FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 19

Lutas Paralelas

Syaoran se abaixou com o aviso do aliado e conseguiu desviar do ataque do enorme monstro, contra o qual os três estavam lutando. Era como uma enorme serpente de duas cabeças e asas de dragão. Era rápido, extremamente forte, resistente e, embora não fosse muito inteligente, era mortal.

Luthor voou até uma das cabeças e tentou golpeá-la com sua lança, mas foi jogado longe, batendo num rochedo. Arthas, por sua vez tentava inutilmente acertar a fera com suas poderosas garras, porém uma das cabeças soltou uma intensa rajada de fogo que fez o monstro recuar.

'Não pode ser! Ele me queimou. Como?' Arthas perguntou-se assustado com o poder do oponente.

‘Deixa comigo.’ Li falou trincando os dentes.

'Vamos embora, garoto, ou vamos morrer aqui?’

'Tenho que vencê-lo para continuar.' Syaoran esclareceu.

'Você é um idiota!'

'Flores do vento!' Ele conjurou sua magia e o pequeno redemoinho de vento envolveu seu corpo, fazendo-o levitar e guiando-o em direção ao animal enquanto desviava das rajadas de fogo que as duas cabeças lançavam. Quando estava bem próximo, tentou golpeá-las a todo custo, mas a carapaça que protegia a pele da serpente era muito forte, a menos que...

Ele circulou em volta das duas cabeças, concentrando-se apenas em desviar dos jatos de fogo até ter certeza que ambas estavam bastante desnorteadas. Colocou-se entre elas e fechou os olhos, inconscientemente prendeu sua respiração apenas esperando. Seus sentidos estavam em alerta. Ele tinha que ser preciso. Por estar usando uma magia de manipulação do ar, possuía uma consciência maior, intrínseca, das mais tênues alterações do elemento a sua volta e, por isso, sentiu quando o ar se comprimiu e o oxigênio se tornou ligeiramente mais escasso do que já era ali no mundo das trevas.

Ouviu o estalo, aquela faísca que faz o ar crepitar, dando início à labareda e interrompeu sua magia, caindo em queda livre no chão, de forma rápida, devido a forte gravidade daquele lugar. Suas costas se chocaram na areia e rolou para o lado, desviando do monstro, inquieto pelas dores das queimaduras autoinfligidas.

‘Agora, Arthas!' Deu a ordem.

Arthas pulou sobre a serpente e golpeou com velocidade as duas cabeças, decepando-as em segundos. Dois jatos de sangue espirraram por todo lado até a serpente se tornar pó.

'Boa estratégia, garoto.' Luthor falou, aproximando-se dos dois. ‘Por um momento pensei que você tinha enlouquecido.’

'Mas quem acabou com ele fui eu.' Arthas falou com pompa.

'Claro, claro.'

'Estão cada vez mais fortes.' Li constatou, relaxando um pouco o corpo. Tinha uma enorme queimadura no braço direito.

Luthor concordou com a cabeça. 'E só tendem a piorar. Tichondrius é o senhor deste domínio, seus seguidores são também poderosos e tentarão impedir nossa aproximação do seu líder.'

'Esta cobrinha aí é pinto, comparado ao que teremos que enfrentar da próxima vez.'

'Do que estão falando?' O rapaz começava a não gostar das informações que os dois davam aos poucos.

Cada vez o problema aumentava mais. Ele tinha pressa. Será que era muito difícil eles entenderem isso? Soltou um longo suspiro. Esperava que a mãe estivesse conseguindo controlar Sakura durante aquele tempo todo.

'Provavelmente teremos que enfrentar Shade.' Luthor esclareceu.

'E quem é esse?'

Luthor ignorou a pergunta de Li e adicionou: 'Se conseguir sobreviver a Shade, pode ter alguma chance de derrotar Tichondrius.'

'Ora, ora, quem é morto sempre aparece!' Ouviram por trás de si. Li já estava com sua espada materializada encarando o humano que caminhava na direção dos três.

Arthas abriu um sorriso, reconhecendo o demônio que se aproximava devagar encarando o grupo. 'Ghoul? Eu não acredito.'

Os dois se cumprimentaram.

'Não se preocupe.’ Luthor falou para Li que ainda estava em posição para uma possível luta. ‘Ele não nos atacará. Tem uma dívida com Arthas.'

Syaoran ergueu uma sobrancelha. 'Dívida?'

'Sim. Arthas impediu que ele morresse em um combate.'

O rapaz sorriu de leve e, finalmente, transformou sua espada na esfera negra. 'Não sabia que tinha este tipo de cortesia aqui.'

