e intolerantes serão deletados e completamente ignorados. Atenciosamente, Kath

FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques

Capítulo 48

Iniciação a Magia

Shaolin estava voltando da escola junto com Kasumi e outras crianças. Caminhavam devagar, comentando como foi o dia de aula. Kasumi estava calada ouvindo as colegas falarem de forma entusiasmada sobre as aulas de teatro que se iniciaram. Ele sorriu de leve, observando a amiga. Ela era bem tímida, não gostava de falar muito. Preferia apenas observar.

O menino caminhava mais atrás com as mãos nos bolsos. De uns tempos para cá, tinha começado a sentir várias presenças nas quais antes não havia reparado. Além disso, tivera uma conversa com os pais na mesma noite que o primo distante da mãe os havia visitado.

Falaram algo de treinamento em magia. Não era bem o que ele queria. Gostava das Cartas da mãe porque eram divertidas e adorava brincar com elas. Não as via exatamente como seres mágicos, para ele eram como se fossem amigas, parte da família.

Soltou um suspiro pensando que seria legal se pudesse brincar com elas e com Kasumi de forma aberta. Kagami gostava muito da menina, sempre brincava com os dois. Era verdade que às vezes, usava-as escondida da menina. Tinha a impressão de que, no fundo, Kasumi sabia de tudo, mesmo ele nunca tendo contado para ela. Quando usava magia e não conseguia explicar as coisas direito para ela, Kasumi apenas o observava com aquele semblante calmo de sempre e concordava com a desculpa esfarrapada que ele dava. Encolheu os ombros instintivamente e balançou a cabeça de leve, eles aprontavam um monte e era bem mais fácil sair das enrascadas com a ajuda das Cartas.

Levantou novamente o rosto e sorriu de leve voltando a observar Kasumi que estava poucos passos à sua frente. Gostaria realmente de contar para a amiga sobre elas, mas os pais estavam sempre o alertando que não poderia, porque seria perigoso para ela. Não queria que nada acontecesse com a menina que era como uma irmã para ele. Como uma irmã, certo? Soltou outro suspiro um pouco chateado e desviando os olhos para o chão.

Tinha até gostado da prima, Marie. Era uma menina legal. Eles brincaram por horas no quintal dos fundos da casa enquanto os pais conversavam. Ela lhe falou um pouco sobre como era a vida em Londres e que se sentia sozinha, mesmo tendo o Suppy e a Nakuru que lhe faziam companhia. Quando ele perguntou quem eram, ela sorriu sem graça e gaguejou um pouco antes de falar que eram um gatinho e uma outra prima do pai. Franziu a testa de leve, tinha percebido magia em torno da menina. Na verdade, tinha percebido magia em torno dos pais dela também.

No entanto, a presença mágica de Marie lhe era familiar demais. Parecia até loucura, mas alguma coisa nela o lembrava muito as Cartas com as quais sempre brincou desde que se conhecia por gente. E, o mais estranho de tudo… Alguma coisa nela, parecia com a presença da mãe.

Coçou a bochecha direita pensando, estava um pouco confuso com tudo aquilo, apesar de sempre ter vivido em torno da magia.

Kero andava também bem cabisbaixo. Volta e meia soltava que estava ressentido por Clow não se lembrar dele. Até mesmo o pai andava mais tolerante com o bichano e nem reclamava muito quando ele pedia para repetir a sobremesa. Os tios Touya e Yukito também andaram visitando os pais durante a semana à noite. Mandaram-no subir para o quarto para estudar, mas estava na cara que apenas não queriam que ele participasse da conversa. Eram assuntos de adulto, como o pai sempre falava.

Só que ele não era bobo. Sabia que a chegada da família de Marie tinha simplesmente deixado todos estranhos. Até mesmo as Cartas.

Chutou uma pedrinha no chão.

‘Shaolin...’ Ouviu Kasumi chamá-lo, fazendo-o parar de caminhar. Levantou o rosto e viu a menina parada a sua frente com o semblante preocupado. ‘Está tudo bem?’

Ele sorriu de leve. No fundo, gostava quando ela se mostrava preocupada com ele. Era engraçado como só de olhar para o rosto da amiga, parecia que tudo ficaria bem. ‘Espero que esteja bem.’

Ela franziu a testa de leve. ‘Parece triste… Está com fome?’

Shaolin riu, achando graça. Era incrível como Kasumi associava tudo a comida. ‘Você é uma olho grande.’

Ela já foi tirando um saquinho de biscoitos da mochila, pegou um e estendeu para ele. ‘Toma! Fui eu quem fiz com kaasan ontem.’

O menino agradeceu e pegou o biscoito. Não estava com fome, mas não teve como recusar o oferecimento dela. Ela o olhava de forma tão intensa, como se esperasse que ele se sentisse melhor só em ter comido o biscoito.

Shaolin mastigou e sorriu para ela. ‘É muito gostoso. Foi você quem fez mesmo?’ Perguntou em tom jocoso assim que engoliu a guloseima.

Kasumi sorriu e assentiu com a cabeça. ‘Sim. É receita de família. Kaasan me ensinou.’ Falou entusiasmada. ‘Você está triste. Pega outro.’ Estendeu o saquinho de pano com os biscoitos.

Shaolin leu o que estava bordado de forma caprichada na frente do saco. ‘“Biscoitos da Kasumi”. Isso é para ninguém ter dúvidas que são seus?’

Ela estendeu mais uma vez em direção a ele. ‘Exatamente. Para tousan não se atrever a pegar unzinho sem a minha permissão. Pois eu fico uma fera.’

Shaolin parou o movimento da mão que estava próximo ao saco com os preciosos biscoitos.

‘Você é diferente. Você pode sempre pegar.’ Ela esclareceu rapidamente para o amigo e abriu um sorriso meigo.

Ele pegou mais um e levou à boca, olhando para a menina a sua frente.

‘Viu!´Ela soltou satisfeita. ‘Está até mais corado!´

Shaolin desviou os olhos dela, tinha certeza que estava mesmo corado. Voltaram a caminhar devagar um ao lado do outro, um pouco mais atrás do grupo de estudantes.

‘Não se preocupe, Kasumi. Está tudo bem.’ Ele falou com a voz suave para ela. ‘Um dia… Eu espero poder lhe contar.’

‘Contar o quê?’

Ele deu de ombros. ‘Sei lá… Sobre… Certas coisas…’

Kasumi franziu a testa e depois soltou um suspiro. Ela já tinha percebido que o amigo escondia alguma coisa dela e no fundo parecia que sempre esperava pelo momento que ele contasse de forma clara, o que era. Nunca o pressionou, porque sempre achou que isso deveria ser uma decisão dele.

‘Pode sempre contar comigo, Shaolin. Afinal, somos amigos, não?’

Ele virou o rosto para poder observar Kasumi. Sorriu de leve. ‘Eu sei.’

Shaolin parou de repente e olhou para o lado. Notou uma bela senhora que estava do outro lado da rua observando-o. Ela vestia roupas tradicionais chinesas e tinha o rosto sério. Reparou na magia que circulava em torno dela. Era muito parecida com a do pai. Muito mesmo.

Kasumi parou ao lado do amigo e olhou para a senhora. ‘Você a conhece?’

Shaolin respondeu que não com a cabeça.

‘Por que ela tá olhando assim para você?’ A menina estranhou.

A senhora atravessou a rua e parou à frente do menino. Shaolin levantou o rosto para ela e a viu sorrir de leve.

Ela levantou a mão e afagou os cabelos dele.

Ele sabia que deveria dar um passo para trás. Sua mãe sempre o alertou para não falar com estranhos, mas ele não podia ignorar o fato da presença dela ser tão parecida com a do pai.

Você é um menino muito forte.’ Ela falou de forma suave, em mandarim.

Quem é a senhora?’ Ele perguntou. O pai sempre havia lhe dado lições da língua chinesa e treinava com a mãe também em casa, era comum falarem entre si, principalmente nos jantares.

Vejo que Xiao Lang lhe ensinou mandarim também.’ Ela falou, ainda sorrindo de leve.

Ele arregalou os olhos quando ouviu o nome do pai.

‘Shaolin!’ Ouviu a voz da mãe o chamando.

A senhora afastou a mão do menino e virou-se para Sakura que caminhava com o rosto sério, encarando-a.

O menino observou a mãe se aproximando. Ela colocou as mãos no ombro dele, afastando-o da senhora, ainda encarando a chinesa com a testa franzida. Shaolin poucas vezes havia visto a mãe com aquele semblante.

O que quer com o meu filho?’ Sakura foi direta encarando Yelan.

Yelan ficou alguns segundos em silêncio, fitando Sakura. ‘Preciso conversar com você e Xiao Lang.’ Ela respondeu.

Acho que não temos nada para conversar com a senhora.’ Sakura retrucou.

