FEITICEIROS
75 Epifania
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 75
Epifania
Kazuo pegou a chave da mão de Shaolin e entregou para o pai. Empurrou-o de leve para pegar o irmão nos braços. ‘Vamos para o hospital.’ O rapaz falou de maneira assertiva.
‘Eu estou bem.’ Shaolin ainda falou, mas nem conseguia mover-se para se afastar do irmão.
‘Precisa no mínimo levar alguns pontos no corte da sua mão.’ Ele retrucou já caminhando com o garoto, virou-se para trás e olhou sobre o ombro direito o pai que já caminhava atrás dele após entregar o pingente para a esposa e pedir para ela ficar calma.
‘Nem pensar em ficar aqui!’ Sakura protestou seguindo ao lado de Syaoran, que apenas respirou fundo e soltou o ar devagar. Não adiantava começar a discutir com a esposa agora. Kazuo tinha razão. A prioridade agora era levar Shaolin para o hospital, no mínimo para levar alguns pontos da mão que sangrava sem parar e que pingava pelo chão.
Marie olhou para eles se afastando. Kazuo virou-se para ela rapidamente e acenou indicando que estava indo. Ela sabia que era melhor ficar ali e esperar eles voltarem. Mais pessoas seria mais confusão.
Sentiu quando Anna Assakura parou ao seu lado observando-os. Não tinha como controlar o calafrio percorrer as suas costas com a energia poderosa da xamã.
‘Eles vão para o hospital. Shaolin-kun voltou da última chave com um machucado na mão.’ A jovem esclareceu para a senhora que ainda observava a família atravessando a porta principal da pousada e desaparecendo da vistas delas. ‘Além disso ele está muito fraco também.’ Ela completou abaixando os olhos. ‘Ele não conseguiu destruir a última chave.’
‘Ele conseguiu.’ A xamã falou de forma firme. ‘Apenas foi difícil demais para ele. Foi o pior dos testes para ele.’
Marie franziu a testa. ‘Mas a chave… ela ainda estava na mão dele.’
‘Apenas a chave que foi modificada pela magia de Kinomoto-san que está relacionado ao pilar. Aquela chave não está ligada ao Mundo das Trevas, já não era mais a mesma chave. Apenas era um instrumento mágico para canalização da energia de Kinomoto. A chave que deveria ter sido destruída foi a que estava com o seu pai.’
Marie sorriu de leve aliviada. ‘Então ele conseguiu?’
Anna assentiu a cabeça, mas soltou um suspiro em seguida. ‘Ele voltou agora mais forte. Com maior controle do poder dele, por isso este foi o último teste, o mais difícil.’
‘Mas não são sete chaves? Falta ainda uma…’ A jovem não entendeu.
‘Para a missão dele… Ele já está pronto.’ Ela rebateu e virou-se afastando-se de Marie que a olhava ainda intrigada. Não podia negar que sentiu-se tentada em ir atrás da senhora Assakura para tentar tirar mais respostas, mas também não podia negar que sentia um receio enorme dela.
Marie apertou as mãos de maneira nervosa e fez algo que a muito tempo não havia feito, orou em silêncio para que tudo terminasse bem com o primo.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Kazuo observava Shaolin sentado na maca no ambulatório do hospital de Funbarigaoka. Syaoran estava tentando controlar Sakura que estava ansiosa no corredor de espera. Não daria para todos entrarem no ambulatório e ela estava com a energia instável demais para ficar sozinha. O rapaz, com o apoio do pai, foi taxativo em falar que ficaria ao lado do irmão enquanto os dois esperariam no lado de fora do ambulatório.
A enfermeira finalizava os pontos na mão do menino. ‘Precisa ter mais cuidado, rapazinho. Foi um corte muito profundo.’ Ela comentou.
Shaolin não respondeu, olhava para o chão do lugar. Kazuo detestava ver o garoto daquela maneira.
‘Quando o médico vai vir examinar ele?’ O rapaz perguntou.
‘Logo Hamata-sensei virá para checá-lo. Mas verifiquei a pressão e a temperatura. Os sinais vitais estão bons. O sangramento da boca foi o rapazinho que andou trincando demais os dentes e machucou a boca.’ Falou com a voz tentando passar animação e despreocupar Kazuo. ‘Seu irmão só fez uma travessura mas logo ficará bom.’ Disse finalizando os pontos e começando a colocar a atadura para proteger o machucado da mão de Shaolin.
O médico logo apareceu e examinou o menino, constatando que ele fisicamente estava bem. Provavelmente a apatia seria culpa pela travessura ou algo assim que resultou no grande e profundo corte na mão.
‘Vou receitar apenas um anti-inflamatório e aconselhar a fazer assepsia e troca de curativo duas vezes ao dia.’ O médico comentou, escrevendo na receita. ‘Como é na mão, seria bom passar uma pomada antiinflamatória também para acelerar a cicatrização.’ Completou. Logo entregou a receita para Kazuo que a pegou agradecendo ao senhor.
Kazuo observou o médico e a enfermeira saírem do ambulatório sob o ombro direito. Virou-se para o irmão assim que se encontraram sozinhos.
‘Que merda aconteceu com você?’ Perguntou encarando sério o garoto.
Shaolin parecia ainda em outro mundo. Kazuo se aproximou e segurou o ombro dele chamando a atenção do irmão que finalmente levantou os olhos encarando o rapaz.
‘Que merda está acontecendo com você?’ Repetiu a pergunta, mal conseguindo controlar a agonia.
‘Acho que não deu para destruir a última chave.’ Shaolin respondeu encolhendo de leve os ombros.
‘O importante não é destruir aquela merda de chave, o importante é você voltar, entendeu?!’
‘Acho que sim…’ Shaolin respondeu de forma vaga e sentiu quando foi sacudido pelo irmão, voltou a fitá-lo agora com a testa franzida. ‘Hei!’
‘Ah! Finalmente me olhou torto! Melhor do que aquele olhar vago para o nada!’ Kazuo retrucou.
‘Não enche o meu saco, Nii-san!’ O garoto falou batendo no braço do rapaz para se afastar dele e saltou da maca que estava sentado.
Kazuo endireitou o corpo, sentindo-se satisfeito pela reação do irmão. ‘O importante é que você voltou, Shaolin.’ Ele falou com a voz alta, fazendo o garoto parar de caminhar e voltar-se para ele. ‘Isso é que importa, entendeu?’
‘Acho que sim.’
‘Então tira essa cara feia. Sua mãe está lhe esperando com oyaji. Ela está preocupada demais.’
‘É eu sei.’
‘Ótimo.’ Kazuo falou caminhando em direção a ele e passando a mão pela cabeça do menino, bagunçando os cabelos dele. ‘A gente vai dar um jeito em tudo, Shaolin. Não precisa se preocupar.’
Shaolin balançou a cabeça de leve e não pode evitar de sorrir de leve. ‘Se eu falhei será que viro um demônio igual a você e a tal Lyra?’
Kazuo deu de ombros com o rosto zombeteiro. ‘Aquela fêmea era doida. Não me compara a ela. Eu sou um demônio com a cabeça no lugar, entendeu?’ Falou tocando o indicador ao lado da cabeça. ‘E se você é meu irmão tem que ter também a cabeça no lugar.’
Shaolin aumentou o sorriso. ‘É...acho que não vai ser tão ruim assim.’
‘Claro que não! Posso lhe garantir que é muito melhor do que o pessoal de asas metido que anda atrás de você.’
‘Será melhor… assim pelo menos eu e Kasumi teríamos a mesma…’ Ele reteve-se e franziu a testa. Soltou um suspiro pensando que realmente isso poderia ser vantajoso para eles. Sorriu verdadeiramente contente ao constatar isso.
Kazuo sentiu-se satisfeito em perceber a aura do irmão bem menos agitada. ‘Vamos lá. Os pais estão preocupados…’ Pigarreou. ‘Oyaji e Sakura estão preocupados com você.’ Consertou imediatamente.
Shaolin ergueu uma sobrancelha olhando para o irmão. ‘Vamos… Realmente os pais estão preocupados com a gente.’
‘Bora logo, pirralho.’ Kazuo falou passando o braço nos ombros do irmão e o puxando para saírem daquele lugar. ‘Bem que a pirralha gulosa falou que não gostava de lugares assim. Realmente o cheiro daqui é uma droga.’ Comentou rindo, aliviado por tudo não ter passado de um grande susto.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Sakura estava sentada no corredor em frente a porta do ambulatório. Estava com as pernas cruzadas e balançava de forma frenética, mostrando contrariada e nervosa pelo marido e por Kazuo a obrigarem ficar ali e não com o filho lá dentro.
‘Fica calma. Sua aura está instável ainda.’ Ouviu o marido ao seu lado.
