FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 76

Caos — Parte 1

“E houve vozes, e trovões, e relâmpagos, e houve um grande terremoto, como nunca houve desde que há homens sobre a terra; tal foi este tão grande terremoto.”

(Apocalipse 16:18)

"Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações estarão em angústia e perplexidade com o bramido e a agitação do mar. Os homens desmaiarão de terror, apreensivos com o que estará sobrevindo ao mundo; e os poderes celestes serão abalados.”

(Lucas 21:25-26)

“E será então, quando o Céu arder em chamas, que um coração partido gerará a Esperança e uma Era de bem-aventuranças.”

(Reed Clow)

Marie sentiu o chão aos seus pés tremer, mal conseguindo manter-se em pé pelos solavancos violentos da terra. Olhou para o horizonte onde as imagens no firmamento se misturavam, borravam-se como uma imensa pintura mal feita. Construções gigantescas, exóticas ou pequenas casas coloniais se misturavam, parecendo disputar o mesmo espaço físico.

Um solavanco mais forte, acabou levantando-a do chão e sentiu quando foi empurrada para trás por alguma criatura que apareceu e desapareceu do nada. Olhou para o céu, que antes estava negro e estrelado, agora se tornar vermelho em chamas e por vezes voltava a se tornar azul, e vermelho e negro. Uma loucura.

Balançou a cabeça assustada e perdida, sem saber exatamente onde estava e com quem estava. Levantou os olhos procurando de forma desesperada por Kazuo e sentiu o coração acelerar, vendo-o tão ou mais assustado do que ela ao olhar para o cenário ao redor deles que mais parecia um mosaico de peças desconexas.

Tentou se levantar e novamente sentiu ser atingida por alguma coisa que passou, empurrando-a e que depois desapareceu. ‘Escudo.’ Sussurrou, fazendo a bolha mágica proteger seu corpo e finalmente conseguindo se levantar e ir até o rapaz que estava atordoado, olhando para tudo. Envolveu-o na sua proteção mágica e segurou-o pelos ombros, tentando chamar a atenção dele.

‘Kazuo!’ Ela o chamou e o viu virar-se para ela devagar. Ele tentou ainda falar alguma coisa, mas estava perdido demais para achar as palavras para responder ao chamado dela.

Marie desceu os olhos pelo corpo dele e viu os dois grandes ferimentos um no ombro e outro no abdômen dele que estavam sangrando, mas ele parecia não se importar com eles.

‘Como você está?’ Ela perguntou para ele, sacudindo-o de leve para que retornasse daquele estado de choque. ‘Por Deus, Kazuo! Responde!’ Gritou.

O rapaz balançou a cabeça de leve e fechou os olhos com força, voltando a abri-los e encarou Marie. ‘I-isso tudo é loucura.’ Ele falou finalmente.

‘Isso é o Caos!’ Ela falou para ele. ‘Como você está?!’

‘Isso é loucura, Marie!’ Ele gritou de volta.

‘Isso não é loucura! Para! Fica frio!’ Ela gritou de volta e olhou para ele. ‘Como você está? Seus ferimentos?’

Ele levantou uma mão, tocando de leve no ferimento do ombro, mas sem virar-se para ele. ‘A-acho que estou bem.’

Marie franziu a testa observando. Estava feio, devia estar doendo bastante, mas o rapaz ainda parecia dopado com o que tinha ouvido. Desviou os olhos de Kazuo e olhou para Sakura que, envolta na sua poderosa magia, planava alguns metros acima deles, olhando para todo aquele caos com o rosto sério e indiferente ao que acontecia.

Era como se aquela situação fosse apenas a extensão do que ela sentia dentro do peito. Desceu os olhos para Shaolin que tinha solicitado à carta Escudo que protegesse a ele e ao pai. Reparou que a aura do garoto estava explodindo, assim como a de Sakura.

Franziu a testa, percebendo o que o primo fez, assim que ele percebeu que a mãe estava tomando o controle das cartas para aumentarem a confusão, expandiu seu poder para tentar combater a influência dela e fazer com que as cartas não se submetessem às solicitações de sua mestra naquela situação. A única sobre a qual ele não conseguiu manter o controle foi Espada que já estava sendo manipulada pela mãe.

Era perigoso ele usar aquela magia adquirida em tão pouco tempo de forma tão intensa. O corpo dele não aguentaria. Olhou para o tio que tentava achar alguma solução para a situação em que se encontravam. Precisavam parar Sakura. O Pilar finalmente tinha se corrompido totalmente.

Marie olhou novamente para Kazuo e pegou o rosto do rapaz entre as mãos. ‘Kazuo… Você tem que tentar pará-la. Você precisa tentar.’

‘Ela é minha mãe?’ Ele perguntou, ainda sem conseguir acreditar.

‘Sim! Ela é sua mãe!’ Marie gritou. ‘E ela enlouqueceu ao descobrir o que aconteceu!’ Falou apontando para Sakura. ‘Você precisa ir até ela.’

‘Ela… Ela não pode ser minha mãe.’ Ele ainda falou balançando a cabeça.

Marie olhou para ele séria. ‘O que está acontecendo com você? É tão ruim assim a ideia de ter uma humana como mãe? Tem tanto medo assim de realmente ser um meio-demônio?’

Ele olhou para Sakura e depois para Marie, segurou as mãos dela, abaixando-as, mas não as soltando. Pelo contrário, apertava-as mais forte entre as dele.

‘Não… É que parece bom demais para ser verdade. E na minha vida… Tudo sempre foi difícil demais para acreditar que ela é minha verdadeira mãe.’

‘E isso parece fácil para você?’ Marie perguntou voltando-se para Sakura. ‘Precisa impedi-la. Senão tudo… Tudo vai acabar.’ Ela falou e logo ouviram um forte estrondo e alguma coisa enorme bateu com tudo no escudo de Marie, fazendo os dois se assustarem.

Kazuo balançou a cabeça de leve e tentou fazer ela voltar ao lugar. Levantou o rosto e viu Sakura vários metros acima deles. Agora que tinha descoberto que ela era sua mãe de verdade, não a perderia. Virou-se para o irmão e para o pai que também pareciam não saber o que fazer.

‘O mundo das trevas está colidindo com os universos.’ Ele falou, apontando para o horizonte onde observava os demônios se aproximando e destruindo tudo.

Marie materializou a espada na mão direita e franziu a testa. Sentia sua magia aumentando assim como sentiu a magia de Kazuo e a de Syaoran aumentarem com a proximidade do mundo das trevas. ‘Precisamos de um plano.’ Ela falou.

‘Eu realmente não sei o que fazer.’ Ele foi sincero, apertando a empunhadura da arma mágica em sua mão enquanto estreitava os olhos nos demônios que se aproximavam. Todos provavelmente guiados pela energia de Sakura e tentando, através dela, entrar definitivamente nos universos acima do plano inferior.

Marie olhou para cima, franziu a testa quando um grande círculo se abriu e, assim como demônios se aproximavam daquele epicentro de magia, o exército de anjos também se aproximava.

‘O plano superior viu que deu merda agora.’ Ela sussurrou, observando os seres alados todos também com armas mágicas em punho. Olhou novamente para os demônios se aproximando. ‘Vai ser uma guerra. Precisamos pará-la.’ Falou novamente com a voz urgente.

Observou assustada que alguns anjos tentavam se aproximar de Sakura para atacá-la, mas eram repelidos sem maiores problemas pelo poder da feiticeira que, com leves gestos das mãos, fazia todos se afastarem dela.

Os demônios estavam mais próximos. Kazuo sentiu a adrenalina e a magia circular pelo seu corpo. Empunhou a espada a frente e olhou rapidamente para Marie. ‘Vamos ter que impedi-los até achar uma maneira de trazê-la de volta.’ A jovem concordou com a cabeça e também se preparou para o combate.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Shaolin olhou para o pai que estava ao seu lado. Ele tinha feito duas tentativas para se aproximar de Sakura, sem sucesso. A energia em torno dela estava muito alta.

