FEITICEIROS

3 Quem tem medo do lobo mau?


FEITICEIROS

Kath Klein

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiraguizawa

Capítulo 03

Quem tem medo do lobo mau?

Syaoran estava estudando no dormitório, fazia alguns exercícios a fim de se preparar para a prova da próxima semana. Como estava entrando no meio do período, teve que correr atrás do atraso. Por mais que as matérias fossem parecidas nas duas Universidades, o conteúdo era um pouco diferente devido a dinâmica de cada professor. Estava um pouco impaciente, já que também dormia pouco devido aos últimos acontecimentos. Respirou fundo e tentou se concentrar, mas era fácil distrair-se tentando procurar a presença de Sakura pelo Campus.

‘Droga.’ Soltou batendo o lápis de forma frenética na mesa.

‘Você está me irritando batendo este lápis, Li. Por que não pede mais tempo para o professor Amiano?’ Ouviu a voz de Kurogane, que tentava como ele, estudar. ‘Se continuar assim vai acabar explodindo.’ O rapaz comentou tirando os olhos dos livros e fitando o colega.

‘Não é isso... estou me distraindo muito.’ Li falou largando o lápis e pegando a borracha. Tinha errado um cálculo. Teria que refazer o exercício. ‘Não adianta ter mais tempo se o que eu faço é ficar procurando-a o tempo todo.’ Falou quase amassando o papel enquanto passava freneticamente a borracha.

‘Procurando quem? Ah, sim... Kinomoto.’ Kurogane falou sorrindo. ‘Esta garota vai acabar contigo. Não sei no que vocês estão metidos, mas este monte de machucados em vocês, está cheirando a coisa errada... e muito pervertida.’ Comentou estreitando os olhos para o amigo que voltou-se para ele surpreso. ‘Vocês adoram se colocar em perigo, não é?’

‘Para de besteira e me deixa estudar.’ Li falou voltando a rabiscar no caderno.

Ouviram batidas na porta. Kurogane abriu um sorriso maldoso. ‘Ora... ora... será que já é sua enfermeira particular?’ Perguntou referindo-se a jovem ruiva que vinha todos os dias fazer os curativos de Li. Passou os olhos pelo relógio. ‘Hoje ela veio mais cedo... deve estar ansiosa.’ Brincou levantando-se. Li franziu a testa, sentia a presença de Sakura de longe. Não era a jovem que batia na porta deles.

‘Aposto que é para você... uma das suas inúmeras namoradas.’ O chinês comentou sabendo que não era Sakura. ‘Quer apostar?’

Kurogane voltou-se para ele. ‘Hum...’ Murmurou. ‘Quanta confiança...’ Ele caminhou até a porta e a abriu. Deparou-se com dois olhos violetas belíssimos, fitando-o.

‘Por favor, gostaria de falar com o Li.’ A jovem morena pediu com educação deixando o rapaz sem palavras. Estava à frente de uma princesa, com uma voz tão suave que parecia cantar em seus ouvidos. Estava apaixonado. O cupido tinha acertado uma flecha certeira em seu coração cafajeste.

Tomoyo o fitou por alguns instantes esperando uma reação do jovem. ‘Você está bem?’ Perguntou para o rapaz que permanecia estático. Kurogane arregalou os olhos voltando a terra.

‘Não... sim... quer dizer.... eu estou ótimo...’ Falou atrapalhado.

‘E então... o Li está?’ Ela insistiu na pergunta.

‘O Li?’ Ele repetiu bobo.

Tomoyo sorriu para ele e agora sim o rapaz sentiu o cupido arrancando seu coração de forma brincalhona. Podia ver o rosto da jovem envolto de estrelas brilhantes enquanto flores brotavam de seus longos cabelos negros.

‘Exatamente... o Li.’ Ela repetiu e olhou o papelzinho que trazia nas mãos. ‘O alojamento dele é este, não é? 401. Estou certa?’

‘Você sempre estará certa, princesa...’ Falou completamente abobalhado.

Syaoran tirou os olhos dos livros e voltou-se para a porta onde o amigo demorava–se para atender quem quer tivesse batido. Sabia que não era Sakura, mas tinha ficado curioso. Debruçou a cadeira para trás, ficando esta apoiada em apenas dois pés para poder ver quem estava a porta. Arregalou os olhos reconhecendo a amiga de infância. O que Tomoyo estaria fazendo ali? Esticou mais o pescoço, chegando ao limite da cadeira e se desequilibrando. Teve que dar um rolamento para não se machucar com a queda.

Kurogane e Tomoyo, voltaram-se para o cômodo enquanto o rapaz se levantava e caminhava até a cadeira para colocá-la no lugar. Tomoyo o fitou e tentou sorrir, mas estava tensa. Sabia que a conversa com o amigo de infância seria difícil, além disso... olhou discretamente para o rapaz bobo ao seu lado, teria que ser particular.

‘Boa tarde, Li.’ Ela o cumprimentou. ‘Preciso falar com você.’

‘Por favor, entre.’ Kurogane finalmente deu passagem para a jovem que entrou no alojamento masculino um pouco nervosa. Tinha tomado a decisão de conversar com Li sem falar com Sakura e num rompante matou aula de uma das disciplinas, para estar ali no dormitório masculino da faculdade.

‘Obrigada.’ Ela agradeceu sem graça. Parou a frente de Li e o fitou intensamente. ‘Precisamos conversar.’ Ele acenou que sim com a cabeça. ‘Tem que ser particular, você sabe.’

‘Sim... claro... Você quer ir a algum lugar?’ Li perguntou.

‘Não. É melhor aqui.’ Ela voltou-se para Kurogane que observava os dois. ‘Seria possível nos deixar a sós?’

‘A sós? Aqui?’ Kurogane perguntou surpreso sem querer. Ela sorriu para ele e confirmou.

Li pegou o livro que o rapaz estava estudando e estendeu para ele. ‘Tem como continuar estudando na biblioteca?’

O jovem adoraria dizer que não, e que não queria deixar a sua princesa sozinha, com o amigo de dormitório, no alojamento deles. Li já tinha Kinomoto, não era justo o rapaz ficar recebendo visitas particulares daquela maneira, pensava esquecendo-se que ele mesmo já obrigara o colega a dormir várias vezes na sala de estudo da Irmandade porque estava recebendo visitas também. Fechou a cara e pegou o livro a contra gosto da mão de Li.

‘Isso não está certo! Agora é você que anda recebendo visita particular o tempo todo. Daqui a pouco vem a sua outra namorada e aí eu vou ter que ficar o dia inteiro estudando na biblioteca.’ Falou irritado.

Li ergueu uma sobrancelha para o colega e sorriu, pelo jeito o rapaz tinha gostado de Tomoyo e mostrava-se levemente enciumado. Kurogane era um galinha, não permitiria que a morena se relacionasse com ele. Agora é que não faria questão de apresentar os dois. ‘Está me devendo, Kurogane. Cai fora daqui.’ Falou vendo-o mais irritado. Ele bufou um pouco antes de sair batendo a porta com força. Voltou logo em seguida.

‘E te dou meia hora e só!’ Falou e depois bateu novamente a porta deixando finalmente Tomoyo e Li sozinhos.

‘Acho que ele ficou um pouco bravo.’ A morena comentou sem entender.

‘Ele ficou com ciúmes.’ Li clarificou. ‘Ele gostou de você.’ Completou sorrindo e achou mais graça ainda vendo a morena com o rosto levemente corado. Ela era tão branquinha que qualquer sinal de enrubescimento era fácil de identificar.

‘Hã?’ Falou sem graça. Realmente procurar um rapaz no seu dormitório era por demais comprometedor. Ela sabia disto, mas tinha que resolver algumas questões com Li. Não pensou muito.

‘O que quer falar comigo, Daidouji?’

Ela fechou os olhos por alguns instantes apertando as mãos de leve. Ele percebeu que ela estava nervosa. ‘Precisamos falar sobre Sakura.’

‘Sim, eu sei que foi por causa dela que veio aqui. O que quer saber de mim?’

Ela o fitou por alguns instantes e teve que dar razão a amiga, Li estava um rapaz lindo. ‘Ela sofreu muito por você, sabia?’ Ele acenou que sim com a cabeça. ‘Eu estive com ela este tempo todo e sei o quanto ela sofreu com a sua indiferença.’

‘Eu não tive escolha.’ Li falou encarando a jovem. ‘Não foi fácil para mim também.’

Ela deu um passo a frente se aproximando do rapaz. ‘Não consigo entender porque voltou. Você tem ideia do quanto ela sofreu e está sofrendo por você?’

‘Tenho.’