'Muitos aqui são guerreiros como você. E, como você, têm senso de honra. Apenas cometeram alguns erros em seus mundos.'

'Bom saber disso.'

Arthas conversava com o recém-chegado. Parou e encarou Li que observava os dois. Fez um gesto para que se aproximassem. 'Venha conhecer Ghoul, garoto!'

Syaoran rodou os olhos. 'Ele ainda não aprendeu o meu nome.'

'Você sempre será o Garoto para ele.' Luthor retrucou rindo.

Ghoul tinha os olhos cravados em Li, franziu a testa e depois arregalou os olhos finalmente o reconhecendo. Abaixou a cabeça e não teve como não sorrir de leve com a ironia do destino. Voltou-se para ele encarando-o. 'Se não é o Guardião! Não pensei que acabaria aqui.'

Arthas e Luthor entreolharam-se e depois fitaram Ghoul.

'Do que está falando, Ghoul?'

Ghoul apontou para Li. 'Que foi este rapazinho que acabou com Shyrai.'

Arthas caiu na gargalhada. 'Não me venha com brincadeiras, Ghoul. Nunca que Enma Daiyoh condenaria um Guardião ao inferno.'

Ghoul ainda tinha o rosto sério encarando Li. 'Pois é ele mesmo. Eu o vi lutando na saída do portal contra Adylos e os outros que estavam tentando atravessar. Eu mesmo atravessaria se não fosse ele.'

Luthor e Arthas olharam feio para Li. O rapaz deduziu que eles com certeza não gostaram muito da novidade e já estava pronto para se defender. Apertou a esfera negra na mão encarando o trio que tinha a atenção toda voltada para ele.

‘Humph’ Luthor murmurou. ‘Você deve ter aprontado muito para acabar aqui, não é?’ Perguntou para Li.

Arthas olhava de Li para Luthor e riu. ‘Você não está mesmo acreditando que o garoto é o temível Guardião, não é? Ele é só o garoto.’ O demônio concluiu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Luthor estreitou os olhos em Li. ‘Realmente, você tem um poder enorme. Estou muito curioso para saber por que está aqui.’

‘Já falei. Preciso de uma brecha. Preciso voltar.’

‘Humph.’ Luthor soltou novamente. Depois voltou-se para Ghoul. ‘Tem certeza que é ele?’

O demônio confirmou com um gesto. ‘Não me esqueceria.’

O grupo ficou em silêncio encarando Li. ‘Isso não interessa mais.’ O rapaz falou.

‘Então é verdade?’ Arthas gritou assustado. ‘Você é o guardião!’

'Que interessante. O guardião aqui no inferno.' Novamente sentiram a aproximação de outro ser das trevas. Os quatro olharam rápido para trás e viram a figura de um cavaleiro em uma armadura medieval suja e enferrujada.

'Sha... Shade...' Ghoul gaguejou.

Shade sorriu de forma irônica. 'Obrigado por me apresentar, idiota.’ O cavaleiro cravou os olhos em Li. ‘Acho que você tem uma dívida comigo, fedelho.'

Syaoran franziu a testa encarando o cavaleiro, mas não respondeu.

'Por causa da sua interferência, nossos planos foram frustrados. Vingarei Shyrai.'

Luthor, Arthas e Ghoul se afastaram, deixando Li e Shade se encarando. O cavaleiro empunhou sua enorme espada enquanto Li materializava a sua. Iniciando, assim, mais uma luta para o guerreiro chinês.

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‘Disparo!’ Sakura gritou, jogando a carta para cima para liberar o poder dela que atacou Ren Tao com inúmeros tiros de magia.

O rapaz franziu a testa, observando o poder da garota. Tinha que ficar esperto. Desviou, sem muitos problemas, do primeiro golpe da jovem. Pulou para frente cravando sua lança no chão e várias armas, feitas de energia pura, saíram do chão em direção a Sakura.

‘Salto!’ Novamente, com a magia conseguiu desviar das armas brancas afiadíssimas que surgiram do chão do nada.

‘Flecha!’ Estendeu o braço esquerdo a frente onde o arco luminoso se formou, puxou a flecha mágica com a mão direita e a soltou, fazendo-a se multiplicar enquanto seguiam em direção a Ren.

O chinês se defendeu com sua lança mágica.

Sakura tocou no chão e encarou o rapaz que tinha um sorriso no canto dos lábios.

‘Nada mal.’ Ele falou, dando um passo a frente e estendendo a lança em direção a ela. ‘Vamos ver se consegue se defender.’ Abaixou-se para pegar impulso e saltou. ‘Torre dourada em ação!’