O homem olhou para os demônios que se aproximavam e os anjos que haviam surgido sabe-se lá de onde. Pensou, de forma irônica, que agora eles resolveram se mexer, agora que a merda já estava feita. Reconheceu Gabriel a frente e pela primeira vez o viu realmente nervoso, para não dizer em pânico. A frente dele havia um outro ser alado com aparência mais velha e mais forte. Ele voou até Syaoran e plainou em frente ao escudo mágico.

Shaolin reconheceu Miguel, apertou mais forte a empunhadura da espada que havia recebido dele e abaixou o escudo permitindo que o anjo se aproximasse deles.

‘Você é a alma gêmea dela.’ Miguel falou sério, olhando para Syaoran. ‘Ela não está mais recebendo influência externa. Sua missão é tentar trazê-la à razão.’

‘Não consigo nem me aproximar dela. A energia é muito forte.’ Ele falou incomodado. O que mais queria era se aproximar da esposa.

O anjo olhou para Shaolin. ‘Não é mais hora de hesitação, Azrael. Deve voltar a sua origem agora.’

Syaoran franziu a testa e deu um passo a frente, encarando Miguel de frente. ‘Ele é meu filho.’

‘Apenas o invólucro humano.’ O anjo rebateu e desviou os olhos de Syaoran, fitando o garoto. ‘A ligação com o plano inferior está aberta assim como a com o plano superior. Você deve expandir sua magia para detê-los.’ Falou apontando para os demônios. Depois voltou-se para o garoto e fez um leve gesto em direção a arma que o menino tinha na mão direita. ‘Use-a com sabedoria.’ Repetiu antes de dar um passo para trás e encarar Syaoran pela última vez e bater suas asas, levantando voo e se juntando aos outros anjos que se preparavam para intervir caso fosse necessário.

Shaolin apertou mais forte a empunhadura da espada, fazendo-a tornar-se mais brilhante. ‘Ele tem razão.’ Sussurrou. ‘Não dá mais pra segurar.’ Falou, sentindo a energia explodir em torno do corpo, assustando o pai. ‘As cartas estão sob seu comando agora, tousan.’ Ele falou olhando para Syaoran. ‘Consegui anular a influência de kaasan. Precisa chegar até ela.’

‘Aonde você pensa que vai?’

‘Tentar detê-los.’ Falou, apontando para a legião de demônios. ‘No fundo… Este sempre foi o meu trabalho. Tousan… Não se preocupe comigo agora… Traga-a de volta.’ Shaolin falou encarando seriamente o pai, antes do escudo desaparecer e o garoto se afastar dele.

Syaoran trincou os dentes. Olhou para Marie e Kazuo que também tinham elevado o nível de magia. Precisava se aproximar da esposa, mas como? De que maneira? Inferno.

‘Cuidem-se.’ Syaoran sussurrou, finalmente correndo em direção a esposa. Tinha que tentar alguma coisa. Olhou para o lado, vendo as cartas que estavam em suas formas originais acompanhando-o. ‘Alada.’ Solicitou, sentindo o corpo ser levantado em direção a esposa e novamente sentiu a energia perigosa em torno de Sakura. ‘Escudo.’ Invocou a carta, vendo-a manifestar-se desta vez como um escudo prateado preso ao seu braço que mantinha a sua frente para bloquear as descargas elétricas nocivas que circulavam em torno de Sakura.

Estava quase se aproximando da esposa quando sentiu ser atingido por alguma energia que o fez gritar de dor e ser arremessado ao chão com força. Se não fosse Vento a amortecer sua queda, provavelmente teria os ossos quebrados. Levantou o rosto vendo o grande demônio alado a sua frente, sorrindo de forma histérica enquanto soltava energia pelas mãos para todos os lados e destruindo tudo.

Colocou o escudo a frente do corpo e sentiu o impacto do golpe mágico do demônio. Trincou os dentes, apertando mais forte a espada na mão direita. ‘Salto.’ Invocou a magia, flexionando os joelhos e pulando em direção ao inimigo que tentou acertá-lo com sua garras, mas bateu no escudo mágico de Syaoran. ‘Alada.’ Solicitou novamente, planando no ar a frente do monstro e levantou a espada, tentando golpeá-lo com fúria. Sentia que sua magia estava mais forte, assim como mais violenta devido a proximidade com o mundo das trevas.

Franziu a testa. Tinha que ficar esperto e controlar-se para não elevá-la demais, como quando lutara contra Shyrai, ou seu corpo não aguentaria. Tinha que tentar manter o controle. Seus olhos sem querer procuraram o caçula que estava agora lutando de forma mortal contra os demônios. Olhou para cima vendo a proximidade com o plano superior. Esperava que o filho entendesse que estava na mesma situação que ele. Depois daquela confusão toda, voltaria para casa com a esposa e seus dois filhos. Não queria e não se permitiria morrer.

‘Deus do relâmpago, vinde a mim!’ Solicitou a magia, acertando o demônio alado que urrou de dor e abriu a guarda possibilitando que ele conseguisse dar o golpe fatal que o transformou em pó.

Levantou o rosto e tentou novamente se aproximar da esposa. Tinha que fazê-la voltar à razão.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Kasumi estava assistindo aula na escola primária de Tomoeda. Franziu a testa, sentindo um mal estar, como se de alguma forma seu coração estivesse sendo esmagado. Levou uma das mãos ao peito e fechou os olhos.

‘Shaolin.’ O nome do menino saiu de seus lábios. Tinha certeza que estava acontecendo alguma coisa muito séria com o menino. Passou a mão no rosto e balançou a cabeça de leve.

Sentia alguma coisa estranha, como se as células do seu corpo estivesse vibrando e pulsando em sincronia com alguma outra coisa. Olhou para as mãos e as viu rodeadas com a aura púrpura forte e brilhante como nunca esteve antes.

Sentiu novamente o pulso forte de energia que parecia sincronizar com a sua própria energia. Tinha alguma coisa errada. Alguma coisa estava acontecendo.

‘Está tudo bem, Kurogane-chan?’ Ouviu a voz da professora que se aproximou da menina com o rosto preocupado.

‘Não me sinto bem, Hanaka-sensei.’ Ela respondeu com sinceridade.

A professora afastou a franja que cobria parte do rosto da menina e repousou a mão na testa dela. ‘Está febril.’ Ela comentou. ‘Melhor ir até a enfermaria.’ Recomendou. ‘Vou pedir para um colega levá-la até lá.’

‘Eu a levo.’ Um dos colegas se ofereceu levantando-se em seguida e parando ao lado da carteira da menina.

‘Obrigada, Shimizu-kun.’ A professora agradeceu, olhando o menino.

Kasumi levantou o rosto. ‘Não é preciso.’ Ela falou, levantando-se. ‘Prefiro ir sozinha.’

‘Eu vou com você, Kurogane-chan.’ Shimizu insistiu, olhando a garota.

Ela o fitou com o rosto sério. ‘Já falei que não há necessidade. Eu prefiro ir sozinha.’

A professora olhou o rosto decepcionado do menino e depois voltou a fitar Kasumi. ‘Você tem certeza? Shimizu-kun está sendo gentil em se oferecer para acompanhá-la até a enfermaria.’

‘Eu sei.’ Ela falou e fechou os olhos brevemente, voltando a fitar o menino e tentou sorrir de leve. ‘Obrigada, Shimizu-kun, mas prefiro ir sozinha. Não quero que se prejudique por minha causa.’ Falou e se levantou da carteira.

‘Não vai me prejudicar.’ Falou segurando o braço dela. ‘Vou levá-la em segurança para a enfermaria. Li-kun não está aqui.’ O garoto falou irritado. Encarou-a nos olhos. ‘Ele não está mais ao seu lado. Entenda isso!’

Kasumi franziu a testa, estava para retrucar e puxar o braço, mas sentiu novamente aquela maldita sensação estranha e desagradável, porém de certo modo familiar. Trincou os dentes e deixou ser guiada pelo colega para fora da sala de aula.