‘E mesmo assim insiste em ficar aqui no Japão?’

‘Eu não tenho escolha.’

‘Tenho vontade de matar você, Li. Tenho vontade de matar você, todas as vezes que observo os olhos de Sakura tristes, porque eu sei que o responsável por esta tristeza é você. Você sabe que eu sempre fui a favor da felicidade de Sakura e eu pensei que a felicidade dela fosse você.’

‘Eu sei disso, Daidouji. Eu lembro do que fez.’ Ele falou referindo-se ao esquema que ela e Meilyn fizeram para ele voltar ao Japão quando aprisionaram a carta vácuo.

‘Então porque teve coragem de sumir da vida dela depois de saber que ela o amava?’

‘Eu não tive escolha!’ Repetiu mais alterado encarando a jovem nos olhos. ‘Eu não tive.’ Falou devagar.

‘Por quê?’ Ela insistiu.

‘Eu não posso falar.’

‘Meilyn me contou.’ Ela falou e reparou que o rapaz deu um passo para trás, encarando-a surpresa.

‘O que Meilyn contou?’ Perguntou franzindo a testa. Se a prima tivesse dado com a língua nos dentes, brigaria feio com ela. Meilyn não tinha o direito de contar nada, sendo que ele tinha pedido segredo.

Tomoyo não desviou os olhos dele. ‘Ela me contou sobre o seu treinamento.’ Falou devagar e reparou que ele começou a ficar nervoso.

‘E o que ela falou sobre o meu treinamento? Meilyn é exagerada e dramática demais. Você não deve dar muito crédito para ela.’ A morena reparou na língua solta de Li.

Tomoyo deu mais um passo a frente ficando mais próxima do rapaz, estava com o rosto levantado ficando a centímetros do rosto dele. ‘Ela me contou chorando que estavam maltratando você e me fez jurar não contar isso para Sakura.’

‘Ela mentiu.’ Ele falou com os olhos tremendo. ‘Ela não entende nada.’

‘E porque você está nervoso assim?’

‘Eu não estou nervoso.’ Ele falou com a voz controlada. ‘O que exatamente você quer de mim, Daidouji?’ Perguntou a fim de finalizar aquela conversa.

‘Não posso pedir para você se afastar de Sakura, porque isso seria impossível tanto para ela como para você, mas que você acerte de uma vez sua situação com o clã.’

‘Eu estou tentando.’ Ele falou com sinceridade.

‘Meilyn me falou que Sakura nunca seria aceita pelo Clã.’

‘Exatamente.’ Ele concordou.

‘Então o que você vai fazer com relação a isso?’

‘Eu não sei ainda.’

Ficaram em silêncio se encarando. Li engoliu em seco. ‘Não conte para Sakura.’

‘Não farei isso, mas acho que você é quem deveria contar a ela o que realmente aconteceu contigo.’

‘Ela não precisa saber. Apenas se sentirá culpada por uma coisa que não teria controle.’ Esclareceu à amiga a espera de que ela entendesse. ‘Você a conhece como a palma de sua mão.’

Tomoyo concordou com a cabeça, respirou fundo e de forma demorada, sentia como se perdesse parte de sua alma. Desviou os olhos do rapaz pensando que ele estava certo. ‘E por que está aqui? Se o clã permitiu que estivesse aqui, é por algum motivo.’

‘Eles acham que eu vou pegar as cartas dela.’ Novamente foi sincero com ela. ‘Mas eu não vou fazer isso.’ Falou em seguida observando que a jovem o olhava assustada.

‘E o que pretende realmente fazer, Syaoran?’ Tomoyo perguntou para o rapaz, que arregalou os olhos, reparando que ela tinha o chamado pelo primeiro nome. A morena nunca tinha feito isso antes.

‘Estou ganhando tempo, Tomoyo.’ Respondeu chamando-a também pelo primeiro nome. ‘Estou ganhando tempo com eles.’

A morena reparou no que tinha dito e não pode deixar de se sentir bem ao ouvir o rapaz lhe chamando pelo primeiro nome. ‘E acha que vai enganá-los até quando?’

‘Isso... eu já não sei.’ Falou suspirando e desviando os olhos da jovem. Passou a mão pelos cabelos pensando no que mais poderia falar para amiga para que ela soubesse o quanto ainda era apaixonado por Sakura.

‘Você sabe que Sakura ainda é louca por você, não é?’

‘Eu não sei... como você falou... ela está muito magoada comigo.’ Ele caminhou até a janela e percebeu que a presença da jovem feiticeira estava se aproximando.

Tomoyo se aproximou dele e tocou no seu braço chamando a atenção do rapaz. ‘Eu a consolei durante este tempo todo em que ela sofreu por sua ausência. Sakura vai da imensa tristeza a felicidade nos últimos tempos. Ela está tão feliz por você ter voltado, que ela não tem nem mais certeza se quer saber o porquê de você estar aqui.’ Li abriu a boca para interromper a jovem que continuou. ‘O que eu mais desejo no mundo é a felicidade dela e como eu lhe disse, se a felicidade dela é estar contigo, você pode ter certeza, Syaoran...’ Repetiu o nome dele devagar. ‘... eu vou fazer de tudo para você e ela estarem juntos.’

Syaoran desviou os olhos da jovem e sorriu de leve, pensou em como Sakura tinha sorte de ter uma amiga como Tomoyo em sua vida. ‘Eu sei disso.’

‘Então, acerte sua situação com aquele bando de idiotas do seu clã e seja feliz com ela.’ Seu tom era de ordem e Li não teve como não sorrir pensando que era exatamente isso que ele mais desejava no mundo. Ele se assustou quando sentiu as mãos da jovem pegando seu rosto e o forçando a fitá-la. ‘Faça isso por vocês dois, Syaoran.’

Li arregalou os olhos, levou suas mãos até as da jovem que ainda tinha as dela no seu rosto. ‘Eu vou fazer isso, Tomoyo.’ Ela sorriu para ele e virou o rosto do rapaz beijando sua face de forma demorada. Li sorriu.

Ouviram batidas na porta e o rapaz olhou para a jovem. Afastaram-se. ‘É Sakura.’ Ele esclareceu para a morena. ‘A presença dela...’

‘Oh... ela não vai sossegar enquanto não souber o que eu vim fazer aqui.’ Tomoyo falou aflita. Syaoran tinha que dar razão a ela. Sakura tinha se tornado uma jovem bem questionadora. Espremeria os dois até arrancar deles o que queria e isso poderia colocar em xeque o que o rapaz gostaria que se mantivesse em segredo. Mas não sabia o que fazer, deveria ter pedido para Tomoyo ir embora antes, quando sentiu a presença de Sakura se aproximando, mas não pensou que ela viesse tão rápido. Parecia que a jovem tinha usado Alada ou Corrida.

Tomoyo foi até a janela e olhou para fora. ‘É muito alta.’

‘Você quer mesmo sair pela minha janela?’ O rapaz se surpreendeu com a morena.

‘Vai ser uma droga se ela me vir aqui.’ A morena falou e sabia que Li pensava a mesma coisa. ‘Syaoran, eu não tenho poderes mágicos. Desça-me daqui logo.’ Ordenou para o rapaz.

Sakura bateu novamente na porta. Li gritou já vai e pegou um dos seus ôfuros. ‘Se ela desconfia disto, estamos os dois ferrados.’

‘Então, seja rápido.’ A jovem falou subindo no batente da janela e se segurando nela.

‘Tomoyo.’ Ele a chamou, fazendo-a voltar-se para ele. ‘Obrigado.’ Agradeceu.

Ela sorriu. ‘Apenas faça o que é certo para você e para ela, Syaoran.’ Ela voltou-se para trás. ‘Agora, me tire daqui logo.’

O chinês sorriu de lado. ‘Flores do vento.’ Invocou sua magia que circulou a jovem fazendo-a descer devagar e em segurança até o chão. Olhou pela janela e pediu a Deus que ninguém tivesse visto aquilo. Tomoyo deu um aceno para o rapaz e virou-se caminhando devagar e se afastando do jardim lateral da irmandade. Li ainda ficou um tempo observando a jovem, até que as batidas de Sakura novamente o alertaram que ela estava lhe esperando.

‘Syaoran?’ Ouviu a voz amada. ‘Você está bem?’

‘Nunca estive melhor.’ Ele respondeu baixinho e sorrindo. Caminhou até a porta para abri-la e finalmente deparar-se com as belas e amadas esmeraldas.

