FEITICEIROS

Por Kath Klein

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 02

Mortes no Campus

Sakura estava caminhando à noite pela Universidade Tomoeda. Estava atenta a qualquer movimento estranho. O tal assassino tinha sumido deixando alguns dias de calmaria, mas o clima ainda era tenso demais no Campus universitário. Estava tudo deserto.

Um carro da patrulha do Campus aproximou-se e a jovem se escondeu atrás de uma árvore. Se a encontrassem, arrastariam-na à força para o alojamento ou para a delegacia. Não era o que queria. Assim que o veículo passou, saiu de seu esconderijo e continuou sua caminhada, nem um pouco tranquila, pelo lugar.

Sentiu a aura de Li próxima e ficou tentada a mudar de rota, porém achou melhor ficar onde estava. Não queria que ele percebesse o quanto ainda mexia com ela. Em poucos segundos, o rapaz apareceu, dirigindo-se até a jovem ruiva e parando ao seu lado.

‘Por que anda me cercando? Já não finalizou o que tinha para fazer em Tomoeda?’ Ela perguntou sem nem ao menos cumprimentá-lo

‘Mudei de planos. Fico aqui até o final da faculdade.’ Ele respondeu.

‘Final da faculdade? Que faculdade?!’ Seu plano de se manter indiferente indo pelo ralo. A voz dela mostrava completa surpresa e nervosismo.

‘Estou cursando Engenharia.’

‘Eles não aceitam inscrições no meio do período.’ Rebateu incrédula.

O rapaz deu de ombros, fazendo pouco caso. ‘O clã deu um jeito nisso. Agora, somos um dos principais colaboradores da Universidade. Além disso, tenho excelentes notas, minha entrada aqui apenas aumentará o prestígio da Instituição.’

Sakura franziu a testa, pensando em como ele voltara mais arrogante do que quando tinha saído de sua vida pela primeira vez. Deu um rápido sorriso forçado de deboche. ‘Claro. O poderoso Clã Li.’

‘Exatamente.’ Ele confirmou. ‘Fico aqui por mais três anos.’

‘Três anos?!’ Ela quase gritou, sem conseguir se controlar. Três anos era muito tempo para ela aguentar aquela situação.

‘Exatamente. Já cursei dois anos em Hong Kong.’

Sakura fechou os olhos e estalou o pescoço, tentando relaxar. Se aquele idiota resolveu ficar mais três anos na vida dela para depois sumir novamente, então era melhor começar a se adaptar à situação ou enlouqueceria. ‘Três anos é muito tempo para eu aguentar você, Syaoran.’

‘Pois eu acho que é pouco tempo para estar com você.’

Ela abriu os olhos e o encarou a poucos centímetros dela. Novamente, conseguia sentir a aura morna e aconchegante dele envolvendo seu corpo. Era tão bom, tão maravilhoso sentir aquela aura.

‘Não há mais nada entre a gente.’ Mentiu, mentiu descaradamente para ele e para ela própria.

‘Hum...’ Ele murmurou. ‘Não é para mim que você precisa dizer isso, é para aquele seu namoradinho idiota.’

Sakura o observou por algum tempo. ‘Seja honesto comigo, Syaoran. O que realmente você quer aqui? Por que está de volta a Tomoeda?’

Li ficou um tempo apenas apreciando o rosto lindo da jovem a sua frente. Que vontade louca de simplesmente envolvê-la entre os seus braços e sentir o gosto dos lábios rosados novamente. Que vontade de simplesmente fazer isso e jogar tudo para o alto.

‘Tem alguma coisa voltando a acontecer em Tomoeda. Eu não sei o que é, mas preciso de sua ajuda, assim como você precisa da minha.’

‘Quem lhe disse que eu preciso de sua ajuda agora? Você quer mesmo voltar para minha vida, como se nada tivesse acontecido antes, e depois sumir de novo? Desaparecer?’ Ela fez uma pausa, tentando se controlar. ‘Syaoran, volte para o seu Clã. Volte para sua terra e, por favor, deixe-me em paz.’ Ela suplicou.

Sabia de suas limitações e não tinha como sobreviver a três anos com a presença de Li, sabendo que ele voltaria para China, deixando-a sozinha novamente.

‘Eu não posso.’ Ele falou com sinceridade e ela percebeu uma sombra negra por trás dos olhos âmbares que tanto a fascinavam.

Ela suspirou fundo e, finalmente, conseguiu se afastar dele. A aura dos dois pareciam pólos de um imã, negativo e positivo. Parecia que uma força, provocada pelas auras, fazia com que os dois naturalmente se aproximassem, como magnetismo, como algo de fácil compreensão da física. O afastamento sempre era feito de forma abrupta, exigindo uma força imensa por parte de um dos feiticeiros.

‘Já que vai ficar aqui por um tempo, seria educado de sua parte cumprimentar Tomoyo e os outros. Não gosto de ficar passando recados.’ Ela falou, caminhando em direção ao seu alojamento.

Li sorriu, observando a jovem caminhar lentamente. Ela estava tão linda. Tão perfeita. Sacudiu a cabeça, tentando colocá-la no lugar. ‘Droga!’ Soltou para si mesmo.

Não tinha como colocá-la no lugar. Ele não queria mais ficar longe dela, não tinha passado por tudo o que passou para ficar perdendo tempo daquela maneira.

‘Sakura!’ Chamou-a de forma enérgica, fazendo-a parar e virar-se para ele. Em dois passos largos, ele a alcançou e a enlaçou pela cintura. Abaixou o rosto e, finalmente, tocou os lábios da jovem com os seus.

Foi uma atitude inesperada e desesperada; ele sabia disso, mas não era homem de ficar fazendo rodeios. Queria aquela mulher mais que tudo na vida e, depois de engambelar aquele bando de anciões para que permitissem estar ali apenas para rever seu amor de infância, não perderia tempo com joguinhos de sedução.

Sakura foi surpreendida pela atitude dele. Inicialmente não teve reação alguma, no entanto, isso foi apenas no começo. Logo já tinha levantado seus braços, passando seus dedos pelos fios grossos dos cabelo dele, enquanto abria os lábios para que aprofundassem o beijo. Não queria um beijinho roubado como os de Makoto.

De Syaoran Li, esperava e queria mais. Muito mais. Beijaram-se com sofreguidão.

Não se importavam, naquele momento, com a dor de cada um. Aquilo não deveria ser censurado ou questionado. Era o que os dois mais queriam e desejavam. Queriam sentir o gosto um do outro. Queriam, desesperadamente, sentir um ao outro.

Syaoran a segurava com tanta força entre seus braços que parecia querer que ela se fundisse com seu corpo, o que não deixava de ser verdade.

Sakura não ouvia nada além de um zumbido no seu ouvido, por um momento, pensou que tivesse perdido os sentidos. E, talvez, realmente os tivesse perdido, pois em sã consciência nunca estaria naquela situação.

O que estava acontecendo com ela? Onde estavam todas aquelas promessas de esquecer aquele garoto que desapareceu de sua vida, deixando um enorme buraco em seu coração? Soltou um gemido involuntário de puro prazer. Deus, o que aquele rapaz estava fazendo com ela? Por que ele estava fazendo isso com ela?

Afastaram-se apenas quando Li percebeu a aproximação de uma presença maligna. Mesmo que todo seu corpo implorasse para ignorar aquela presença e continuar as carícias com Sakura, sabia que aquela presença era do assassino e não poderia permitir que outro assassinato brutal acontecesse na pacata cidade.