Sabia que todos os colegas estavam olhando para ela e sentia-se pior com isso.

Sentiu algo pulsar mais forte dentro dela e levantou o rosto vendo por cima do ombro de Shimizu as janelas da sala de aula. Arregalou os olhos de leve vendo o céu por alguns segundos vermelho, sentiu a garganta seca e logo observou através da janela a onda de choque que se aproximava da escola deslocando o ar com velocidade.

‘Abaixem-se.’ Ela gritou e mal teve tempo dos colegas entenderem o que estava acontecendo e sentiram o prédio da escola tremer de forma violenta.

As crianças gritaram e se abaixaram para se proteger embaixo das carteiras, em pânico. Os vidros das janelas estouraram, fazendo cacos de vidros espalharem. Sorte que eles eram próprios para aguentar aquele tipo de movimento e os cacos formados pela quebra deles tentava minimizar os riscos para os alunos. Porém, assustava mais as crianças.

Kasumi sentiu ser puxada para ficar abaixada no chão. Shimizu a puxou para ficar embaixo da mesa do professor que era o móvel mais próximo deles. Ela fechou os olhos ouvindo os gritos assustados dos colegas de classe. O chão tremia de forma constante e o prédio inteiro estalava informando que estava tentando conter os esforços extras. Sentiu que Shimizu tentava protegê-la, apesar de estar tão apavorado quanto o restante da turma. Respirou fundo, tinha que fazer alguma coisa. Pensou que seria uma ótima oportunidade para Miguel aparecer e lhe avisar o que estava acontecendo com Shaolin.

Afastou os braços do menino em volta de si e distanciou-se dele que a olhou interrogativo. Agachada, saiu debaixo da mesa do professor e levantou-se. Encostou-se na parede perto da porta da sala de aula e olhou para o corredor. Caminhou devagar tentando se apoiar nas paredes enquanto sentia o prédio tremer e ouvia os gritos e choro das crianças.

‘Kurogane-chan!’ Ouviu lhe chamarem e olhou para trás. Shimizu estava na porta olhando para ela assustado. ‘Para onde está indo?!’

‘Volte para a sala e se proteja!’ Ela ordenou e voltou a caminhar devagar pelo corredor. Ouviu novamente seu nome mas ignorou. Shimizu estava irritando-a profundamente por estar cercando-a nos últimos tempos, principalmente pela ausência de Shaolin.

Franziu a testa novamente, tinha alguma coisa estranha. Um terremoto com aquela força não estava previsto pelos especialistas. Era algo a mais e ela sabia que Shaolin estava envolvido nele. Na verdade, não só ele como a tia Sakura.

Respirou fundo e estreitou os olhos nas escadas, era melhor sair daquela escola e tentar entender o que estava acontecendo. Miguel tinha aparecido em seus sonhos esta noite e tinha a alertado que tudo estava para terminar e que era para ela aceitar o destino que Shaolin escolhesse.

Anjo idiota. Só aparecia para lhe falar mais merda e, como se ela fosse uma boba, e não soubesse que ele estava querendo preparar o terreno para que ela aceitasse caso Shaolin não voltasse. Depois os seres das trevas é que eram ardilosos?

Correu pelo corredor, e pulou as escadas com agilidade que sabia que tinha. Ouviu as lâmpadas que iluminavam a escola estourarem e tentou se esquivar dos cacos que pareciam uma chuva perigosa. Sentiu um solavanco mais forte e quase caiu de joelhos, mas tomou um impulso saltando o lance e rolando no chão para minimizar o impacto. As aulas de kung fu lhe eram muito úteis para saber como cair no chão de maneira a minimizar acidentes.

Sentia como se pulsos de energia ao longe estivessem em compasso com a magia que circulava pelo seu corpo mais forte com a proximidade com o Mundo das Trevas. Chegou ao pátio da escola e estreitou os olhos no horizonte vendo-o em chamas vermelhas.

‘Inferno...’ Ela sussurrou, sentindo o coração disparar ao reconhecer o lugar que Kazuo tantas vezes havia descrito para ela em suas conversas.

Correu em direção a saída da escola, estava preocupada com os pais. Sua mãe a esta hora estaria se locomovendo para casa, precisava encontrá-la. Seu pai estaria no escritório, o que seria um lugar mais seguro. Pulou com agilidade a grade da escola de Tomoeda e correu pelas ruas, vendo as pessoas em pânico na rua. Todas estavam desesperadas pelos tremores de terra inesperados pelos especialistas.

A escola de música ficava a dez quadras de casa. Sua mãe devia estar entre estas ruas. Correu mais rápido que conseguia, desviando-se das pessoas. Subiu em um dos carros parados ficando em pé no capô e olhando em volta tentando ver se encontrava a mãe de um lugar mais alto. Todos os carros estavam parados e ocorreram muitas batidas.

Ouviu um estrondo e olhou para o lado, um dos carros não conseguiu frear e bateu com tudo em outro capotando. Desceu do capô do carro e foi até o lugar do acidente. Estava sentindo cheiro de gasolina. Era melhor as pessoas se afastarem do local. Gritou, tentando alertá-las que logo se afastaram com medo de uma explosão.

Escutou um choro e abaixou o corpo olhando para o carro que estava com os pneus virados para cima.

‘Droga.’ Sussurrou, observando a criança que estava presa ao cinto de segurança chorando e de cabeça para baixo. Aproximou-se devagar e olhou para a mancha de combustível se espalhando pelo asfalto. Tinha que ser rápida.

Abaixou-se mais ainda e se arrastou em direção à criança que chorava. Estava com o rosto machucado e em pânico.

‘Shhhh….’ Ela falou tentando acalmá-la. ‘Vai ficar tudo bem.’

‘kaa-chan.’ A menininha falou e Kasumi olhou para onde o banco de motorista. A mulher estava desacordada. Tinha que tirar as duas logo dali.

‘Hei, garota!’ Ouviu uma voz masculina. ‘O que está fazendo aí?’

‘Tem uma criança machucada e uma mulher inconsciente no banco de motorista.’

‘O combustível está vazando.’

‘Eu sei! O cheiro está forte. Precisa me ajudar a tirá-las!’

‘Não tem como.’

Kasumi apertou a fivela do cinto de segurança liberando a criança que se apoiou no corpo da garota para não cair de cabeça no teto do veículo.

‘Vamos.’ Kasumi falou, puxando a criança e assim as duas saíram do carro.

‘Kaa-chan.’ A menininha falou novamente apontando para o carro.

‘Fique aqui. Vou tirar sua mãe.’ Ela falou decidida e já estava indo novamente até o veículo quando sentiu seu braço ser segurado. Virou-se para trás e viu o rosto de um senhor.

‘Está maluca! Isso vai explodir em breve.’

‘Então tenho que ser rápida.’ Ela falou. ‘Tem um canivete?’

Kasumi sabia que o certo seria esperar os bombeiros para retirar a mulher, mas sabia que o vazamento de combustível não daria tempo para a equipe chegar. Precisava improvisar.

‘E então?! Tem alguma coisa que corte?’ Ela insistiu na pergunta e o homem procurou nos bolsos. Informou com a cabeça que não tinha. Ela deu um suspiro incomodada. Afastou a mão do homem que segurava o seu braço e novamente se aproximou do veículo, sentiu um outro solavanco e quase caiu no chão como todas as pessoas que estavam no local.

Tinha que ser mais rápida. Abaixou-se e se arrastou, sentiu quando um caco de vidro machucou seu braço, mas não ligou. Arrastou-se e esticou o corpo até conseguir alcançar a fivela do cinto para soltá-la. Conseguiu alcançar depois de algumas tentativas e sentiu o corpo da mulher cair sobre o dela.

Saiu puxando o corpo da mulher. Sentia que tinha que sair dali o quanto antes, sabia quando o perigo estava iminente. Conseguiu se apoiar nos cotovelos e levantou a mulher que estava em suas costas, arrastando-se para fora do veículo.

‘Você é maluca mesmo, garota.’ Ouviu uma voz masculina e logo sentiu quando puxaram a mulher de cima dela, ajudando-a a retirá-la do carro.