Sakura arregalou os olhos, vendo a lança dele se multiplicar em várias. ‘Escudo!’ A bolha mágica envolveu a jovem, protegendo-a do golpe do xamã que pousou como um gato atrás dela.

Ele se levantou e virou-se, olhando admirado para a jovem em pé. Ela tinha defendido seu golpe sem problemas. Franziu a testa, pensando que era melhor não dar mole. Desviou os olhos para Jun que estava sentada na ponta da poltrona, acompanhando a luta dos dois com bastante atenção. Talvez, como ele, a irmã estivesse impressionada com o poder da garota de olhos verdes.

Ele apertou mais forte a lança em sua mão esquerda. Levantou a mão direita para cima e Sakura pôde ver a energia se acumular numa esfera dourada. Ele abaixou a mão, fazendo a energia se chocar com sua arma e, curiosamente, reduzindo-a de tamanho ao mesmo tempo em que a energia que a envolvia se intensificava. Tal mudança permitia que o rapaz manuseasse sua arma com muito mais desenvoltura e precisão.

Sakura se assustou com a aproximação rápida dele e sentiu o impacto do golpe que Escudo não conseguiu bloquear. Voou para trás caindo no chão com tudo e sentindo o corpo dolorido.

‘Acabou.’ Ele falou encarando-a. Não queria mais lutar contra a garota.

Sakura estendeu o braço, levantando o corpo e o encarou. ‘Ainda não.’ Falou se erguendo devagar. Passou as costas da mão na boca limpando um filete de sangue.

‘Não seja teimosa!’ Ren falou entre os dentes.

‘Bosque!’ Sakura invocou sua magia. Os ramos emergiram do chão tentando prender o rapaz que as cortava rapidamente com sua lança evitando ser aprisionado.

Ren girou a lança em volta do corpo, expandindo o seu poder e, finalmente, anulando o poder da carta.

‘Espada.’ A arma formou-se na mão da jovem. ‘Movimento.’ A combinação de magia fez a feiticeira aparecer perto de Ren, tentando acertá-lo com a arma.

O rapaz se defendeu no último momento com a lança e os dois se encararam de perto.

Ela desapareceu, novamente, e reapareceu atrás dele que piscou os olhos confuso e quase foi acertado pela garota.

Ele não conseguia atacá-la, pois ela aparecia de desaparecia de forma muito rápida, atacando-o sem dar trégua. Estava começando a ficar muito irritado com aquele jogo de gato e rato.

Acabou sendo atingido no ombro e deu um passo para trás encarando a garota, que parou a sua frente com a espada apontada em sua direção.

‘Não seja teimoso você. Apenas faça o que estou pedindo.’ Ela falou seriamente.

‘Você não entende.’ Ele falou, encarando-a sem dar a menor importância para o sangue que escorria de seu ferimento. ‘Você não sabe o que está realmente pedindo.’

‘Você fala demais.’ Ela trincou os dentes. ‘Força.’ Combinou mais uma carta, avançando em direção ao rapaz que, ao defender-se do ataque, foi obrigado a dar alguns passos para trás.

Ele não queria lutar, mas que droga! Por que a garota era tão teimosa?

Sakura foi novamente atingida pela lança do rapaz, sendo jogada para trás e batendo na parede com força. Caiu no chão, soltando seu báculo que se arrastou, indo parar a alguns metros de sua mestra.

Ren caminhou até ela e pisou no báculo com o pé direito, fitando-a. ‘Não quero mais machucá-la.’

Ela apenas voltou a se levantar. Estava bem machucada, era verdade, mas ainda tinha forças para lutar.

‘Seu poder não é de ataque. Não vai conseguir levar esta luta para frente, garota.’ Ele ainda tentava convencê-la. Parecia que ela era tonta e não tinha ideia da real natureza da própria energia.

Sakura cravou seus olhos no báculo que estava no chão e sorriu de lado. Ele estava muito enganado se pensava que ela estava derrotada por estar sem seu objeto mágico.

‘Vento.’ Sussurrou, liberando a carta que atingiu o rapaz de surpresa e o fez afastar-se dela.

A mandala de Sakura surgiu brilhante e a sua aura aumentou. Ren observou a luz rosa com alguns pontos multicoloridos. Franziu a testa, observando as cartas rodarem em volta dela. Prontas para serem usadas. Arregalou os olhos, observando as manchas negras que começavam a surgir. Ele sabia que energia era aquela e não era nada bom.

‘Ataquem!’ Ela ordenou, liberando Areia, Trovão, Disparo, Tempestade, Vento, Bosque… Todas ao mesmo tempo.