Afastou-se da jovem com pesar, embora ainda tivesse as mãos nos braços dela, segurando-a. O rosto alvo de Sakura estava agora rubro, os lábios inchados e molhados pelos beijos que trocaram intensamente segundos atrás. Ele reparou que ela estava completamente atordoada, só não sabia se era pelo beijo ou por ele ter se afastado dela ou pelos dois motivos.

Sakura estava entorpecida. Parecia que tinha sido dopada. Exatamente isso. Parecia que estava dopada, fazendo com que ficasse zonza. Como aquele rapaz petulante teve a coragem de fazer isso com ela? E como ela teve coragem de simplesmente se deixar envolver por ele daquela maneira?

Syaoran parecia uma droga pela qual ela era completamente viciada. Explodiu de raiva de si mesma por, simplesmente, desejar que aquele beijo nunca tivesse acontecido. Não! Que nunca tivesse parado!

Fechou os olhos, buscando força, e empurrou o rapaz com toda a dignidade que conseguiu buscar dentro de si. ‘Nunca mais encoste em mim!’

Syaoran sabia que era mentira, mas não valia a pena discutir com ela agora. Desviou os olhos da jovem para fitar um lado escuro do Campus, perto do prédio da Biblioteca Central onde conseguia sentir mais forte a presença daquele ser maligno. Franziu a testa, tentando inutilmente conseguir enxergar melhor.

‘Vamos.’ Ordenou à jovem, já caminhando de forma rápida em direção à presença.

Sakura estranhou a atitude tão súbita do rapaz, mas, observando a direção na qual ele corria, conseguiu também perceber a presença estranha e assustadora do que ou quem quer estivesse perto da biblioteca.

Arrancou a chave que carregava no pescoço e, sem pestanejar, invocou seus poderes. ‘Chave que guarda o poder da minha estrela, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e ofereça-os à valente Sakura que aceitou esta missão. LIBERTE-SE!’

Ela pegou o báculo com a mão direita e olhou para Li que tinha parado sua corrida para observá-la invocar os seus poderes.

Ela não tinha ideia de como ele a admirava sempre que fazia aquilo.

Sakura observou o pequeno sorriso que ele tinha nos lábios e sentiu-se encabulada. Ele já devia ter se acostumado com aquilo. Pegou uma das Cartas que estava no bolso da calça e jogou para cima. ‘Corrida!’ Sentiu a magia envolver seu corpo e um sorriso debochado formou-se no canto de seus lábios.

Vamos ver se Syaoran conseguiria acompanhá-la agora. Correu em direção à Biblioteca, passando pelo rapaz que meneou a cabeça sorrindo ao vê-la manipulando magia de forma tão segura. Sakura tinha crescido em todos os aspectos de sua vida.

Uma gota de suor escorreu pela têmpora esquerda da ruiva, não era esforço físico, pois Corrida fazia bem o seu trabalho, era puro nervosismo e ansiedade para chegar logo atrás o muro da Biblioteca. A presença ficava cada vez mais forte e mais arrepios lhe causava.

‘Que presença é esta?’ Perguntou para si mesma, assim que parou próxima a enorme construção. Não estava com medo... Ou estava. Não sabia mais ao certo.

‘É um ser maligno.’ A resposta à sua pergunta veio logo a seguir quando Syaoran conseguiu alcançá-la. ‘Um demônio como o catolicismo chama.’ A voz dele estava ofegante devido a corrida até ali.

Ela ia perguntar se ele estava de brincadeira com a cara dela, mas ponderou que no mundo da magia tudo era possível. Estava desacostumada com aquela adrenalina. Foram vários anos de calmaria. Corrida voltou a se tornar carta e foi guardada junto com as outras e os dedos da feiticeira rapidamente encontraram Trovão.

Syaoran reparou que ela estava bem rápida na decisão de qual Carta usar. Também reparou que o nível de magia da moça estava alto, muito mais alto do que quando a encontrou no dormitório alguns dias atrás. Na ocasião, mal a havia percebido. Parecia que Sakura não usava magia há muito tempo, mas ela agora se mostrava bem confiante.

Talvez, escolher qual lâmina mágica usar fosse tão óbvio e instintivo para ela como saber exatamente como tocá-lo de forma intensa durante o beijo que trocaram minutos atrás. Era algo natural. Não teve como não sorrir com suas conclusões a respeito da Mestra das Cartas.

Indiferente aos pensamentos do rapaz, Sakura estava tensa, enquanto se aproximavam da fonte daquela energia. Sentia claramente a presença nociva, além de um cheiro estranho no ar, um cheiro que lhe embrulhou o estômago.

‘É sangue.’ Novamente a resposta veio da boca de Syaoran. Ela finalmente olhou para ele em pânico. ‘Não temos mais como salvar o infeliz que ele pegou. Já está morto.’

‘Mas podemos evitar que ele mate outros.’ Ela retrucou em seguida.

‘Claro. É por isso que estamos aqui, não é?’ Indagou de forma sarcástica. ‘Vamos logo, antes que ele sinta nossas presenças. Atacar de surpresa sempre é uma vantagem que não deve ser desperdiçada.’

Sakura sabia que não era hora de retrucar. Era hora de unir forças com ele. Não era boba e nem arrogante para simplesmente mandar que Syaoran fosse embora e deixasse a situação nas mãos dela. Vidas de pessoas estavam em jogo e não era justo que uma questão mal resolvida entre namoradinhos continuasse a deixá-las em perigo.

‘Vamos então.’

‘Não quero que você se arrisque. Se a criatura for muito forte, quero que chame seus guardiões.’ Não era um pedido, era uma ordem pelo seu tom.

Mas ela ponderou que, talvez, fosse uma boa ideia ter saído com Kerberus e Yue. Concordou com um gesto rápido com a cabeça.

Estavam prontos. Caminharam devagar em direção ao inimigo. O cheiro de sangue estava embrulhando o estômago da moça que não estava acostumada com ele, mas para o guerreiro chinês isso não era nada. Já estava acostumado. Um barulho animalesco de uma fera devorando sua presa foi ouvido pelos jovens.

Sakura olhou a sombra de um monstro corpulento dilacerando o que pareciam ainda ser os restos de um corpo humano. Não aguentou, vomitou o que tinha no estômago. Sentiu raiva de si mesma, mas não tinha conseguido se controlar.

Li não a censurou, apenas apertou a cabo da espada com mais força, pois sabia que agora o animal perceberia a presença deles e o fator surpresa tinha ido por água abaixo.

Sakura mal pôde limpar a boca com as costas da mão e já sentiu Li segurá-la pela cintura, pulando com ela para evitar o ataque do monstro. Finalmente, a jovem conseguiu ver o que era o animal. Um enorme lobo, ou seja lá o que fosse aquela criatura, mas não era realmente humana, apesar de sua forma humanoide. Parecia um lobisomem!

Syaoran soltou Sakura e, apertando mais forte o cabo da sua espada, foi de encontro ao monstro.

A jovem não soube direito o que fazer. Verdade seja dita, por algum motivo acreditava estar dentro de um filme de terror barato. Primeiro o beijo de Li e agora o surgimento de um lobisomem na sua frente era algo surreal demais para acontecer numa mesma noite.

O monstro tinha enormes garras e Syaoran estava em desvantagem de força e armas contra ele. Por mais que não quisesse admitir, precisava pensar rápido numa estratégia para vencer aquela criatura ou acabaria morto. Estava com alguns ferimentos pelo corpo, e, num ataque mal sucedido, acabou sentindo as garras cortando suas costas, mordeu os lábios para não gritar de dor. Caiu de joelhos na grama, sentindo o sangue escorrer.