Foi apenas dar alguns passos para trás assim que conseguiu erguer o corpo para finalmente o veículo explodir, fazendo as pessoas perto do local gritarem mais ainda.

Precisava encontrar sua mãe. Estava preocupada com ela. Olhou em volta, voltou a caminhar rápido pelas quadras que sabia serem o caminho que a mãe fazia da escola de música até sua casa. Passou a mão pelo braço e sentiu o sangue escorrendo por ele devido ao ferimento do caco de vidro do parabrisa do carro de onde havia retirado a mulher e a menina.

Novamente a terra tremeu. Terceiro tremor forte. Sabia que aquilo não era natural e começava a temer não só pela vida de Shaolin como a da mãe e a dela própria. Correção, temia pela vida de todos ao seu redor, pensou trincando os dentes vendo as pessoas desesperadas pelas ruas. Não sabia o que poderia fazer para ajudá-las.

Correu pelas ruas e viu um ônibus virado, com várias pessoas também feridas. Porém as pessoas começavam a se ajudar para protegerem-se do verdadeiro caos que se instaurava na cidade. No País. No mundo. Kasumi levantou os olhos novamente vendo o céu em chamas do mundo das trevas.

Subiu novamente num carro e pulou para alcançar a carroceria de um caminhão ficando agora no lugar mais alto possível. Estreitou os olhos na multidão. Deu uma volta em torno do corpo até que achou quem queria. Sorriu aliviada. Tomoyo estava com uma criança no colo que não conhecia tentando acalmá-la.

Desceu com agilidade e correu até a mãe. Queria abraçá-la e protegê-la de tudo. Assim que se aproximou, Tomoyo levantou o rosto e sorriu entre lágrimas. Levantou-se pedindo calma para a criança e abraçou sua princesa apertado. Não sabia como Kasumi tinha chegado até ela, mas isso não era para ser questionado agora. Queria apenas estar com sua menina nos braços.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Shaolin franziu a testa, olhou para seu lado onde Disparo, Bosque, Luta e outras estavam em suas formas originais. Todas prontas para lutar com ele contra o mundo das trevas. O restante das cartas tinha seguido com o pai para tentar chegar a mãe, conforme ele as tinha instruído.

‘Talvez precise manter sua aura expandida.’ Kagami falou ao lado de Shaolin com o rosto preocupado. ‘A influência da mestra ainda é muito forte.’

‘Eu consigo.’ O garoto falou. ‘Fiquem próximos a mim.’

‘Estaremos.’ Ela respondeu. ‘Mas preste atenção. Se ultrapassar seu limite…’

‘Eu já entendi, Kagami.’ Shaolin a cortou com o rosto sério. ‘Mas a prioridade agora é deter aqueles bichos feios e fazer kaasan voltar a razão.’

‘Se algo acontecer a você, ela nunca voltará a razão.’ Kagami respondeu com o mesmo tom sério do garoto. ‘Então… Fique esperto, pequeno.’ Ela ordenou.

‘Vou fazer o meu melhor.’

‘Vamos todos fazer o nosso melhor.’ Ela consertou, olhando para as cartas que acenaram para ela, informando que estavam prontas.

Os vários demônios se aproximaram tentando acertar todos. As cartas se afastaram apenas para que pudessem cada uma ter o espaço necessário para lutarem contra os inúmeros adversários. Lutavam de maneira sincronizada. Shaolin verificou que Sombra envolveu um deles, deixando-o desorientado e dando, assim, oportunidade para Flecha e Disparo acertá-lo, transformando-o em pó.

Trevas cumpria a mesma função, envolvendo-os para que Bosque os atacasse e, de forma mortal, estrangulasse-os, eliminando-os. Luz e Brilho aproximavam-se tentando desorientá-los enquanto Trovão pulava sobre as bestas, eletrocutando-as.

Ilusão e Sonho usavam seus poderes, fazendo com que os inimigos, desorientados e influenciados por falsas visões, atacassem uns aos outros, destruindo-se.

Luta e Tempestade lutavam de forma incessante, sem nem ao menos conseguirem brecha para relaxarem. Névoa escolhia suas vítimas, tentava atacá-las, mas nem todos eram passíveis de seu poder de destruição. Alguns demônios possuíam uma carapaça que os protegia da influência mortal dela. Água e Gelo trabalhavam em conjunto também, assim como Areia e Terra, agiam de forma violenta, golpeando os adversários tanto com suas magias como com golpes físicos. Fogo sobrevoava e atacava as criaturas menores e às quais sabia que seu poder seria destrutivo. As cartas se dividiram como um esquadrão de elite em posição de defesa e ataque à legião de inimigos que se aproximavam.

Shaolin sabia que não poderia se afastar delas fisicamente. Pediu para Voz mantê-lo atento a distância delas enquanto se aproximava dos inimigos, também golpeando-os. Sentia a magia pulsar pelo seu corpo sabendo que, quanto mais nervoso se encontrava, mais ela aumentava e circulava de forma violenta por ele. Apertou mais forte a empunhadura da espada que havia recebido de Miguel e sabia que contra seres como aqueles, ela era fatal. Correu em direção a um numeroso grupo com Voz ao seu lado, mantendo-o informado.

Flexionou os joelhos, saltando por cima de um demônio e erguendo a espada acima da cabeça. Assim que se aproximou do chão abaixou a espada num movimento rápido, fazendo a extensão do golpe ir muito além da lâmina e atingindo o inimigo de forma mortal. Sorriu de lado, tendo uma idéia ao se ver cercado por vários demônios que o atacavam, fazendo-o se esquivar e contra-atacá-los. Elevou seu nível de magia, novamente, fazendo a mandala evoluída surgir aos seus pés e cravou a espada no chão sabendo que o poder dela se estenderia de forma circular atingindo a todos como uma imensa onda de choque.

Ergueu o corpo e estreitou nos demônios que se levantavam devagar e atordoados. Que eles viessem todos ao mesmo tempo, pensou flexionando os joelhos e se posicionando novamente para o combate.

Estava golpeando alguns demônios quando se sentiu cambalear para trás.

‘O que foi, Shaolin?’ A Carta Voz perguntou próxima a ele.

Shaolin trincou os dentes e golpeou com fúria dois adversários que estavam tentando acertá-los.

‘As pessoas… Elas estão com medo dessa loucura.’ Ele falou, olhando os universos instáveis. ‘Kasumi…’ O nome da menina saiu de seus lábios e fechou os olhos sentindo a cabeça doer.

Kasumi poderia estar em perigo e ele não estava perto dela para protegê-la. Lembrou-se das palavras de Eje falando que outro estaria ao lado dela quando ele não existisse mais. Trincou os dentes.

‘Shaolin!’ Voz chamou sua atenção, fazendo o menino olhar para frente e girar o corpo desviando de um golpe certeiro de um demônio com pele acinzentada. Franziu a testa, irritado de preocupação com a namorada.

‘Merda.’ Soltou girando a espada na mão direita e pegando um talismã na esquerda. ‘Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido. Ataque relâmpago!’ Solicitou a magia e reparou que ela não só atingiu seu alvo principal, mas outros seres que estavam ao redor. Nunca tinha sentido tamanho poder circulando seu corpo.

Olhou para as mãos e as viu circuladas pela aura branca, porém intensa, forte. Levantou o rosto e avistou novamente Miguel circulado pela mesma aura, mas não tão forte quanto sabia que possuía naquele momento.

‘Kasumi.’ Novamente se viu falando o nome da menina. Tinha que fazer algo por ela. Sorriu de lado tendo uma ideia de como protegê-la a distância. Na verdade, proteger a todos que sentia através aquela energia de medo e pânico a distância. Olhou para trás e estreitou os olhos na figura do ancião com a ampulheta nas mãos. Concentrou sua magia para que a Carta se manifestasse apoiada em sua força.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Kazuo golpeou o imenso demônio a sua frente e olhou em volta. Alguma coisa tinha feito tudo parar de repente, fazendo apenas os seres das trevas se mexerem.