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Tomoyo, Sakura e Li estavam em frente à Biblioteca Central da cidade de Tomoeda. Sakura tinha ligado para Eriol na noite passada e falado com o amigo de infância por sugestão de Yue. Talvez ele pudesse ajudá-la e Syaoran, a entender o que era aquela criatura que enfrentaram alguns dias atrás. Hiraguizawa não pareceu surpreso com o que tinha acontecido. Sakura teve a impressão de que a reencarnação de Clow tinha ficado mais surpreso, era com o fato de que Li estava de volta a Tomoeda.

‘Clow realmente falou que a gente pode achar alguma resposta aqui?’ Li perguntou para Sakura.

‘Sim, ele falou que dentro desta biblioteca tem uma câmara bem no final do corredor dos livros de ocultismo que pode ter algum material que nos ajude a entender o que nós combatemos há alguns dias’.

‘Não era mais fácil ele simplesmente ter lhe contado o que era... ou pelo menos o que ele achava que era e se tinha alguma teoria de como aquela criatura apareceu aqui em Tomoeda?’ Tomoyo perguntou com um tom irritado.

‘Bem, aí não seria Eriol Hiraguizawa.’ Li respondeu. Detestava aquilo em Clow. Tudo para ele era nas entrelinhas, nunca era de forma clara e objetiva. ‘Bem, vamos lá para ver o que achamos.’ O rapaz falou já subindo as escadas que levava para a entrada principal da grande biblioteca.

Sakura ainda ouviu Kero resmungar defendendo Clow do último comentário maldoso de Syaoran sobre o seu antigo mestre. As duas amigas foram atrás dele.

‘Nossa, que cheiro de mofo.' Sakura não pôde evitar comentar e completar com um espirro.

'Aqui é a parte mais escura da biblioteca, quase não entra luz e como a manutenção não é lá estas coisas.' Explicou Tomoyo, enquanto oferecia um lenço de papel para a amiga. Observou a jovem limpando o nariz e dando outro espirro. ‘ Não sabia que era alérgica a poeira.’

‘Nem eu.’ A jovem comentou, espirrando novamente. ‘Preciso de uma água.’ Falou parando e dando meia volta. ‘Vou ao bebedor na antessala. Encontro com vocês daqui a pouco.’

Tomoyo e Syaoran observaram a jovem caminhando pelo corredor. Ela ainda deu uns dois espirros mostrando que realmente tinha alergia ao pó daquele lugar.

‘Foi por pouco ontem.’ A jovem falou sabendo que a amiga não ouviria e riu. Depois pensando com calma quando chegou ao seu dormitório, tinha se dado conta da loucura que tinha feito.

Syaoran riu. ‘Você é maluca, Tomoyo.’ Falou caminhando em direção aos livros. ‘Mais do que eu pensava. Pelo menos você não filmou nada, não é?’ Perguntou em tom de brincadeira.

‘Claro que não!’ Ela falou acompanhando-o. ‘Você tem que resolver esta situação logo, Syaoran.’

‘Não me pressiona, Tomoyo.’

‘Então me prometa que não vai embora daqui a três anos.’ Ela insistiu.

‘Eu estou tentando.’ Ele rebateu.

‘E conta logo a verdade para Sakura.’

‘Eu não posso.’ Rebateu novamente.

Ela suspirou fundo. ‘Você é enrolado demais.’

‘E você simplifica tudo.’

Ouviram Sakura espirrar novamente e observaram a jovem caminhando lentamente ao encontro dos dois. ‘E aí? Acharam alguma coisa?’ Ela encarou os dois e levantou uma sobrancelha. ‘Vocês nem procuraram ainda.’ Constatou impaciente. Aquele cheiro e os espirros estavam irritando demais a feiticeira.

Li afastou-se de Tomoyo e foi em direção à câmara isolada. Sakura caminhou e parou ao lado de Tomoyo, não era burra para saber que eles tinham discutido e também não era burra para não deduzir que o motivo da discussão “educada” entre os dois era ela. Ia começar a falar alguma coisa com Tomoyo, quando Li chamou as duas.

‘Achei algo interessante.’ Ele falou com um livro nas mãos. Sakura leu mentalmente o título: “Lendas e criaturas das Trevas”. Pensou que o nome era muito clichê, deveria ser um roteiro de um filme de terror de segunda.

‘Eriol me paga por me mandar para cá.’ Sakura comentou antes de espirar mais uma vez. Tomoyo novamente lhe entregou outro lenço de papel.

Syaoran pegou mais uns cinco livros. ‘Acho melhor a gente estudá-los num lugar menos empoeirado.’ Sugeriu observando o rosto vermelho da ruiva, consequência dos seus inúmeros e incontroláveis espirros.

Sentaram-se em uma mesa num dos cantos da biblioteca e cada um pegou um livro. Sakura tentou pegar o menos empoeirado, mas ainda tinha o lenço cobrindo o seu nariz e boca para diminuir a reação alérgica. Kero estava ainda dentro da mochila aberta da Mestra em cima da mesa de estudos do grupo, fingindo ser um bichinho de pelúcia para não levantar suspeita de alguns estudantes que também estavam, lendo ou estudando no grande salão, logo pegou no sono e estava dormindo dentro da bolsa.

Tomoyo observou o casal a sua frente, estavam concentrados na pesquisa, mas volta e meia se tocavam com uma desculpa qualquer. Ela deixou cair o lápis que tinha entre os dedos e abaixou observando as pernas dos seus amigos, como imaginava, estavam encostadas, era como se involuntariamente e sem eles mesmos perceberem, se aproximassem. Podia não entender de aura, magia e tal, mas de coração humano, isso ela era expert. O que tinha a sua frente era um casal completamente apaixonado um pelo outro e era só uma questão de tempo para que eles se entregassem a esta paixão. Tinha que dar um jeito daqueles dois cabeças dura se entenderem novamente. Suspirou de forma cansada.

‘Tomoyo?’ Sakura a chamou tirando os olhos do livro e fitando a amiga. ‘Você está suspirando?’

A morena arregalou os olhos de leve. ‘Não... só estou um pouco cansada.’ Respondeu imediatamente. A ruiva inclinou o corpo fitando a amiga mais de perto. ‘Você anda muito misteriosa, ontem não quis me dizer onde estava quando matou aula.’

Li tirou os olhos do livro e olhou de esguelha para a jovem ao seu lado. Tomoyo riu sem graça. ‘Eu não matei aula. Você sabe que eu não faço isso.’

‘Hoje de manhã aquele seu colega, Hitaru, me perguntou se você se sentia bem, pois achou que você tinha perdido a aula de ontem por estar doente’.

‘Hitaru é um desligado.’ Falou mal conseguindo controlar o nervosismo. Detestava mentir para a amiga.

Sakura franziu a testa. ‘Você está mentindo. Está ficando vermelha.’

‘Não...’ Ela falou balançando as mãos a frente de forma frenética. ‘Eu estava apenas dando um passeio.’

‘Achei algo.’ Li falou novamente, chamando a atenção das duas amigas e finalizando aquele interrogatório. Ele estendeu o livro a frente para que as jovens pudessem ver o que tinha achado. Tomoyo quase soltou outro suspiro de alívio, mas deteve-se. Sakura fitou a ilustração que Li mostrava.

‘Acho que este desenho é bem parecido com o que enfrentamos há alguns dias.’ A ruiva comentou e observou Li confirmar com a cabeça. Sakura tinha dado um cascudo em Kero para que o bichano acordasse e prestasse atenção na descoberta.

Li leu alguns trechos da descrição do Lobisomem para o grupo. Tudo se assemelhava a qualquer roteiro de filme de terror de segunda.

‘Bem aí, está dizendo que lobisomens morrem só com balas de prata. Será que dá para levar fé nesta informação?’ Perguntou Sakura.

‘Eu realmente não sei. Mas acho que não custa tentar’. Respondeu Li.

‘O que você acha, Kero?’ Sakura indagou ao seu guardião.

‘Lobisomens são criaturas tão mágicas quanto eu e Yue, só que como o próprio livro disse são seres pertencentes ao mundo das trevas. Às vezes eles surgem do nada e há lendas que tentam explicar a aparição deles como o mito do sétimo filho e tal. Acho que não custa tentar a tal bala de prata.’

Li respirou fundo e esticou o corpo estalando o pescoço para relaxar. Ficaram quase a tarde inteira enfurnados naquela biblioteca lendo e estudando um monte de livros de ocultismo. Estava cansado. Levantou-se e esticou um pouco as pernas. ‘Minha espada quando materializada é de prata de lei, acho que se eu conseguir atingir o coração da besta, a gente resolve esta questão.’

‘Só que fica a questão de como esta criatura conseguiu sair do mundo das trevas para o nosso.’ Kero comentou.