O rapaz se assustou com as energias vindo em sua direção. Tentou pular, desviando de alguns ataques e usou a lança rebatendo outros, mas acabou sendo atingido por Trovão e caiu no chão sentindo o corpo dolorido.

Jun levantou-se da poltrona observando o irmão ao chão. Não imaginava que a garota tivesse tamanho controle sobre seu poder.

Sakura caminhou devagar até ele ainda envolta por sua magia, as cartas voltaram à forma de lâminas mágicas e circulavam o corpo da sua mestra. ‘Acabou.’ Declarou, agitada. ‘Agora traga Syaoran de volta.’

Ren sorriu, levantando-se devagar e encarando-a. ‘Estou começando a gostar de você, garota.’ Falou, pulando por cima da jovem.

Sakura arregalou os olhos vendo uma grande silhueta de energia mágica por trás do rapaz, como um guerreiro de armadura. ‘Escudo!’ Invocou novamente a carta para protegê-la, mas ele não conseguiu impedir que fosse atingida. Ela foi ao chão, sendo arrastada por vários metros pelo poderoso golpe. Sentia o corpo todo gritar de dor. Trincou os dentes, tinha que vencê-lo ou perderia sua única chance de ter Syaoran de volta.

Para surpresa de Ren, ele observou a jovem se levantar novamente e encará-lo. Ela continuaria lutando.

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Li caiu de joelhos com o enorme ferimento que tinha no abdômen. Tinha dado tudo de si na luta contra Shade, mas mal conseguia atingi-lo. Ele sabia que a armadura seria resistente, mas nunca imaginaria que era impenetrável.

'Pode começar a suplicar pela sua miserável existência, Guardião.' Shade falou já considerando a luta ganha.

Arthas fez menção de ir para frente, mas foi impedido por Luthor.

'Calma, ele ainda não está derrotado.'

'Derrota aqui significa o fim, Luthor.'

'Não podemos fazer nada. Lembre-se que estamos apenas interessados em chegar até Tichondrius'.

Shade pegou Li pelo pescoço com uma das mãos. O cavaleiro o levantou tirando-o do chão, sufocando-o cada vez mais.

Mas aquele movimento permitiu ao rapaz finalmente encontrar o que queria – abaixo do capacete havia uma pequena abertura. Provavelmente o capacete não encaixava corretamente no resto. Ali estava a única vulnerabilidade da poderosa armadura. O rapaz tirou uma das mãos, que tentava impedir que o cavaleiro o sufocasse mais e a estendeu para o lado.

'Ele está desistindo!' Arthas gritou assustado, correndo em direção aos dois.

‘Solte-o, Shade. O garoto está desistindo.' Luthor falou, temendo pelo rapaz.

Shade apertou mais forte o pescoço do rapaz. 'Aqui, apenas se desiste da existência.'

A espada de Li, que estava caída no chão, voou rápido para sua mão. Ele a segurou firmemente e a inseriu com toda força naquela pequena brecha da armadura do inimigo. Arthas e Luthor olharam espantados quando Li caiu no chão ofegante e com a mão no pescoço enquanto Shade caía de joelhos com o pescoço sangrando. Por fim, apenas a armadura permaneceu naquele mundo como uma sucata.

Arthas caminhou até ela com cautela. Chutou a armadura para certificar-se que estava vazia. 'Vo... Você o derrotou.'

Luthor aproximou-se de Li, ajudando-o a se levantar. 'É claro! Não está vendo a armadura vazia, idiota? Agora vê se me ajuda aqui. O garoto está sangrando muito.'

O poderoso monstro pegou Li nos braços.

'Tem um rio aqui perto.' Ghoul apontou com o braço.

‘Rio?’ Luthor se surpreendeu. Ele nunca tinha visto um rio naquele inferno.

'Sim, lá poderemos tratá-lo. Se tentar enfrentar Tichondrius assim, não terá chance alguma.'

'Vamos logo. Antes que ele não resista.' Arthas os apressou carregando o garoto.

O rapaz podia ouvir e sentir, mas estava cansado demais para fazer qualquer movimento ou falar algo. Deixou que eles o levassem sem nem ao menos se dar conta de onde iria.

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Ren encarou a jovem a sua frente e ergueu o corpo, levantando a lança envolta na energia dourada em direção a ela. ‘Você realmente me surpreende, garota. Com esta cara de anjo… você tem uma energia muito, muito perigosa.’