‘Disparo!’ Sakura, finalmente, saiu de seu estado catatônico e resolveu agir. Ignorou o embrulho no estômago, e sabia que, se não agisse logo, Syaoran estaria morto e, logo depois, seria a vez dela. A criatura foi atingida por vários projéteis de pura energia mágica, sendo profundamente ferida. Afastou-se do rapaz de quem esteve próximo a dar o bote final, arrancando-lhe a cabeça.

‘Escudo!’ Sakura invocou outra Carta.

Li percebeu que a barreira mágica não foi ativada para ela e, sim, para ele quando se viu envolto na bolha rosada do escudo de Sakura. Franziu a testa, pensando que não era bem assim que gostaria que as coisas acontecessem.

A criatura das trevas resolveu ignorar as cápsulas de energia que continuavam atingindo-a e correu em direção a feiticeira para atacá-la.

Sakura pensou rápido e jogou duas cartas para o alto. ‘Salto! Espada!’ Saltou evitando ser atingida pelas garras da fera ao mesmo tempo que desferia um golpe nas suas costas, mas percebeu que apesar da lâmina afiadíssima, a pele da besta era mais dura e grossa do que havia suposto. ‘Força!’

‘Três cartas de uma só vez, Sakura. Ora... ora... Então era de algum incentivo que você estava precisando.’ Syaoran constatou, sorrindo de lado e conseguindo, por fim, levantar-se. Deu um passo à frente e bateu no escudo protetor de Sakura. ‘Quatro cartas de uma só vez.’

Estava orgulhoso dela, mas franziu a testa, pensando que não era homem de ser protegido por uma mulher. Tocando levemente Escudo, elevou sua magia e o atravessou, correndo em direção à luta que estava sendo travada. Sakura já começava a demonstrar cansaço físico.

O animal urrava de dor pelos golpes da Feiticeira, mas, por mais que ela tentasse, não conseguia dar um golpe fatal. Tinha algo que a impedia e Li sabia exatamente o que era. Sakura hesitava em matar, mesmo que fosse uma criatura das trevas. Essa parte teria que ficar para ele.

Syaoran, num golpe certeiro, atravessou o corpo do animal que soltou um tenebroso urro, assustando não só Sakura, mas todos do Campus Universitário. Logo, luzes foram acesas por todos os lados e podiam ouvir o barulho da sirene da Polícia se aproximando. Li puxou a espada, espirrando sangue para todos os lados, ficando ele mesmo banhado pelo líquido quente e viscoso.

Uma viatura parou bem em frente aos três. Os faróis do carro iluminaram aquela cena sinistra dos dois jovens armados de espadas e, entre eles, estava uma criatura enorme. O delegado e o policial que estava no volante estavam estáticos, com os olhos arregalados sem acreditar no que acontecia.

O animal avançou por cima do carro, assustando os quatro humanos, mas diferente do que inicialmente pensaram, ele apenas amassou o capô e correu, fugindo em direção ao lago de Tomoeda.

Sakura e Syaoran se entreolharam, prestes a sair em perseguição da fera quando o delegado saiu do veículo.

‘PARADOS os dois!!!’

Imediatamente, eles desmaterializaram suas armas, fazendo o senhor voltar a arregalar os olhos sem acreditar no que estava vendo. O outro policial finalmente conseguiu sair do carro com a arma em punho, mirando os dois.

‘Droga. Estamos ferrados.’ Syaoran falou, mas sabia que Sakura pensava o mesmo.

Em instantes, apareceram vários outros carros da polícia, cercando o casal. Um policial gritou, falando que tinham achado os restos do corpo de um jovem.

‘Para a delegacia agora! Os dois!’ O delegado Amizuki ordenou, abrindo a porta da viatura amassada pela fera.

O casal se entreolhou, cúmplice, e caminhou em direção ao carro. Sakura entrou primeiro e Syaoran encarou o policial nos olhos antes de entrar.

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O senhor Amizuki encarava o casalzinho a sua frente. Pareciam estar brigados, pois estavam um ao lado do outro em silêncio sem se encararem.

‘Ele precisa de cuidados médicos, senhor delegado.’ Foi a jovem que alertou ao policial. ‘Está com um ferimento muito grande nas costas. Mantê-lo aqui seria abuso de autoridade.’

‘Isso não foi nada.’ Li retrucou, fazendo pouco caso.

‘Cala a boca, Syaoran. Deixe de ser cabeça dura e aceite ser tratado.’ Ela não pediu, ordenou.

Ele se calou, não estava afim de começar uma discussão com a jovem na frente do delegado.

‘Você também precisa de cuidados, garota.’ O delegado a alertou, observando os arranhões da moça.

Ela chegou a abrir a boca para responder o mesmo que Li, que não era nada, mas calou-se. Estava mais preocupada do que queria com Syaoran.

Ela ainda lembrava do ataque certeiro do monstro contra o rapaz e foi justamente o medo que sentiu dele morrer que a fez sair do seu estado catatônico. Mas isso Syaoran não saberia nunca.

O delegado estava louco para mandá-los para a sala de interrogatório. Sabia o que tinha visto: ambos estavam manuseando armas brancas, embora não tivesse como provar, pois elas tinham desaparecido como mágica. E, apesar do lugar altamente suspeito em que foram encontrados e de querer respostas, ponderou que a moça tinha razão. Estavam muito machucados e precisavam de cuidados médicos o quanto antes.

‘O policial Tuzi os levará para o Hospital Universitário.’ Declarou, chamando o corpulento homem.

Amizuki observou o casal se levantar devagar e viu a cadeira em que Syaoran estava sentado suja de sangue. Realmente, o ferimento do rapaz era mais profundo do que ele inicialmente achara.

‘Claro, os dois enfrentaram um monstro. Mas como? Quem são eles?’ Perguntava-se o delegado, caminhando em direção a sua sala.

Observou pela janela a quantidade enorme de pessoas, jornalistas, curiosos e outros policiais na frente da pequena Delegacia de Tomoeda. O casal passou pela multidão, sendo escoltado pelos policiais. Os repórteres tentavam falar como eles, mas nenhum dos dois deu atenção. Pareciam indiferentes à confusão que os rodeava.

‘Quem são vocês, crianças?’ Perguntou para si mesmo, já ligando o computador e digitando os nomes: Sakura Kinomoto e Syaoran Li. Aquela seria uma longa noite.

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Sakura observava Li levando os pontos à sua frente. A enfermeira já estava suada e mostrava-se cansada pela quantidade de pontos que estava dando nas costas do rapaz.

Syaoran estava sem camisa, sentado numa das macas da emergência. Sua respiração era calma e ela percebeu que, de vez em quando, ele franzia o semblante, indicando a um bom observador que os pontos estavam sendo, além de demorados, dolorosos.

‘Preciso de ajuda aqui!’ A enfermeira gritou e um enfermeiro mais velho logo entrou na sala, aproximando-se do rapaz.

‘Caramba, garoto! Onde ou em quê você andou se metendo?!’ O senhor exclamou, olhando assustado para as costas do rapaz. ‘Nunca vi tantas cicatrizes!’

Syaoran odiou o comentário, principalmente, na frente de Sakura. ‘Isso vai demorar muito? Eu já estou ficando de saco cheio de ficar aqui sentado’.

Ele estava pronto para levantar-se quando o enfermeiro segurou seu ombro. ‘Fica quietinho aí, senhor Li! Tem ainda alguns pontos aqui para serem dados.’ Li bufou.

Sakura já tinha sido atendida e agora estava apenas sentada numa cadeira próxima à maca onde Li era tratado. Ela poderia sair se quisesse, mas, ouvindo a algazarra no lado de fora do Hospital, toda vez que alguém abria a porta da sala de emergência, pensou que não haveria lugar mais sossegado do que ali.