‘Isso fica para ser descoberto e resolvido depois, Kero.’ Tomoyo ponderou. ‘Acho que vocês tem que resolver um problema de cada vez.’ A morena falou fitando o casal a sua frente.

‘Tomoyo tem razão.’ Ponderou Sakura. ‘Um problema de cada vez.’

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Syaoran caminhava de forma apressada pelo Campus. Estava atrasado para uma das aulas de mecânica aplicada. Tinha uma maçã na boca enquanto ainda arrumava a mochila com os papéis e alguns livros. Estava distraído quando esbarrou numa moça que estava parada, pegou-a pelo punho evitando que ela caísse pelo forte impacto. Assim que percebeu que ela estava com o centro de equilíbrio restabelecido soltou o punho e tirou a maçã da boca.

‘Você está bem?’ Perguntou de forma educada. ‘Desculpe-me estou atrasado para minha aula.’ Explicou o motivo da distração finalmente observando a jovem.

Era uma das suas colegas de alguma matéria. Tinha pego tantas matérias naquele semestre que estava um pouco perdido, além disso não era muito social entre os colegas de turma.

‘Sem problema.’ Ela falou. Li tentou ultrapassá-la para continuar seu caminho até a sala de aula, mas a jovem não saiu do caminho. Ela estendeu um papel para ele. ‘Não quer ir à festa em comemoração ao aniversário da nossa universidade?’

Syaoran não era muito de festas. ‘Acho que não, não sou muito social.’ Tentou educadamente recusar o convite.

‘Seria muito importante que você e Kinomoto fossem. Vocês foram os herois sobreviventes do ataque do maníaco do Campus.’ Li se perguntou se realmente a garota pensava que este tipo de fama era algo positivo. ‘A cerveja e a comida vai ser tudo de graça.’ Continuou na tentativa de convencê-lo a aceitar o convite. ‘Além disso, vamos comemorar a segunda noite de lua cheia do mês, a Lua Azul.’ Syaoran pensou que, agora sim, a garota lhe dera uma informação interessante.

‘Eu vou pensar. Obrigado pelo convite.’ Ele falou pegando o papel da mão da moça e voltando sua atenção ao caminho até a sala de aula.

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‘Você tem certeza que o lobisomem vai atacar hoje?’ Sakura perguntou para Li que estava ao seu lado. Estavam sentados embaixo de uma árvore perto de onde acontecia a grande festa da faculdade. Todos, exatamente, todos os jovens estavam naquela festa, inclusive Tomoyo que cantaria junto com o coral para homenagear a tal lua cheia azul.

‘Bem, deixamos passar uma informação interessante que depois conferi. Todas as mortes aconteceram em noites de lua cheia.’

‘Claro.’ Sakura soltou batendo com a mão na testa. ‘Sinto-me como uma idiota. É clichê demais isso.’ Confessou para ele. A jovem tirou os olhos da construção e virou para o lado onde encontrou seu guardião da lua debruçado em uma árvore. Yue estava na penumbra, mantendo-se escondido para não chamar a atenção dos jovens. Kero estava num galho da mesma árvore. Syaoran exigiu que, se ela participasse novamente do confronto com o tal ser das trevas, os seus dois guardiões precisariam estar presentes para protegê-la, caso fosse necessário.

Yue soltou um suspiro um pouco entediado em ficar observando aqueles jovens entrando e saindo da grande construção. Não gostava muito de ficar naquela expectativa. Não queria confessar, mas sentiu-se muito satisfeito quando recebeu o telefonema de sua Mestra, solicitando sua presença.

‘Reparou como o nível de magia da Mestra cresceu desde que o descendente de Clow voltou, Kerberus?’

Kero observou o casal de feiticeiros sentado a poucos metros de distância. ‘Sim. Mas isso já era o esperando. Sakura ficou muito tempo sem usar magia.’

‘Exatamente por isso me surpreende esta evolução tão grande em tão pouco tempo.’

‘No que está pensando, Yue? Kerberus perguntou francamente para o guardião da lua, pois não conseguia achar uma explicação para a colocação do outro.

‘Eu não sei. Mas algo me diz que a sucessora e o descendente de Clow tem uma ligação que vai muito além do que nosso antigo mestre imaginou.’

‘Ou será que de alguma forma, Clow, talvez tenha arquitetado isso?’ O guardião dourado ponderou.

‘Talvez. Clow era um homem com muitos mistérios.’ Yue falou isso de forma amarga. Amava seu antigo mestre e criador, mas sabia que havia algo por trás de cada movimento daquele enigmático homem.

‘Tem algo que ainda não sabemos, mas que tenho a sensação que logo descobriremos mais alguma peça deste quebra cabeça.’

‘O que você acha deste negócio de lobisomem?’

‘Sinceramente, para mim isto é só a ponta do imenso iceberg em que estamos prontos para bater.’

‘Anda vendo muito filme romântico com Touya, Yue.’

O guardião da lua não aguentou e deu um cascudo bem forte na cabeçona de Kero. ‘Cala a boca.’

Os dois já começariam uma discussão, quando observaram um rapaz se aproximando do casal de feiticeiros. Não era o lobisomem, não tinha poder mágico nenhum envolvendo o rapaz. Mas a raiva que circulava o corpo do rapaz era fácil deles perceberem.

Makoto parou em frente aos dois encarando–os com ódio. Sakura nem ao menos tinha se dado ao trabalho de procurá-lo para tentar uma reparação do que havia acontecido algumas semanas atrás, ela simplesmente ignorou a sua existência. A jovem apoiou uma das mãos no chão e levantou fitando, o até agora namorado. Makoto desviou o olhar da amada e encarou com fúria Syaoran, podia jurar que o rapaz estava com um sorriso debochado nos lábios.

‘Você nem se deu ao trabalho de me explicar melhor o que aconteceu aquela noite.’ Makoto voltou a fitar Sakura. ‘E agora fica o tempo inteiro ao lado deste aí.’

‘Eu expliquei o que está acontecendo.’ Sakura retrucou. ‘Já lhe disse que sou uma feiticeira e estou aqui com “este aí” justamente esperando aquela coisa que nos atacou para tentar pará-lo.’

‘Você precisa da ajuda dele, não é?’ Ele relembrou das palavras dela. ‘E porque não precisa da minha ajuda?’

Syaoran não conseguiu impedir que um sorriso realmente debochado surgisse nos seus lábios. Oras era tão claro o porquê dele não poder ajudar Sakura em nada. Porque ele não mantinha a dignidade e se afastava logo da jovem?

‘Contaram-me que viram você e este chinês se beijando naquela noite mais cedo.’ O rapaz falou com um tom triste. Sakura ficou surpresa, não tinha imaginado que alguém tivesse visto o beijo ardente que tinha trocado com Li antes daquela besta aparecer. ‘Além disso, já me informaram que você vai todos, exatamente todos os dias, no alojamento dele.’

Sakura franziu a testa. ‘Anda me espionando, Makoto?’

‘Não, mas as pessoas não são cegas, Sakura. Você está me corneando com este aí sem nem ao menos tem a dignidade de terminar o nosso namoro.’ Ele pegou a mão da jovem, fazendo Li fechar o sorriso debochado. Não gostava quando tocavam na sua flor. Levantou-se parando um passo atrás da jovem, colocou a mão no bolso apertando a esfera negra. Se aquele idiota tentasse beijá-la na frente dele como fez questão de fazer há um tempo, ele o cortaria ao meio sem pestanejar.

A ruiva suspirou, pensando que realmente tinha esquecido que Makoto existia na Terra, simplesmente deletou a existência do namorado desde que Li havia lhe beijado daquela forma tão intensa, depois tudo foi uma avalanche de acontecimentos. Makoto não tinha espaço no mundo dela. Ele não tinha espaço no coração da jovem, pois este já estava completamente ocupado pelo chinês com aura verde esmeralda, a qual ela podia sentir e que sabia que estava atrás dela.

‘Você tem razão, lhe devo desculpas.’ Ela falou por fim de forma sincera para o rapaz. Li adoraria intervir e dizer que ela não tinha nada o que se desculpar para um idiota daqueles, mas tentou se controlar. Ele só queria que ela despachasse logo aquele cara dali e de preferência da vida dela de uma vez.

‘Assim é um bom começo.’ Makoto falou suavizando o rosto e tentando sorrir para ela. Ainda tinha a mão de Sakura presa a dele e ele a levou até a altura do peito. Li apertou mais forte a esfera negra. Era bom a ruiva terminar com isso ou ele mesmo terminaria com aquela palhaçada. ‘Eu te amo demais, Sakura. Você está apenas balançada por causa da volta deste cara, mas eu sei que no fundo do seu coração, você me ama também. Ele está confundindo você.’