Sakura não se mexeu. Só sairia daquela luta quando finalmente tivesse o que foi buscar: Syaoran. Estava com o corpo coberto de ferimentos assim como Ren, mas não se importava. Aqueles machucados não lhe causavam um centésimo da dor que ela sentia no peito pela ausência do namorado.

‘Você não vai desistir, não é?’ Ren perguntou para ela, que fez um gesto negativo com a cabeça, informando que a luta continuaria até conseguir o que queria.

Sakura estendeu a mão a frente e Espada tomou forma entre seus dedos. Ela apertou o cabo da arma mágica e olhou para Ren que se colocou em posição de luta. Os dois se aproximaram rapidamente tentando atingir um ao outro.

Ren pulou para trás, girou a lança ao redor do corpo e o estendeu a frente, tentando golpear a garota que se defendeu com a espada. Luta e Força novamente se manifestaram no corpo da mestra que tentava golpear o representante dos Taos com a espada e com golpes alternadamente.

‘Agora chega!’ Jun gritou, aproximando-se dos dois que ainda lutavam.

‘Não!’ Sakura gritou. ‘Só termina quando me fizerem um kyonshi!’

‘Ren! Vai matá-la!’ Jun alertou o irmão quando o viu acumular sua energia para novamente desferir um ataque na jovem.

O rapaz não ouviu a irmã. Estava concentrando sua energia com a de seu espírito guardião para desferir um golpe decisivo naquela luta. Não perderia para uma feiticeira ligada ao clã Li. Jamais!

‘Bason! Grande espírito em ação! Agora!’ Ren gritou cortando o ar com sua lança em direção a jovem.

Ela desviou do primeiro ataque usando Salto, mas, assim que pousou no chão, virou-se para trás e arregalou os olhos vendo a imensa esfera de energia dourada indo em sua direção.

As cartas se colocaram a sua frente, todas juntas em suas formas originais, recebendo o impacto do golpe e protegendo o corpo de sua mestra.

A jovem feiticeira sentiu os olhos ardendo ao vê-las protegendo-a daquela maneira desesperada. O que ela estava fazendo?

Ren pousou no chão como um gato e encarou a garota que olhava para as criaturas mágicas não acreditando no que elas haviam feito.

Elas, aos poucos, desapareceram, voltando às formas de lâminas, mas indo de encontro ao chão. Sakura cerrou os punhos e trincou os dentes. A mandala novamente se formou aos seus pés e a aura mágica dela aumentou rapidamente. O rapaz pôde ver novamente o resplendor dos raios multicoloridos que emanavam do pequeno corpo.

‘Você me paga.’ Ela falou, trincando os dentes e fechando os olhos.

O rapaz reparou na modificação da energia dela, não era a mesma. Algo tinha se desequilibrado.

‘Bason…’ Ele sussurrou, chamando seu protetor. ‘Fique atento.’ Recomendou sem desviar os olhos da jovem.

As cartas começaram a flutuar, mas não tinham o mesmo brilho róseo, estavam com um brilho intenso e negro.

Ren franziu a testa, já tinha visto algo semelhante antes e não estava gostando nada do que estava constatando.

Sakura abriu os braços ao lado do corpo e as cartas voaram até sua mestra, ela levantou os braços e todas se juntaram acima de sua cabeça.

Ren levantou a lança a sua frente, e fechou os olhos acumulando poder para o contra ataque.

Sakura abriu os olhos e fitou o adversário. Estendeu as mãos a frente desferindo no rapaz toda energia que conseguiu acumular. Ren abriu os olhos observando a energia vindo em sua direção.

‘Agora!’ Ele gritou, liberando a energia xamã dele em direção ao golpe da garota. As duas energias se chocaram de forma violenta, explodindo.

Jun arregalou os olhos vendo a enorme onda de choque vindo em sua direção, encolheu-se com medo e receio do golpe. Sentiu quando foi abraçada por alguém que a protegeu da violenta energia, mesmo assim foi arrastada junto de seu protetor até bater numa das paredes do salão, que desmoronava devido ao choque das energias dos dois oponentes.

Ela abriu os olhos devagar e viu Pailong abraçando-a, sorriu para seu amado kyonshi, como sempre, ele a tinha protegido. As costas dele estavam dilaceradas, por ter recebido o golpe diretamente. Ela afundou o rosto no peito rígido do kyonshi e fechou os olhos, sentindo sua garganta se comprimir com a ausência das batidas do coração dele. Aquela jovem não fazia ideia do que estava pedindo.