Yelan respirou fundo. ‘Eu lembrei de tudo, Sakura.’ Ela falou e Sakura arregalou os olhos de leve.

Sakura desviou os olhos para o filho e Kasumi que observavam as duas. No fundo, não queria que Shaolin tivesse contato com a família do marido. Podia ser egoísmo da parte dela, mas não gostava e não concordava com as malditas tradições do clã Li.

‘Kasumi-chan…’ Ela chamou a menina. ‘Siga com as outras crianças para casa, por favor.’ Falou para a menina que ainda observava tanto a senhora quanto a tia.

‘Mas…’ Ela ainda tentou falar.

‘Vá para casa.’ Sakura falou, fitando-a séria.

Kasumi ainda olhou para o amigo, preocupada. ‘Até mais, Shaolin.’ Despediu-se, caminhando em direção ao grupo que se afastava, mas ainda olhou umas três vezes para trás.

Sakura observou a filha da prima se afastando até se juntar às outras crianças e voltou a fitar a senhora. ‘Deveria ter nos procurado, então, e não ter vindo atrás de Shaolin.

Yelan sorriu de leve e abaixou o rosto, observando o neto. ‘Ele é um menino muito bonito. E também é muito forte.’

Sakura sem querer apertou os ombros do filho, que tirou os olhos da senhora e fitou a mãe.

Yelan deu um longo suspiro. ‘Também tive algumas visões.’ Ela falou de forma calma. ‘É importante que eu converse com vocês. Importante para Xiao Ling.’

Sakura engoliu em seco. Adoraria mandar Yelan para o inferno, advertindo-a para que nunca mais procurasse sua família, mas não poderia ignorar o fato de ela ser uma poderosa vidente. Fechou os olhos brevemente, tentando manter a calma e, no fundo, conter a raiva.

Vamos até nossa casa para conversarmos.’ Sakura falou devagar.

Yelan concordou com um gesto e depois fitou o menino que ainda observava as duas. Sorriu de leve novamente.

Sou a mãe de seu pai.’ Ela falou, pois percebeu que Sakura não estava nem um pouco disposta a apresentá-la. ‘Mas acho que isso… você já deve ter deduzido, não?

Shaolin balançou a cabeça confirmando de leve e sentiu as mãos da mãe que estavam sobre seus ombros tremerem de leve.

Vamos.’ Sakura falou, segurando a mão do filho e começando a caminhar em direção ao sobrado branco. ‘Syaoran já deve estar a caminho.’ Ela falou sem se virar para Yelan.

Shaolin sentiu a pressão da mão da mãe na sua. Era claro que ela estava tensa. Nunca havia percebido a aura dela tão agitada daquela forma. A curta caminhada foi feita em silêncio. Assim que chegaram em frente ao sobrado, viram Syaoran se aproximar devagar.

Ele tinha sentido a presença da mãe se aproximando pela manhã e achou que fosse apenas impressão sua, mas durante a tarde teve certeza. O problema foi quando sentiu a presença da esposa aumentar de forma estúpida, chegando a assustá-lo. Saiu praticamente correndo do trabalho.

Syaoran fitou a mãe com a testa franzida, perguntando-se o porquê dela estar ali. Olhou rapidamente para Sakura que abria o portão de ferro, atravessando o jardim praticamente arrastando Shaolin com ela. O filho ainda se voltou para trás, fazendo-o sorrir de leve para ele.

Sakura entrou com o filho em casa e Syaoran voltou-se para mãe.

O que a senhora faz aqui em Tomoeda?’ Ele perguntou. ‘E não venha me dizer que foi para conhecer o seu neto porque não sou estúpido.

Yelan desviou os olhos do filho. ‘Sei que o magoei muito.’ Ela falou.

Isso é passado.’ Ele retrucou.

De qual passado exatamente você está falando, Xiao Lang?’ Ela perguntou, fazendo-o estreitar os olhos nela.

O que quer dizer com isso?’

‘Acho…’ Ela reteve-se por alguns segundo, olhando para o sobrado. ‘Que seria melhor conversarmos num lugar mais adequado.’ Ela falou. ‘Não vai convidar sua mãe para conhecer sua casa?’

Ele a fitou por algum tempo, perguntando-se o que ela realmente queria com aquela visita. Conhecia a mãe, sabia que ela não estaria ali simplesmente para conhecer o neto e essas coisas sentimentais. Por mais que, no fundo, gostaria de acreditar nisso. Syaoran sabia que, entre a tradição do Clã e ele, Yelan não teria dúvidas do que escolher. Ele abriu o portão de ferro e fez um gesto para que ela entrasse.

Ela entrou e cruzou o jardim, fitando ainda por um tempo o sobrado envolto em intensa magia. Franziu a testa de leve e voltou-se para o filho. Agora, olhando-o com cuidado, começava finalmente a ver a aura esverdeada em torno dele, porém ainda era opaca. Como se o vidro que antes a impedia de ver, começasse, aos poucos, a se tornar translúcido.

‘Então sempre teve magia, não é?’ Ela comentou, encarando o filho.

‘Isso não importa mais.’ Ele rebateu, passando por ela e subindo os degraus até a porta da frente.

‘Fico feliz por ter voltado a ser como era antes… Antes de ir para aquele lugar.’ Ela falou e ele estacou. Voltou-se para a mãe com o rosto sério.

‘Então finalmente se lembrou?’

Ela confirmou com um gesto. ‘Por isso também que estou aqui.’

‘Também?’ Ele repetiu devagar.

Ficaram em silêncio se fitando, até ouvirem Sakura o chamando. Ele entrou e deixou a porta aberta para a mãe passar.

Yelan entrou na casa e observou a sala simples, mas aconchegante. Realmente o filho nunca demonstrou gostar da ostentação da mansão Li.

Ele fechou a porta e soltou um longo suspiro. Não podia negar que estava feliz em rever a mãe e saber que ela estava bem. Sempre perguntava por ela para o primo, assim como perguntava pelas irmãs e sobrinhos. Mas também conhecia a mãe bem demais para saber que, assim como Gabriel e Eriol, se ela apareceu era sinal de problemas. Parecia que os três tinham combinado de enlouquecê-lo e à esposa.

Sakura pediu que Shaolin ficasse no quarto com Kero, recomendou que Espelho ficasse com o filho e Silêncio simplesmente o impedisse de ouvir qualquer coisa da conversa que teriam no andar de baixo.

Ela sabia que a possibilidade de não conseguir se controlar era enorme. Seria a primeira vez que estaria de frente para Yelan, apenas com Syaoran, desde que descobrira toda a verdade sobre o treinamento ao qual ele fora submetido quando criança. Saber que ela tinha lembrado de tudo da existência anterior, tornava a situação mais complicada.

Sakura encarou a sogra que parou no meio da sala analisando-a. ‘É uma bonita residência. Simples. Diferente de onde você foi criado.’ Ela falou, observando o filho.

Sakura riu de forma irônica e tentou se controlar. Não queria agredir a sogra de forma gratuita, mas não podia negar que estava bem difícil encará-la. Olhou para o marido e o viu com os olhos triste, fitando a mãe, trincou os dentes.

‘É minha casa.’ Ele respondeu em japonês. ‘Da minha família. Não é uma residência do Clã. Eu não faço mais parte dele.’

Yelan concordou com a cabeça. Voltou-se para Sakura e estreitou os olhos nela. Assim como a aura do filho, observou, mesmo que de forma opaca, a poderosa aura mágica da esposa dele. Era realmente a presença do Pilar.

‘Como eu falei…’ Yelan começou a falar. ‘Lembrei-me da outra existência.’ Disse encarando Sakura. ‘Acho que esta mudança tão grande de toda uma realidade tem a ver com você, não é?’

Sakura deu uns passos a frente. ‘Talvez. Não sabemos ao certo. Não acredito que tenha vindo pedir desculpas, então, por que a senhora nos procurou?’

Yelan concordou com a cabeça. ‘Até porque não há razão para me desculpar. Foi decisão de Xiao Lang abandonar o clã. Uma decisão tomada nas duas existências dele. Não teria como você ser aceita, sabe disso, não?’

Sakura ergueu uma sobrancelha. ‘Sinceramente… também nunca foi do meu interesse pertencer ao seu clã.’ Ela deu mais um passo à frente. ‘A única coisa com que me importava no clã era Syaoran.’

Syaoran percebeu a aura da esposa aumentar, parou ao lado dela segurando sua mão, num pedido silencioso para que se mantivesse fria. Não queria presenciar uma discussão entre a esposa e a mãe.

Syaoran voltou-se para Yelan. ‘Então o que, exatamente, veio fazer aqui, mãe?’

‘Tive uma visão.’ Ela finalmente falou. ‘De seu filho.’ Sakura e Syaoran se entreolharam. ‘Ele terá uma grande missão no futuro. Eu vi novamente o Caos.’