‘Agora, chega!’ Li teve que se meter, empurrou o rapaz fazendo assim com que ele soltasse a mão de Sakura. ‘Cai fora.’ Falou entre os dentes.

‘Não se meta nisto, Syaoran.’ Sakura falou de forma perigosa. ‘Isso é assunto meu.’

Li retrucaria a jovem, afirmando que era assunto dele sim, mas sentiu um soco de Makoto no rosto. Agora sim tinha uma ótima desculpa para sentar o braço naquele idiota. Pegou o pescoço do rapaz e levantou-o olhando com fúria para ele. ‘Vou fazer você se arrepender do dia que colocou os olhos nela, imbecil.’

Sakura rodou os olhos com aquela demonstração exagerada de testosterona. Será que os rapazes não poderiam simplesmente resolver suas diferenças conversando? Tinha que ter toda aquela cena teatral de quinta?

‘Syaoran pare! Isto é assunto meu!’ Ela falou segurando o braço do rapaz. ‘Não se meta.’

Li tinha ainda o pescoço do rapaz bem preso nas suas mãos. Era só apertar mais um pouco e quebraria a traqueia dele. Makoto inutilmente tentava socar Syaoran para se livrar da mão de ferro. Por fim, o guerreiro chinês soltou o adversário que caiu tossindo no chão, tentado buscar ar para os pulmões. ‘Cai fora daqui.’ Ordenou novamente para Makoto.

Sakura deu um passo a frente de Li. ‘Isso é assunto meu, Syaoran.’ Repetiu incomodada. Ela se abaixou e fitou Makoto que estava sentado no chão ainda tentando se recuperar. ‘Desculpe-me por não ter lhe procurado, mas as coisas saíram do controle.’ Ele a fitou de forma apaixonada fazendo a jovem se sentir pior. ‘Makoto... a gente não pode mais continuar. Eu realmente sinto muito.’

‘Ela precisa ser mais clara contigo?’ Li se meteu novamente e recebeu um olhar em chamas como resposta pela intervenção. ‘Ah! Desisto.’ Falou irritado afastando-se dos dois e debruçando-se na árvore. ‘Droga.’ Falou irritado.

Sakura voltou-se para Makoto e o ajudou a se levantar. O rapaz agradeceu. ‘É melhor você ir, Makoto.’ Ela falou fazendo um gesto com a cabeça em direção a festa. ‘Tem certas coisas que não precisam ser ditas com todas as palavras.’ Ele sentiu que ali ela estava terminando com ele. ‘Eu sinto muito se te fiz sofrer... mas...’ Ela deteve-se por alguns segundos e se sentiu tentada a olhar par trás, na direção de Li, ele reparou nisto. ‘Não tem como você ter lugar na minha vida.’ Sakura o encarou novamente, encolhendo os ombros. ‘Eu sinto muito se estou lhe fazendo sofrer, juro que tentei gostar de você...’

‘É por causa dele, não é?’ O rapaz perguntou de forma triste e a viu acenando timidamente que sim com a cabeça. Ele deu um passo a frente e beijou a testa da jovem. ‘Eu não vou desistir de você’. Falou afastando-se dela, pois tinha percebido o chinês novamente se aproximando dos dois.

Sakura acompanhou com os olhos o corpo cabisbaixo do rapaz que até pouco tempo era seu namorado. Sentiu pena. No fundo tinha usado o rapaz por um tempo, como uma das tentativas de tocar a vida para frente sem Syaoran. Não foi correto o que fez e também não foi correta sua atitude, de simplesmente descartá-lo, mas estava longe de ser uma heroína politicamente correta. Estava completamente envolvida por Syaoran novamente e só não tinha simplesmente se entregado àquela paixão toda, porque sabia que sofreria com o retorno dele para China. Como ela mesma decidiu, preferiu permanecer no purgatório por três anos.

A figura do ex-namorado diluiu-se no meio da multidão de jovens que estavam chegando para o grande evento. Não pôde evitar que um suspiro de alívio saísse de seus lábios. Melhor um fim trágico do que uma tragédia sem fim, pensou para si. Makoto logo encontraria uma outra garota e esqueceria que ela existia.

‘Espero que este idiota não se aproxime de você novamente.’ Ouviu a voz de Li. ‘Se ele tentar lhe beijar novamente, eu corto ele ao meio.’ Ameaçou.

Sakura arqueou uma sobrancelha. Pelo que ela lembrava fora ele quem lhe forçou um beijo há algum tempo, e sabendo que ela era uma jovem comprometida. Se tinha alguém errado naquela história, era ele. Estava pronta para retrucar por puro divertimento em discutir com ele, quando sentiram a presença já conhecida da criatura das trevas. Ouviram um grito feminino, pelo jeito o bichão estava tão esfomeado que resolveu atacar a primeira pessoa que viu pelo caminho, deveria estar ainda se recuperando do último encontro com os feiticeiros.

‘Chave que guarda o poder da minha estrela, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e ofereça-os à valente Sakura que aceitou esta missão. LIBERTE-SE!’ invocou seu poder. ‘Vamos!’ chamou Yue e Kerberus já em suas forma original.

Syaoran já estava correndo em direção ao grito com a espada em punho. Correu atrás do rapaz. Sua cabeça funcionava a mil por hora pensando nas cartas e quais poderia usar, para combater aquela fera. Uma das prioridades era proteger Li e não permitir que ele se machucasse como da outra vez. ‘Escudo...’ Ela sussurrou sabendo que a carta a ouviria. ‘Conto contigo.’

Syaoran logo identificou a besta atacando uma garota tonta que estava indo para a festa sozinha. Pela quantidade de sangue que encontrou não deveria mais estar viva, achou melhor não pensar nisto e focar na destruição daquele ser das trevas de uma vez para evitar novas mortes. Saltou segurando um dos seus talismãs mágicos. ‘Deus do trovão, eu invoco o seu poder!’ Gritou e logo um raio atingiu a fera que urrou de dor finalmente soltando sua presa.

O jovem cravou sua espada nas costas do bichão, mas este num movimento brusco fez o rapaz cair no chão, soltando sua espada. Sem perder tempo a besta encarou o feiticeiro e ignorando a dor à estocada das costas, pulou para cima do rapaz que não pôde deixar de pensar que agora estava ferrado, a fera no entanto, bateu em algo e foi arremessada longe. Li sorriu de lado observando o escudo forte de Sakura, olhou rapidamente para trás e lá estavam as três figuras mágicas. Sakura segurando seu báculo mágico com seus dois guardiões em suas formas originais um de cada lado.

‘Poder inacreditável.’ Constatou observando a aura da jovem forte e brilhante.

‘Bola de fogo!’ Kerberus soltou seu poder na fera que foi lançada novamente para trás alguns metros batendo numa árvore. Mas isso não a deteve, ela avançou novamente agora na direção da Feiticeira que permaneceu parada, Yue parou a frente da Mestra e levantou os braços formando uma flecha de luz, atirou na fera que novamente tombou para trás. Estava claro que agora a desigualdade de forças era incrível.

Sakura rodou seu cetro mágico e correu em direção da fera, jogou duas cartas para cima, ‘Água! Gelo!’ A fera foi envolvida pela mágica e logo um enorme cubo de gelo apareceu à frente do grupo. Sakura parou ao lado de Syaoran que ainda estava no chão observando o ataque com curiosidade. ‘Quero que tome cuidado ao golpeá-lo no coração. Se não for certeiro este bicho feio nunca vai nos deixar em paz.’ Ela falou sem olhar para o rapaz. ‘Você não pode errar.’

‘Eu nunca erro.’ Ele retrucou, incomodado, levantando uma das mãos e fazendo a espada que estava largada no chão voar até a sua mão, como que puxada por um forte imã.

‘Ótimo.’ Ela falou. Os dois colocaram-se em posição de ataque, o plano era simples. Li tinha que acertar uma estocada certeira no coração da fera ou a coisa não teria fim. Como a feiticeira havia previsto, logo o ser das trevas conseguiu quebrar o bloco de gelo que o prendia espalhando pedaços para todos os lados. ‘Salto!’ Ela voou envolvida pela magia da carta e pulou na direção da fera para distraí-lo para que Li se aproximasse para atingi-lo. Yue e Kerberus observaram os dois jovens atacando a fera.

‘Estão muito perto do monstro, se atacarmos podemos feri-los.’ Kerberus rosnou.