Ele se levantou e ergueu o corpo, ajudando sua mestra a se levantar. A chinesa olhou no fundo dos olhos castanhos de Pailong. ‘E-eu preciso que me ajude com algo.’ Pediu, segurando um de seus talismãs na mão e o viu assentir sem hesitar. Sorriu agradecida e levou o talismã até a altura do rosto, assumindo o controle do corpo do kyonshi e vendo os olhos dele se tornarem vazios e sem vida. Virou-se para o salão, vendo a nuvem de fumaça se dissipar aos poucos.

Jun franziu a testa e deu alguns passos a frente. ‘Ren!’ Chamou pelo irmão preocupada. Pailong seguia logo atrás dela.

Ren levantou-se, apoiando-se em sua lança. Olhou para frente, observando o corpo pequeno de aparência frágil da japonesa caído no chão. Ela não estava morta, conseguia sentir a magia ainda circulando o corpo dela. Nunca havia imaginado o poder que aquela jovenzinha apaixonada tinha. Sua respiração era rápida, mostrando que estava cansado. Arregalou os olhos ao ver Sakura se mexendo e ficando de joelhos. Ele ergueu o corpo, sem desviar os olhos dela.

Jun parou perto do irmão. ‘Irmãozinho, você está bem?’ Ela perguntou aflita, observando o corpo do rapaz cheio de ferimentos.

‘São apenas arranhões e cortes superficiais’. Ele falou tentando não passar preocupação para a irmã. Deu um passo a frente e sentiu uma fisgada no lado esquerdo do abdômen e levou a mão direita e sentiu o sangue escorrendo entre os dedos.

Sakura sentia o corpo todo dolorido. Abriu os olhos com dificuldade e levantou-se apoiando nas mãos e joelhos para erguer-se. Viu algumas gotas de sangue pingar do seu rosto, provavelmente de algum ferimento mais profundo. Tentava controlar a respiração ofegante e buscou forças para se levantar.

‘Droga…’ Ren trincou os dentes. ‘Ela é teimosa demais.’

A feiticeira levantou-se e, apesar de cambalear uma vez, voltou a fitar Ren de forma arisca. ‘Ainda não acabou.’

Os dois se encaravam, e já estavam prontos para reiniciar o embate, quando Jun parou entre eles.

‘Acabou sim!’ A chinesa gritou. ‘Agora chega! Vocês vão se matar!’

‘Saia da frente, Jun.’

‘Só saio daqui com o que eu quero.’ Sakura falou voltando a pegar suas cartas.

‘Afaste-se, Mana.’ Ren ordenou.

A chinesa não recuou, mantendo-se entre os dois a fim de acabar com aquela disputa.

Sakura franziu a testa, observando a mulher a sua frente. Estava pronta para voltar a lutar quando um rapaz com uma aparência como a dos cadáveres preservados das aulas de anatomia parou a frente da jovem chinesa.

‘O-O que é isso?’ Sakura perguntou assustada, observando o grande lutador a poucos metros dela. Sua pele era acinzentada e opaca com vários recortes e remendos. O ombro direito estava dilacerado, mas não sangrava. Os olhos eram vazios. ‘Saia da minha frente, monstro!’ Ela ordenou. Precisava voltar a lutar contra Ren.

Pailong colocou-se em posição de luta, mas Jun desviou dele, parando ao seu lado. ‘Isso, minha querida, é um kyonshi.’

Sakura arregalou os olhos e deu um passo para trás. Não podia ser. ‘U-Um kyonshi?’ Ela perguntou surpresa.

‘É assim que você quer ter o seu amado de volta?’ Jun perguntou com a voz suave. Fitou Pailong por alguns segundos e não pôde deixar de sorrir de leve, um sorriso triste. Não queria que ele fosse assim, mas…

‘N-não… não é assim que eu o quero!’ Sakura respondeu.

‘Mas um kyonshi é assim.’ Jun rebateu.

A Feiticeira começou a vacilar em seu plano. Agora, vendo um kyonshi a sua frente e imaginando Syaoran daquele jeito, começava a se dar conta do total absurdo que havia pensado em fazer. Estava tão eufórica com a descoberta de uma maneira de trazê-lo de volta à vida, que não tinha raciocinado quanto às condições em que Syaoran voltaria.

‘Acredite, querida. Amar alguém assim… é a pior das dores que se pode sentir.’ Jun falou novamente com a voz doce, atraindo o olhar da feiticeira.

Ren parou ao lado de Pailong observando a jovem que mostrava-se completamente desnorteada. Franziu a testa, observando os olhos tristes que tanto ela quanto a irmã tinham ao mirar o kyonshi entre eles. A japonesa deu um passo à frente, mancando e levantou a mão tocando de leve o braço de Pailong. Retraiu-se ao senti-lo rígido, gelado, inumano.