Estava com vontade de respondeu o comentário de Syaoran com um palavrão. Não tinha como ficar calma depois do que aconteceu com o filho. Soltou um suspiro contrariada, evitando realmente que o palavrão saísse de seus lábios.
Syaoran rodou os olhos. ‘Kazuo está com Shaolin. Apenas um pode acompanhá-lo.’
‘Eu deveria acompanhá-lo.’ Ela falou entre os dentes. ‘Ele é meu filho.’
‘Você está com a aura instável, precisa ficar ao meu lado e eu não poderia entrar.’ Ele tentou ser prático. ‘Kazuo cuidou de Shaolin este tempo todo. Já provou que consegue cuidar do irmão mais novo muito bem.’
‘Não é este o ponto.’ Sakura rebateu ainda com o rosto contrariado. ‘Eu confio em Kazuo-kun.’
‘Então fique calma. Logo os dois estaram saindo.’
Permaneceram em silêncio algum tempo, até Sakura não conseguir se controlar. ‘Odeio o cheiro deste lugar.’
‘Também não me agrada.’ Syaoran concordou.
Sakura mordeu de leve os lábios, fitando um ponto no corredor vazio do hospital de Funbarigaoka. ‘O que você acha que aconteceu com Shaolin? O que ele quis dizer que não havia conseguido passar naquele maldito teste?’
Syaoran encolheu os ombros de leve. ‘Não sei. Mas o importante é que ele voltou, se a droga da chave foi ou não destruída que o idiota do Gabriel e o supervisor dele que resolvam o problema.’
Sakura pegou a chave que estava no seu bolso e a colocou na palma da mão. Engoliu em seco, observando o objeto ainda sujo com o sangue do filho. Tentou limpar com o polegar, sentindo o bolo se formar na garganta.
Syaoran olhou para ela de esguelha e soltou um suspiro. Passou o braço sobre os ombros dela a puxando para ficar mais perto dele e depositou um beijo demorado na cabeça da esposa. ‘Ele ficará bem, Sakura. O importante é que ele voltou.’
‘Ele não voltou bem…’ Ela comentou com a voz embargada. ‘Ele voltou triste demais.’ Falou pegando a ponta da saia e tentando limpar o chave sem muito sucesso. Queria tirar o sangue do filho o quanto antes dela. ‘Inferno…’ Soltou irritada.
‘Kazuo me falou que Shaolin contou que ele é testado. Testam suas virtudes. Ele voltou assim porque deve ter sido difícil. Às vezes, enfrentar um medo é muito mais dolorido do que um combate físico.’
‘Ele disse que seria sempre o pecado dele… Do que ele estava falando?’
Syaoran respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Eu não tenho certeza…’
‘Mas desconfia de alguma coisa! Do quê?’
‘Ele e Kasumi…’ Começou a falar. ‘Tem alguma coisa muito estranha e bem complicada na história deles.’
‘Aeon falou que eles eram ligados pelo passado.’
Syaoran concordou com um gesto. ‘Como dois seres com energias opostas podem ser ligadas da forma que eu e você sabemos que eles são.’
Sakura arregalou os olhos. ‘Eles se amam…’ Depois franziu a testa de leve. ‘O pecado da luxúria… Foi este que ele falhou então?’
‘Não posso julgá-lo.’ Syaoran falou. ‘Também é um dos meus maiores…’ Sorriu de leve olhando para a esposa. ‘Depois da ira…’
‘E do orgulho.’ Ela completou.
‘Caramba! É assim que me vê?’
Sakura balançou a cabeça de leve e conseguiu esboçar um sorriso. ‘Também são os meus… e tem ainda a preguiça. Odeio acordar cedo.’
Syaoran sorriu e beijou novamente a cabeça da esposa, sentia que ela estava começando a relaxar. Com certeza também deve ter percebido que a aura de Shaolin estava mais estável, dando mais tranquilidade para ela.
Sakura voltou a olhar a chave em sua mão. ‘Queria que ela tivesse sido destruída… apesar de… enfim trazer tantas lembranças boas.’
‘Não se preocupem.’ Os dois ouviram a voz de Gabriel e levantaram o rosto observando o semblante tranquilo do anjo a frente deles. ‘Sua chave não foi destruída porque não é mais ligada às trevas. Apenas a que estava com Hiiraguizawa ainda mantinha ligação com o plano inferior. Por isso apenas a dele virou pó. Shaolin passou no teste.’
Syaoran e Sakura se levantaram ao mesmo tempo e deram um passo a frente em direção ao anjo que arregalou os olhos vendo-os olhando torto para ele.
‘Que pensa que está fazendo com o nosso filho, Gabriel-san?’ Sakura falou irritada.
‘Não queremos mais que se aproxime dele, está ouvindo!’ Syaoran falou de forma firme. ‘Ele não é um de vocês! Ele é nosso filho!’
‘Se você e aquele seu supervisor se aproximarem dele, eu juro que acabo com vocês dois.’ Ela ameaçou.
Gabriel deu um passo para trás com as mãos a frente na defensiva. ‘Hei! Só vim dar uma boa notícia.’
‘Meu filho está no hospital!’ Syaoran respondeu bravo.
‘De novo!’ Sakura completou.
‘Vocês dois estão bem?’ Ouviram uma voz estranha ao lado e o casal virou-se vendo a recepcionista do hospital olhando para os dois com estranheza. ‘Tenho certeza que logo o filho de vocês sairá da emergência.’ Falou sorrindo para passar confiança para o casal.
Sakura e Syaoran voltaram-se e constataram que para variar Gabriel havia aproveitado a intervenção da jovem e sumiu.
Sakura sorriu entre o nervoso e o sem graça para a jovem. ‘Sim… logo ele sairá.’ Falou e soltou um suspiro.
Logo a porta do ambulatório abriu e os dois viram Shaolin sair ao lado de Kazuo. Sakura finalmente conseguiu soltar um suspiro de alívio e sorrir verdadeiramente, vendo o semblante tranquilo do filho.
Shaolin virou-se para ela e sorriu. Sentiu Kazuo dar um tapinha no ombro dele e um gesto com a cabeça para ir abraçar a mãe. Foi exatamente isso que o menino fez.
Sakura o abraçou apertado entre seus braços, agradecendo por tê-lo entre eles e jurou que ninguém o tiraria deles.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Kasumi estava sentada num dos bancos do dojo aguardando o pai que finalizava o treino dele. Tentou relaxar um pouco os músculos do pescoço. Soltou um suspiro e fechou os olhos encostando a cabeça na parede tentando relaxar um pouco. Por mais que tentasse não se preocupar sobre a conversa que teve com Shaolin a alguns dias atrás, ainda não conseguia dissipar totalmente seus receios.
Pelo que entendeu, Shaolin tinha algumas imagens desconexas e confusas de sua vida passada como Azrael. As memórias de Tatsumi ainda estavam falhadas. Era o melhor. Tatsumi havia sofrido demais presenciando tantas perdas.
Sorriu de leve, lembrando-se de quando espiava o rapaz sentado em frente aos túmulos de Sayo e Ieyasu. Tatsumi nunca aceitou perder aqueles com que se importava. Queria achar uma teigu capaz de trazer os dois amigos a vida. Era inocente demais. Não podia negar que fora contra a entrada dele no grupo de assassinos. Ele não era um, havia se tornado pelas circunstâncias. Ele era diferente dela, quer dizer de Akame. Akame havia sido criada para matar. Tatsumi almejava salvar sua vila da miséria.
Respirou fundo e soltou o ar devagar. Não fora a toa que depois que ele se foi… Engoliu em seco… havia se tornado um anjo. Exatamente o oposto do que ela era. Por que então continuava a amá-lo daquela forma? Por que esperava de forma paciência quando poderia apenas vê-lo, sempre em meio a alguma luta contra demônios. Eram encontros rápidos e doloridos demais… mas pelo menos… era possível vê-lo.
Amor era isso, não? Um eterno ciclo de dor e tristeza. Isso era amor?
Não! Abriu os olhos e fitou um ponto qualquer. A mãe havia lhe explicado o que era amor. O que era verdadeiramente este sentimento. Levou uma das mãos a altura do peito. Sim… amor não era apenas dor e sofrimento. Talvez para Akame… Ela não era Akame. Ela era Kasumi. Ela era amada pelos pais e amava-os. Ela amava Shaolin, seu amigo de infância. Amor não era dor. Amor era sim, felicidade. Fechou novamente os olhos e sorriu de leve constatando isso. A mãe lhe ensinou o que era amor baseado em confiança e esperança.