‘É o poder de Tempo.’ Marie o alertou, parando às costas do rapaz com a espada a frente depois de golpear mais um demônio.

‘Como assim?’

‘Tempo se manifestou parando momentaneamente a situação de Caos.’ Ela falou e olhou para Shaolin que lutava junto com as cartas de forma mortal contra um grupo de demônios. ‘Shaolin-kun está abusando da magia dele. Deve estar ou nervoso demais ou maluco se acha que vai conseguir aguentar usar tanta magia desta forma.’

Kazuo olhou para cima vendo o pai fazer uma nova tentativa para se aproximar da mãe enquanto também era atacado por alguns seres alados. Desviou os olhos para os anjos.

‘Aqueles idiotas vão ficar mesmo só olhando?’ Perguntou, trincando os dentes. ‘Inúteis!’ Desabafou com raiva ao mesmo tempo que golpeava um demônio que se aproximava dele com um chute alto, seguido de uma cotovelada voadora e finalmente cravando a espada nele, transformando-o em pó.

Marie olhou também incomodada para o exército de anjos. Levantou a mão a sua frente, solicitando com sua magia que dois inimigos que estavam tentando acertá-la fossem jogados para trás. Levou a mão a frente e puxou a flecha mágica, soltando-a em seguida e fazendo-a se multiplicar para acertar o maior número de inimigos possível.

Kazuo arregalou os olho vendo a figura de Aeon a sua frente com o rosto sério. A carta levantou uma das mãos para o lado e paralisou um inimigo que tentava atacá-lo. ‘Anjos só vão intervir se não conseguirmos controlar tudo.’ Ele explicou com o rosto sério, desviou os olhos do rapaz para sua mestra e voltou a fitar Kazuo. ‘Se eles intervirem, será para matar sua mãe, como alguns já tentaram.’ Disse apontando e alertando o rapaz as tentativas de alguns de se aproximarem de Sakura com espada em punho.

‘O quê?’ Kazuo perguntou arregalando os olhos.

‘Anjos só descem para planos inferiores em situações extremas.’ Aeon tentou explicar. Marie ouvia o que a carta falava enquanto tentava defender-se dos demônios que se aproximavam deles.

‘E isso…’ Kazuo falou, apontando para a loucura a frente deles. ‘Não é uma situação extrema?’

Ele balançou a cabeça de leve. ‘Eles acreditam que ainda podemos controlar…’ Aeon apontou para Shaolin que lutava de forma incessante contra os inimigos. ‘Eles acreditam que apenas Shaolin e nós conseguiremos controlar. Se intervirem… Será para matar a mestra.’

‘Não!’ Kazuo gritou com raiva. ‘Não!!! Isso não!’

‘Vento!’ Marie invocou a magia girando o corpo e fazendo o grande número de demônios que tentavam atacá-los por todos os lados serem jogados longe. Ela encarou Aeon. ‘Eles acreditam mesmo que apenas Shaolin-kun e a gente vai conseguir controlar essa loucura? Eles são o quê? Idiotas?!’

‘Ah! Isso eu nunca tive dúvidas!’ Kazuo falou irritado.

‘Disparo!’ Marie solicitou que os projéteis mágicos atacassem. Arregalou os olhos vendo as energias de alguns serem enviados na direção deles. ‘Aro!’ O loop mágico fez com que o ataque mortal retornasse para os que o enviaram, atingindo-os pelas costas e transformando-os em pó.

Aeon desviou os olhos do casal e encarou com rosto amargo para Miguel, como soubesse que estava sendo observado abaixou os olhos encarando o ex-companheiro. ‘Anjos que intervém nos planos inferiores acabam por tornar-se mortais e caso sejam atingidos deixam de existir como os demônios. São os dois extremos. Por isso o receio.’

‘Covardes…’ Kazuo falou entre os dentes, apertando a empunhadura da sua espada e dando uma passo a frente cortando um demônio que avançava como louco na direção deles e teve como destino virar uma nuvem de pó negro.

Aeon soltou um suspiro e desviou os olhos de Miguel para Shaolin que lutava. ‘Os que possuem coragem para intervirem nos planos inferiores e saírem da estagnação são considerados pejorativamente de anjos caídos.’ Ele sorriu de lado. ‘Na verdade, são os anjos que possuem o que os outros não tem: Coragem.’

Marie olhou para Aeon. ‘Então não dá para contar com estes idiotas. Está na hora da gente tentar alguma coisa mais eficaz do que ficar combatendo esses demônios. Logo outros mais poderosos aparecerão, complicando a situação.’

Aeon novamente paralisou um demônio que logo foi atingido pela espada de Kazuo. ‘Shaolin por mais forte que esteja não aguentará por muito tempo. Lutar contra a energia direta de um Pilar que é parte do Grande Espírito é considerado loucura.’

Kazuo desviou os olhos da namorada e fitou o irmão. Franziu a testa. Shaolin realmente estava abusando do poder, levantou o rosto e fitou Sakura. Os dois pareciam estar em uma luta velada de magia. Ao mesmo tempo que a magia corrompida de Sakura expandia, Shaolin tentava reter a influência dela. Respirou mais fundo, soltando o ar devagar. Só tinha uma pessoa capaz de trazer Sakura a razão. Desviou os olhos do irmão e fitou o pai que lutava contra os seres alados, enquanto tentava se aproximar da esposa.

‘Ela está envolvida com energia similar a do Mundo das Trevas.’ Aeon observou fazendo Marie observar a mesma coisa.

‘E o que podemos fazer?’ Kazuo perguntou irritado. Estava tão irritado que sentia cada célula do seu corpo vibrar e a magia circular de forma rápida e mais forte pelo seu corpo. Acertou mais dois demônios pequenos e extremamente irritantes.

Aeon fitou o rapaz. ‘Se seu pai se aproximar mais, ele morre. O corpo humano dele não vai aguentar.’

Marie engoliu em seco sabendo que a carta estava correta. ‘Ele tem razão.’

‘Inferno.’ Kazuo falou entre os dentes. Apertou mais forte a empunhadura da espada. Observou o irmão ser circulado por um número enorme de demônios. ‘Eles não vão acabar com a minha família.’ Disse entre os dentes e avançou em direção ao irmão para ajudá-lo.

Marie arregalou os olhos de leve, observando o rapaz se afastando e foi atrás dele, abrindo espaço naquele grupo imenso de inimigos que tentavam se aproximar do epicentro de poder criado por Sakura e atravessar definitivamente para os planos acima do mundo das trevas.

Os anjos se mantinham em guarda para intervirem em último caso. Aeon paralisou mais dois outros inimigos que forma logo atingidos por Disparo e Bosque ao mesmo tempo tornando-se nuvens de pó.

‘Estagnados pelo orgulho e…’ Murmurrou, estreitando os olhos no grupo de seres alados. Sorriu de lado e de forma irônica. ‘...Medo.’

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Gabriel engoliu em seco e trincou os dentes vendo o grupo de feiticeiros lutando daquela forma. Balançou a cabeça de leve e tomou coragem. Aproximou-se de Miguel. ‘Eu vou ajudá-lo. Não dá para ficar só assistindo.’

Miguel encarava Aeon, voltou-se para o anjo com o semblante sério. ‘Não confia no seu irmão?’

‘Ele está num corpo humano. Não há como ele sozinho, com ajuda dos outros, enfrentar tudo isso.’

‘O corpo humano é só um invólucro. Logo não estará mais preso a ele e retornará a nós.’

‘E se ele não quiser?’ Gabriel rebateu. ‘Você sabe muito bem o porquê Azrael resolveu cair! Acha que ele aceitará deixá-la e viver da mesma forma que fez por quase cem anos, sendo apenas um fantasma na vida dela?’

Miguel franziu a testa. ‘Ninguém aceitaria permanecer num plano inferior. É ilógico.’