Suspirou, fechando os olhos, cansada. Talvez pela hora, pois já estava quase amanhecendo em Tomoeda e ela não tinha dormido, ou pelo fato de ter usado muita magia de uma só vez. Estava enferrujada.

Sua cabeça tombou para trás, encostando-se na parede fria do hospital. Não conseguiria dormir e, na verdade, nem vontade tinha. Queria, primeiro, ter absoluta certeza de que Syaoran Li estava bem e tinha deixado fazer todos os devidos curativos. Abriu os olhos e reparou que o rapaz a estava observando. Fitaram-se em silêncio e Sakura mordeu de leve o lábio inferior, denunciando que estava nervosa com aquela troca de olhares entre eles.

Syaoran sorriu de lado, lembrando do sabor dos lábios da jovem feiticeira. Franziu a testa, observando que agora a jovem descia os olhos para seu peito desnudo e reparou que as faces dela coraram. Ora, então a senhorita Kinomoto estava reparando sua forma física.

‘Levante os braços, senhor Li, vamos colocar uma faixa bem justa no seu abdomen para tentar proteger estes inúmeros pontos aqui atrás. Não gostaria que, por irresponsabilidade sua, destruísse minha obra de arte.’ Brincou o enfermeiro.

Com a ajuda da primeira enfermeira, finalizaram o curativo principal do rapaz. Depois, foi uma questão de mais alguns minutos para terminar o do braço direito e o da testa.

‘Tire a calça para cuidarmos agora da sua perna esquerda.’ Pediu o enfermeiro, reparando que ele hesitava em tirar a calça na frente de Sakura. ‘Está com vergonha da sua namorada, rapaz? O que os jovens de hoje em dia fazem para se divertir, então?’

Syaoran abriu a boca para dizer que não eram namorados, mas, por algum motivo, encarou Sakura que apenas observava a tudo, esperando pela atitude dele. Ela não fez menção de sair de onde estava e, muito menos, de virar o rosto. Ele tirou os tênis e depois a calça, ficando só de cueca para dar ao enfermeiro acesso fácil ao ferimento da sua coxa esquerda.

Sakura observou Syaoran sentado seminu na maca, ele olhava o homem trabalhar no grande corte que tinha na perna, evitando encará-la. Semicerrou os olhos, observando o corpo bem definido do namoradinho de infância. Ele tinha malhado e muito, pensou para si.

Pelo menos, aquele estúpido treinamento tinha deixado o rapaz com um físico lindo, mas era mais que isso. Em torno dele, ela podia observar a aura verde brilhante, era linda. Era como se Syaoran Li fosse perfeito demais para existir. E ela sabia que ninguém era perfeito.

Reparou que ele não a encarava, estava com o rosto levemente ruborizado, demonstrando estar sem graça por se encontrar em trajes sumários na frente dela. Sorriu e mordeu bem forte o lábio inferior, mas não era mais por nervosismo. Era uma outra coisa. Sentiu uma onda morna de calor que vinha da altura de seu ventre, atravessando todo o seu corpo até fazerem suas bochechas queimarem.

‘Prontinho, Senhor Li. Está completamente remendado. Espero que o senhor e sua namorada não façam nenhuma atividade que possa estourar esses pontos, ouviram bem?’ Falou, rindo-se enquanto observava o rapaz se vestir. Ele escreveu numa receita o nome de um anti-inflamatório e entregou a Sakura que os observava em silêncio. ‘Faça ele tomar direitinho isso aqui que, em no máximo 15 dias, estará bonzinho. O curativo deve ser trocado pelo menos uma vez por dia. Precisa limpar os ferimentos com um bom antisséptico para evitar que infeccione. Como os ferimentos maiores são nas costas, conto com a sua ajuda, garota, para cuidar dele.’

Sakura, finalmente, tirou os olhos de Syaoran e fitou o papel que o alegre senhor estendia para ela. Pegou e leu o nome do medicamento. Acenou que faria o que ele mandou.

‘Certo, então. Vou descansar uns dez minutos até atender o próximo. Boa noite, senhor Li. Senhorita Kinomoto, cuide bem deste rapaz.’ Falou, dando um tapinha no ombro de Syaoran que já estava, parcialmente, vestido.

‘Não se preocupe. Vou ficar de olho nele.’ Sakura respondeu, levantando-se e sorrindo para o bom enfermeiro.

Ele deu uma piscadinha para ela, antes de sair do recinto, deixando o casal sozinho.

Sakura caminhou até a pequena janela e observou a movimentação da cidade. Estavam todos em polvorosa com as notícias que o tal assassino tinha atacado três pessoas, embora um casal de namorados tivesse conseguido sobreviver. Todos estavam querendo saber quem foram os sortudos.

Respirou fundo, pensando na avalanche de perguntas de Makoto quando o encontrasse novamente. Seria melhor falar logo a verdade para o namorado, pois andava sem muita imaginação para desculpas esfarrapadas. Além disso, Makoto era um homem inteligente, não daria para enrolá-lo.

Observou Li, tentando calçar os tênis, mas a faixa apertada no abdome impossibilitava que alcançasse os calçados. Ele poderia ter morrido na frente dela. Um calafrio fez a jovem se arrepiar toda. Não queria mais Syaoran na vida dela, mas também não suportaria saber que nunca mais poderia vê-lo. Caminhou até ele e se abaixou, batendo de leve nas mãos dele, informando que o ajudaria.

Li observou a jovem amarrar o cadarço do tênis direito e, depois, calçando o tênis esquerdo, fazendo um firme laço, embora suas mãos estivessem levemente trêmulas.

Ela se levantou a frente dele e o encarou. ‘Você poderia ter morrido. Deveria ter ficado quieto dentro de Escudo.’

Syaoran sorriu de lado. ‘Não sou homem de ser protegido por mulheres.’

‘Não faça mais isso. Não o quero mais na minha vida, mas também não quero que mal nenhum aconteça a você. Não seja teimoso.’

Ele semicerrou os olhos nela e apertou mais forte a camisa suja de sangue que tinha nas mãos. Estava em dúvida se valeria ou não a pena vesti-la já que estava toda rasgada. ‘Você também poderia ter morrido hoje. Não se arrisque daquela forma novamente. Você tem dois guardiões. Precisa parar de ser cabeça dura e pedir que façam o trabalho deles. Eles foram criados apenas para protegê-la.’

‘Eles foram criados para proteger Clow. Não a mim. Eu não quero e não preciso ser protegida.’ Ela falou de forma desafiadora. ‘Principalmente ser protegida por você, Syaoran. Não sou mais uma menina tonta.’

Ela tinha razão, não era mais uma menina. Nunca fora tonta, apesar dele insistir que ela o era. No fundo, gostava de colocar Sakura naquele papel e a ele, o poderoso guerreiro chinês, no do responsável por salvá-la e a todos.

‘Eu sei que não é mais uma menina.’

‘Ótimo! Estamos entendidos então.’ Ela falou, batendo com uma das mãos no papel onde o enfermeiro tinha prescrito os remédios. ‘Vou pedir uma camisa para alguém do hospital. Esta que você tem nas mãos não tem mais como usar.’ Informou, já saindo em busca de alguém que pudesse lhe fornecer uma peça de roupa.

Não queria que Syaoran saísse sem camisa, não queria que nenhuma garota colocasse os olhos nele com o tórax à mostra. Ciúmes? Ah, que se dane! Não precisava responder à pergunta que o bom senso lhe fez.