‘Kurogane-chan!’ Ouviram lhe chamar, interrompendo seus pensamentos. Abriu os olhos e virou o rosto levantando-o de leve e observando Shimizu aproximando-se dela. Franziu a testa. Não sabia que ele estava matriculado no dojo. ‘Olá!’ Cumprimentou ela de forma alegre.
‘Olá.’ Respondeu de forma contida.
O menino parou a frente dela ainda sorrindo de leve. ‘Estou matriculado nas aulas de kung fu, mas sou iniciante. Soube que você está muito mais adiantada.’
Ela desviou os olhos dele. ‘Eu já pratico a muito tempo.’
‘Sim. Me contaram. E também que é uma das melhores alunas. Não imaginei que além de ter talento para o teatro também tinha para a prática de artes marciais. Você realmente é surpreendente.’ Falou sem conter a admiração.
Ela comprimiu os lábios. ‘Faço pelos meus pais.’ Respondeu e se levantou. Esperaria o pai em outra parte do dojo. Não estava com vontade de conversar.
O menino parou a sua frente e a fitou. ‘Será que poderia me dar algumas dicas para um iniciante como eu?’
Ela o fitou por alguns segundos. ‘Não falte às aulas e preste atenção às explicações do shifu. Kung Fu é a arte da perfeição através do esforço. Se não se esforçar nunca conseguirá chegar até o Kung Fu.’
‘Ah! Claro…’ Shimizu falou decepcionado com a resposta dela. Arregalou os olhos de leve. ‘Tem notícias de Li-sensei?’ Perguntou, sabia que aquele assunto interessava a menina.
‘Ela estará de volta logo.’ Ela respondeu, dando um passo para o lado e se afastando do menino que foi atrás dela de forma insistente.
‘Sabe Kurogane-chan… sou muito esforçado quando quero alguma coisa.’ Ele falou, fazendo-a fitá-lo pelo ombro esquerdo.
Estreitou os olhos nele. ‘Se esforce pelo que vale a pena. Ou será apenas perda de tempo.’ Rebateu.
Kasumi virou-se para frente e abriu um sorriso observando o pai se aproximando dela. Kurogane a abraçou apertado chegando-a a levantar de leve do chão, como sempre fazia. Kasumi adorava!
‘Como foi o treino, princesa?’ Perguntou animado.
‘Tudo certo, tousan.’
‘Boa noite, Kurogane-sama.’ Shimizu cumprimeintou o senhor que franziu a testa desviando os olhos de sua menina e observando o garoto, voltou a fitar a filha que rodou os olhos. Só faltava o pai ter uma crise de ciúmes por conta de Shimizu.
‘Quem é você, moleque?’ Kurogane perguntou sem tato algum. Não tinha meias palavras para moleques metidos a príncipes encantados cercando sua princesinha.
‘Sou filho de Shimizu. Que trabalha nas empresas Daidouji.’ Ele respondeu sorrindo de leve.
‘Shimizu-san…’ O homem repetiu ainda com o cenho franzido. ‘Ah sim… do departamento legal.’ Finalmente se lembrou. ‘Bem… hum… Seu pai é um ótimo funcionário.’ Falou por fim.
‘Ele sente-se muito honrado em trabalhar para o senhor.’
‘Vamos tousan… Kaasan deve estar esperando por nós para jantar.’
‘Sim!’ Kurogane falou. Olhou para o menino e o cumprimentou antes de se afastar com sua princesa. Quando estava alguns metros de distância virou-se para trás observando rapidamente o moleque Shimizu parado olhando para eles. Ele que se atrevesse a se aproximar de sua princesinha, arrancaria o fígado dele.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Kazuo observava Arthas comendo sem parar. Ergueu uma sobrancelha pensando que Kero e Kasumi teriam um novo adversário à altura para comer tanto de uma só vez. O grandão arrotou, sentindo-se satisfeito.
‘Sabe, Garoto… Isso realmente é muito bom.’ Falou, passando a mão na barriga.
Kazuo olhou para os pratos vazios na mesa, pensando que a senhora Asakura com certeza reconsideraria aceitar um “esquisito” tão feio como Arthas em sua pousada.
‘Deu para ver que você gosta de comer. Você não comia antes de ir para o mundo das trevas?’ Kazuo perguntou, olhando para Arthas.
‘Eu até tinha me esquecido disso…’ O grandão falou. ‘Estou há tanto tempo lá que não me lembrava destes detalhes.’
‘Você nunca quis sair de lá?’
Arthas franziu a testa e pensou por alguns segundos, em silêncio. ‘Acho que não… No final, acostumei-me com o lugar. Primeiro conheci Luthor, depois o Garoto… E então recebi a missão importantíssima de destruir as brechas e depois… Preferi ficar com você e Midoriko por lá mesmo.’
‘Então… Você teve a opção de sair de lá?’
‘Sim.’ Ele confirmou com a cabeça. ‘Depois que a última brecha foi destruída, deram-me esta opção. Tadmoth reencarnou, o Garoto e a Feiticeira sumiram e a bonitona que estava ligada à Feiticeira também sumiu… Acho que reencarnou.’ Comentou, fazendo Kazuo pigarrear, sentindo-se incomodado pelo comentário sobre Khala’a. ‘Aí me deram essa opção, mas preferi ir atrás da Midoriko e ver o que ela tinha aprontado quando falou que teria um filho do Garotão.’
‘Hum…’ Kazuo murmurou. ‘Eu… Eu não gostaria de voltar para lá, não.’
Arthas ergueu uma sobrancelha. ‘Você nunca gostou de lá mesmo, não é?’
Kazuo confirmou com a cabeça. ‘Eu gostei desta vida de humano.’ Ele falou. ‘Gostei de conviver com o pai, a esposa dele e o meu irmão… e também…’ Ele reteve-se, coçando a cabeça de leve. ‘Gosto de uma garota.’
Arthas franziu a testa. ‘Você sabe que se Midoriko descobrir que você está se engraçando com uma fêmea, Midoriko acaba com com ela.’
‘Não tenho uma fêmea.’ Ele consertou. ‘Eu tenho uma namorada.’ Falou, sentindo-se embaraçado.
‘Namorada?’ Arthas perguntou. ‘Não importa como se chama aqui… Você está querendo ter um filho?’
‘Não!’ Ele respondeu com o rosto vermelho. ‘Eu só quero… Ficar ao lado dela.’
‘E por que outra razão um macho ficaria ao lado de uma fêmea?’
‘Arthas…’ Kazuo o chamou, encolhendo os ombros. ‘Deixa isso pra lá. O importante é que eu não gostaria de voltar.’
‘Midoriko vai caçá-lo por tudo quanto é universo para fazer você voltar com ela.’ O grandão avisou.
‘Será que, se eu entrar num acordo com ela… Ela me deixaria em paz?’
‘Acordo?’
‘É… Eu vou para lá, conquisto aquele monte inútil de areia para ela e depois eu volto. Ela ficaria feliz e satisfeita e eu voltaria para cá.’
‘A tal da Esdeath e seus aliados conquistaram grande parte do mundo das trevas. Midoriko até pensou em tentar combatê-la para assim tomar para si o grupo de seguidores dela.’ Soltou um suspiro. ‘Mas Midoriko é esperta, sabe que não pode contra a madame do gelo. Por isso está atrás de você e, verdade seja dita, a sua presença ao lado dela é que garantiria que ela continue com o que você conquistar. Ela não vai abrir mão de você, Garoto.’
Kazuo soltou um suspiro. No fundo, ele já sabia disso, mas a ideia era bastante atraente.
‘Eu não quero voltar, Arthas.’ Ele falou. ‘Realmente… Não quero voltar para lá.’
‘Então… você vai ter que enfrentá-la para conquistar sua liberdade.’
‘Devo minha vida a ela.’ Ele respondeu. ‘Não posso… Não sei se seria justo enfrentá-la.’
‘É sua escolha.’ Arthas comentou.
Kazuo batia de leve os dedos na mesa. Estava tenso. ‘Talvez… Eu consiga conversar com ela. E convencê-la. Oyaji está louco para tirar satisfação com ela. Midoriko não é burra, como você mesmo falou, não vai enfrentá-lo.’
‘Ela vai mandar você enfrentá-lo.’
‘Eu?’ Kazuo falou, arregalando os olhos.
‘Você tem alguma dúvida quanto a isso?’
Kazuo se ajeitou na cadeira. ‘Eu me recuso a lutar contra o oyaji.’
‘Então vai ter que enfrentá-la.’
‘Merda!’ Ele soltou incomodado. ‘Agora que as coisas estavam começando a dar certo.’
‘Não adianta ficar se agitando por isso. Ela ainda não o encontrou… Pode ser que nunca o encontre, não é?’
Kazuo sorriu de leve. ‘Seria muito bom se isso acontecesse.’