Gabriel cerrou os punhos. ‘Senhor! Você e eu sabemos que é a segunda vez que Azrael cai!’ Falou tentando controlar a voz em respeito ao seu superior, mas mal conseguia controlar a raiva. ‘E também temos certeza que ele, se tiver como decidir, ficará no plano em que está. Ele ama aquela humana! Se ele retornar sem viver o que sempre desejou com ela, vai procurar novamente cair e cair e cair…’ O anjo falou entre os dentes, encarando pela primeira vez com o olhar de censura ao seu supervisor. ‘E nós sabemos que ele tem poder suficiente para isso. Se cair novamente até o plano inferior, teremos possivelmente um problema tão grande quanto este que estamos enfrentando agora. Ele não é como Lyra ou os outros que caíram e chegaram ao Mundo das Trevas! Ele atravessou o ciclo duas vezes e atravessará pela terceira… quarta… quinta! Quantas vezes ele achar que deve.’ Miguel franziu a testa encarando Gabriel que não se intimidou desta vez. ‘No fundo, o que o senhor fala que é inconsequência e levianagem por conta do desejo dele pela a humana…’ Gabriel engoliu em seco. ‘Que seja, faz dele o único de nós que nunca temeu se colocar em risco nos planos inferiores… Ele é o único que nunca demonstrou medo. Medo que está na cara que tanto eu quanto o senhor temos.’

Miguel olhou atravessado para o arcanjo. ‘Está faltando ao respeito com seu supervisor.’

‘Estou falando o que vejo e o que para mim, é a verdade.’

O Arcanjo desviou os olhos de Gabriel, observou Aeon que lutava ao lado dos outros demônios aprisionados e depois fitou o garoto. Não gostaria de perder novamente um dos meus melhores soldados para os humanos e principalmente para o plano inferior novamente. Sabia do risco, mas pensou que, com a perda de memória e, sabendo que eles conviveriam desde o nascimento, eles concluiriam que o amor que achavam que tinham um pelo outro fosse fraternal ou coisa parecida.

Verdade que tentou manipulá-los, mas estava com aquela história incomodando-o desde o início dos tempos. Não contava que os sentimentos dos dois já tivesse amadurecido o suficiente para entenderem o que sentiam um pelo outro. Ele calculou errado.

‘Não está dando a chance dele optar desta maneira.’ Gabriel chamou sua atenção novamente.

‘Quem deve decidir isso é o Pai Maior. Sei o meu lugar.’

‘Então deixe que Azrael tenha pelo menos a opção de escolher.’ Gabriel falou mais alto do que deveria e se calou, desviando os olhos de Miguel. Ainda tinha mais um detalhe que parecia que seu líder não havia considerado. ‘Além disso, senhor, se a humana mudar novamente sua natureza como sabemos que ela é capaz e for para o Mundo das Trevas, as chances dela dominar aquele lugar são muito maiores agora que o senhor decidiu fazer dela uma guardiã… para puní-la, não?’

‘Não!’ Ele respondeu com a voz irritada. ‘Nunca foi para puni-la, mas sei o quanto o espírito dela é forte! Naquele universo primitivo, não tinha muitas opções.’

‘Se ela for para lá, agora muito mais preparada do que da primeira vez e se Azrael resolver cair para viver em pecado com ela lá… será que conseguirá chantageá-los como fez da primeira vez?’

‘Não foi chantagem! Foi um acordo!’

‘Acordo?’ Gabriel repetiu com ironia e viu pela primeira vez Miguel claramente desconfortável. ‘Acha que eles vão querer entrar em “acordo” novamente ou vão preferir lutar como Azrael está fazendo agora e como eu e senhor sabemos que a humana é capaz.’

Miguel soltou um suspiro incomodado, estreitou novamente os olhos no garoto. Merda! Odiava admitir mas Gabriel tinha razão. Era um risco alto demais. Já havia manipulado demais aquelas duas almas por conta do seu medo. Passou a mão no rosto, não gostaria que ela voltasse a viver no inferno ou ter uma vida com tantos sofrimentos como ele a fez passar. Não entendia o porquê Dele ter criado os humanos tão frágeis e entendia menos ainda em constatar que de todas as almas que conhecia nunca tinha se deparado com uma tão forte. Irritava-o admitir que a considerava demais. Admirava-a demais. Se importava verdadeiramente com ela.

Olhou para trás onde outros anjos aguardavam o seu comando.

‘Vão.’ Ordenou. ‘Ficarei aqui. Caso o guardião não consiga equilibrar novamente o pilar, eu agirei.’

Gabriel sorriu de leve e, junto com os outros, desceram de forma rápida assustando Marie e Kazuo que, por um instante, pensaram que atacariam Sakura, mas viram-nos passar por ela e finalmente investirem contras os demônios.

Aeon levantou novamente o rosto encarando Miguel. Acenou de leve com a cabeça. Realmente tinha se surpreendido com o ex Superior. Não imaginava que Miguel tomaria aquele tipo de decisão.

Miguel estreitou os olhos em Aeon e segurou a empunhadura da espada com força. Respirou fundo e não gostou da expressão satisfeita do ex-companheiro. Ainda estava com ele entalado na garganta pelo desaforo que havia lhe falado no último encontro. Aeon não tinha ideia do que o ligava aquela ex-guardiã das trevas. E nunca também saberia, não valia a pena se justificar para um ser que caiu e não conseguiu se levantar. Desviou os olhos de Aeon e observou seu exército lutando contra os seres do Mundo das Trevas.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Gabriel parou perto de Shaolin que olhou para ele espantado por finalmente ver o anjo fazer algo além de lhe dar ordens e instruções.

‘Precisa ajudar o guardião a chegar perto do pilar. Ele é o único poderá equilibrá-lo! Deixe que eu e os outros controlaremos a situação com os demônios.’

‘Tousan está tentando se aproximar dela.’ O garoto falou, com a respiração ofegante.

‘No corpo em que está, não conseguirá. Sua mãe está envolvida em energia negativa altíssima similar a das trevas. Se ele conseguir se aproximar dela, não aguentará.’

‘O quê?’ Shaolin soltou assustado.

‘Você precisa achar uma solução.’ Gabriel falou enquanto golpeava um demônio, transformando-o em pó. Virou-se para Shaolin com o rosto sério. ‘Você sempre foi bom de improviso. Pense! Se não deter o Pilar, você sabe muito bem o que Miguel terá que fazer!’

Shaolin olhou para o Arcanjo que estava planando no ar, batendo suas grandiosas asas e olhando para eles. Os demônios alados nem se atreviam a se aproximar, pois sabiam que o destino deles seria sucumbir pela espada dele.

O menino balançou a cabeça de leve, tinha que permanecer com sua aura expandida para manter o poder de Tempo ativo e tentar minimizar aquela loucura para todas as outras pessoas não dotadas de magia.

Viu quando Kazuo e Marie se aproximaram dele. Inclinou a cabeça de leve cravando os olhos no irmão, enquanto um plano se traçava na sua mente. ‘Você é um demônio.’ Ele falou. ‘Meio-demônio.’ Consertou rapidamente.

‘Isso você já sabe, pirralho. Não é novidade.’ Kazuo retrucou o irmão, nervoso. ‘Diminua sua magia. Seu corpo não vai aguentar.’

‘Não posso.’ Ele rebateu e olhou para o pai. Abriu um sorriso presunçoso. ‘Eu tenho uma ideia.’

‘Ótimo.’ Gabriel falou olhando para ele. ‘Coloque em ação o quanto antes. Realmente não espero reencontrá-lo no plano superior, Azrael. Apenas se for por opção sua.’ Disse sorrindo de leve para o garoto que arregalou os olhos.

Shaolin viu Gabriel afastando se para se juntar com os outros anjos, que ao lado das Cartas continuaram a combater os adversário.

‘Humph.’ Kazuo resmungou observando Gabriel. ‘Resolveram fazer algo pelo menos.’

‘Você conseguiria se aproximar dela. Seu corpo aguenta a atmosfera criada em torno do corpo dela.’ Shaolin falou, olhando para o irmão.

‘Do que está falando, Shaolin?’ Kazuo perguntou atordoado.