Syaoran estreitou os olhos na mãe. ‘O Caos já foi evitado… Antes…’ Ele respirou fundo. ‘Duas... Ou sei lá quantas vezes.’

‘Não.’ Yelan respondeu, olhando-o seriamente. ‘Ele ainda não foi evitado. Ele acontecerá em alguns anos e Xiao Ling terá um papel fundamental para evitá-lo.’

Sakura engoliu em seco. Gabriel tinha aparecido semana passada para avisar sobre a missão do filho. Eriol voltara para Tomoeda, decidindo ficar aqui porque havia encontrado algumas anotações de Clow que ele acreditava indicar alguma coisa. E, agora, para completar o círculo bizarro, aparecia a sogra que, sendo uma vidente poderosa, falava que uma de suas visões também colocava o filho numa situação de perigo.

‘Reparei na aura dele.’ Yelan falou. ‘É muito forte, muito poderosa. Com o treinamento adequado ele será tão forte quanto você, Xiao Lang.’

‘Treinamento?’ Sakura falou em tom de urgência. Olhou para o marido que endireitou o corpo ainda fitando a mãe. Voltou-se para a sogra, aproximando-se mais dela e desvencilhando-se da mão do esposo. ‘A que tipo de treinamento a senhora está se referindo?’

Yelan a encarou com o rosto sério. ‘O treinamento a que todo homem do clã Li deve ser submetido. O mesmo treinamento que Xiao Lang fez.’

Sakura sentiu todas as células do corpo explodirem. Respirou fundo, controlando a vontade de simplesmente invocar Apagar e sumir com a sogra da sua frente. ‘Você está me dizendo… que veio buscar o meu filho para que ele faça o mesmo treinamento que Syaoran? É isso mesmo?’

‘Exatamente. Ele está com oito anos. Minha visão indicava que teríamos, pelo menos, mais 5 anos até o Caos. É o tempo necessário para que ele, com o treinamento adequado, esteja mais forte e preparado.’

Sakura cerrou os punhos e trincou os dentes. Estreitou os olhos na senhora e caminhou até ela, encarando-a a centímetros. ‘Você realmente acredita que eu aceitaria ter meu filho levado para outro país apenas para ser espancado por um monte de velhos babacas e covardes?’

Yelan arregalou os olhos de leve. ‘Você não está vendo as coisas pelo ângulo correto.’ Ela desviou os olhos de Sakura e fitou o filho. ‘Você se tornou mais forte, não foi, Xiao Lang? Você sabe da tradição, sabe da importância. Sabe o quanto isso o fortaleceu para enfrentar tudo pelo que passou.’

Sakura procurou pelos olhos do marido, mas ele evitava encará-la. Droga! Ela voltou-se para Yelan. ‘Eu não permito.’ Falou de forma firme. ‘Se você foi capaz de aceitar que seu próprio filho fosse espancado e hospitalizado, eu não quero nem imaginar o que vão fazer com o meu, sendo ele de um renegado e uma estrangeira, que, como você mesma colocou, nunca seria aceita pelo seu precioso clã.’

Yelan franziu a testa. ‘A importância do treinamento deve estar acima dessas questões.’ Ela respondeu.

‘Acima? Acima de quê? Acima do sofrimento do meu filho?’ Sakura falou de forma baixa e mortal. ‘Afaste-se da minha família. Nunca… Nunca Shaolin passará pelo que Syaoran passou.’

‘Você me julga, não?’ Yelan falou, encarando-a nos olhos. ‘Acha que fui uma péssima mãe, mas não entende que, se hoje Xiao Lang está vivo, foi justamente pelo que ele passou.’

‘Ele morreu… Duas vezes!’ Sakura respondeu elevando a voz. ‘Ele sofreu desde que tinha 11 anos de idade porque você permitiu. Você foi conivente com a violência que ele sofreu. Eu nunca aceitarei o que foi feito com ele…’ Ela fez uma pausa encarando-a. ‘Eu o amo demais para conseguir aceitar!’

‘Eu também, não duvide disto.’ Yelan disse, semicerrando os olhos.

‘Pois eu duvido, sim.’ Ela retrucou, trincando os dentes.

Syaoran sentiu a presença mágica tanto da esposa quanto da mãe aumentarem de forma estúpida. Aproximou-se das duas e segurou Sakura pelos ombros.

‘Hei… Fica fria, Sakura.’ Pediu, pois realmente temia que ela fizesse algo. Sabia que ela estava com aquele assunto entalado há tempo demais na garganta. Por vezes, quase se arrependia de ter contado para ela. Olhou para a mãe com o rosto sério. ‘E a senhora também. As duas mantenham a calma.’

‘Você é o homem da casa, Xiao Lang.’ Yelan falou séria. ‘Você é quem deve decidir o que é melhor para o seu filho.’

Syaoran ergueu uma sobrancelha, olhando para a mãe. Ele puxou Sakura contra o seu peito, sentindo o corpo da esposa tremer de raiva, ainda mais furiosa com o último comentário de Yelan.

Respirou fundo e balançou a cabeça, sentindo-se decepcionado. Não era realmente novidade que a mãe tivesse aquele ponto de vista, mas tanto tempo afastado do clã e de suas tradições fizeram com que se surpreendesse com aquela visão patriarcal.

Era verdade que, apesar de todos os horrores que enfrentou, nunca se arrependera de ter passado pelo treinamento. Havia sido uma decisão dele e todo o conhecimento e técnica que adquirira, e até mesmo tudo o que sofreu, vieram bem a calhar quando precisou, inclusive, passar por tanto sofrimento no mundo das trevas.

No entanto, pensar em enviar Shaolin para aquele inferno era, realmente, inaceitável, como a esposa havia declarado.

‘Nesta casa, nós tomamos as decisões juntos.’ Ele disse, encarando a mãe seriamente e sentiu que Sakura havia relaxado um pouco. ‘Especialmente, no que diz respeito ao nosso filho.’

Yelan arregalou de leve os olhos encarando o filho. Respirou fundo vendo que aquela batalha já estava perdida. O filho sempre tivera a propensão a desrespeitar as regras e agora estava completamente à mercê da japonesa.

‘Então a responsabilidade sobre o que está para acontecer será toda sua. Especialmente no que diz respeito à falha do filho de vocês.’ Ela respondeu com rosto duro.

‘Ele não vai falhar.’ Sakura falou. ‘Ele será treinado. De forma responsável. Por Syaoran e por mim, com a ajuda das Cartas. E vai vencer qualquer obstáculo que aparecer, porque estará lutando por razões muito mais fortes do que simples tradições com as quais não consegue se identificar ou se importar.’

As duas se encararam por alguns segundos até a chinesa dar um passo para o lado e se encaminhar para a saída da casa. Ela se reteve por um instante em frente à porta. ‘Eu lavo minhas mãos.’

‘A senhora já o fez há oito anos...’ Syaoran mencionou e seus olhos cruzaram pela última vez com os da mãe.

Yelan abriu a porta passando por ela.

Sakura ouviu o barulho seco da porta da casa batendo e percebeu a presença de Yelan se afastando. Fechou os olhos e soltou um longo suspiro.

Parecia que não conseguia respirar direito desde que sentira a presença dela próxima a do filho, fazendo-a largar tudo para ir ao encontro deles. Ela se virou e abraçou a cintura do marido com força, apoiando seu rosto no peito dele, chorando de alívio.

Syaoran a abraçou e beijou a cabeça da esposa.

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Marie desceu as escadas da mansão que o pai tinha comprado para morarem em Tomoeda. Ela olhou para a sala onde Nakuru estava mexendo em algumas caixas que não tinham sido abertas ainda, desde a mudança da família.

O pai tinha pedido para a guardiã dar prioridade para alguns livros e papéis velhos que cheiravam a mofo e a faziam espirrar. Por isso nem se ofereceu para ajudá-la, preferindo manter distância. Suppy sobrevoava Nakuru, dando pitacos e irritando a jovem que estava a ponto de dar um cascudo no gatinho voador.

Marie olhou para o antigo relógio de pêndulo que fazia parte da decoração da casa, o primo chegaria daqui a pouco com os pais deles para que iniciassem as aulas de magia. Ela já estava acostumada com as aulas, o pai a treinava desde que se entendia por gente, mas o primo pelo jeito não tinha um treinamento e precisava se desenvolver, assim como ela também.

Tinha gostado de Shaolin. Era um menino muito legal e alegre. Estava matriculada na mesma escola que ele, mas em uma classe mais avançada pela diferença de idade, mesmo assim ele sempre a procurava quando a via sozinha na hora do almoço.