Arthas concordou com a cabeça. ‘Bem… Se você realmente decidiu ficar por aqui com o seu pai, acho que vou reconsiderar a oferta daquele cara lá de asas e pensar em cair fora do mundo das trevas. Sem você lá, não tem mais graça.’
‘Talvez seja uma boa, Arthas.’ Kazuo falou.
‘É, talvez…’ Ele concordou.
Kazuo bateu de leve na mesa e se levantou. ‘Vou dar uma olhada no Shaolin.’ Falou. ‘Quero conversar com ele melhor sobre o que aconteceu na última chave. Ele não voltou bem.’
‘O seu irmão?’
‘Isso.’ Kazuo confirmou, com o esboço de um sorriso.
Arthas riu. ‘Pelo jeito gosta do tal… como você chama ele…’ Falou franzindo a testa de leve.
‘Pirralho.’ Kazuo esclareceu rindo. ‘Chamo ele assim para implicar.’
Arthas estreitou os olhos nele. ‘Você parece se importar muito com ele, não?’
Kazuo levantou as sobrancelha. ‘Claro! Ele é meu irmão. Meu irmão mais novo!’ Respondendo como se fosse óbvio.
O rapaz fitou o grandão e soltou um suspiro. Batia de leve na mesa com a mão. ‘É... parece estranho… Eu sei…’ Falou desviando os olhos de Arthas. ‘Sei que família é uma fraqueza para os demônios, mas…’ Balançou a cabeça de leve. ‘Eu gosto… eu gosto de pertencer a uma família.’ Respondeu por fim voltando a fitá-lo. Tocou a mão no peito. ‘Eu me sinto parte de algo, eu gosto de conviver com oyaji, com a esposa dele e com Shaolin. Sinto-me responsável por Shaolin. Ele é meu irmão menor.’
‘Você não sabia da existência dele até agora.’ O demônio rebateu.
Kazuo respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Mas agora que eu sei… Não posso ignorar.’ Comprimiu os lábios de leve. ‘Não consigo ignorar. Quando eu pensei que ele tinha morrido…’ Balançou a cabeça de leve. ‘Foi a primeira vez que pensei que preferia estar morto do que sentir aquela agonia.’
Arthas riu e balançou a cabeça de leve. ‘Está sentimental, Garoto. Melhor ficar aqui mesmo… se voltar para o Mundo das Trevas não vai durar muito.’
Kazuo balançou a cabeça. ‘Acho que sim. Não quero mesmo voltar para lá.’ Falou sério olhando para Arthas. Bateu de leve na mesa novamente e estava para se afastar quando ouviu o grandão chamando-o.
‘O garoto não é daqui, Kazuo.’ Arthas começou a falar devagar. Era melhor Kazuo estar preparado. ‘Ouvi Gabriel e um outro anjo conversando no caminho para cá. Sobre o tal Azrael…’ Kazuo franziu a testa reconhecendo o nome pelo qual Lyra chamou o irmão. ‘Alguma coisa sobre, depois que ele cumprir a missão, ter que voltar para o plano superior. Pelo jeito, estão esperando por ele. Bem ansiosos, inclusive.’ Arthas olhou para o rapaz com o rosto sério e duro. ‘E deu para entender que o tal Azrael era o anjo da morte, o que executava missões contra demônios. E pelo que eu já ouvi, ele era o melhor nisto. Ele e a tal guardiã das trevas que deveria ter ido para o inferno no lugar do seu pai.’
Kazuo franziu a testa. ‘Guardiã?’
‘Isso.’ Ele falou assentindo com a cabeçona. ‘O Universo deles é próximo ao Mundo das Trevas. A tal Guardiã era o próprio demônio. Mandou mais almas para o inferno do que qualquer um.’
O rapaz arregalou os olhos. ‘Ah! A tal da…’ Franziu a testa e pensando que deveria ser loucura constatar aquilo. ‘Era Akame? Isso!’ Ele exclamou lembrando-se do nome que escutou algumas vezes antes e principalmente lembrando-se que fora o mesmo nome da Guardiã que a tal doida da Lyra falou que o irmão era obcecado. ‘Akame da espada encantada, Murasame. Foi ela quem mandou Esdeath para lá, não é? Pelo menos foi as informações que a Midoriko tinha conseguido dela.’ Concluiu, sem disfarçar a surpresa pelo que se lembrava.
‘Exatamente. A tal Guardiã das trevas que controlava Murasame, um demônio superior bem barra pesada. Prenderam aquele demônio numa katana.’ Arthas confirmou.
‘Prenderam?’ Kazuo franziu a testa. ‘Como assim?’
Arthas soltou um suspiro. ‘Garoto… O que eu sei são boatos. Midoriko andava obcecada em destruir Esdeath quando soube que ela no final controlou todo o território que antes era de Ilska. Então como você bem sabe como Midoriko é, andou levantando todas as informações sobre a madame gelo.’
O rapaz desviou os olhos de Arthas ainda com a testa franzida tentando não só lembrar do que antes para ele era completamente ignorado, mas também tentando montar aquele quebra cabeça.
‘Tinham me dado o nome dela antes do seu pai aparecer.’ Arthas chamou a atenção dele novamente. ‘Era a Guardiã das trevas mais forte aquele ciclo. Tinha se tornado demônio sem nem mesmo precisar ir para o Inferno como o seu pai. Disseram que ela simplesmente superou a corrupção de Murasame…’ Ele soltou uma risada. ‘Foi o que sempre lhe falei: as fêmeas são muito, muito piores do que nós, machos.’
‘Tornou-se Demônio sem estar no Mundo das Trevas?’ Repetiu tentando entender ou conseguir acreditar naquilo. ‘Mas não é possível se tornar um demônio… quer dizer, quando a alma regride volta para lá… mas mudar a natureza sem ter morrido? Isso é impossível…’
Arthas soltou um suspiro. ‘Para você vê como a tal da Guardiã era perigosa. Como eu lhe disse, pelo que eu soube dos que foram mandados por ela para lá, a Garota tinha cara de anjo e olhos de demônio.
‘Olhos… vermelhos?’ Kazuo perguntou engasgando. Só tinha um par de olhos vermelhos que havia tanto lhe chamado a atenção. Não só dele como de Marie. Os olhos castanhos-avermelhados da piralha gulosa. Mas aquilo era surreal! Kasumi tinha traços delicados, o rosto parecia… de anjo… pensou desviando novamente os olhos de Arthas sem conseguir realmente acreditar no que estava deduzindo.
‘Você sabe bem que os piores demônios são os de olhos vermelhos.’ Arthas confirmou, fazendo o rapaz engolir em seco. ‘Não era a toa que estavam loucos para mandar ela para lá de um jeito ou de outro.’ Ele meneou a cabeça. ‘Acho que desistiram com receio dela controlar tudo por lá. Pelo que me falaram, quando os demônios estavam conseguindo passar pelas brechas fixas por conta da revolta por saberem que seu pai estava vivendo como humano, alguns atravessaram para o universo dela e uns muito fortes. Não voltaram e duvido que foi porque continuaram a viver como o Garoto antes. A dupla de guardiões acabou com todos.’
Kazuo encolheu os ombros de leve. ‘Se ela era tão forte e tal… Por que mandaram oyaji?’
‘Isso eu já não sei. Só sei que os dois anjos que andaram comigo um tempo enquanto me guiavam…’ Ele franziu a testa contrariado. ‘Quer dizer, me deram uma ajudinha a chegar até aqui… Morrem de medo dela.’ Soltou uma gargalhada. ‘Aposto que nem tiveram coragem de propor ou ela mandou que eles que resolvessem o problema sozinho. A fêmea deve ser osso duro de roer… Seu pai sempre foi sentimental demais… no fundo jogaram com ele.’
Kazuo batia a mão de leve na mesa enquanto pensava, mas achava tão absurda a linha de seu raciocínio que custava a acreditar.
Arthas olhou desconfiado para ele que se mantinha sério. ‘Hei!’ Chamou a atenção do rapaz que voltou a fitá-lo. ‘A tal fêmea não é deste universo. Não podem ter dois guardiões das Trevas. Não precisa se preocupar com ela… você tem é que se preocupar é com o seu irmão.’
Kazuo endireitou o corpo incomodado. ‘Ele é só um pirralho.’
Arthas ainda tinha o rosto sério. ‘Se aquele garoto é ou foi… sei lá… Azrael, ele é o pesadelo de qualquer demônio como eu…’ Fez uma pausa e apontou para Kazuo. ‘E você.’
Kazuo franziu a testa, não gostando da colocação de Arthas. ‘Ele é meu irmão. Se não fosse ele, tinham me arrancado a cabeça e eu não teria como vencer um demônio superior.’