Syaoran respirou fundo e sentiu um pouco os ferimentos. Mesmo que estivesse num estado deplorável, não pôde negar que adorou ser observado por Sakura. Se o preço daquela noite tinha sido apenas alguns pontinhos, foi muito barato. Sorriu de forma infinitamente feliz e observou seu reflexo pelo vidro de uma das janelas. Há mais de cinco anos não conseguia dar um sorriso daqueles, de pura felicidade.

Sorriu mais ainda e, quando deu por si, estava dando gargalhadas. Só parou quando ouviu o barulho da porta se abrindo e viu o rosto da jovem que entrou, trazendo uma camiseta branca nas mãos, estendendo-a para ele.

‘Consegue se vestir?’ Ela perguntou, levantando uma sobrancelha.

Ele deu de ombros. Sakura deu um passo à frente e, abrindo a camiseta, passou-a pela cabeça do rapaz, ajudando-o. A camiseta estava um pouco larga, mas era melhor grande do que justa.

‘Obrigado.’ Ele agradeceu, sinceramente.

‘Não tem de quê.’

Estavam perigosamente perto um do outro. Sakura tinha consciência de estar realmente criando situações para estar perto dele, mas era tão bom sentir a aura dele, era tão bom sentir o calor do corpo dele, o cheiro dele, o hálito... Tudo agia como magnetismo para ela. Ela levantou o rosto e se fitaram de forma profunda.

‘Sakura?!’ Sakura reconheceu a voz de Makoto e não teve como disfarçar a irritação de ouvi-la naquela hora. ‘O que está acontecendo aqui?’

Li rodou os olhos, também frustrado pela interrupção do namoradinho de Sakura. Da sua Sakura.

A ruiva se afastou de Li, lentamente, e encarou o rapaz que olhava sério para o casal. Ela pensou no que poderia falar naquela situação, mas realmente nada vinha à sua cabeça agora. O que estava acontecendo ali naquela sala era, exatamente, o que parecia.

Logo, um par de olhos violeta aflitos apareceu por trás do rapaz. Tomoyo correu em direção à prima, abraçando-a fortemente. ‘Graças a Deus, você está bem. Graças a Deus!’

Sakura levantou os braços, abraçando-a também. ‘Está tudo bem, Tomoyo. Estou bem. Estamos bem.’

Tomoyo não queria finalizar aquele abraço. Teve tanto medo de perder o amor de sua vida que pensou que não conseguiria voltar a respirar quando percebeu a enorme confusão do Campus. Desceu junto com os outros alunos e, quando soube que tinham encontrado três vítimas do assassino, pensou que a prima estivesse morta.

Depois, aos poucos, as informações foram chegando incompletas, algumas distorcidas. Mas a esperta morena percebeu que o “casalzinho de namorados” encontrado atrás do prédio da Biblioteca deviam Sakura e Syaoran. Eles, com certeza, estavam tentando parar o assassino. Como era prima da jovem, conseguiu passar pela recepção enlouquecida do hospital e entrar. Makoto foi no encalço dela.

Sem soltar ainda Sakura de seus braços ela abriu os olhos e fitou Li que estava parado perto da maca. Semicerrou os olhos, observando o rapaz e pensando no porquê dele ter voltado.

Syaoran não soube o que vinha do olhar de Tomoyo, não era curiosidade, saudade, recriminação... Era um sentimento estranho e indecifrável. Raiva? Talvez. Sentiu-se incomodado e desviou o olhar para Makoto que o encarava. Aquele ali era mais óbvio. Se pudesse, o garotão viria com tudo para cima dele. Pobre coitado, pensou para si.

Sakura teve que afastar a prima e finalizar o longo abraço. ‘Estou ótima Tomoyo. Que bom vê-la aqui.’

‘Kero está enlouquecido. Queria vir comigo.’ A morena sussurrou para a amiga de forma que Makoto não a ouvisse, mas mesmo que falasse em alto e bom tom, ele estava ocupado demais se estranhando com Syaoran.

Makoto atravessou o quarto e parou em frente ao chinês que era um pouco mais alto que ele. ‘Não se meta com a minha namorada, novato.’

‘Sua namorada?’ Syaoran perguntou, com ar debochado.

‘Exatamente. Você já chegou criando confusão. Essa faculdade não é para você, vá embora para sua terra e deixe em paz a minha garota.’

Syaoran abriu mais o sorriso debochado, estava louco para da um soco na cara daquele idiota.

‘Ele não pode ir embora, Makoto.’ Sakura respondeu, chamando a atenção dos dois.

Makoto olhou incrédulo para a namorada, vendo-a encará-lo seriamente. ‘Preciso da ajuda dele para capturar o assassino dos estudantes.’

E agora o rosto de Makoto mostrava-se assustado com a declaração da jovem. ‘Como assim ajudar você a capturar o assassino? O que está acontecendo aqui, Sakura?’

‘Sou uma feiticeira e ele também. O assassino é uma criatura das trevas ou algo assim. Preciso da ajuda dele para capturar este ser e parar com essa loucura que está acontecendo no Campus.’ Ela explicou tudo de uma só vez.

Li pensou que, realmente, Sakura tinha mudado bastante. Em outra época, ela ficaria brincando com as mãos, tentando achar as palavras para dizer aquilo, ou inventaria uma desculpa bem esfarrapada. Agora falava como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não pôde negar que adorou ouvi-la dizer que precisava da ajuda dele. Ela precisava dele e saber disso era maravilhoso. O rapaz observou Makoto e teve pena dele, deveria estar mais assustado e atordoado do que barata tonta.

‘Não estou entendendo.’ Foi o que Makoto conseguiu dizer depois de um longo momento de silêncio.

Sakura rolou os olhos e pensou no que poderia ajudá-la a explicar melhor para o namorado que ela, simplesmente, tinha poderes mágicos e pronto. Não era uma coisa assim tão difícil de alguém entender, embora pudesse ser difícil de acreditar.

‘Acho que precisamos conversar com mais calma uma outra hora, Makoto. Talvez Kero possa ajudar você a entender o que estou falando.’

Tomoyo fez um sinal positivo com a cabeça, concordando.

‘Tudo bem... tudo bem... Vamos começar desde o início: quando conheceu este cara?’ Makoto perguntou, apontando para Syaoran e com a voz um pouco alterada. Este negócio de magia ficaria para depois, o problema ali era ele.

Sakura suspirou, sabia que lá vinha um monte de perguntas que ela não estava com saco para responder.

‘Ela me conhece há muito tempo. E se tem alguém aqui que roubou a namorada de alguém, foi você, de mim.’ Syaoran respondeu, chamando novamente a atenção de Makoto.

‘Do que está falando?’

‘Fomos namorados’. Sakura respondeu a pergunta de Makoto. Li não tinha nada que ter falado sobre o namoro dos dois. ‘Eu já tinha falado sobre ele, Makoto.’

Makoto finalmente ligou os pontos. Então aquele estrangeiro era o namoradinho de infância de Sakura. Ele era aquela terrível sombra que sempre fez com que Sakura recuasse no namoro. Quando a conheceu, teve que insistir muito para que namorassem e Tomoyo já tinha explicado que era por causa da espera de Sakura por ele.

Makoto odiava Li antes de conhecê-lo e, agora, mal conseguia controlar sua raiva. Virou-se para Syaoran e o pegou pela camisa, tentando inutilmente levantá-lo. ‘Odeio você, cara! Some da minha vida. Some da minha vida e da de Sakura.’

Li empurrou o rapaz, fazendo-o soltá-lo. Os dois já estavam prontos para começar uma briga quando o delegado Amizuki entrou na sala de emergência onde o grupo estava.