Conheceu a amiga do primo, Kasumi. Mostrou-se ser uma garota legal também. Era, assim como ela própria, introspectiva, mas havia algo em Kasumi que no começo lhe dava um arrepio pelas costas. Não havia magia em torno dela. Os tios haviam explicado que Kasumi não sabia sobre magia e que deveria permanecer assim para que não se assustasse e também para protegê-la, mas estava na cara que o primo se sentia incomodado de manter segredo da garota.

Eles eram muito próximos, tinham uma cumplicidadae muito bonita e, no fundo, sentiu vontade de também ter algo assim. Sempre se sentiu sozinha, então estava sendo muito bom conviver com os dois, uma vez que entrar no meio do período escolar também não ajudava muito a fazer amigos.

Brincou um pouco com as mãos, caminhando devagar pela sala enquanto os esperava. Estava um pouco ansiosa. Não sabia direito o porquê. A prima do pai, a quem no final ela acabou chamando de tia, era sua professora de Educação Física e a tratava com muito carinho. Sentia-se bem quando tinha aulas com ela e, muitas vezes, também a procurava quando a via no pátio.

Era estranho conhecer uma pessoa em tão pouco tempo e gostar tanto dela assim. Era como se já a conhecesse antes. Na verdade, desde que tinha chegado à cidade japonesa, às vezes, tinha a impressão de que já estivera lá antes, talvez quando era ainda muito pequena e por isso não se lembrava bem, pensou dando de ombros.

Além disso, também tinha o tio Syaoran, como acabou chamando-o. Ele também não lhe era estranho, mas o pai lhe falou que ele era de outro país. O pai, antes, pouco falava deles, mas de uns meses para cá volta e meia conversava com a mãe sobre eles até que finalmente decidiram vir para Tomoeda.

Tinha percebido magia em torno dos dois, assim como em torno de Shaolin. Quando comentou isso com os pais, eles estranharam, pois falaram que só haviam visto em Shaolin. Porém, a mãe tinha dito que provavelmente tudo logo seria explicado.

Ela realmente gostaria de entender, principalmente a magia da tia Sakura. Levou uma mão à altura do peito sem querer. A aura em torno dela era linda. Multicolorida. Parecia um arco-íris. Ainda bem que Shaolin tinha confirmado isso para ela, pois já tinha até pensado que estivesse vendo coisas, uma vez que os pais, sendo mais desenvolvidos, não haviam visto o que ela tinha percebido.

Sorriu de leve, pensando que seria legal ter um amigo quase da sua idade para falar abertamente sobre magia. Às vezes, era muito chato ter que ficar mentindo e escondendo isso de todos. Ela tinha dúvidas, tinha incertezas e questionamentos que não se sentia a vontade de falar com os pais. Talvez, com alguém quase da sua idade pudesse conversar de forma mais aberta. Ainda mais por perceber o quanto o menino era amável.

A mãe apareceu na sala sorrindo de leve. ‘Eles já devem estar chegando.’ Kaho falou, olhando para a filha que confirmou com a cabeça. ‘Está feliz por ter aulas com um amigo?’

‘Acho… acho que vai ser mais divertido.’ Ela respondeu sinceramente.

‘Com certeza, mas lembre-se que ele começará agora a tentar controlar a magia, você está mais adiantada. Precisará dar apoio para ele no início.’ A mãe recomendou.

‘Sim.’ Marie concordou, sorrindo. ‘Vou fazer o meu melhor.’

Kaho passou a mão na cabeça da filha, sorrindo. ‘Tenho certeza disto.’

Marie arregalou os olhos de leve. ‘Eles estão chegando.’ Falou, de repente, e foi até a janela onde aguardou alguns minutos, antes de ver o carro se aproximando da mansão. Voltou-se para a mãe que a olhava com o rosto sério. ‘Já estão na mansão agora.’

Kaho caminhou até a filha, parando ao lado dela e observando, através da janela, o carro que subia a pequena colina em direção a residência. ‘Sentiu as presenças deles bem antes, não?’

Marie confirmou. ‘Sim. As presenças são muito fortes, kaasan. Principalmente de Sakura–ba-san.’

Kaho não falou nada, desviou os olhos do rosto infantil e observou o carro estacionando. ‘Vou chamar seu pai.’ Ela falou e afastou-se, pedindo para Nakuru receber as visitas.

Marie abriu um sorriso e correu até a porta de entrada, parando ao lado de Nakuru. ‘Não vai abrir?’ Perguntou com a testa franzida.

‘Eles não chegaram ainda. Espere que toquem a campainha.’ Nakuru informou.

‘Ah, que besteira. Pode abrir a porta.’ Replicou impaciente e, por fim, ela mesma virou a chave, abrindo a porta principal da casa.

Observou os tios saindo do carro e logo depois Shaolin. Alargou mais ainda o sorriso.

Sakura virou-se para ela e sorriu. Marie correu até a tia e parou a sua frente. ‘Sejam bem-vindos.’ Falou de maneira educada.

Nakuru ficou na porta, observando a filha de seu mestre conversar com os parentes dele, estranhou aquela felicidade toda da menina. Marie não era muito de ser expansiva daquela forma, muitas vezes, era ela quem a forçava a ir brincar e se divertir. Franziu a testa de leve quando viu que estava sendo observada por Syaoran. Também tinha a impressão de que os conhecia.

Sakura se abaixou e passou a mão no rosto de Marie. ‘Como vai, pequena?’

‘Estava esperando vocês.’ Ela respondeu sorrindo. ‘Okaasan já foi chamar Otousan. Mas vocês podem entrar.’ Falou, segurando Sakura pela mão e a puxando até a entrada.

Syaoran tirou os olhos de Nakuru e viu a esposa de mãos dadas com a filha de Eriol. Suspirou. Desde que conheceram a menina, a nuvem negra que volta e meia encobria os olhos da esposa desde que se reencontraram, havia desaparecido. Colocou a mão no ombro do filho e sorriu para ele.

‘Será sua primeira aula séria sobre magia.’ Ele falou.

O menino virou-se para o pai e franziu a testa de leve. ‘Quem é a moça que está na porta, tousan?’

Syaoran levantou os olhos, fitando Nakuru rapidamente e depois voltou a fitá-lo. ‘Por que a pergunta?’

‘A presença dela é muito parecida com a do Yukito-ji-san.’ Ele declarou com firmeza.

Syaoran sorriu de leve. ‘Realmente, é sim.’ Confirmou.

‘Por quê?’ O menino insistiu.

‘Porque ela é da mesma natureza do seu tio.’ Ele explicou.

‘Da outra parte de Ossan, não é?’

Syaoran riu. ‘Exatamente.’

‘Então ela também fica daquela forma, com asas? E fica mal-humorada?’

Syaoran meneou a cabeça. ‘Mais ou menos.’

Shaolin respirou fundo. ‘Entendo.’

‘Não precisa ficar com receio, Shaolin. Yue e Kerberus sempre estarão ao lado da sua mãe e ao seu.’

‘Mas Yue-san… às vezes me dá medo. Ele é muito diferente de Yukito-ji-san.’

‘Tem que ser… para aguentar o mau humor do seu tio Touya. Vamos lá. Sua mãe já está nos chamando.’ Syaoran falou caminhando e empurrando de leve o filho para acompanhá-lo.

Entraram na casa e Shaolin não teve como não se reter um tempo a frente de Nakuru, observando-a.

Ela abriu um sorriso enorme para ele, abaixou-se e pegou as bochechas do menino, puxando-as. ‘Ah!!!! Como é bonitinho!!!!’

Marie soltou a mão da tia e foi até Nakuru, cutucando-a. ‘Daqui a pouco, vai arrancar as bochechas dele, Nakuru-chan.’ Falou séria.

A espevitada moça finalmente soltou o rosto do menino que teve que mexer a boca para voltar a sentir as bochechas. Ela ainda colocou as mãos no rosto e balançou a cabeça de um lado para o outro. ‘É tão fofinho esse seu amiguinho, Marie-chan!’

‘Shaolin-kun… o nome dele é Shaolin-kun, Nakuru-chan.’ Marie falou, olhando para a guardiã que ainda sorria encantada com o menino.

Sakura sem querer passou a mão na bochecha lembrando como a guardiã costumava fazer isso nela. Realmente Nakuru não tinha mudado em nada, inclusive não tinha envelhecido como Yukito. Continuava com a mesma aparência jovial de quando a conheceu quase 20 anos atrás.

Shaolin se aproximou da mãe ainda com as mãos nas bochechas agredidas pela jovem e olhou para o pai de esguelha. ‘Ela é pior que Yukito-ji-san.’ Não teve como não comentar, fazendo Syaoran rir.

Eriol logo apareceu com Kaho e cumprimentou o casal de forma reservada. Estava com um sorriso no rosto. Ele tinha conversado, abertamente, com a prima e o esposo sobre magia quando foram visitá-los.