Ela balançou a cabeça. ‘Não… não é assim que eu quero Syaoran de volta.’

‘Mas é assim que ele voltará como um kyonshi, sua tonta.’ Ren falou impaciente. Arrependeu-se do tom de voz que usou quando Sakura o fitou com os olhos tremendo. Ela estava sofrendo e muito. Desviou os olhos dela. ‘É só assim que podemos fazer um kyonshi.’ Ele completou em tom mais baixo.

‘Assim… assim eu não o quero.’ Ela falou, tocando novamente o braço do morto-vivo para ter certeza do que estava sentindo. Pailong estava rígido, observando a jovem a sua frente e esperando por uma ordem de sua mestra.

Sakura deu uns passos para trás sem desviar os olhos e tropeçou em alguma coisa no chão. Caiu sentada, ainda com o olhar fixo em Pailong. Levou as mãos a cabeça, balançando-a com força e se dando conta de como Syaoran voltaria a vida. Não suportaria ver o namorado com aquele olhar vazio para ela.

Ren se aproximou da jovem devagar. ‘Os kyonshis são cadáveres, cascas de restos humanos. São mortos-vivos. Mesmo com a alma original do corpo, é tudo o que eles podem ser. São programados para obedecerem comandos, como robôs, marionetes.’ Ele fez uma pausa, observando a jovem. Abaixou-se tocando um joelho no chão para que seu rosto ficasse a altura do dela. ‘São apenas corpos em decomposição que se movimentam por magia, por uma incorporação forçada.’ Falou devagar para que a jovem entendesse de uma vez o que realmente estava pedindo.

‘É realmente assim que você quer ter seu amado de volta?’ Jun perguntou novamente de forma firme.

Sakura balançou a cabeça, negando.

‘Então, tire esta ideia da sua cabeça, sua tonta.’ Ren falou, fitando-a de forma irritada e impaciente.

Sakura arregalou os olhos, olhando para ele. ‘Sua voz...’ Ela murmurou.

‘O que tem ela?’ O rapaz perguntou, encarando-a nos olhos.

Sakura desviou os olhos dele e fitou um ponto qualquer no chão. ‘Nada.’ Respondeu por fim.

Sentia-se terrivelmente esgotada, dolorida, cansada e, principalmente, decepcionada com o que finalmente se dava conta. Não poderia trazer Syaoran de volta daquela forma. Novamente fitou Pailong que estava atrás de Jun e Ren. Engoliu em seco, reparando, mais uma vez, no olhar opaco e sem brilho. Sentiu os olhos arderem. Definitivamente não era assim que gostaria de ter seu amor de volta.

Ren tocou seu ombro. ‘Você está muito machucada. Precisa se tratar.’ Ela desviou os olhos de Pailong e fitou o rapaz que ainda a olhava duramente. Ele se levantou e estendeu a mão para ela. Sakura a segurou, aceitando a ajuda. Ren a puxou do chão e sentiu a garota cambalear. ‘Hei! Você está bem?’

‘Estou… estou cansada.’ Murmurou. Sentia o peito arder com a decepção e frustração por ver aquela chance de ter Syaoran de volta se apagar. Cambaleou novamente e sentiu o rapaz segurá-la pela cintura. Era a última coisa de que se lembraria, antes de perder os sentidos.

Ren a segurou, evitando que caísse no chão novamente. O rapaz a segurou nos braços. ‘Vamos deixá-la se recuperar. Ela gastou muita energia.’ Falou, começando a caminhar com a jovem.

Jun seguia o irmão, mas reteve-se rapidamente, fitando Pailong e o viu esboçar um pequeno sorriso, tendo recuperado a lucidez. Suspirou e deu um sorriso triste. ‘Obrigada.’ Disse, voltando–se para seguir o irmão.

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Li abriu os olhos e viu o céu vermelho em chamas, levantou-se e sentiu uma fisgada no abdômen.

‘Teve sorte, garoto. Pensamos que desta você não escaparia.’ Li reconheceu a voz de Arthas. Levou uma das mãos ao ferimento que ainda doía.

'Eu também pensei nisto.' Falou com sinceridade.

'Luthor está dando uma olhada por aí com Ghoul.'

'Não acha estranho este tal de Ghoul aparecer um pouco antes de Shade.'

'Foi Ghoul quem trouxe Shade.'

Syaoran arregalou os olhos assustado com a calma que o demônio falava aquilo. 'Então precisamos eliminá-lo! Provavelmente é seguidor do tal...'

'Tichondrius.' Arthas completou.

'E você fala isso numa boa?'