‘Hei, hei, hei! O que está acontecendo aqui?’ O senhor perguntou, já se colocando entre os dois rapazes. ‘Que confusão é essa?’ Os dois rapazes relaxaram e saíram da posição de luta. Observando isso, o senhor sentenciou. ‘Sakura Kinomoto e Syaoran Li, vocês dois vêm comigo. Preciso do depoimento de vocês agora. Já identificamos quem foi o rapaz mutilado. Agora preciso da ajuda de vocês para pegar o que quer que tenha surgido na minha cidade.’

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Sakura caminhava devagar ao lado de Tomoyo pelo Campus Universitário. A morena percebia que as pessoas olhavam para as duas e depois cochichavam. Todos já sabiam que o casalzinho sortudo eram ela e o novato chinês.

Touya assim que soube pela televisão o que tinha acontecido ligou para a irmã. Ficou brigando com ela por quase uma hora inteira, mal deixando a jovem responder às perguntas que ele fazia. Na verdade, ele fazia a pergunta e ele mesmo respondia. Sakura apenas murmurava uma ou outra palavra informando ao irmão que estava ouvindo o que ele berrava ao telefone.

Kimura mal olhava para ela, pois pegou as dores de Makoto em ter sido “corneado” por ela. Sakura sentiu pela amiga, mas não tinha como ficar explicando para todos o que realmente tinha acontecido. Um grupo de garotas parou na frente de Sakura e Tomoyo impedindo que as duas continuassem seu trajeto até o refeitório.

'Podemos conversar com você, Kinomoto?' Uma loira perguntou, parando a frente a jovem.

Sakura ergueu uma sobrancelha olhando incrédula para a garota. Ela as conhecia, eram as “populares” da faculdade e nunca haviam lhe dirigido a palavra nem em cumprimento antes. Ficou curiosa para saber o assunto daquela “conversa”. Acenou que sim com a cabeça sem responder.

‘Andamos verificando a ficha do novato chinês e descobrimos que a família dele é multimilionária.’

Sakura rolou os olhos, sem acreditar que aquelas “barbies” estavam já escolhendo um alvo para atacar. ‘Vamos, Tomoyo. Estou com fome e não quero perder tempo com besteira.’

Uma das jovens parou em frente a Sakura, encarando-a feio e impedindo-a. ‘Não se faça de superior porque não é, Kinomoto. Assim que o milionário chinês chegou, você se jogou nos braços dele, corneando o Makoto.’

Sakura sentiu vontade de invocar Trovão e eletrocutar aquela garota. Andava sem paciência para essas coisas idiotas do mundinho universitário. Tinha problemas muito maiores do que aquela fofoca de “quem estava com quem” ou “quem pegava quem”. Se devia explicações a alguém, essa pessoa era Makoto. E assim o fez, mas não estava afim de informar a todos que tanto ela quanto Li eram feiticeiros e estavam tentando salvar o pescoço, na verdade o corpo, de todos no Campus universitário.

‘Você é uma vadia.’ Outra sentenciou.

Tomoyo entrou em surto com aquela agressão gratuita à prima. ‘Oras, sua...’

Sakura segurou o braço da amiga, pedindo que não se manifestasse. Olhou para o grupo de garotas a sua frente, pensando em quem eram elas para julgá-la, todas já haviam se metido em inúmeros escândalos, fofocas e boatos.

‘Não vale a pena.’ A ruiva falou, empurrando de leve a garota à sua frente e puxando a amiga para se afastarem do grupinho.

Tomoyo ainda falou alguns desaforos para elas, sendo puxada pelo braço por Sakura.

‘Você deveria ter respondido às provocações.’ Tomoyo falou para a prima quando já estavam entrando no refeitório. ‘Você e Li são o assunto do momento em todas as rodinhas. Todos estão pensando que estavam fazendo você-sabe-o-quê perto do muro da Biblioteca.’ A morena viu a amiga dar de ombros.

Era impressão dela ou Sakura realmente estava muito alheia e indiferente à tudo que estavam falando dela?

‘Tomoyo....’ A jovem chamou a amiga que a encarou. ‘Ele vai ficar aqui por mais três anos. Eu tenho que me acostumar ou vou enlouquecer. Com você, não há necessidade de esconder o que sinto. Syaoran mexe comigo. Ele me beijou ontem. Quer dizer, nós nos beijamos.’ Sakura percebeu que os olhos cor de violeta estavam arregalados.

‘E o que você vai fazer com relação ao Makoto?’

‘A única coisa certa a ser feita, Tomoyo. Terminar esse namoro de fachada.’ Ela colocou uma mão no queixo e pensou por um momento. ‘Acho que o certo seria ele terminar comigo, não é? Pensando friamente, eu realmente o traí.’

‘Sakura...’ A morena balançou a cabeça e fechou os olhos, pensando no que falar para a amiga. ‘Você tem certeza? Ontem ele não parecia nem um pouco disposto a terminar o namoro. Ele pareceu mais disposto a sumir com o Li da face da Terra.’

A ruiva deu um longo suspiro e tirou um papel do bolso da calça jeans. Era o receituário com o antiinflamatório que o enfermeiro tinha pedido para dar ao rapaz, achando que eles eram namorados. Na hora não tinha sentido ficar discutindo e explicando que não eram namorados. O importante era o senhor finalizar os pontos dos ferimentos do rapaz.

Tomoyo olhou o papel com curiosidade.

'Preciso comprar esse remédio depois do almoço e levar para Syaoran. Ele precisa tomar ou aqueles ferimentos podem inflamar.'

‘Se quer minha opinião...’ Tomoyo começou a falar. ‘Você está usando isso como desculpa para se aproximar dele.’

‘Talvez.’ Ela respondeu com sinceridade. ‘Mas, sinceramente, não consigo controlar esta força que me empurra para ele.’

‘Vocês precisam resolver melhor isso.’ A morena falou, colocando uma mão no ombro da amiga. ‘Ele falou porque voltou?’

‘Para cursar faculdade de Engenharia.’

‘Essa foi a desculpa dele para estar matriculado no mesmo Campus que você. Estou perguntando o verdadeiro motivo que o fez voltar para o Japão?’

Sakura balançou a cabeça e soltou um longo suspiro. ‘Eu também nem sei se quero saber o porquê.’

Tomoyo a observou em silêncio por alguns momentos. ‘Só está feliz por ele estar aqui, não é?’

‘Não!’ A ruiva respondeu, quase gritando. Fitou a amiga e pôde ver que ela não tinha acreditado na resposta. Balançou a cabeça de leve. ‘Eu, sinceramente, não sei.’

Sentiu quando Tomoyo a enlaçou e lhe deu um abraço daqueles bem apertados como quando eram crianças. ‘Quero que seja muito feliz, Sakura.’

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Sakura saiu da farmácia com um pacote de remédios, antisséptico e ataduras. Respirou fundo relembrando da sua conversa com a prima antes do almoço. Tomoyo tinha uma ótima percepção das coisas e, realmente, a explicação dela era bem plausível.

Fechou os olhos e abriu um sorriso, localizando com facilidade, onde estava Syaoran. Era fácil sentir aquela presença morna e aconchegante do pequeno lobo. Arregalou os olhos com seus próprios pensamentos. Ela sabia que estava caminhando na tênue linha entre a felicidade e o sofrimento.

Andou decidida em direção à irmandade à qual Syaoran pertencia: KΩε. Ela pensou que era até meio óbvio que o rapaz conseguisse uma vaga nela, ele mesmo tinha feito questão de falar que só traria mais prestígio pelo seu desempenho acadêmico.