Sakura e Syaoran não lhe deram muitas respostas diretas, acharam que seria melhor ele lembrar das coisas aos poucos. Falavam tudo de forma enigmática, às vezes, deixando-o um pouco frustrado. Sentiu que o esposo da prima, inclusive, divertia-se muito fazendo isso com ele.

‘Então, Shaolin-san… Vamos começar?’ Eriol falou e fitou o menino. ‘Está preparado para a sua primeira aula de magia?’

Marie parou ao lado do menino, sorrindo para ele. ‘Você vai ver que é bem divertido.’

Shaolin olhou para os pais. ‘Vocês contaram sobre “elas”?’ Ele perguntou e Sakura entendeu que o filho falava das Cartas.

Sakura sorriu para ele. ‘Logo…’ Respondeu e virou-se para o primo que observava os dois. ‘Ele está pronto, sim.’

Eriol deu um longo suspiro e começou a caminhar. ‘Vamos para o pátio dos fundos. É mais amplo.’ Explicou, sendo seguido pelo grupo.

Marie caminhava ao lado de Shaolin. Sorriu para ele novamente, passando confiança. Sentia, pela presença dele, que o menino estava ansioso. Virou para trás e viu pelo ombro direito o casal de tios caminhando. Estava feliz por eles estarem aqui e que, por causa daquelas aulas de magia, iriam se encontrar mais.

‘Seu pai…’ Shaolin falou, chamando a atenção de Marie. ‘Sabe tanto assim sobre magia?’

Marie olhou para o amigo e deu de ombros. ‘Dizem que tousan é a reencarnação de um mago famoso. Mas ele estuda muito. Tem muitos, muitos, muitos livros.’ Falou, enfatizando.

‘Hum.’ Shaolin murmurou, parecendo interessado. ‘Então tem que estudar? Em livros? Que tipo de livros?’

‘Eu não sei e não gosto.’ Ela respondeu. ‘Acho meio chato.’

‘Acho que depende um pouco do livro. Tem alguns que eu gosto…’ Shaolin comentou, encolhendo os ombros.

‘Mas não gostaria dos que otousan lê… São apenas anotações velhas e cheirando a mofo.’ Marie retrucou seriamente, fazendo um careta.

‘Eu nem sempre entendo tudo e tenho que pedir pro tousan me explicar algumas coisas, mas gosto de ler os apontamentos do Jii-chan. Ele era Arqueólogo e isso é bem legal!’ Explicou animado, vendo Marie balançar negativamente a cabeça.

‘Eu acho que otousan perde muito tempo lendo o que foi escrito pelo tal Clow-sama… Eu não gosto disso!’ A menina estava obviamente incomodada.

Shaolin apenas balançou a cabeça e abriu um sorriso indicando que tinha entendido. ‘Mas, treinar magia vai ser divertido, não é?’

Marie sorriu para ele, concordando com a cabeça.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Chegaram à grande área gramada atrás da residência. Sakura observou o local e sorriu de leve, era realmente um lugar muito bonito e muito apropriado para aqueles treinos.

‘Pelo menos aqui não tem a chata da senhora Takahashi.’ Syaoran comentou com um suspiro. ‘Detesto aquela velha.’

‘Você anda usando muita magia nela.’ Sakura o advertiu.

‘A velha fica o tempo todo olhando pela cerca! Tenho impressão de que se aumentássemos a cerca, ela compraria uma escada só para continuar bisbilhotando.’

Sakura riu e teve que concordar com o marido. A velha senhora realmente andava bem enxerida. Olhou para a esposa do primo e lembrou-se de que a casa anteriormente havia sido da mãe dela.

‘Kaho-san…’ Sakura a chamou, fazendo a mulher voltar-se para ela sorrindo. ‘Takahashi-san já era vizinha de vocês quando moravam no sobrado?’

Kaho riu de forma aberta. ‘Está com problemas com ela?’

‘Um pouco.’ Respondeu.

‘Só um pouco?’ Kaho replicou. ‘Então, com certeza, logo terá muito mais.’

‘Resposta animadora.’ Syaoran sussurrou.

‘Takahashi-san possui magia, mas morre de medo, por isso não a desenvolve.’ Kaho explicava. ‘Porém a curiosidade dela é enorme.’

Sakura respirou fundo. ‘Ela é bem… curiosa.’

‘Muito.’ Kaho concordou. ‘Okaasan costumava usar alguns truques para fazê-la relaxar.’

‘Que truques?’ Syaoran perguntou, interessado.

‘Okaasan trabalhava muito com infusões e…’

‘Poções.’ Sakura completou, sorrindo de lado. ‘Sim, eu sei.’ Olhou de esguelha para o marido que pigarreou.

Kaho sorriu, concordando. ‘Okaasan tinha dito que vendeu a casa para uma moça, mas falou que ela não possuía magia. No entanto, já a tinha visto passar várias vezes em frente ao sobrado para ficar admirando-o. Acho que ela se referia a você, não?’

Sakura confirmou com a cabeça. ‘Sempre gostei daquela casa.’ Respondeu e segurou a mão de Syaoran que estava ao seu lado. ‘Sempre gostamos dela.’

‘Tenho certeza que ela está muito feliz em saber que hoje mora uma linda família lá. Ela faleceu alguns anos atrás.’

‘Sinto muito.’ Sakura falou. ‘Era uma pessoa muito boa.’

Kaho confirmou com a cabeça e desviou os olhos, observando o marido chamar as crianças para se aproximarem. Estava falando com elas sobre autocontrole e autoconfiança para se manipular magia.

Sakura e Syaoran se entreolharam. Teriam cinco anos para treinar o filho e esperavam fazer o melhor por ele.

Syaoran tirou a esfera negra do bolso e a jogou duas vezes para o alto. Franziu a testa, a espada e o Rashinban tinham sido os dois instrumentos mágicos que havia herdado do pai. Pensou que estava na hora de passar para o filho o que tinha aprendido, só que da maneira correta e não a que foi imposta para ele.

Estreitou os olhos no filho e viu a aura azul pálido em volta dele. Sorriu de leve, e desviou os olhos, observando sua mão com a aura esverdeada. A magia do filho era diferente, tanto da dele, quanto da de Sakura. Estava fraca ainda, envolvia-o de forma limitada. Sakura não havia recebido treinamento. Havia estudado muito no tempo de faculdade quando os dois ficavam horas na biblioteca na existência anterior, mas havia desenvolvido seus poderes de forma quase intuitiva.

Olhou de soslaio para a esposa que também parecia analisar com mais cautela a aura do filho, os dois já haviam conversado sobre a aura de Shaolin e ambos não gostaram do que haviam concluído inicialmente.

Syaoran soltou um suspiro, chamando a atenção da esposa. ‘Independente do que achamos, gostaria de passar o que aprendi.’ Falou.

Sakura desviou os olhos do filho e fitou o marido, concordou com a cabeça. ‘Shaolin terá dificuldade de entender que as Cartas podem ser usadas para combate, será melhor ele ter conhecimento da magia baseada nos elementos da natureza para se defender.’

Syaoran concordou com a cabeça e sorriu de leve. Olhou para o filho que prestava atenção ao que Eriol lhe falava.

O menino balançava o corpo de leve e respondia algumas perguntas que o inglês lhe fazia. Pelo semblante sorridente da reencarnação de Clow, ele estava acertando as respostas.

‘Não importa a origem da aura de Shaolin. Ele é um Li.’ Falou. ‘Mesmo que estejamos fora do clã, a magia ainda é baseada nos princípios do baguá.’

‘Não importa se ele é um Li.’ Sakura retrucou. ‘Ele é seu filho.’ Syaoran e Sakura se contemplaram por alguns segundos em silêncio. ‘Não sou contra sua família, Syaoran. Sou contra o sofrimento que ela lhe causou. Eu realmente sinto muito por você ter rompido com eles para…’

‘Já falei para não sentir.’ Ele a interrompeu e ela sorriu de leve, concordando com a cabeça. ‘Vamos fazer o melhor e, como você mesma falou, vamos treiná-lo de maneira responsável.’

‘Exatamente.’

Syaoran respirou fundo e caminhou em direção ao filho. Colocou uma mão no ombro dele, chamando a atenção do menino que se virou para o pai.

Eriol observou Syaoran. ‘Para quem não teve nenhum treinamento formal, seu filho tem bastante conhecimento sobre magia.’

Shaolin deu de ombros. ‘Ossan foi legal comigo.’ Falou de maneira tímida.

‘Acho que eu preciso explicar umas coisas para você sobre magia.’ Syaoran falou.

Marie sorriu. ‘A aura dele é muito bonita. É azul como o céu!’ Falou apontando para cima e fazendo Syaoran franzir a testa de leve. A menina olhou para ele. ‘A sua é verde. Verde esmeralda. Como os olhos de Sakura-ba-san!’ Ela exclamou entusiasmada, chamando a atenção de Eriol. ‘São muito bonitas.’ Completou, balançando de leve o corpo e sem fechar o sorriso.