Marie olhou para o primo e sorriu de leve. ‘Troca.’ Ela falou e ele concordou com a cabeça. ‘Acha que aguenta mantê-la ativada por tanto tempo?’ Perguntou, olhando para o primo.

‘Consigo.’ Ele falou, olhando para o pai e depois para o irmão. ‘Você concorda?’

‘Não deveria nem perguntar.’ Kazuo rebateu.

‘Certo.’ Shaolin falou, elevando sua magia novamente e fazendo a prima franzir a testa.

O garoto olhou para o pai e depois para o irmão que acenou com a cabeça. ‘Troca.’ Invocou a magia que circulou o corpo do pai, assustando-o e depois o do irmão.

Kazuo fechou os olhos e quando os abriu estava perto de Sakura sentindo o ar escasso no ambiente criado pela magia dela, olhou para as próprias mãos, vendo-se no corpo do pai.

‘Movimento.’ Ouviu a voz do irmão e se viu envolvido por uma luz pulsante, que o obrigou a fechar os olhos. Quando os abriu novamente, estava a frente do irmão que caiu de joelhos pelo esgotamento físico exigido pela magia que expandia de forma perigosa.

Syaoran olhou para suas mãos e se viu a frente. Entendeu o que os filhos fizeram e sorriu de leve. Estava no corpo de Kazuo. Viu o filho mais velho, que agora estava no seu corpo, aproximar-se dele e apontar para Sakura. ‘Traga ela de volta.’ Ele pediu.

Ele concordou com a cabeça e olhou para o caçula que se levantou, com a respiração ofegante. Shaolin sorriu de leve e fez um gesto com a cabeça informando que confiava no pai. Os dois estavam contando com ele.

Syaoran franziu a testa e voltou a fitar Kazuo. ‘Prefiro minha espada.’ Ele falou, fazendo o rapaz jogá-la para ele assim como ele repassou a que tinha nas mãos para o rapaz. Levou uma das mãos até o ferimento do ombro. ‘Humph… tinha me esquecido como essa merda arde.’ Falou, balançando a cabeça de leve. Olhou de volta para Kazuo e depois para Shaolin. ‘Fica de olho no seu irmão.’ Pediu e viu que Kazuo assentiu informando que ele não se preocupasse com Shaolin. Protegeria o irmão.

Syaoran desviou os olhos dos filhos, levantando o rosto para fitar a esposa. Sabia que traria ela de volta. Precisava trazê-la de volta… Por ele… Pelos filhos.

‘Alada.’ Syaoran invocou a magia da carta que se manifestou em suas costas em forma de asas negras, flexionou os joelhos para pegar impulso e levantar voo em direção a esposa. Agora chegaria até ela de qualquer maneira.

Kazuo observou o pai levantando voo e balançou a cabeça de leve. ‘Detesto esse negócio de asas.’ Comentou, fazendo Marie sorrir de leve. ‘Mas é bem maneiro, né?’

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Syaoran desviou de um demônio alado que tentou golpeá-lo. Apertou a espada na mão direita. Levou a mão esquerda até o ferimento profundo que tinha no ombro. Aquilo realmente ardia demais. Tinha esquecido deste efeito colateral do poder de cicatrização. Desviou novamente do ataque da fera alada, não queria perder tempo, sabia que Shaolin não conseguiria manter Troca ativada por muito tempo. Precisava aproveitar que estava no corpo de Kazuo para se aproximar o suficiente de Sakura.

Arregalou os olhos de leve, quase sendo atingido quando outro ser alado parou a sua frente, golpeando o inimigo. Gabriel virou-se para ele rapidamente. ‘Vá logo.’ Recomendou, afastando-se novamente para impedir o ataque de outro inimigo.

Syaoran levantou o rosto e bateu as asas de forma frenética em direção a esposa. Sentiu quando entrou no campo de ação da magia da esposa e diferente da outra vez, não sentiu o ar tão nocivo e pesado. Apesar de parecer estar entrando numa atmosfera que reduzia a velocidade de seus movimentos, sentia-se como se estivesse voando em câmera lenta.

Sakura desviou os olhos da imensa guerra sendo travada abaixo de si e ao seu lado no ar e fitou o rapaz se aproximando.

Syaoran sentiu o peito novamente fisgar de dor ao ver os olhos brilhantes da esposa com as lágrimas presas.

‘Sou eu, Sakura. Syaoran.’ Ele falou, fazendo-a franzir a testa de leve.

Ele estendeu a mão para ela. ‘Vim ajudá-la a sair deste pesadelo, minha flor.’ Falou com voz suave.

Sakura fechou os olhos, fazendo as lágrimas saírem finalmente de seus olhos. Estendeu a mão à frente, tocando de leve a de Syaoran. Logo ele foi envolvido pela magia brilhante intensa dela, fazendo-o fechar os olhos enquanto sentia-se envolvido em toda aquela dor e culpa que a esposa sentia.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Syaoran abriu os olhos e se viu no lugar onde havia encontrado a esposa anos atrás quando morreu pela primeira vez. Demorou um tempo até reconhecer o lugar que antes era claro e com perfume de cerejeiras. Agora tudo era escuro. As cerejeiras, cujas flores antes voavam pelos ares com o soprar suave do vento, estavam secas. O solo onde havia gramado verde, agora estava cinza parecendo coberto com fuligem.

Caminhou devagar olhando para os lados e sentindo o cheiro de madeira queimada, provavelmente das cerejeiras secas… na verdade, torradas.

‘Sakura!’ Ele gritou pela esposa, sentindo-se desesperado por não encontrá-la. Não conseguia sentir a presença dela, corrigindo, sentia a presença dela em toda parte. Uma imensa dor e agonia. ‘Sakura!’ chamou-a novamente e pedindo a Deus ou a qualquer entidade superior que o guiasse até a esposa.

Franziu a testa vendo uma pequena pétala de cerejeira rosa voar a sua frente, destoando completamente daquele cenário de destruição onde estava. Caminhou devagar atrás da pequena flor que planava no ar devagar, como se estivesse dançando.

Sentiu como se tivesse levado uma estocada no peito, obrigando-o a levar uma das mãos até ele quando finalmente avistou o corpo da esposa sentada no chão, com as pernas flexionadas e a cabeça apoiado nos joelhos. Estava encolhida.

Been torn apart

(Fui dilacerada)

Got so many scratches and scars

(Tenho tantos arranhões e cicatrizes)

Maybe they won't all go away

(Talvez nem todos desapareçam)

But they'll fade

(Mas eles atenuarão)

Maybe time can mend us together again

(Talvez o tempo possa nos remendar novamente)

It's not what we've done but how far we've come

(Não é o que fizemos, mas quão longe chegamos)

Aproximou-se devagar dela e se ajoelhou na frente do pequeno corpo da esposa. ‘Sakura.’ Chamou-a com a voz suave, estendendo a mão e tocando de leve a cabeça dela que estava abaixada.

Sakura levantou a cabeça, fitando o esposo e Syaoran viu o rosto transtornado da esposa. Aproximou-se dela, segurando o rosto amado entre as mãos e secando as lágrimas que não paravam de sair dos olhos vermelhos da amada esposa.

‘Por Deus, Sakura. Não se sinta tão culpada.’ Ele falou.

Ela mordeu os lábios que tremiam e balançou a cabeça de leve. ‘Eu-eu deveria saber, Syaoran. Ele estava dentro de mim… eu deveria saber.’

‘Não tinha como você saber, minha flor.’

We will recover

(Nos recuperaremos)

The worst is over now

(O pior já passou agora)

All those fires we've been walking through

(Todos os incêndios que atravessamos)

And still we survived somehow

(E ainda sobrevivemos, de alguma forma)

Ela tirou as mãos de Syaoran do rosto e balançou a cabeça de leve. ‘Eu deveria ter sido capaz de protegê-lo. Eu devia tê-lo protegido. Ele deve me odiar por não ter percebido.’

‘Claro que ele não a odeia, Sakura.’