‘Anjos e demônios sempre foram inimigos, Kazuo. Se ele é um… ou foi… enfim... Ele é perigoso sim para você. É melhor ficar esperto com ele.’ Arthas soltou um suspiro e depois abriu um sorriso. ‘Apesar de que ele tem os olhos verdes tão bonitos quanto os da Feiticeira.’
Kazuo ainda tinha o rosto sério. ‘Ele não é um anjo. Ele é humano e é meu irmão…’ Soltou irritado. Bateu na mesa de leve e se levantou novamente contrariado. Estava se afastando quando voltou-se para Arthas. ‘Hum… Os guardiões… das trevas e os celestes… Eles parecem que não se dão bem, né?’
Arthas encolheu os grandes ombros de leve. ‘O Garoto nunca foi muito com a cara do Gabriel. E tem lá suas razões. Eu acho ele metido e tal, mas foi ele quem me passou a importantíssima missão de destruição das brechas.’
Kazuo respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Arthas… você acha que é possível… bem… dois guardiões o das trevas e o celeste… hum… se apaixonarem?’
Arthas soltou uma alta gargalhada, mal se controlando com tamanho absurdo que ouvia. ‘Você está sentimental demais! Está até inventando histórias de amor!’ Falou rindo apesar do rapaz ainda se manter sério. ‘Isso é impossível! Anjos não podem ter contato com planos inferiores, ainda mais um guardião das trevas que possui afinidade estreita com o plano inferior. Isso é impossível!’ Completou rindo sem controle.
Kazuo balançou a cabeça de leve. Arthas tinha razão talvez fosse loucura demais.
‘Vou ver o meu irmão… vou tentar entender o que está acontecendo.’
Arthas ainda ria com gosto, pensando que Kazuo realmente tinha ficado com o coração mole demais. Nem retrucou, apenas assentiu com a cabeçona, enquanto observava o rapaz se afastando. Era melhor mesmo ele ficar com o Garoto, estava sentimental demais para voltar para o inferno. Estava inventando até conto de fadas, pensou ainda rindo com gosto.
Kazuo caminhou com passos pesados pela pousada e parou na porta do quarto que estava dividindo com o irmão. Queria tirar a história a limpo com Shaolin, mas sorriu de leve, observando o irmão reclamar com a mãe enquanto ela tentava refazer os curativos dele.
Shaolin desviou os olhos da mãe, ainda reclamando com ela pelo excesso de cuidado e avisando que não era mais um bebê, e fitou o irmão que estava parado perto da porta.
‘Nii-san!’ Shaolin soltou aliviado, vendo o irmão. Olhou para Sakura e sorriu de leve. ‘Acho que nii-san ainda não se recuperou dos ferimentos também. Ele se machucou na luta lá contra os feiticeiros do velho mijão.’ O garoto falou para a mãe. ‘Ele está pálido, não está, kassan? Olha lá!’
Sakura franziu a testa, olhando para o filho. ‘Primeiro… Olha o linguajar, Shaolin! Que negócio é este de velho mijão?’ Ela falou, fazendo ele encolher os ombros. Sakura virou-se para Kazuo e inclinou a cabeça. ‘Mas você tem razão…’ Disse, levantando-se e caminhando até o rapaz que endireitou o corpo sem graça. ‘Você realmente está pálido, Kazuo-kun. O que aconteceu?’
‘Eu… Eu estou bem.’ Ele respondeu, embaraçado. Era capaz de estar pálido depois da conversa com Arthas. Desviou os olhos fitando o irmão e depois voltou a fitar Sakura. Não queria nem imaginar o que aconteceria com a esposa do pai se algo acontecesse ao garoto.
‘Onde você se machucou?’ Ela perguntou, segurando-o gentilmente pelo rosto. ‘O seu pai disse que você já estava bem… Tinha tomado o analgésico. Precisa de outro?’
‘Eu estou bem… Mesmo…’ Respondeu, desviando os olhos dela.
Shaolin sorriu de leve e soltou um suspiro, contente por ter deixado de ser o centro das atenções da mãe. Franziu a testa, observando a interação dos dois. Já tinha visto aquela energia antes. Estreitou os olhos, observando a mãe puxar o rapaz para que se deitasse antes de começar a vasculhar também Kazuo em busca de ferimentos.
Quando achou o ferimento que ainda estava cicatrizando no ombro do irmão, ela quase soltou um palavrão, revoltada pelo pai não tê-la avisado sobre isso.
‘Não é porque você cicatriza mais rápido que sente menos dor.’ Sakura falou entre os dentes. ‘Você também poderia ter me avisado.’
‘Não… Não é nada.’ Kazuo tentou argumentar em vão.
Shaolin sorriu de leve e finalmente fechou os olhos, conseguindo descansar. Kazuo era um bom irmão, saberia dividir com ele aquele carinho sufocante da mãe. Na verdade, o irmão até merecia ser mais mimado.
Pensou que quando voltasse a se encontrar com Kasumi a mimaria de todas a forma também, não importa o quanto ela reclamasse dizendo que poderia fazer sozinha e não precisasse da ajuda dele. Não pode negar que no fundo havia pensado que até seria uma boa se tivesse falhado na última chave, assim quem sabe seria como ela. Abriu ainda mais o sorriso pensando que não importava a aura que circulava os dois, a energia que ele percebeu que os ligava era forte demais. Brilhante demais e definitivamente era maravilhoso sentir ser envolvido por ela, unindo-o a Kasumi.
Kasumi poderia ter sido qualquer coisa no passado, hoje ela era sua princesa, seu maior problema seria apenas enfrentar Kurogane-ji-san. Riu com este último pensamento, chamando a atenção da mãe e do irmão.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Kazuo acordou sobressaltado de um pesadelo com o mundo das trevas. Passou a mão pelo rosto suado e depois pelos cabelos. Olhou para o lado onde o irmão ainda dormia no futon. Não havia conseguido falar com ele. Não queria falar daquele assunto perto de Sakura e a esposa do pai ficou cercando os dois de cuidados o tempo todo. Não que não tenha gostado, muito pelo contrário.
Levantou-se, tentando não fazer barulho e abriu lentamente a porta de correr, saindo do quarto para não acordá-lo. Caminhou pela pousada, ainda sentindo a respiração ofegante e os batimentos cardíacos acelerados pelas reminiscências do pesadelo.
Passou pelo quarto onde Marie ainda dormia, era ainda bem cedo da manhã. Parou em frente a porta de correr. Tocou a testa de leve na madeira fria e fechou os olhos. Queria ficar ao lado dela. Sorriu de leve, sentindo-se feliz por ela não ter perdido os sentimentos dela por ele, mas logo o sorriso deu lugar a preocupação. Ele era um demônio, como seria um relacionamento entre os dois?
Balançou a cabeça de leve. Era melhor não pensar nisso agora. Estavam saindo daquela loucura toda e logo voltariam para casa. Conversaria com o pai sobre isso. Quando ele voltou do mundo das trevas, casou-se com Sakura então era completamente possível os dois se relacionarem.
Franziu a testa de leve percebendo uma presença forte fora da pousada. Engoliu em seco e sentiu um arrepio percorrer a espinha. Não queria que ela se aproximasse de Marie ou de sua família. Sentiu uma gota de suor escorrer pela lateral do rosto. Cerrou os punhos, tomando uma decisão. Não queria que ninguém saísse machucado, principalmente ela. Sabia muito bem que, tanto o pai quanto Sakura, estavam querendo a cabeça dela. E ainda tinha Shaolin…
Não podia negar que havia ficado preocupado com o que estava descobrindo sobre o irmão. Se realmente o irmão era reencarnação de Azrael, o anjo executor, ele não hesitaria em matá-la. Sabia o quanto Shaolin estava forte e rápido. Era melhor encontrá-la e tentar solucionar a questão sem um confronto.
Caminhou para a saída da pousada, seguindo em direção à presença. Respirou fundo ao observar o vulto na escuridão no terreno em frente. Droga, ela o tinha achado rápido demais. Balançou a cabeça de leve, aproximando-se devagar.
Midoriko virou-se para ele com o rosto sério. ‘Você foi muito ingrato, moleque.’
Kazuo franziu a testa encarando-a. ‘Exatamente o que você quer?’
‘Não é óbvio? Vim buscá-lo para voltar comigo para o mundo das trevas. Perdi uma grande parte do que conquistei porque os idiotas que estavam comigo não conseguiram manter os meus domínios.’
‘Eu não vou. Não estou mais afim de voltar para aquela merda de lugar.’
Ela franziu a testa e estreitou os olhos nele. ‘É claro que você vai. Você me deve sua vida. Além disso, você é muito idiota se acha que pode viver numa boa entre humanos. Demônios e humanos não convivem. Eles se matam, entendeu?’
‘Você está errada. Eu estou muito bem aqui pelos últimos meses.’