Syaoran concordou com a menina e sorriu de leve. Olhou para o amigo que fitava a filha de forma surpresa, por alguns segundos, indagou se Eriol realmente ainda não tinha suspeita sobre Marie. Bem, isso era uma questão que não caberia a ele esclarecer para o inglês.

Syaoran se abaixou, tocando um joelho no chão para ficar mais próximo do filho. Ele franziu a testa por um momento lembrando de suas aulas. Tentaria passar de maneira mais simples, ou pelo menos da maneira que ele considerava mais prática. No fundo, estava feliz em passar o conhecimento que tinha para o garoto. Shaolin era sua continuação.

‘A magia, como Hiiragizawa deve ter explicado, está em todas as pessoas, assim como em todos os elementos da natureza. Algumas pessoas possuem este dom mais apurado que outras e, com o devido treinamento, conseguem evoluí-las.’

‘Sim… Ossan falou sobre magia branca e negra.’ O menino respondeu.

Syaoran meneou negativamente a cabeça. ‘O conceito de magia branca e negra é apenas separar a magia usada para objetivos bons e corretos ou para objetivos ruins e egoístas.’ Ele continuou. ‘Uma fonte de magia pode ser primitivamente considerada… como dizer? Negativa e, devido à evolução ou à associação de uma outra fonte, ser transmutada.’ Syaoran falou devagar, mas foi impossível não olhar rapidamente para Marie e depois voltar a fitar o filho.

‘Então algo que é ruim pode se tornar bom?’ Shaolin perguntou.

‘Assim como algo que é bom pode se tornar ruim. E este é o princípio do Yin-Yang. Onde o positivo e negativo fazem parte de tudo, de todas as criaturas e também de toda magia. De que forma ela será utilizada, cabe ao detentor desta. Entendeu?’ Ele perguntou, observando o filho.

‘Então quer dizer que dentro de todo mundo tem algo bom e algo ruim?’

‘Exatamente.’ Syaoran respondeu, sorrindo de leve. ‘Todos nós temos nossos demônios. Como nós os controlamos, depende de nossos princípios e caráter. O importante é você saber que, uma vez que desenvolva sua magia e se torne mais forte, não pode deixar que isso suba à sua cabeça. Não pode achar que é melhor que ninguém por conseguir fazer algo que outras pessoas não podem. Pelo contrário, justamente por possuir essas habilidades, você se torna responsável por proteger aqueles que não as têm.’

‘Eu entendi, tousan.’ Ele falou e desviou os olhos do pai. ‘Por isso não posso falar sobre magia com Kasumi...’

‘Pode ser perigoso para ela, além de deixá-la confusa, já que não possui.’

O garoto concordou. ‘Mas eu tenho que sempre protegê-la, não?’

Syaoran sorriu de leve. Tinha impressão que mesmo que o garoto não tivesse magia, faria isso. Por fim, concordou com um gesto e reparou no semblante sério do garoto. Continuou.

‘Bom.’ Syaoran sorriu para o filho. ‘O baguá representa formalmente os princípios das "Oito Mutações". Os trigramas indicam oito caminhos que se abrem a partir de cada situação. Essas forças antagônicas são opostas e complementares, existindo dentro de todos nós. Cada pessoa tem um arranjo particular destas forças.’

‘Como um complemento do Yin-Yang.’ Shaolin falou e Syaoran confirmou com a cabeça, gostando de perceber que o filho conseguiu fazer a associação.

‘Exatamente, porém o baguá explica de forma mais detalhada estas forças. Os trigramas são a sequência de 3 linhas que podem ser contínuas, representando diretamente o Yang ou interrompidas, o Yin. O fundamento é que, no início, havia o Céu, que são as três linhas contínuas e a Terra, que são as três linhas interrompidas.’ Syaoran falou apontando para o céu e depois para o gramado sob os pés deles. ‘O Céu e a Terra se uniram e deram origem a tudo que existe no mundo. O trigrama Qian representa o Céu, e o trigrama Kun, a Terra. Os seis trigramas restantes são seus filhos e filhas.’

‘Filhos?’ Marie perguntou curiosa, estava prestando atenção na explicação do tio com interesse.

‘Como se o céu fosse o pai e a terra a mãe.’ Syaoran clarificou. ‘E os outros seis trigramas são os filhos e filhas deles.’

‘Os celtas também associam o céu ao pai e a terra à grande mãe.’ Eriol comentou e Syaoran concordou.

‘Os princípios são praticamente os mesmos, cada orientação ou corrente de estudo explica de forma um pouco diferente, mas se analisarmos com cuidado todas são interligadas; ou melhor, é possível fazer associações diretas entre elas.’ O chinês falou, olhando para o filho novamente. ‘A linha que eu estou lhe explicando é aquela em que eu fui instruído.’

Shaolin concordou com a cabeça, prestando atenção ao que o pai falava.

‘Os outros trigramas são Dui, representando o Lago; Li representa o Fogo; Zhen, o Trovão; Xun, o Vento; Kan, a Água; e Gen, a Montanha.’ Ele continuou a explicar. ‘É fácil fazer a associação oposta entre o céu e a terra, entre o fogo e a água…’ Fez uma pausa, tentando achar a maneira mais clara para explicar as outras duas. ‘A montanha e o lago… a montanha é algo disforme dependendo da maneira que ela foi criada pela natureza, já o lago, por ser formado por água represada, assume uma aparência completamente plana, independente do formato das suas margens ou do fundo. Entendeu?’

O menino confirmou com a cabeça, informando ao pai que acompanhava a explicação. Ele franziu a testa de leve. ‘Tousan… E se fosse diferente?’

‘Diferente?’ Syaoran perguntou erguendo uma sobrancelha. Eriol também olhava o menino com interesse.

‘Sim… E se não fosse a terra o significado de Yang?’

‘Como assim?’

Marie arregalou os olhos de leve, entendendo o que o primo estava falando e abriu um sorriso maroto. ‘Sim! E se, assim como o diagrama de Yin-Yang, Yang fosse algo que inicialmente parecesse ruim? Mas que pode ser bom, né tousan?’ Perguntou, virando-se para o pai.

Syaoran franziu a testa de leve, observando as crianças. Observou a coloração da aura de Marie e depois a coloração da aura de Shaolin. Um do lado do outro. Sorriu de leve e concordou com a cabeça. As novas gerações sempre superavam as antigas. Era assim no ciclo da evolução. Observou Eriol que, pelo visto, estava constatando a mesma coisa que ele e se encontrava completamente sem resposta para a colocação das crianças.

‘E o que vocês dois acham que seria então a montanha e o lago?’ Syaoran perguntou em tom de desafio e aguardando a resposta.

Shaolin e Marie olharam um para o outro, franzindo a testa e pensando na resposta. Eriol interromperia o pensamentos deles, mas Syaoran levantou uma mão, pedindo de forma silenciosa para que o inglês deixasse as crianças encontrarem a resposta. Sabia que eles conseguiriam.

Shaolin arregalou os olhos de leve e deu um soquinho na palma da mão. ‘Já sei! A montanha pode se formar como vulcões que vem lá de baixo da terra e o lago pode se formar com a chuva que vem lá do céu.’

Marie ergueu uma sobrancelha. ‘Mas a montanha também pode ser formada devido ao intemperismo e o lago pode ser formado por lençóis subterrâneos.’

Syaoran sorriu gostando da respostas. ‘Então vocês concluem que a formação tanto da montanha quanto do lago podem vir de baixo ou de cima, não?’

‘Sim.’ Elas responderam ao mesmo tempo.

‘Como se o céu fosse o Pai e a Terra a mãe, não?’

‘Pode ser.’ Marie falou, balançando de leve o corpo e sorrindo. Sabia que ter aulas de magia com um amigo seria mais interessante e divertido. Ainda mais com o tio participando também.

‘Bem… Para finalizar, temos o trovão e o vento. Basta considerar que o trovão e o relâmpago, são fenômenos naturais que sempre partem do céu em sentido à terra, enquanto o vento, de uma maneira geral, não considerando eventos particulares, correria na direção sempre paralela a terra e ao céu. Vocês concordam?’ Syaoran perguntou, curioso para saber o que as crianças comentariam.

Shaolin e Marie se entreolharam novamente.

‘Você tem medo de trovão?’ O menino perguntou para a prima. ‘Kasumi não gosta de dias chuvosos…’

Marie encolheu os ombros de leve. ‘Eu não gosto porque me lembra Londres… Lá chove o tempo todo.’

Eriol sorriu de forma triste para a filha, ela já tinha se queixado disso antes.

Shaolin olhou para o pai que aguardava de forma paciente a resposta. ‘Hum… Na aula legal de Ciências a gente aprende que o relâmpago, na verdade os raios são produzidos por uma descarga elétrica entre as nuvens que estão no céu e a terra ou entre as nuvens.’ Ele falou dando de ombros. ‘Tem que ter um diferencial elétrico. Positivo e negativo.’