Ele estava bem cheio de si mesmo. Era uma irmandade apenas de homens, os taxados como nerds, que tiravam notas altíssimas. Naquela irmandade, não tinha muita questão política, não existiam indicações, era questão mesmo de nota e desempenho acadêmico. Coeficiente de Rendimento, era isso que definia se você estava dentro ou fora. Como era uma irmandade de conteúdo intelectual alto, também recebia muito dinheiro e excelentes bolsas de estudo para graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. O poderoso e irritante, na opinião dela, Clã Li devia estar investindo muito dinheiro ali.

Ela respirou fundo, subiu a escada que levava à porta do belo prédio. Tocou a campainha e logo foi atendida por um rapaz de óculos. Ele pareceu espantado em vê-la à sua frente.

Sakura levantou o braço, mostrando o pacote com os medicamentos. ‘Preciso entregar isso a Syaoran Li.’

O rapaz fez um sinal positivo com a cabeça e abriu a porta para ela entrar. ‘Você é Sakura Kinomoto?’ Ele não resistiu em perguntar, ao que ela apenas confirmou com a cabeça. ‘Como vocês conseguiram sobreviver àquele maníaco?!’

‘Acho que foi sorte.’ Ela respondeu, dando de ombros. ‘Estou com pressa, preciso entregar logo isso aqui para ele.’ Ela falou, já se afastando do rapaz.

‘O número do quarto dele é 401.’ O rapaz avisou.

Ela se deu conta que cometeu uma gafe ao não perguntar. Era tão fácil identificar a aura do rapaz e se guiar por ela que esses detalhes passavam despercebidos.

‘Mas pelo jeito já sabe onde é, não é verdade?’ Foi o comentário malicioso e Sakura percebeu muito bem o tom.

Era muito comum casais jovens burlarem as regras das irmandades e se encontrarem em seus dormitórios para namorar. Em teoria, era proibido sexo nos alojamentos estudantis, mas todo mundo sabia que rolava e não tinha muito como impedir isso.

Ela não respondeu, simplesmente, afastando-se dele para evitar mais comentários maliciosos. Não era platéia de doido. Caminhou entre os corredores bem limpos e arrumados da irmandade de rapazes, observando que alguns pararam seus afazeres para vê-la cruzar os domínios dos nerds da Universidade de Tomoeda.

Parou em frente à porta do apartamento de Li e bateu suavemente. Ouviu um “Já vai” vindo de trás da porta, mas não era a voz de Syaoran, então deveria ser do colega de quarto dele. A porta logo se abriu e o rosto sorridente de um rapaz apareceu fitando-a com um misto de curiosidade e fascínio.

‘Olá, senhorita Kinomoto! Sou Yuo Kurogane, colega de quarto do Li.’

Era impressão dela ou o rapaz já a estava esperando?

Ele estendeu a mão e Sakura a apertou, cumprimentando o rapaz. Ele abriu a porta para ela passar e olhou para os colegas de irmandade que os estavam observando.

‘Hei, não têm o que fazer, não?! Vão estudar!!’ O rapaz falou irritado, entrando no quarto e batendo a porta atrás de si. ‘O Li me avisou que você estava vindo e pediu para eu abrir a porta enquanto ele terminava o banho. Acho que ele se atrasou ao encontro de vocês.’ Explicou, sorrindo.

Sakura abriu e fechou a boca, sem saber direito o que falar. Não contava já ser esperada por Syaoran, mas depois pensou no óbvio: ele, provavelmente, também sentiu a aproximação da sua presença e deduziu.

‘Bem... eu vou deixar vocês à vontade. Vou... hã... vou estudar na biblioteca.’ Avisou, pegando um livro qualquer que estava na escrivaninha e saiu do quarto.

Sakura não teve como não rir da situação constrangedora em que tinha colocado o rapaz. Será que ele estava pensando que eles gostariam de ficar sozinhos para transar? Será que não sabia que Syaoran estava muito machucado e qualquer movimento mais brusco arrebentaria todos os pontos?

Seus olhos foram até as duas camas que existiam no quarto do rapaz. Os móveis eram bem parecidos com os da irmandade a que ela pertencia. Nunca tinha entrado em nenhum outro quarto da universidade.

Namorava Makoto há alguns meses, mas não tinham transado ainda. Não por falta de insistência do rapaz, que já estava subindo pelas paredes, mas porque ela não se sentia preparada para isso.

Colocou o pacote branco da farmácia em cima de uma das mesas e observou um porta-retrato com uma foto que devia ter sido tirada há alguns anos, mostrando um Syaoran, com aquele típico desconcerto da adolescência, ao lado de Wei, das irmãs e da mãe. Yelan tinha sido bem dura com ela na última vez que se falaram, mas não foi agressiva, apenas deixou clara a situação em que os dois se encontravam. Além disso, eles eram quase crianças ainda, não tinha mesmo cabimento levar aquele namoro a sério.

Li saiu do banho. Estava vestido, mas com os cabelos molhados. Sakura, involuntariamente, inalou o perfume do sabonete. Sentia prazer em fazer isso. ‘Trouxe seus medicamentos. A receita acabou ficando comigo.’ Ela explicou sua presença ali, mostrando o pacote branco.

‘Ah, claro... Os remédios.’ Ele falou um pouco decepcionado ao lembrar dos remédios. Caminhou até a jovem que lhe estendia uma pequena caixa com os comprimidos de anti-inflamatório.

‘Este é uma vez ao dia.’ Ela explicou, olhando para o relógio na mesa de cabeceira e verificando a hora. Duas da tarde. Pegou uma caneta e pediu a caixa de volta, anotando o horário para que o rapaz não se esquecesse de tomar. ‘São sete dias consecutivos. Tem sete comprimidos aqui, então não tem como deixar passar um.’

O rapaz colocou o remédio na boca e tomou um gole de água direto de uma das garrafas que tirou da pequena geladeira que tinha no quarto. Voltou a fitar a jovem que estava de costas para ele, tirando o resto do que tinha trazido.

‘Bem, preciso que tire a camisa, aposto que não conseguiu limpar os ferimentos.’ Ela falou, abrindo o frasco de antisséptico e fazendo o cheiro do álcool inundar o quarto.

Sakura molhou uma gaze e se virou para o rapaz que estava parado a alguns passos dela. Franziu a testa, pensando que ele estava meio bobo. Com um gesto da cabeça, indicou a ele uma cadeira. ‘Melhor você se sentar, você é muito alto para eu conseguir limpar tudo direito de outro jeito.’

‘Claro.’ Ele caminhou até a cadeira e a puxou de perto da mesa, aproximando-a da enfermeira. Franziu a testa novamente, ainda indeciso, se tirava ou não a camisa com Sakura no quarto.

Ela tirou os olhos do que estava fazendo e virou-se para o rapaz. ‘Vai ter que tirar toda a roupa, Syaoran. Você tem um corte bem grande na coxa também, lembra-se?’

‘Toda?’ Ele repetiu, atordoado. Sakura sorriu e balançou a cabeça de leve.

‘A cueca não é preciso.’ Ela esclareceu para ele. ‘Pelo que eu saiba você não foi atingido em suas partes baixas.’ Sakura falou brincando, mas estava realmente divertindo-se ao ver aquele rapaz enorme a sua frente, vermelho como um tomate pela timidez. ‘Ou foi?’ Ela sabia que era maldade, mas não resistiu.

‘Não.’ Ele esclareceu rapidamente.

Bateu de leve uma mão na outra, em clara indicação de que realmente estava nervoso. Por fim, tirou a camisa, soltando um gemido de dor pelo movimento. Depois, ele abriu o botão da calça e a tirou também.

Sakura não tirava os olhos dele, não conseguia. Novamente mordeu o lábio inferior de pura excitação, sentindo o coração acelerar.