Midoriko soltou uma gargalhada. ‘Para de ser estúpido, moleque! Você acha que vai conseguir aguentar até quando essa vidinha medíocre aqui com os humanos antes de perder o controle? Anda… Precisamos voltar logo, antes que os universos se estabilizem e não consigamos mais achar uma brecha para voltar. Aquela repugnante da Esdeath está conquistando tudo com seus aliados, mas está enlouquecida procurando uma brecha para voltar para o universo idiota dela. É a minha chance de dominar tudo e eu preciso de você.’ Ela ordenou, começando a caminhar, mas percebeu que ele não saíra do lugar. Trincou os dentes. Voltou-se para ele, parando a centímetros e encarando-o. ‘Você vai comigo agora. Entendeu? Você é um demônio e seu lugar não é aqui.’
‘Quero ficar aqui… Com oyaji.’
‘Ah!’ Ela soltou de forma irônica. ‘Com seu pai? Para de ser estúpido. Seu pai está morto. O idiota que você acha ser seu pai é só a alma dele dentro de um corpo fraco e humano.’
‘Ele não é fraco. E não importa.’
‘Não me obrigue a levar você arrastado comigo.’ Ela ameaçou.
‘Você não vai querer chamar atenção deles para você, Midoriko. É melhor ir embora de uma vez, antes que se machuque.’ Disse, ficando nervoso por ver a aura dela começar a se agitar. ‘Eu não vou sair daqui.’
‘Você tem que ir comigo.’ Ela insistiu. ‘Você tem que fazer o que eu mandar. Se não fosse por mim, você estaria morto há muito tempo. Você tem uma dívida comigo.’
Kazuo respirou fundo. ‘Se eu conquistar… Conquistar o que você quer, você me deixa em paz depois?’
Ela franziu a testa e ficou em silêncio por alguns segundos. ‘Se você conquistar o mundo das trevas e formar um bom grupo de seguidores fortes… Então você pode fazer o que quiser depois.’
‘Está bem.’ Kazuo respondeu. ‘Eu vou com você e resolveremos isso.’
‘Ótimo.’ Ela falou satisfeita. ‘Então, vamos agora.’
‘Vão aonde?’ Kazuo ouviu a voz do irmão atrás de si e sentiu o coração acelerar.
Estranhou não ter percebido a presença dele antes, era fácil percebê-la. Virou-se para trás e viu o garoto se aproximando devagar. A aura dele estava fraca, parecia que ele a tinha controlado de propósito para não chamar a atenção para sua aproximação. Shaolin realmente estava mais forte depois que voltou da última chave. Parecia que agora tinha controle total de sua magia e do poder que tinha adquirido ao longo de todos os testes. Estava com o olhar sério… Fatal.
‘Volta para dentro, Shaolin. Isso é assunto meu.’ Kazuo respondeu para o irmão que se aproximava com a esfera mágica na mão.
Shaolin parou próximo a ele e estreitou os olhos no demônio feminino que o observava com interesse.
‘Acho melhor você obedecer, garoto. Ou pode se machucar.’ Ela falou sorrindo de maneira debochada.
Shaolin sorriu de lado, inabalável. ‘E eu acho melhor você cair fora.’ Advertiu-a, fazendo-a arregalar os olhos.
‘Quem você pensa que é?’ Midoriko perguntou irritada, pronta para atacar o garoto.
Kazuo se colocou entre os dois, a aura do irmão estava começando a se elevar. Para ele atacar Midoriko não faltava muito. Não queria que os dois lutassem.
Shaolin já tinha deixado claro que estava com Midoriko entalada na garganta desde que tinha, sem querer, revivido suas lembranças de quando vivia no mundo das trevas com ela. Para ele materializar a espada e cortar Midoriko ao meio, não custava muito. Ela estava confiante porque o irmão estava com a presença mágica controlada e fraca, aparentemente parecia não mostrar perigo para um demônio superior como ela.
‘Vocês dois… Acalmem-se!’ Kazuo pediu para eles.
‘Desde quando eu tenho medo de um pivete deste tamanho?’ Midoriko perguntou, irônica.
‘Estou avisando para você cair fora e se afastar do Kazuo.’
‘Será que esse tempo que passou aqui o deixou tão fraco que agora precisa de um pivete para defendê-lo?’
‘Ele não precisa, mas eu vou adorar mandar você para o inferno.’ Ele inclinou a cabeça. ‘Na verdade, cortando você ao meio, vira pó e deixa de existir, não?’ Falou com um tom de petulância e frieza.
‘Shaolin! Fica calmo!’ Kazuo pediu para o irmão. ‘Midoriko, eu vou com você. É melhor você ir na frente.’
Shaolin desviou os olhos de Midoriko e encarou o irmão. ‘Você só pode estar de sacanagem que vai mesmo embora com ela?’
‘Eu tenho que ir.’
‘Tem que ir, por quê?’
‘Porque eu tenho uma dívida com ela. Você não entenderia.’
Midoriko sorriu de lado e cruzou os braços encarando Shaolin. ‘Acaba com esse pivete de uma vez, Kazuo. Ele já me deu nos nervos.’
‘Cala a boca, Midoriko!’ Kazuo falou, virando-se para ela rapidamente. ‘Já falei para você ir na frente. Encontro com você daqui a pouco.’
‘Você não vai a lugar nenhum com ela.’ Shaolin falou, sério.
‘Eu já falei que eu preciso ir.’
Midoriko sorriu de forma maldosa reparando que o garoto realmente parecia incomodado por Kazuo decidir ir para o mundo das trevas com ela. ‘Eu sou a mãe dele, pivete. Ele faz o que eu mandar. Melhor você cair fora.’
Shaolin arregalou os olhos de leve, olhando o rosto do demônio feminino. Franziu a testa, dando-se conta que a energia que os envolvia era completamente diferente de tudo que já havia visto entre mãe e filho. Tinha alguma coisa errada naquela história. Deu um passo para trás, fazendo o irmão soltar um suspiro de alívio, pensando que tinha entendido a situação.
‘O Kazuo é um meio-demônio…’ Ele declarou, observando a reação da aura do demônio feminino a sua frente e notando que, por um momento, ela sentiu medo. Foi muito breve, mas foi o suficiente para ele confirmar suas suspeitas de que havia algo errado.
‘Acaba com ele, Kazuo.’ Midoriko falou irritada. ‘É só um pivete metido. Acaba com ele ou eu farei isso!’
‘Tenta você.’ Shaolin falou para ela, sorrindo de lado.
Midoriko trincou os dentes e avançou sobre o garoto, extremamente irritada. Shaolin não se mexeu e apertou a esfera na mão, concentrando sua energia e esperando ela se aproximar o suficiente para explodir com sua magia e acabar com ela de uma vez. Reparou que as unhas dela cresceram como garras. Materializou a espada e já estava para acertá-la quando franziu a testa, encarando o irmão que novamente se colocou entre os dois.
Kazuo bloqueou o ataque da arma de Shaolin contra Midoriko com a sua espada e protegeu o garoto das garras do demônio com o ombro direito.
‘Já mandei os dois ficarem frios!’ Kazuo gritou, segurando com as duas mãos a empunhadura da espada que faiscava contra a arma do irmão. Ele golpeou Midoriko com uma perna, afastando-a dele e tirando as garras dela do seu ombro que sangrava. O rapaz balançou a cabeça negativamente, encarando o irmão. ‘Shaolin, ela é a minha mãe…’
‘Não tem como ela ser sua mãe!’ Shaolin rebateu de volta, empurrando a espada de Kazuo para que ele desse um passo para trás e abaixou levemente sua arma.
‘Do que diabos você está falando?’ O rapaz perguntou, franzindo a testa.
‘É isso que eu vou descobrir agora.’ O garoto falou, explodindo a aura dele e fazendo o irmão arregalar os olhos.
Shaolin empurrou Kazuo com sua magia, que foi obrigado a dar alguns passos para trás, e parou em frente a Midoriko com a arma abaixada. Ela havia sido pega desprevenida com a atitude e com a presença do garoto, levantou a mão pronta para atacá-lo novamente quando Shaolin segurou o pulso dela, fazendo-a ficar paralisada.
Kazuo olhou assustado para os dois e tentou se aproximar, mas sentiu a aura do irmão repeli-lo. O que diabos Shaolin estava fazendo? Gritou pelo irmão. Não sabia se temia pela vida dele ou pela de Midoriko.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Midoriko contornou uma enorme pedra, mantendo os olhos fixos na humana que estava caída no chão. Precisava ser rápida e executar seu plano antes que o Garotão voltasse. Viu a humana tentando se levantar. Ótimo! Ainda estava fraca, mas não continuaria assim por muito tempo.