‘Exatamente.’ Marie concordou com o primo. ‘Então o trovão é como se fosse um resultado entre o positivo e o negativo! Ah! Por isso que pode ser um “filho” do Yin-Yang!’

Eriol cruzou os braços. ‘Estão confundindo ciência com magia.’

Syaoran sorriu. ‘A magia não é uma explicação da ciência, Hiiragizawa. Podem andar juntas.’ Rebateu e achou graça ao ver o olhar contrariado de Eriol. Voltou a fitar as crianças que ainda debatiam sobre os dois últimos trigramas.

Shaolin concordava com a prima sobre a questão do trovão ser um resultado de positivo e negativo. E agora discutiam sobre o vento.

‘Quando há choque de duas correntes de ar…’ Ela falou mexendo as mãos e unindo os dedinhos indicadores. ‘Eles podem entrar em rotação e formar um tornado!’ Concluiu girando a mão direita com o indicador levantado. ‘E um tornado é como se o céu e a terra estivessem ligados também.’

‘Isso! Então assim como o raio é o choque entre o negativo e o positivo, os tornados, que podem ser a representação dos ventos e são o choque de duas correntes de ar opostas que podem ligar o céu e a terra.’ Shaolin concluiu sorrindo. ‘Eles podem não ser opostos, mas complementares!’

Syaoran assentiu com a cabeça. ‘Pode ser uma ótima explicação.’ Falou, fazendo tanto Shaolin quanto Marie abrirem sorrisos enormes nos rostos. Estavam começando a achar, tanto as aulas de ciência quanto de magia, mais interessantes.

Eriol encarou Syaoran que apenas deu de ombros. As crianças tinham achado uma boa relação com o que tinham aprendido nas aulas da escola e isso era interessante. O inglês, apesar de contrariado em fugir das explicações clássicas de magia, não podia negar que fora uma boa associação com os trigramas do baguá.

Syaoran continuou, sabendo que tinha a atenção total deles. ‘Isso é uma interpretação… depende de como cada um interpreta cada trigrama. Vocês dois acharam ótimas explicações, diferentes das que eu aprendi, por exemplo. É importante também entender que a disposição dos trigramas na mandala é algo pessoal. Então, dependendo do equilíbrio de cada pessoa, a distribuição deles na sua mandala são diferentes. Pois, além dos trigramas representarem a natureza, eles também representam partes de cada ser que no final, fazem parte de toda a natureza que o cerca.’ Completou, apontando para as árvores que os rodeavam.

‘Esta distribuição seria seguindo uma regra perfeita?’ Marie perguntou para o tio.

‘É… mais ou menos isso… Considerando a interpretação que eu lhe expliquei agora, esta distribuição seria a representação perfeita do Yin-Yang.’

‘E por que precisamos saber disso?’ Shaolin perguntou, franzindo a testa.

Syaoran sorriu de leve. ‘Porque, provavelmente, quando você começar a controlar sua magia, a mandala que aparecerá aos seus pés será a minha. Quando você estiver desenvolvido o suficiente e controlando sua magia, a mandala mudará para melhor representar sua própria magia e não mais precisará do apoio da minha.’

‘E a sua é assim? Com esta distribuição?’

Syaoran sorriu. ‘Não. Por isso, o símbolo do Yin-Yang aparece no centro dela.’

Shaolin estreitou os olhos no pai. ‘Para que haja mais equilíbrio?’

‘Exatamente.’

Marie olhou para o pai e sorriu. ‘A minha mandala é igual a do meu otousan! Só que é vermelha!’

Eriol sorriu de forma aberta, gostando do tom de orgulho que a filha usou ao falar sobre a mandala.

O menino ficou alguns segundos em silêncio, tentando compreender tudo que o pai lhe explicou.

Syaoran se levantou e apontou para Sakura. ‘A mandala mágica da sua mãe é diferente. Ela é formada representando a estrela dela e o sol e a lua que são seus guardiões.’

‘Kaasan é mais equilibrada, então?’ Ele perguntou, fazendo Syaoran gargalhar.

‘Com certeza.’ Ele respondeu, observando a esposa que estava mais afastada. Depois voltou-se para o filho. ‘Inicialmente você deverá aprender a manipular magias consideradas da natureza. Fogo, água, trovão, vento… enfim, são magias que estão ao nosso redor e que conseguimos canalizar com mais facilidade através de um instrumento mágico associado à magia individual para manipulá-las conforme o nosso comando.’

‘Certo.’ Shaolin falou olhando ao redor. ‘Então eu pego a magia das…’ Ele fez uma pausa olhando em volta. ‘...árvores e posso usar?’

‘Inicialmente, sim.’ Syaoran respondeu. ‘Depois você será capaz de criar magia sem, necessariamente, uma fonte de apoio. E, sendo assim, capaz de, com sua própria magia, criar algo.’

Syaoran olhou para Eriol e deu um longo suspiro. ‘Acho que os ciclos de geração e inibição podem ficar para uma próxima aula.’

‘É muita informação.’ O inglês comentou e Syaoran concordou.

Shaolin olhou para o pai. ‘Mas eu preciso de um instrumento mágico, então? Como uma varinha mágica, não?’

‘Provavelmente.’ Syaoran respondeu.

‘E a gente vai comprar onde esta varinha mágica?’

‘Você poderá usar um instrumento mágico, não necessariamente uma varinha mágica.’ O pai lhe respondeu.

‘Mas a varinha mágica é bem legal.’ O menino retrucou. Olhou para Marie em busca de apoio. ‘Nee-san, você usa uma varinha mágica?’

Marie deu de ombros. ‘Eu não uso nada.’ Ela respondeu com simplicidade.

‘E qual é a graça de ter magia e não usar uma varinha mágica?’

‘Acho que é mais fácil.’ A menina retrucou. ‘A varinha pode quebrar.’

‘Isso é verdade.’ Ele concordou. ‘Deve ser bem chato se acontecer.’

Syaoran observou Marie por alguns segundos e balançou a cabeça de leve, voltando a fitar o filho. ‘Sua mãe… vai ajudar a gente nisso.’ Ele falou e olhou para a esposa que entendeu que era hora dela agir.

Sakura parou ao lado do marido e fitou o filho. ‘Lembra-se das histórias que eu e seu pai lhe contamos sobre como nos conhecemos quando crianças?’ Ela perguntou, vendo o filho confirmar. Notou que Eriol a observava com estranhamento. ‘Então… naquela época eu usava um instrumento mágico, assim como o seu pai.’ Ela olhou para o esposo rapidamente. ‘Faz bastante tempo que eu não faço isso, mas talvez possa ajudá-lo a entender melhor.’

Ela deu alguns passos, afastando-se deles e pegou a chave mágica, olhou para ela sorrindo de leve. Fechou os olhos e sua mandala mágica surgiu, brilhante, sob seus pés.

‘Chave que guarda o poder da minha estrela…’ Ela começou a falar, fazendo a chave mágica flutuar a sua frente e a energia circular em torno de seu corpo. ‘Mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e ofereça-os à valente Sakura que aceitou essa missão. Liberte-se!’ A chave se transformou no báculo mágico, ao qual ela pegou e rodou como fazia quando era mais nova. Abriu um sorriso enorme, sentindo-se nostálgica. Levantou o rosto e viu Syaoran sorrindo de leve para ela.

Franziu a testa, sentindo a energia de Eriol e de Marie aumentarem rapidamente. Olhou para o amigo e viu a mandala de Clow se formar aos pés dele enquanto ele levava as mãos à cabeça e tinha os olhos fechados.

Syaoran também percebeu e voltou-se para o inglês que parecia completamente desnorteado envolto em sua magia. Porém, o que mais o preocupou foi a energia que envolvia Marie, que mantinha os olhos fixos em Sakura.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Marie se viu flutuando em um lugar com pouca luminosidade. A sua frente, uma menina de cabelos curtos e olhos verdes estava com o báculo levantado na direção dela.

‘Finalmente juntei todas!’ Ela se ouviu dizer, mas a própria voz estava diferente. Irreconhecível.

A menina a sua frente, semicerrou os olhos e segurou o báculo com mais firmeza. ‘Eu vou selar você novamente e fazer tudo voltar ao normal…’ Disse seriamente.

‘NÃO!’ Gritou e dois círculos foram recortados da parede atrás da menina, prendendo-a em um pedaço da escada onde se encontrava. ‘Por que interfere? Durante muito tempo eu estive sozinha. Agora que finalmente me reuni às minhas amigas, você....’

‘Isso não é amizade!’ A garota declarou, interrompendo-a. ‘Forçar os outros a ficarem com você não é amizade. É errado!’