Li caminhou até ela e sentou na cadeira, com os braços no apoio da cadeira e o queixo sobre eles, deixando as costas livres para que ela fizesse a limpeza dos seus ferimentos.

A ruiva sacudiu um pouco a cabeça para fazer com que recuperasse o juízo. Pegou a gaze embebida pelo antisséptico e começou a limpar os grandes ferimentos das costas do rapaz. Estava bem feio, ela constatou, franzindo a testa. Se ele desse mole acabaria infeccionando e isso seria uma droga para cicatrizar.

Ficaram em silêncio. Sakura limpava o ferimento e Syaoran fechou os olhos, apenas aproveitando de forma prazerosa aquele cuidado da mestra das cartas. Ele até pensou em falar que não era preciso ela fazer isso, mas já que ela estava ali, oferecendo-se para aquilo, não pensou em recusar.

Não recusaria uma chance de estar perto de Sakura. Quando sentiu a aproximação da aura dela, correu tomar banho para estar apresentável para ela. Tinha dormido a manhã inteira, exausto por todo o esforço físico da madrugada passada.

‘Você comeu?’ Ouviu-a perguntar.

‘Ainda não’. Respondeu sem abrir os olhos.

‘Precisa se alimentar para que sua cicatrização seja rápida, Syaoran. Não sabemos quando vamos ter que enfrentar novamente aquela besta.’ Ela o alertou e estava certa. Não dava para eles deixarem que outra pessoa morresse daquela forma tão terrível.

‘Eu sei. Não se preocupe, vou me cuidar.’

‘Onde arranjou tantos ferimentos?’ Ela perguntou assim que finalizou a limpeza dos pontos, inclinando as costas e observando as marcas que ele tinha.

Syaoran pôde sentir os dedinhos dela passando por algumas velhas cicatrizes. Sorriu de puro prazer em sentir o toque dela diretamente em sua pele.

‘Foi naquele treinamento louco que você fez?’ Ele respondeu que sim com a cabeça sem emitir nenhum som. ‘A sua família é louca, Syaoran. Isso não é treinamento, é loucura.’ Ela falou com sinceridade.

‘Não é loucura, é tradição.’

‘Não é tradição, é desculpa para maltratá-lo.’

Ele arregalou os olhos e voltou-se para Sakura que ficou ereta. Ele queria falar para ela o que realmente tinha acontecido desde que voltou para a China sem as cartas Clow, mas desistiu. Era melhor ela não saber.

‘Acho que já terminou de limpar tudo, não foi?’ Perguntou a fim de mudar o assunto entre eles.

Sakura inclinou-se parando com o rosto bem próximo ao dele e o encarando nos olhos. ‘Tem uma sombra atrás dos seus olhos, Syaoran. Você não me engana.’ Ela falou de forma perigosamente baixa, fazendo-o engolir em seco. Sakura afastou-se e voltou a pegar algo de dentro do pacote. ‘Agora é só colocar a faixa e poderemos ir para o ferimento da sua coxa.’

‘Não precisa, este eu consigo fazer sozinho. O das costas é que é complicado.’ O rapaz falou, queria que a jovem fosse embora. Tinha receio que ela puxasse uma carta e conseguisse ler seus pensamentos, descobrindo tudo.

‘Eu sei que você pode fazer isso sozinho, mas eu quero ter certeza que está tudo certo.’ Sakura falou rasgando a embalagem da bandagem e se aproximando do rapaz. ‘Melhor você se levantar agora.’ Ele obedeceu sem falar nada. ‘Afaste um pouco os braços’. Pediu, aproximando-se dele e praticamente o abraçando para envolver a bandagem no corpo do rapaz.

Li fechou os olhos e respirou fundo sentindo o perfume que emanava dos cabelos cor de mel. Era algo entorpecente. Que vontade de pegar Sakura no colo e levá-la para sua cama para poderem se amar, que vontade louca que tinha de sentir novamente os lábios da feiticeira, de sentir o gosto da pele dela.

Sakura percebeu que a respiração do rapaz estava mais ofegante, não era ingênua para não entender o que estava acontecendo com ele.

‘Pronto, pode se sentar. Eu vou ao banheiro lavar as mãos para começar o outro curativo.’ Falou, caminhando em direção ao banheiro e dando tempo para que Li esfriasse.

Ela o queria também, sabia disso, mas não agora. Ainda estava magoada demais. Além disso, ainda não estava tudo totalmente claro em seu coração com relação a Syaoran Li.

Tinha realmente medo de se entregar a ele, sabendo que ele poderia ir embora para a China, deixando-a novamente. Não queria isso. Não queria alcançar o paraíso para depois cair direto no inferno.

‘Prefiro ficar no purgatório.’ Pensou alto enquanto esfregava as mãos debaixo da torneira.

Levantou o rosto e fitou sua imagem no espelho. Não se achava bonita, no fundo, incomodava-se com aquele ar infantil que parecia ainda ter. Gostaria de ser mais madura e adulta. Secou as mãos e prendeu o cabelo num coque alto. Abriu de novo a torneira e molhou o rosto e a nuca.

Não era só Syaoran que estava com a libido a mil. Precisava ficar fria também ou era bem capaz de fazer algo de que se arrependeria para sempre. Secou o rosto com a toalha e sentiu novamente o perfume maravilhoso e entorpecente do rapaz. Abriu um sorriso. Ouviu um barulho vindo do quarto e abriu a porta.

‘Está muito quente aqui dentro.’ Explicou Li, ligando o ar condicionado. O barulho que havia escutado provavelmente era da janela se fechando. ‘Muito quente.’ O rapaz repetiu antes de sentar novamente na cadeira, mas agora de frente para que a jovem tivesse acesso ao ferimento da coxa.

Sakura caminhou até ele e pegou o que precisava, limpou o ferimento com cuidado, passou a pomada recomendada pelo enfermeiro e cobriu com a atadura. ‘Pode se vestir agora.’ Ela falou. ‘Precisa de ajuda?’

‘Não. Eu consigo sozinho.’ Syaoran respondeu, enquanto pegava suas roupas.

O rapaz pensou que, se ela viesse todo dia fazer isso, ele não conseguiria se segurar durante muito tempo. Tinha que dar um jeito de fazer aqueles curativos sozinho ou não se responsabilizaria por ela. Estava louco para voltar a agarrá-la, como tinha feito quando a encontrou no campus andando sozinha. Cerrou os punhos, tentando controlar a vontade de fazer isso e segurando seus hormônios. Sakura estava magoada com ele, o que era compreensível.

Olhou para a bela moça a sua frente e não pôde deixar de pensar que, se ele fizesse isso, ela retribuiria. Como daquela vez. Mas não era o correto, não é? Desviou os olhos dela, também estava machucado, era melhor ser comedido, como o enfermeiro tarado tinha recomendado. Tinha que ficar frio agora.

A jovem observou o rapaz à sua frente e percebeu que ele cerrou os punhos. Se bem se lembrava do namoradinho de infância, ele sempre fazia isso quando se sentia encurralado.

‘Bem, eu já vou indo.’ Ela falou, observando-o abrir os olhos e encará-la de forma profunda. ‘Não se martirize, Syaoran. Tudo no final vai dar certo. Vamos pegar aquele bicho, ou sei lá o quê, da próxima vez.’ Tentou animá-lo pensando que o jovem estava se martirizando por ter falhado no ataque da noite passada.

Syaoran sorriu. ‘Tenho certeza que sim.’

Continua.

Notas finais
Capítulo publicado em Abril de 2016 Capítulo editado em Novembro de 2016