Arthas deu de ombros, o garoto ainda não tinha entendido que naquele lugar não se poderia confiar em ninguém. A estratégia era usar aquele tipo de atitude em benefício próprio e não esperar por ajuda ou misericórdia. 'Não se preocupe, garoto. Ele não é idiota de tentar nos matar. Ele pensa que está nos enganando, mas nós é que o estamos usando para achar Tichondrius.'

Syaoran ergueu uma sobrancelha. 'Então você não sabe exatamente onde está o portal.'

'Claro que não!’ O outro falou irritado. ‘O portal provavelmente não está com um letreiro luminoso. Enma Daiyoh não pode permitir que qualquer alma passe por eles, por isso dos acordos com alguns poderosos demônios para guardá-los com segurança.'

'E o que eles ganham com isso?'

'Às vezes, ganham o perdão de seus pecados e a chance de reencarnar... Às vezes, não ganham nada além do reconhecimento de que foram os escolhidos por Enma Daiyoh e, por isso, são os mais fortes e temidos. Puro orgulho.'

Syaoran levantou-se e foi até a margem do rio, a água era quente e dava para ver a fumaça da evaporação. Ele observou o seu reflexo no espelho d'água, estava com a mesma aparência de quando tinha morrido, apenas tinha o rosto sujo e machucado. O rapaz lavou-se pensando em quanto tempo estaria ali. Para ele parecia uma eternidade, mas não fazia ideia, pois não havia noites nem dias. Ficava difícil marcar o tempo.

'Acha que estou aqui há quanto tempo?'

'Não sei.’ Arthas respondeu com sinceridade. ‘Tempo é algo muito difícil de se medir quando temos a eternidade.'

'Eu fico pensando em como deve estar Sakura.'

'Sakura? É uma mulher?'

'Sim.' Ele respondeu e o demônio pôde ver os lábios do rapaz se inclinarem num leve sorriso.

'É a sua mulher?'

'Pode-se dizer que sim.'

Arthas soltou uma gargalhada. 'Não me diga que está querendo voltar por causa dela? Nenhuma fêmea merece isso, garoto.'

Syaoran fechou o rosto e o encarou. 'Não sabe do que está falando.'

'É claro que eu sei, foi por causa de uma delas que eu vim parar aqui neste inferno.'

Li ergueu uma sobrancelha rindo. 'Nunca imaginei você namorando, Arthas.'

Arthas ajeitou o grande e desengonçado corpo, mostrando-se terrivelmente incomodado com o rumo da conversa. 'Pois nem irá. Foi por causa de uma piranha que eu acabei caindo numa armadilha.'

'No mínimo era casada.'

'Não quero falar sobre isso.'

O rapaz deu de ombros. 'Você é quem manda.'

Arthas observou o rapaz novamente colocando as mãos nas águas quentes do rio para limpar os ferimentos do corpo. 'Acredite, garoto. Nenhuma mulher merece tal sacrifício de um homem.'

‘Você não entenderia. Eu e Sakura, nós…’ Ele reteve-se por alguns segundos, sorrindo ao pensar na namorada. ‘Deixe para lá. Você não entenderia.’

‘Você não passa de um garoto teimoso.'

'Que tal começar a me chamar de Li?'

'Chamo-o do que você é, garoto.'

'Morri com 20 anos, não era nenhum garoto quando isso aconteceu.'

'Você tem espírito de garoto.'

'Eu sou um espírito.'

Arthas não falou mais nada. Li sentou em uma pedra olhando para o imenso lago que estava a sua frente. Às vezes algum demônio ia se banhar nele e saía quase escalpelado.

'Agora falta pouco.' Syaoran falou, observando a paisagem desértica do mundo das trevas. Pensou em sua mãe e esperava que ela estivesse conseguindo controlar Sakura. ‘Só mais um pouco, Sakura…’ Sussurrou.

Continua.

Notas finais
Notas Específicas: Os kyonshis são corpos conservados que incorporam qualquer espírito (pode ser o espírito original daquele corpo ou um outro qualquer) conforme o xamã definir. São manipulados por magia e não possuem vontade própria. Pailong inicialmente era como qualquer kyonshi, que foi incorporado pelo próprio espírito de forma forçada pela família Tao para ser protetor de Jun. Ele inclusive foi assassinado pela família para esse propósito. Em determinado ponto da história de Shaman King, ele recuperou sua lucidez e teve a chance de desfazer a incorporação, no entanto, decidiu permanecer na Terra, incorporado no corpo preservado por vontade própria. Apesar de ser um kyonshi com livre-arbítrio, ele ainda é considerado um "morto-vivo".