De repente, como que reagindo às palavras da menina, 52 lâminas mágicas se libertaram, flutuando ao seu redor e brilhando de forma esplêndida. Aquele afastamento realmente a deixou magoada.

‘Por quê?’ Perguntou para os seres mágicos ao seu redor, com a voz embargada. ‘Vocês me odeiam tanto assim? Nós não somos amigas? Digam-me: por quê?’

Ao invés de receber uma resposta, todas se afastaram, indo até a garota de olhos verdes. A tristeza que sentia era inigualável. Nunca se sentira tão sozinha quanto naquele momento, sendo abandonada por suas companheiras.

Durante um longo tempo, ficara presa, sozinha, em um lugar escuro e frio, mas conseguira suportar a solidão porque, quando saísse, encontraria suas companheiras e poderiam escapar da prisão que aquele humano havia criado para elas. Talvez até conseguissem voltar para o lugar ao qual realmente pertenciam. Não conseguiu aguentar e cobriu o rosto, caindo de joelhos e começando a chorar sem se importar em mostrar fraqueza na frente dos outros.

‘Está tudo bem!’ Ouviu a voz da menina e ergueu o rosto, vendo-a a sua frente, sobre uma ponte formada pelas cartas. ‘Você pode ficar junto das outras.’

‘Não vou mais ficar sozinha?’ Ouviu-se perguntar.

‘Não. Todas querem ficar com você.’ Ouviu a garota declarar com um pequeno sorriso no rosto e, por algum motivo, acreditou que aquelas palavras fossem realmente sinceras.

Seria um risco tremendo baixar a guarda daquela forma. Talvez estivesse sendo ingênua, mas se havia qualquer esperança de não ficar mais sozinha, estava disposta a arriscar. Ficou de pé, em frente à garota e fechou os olhos, em sinal de rendição.

‘Volte a forma humilde que merece, Carta Clow.’ Ela a ouviu pronunciar e sentiu, novamente, as amarras e limitações impostas pelo lacre do mago. Estava indefesa agora e, se a garota quisesse, poderia separá-la das outras novamente e não havia nada que pudesse fazer. Tinha que admitir que estava com um pouco de medo.

‘Carta criada pelo mago Clow…’ A feiticeira começou a recitar o encantamento e sentiu a presença mágica da menina envolvê-la ao mesmo tempo que uma grande tristeza a invadia. ‘Abandone sua velha forma e transforme-se para servir ao seu novo dono.’ A magia que a cercava estava repleta de sofrimento, mas não conseguia entender o porquê. ‘Em nome de Sakura!’

Ela sentia-se mudar e não entendeu o que acontecia. A contenção de seus poderes começou a diminuir até se tornar apenas um resquício indelével. Não estava livre de sua prisão na carta, mas também não estava presa. Não como antes.

A transformação não estava completa, ainda. Sentiu quando seu corpo se tornou energia e, subitamente, foi atraída pela maior fonte de magia do local. No entanto, aquela fonte não era a menina.

Syaoran-kun!’ Ouviu a voz desesperada de Sakura.

‘Eu consegui chegar a tempo.’ Escutou o menino a quem envolvia falar, com suavidade. ‘Você deve estar muito cansada. Usou muitas Cartas e gastou muita magia para capturar e transformar esta.’ Ele também estava consumido por uma grande tristeza, mas havia uma tranquilidade, uma sensação de dever cumprido vinda do menino que a deixou espantada.

Marie, enfim, pôde entender que o que acontecia ali: era algum tipo de sacrifício.

‘Mesmo que eu perca este sentimento, eu voltarei a me apaixonar por…’

E, naquele momento, o processo de transformação se completou. Ela sentiu a própria energia se expandir de forma abrupta. Tudo em que conseguia pensar, no entanto, era no grito sofrido da garota chamando pelo nome do menino.

Sentiu-se ser invadida por um sentimento morno e gentil. Alguma coisa estava diferente. A escuridão que a envolvia foi quebrada por um pequeno coração alado que surgiu à sua frente. Ele estava envolto por uma aura branca que pulsava quase em sincronia com seu próprio coração. Quanto mais encarava aquele pequeno intruso nos seus domínios, mais o ambiente tomava nuances multicoloridas e mais seu coração se aquecia. Ela nunca sentira algo como aquilo antes. Que sentimento era aquele?

Sem conseguir resistir, estendeu a mão para frente, tocando de leve o coração alado e o viu acomodar-se em seu peito. Ele não dizia nada, mas, por algum motivo, só o que ela conseguia pensar naquele momento era que “Tudo ficaria bem”. E, conforme aquela certeza se espalhava por todo seu ser, a escuridão e a solidão ao seu redor se dissiparam, tornando o “Nada” de sua existência em algo muito mais doce. Transformava-se em “Esperança”.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura olhava espantada para Marie a sua frente, ela tinha o olhar fixo e espantado nela. Embaixo da menina, estava a mandala de Clow na cor púrpura. Sakura se aproximou dela devagar. ‘Marie-chan, você está bem?’ Perguntou em tom preocupado.

A menina abaixou o rosto e a mandala desapareceu, tinha as mãos apertando o peito e sentia o coração disparado. Sentiu quando os olhos começaram a arder denunciando que estava prestes a chorar, mas mordeu de leve os lábios numa tentativa frustrada de que as lágrimas não saíssem de seus olhos azuis.

‘Marie-chan…’ Sakura se aproximou mais, com o semblante preocupado.

Marie levantou o rosto e, em vez de ver a tia, conseguia ver claramente a imagem da menina de olhos verdes e cabelos curtos de sua lembrança. Era ela! Tinha certeza.

‘Você está bem?’ Sakura perguntou em tom suave.

A menina levou uma das mãos à cabeça, pensando que, se ela era a menina, então… virou-se para trás e viu Syaoran também a olhando com o rosto preocupado. Engoliu em seco e, como aconteceu com a tia, viu a imagem do menino de suas lembranças por alguns segundos no lugar do tio. Apertou a mão que ainda tinha sobre peito, amassando mais a blusa na altura do coração.

Abaixou o rosto e finalmente as lágrimas que tentava bravamente evitar rolaram sobre o rosto infantil. Mas não eram lágrimas de tristeza, não… Eram lágrimas de felicidade, pois conseguiu ver-se dentro de um vazio e escuridão, mas logo depois foi inundada por uma energia intensa de amor e esperança. Esperança de que “tudo terminaria bem”.

Marie levantou o rosto e sorriu para Sakura. ‘Tudo, no final, terminou bem.’ Ela falou com a voz doce. ‘Ele não perdeu o sentimento mais importante.’ Ela completou.

Sakura entendeu do que ela estava falando. Engoliu em seco, não queria que Marie tivesse qualquer lembrança de sua outra existência, mas sabia que isso seria inevitável conforme a magia fosse evoluindo na menina.

Sakura sorriu para ela e confirmou com a cabeça. ‘Sim. Tudo terminou bem.’ Abraçou-a carinhosamente. ‘E sinceramente, meu anjo, quero acreditar que tudo ficará ainda melhor.’

Syaoran observava a esposa abraçada a Marie e suspirou, balançou a cabeça de leve, pensando que talvez não fosse justo fazê-la lembrar. Arregalou os olhos de leve, lembrando-se do diálogo que teve com Esperança quando Sakura estava hospitalizada e lembrou claramente do ressentimento que ela tinha em relação a Clow.

Voltou-se para o inglês que estava com as mãos na cabeça e o corpo levemente inclinado para frente. Kaho tinha tentado se aproximar do esposo, mas foi repelida pela magia em torno dele.

‘Hiiraguizawa!’ Li o chamou com a voz alta e deu alguns passos à frente em direção a ele.

Eriol levantou o rosto, fitando o chinês por alguns segundos. Li percebeu a confusão que deveria estar na cabeça dele. A mandala desapareceu dos pés do mago e Eriol endireitou o corpo. O nível de energia diminuiu em torno dele, tornando possível Kaho se aproximar dele e o abraçar.

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O inglês envolveu a esposa, falando que estava tudo bem, mas tinha os olhos fixos em Li.

Syaoran soube, nesse momento, que logo Eriol Hiiraguizawa voltaria a ter todas as suas lembranças de sua outra existência. Voltou-se para Marie que ainda estava abraçada a Sakura.

Ele sinceramente, esperava que tudo no final terminasse bem.

Continua.

Notas finais
É bom deixar claro que a interpretação apresentada pelo baguá e os trigramas foi baseada em pesquisas e em minhas loucuras, então favor não levarem a sério tudo, certo? Tem muita gente de “mimimi” e esquece que isso é uma história de ficção e sendo assim pode-se usar o que quiser para enriquecer a história. Não concorda… beleza, é a vida! Uns gostam de vermelho e outros de azul! Graças a Deus cada ser humano é único e possui pensamentos únicos! Viva a liberdade!!! Kath