‘Como?! Diga-me como uma mãe não consegue perceber que tem um filho dentro dela e o expõe daquela forma? Ele foi arrancado de mim e eu não fui nem capaz de entender o que tinha acontecido!!!’ Ela gritou para Syaoran, obrigando-o a segurar os ombros dela e fitá-la de perto.

We will recover

(Nos recuperaremos)

The worst is behind and it hurts, but in time

(O pior ficou para trás e dói, mas com o tempo)

I know that we will recover

(Eu sei que nos recuperaremos)

‘Se você não tivesse ido atrás de mim, Sakura… Eu estaria morto! Entendeu? Morto! Se não fosse você estar ao meu lado naquele inferno, eu não teria saído nunca de lá!

‘Mas era minha obrigação saber… Pelo menos, saber que ele existia…’ Ela falou, escondendo o rosto com as mãos. ‘Ele sofreu tanto nas mãos dela… Syaoran… Ele sofreu tanto e eu não sabia nem que ele existia. Que tipo de mãe eu sou?’

‘Eu também não sabia, Sakura. Que tipo de pai você acha que eu sou?’

‘É diferente…’

‘Por quê?’ Syaoran rebateu. ‘Minha obrigação era protegê-la naquele inferno e eu a deixei sozinha, sabendo que estava fraca. Sou tão culpado quanto você, Sakura.’

Got so much to lose

(Tenho tanto a perder)

Seems I've lost my power to choose

(Parece que perdi o poder de escolher)

What to love and when to let go

(O que amar e quando abrir mão)

That all changed

(Isso tudo mudou)

Get bitten once and then you're afraid

(Apaixone-se uma vez para saber o que é medo)

What a waste

(Que desperdício)

Look what we've done

(Olhe o que fizemos)

How far we've come

(Quão longe nós chegamos)

Ela balançou a cabeça, ainda sem conseguir acreditar no pesadelo que estava vivendo. ‘Ele… Kazuo… Ele deve me odiar… Por que eu não percebi? Como aquela cobra tirou o meu filho de mim… de dentro de mim…’ Ela abraçou-se, cobrindo o próprio ventre com as mãos. ‘E eu não percebi… Eu não entendi o que ela fez!’

Syaoran engoliu a seco. ‘Não tinha como você saber, meu amor… Khala’a… ela…’ Ele soltou um suspiro doloroso.

‘Ela não tinha o direito de usar magia em mim! Não podia ter feito aquilo!’

Syaoran observou o rosto sofrido da esposa. Vendo-a daquela forma, não podia culpar Khala’a pela decisão que fez. Provavelmente faria o mesmo para não ver aquele sofrimento enorme pelos olhos glaucos que tanto amava.

‘Ela fez porque amava você.’ Respondeu de forma firme. ‘Eu deveria ter percebido. Eu deveria ter entendido porque daquela dor enorme que você sentia. Eu deveria ter sido mais atento, em vez de me cegar por desespero e tirar conclusões precipitadas acreditando que o que sentia era alguma questão sobre a conexão de vocês duas. Eu… Sakura… Eu que no final fui culpado de tudo.’

‘Para! Para de se culpar desta forma!’ Ela gritou, balançando a cabeça.

‘Mas se quer culpar alguém além daquela cretina da Midoriko, Sakura, culpe a mim… mas não se culpe.’

‘Ele estava dentro de mim!’ Ela gritou novamente. ‘Ele é meu filho!’

‘Não tinha como você saber!!!’

‘E como Khala’a sabia?’

‘Porque ela era um demônio!’ Ele falou. ‘Sakura… Não tinha como você saber… E mesmo que soubesse, mesmo que tivesse conhecimento… Você não poderia ter feito nada…’

‘Eu não teria permitido que Midoriko…’

‘Você estava fraca!’ Ele a interrompeu. ‘Eu nunca deveria ter deixado você sozinha. Nunca! Eu nunca deveria ter deixado você ficar no Mundo das Trevas. Devia tê-la obrigado a atravessar uma daquelas malditas brechas e…’

‘Eu não iria…’ Ela falou.

‘Então vamos parar de tentar achar culpados…’ Ele pediu com a voz suave.

We will recover

(Nos recuperaremos)

The worst is over now

(O pior já passou agora)

‘Não dá para mudar o que passou. Não dá mais para voltarmos no tempo.’

‘Kazuo me odeia, Syaoran.’

‘Ele é louco por você, Sakura.’ Ele rebateu. ‘Ele a está esperando para ser a mãe dele. Nossos dois filhos estão lutando de forma desesperada para trazer a mãe deles de volta, Sakura.’

‘Eu não sei se vou conseguir, Syaoran… Eu não sei se vou conseguir encará-lo novamente.’

All those fires we've been walking through

(Todos os incêndios que atravessamos)

And still we survived somehow

(E ainda sobrevivemos, de alguma forma)

We will recover

(Nos recuperaremos)

The worst is behind and it hurts, but in time

(O pior ficou para trás e dói, mas com o tempo)

I know that we will recover

(Eu sei que nos recuperaremos)

Syaoran se aproximou mais dela e a abraçou com carinho. ‘Nós dois vamos. Nós dois vamos dar a ele tudo que não pudemos dar antes. Todo o carinho e atenção que não pudemos dar. Ele merece, Sakura…’ Ele se afastou da esposa e a fitou nos olhos. ‘Ele é um bom menino, não é?’

Ela concordou com a cabeça. ‘É um bom menino.’

‘Você sempre soube disso.’ Ele falou, levantando-se e a puxando junto. ‘Aquele bom menino está esperando pela mãe dele.’

Ela sorriu de forma fraca. ‘Você… Você acha que ele… Ele vai acreditar que eu não sabia?’

‘Ele tem certeza que você não sabia.’

Ela franziu a testa de leve e ele sorriu de forma suave.

‘Ele tem certeza que, se você soubesse, teria ido atrás dele por todo o inferno. Nós dois estaríamos atrás dele por todo o mundo das trevas. Até trazê-lo para casa.’

Ela concordou com a cabeça ainda com lágrimas nos olhos. ‘Não podemos perdê-lo… Não podemos perder nenhum dos dois.’

‘Isso… Precisamos ir… Shaolin está no limite dele.’

Ela arregalou os olhos. ‘Shaolin… A Magia..’

‘Vamos agora, Sakura. Ele está no limite. Vamos levar nossos dois filhos para nossa casa. Para voltarmos a ser uma família…’

‘Vamos.’ Ela concordou mais uma vez, acenando com a cabeça. ‘Vamos levá-los para casa.’

Everybody's got their own reason to cry

(Todos têm suas razões para chorar)

Everybody fights but not everyone survives

(Todos lutam, mas nem todos sobrevivem)

Everybody searches, not everybody finds

(Todos procuram, nem todos encontram)

And I'm still in recovery, help me make it out alive

(E ainda estou me recuperando, ajude-me a sobreviver)

Syaoran sorriu de leve e a abraçou com carinho. Sakura enlaçou a cintura do marido e repousou a cabeça no peito dele, fechando os olhos e sentindo novamente a aura de Syaoran envolvê-la, misturando-se a dela. Ele passou a mão pelos cabelos dela e beijou a cabeça da esposa.

‘Tudo vai terminar bem, minha flor. Tudo vai terminar bem.’

Ela concordou com a cabeça ainda encostada ao peito do esposo.

Syaoran abriu os olhos e olhou para a paisagem, vendo-a aos poucos ganhando cor novamente. Sorriu. Estava levando a mãe de seus filhos de volta para eles.

We will recover

(Nos recuperaremos)

The worst is over now

(O pior já passou agora)

All those fires we've been walking through

(Todos os incêndios que atravessamos)

And still we survived somehow

(E ainda sobrevivemos, de alguma forma)

We will recover

(Nos recuperaremos)

The worst is behind and it hurts, but in time

(O pior ficou para trás e dói, mas com o tempo)

I know that we will recover

(Eu sei que nos recuperaremos)

Continua.

Notas finais
Música do capítulo: Recover (Recuperar) - Natasha Bedingfield