Yue apertou os olhos observando sua Mestra saltando de um lado para o outro de forma segura e autoconfiante a fim de distrair o monstro para que Li se aproximasse. Ela não estava com medo, estava segura de seus poderes e confiava no parceiro de forma cega.

Li aproveitou uma brecha, parou na frente de Sakura e com um golpe perfeito deu a estocada fatal na fera, que ainda tentou golpeá-lo, pois o rapaz estava próximo o suficiente do lobisomem para pelo menos antes de morrer arrancar-lhe a cabeça com suas garras, no entanto ela bateu com força no escudo de Sakura que envolvia Li. O sangue da fera escorreu pela barreira mágica e após alguns segundos de agonia, o gigantesco animal se transformou numa nuvem de pó negro.

O jovem guerreiro estava com a respiração ofegante, realmente tinha depositado muita força no golpe, mas sabia que não poderia errar. Sentiu uma fincada nas costas informando que com o gesto brusco provavelmente tinha aberto o ferimento, já quase cicatrizado.

Ele levantou e caminhou até a sua espada que tinha ficado caída no chão assim que o mostro virou pó. Observou-a por alguns segundos pensando que aquela arma mágica novamente não tinha lhe decepcionado. Sakura parou ao seu lado, ele conseguia sentir a aura da jovem bem próxima, não precisava virar o rosto para saber que ela estava ali. ‘Suas costas estão sangrando, Syaoran. O combinado era você maneirar.’

‘Não deu.’ Ele respondeu em tom ríspido. Não estava gostando daquela proteção de Sakura. Será que ela simplesmente não poderia deixá-lo ser o herói e pronto.

‘Não sou uma princesa que precisa de um herói, Syaoran.’ Falou como se lesse seus pensamentos.

‘Não é isso.’ Falou trincando os dentes e transformando novamente sua espada na esfera negra para ser guardada. Sakura também estava pendurando sua chave no pescoço.

‘Sei...’ Falou afastando-se dele e caminhando em direção ao corpo da última vítima do lobisomem. Yue estava abaixado com um dos joelhos no chão observando o cadáver. Kerberus também não gostou de constatar que a garota já estava morta. ‘Logo a policia vai aparecer, é melhor vocês irem.’ Ela sugeriu para os guardiões. ‘Obrigada pela ajuda.’

Os dois estavam loucos para dizer que não tinham ajudado muito, mas aquela não era a hora. Logo aquele lugar se tornaria um pandemônio e realmente era melhor estarem longe dali. Yue fechou os olhos da jovem com pesar e encarou sua Mestra uma última vez antes de levantar voo com o tigre alado.

‘Vamos sair daqui.’ Sakura ouviu a voz de Li e ao longe podia ouvir o barulho de sirenes. Alguém já tinha chamado a polícia.

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Sakura entrou no quarto do seu alojamento, o dia já estava clareando. Observou Tomoyo dormindo, sentada na cama com um livro no colo. Provavelmente a amiga estava tentando esperá-la, mas foi vencida pelo sono. Kero não estava na sua gaveta-cama, provavelmente tinha ido com Yue para a casa de Touya. Seus dois guardiões andavam muito misteriosos ultimamente.

Na verdade desde que souberam que Syaoran tinha retornado, que foi quando o tal lobisomem apareceu. Tudo ao mesmo tempo. Talvez, de alguma forma, as duas situações estivessem interligadas. Syaoran foi taxativo em afirmar, que não diria o real motivo de seu retorno ao Japão e a jovem não tinha como se enganar achando que isso no fundo estava, além de causando cólicas de curiosidade, lhe magoando. Suas suposições do real motivo do guerreiro chinês ter retornado começavam em teorias românticas até suposições terríveis.

Tomoyo ouviu o barulho da amiga se locomovendo no quarto e acordou. ‘Sakura...’ Ela sussurrou observando a amiga que sorriu para ela informando que tudo tinha acabado bem. ‘Então, o plano deu certo, Graças a Deus.’ Ela constatou e observou a amiga confirmando com a cabeça. Sakura estava tirando as cartas mágicas do bolso e colocando-as no livro para escondê-las novamente embaixo do colchão.

‘Preciso de um banho.’ A ruiva falou já caminhando em direção ao banheiro. Tomoyo a esperou, tinha muitas perguntas e a principal era porque a amiga tinha chegado só aquela hora da manhã. Os olhos violeta fitaram o relógio que marcava 6:30AM. Era muito tempo desde que ocorreu a confusão que acabou com a festa de comemoração do aniversário do Campus universitário. Tinham descoberto mais um corpo mutilado, de uma jovem desta vez, e a morena não pôde negar que sentiu uma leve vertigem pensando que a vítima era sua adorada prima. A festa acabou, o Reitor mandou todos voltarem para seus alojamentos. Os policiais ficaram como loucos andando pelo Campus em busca do assassino, mas nem sinal dele. E nem sinal de Sakura e Li.

A ruiva saiu do banheiro com uma toalha enrolada no corpo e secando os cabelos longos úmidos. Tomoyo observou a amiga colocar uma camisola e sentar na beirada da cama. Ela abafou um bocejo com a mão.

‘Acho que vou dormir pelo menos um pouquinho.’ Falou pegando o relógio da mesinha de cabeceira. ‘Duvido que tenha aula de anatomia hoje depois da confusão toda de ontem.’

‘E onde estava para chegar só agora?’ A morena se odiou por perguntar, mas não conseguiu. Sakura tirou os olhos do relógio e fitou a amiga. ‘Você e Li se entenderam de uma vez?’ Perguntou com um fio de esperança que o rapaz tivesse resolvido tudo.

‘Estávamos no hospital. Syaoran acabou abrindo o ferimento das costas. O hospital estava cheio e por isso demorou mais do que o normal. Além disso, o cabeça dura falava o tempo todo que não era nada urgente e ficamos no final da fila.’

‘Mas ele está bem?’ Ela perguntou preocupada com o Li, Sakura respondeu que sim com a cabeça.

‘Ele é muito cabeça dura.’ Agora foi a vez da morena confirmar com a cabeça.

Sakura de repente caiu na gargalhada fazendo a amiga ficar em cólicas de curiosidade. Não tinha como não indagá-la. A ruiva limpou os olhos que já estavam molhados de tanto que a jovem feiticeira tinha rido. ‘O enfermeiro ficou insinuando o tempo todo que os pontos do Syaoran tinham aberto, porque tínhamos transando de forma selvagem.’

‘E não era o que você gostaria de estar fazendo?’ A morena perguntou maliciosa para a amiga fazendo-a ficar corada.

‘Claro que não, Tomoyo.’ Sakura respondeu irritada.

‘Sei.’ Ela murmurou. ‘E o que você respondeu para ele?’

‘Oras, não falamos nada.’ Sakura falava agora sem rir, mostrando que estava incomodada com a colocação da amiga. ‘Era realmente a melhor explicação para a abertura dos machucados do Syaoran. Se contássemos para ele que enfrentamos um lobisomem, acho que o homem não acreditaria mesmo, não é?’

Tomoyo ponderou que realmente a amiga tinha razão.

‘Além disso, é maravilhoso ver Syaoran ficar vermelho como um tomate.’ Ela comentou sorrindo antes de dar um segundo bocejo informando à amiga que estava realmente muito cansada. Tomoyo observou a jovem se deitando e cobrindo-se com as cobertas, em poucos segundos ela podia ouvir a respiração leve da amiga, que dormia tranquilamente.

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Sakura corria pelas ruas de Tomoeda perseguindo um grupo de zumbis que invadiram a cidade nos últimos dias e que estavam causando pânico por toda a parte. Já se passara quase um mês do episódio do Lobisomem. De repente parece que Tomoeda estava servindo de set para algum filme de terror de quinta categoria. Li, Sakura e seus guardiões saíam quase todas as noites para impedir que seres das trevas fizessem mais vítimas humanas.

Tomoyo vinha logo atrás com sua inseparável filmadora tentando gravar mais uma das façanhas de sua amiga. 'Corrida!' Sakura gritou jogando uma carta para cima e levantando o báculo. Com o poder extra da carta, ultrapassou o grupo e acertou com toda a força o báculo rosa, em um dos zumbis. O monstro se dobrou ao meio. Outro morto vivo a segurou por trás prendendo seus braços e a levantando do chão. 'Solte-me, coisa fedorenta!’ Arregalou os olhos vendo a aproximação de outro pela frente. Levantou as duas pernas e chutou-o com força afastando-o de si. O zumbi que a agarrava, apertou–a ainda mais fazendo a garota sentir as costelas estalarem.