‘O que você está fazendo aqui, Midoriko?’ Ouviu o inútil do Arthas e desviou os olhos para ele. ‘Por que não está lutando contra Pazuzu com o Garoto e Tadmoth?’ Ele perguntou apreensivo. Era mesmo um covarde!
‘Estou caindo fora!’ Midoriko falou de forma sarcástica.
‘Você realmente é um demônio traiçoeiro.’ Arthas retrucou. ‘Se não ajudar, estará quebrando seu acordo com Enma Daiyoh. Não vai receber sua recompensa!’
Riu de forma irônica. ‘O que Enma Daiyoh me prometeu não será nada comparado ao que conquistarei quando eu tiver o filho do Garotão.’ Falou, lançando o grande demônio longe, que caiu inconsciente no chão. Realmente era um fraco inútil.
Voltou-se para a humana que a encarava, tentando manter-se em pé apoiada na grande pedra que as protegia da tempestade de areia. Era divertido ver aquela imbecil, toda dona de si, tão fraca e debilitada como agora. Era isso que acontecia quando tentavam invadir o lugar ao qual não pertenciam.
‘Você se acha realmente poderosa, não é, feiticeira?’ Perguntou, aproximando-se dela. Estava, no fundo, se divertindo ao reparar o receio dela agora.
‘O que você quer?’
‘Conquistar tudo isso aqui.’ Respondeu. ‘E você está no meu caminho.’ Falou, avançando até ela para atacá-la.
A humana idiota ainda levantou a barreira mágica, fazendo-a bater no escudo, mas ele estava fraco. Desferiu alguns golpes com raiva, por ela estar fazendo-a perder tempo daquela forma. Se o Garotão voltasse, teria seus planos frustrados e, provavelmente, morreria.
Sorriu, vendo a barreira enfraquecer até não conseguir mais protegê-la e, finalmente, conseguiu acertá-la fazendo a estúpida humana cair no chão novamente.
Arregalou os olhos, vendo projéteis de magia vindo em sua direção, acertando-a de raspão e trincou os dentes irritada por ter sido machucada. Abaixou-se e pegou aquela humana maldita pelo pescoço, levantando-a do chão e encarando o rosto assustado dela a centímetros do seu.
‘Odeio você. Frustrou todos os meus planos iniciais.’ Disse, apertando-lhe o pescoço e sentindo-se imensamente satisfeita em ver o sofrimento nos olhos de sua vítima. Pena que não poderia matá-la, ainda.
A humana levantou as mãos, segurando os seus pulsos numa tentativa completamente fútil de fazê-la soltá-la.
‘Você nunca deveria ter vindo atrás dele.’ Falou e afastou uma das mãos, encompridando suas unhas como garras afiadas e concentrando sua magia em torno da sua mão, enquanto ainda a mantinha presa pelo pescoço. Moveu suas garras na direção do ventre dela, prestes a conseguir seu prêmio.
‘Através.’ Ouviu-a sussurrar, sentindo-a escorregar de suas mãos, evitando ser atingida.
Sentiu-se irritada com o empecilho, mas aquilo não a iria impedir de conseguir o que queria. A Feiticeira caiu no chão fraca, respirando com dificuldade. Já estava no limite da sua paciência. Não podia matá-la, mas começava a pensar que faria isso assim que tivesse o que queria.
Tentou se aproximar da maldita humana novamente quando arregalou os olhos, vendo uma bola de fogo vindo em sua direção e não lhe dando tempo de reagir. Apenas deu alguns passos para trás sentindo o fogo mágico a queimar-lhe o rosto e soltou um grito de dor e ira.
‘Não vai ficar no meu caminho!’ Gritou com raiva, voltando a se aproximar da Feiticeira que estava bastante debilitada. ‘Logo terei a melhor arma para conquistar a tudo e você…’ Sussurrou, preparando-se para atacá-la. ‘Deixará de existir.’
Novamente, o escudo mágico foi erguido, mas estava tão fraco que bastaria um ataque concentrado para quebrá-lo. A humana fechou os olhos, tentando se proteger, mas foi inteiramente em vão. Sua mão atravessou a barreira e suas garras, envoltas em magia, invadiram o ventre dela, alcançando seu objetivo e fazendo-a gritar de dor.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Shaolin soltou o pulso de Midoriko e deu alguns passos para trás, ainda olhando diretamente nas orbes negras do demônio feminino.
Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas nada saía de sua garganta com o que tinha acabado de reviver. Balançou a cabeça de leve, tentando voltar para o tempo presente e sentindo os olhos arderem com tamanho horror do que tinha acabado de ver, de presenciar… De reviver.
A imagem da mãe ainda se contorcendo e gritando de dor parecia ter lhe acertado mais forte do que um poderoso soco na boca do estômago, fazendo-o sentir-se enjoado.
Midoriko encarou o garoto a sua frente, ele tinha poder demais para um moleque daquele tamanho. Ele tinha conseguido paralisá-la apenas segurando o seu pulso. Tinha que se livrar dele, era perigoso demais. Aproveitou o fato dele parecer completamente atordoado, por seja lá o que tivesse acontecido, e franziu a testa, concentrando sua magia e avançando sobre ele para eliminá-lo de uma vez.
Kazuo observou Shaolin confuso e percebeu que a barreira mágica que ele tinha levantado cedeu. Arregalou os olhos ao perceber que Midoriko estava para golpeá-lo e se colocou à frente do irmão, protegendo-o do ataque dela.
‘Saia da minha frente, moleque!’
‘Você não vai machucar o meu irmão!’ Kazuo retrucou, empurrando-a. ‘Já falei que eu vou com você. Saia daqui que eu logo me encontrarei com você.’
‘Não…’ Shaolin balbuciou.
Kazuo se virou para o irmão. Observou-o levar a mão ao rosto, ainda transtornado, e franziu a testa reparando na aura dele agitada… Agitada demais… Droga!
Shaolin estava com a cabeça baixa, sem conseguir encará-lo. O menino estendeu a mão e a espada, que ele tinha deixado cair no chão enquanto estava naquele transe doido segurando o pulso de Midoriko, voou para a mão direita dele.
Kazuo só teve tempo de colocar a espada na frente do corpo, fazendo novamente as duas armas se chocarem para defender Midoriko. Abaixou a espada, olhando o rosto do irmão. Era a mesma expressão que ele tinha visto quando o garoto estava decidido a matar Rosas. Engoliu em seco e segurou a empunhadura da sua arma com as duas mãos. Merda! O irmão estava forte e rápido demais.
Os dois se afastaram e encararam-se novamente. Shaolin flexionou os joelhos e voltou a tentar atacar Midoriko, obrigando-a a pular para trás, evitando o ataque mortal do garoto. Shaolin foi novamente impedido por Kazuo, fazendo as duas armas se chocarem algumas vezes, até novamente medirem forças com as espadas encostadas.
O demônio feminino olhou assustada para o poder que crescia em torno da pequena criatura que anteriormente havia julgado ser fraca. Olhou para o braço que tinha um grande talho, não sabia nem como tinha sido atingida por aquele moleque.
‘Sai da minha frente, nii-san.’ Shaolin falou entre os dentes, encarando o irmão. ‘Sai agora.’
‘Eu já falei que ela é minha mãe…’ Kazuo replicou, sentindo as mãos tremerem pela força que fazia para manter a espada do irmão longe de si. ‘Eu não posso permitir que você faça isso.’
‘Ela não é a sua mãe!’ Shaolin vociferou, encarando o rapaz e o empurrando para trás. Afastaram-se, porém ainda tinham os olhos um no outro.
‘Do que está falando?’
‘Ela não é sua mãe.’ Ele repetiu, mal conseguindo controlar a raiva que tinha dentro do corpo. ‘Ela roubou você! Você é meu irmão! É meu irmão de verdade…’
‘É claro que eu sou seu irmão, Shaolin.’ Kazuo falou, mas novamente foi obrigado a proteger-se do ataque do irmão contra ele que permanecia à frente de Midoriko, protegendo-a. ‘Shaolin! Abaixe essa arma… Esse não é você.’
‘Sua mãe é a minha mãe!’ O garoto gritou, fazendo Kazuo arregalar os olhos.
‘Que palhaçada é essa, Shaolin?’ Kazuo perguntou aflito, empurrando a espada do irmão que deu um passo para trás, mas nenhum dos dois abaixou as armas.
‘Ela roubou você do ventre da minha mãe quando ela estava no mundo das trevas.’
‘O quê?’ Kazuo perguntou, estava tentando a olhar para Midoriko, mas tinha receio de desviar os olhos do irmão que estava apenas esperando ele baixar a guarda para voltar a atacar o demônio feminino.