'Solta ela, bicho feio!' Ouviu a voz de Tomoyo sem acreditar e logo o barulho de metal batendo na cabeça do morto vivo. O monstro finalmente soltou Sakura que se virou para trás vendo o zumbi esfregando a cabeça.

'To-Tomoyo?'

A morena estava atrás do monstro batendo uma mão na outra com pose vitoriosa. Sakura sorriu para a amiga que fez um sinal de OK para ela. A feiticeira já ia aproximar-se da amiga quando os zumbis voltaram a tentar atacá-la.

'Luta!' Com o poder da carta ela correu e pulou passando por cima de Tomoyo e acertando uma voadora no zumbi que tentava pegar a amiga. O mostro caiu sem cabeça no chão e logo desapareceu formando uma nuvem de pó. Porém, logo outro tentou se aproximar da Mestra das cartas que usando seu báculo como bastão, golpeou um a um eliminando-os, ou melhor, eliminando alguns membros dos mortos vivos que se desprendiam do corpo quando eram golpeados pela jovem. E mesmo estando sem braços ou uma das pernas, eles tentavam avançar sobre a garota. Apenas quando suas cabeças eram arrancadas é que desapareciam finalmente, surgindo uma nuvem de pó negro.

'SAKURA!' A japonesa de olhos verdes voltou-se para trás com o grito da amiga. Piscou os olhos vendo a morena presa por dois dos zumbis e um deles prontos para morder o cérebro dela em busca de alimento.

'Vento!' A poderosa rajada de vento empurrou Tomoyo livrando-a dos dois mortos vivos. Sakura correu até os dois, acertou o báculo com força na cabeça de um enquanto o outro recebeu um chute da jovem caindo no chão, mas como sempre aquelas pestes não sumiam de vez.

'Trovão! É a sua vez!' A carta criou forma e envolveu rapidamente os dois zumbis, eletrocutando-os e deixando-os estatelados no chão.

'Tira! Tira isso de mim!' Sakura piscou os olhos caindo na gargalhada enquanto Tomoyo tentava se livrar da mão de um dos zumbis que estava presa ao seu braço. Vendo o rosto vermelho da morena, resolveu ajudá-la batendo o báculo com força na mão solitária que correu fugindo das duas. 'Isso! Isso é nojento.' Sakura riu novamente e logo foi acompanhada pela amiga.

'Acho que anda vendo muito Pokémon, Sakura.' Tomoyo disse se referindo ao jeito de Sakura ter convocado a carta. A feiticeira sorriu sem graça enquanto coçava a cabeça em sinal de encabulamento.

'Ah, é uma maneira diferente de chamar as cartas. Além disso, elas gostam.'

'Trovão, eu escolho você!' Tomoyo falou caindo na gargalhada com a amiga.

Mas se a dupla pensava que tinha terminado, estavam muito enganadas. Logo, foram cercadas pelos mortos vivos, muitos deles sem alguma parte do corpo. Sakura levantou o báculo a sua frente, pronta para puxar qualquer carta.

'Agora tem que ser para valer. Espada!' Logo o báculo cor de rosa transformou-se numa mortal espada nas mãos da Mestra. Tomoyo ficou atrás da amiga olhando apavorada para a cilada em que estavam.

'Bruxa maldita. Não pode destruir a todos nós! Somos imortais.' Um dos zumbis falou para a jovem.

'Você deveria escovar os dentes.’

O grupo avançou sobre as meninas. Tomoyo fechou os olhos e gritou assustada, de repente, sentiu-se ser suspensa no ar pela mão. Abriu os olhos e levou um enorme susto ao ver que estava voando, deixando o grupo de mortos vivos frustrados. Levantou a cabeça e viu Sakura na sua forma angelical com o par de asas brancas e compridas. Segurou com as duas mãos, a mão esquerda da amiga. 'Não me deixa cair, hem?'

'Nunca!' Foi a resposta da ruiva. A morena suspirou aliviada, mas logo arregalou os olhos quando sentiu a amiga dando a volta e descendo, indo em direção ao grupo novamente.

'Ai-meu-Deus!'

'Vamos terminar com esta brincadeira!’ A jovem falou entre os dentes dando rasantes ao lado dos zumbis e cortando a cabeça de um de cada vez. Logo, apenas restou uma nuvem de pó permitindo assim que as duas amigas pousassem em segurança na rua.

'Juro que eu estou até escutando a música tema de Buffy, a caça vampiros.' Tomoyo brincou enquanto tentava recuperar o fôlego.

'Ela não é tão boa quanto eu.' Sakura retrucou. Com um gesto a espada voltou a ser o cetro da Mestra das cartas.

'Com certeza que não!' Concordou rindo enquanto observava cada movimento da amiga adorada.

'Vamos procurar os outros. Talvez precisem de nossa ajuda.'

Tomoyo fez sinal positivo com a cabeça e começou a caminhar em direção aos restos da filmadora pulando os montinhos de pó que estavam espalhados pelo chão.

Sakura observou a amiga e soltou um longo suspiro. Ela tinha quebrado a filmadora para tentar salvá-la. Caminhou até a amiga abaixando-se ao lado dela, que estava juntando os pedaços. 'Eu prometo comprar uma nova para você.'

'Mas que porcaria!' A morena falou levantando-se e chutando o que restava do aparelho. Sakura arregalou os olhos, assustada. 'Ela não protegeu nem o que eu tinha gravado antes. Aposto como era "made in china"!'

Sakura gargalhou. 'Não fala isso para o Syaoran.'

'Ele pode sentir-se ofendido, não é?'

A feiticeira confirmou com a cabeça. 'Pelo menos ela quebrou a cabeça do zumbi.'

'Eu quase que quebrei o meu pulso. Nem para isso ela serviu.' Retrucou a morena.

‘Vamos Tomoyo.’ Sakura falou passando o braço pelos ombros da amiga. ‘Vamos encontrar os outros. Devem estar precisando da nossa ajuda para se livrarem destes mortos vivos.’

Caminharam alguns minutos pelas ruas desertas de Tomoeda. Parecia uma cidade sitiada. Tomoyo não se distanciava da feiticeira que caminhava de forma decidida e cautelosa. A jovem parou de repente, fazendo a amiga bater nas suas costas.

A morena ainda não tinha se acostumado com aquela rotina de aventuras, mas também havia se recusado a ficar trancada dentro de um quarto de alojamento enquanto sua adorada amiga estava nas ruas.

‘Por que parou? Tá vendo algum monstro? Eu estou sem a minha câmera para me proteger, melhor a gente voltar para o nosso apartamento.’

‘Ele está vindo para cá.’ Sakura falou sem conseguir disfarçar o sorriso nos lábios. Tomoyo rodou os olhos. Não precisava de poder mágico ou intuição, e sim dedução, para saber que a jovem estava se referindo a Li. Logo o rapaz apareceu caminhando devagar. Na mão direita estava sua espada. Estava com a respiração um pouco ofegante, provavelmente também tinha lutado contra alguns zumbis.

Acharam melhor sair para combater os seres das trevas separados, Syaoran já tinha deixado claro que não gostava de ser protegido por Sakura, então para que não entrassem em uma discussão sem fim todas as noites, concordaram em agir separados.

O plano de trabalharem separados estaria perfeito se não fosse o fato de que, como magnetismo, os dois sempre involuntariamente procuravam um ao outro. Este lance de presença mágica era um GPS astral muito eficiente, pensava Tomoyo sorrindo.

Eles caminharam um em direção ao outro, sem evitar de trocarem sorrisos, não conseguiam nem disfarçar a atração que sentiam, mas tentavam a todo custo manter suas cabeças e seus hormônios no lugar.

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‘Mas que droga!’ Sakura desabafou jogando-se numa cadeira no refeitório. Na mesa estava Tomoyo e alguns antigos amigos de escola e agora de faculdade. ‘Nem com a situação que Tomoeda se encontra o professor Yawaguiza consegue ser piedoso e fazer uma prova de anatomia razoável.’

Tomoyo observou a amiga bufando, com certeza foi péssima na prova para a qual tinha tentando estudar a semana toda. Verdade seja dita que a ruiva não tinha mais muito tempo para se dedicar à faculdade. Às noites ela saía para lutar contra seres das trevas. Durante o dia dormia, cansada das aventuras noturnas ou estava na biblioteca, à procura de algum livro que lhe desse finalmente uma explicação razoável para o que estava acontecendo, na antes pacata cidade de Tomoeda.

‘Tenho certeza que ele será benevolente.’ A morena falou tentando passar credibilidade nas suas palavras. Sakura bufou mais uma vez mostrando que não tinha como acreditar. Tomaria bomba na matéria novamente e se tivesse sorte, mas muita sorte, um zumbi comeria o cérebro do professor e então a matéria seria suspensa neste semestre.

‘Você vai conseguir, Sakura.’ Uma jovem morena falou tentando alegrar a amiga. Sakura sorriu reconhecendo Chiharu. Sorriu para ela e fez que sim com a cabeça. ‘Anda muito sumida, senhorita Kinomoto. Será que desde o surgimento do senhor Li, ele não tem mais permitido que a namorada conviva com os velhos amigos?’ Sakura corou e era esta a intenção da jovem.

‘É que tem acontecido tanta coisa, Chiharu.’ A ruivinha falou tentando se desculpar. Realmente andava negligenciando os amigos, mas simplesmente não tinha tempo para mais nada.

Chiharu meneou a cabeça e no final concordou. ‘Verdade. Aconteceram tantas coisas estranhas aqui no Campus e na cidade, que meus pais resolveram me proibir de passear muito.'

'E quem acaba sem namorada sou eu.' Um rapaz falou passando os braços pelos ombros da jovem e a abraçando com carinho. Era Yamazaki. Chiharu sorriu encabulada, mas se virou e deu um rápido beijo nos lábios do namorado de tantos e tantos anos.

Chiharu e Yamazaki namoravam desde... desde sei lá, desde do tempo que Sakura e Li namoravam também, a ruiva pensou franzindo a testa de leve. Não tinha como negar que gostaria que o relacionamento dela e de Li fosse como o dos amigos a sua frente.

'E teus pais são fogo, não te deixam nem sair comigo à tardinha mais.' O rapaz continuou o seu lamento.

'Isso vai passar, daqui a pouco tudo volta ao normal.' Sakura falou. Agora era ela quem deveria passar confiança para o grupo. Ela e Li resolveriam a confusão que estava acontecendo em Tomoeda, novamente.

Uma jovem arrumou os óculos no rosto e fitou o grupo, tinha um sorriso maroto nos lábios. 'Mas eu estou adorando esta onda de coisas estranhas, o pessoal do jornal está trabalhando o dobro.' Naoko estava cursando jornalismo e fazia parte da equipe do jornal local.

'Naoko, você não muda mesmo. Adora contos esquisitos.' Tomoyo comentou balançando a cabeça de leve.

Naoko nem ligou para o comentário, debruçou na mesa e com ar de jornalista que soltaria uma notícia bombástica falou: 'Eu lhes contei que vi um lobisomem no passado correndo pelo Campus?' Sakura e Tomoyo se entreolharam apreensivas. Naoko olhou para Sakura e franziu a testa. ‘Você e o Li tiveram muita sorte mesmo em conseguir sobreviver a um ataque daquela fera.’ Sakura engoliu em seco.

Tomoyo riu nervosa. 'Aquilo foi uma brincadeira de mau gosto de alguns alunos.'

'Mas e aquelas mortes todas? Tem algo de muito estranho acontecendo em Tomoeda novamente.' Yamazaki falou agora sério, ainda tinha o braço nos ombros da namorada, parecia que estava pronto para protegê-la se alguma criatura das trevas aparecesse para atacá-los.

'Novamente?' Naoko indagou ao rapaz.

'Quando eu tinha uns 10 anos aconteceram também coisas muito estranhas nesta cidade.' Ele continuou. ‘Vocês não lembram?’

'É verdade. Eu me lembro bem.' Chiharu falou apoiando o namorado.

Sakura sentia-se incomodada quando o assunto era magia. Não gostava de mentir para os amigos, não gostava de mentir para ninguém, mas também não tinha como sair contando para todos o que realmente estava acontecendo na cidade. Tinha contado para Makoto o que aconteceu porque a verdade era o mínimo que ela poderia oferecer ao rapaz que tinha usado para tentar esquecer Li, ela sentia-se péssima por ele.

Tentava apenas alertar aos amigos quer era melhor ficarem em casa ou em seus alojamentos antes de crepúsculo. O assunto ainda girava em torno dos acontecimentos estranhos, da época em que ela e Li eram Card Captors. Levantou-se falando que buscaria um suco ou um refrigerante para beber. Quando ia saindo, quase esbarrou em Makoto, que pelo jeito vinha falar com ela. O rapaz tinha uma garrafa nas mãos que quase derrubou, com o choque.

Eles não se viam desde que Sakura tinha terminado o relacionamento dos dois na frente de Li. Ela o encarou sem saber o que dizer para o ex-namorado, até que ele sorriu para ela e levantou a mão onde tinha a garrafa de coca-cola.

‘Trouxe para você, era a última coca-cola. O fornecimento destas coisas em Tomoeda anda complicado. Parece que nem mesmo a coca-cola queria mandar caminhões de abastecimento para a cidade.’ Ele falou tentando sorrir. A jovem não soube direito o que pensar.

Era estranho demais estar na frente do ex-namorado, com ele oferecendo um refrigerante para ela. O rapaz percebeu a hesitação da jovem em pegar a garrafa.

‘Eu só estou tentando ser gentil contigo. Imagino que você esteja bem chateada com a prova de anatomia. Não é porque deixamos de ser namorados que não podemos ser amigos.’ Ele falou tentando sorrir e passar credibilidade nas suas palavras. ‘Tome, aproveite que ainda está gelada.’

Tomoyo parou de prestar atenção à conversa dos amigos e observou Makoto e Sakura. Também estranhou o gesto de gentileza do rapaz para com a amiga. Será que aquela bebida estava envenenada? Mas seria muita burrice do rapaz cometer o crime na frente de tantas testemunhas.

‘Obrigada’. Sakura agradeceu pegando a garrafa e sentando-se à mesa. Sentiu quando o rapaz deu um beijo na sua face esquerda e mesmo sabendo que não era nada demais, sentiu-se incomodada. Não queria dar nenhuma esperança para o rapaz, já tinha brincado demais com o coração dele, sabia disto e sofria por ele. Talvez porque também sentia que Li brincava com o seu coração.

‘E aí Yamazaki?!’ O rapaz falou puxando uma cadeira e se sentando junto com o grupo. Bem ou mal ele pertencia à mesma irmandade de quase todos os jovens daquela mesa. ‘O jogo contra os nerds da KΩε é na próxima semana e eu faço questão de ganhar esse jogo.’ O rapaz falou, Tomoyo rodou os olhos, pois sabia que era a irmandade a qual Li pertencia.

Yamazaki abriu um imenso sorriso. ‘É claro que vamos ganhar. Vamos ganhar de goleada.’

A feiticeira suspirou pensando que os homens realmente são uns idiotas. Olhou para a garrafa suada de refrigerante na sua mão, e pensou que realmente merecia uma Coca-cola gelada. Levou a garrafa à boca e a tomou devagar acompanhando ainda a discussão dos amigos. O gosto do líquido era de Coca-cola, porém um pouco mais doce, observou o rótulo e constatou que era a versão diet do refrigerante, pensando que aspartame realmente era incrível, pena que fazia tanto mal para saúde. Bem para quem estava lutando contra mortos vivos todas as noites, colocando sua vida em risco a cada hora, os males do aspartame não eram nada, além disso, ajudaria a moça a manter a forma física. Tomou todo o líquido e para felicidade de Tomoyo, que olhava apreensiva para a jovem, não tinha caído estatelada no chão babando.

‘Bem, tenho que ir. Acho que vou dormir um pouco e descansar do trator prova de anatomia que me atingiu ainda há pouco.’ A ruiva falou levantando-se, mas por algum motivo sentiu uma leve tonteira, segurou-se na mesa para não cair no chão. Tomoyo levantou-se segurando a jovem, ao mesmo tempo em que Makoto fazia o mesmo.

‘Você está bem, Sakura?’ O rapaz perguntou, mas a jovem não respondeu. Ela levou a mão até a altura do ventre e sentiu um leve formigamento, sentia uma excitação, uma quentura no peito.

‘O que você deu a ela, Makoto?!’ Gritou Tomoyo empurrando o rapaz para que ele se afastasse da amiga, no entanto o rapaz fez justamente o contrário, pegou delicadamente o rosto da jovem com as duas mãos, levantando-o para ficar a poucos centímetros do dele.

‘Sakura, meu amor, você está me reconhecendo?’ O rapaz falou com a voz doce.

Tomoyo franziu a testa estranhando aquilo, o que Makoto tinha aprontado? Arregalou os olhos observando o rosto da amiga, abrir um lindo sorriso maroto para o rapaz.

‘Sabia que você é uma gracinha, Makoto!’ A ruiva falou segurando as mãos do rapaz e fazendo-o abrir um belo sorriso. A poção tinha dado certo.

Continua.