‘Que merda, nii-san! Sai da minha frente! Ela não é a sua mãe! Ela tirou você do ventre da nossa mãe. Você não é filho dela!’
O garoto gritou e estava já pronto para voltar a atacar quando sentiu a presença da mãe explodir às suas costas. Estava com tanta raiva que não tinha percebido a aproximação dela antes.
Shaolin baixou a espada e virou-se para trás, vendo o rosto transtornado da mãe. O pai estava próximo a ela também, com o rosto lívido.
‘O-o que você falou, Shaolin?’ Sakura perguntou com a voz falhada.
‘Kaasan…’ Ele soltou, observando a aura dela voltar a pulsar violentamente e as manchas negras se expandirem.
‘O que você disse?!’ Ela gritou, aproximando-se do garoto e o fazendo engolir em seco.
‘Eu vi… Eu vi…’ Shaolin hesitou em falar, desviou os olhos da mãe e fitou o pai que parecia tão surpreso quanto ela, porém mais controlado. Observou Marie chegar correndo e parar ao lado dele.
‘Fala logo o que você viu!’ Sakura gritou, segurando o braço do filho e o encarando.
Shaolin respirou fundo e encarou a mãe nos olhos. ‘Eu a vi tirar o Kazuo da senhora. Quando estava no mundo das trevas. Durante uma tempestade de areia.’
Sakura franziu a testa, soltando o filho que deu um passo para trás e abaixou os olhos.
‘Você disse que viu, foi isso?’ Sakura perguntou para o menino.
‘Eu vi na mente dela…’ Ele respondeu.
Shaolin levantou o rosto e olhou em direção ao pai que encarava Midoriko de forma mortal enquanto segurava a espada na mão direita. A mão do pai estava tremendo.
‘Você tem certeza disso, Shaolin?’ Syaoran perguntou com a voz séria sem desviar os olhos de Midoriko.
‘Tenho.’ O garoto respondeu.
Sakura franziu a testa. ‘E por que… Por que eu não me lembro disso?’ Falou confusa.
‘Eu… Sinto muito…’ Marie murmurou com a voz trêmula, ao lado deles, olhando para o chão.
‘Do que você está falando, Marie?’ Syaoran falou entre os dentes, ainda sem desviar os olhos de Midoriko.
Marie levantou o rosto e fitou Kazuo, que estava atordoado a frente de Midoriko sem saber direito o que fazer. Sentiu os olhos arderem e engoliu em seco.
‘Eu só percebi depois que já estávamos no mundo das trevas. Não falei a respeito porque achei que conseguiria proteger Sakura, mas eu falhei…’
‘Durante a luta contra Illska, Khala’a estava hesitando demais, estava indo a extremos para impedir que Sakura se machucasse…’ Ele comentou, lembrando-se da luta. ‘Era por isso, não?’
Marie confirmou com a cabeça. ‘Por isso quando sugeriu Troca, mesmo sendo arriscado…’
‘Por que não falou isso antes, Khala’a?’ Sakura perguntou com a voz perigosamente baixa, virando-se para ela.
Marie arregalou os olhos quando ouviu a tia a chamando pelo seu antigo nome. Ela parecia estar revivendo aquele maldito momento.
‘Eu pensei que ele tinha morrido… Não pensei que tivesse sobrevivido.’ Ela falou com a voz falhada. ‘Quando ela o tirou de você, falou como se tivesse conseguido o próprio filho com o Mestre… Achei que o estivesse eliminando para não ter concorrência.’
Sakura ainda tinha os olhos cravados em Marie. ‘E por que eu não lembro o que essa ela fez comigo?’
Marie soltou o primeiro soluço e comprimiu as mãos de forma nervosa. ‘Eu… eu achei que apagando sua memória… Evitaria este sofrimento a você. Eu não queria que você sofresse.’
‘Você usou magia em mim, Khala’a? Você teve coragem de fazer isso?’ Falou entre os dentes.
Marie engoliu em seco. ‘Não tinha o que fazer mais. Eu pensei que ele não tinha sobrevivido, seria uma dor sem sentido para você. Eu juro… juro que pensei… que tentei fazer o melhor para você.’
Sakura franziu a testa e tinha o olhar duro para Marie. ‘Não vou perdoá-la pelo que fez. Nem você…’ Falou fazendo Marie abaixar o rosto aos brandos e voltando-se para Midoriko. ‘E muito menos você.’ Completou em voz baixa.
Syaoran desviou os olhos de Midoriko e fitou Kazuo. Lembrou-se de ter observado a mandala que havia se formado aos pés do filho quando ele havia elevado sua magia e reparou nos elementos da mandala de Sakura. Kazuo não estava apoiado na magia de Shaolin. A mandala formada aos pés dele era própria.
Balançou a cabeça de leve, sentindo-se atordoado. Aquela cobra tinha tirado seu filho do ventre da sua mulher para transformá-lo numa maldita arma de conquista daquele lugar de merda.
‘A dor…’ Sakura balbuciou. ‘Aquela maldita dor que eu sentia… Era isso, então…’ Ela falou se aproximando de Midoriko sem desviar os olhos dela. ‘Você teve coragem de tirar o meu filho no meu ventre?’
Midoriko ergueu o queixo, devolveu a encarada. ‘Se você não tivesse aparecido, eu teria conseguido invadir os sonhos dele e ter o que eu queria. Seria muito mais vantajoso para mim, pois seria um demônio completo e não um estúpido meio-demônio que não serve para nada.’
‘Eu… Eu odeio você.’ Sakura falou, dando mais um passo em direção a ela.
Shaolin arregalou os olhos, vendo a aura da mãe pulsar novamente e, a cada pulso, as manchas negras aumentarem de tamanho até que toda a aura que a envolvia estivesse negra e opaca, como tinha visto tantas e tantas vezes nos seus pesadelos. Era um negro tão penetrante que parecia absorver toda a luz do ambiente
‘Eu vou acabar com você...’ Ela disse com a voz fria.
‘Kaasan…’ Ele falou, tentando se aproximar, mas a aura dela não permitiu que ele se aproximasse. Ele virou-se para o irmão que ainda estava tentando absorver o que tinha ouvido e o puxou pelo braço, afastando-o da aura negativa de Sakura. ‘Afaste-se dela.’ Ele pediu, sem saber exatamente o que fazer.
Shaolin virou o rosto, vendo as cartas voarem de dentro da pousada em direção a eles. A mãe estava chamando-as. ‘Tousan!’ Ele gritou por Syaoran que olhou para as Cartas e se mostrava tão surpreso quanto ele.
‘Sakura!’ Syaoran chamou a esposa, tentando aproximar-se dela e sentindo a energia negativa repeli-lo. ‘Merda!’ Esbravejou entre os dentes.
Olhou para os filhos e depois reparou nas cartas que estavam voando em direção à esposa. Tentou chamá-la mais uma vez, mas ela não conseguia ouvir nada. Levou uma mão ao peito, sentindo-o doer de tal forma que pensou que havia sido atingido por alguma lança, franziu a testa. Sakura estava enlouquecendo de dor e culpa.
As cartas voavam em torno de Sakura que não via nada a não ser Midoriko a sua frente que olhava para ela em pânico, aprisionada pelos ramos de Bosque. Sakura levantou a mão direita onde a espada surgiu entre os seus dedos e deu alguns passos em direção ao demônio feminino.
‘Droga.’ Syaoran falou, tentando mais uma vez se aproximar da esposa, mas sendo repelido pela aura dela. Aproximou-se dos filhos e os puxou para se afastarem dela. ‘Fiquem aqui. Eu vou tentar chegar até ela.’ Ele falou, empunhando a espada e pegando um talismã.
Não sabia direito o que fazer, mas tinha que quebrar o escudo de magia que Sakura formou em torno de si. Tinha que chegar à esposa de alguma maneira para tentar trazê-la de volta.
‘Não tem como, tousan!’ Shaolin gritou. ‘A energia de dor e culpa da mãe se misturou à aura dela. Não vai deixar ninguém chegar perto.’
‘Se tem alguém que pode chegar perto dela, sou eu. Fique aqui com o seu irmão.’ Syaoran ordenou, afastando-se dos filhos. Invocou uma magia na tentativa de criar um escudo mágico para avançar em direção a esposa, mas a magia dela estava muito elevada.
Midoriko olhava aterrorizada para Sakura que a encarou com o semblante sério e os olhos frios.
A feiticeira levantou o braço com a espada sem tirar os olhos do demônio feminino.
Shaolin arregalou os olhos, vendo a cabeça de Midoriko rolar a sua frente antes de se transformar em pó negro.
Finalmente, seu pesadelo tornava-se realidade.
“E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.
E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz.
E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas.
E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho.”
(Apocalipse 12:1-4)
Continua.
Fale com o autor